Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas As 12 Finalistas do Prêmio Chopin Tavares de Lima – Novas Práticas Municipais Governo do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin Secretaria de Economia e Planejamento Andrea Sandro Calabi Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Silvio França Torres Chefia de Gabinete José Alexandre Pereira de Araújo - 11 3811-0303/0330 - [email protected] Procuradoria Jurídica Guilherme Luiz da Silva Tambellini - 11 3811-0306/0307 - [email protected] Coordenadoria de Administração e Finanças Mário do Amaral Alves - 11 3811-0439 - [email protected] Coordenadoria da Escola Cepam de Gestão Municipal Armando José Bellinatti - 11 3811-0308 - [email protected] Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas Áquilas Nogueira Mendes - 11 3811-0316 - [email protected] Coordenadoria de Relações Institucionais Carlos Roberto de Abreu Sodré - 11 3811-0427/0437 - [email protected] Coordenadoria de Assistência Jurídica Vera Lucia de Oliveira Alcoba - 11 3811-0314/0315 - [email protected] Coordenadoria de Planejamento e Urbanismo Aguinaldo Catanoce/Maria Niedja Leite de Oliveira - 11 3811-0310/0311 - [email protected] Assessoria de Imprensa Uirá Lopes Fernandes/Rita Bonizzi/Silvia Melo - 11 3811-0329/0323 - Fax 11 3031-8377 - [email protected] Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas - Cogepp Coordenação Áquilas Mendes Equipe Técnica Elisabete Darci Ferreira, Lia Cruz Moura, Maria do Carmo M. T. Cruz e Silvia R. da Costa Salgado Apoio Administrativo Marli Aguiar e Valdete Ferreira Braga Assessoria de Comunicação Editoração de Texto Eva Celia Barbosa Comunicação Visual Jorge Henrique R. Monge Tiragem 2.500 exemplares MUNICÍPIOS PAULISTAS EM BUSCA DE NOVAS PRÁTICAS As 12 Finalistas do Prêmio Chopin Tavares de Lima – Novas Práticas Municipais Elisabete Darci Ferreira Lia Cruz Moura Maria do Carmo M. T. Cruz Silvia R. da Costa Salgado Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas – Cogepp São Paulo, 2005 © Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal ELISABETE DARCI FERREIRA é filósofa pela Universidade de São Paulo – USP; mestre em educação pela Uninove, professora da Universidade Bandeirantes e da Faculdade Taboão da Serra; especialista em planejamento participativo e desenvolvimento sustentável; técnica da Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas, da Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. LIA CRUZ MOURA é economista e mestranda em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP; técnica da Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas, da Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. MARIA DO CARMO M. T. CRUZ é administradora pública e mestre em administração e planejamento pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo – Fundação Getúlio Vargas – EAESP- FGV; especialista em políticas sociais; professora do curso de pós-graduação Formação de Gestores Municipais de Políticas na Educação da Universidade de Franca – Unifran; técnica da Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas, da Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. SILVIA R. DA COSTA SALGADO é jornalista; documentalista; mestre em ciências da comunicação e doutoranda em ciências da informação pela Universidade de São Paulo – USP; especialista em políticas públicas e informação; técnica da Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas, da Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam. Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Ivan Fleury Meirelles FUNDAÇÃO PREFEITO FARIA LIMA – CEPAM. Coordenadoria de Gestão de Políticas Públicas – Cogepp. Municípios paulistas em busca de novas práticas: as 12 finalistas do prêmio Chopin Tavares de Lima - novas práticas municipais. Coordenação de Elisabete Darci Ferreira, Lia Cruz Moura, Maria do Carmo M .T. Cruz e Silvia R. da Costa Salgado. São Paulo, 2005. 124p. Prêmio Chopin Tavares de Lima - 12 Finalistas. 1. Governo local. 2. Gestão inovadora. 3. Experiências municipais. I. Ferreira, Elisabete Darci. II. Moura, Lia Cruz. III. Cruz, Maria do Carmo M. T. IV. Salgado, Silvia R. da Costa. V. Título: Novas práticas municipais CDU: 35.001.4 programas e atividades desenvolvidos cargos dos municípios vêm au- durante a gestão 2001-2004 e descreve mentando nos últimos anos, mas, o funcionamento de 12 iniciativas muni- a partir de iniciativas locais e cipais visitadas pela equipe do Cepam. regionais, eles têm mostrado Os critérios para a escolha dessas expe- grande capacidade de resposta riências foram principalmente a simpli- aos problemas. cidade, a possibilidade de replicá-las e seu alcance social. Desde 1982, o Cepam mantém uma base de dados que identifica, Promovendo e difundindo boas idéias sistematiza e dissemina expe- que referenciem a solução de proble- riências criativas adotadas pelos mas semelhantes enfrentados por municípios, visando superar os outras localidades, acreditamos cola- desníveis sociais, econômicos e borar para a criação de uma rede tecnológicos, contribuindo para solidária entre os municípios, onde melhorar a gestão pública. todos possam aprender e aperfeiçoar suas atuações, na busca incessante de Municípios Paulistas em Busca de uma melhor qualidade de vida para Novas Práticas apresenta projetos, seus munícipes. Renato Amary - A s responsabilidades e os en- Presidente do Cepam Apresentação coerência entre objetivo e estrutura por Projeto Novas Práticas de Ges- haver encontrado um caminho meto- tão Municipal, implementado dológico capaz de realizar concre- pelo Cepam, e voltado para a tamente os valores de participação e sistematização, análise e difusão descentralização”. de projetos, ações e atividades de municípios paulistas que O Cepam tem constituído, desde então, buscam soluções para proble- uma referência na identificação e disse- mas locais e regionais. minação de experiências municipais, por acompanhar, ininterruptamente, as Instituição pioneira no trabalho ações municipais/regionais como com essas experiências, carac- forma de identificar e difundir inicia- terizadas como inovações de tivas, implementadas no espaço local, gestão pública, sobretudo a que concorram para alterar o padrão de partir dos anos 90, o Cepam, já gestão pública, de forma a torná-la, de na década de 80, atentava para fato, prestadora de serviços aos agen- o fenômeno implantando a Rede tes políticos municipais e suas respec- de Comunicação de Experiên- tivas comunidades. cias Municipais – Recem. Esta edição contém um dos produtos Contando com o apoio do go- do Projeto Novas Práticas de Gestão vernador André Franco Montoro Municipal, o qual, com certeza, valoriza e de seu secretário do Interior, à “o saber” das Administrações Munici- época, Chopin Tavares de Lima, pais paulistas, e também demonstra a a Recem foi considerada um disposição desta Instituição em conti- instrumento para fazer circular nuar atualizando o trabalho relativo às informações porque “mostra experiências municipais. Áquilas Mendes - E sta publicação faz parte do Coordenador de Gestão de Políticas Públicas Prefácio Sumário Apresentação Prefácio Introdução .................................................................................................... 9 Araraquara: Escola do Campo .................................................................. 11 Birigüi: Hortas Comunitárias – Um Projeto Consolidado ...................... 21 Caraguatatuba: Tempero de Mãe ............................................................ 27 Ipuã: Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção ........................ 37 Itapecerica da Serra: Plano Diretor de Bairro .......................................... 49 Jundiaí: Travessia Segura – Trânsito Seguro – Responsabilidade de Todos Nós ............................................................. 57 Pacaembu: Uma Cidade de Leitores ....................................................... 65 Praia Grande: Projeto Cidade Integrada .................................................. 71 Santa Fé do Sul: Proagrosul – Programa de Incentivo à Agropecuária ........................................................................................... 81 São Manuel: Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos – São Manuel Joga Limpo ........................................................................... 91 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista – Uma Forma de Resolver a Saúde Conjuntamente ............................................................................. 99 Universalização do Acesso ao Medicamento: a Experiência da Farmácia de Manipulação do Consórcio Intermunicipal do Vale do Paranapanema – Civap/Saúde ................................................. 111 Introdução A s experiências municipais que o Cepam acompanha desde 1982 têm sido um importante indicador da efetividade da ação local/regional diante da multi- públicos e avanços nos direitos da cidadania); Potencial pelas universidades e instituições de pesquisa e da iniciativa (nível de institucionalização, inserção como mesmo pelos mais diversos veículos de comunicação ação de governo, possibilidade de continuidade); de massa. Ao Cepam, cabe um papel peculiar, na Capacidade de articulação (intersetorialidade, estabe- medida em que conjuga ao trabalho uma experiência lecimento de parcerias, efetivação de convênios, busca acumulada em relação à metodologia de tratamento de otimização de recursos). dessas informações. A partir desse trabalho, foram selecionadas as 12 A coleta, a sistematização e a disseminação das experiências que compõem esta publicação, cujo experiências municipais significam, para a Instituição, objetivo é servir como sugestão para outros muni- um trabalho fundamental no seu propósito de cípios. Para isso, os relatos contém a apresentação operacionalizar ações sistemáticas para valorizar sua geral do projeto: síntese da iniciativa, contextualização força e capacidade principal: o domínio da informação, e caracterização do município (região); história da sua manipulação e aplicabilidade. O conjunto infor- implantação, funcionamento e gerenciamento (pro- mativo formado pelas ações de gestão munici- cessos e recursos necessários para que uma ação pal funciona como elemento importante para que o semelhante possa ser realizada); resultados (quanti- Cepam – como órgão de pesquisa, assistência técnica tativos, qualitativos, impactos, conquistas e difi- e capacitação de gestores municipais – estabeleça uma culdades); e avaliações. política de informação sobre práticas públicas para o atendimento da Administração Municipal. Uma comissão julgadora composta por Moisés Baum, coordenador da Coordenadoria de Ação e Responsável pela formulação e implementação de Articulação Regional – CAR, da Secretaria de Estado metodologia pioneira na análise e processamento das de Economia e Planejamento; Marcos Camargo informações referentes às experiências municipais, o Campagnone, diretor-presidente da Empresa Paulista Cepam, em 2004, avança mais uma etapa nessa ação de Planejamento Metropolitano S.A. – Emplasa; instituindo o prêmio Chopin Tavares de Lima – Novas Maurílio Maldonado, presidente do Instituto do Práticas Municipais, para o qual foram aplicados, a partir Legislativo Paulista; e Zilda Pereira da Silva, assessora da avaliação de 624 iniciativas coletadas referentes às técnica da Diretoria Adjunta de Produção e Análise de gestões 2001-2004, os seguintes critérios de seleção: Dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Potencial como referência para atuação de outros Dados – Seade examinou as 12 iniciativas finalistas municípios (replicabilidade); Democratização da gestão descritas nesta publicação e determinou os cinco (ampliação do acesso/acessibilidade aos serviços destaques do Prêmio Chopin Tavares de Lima – Novas Silvia R. da Costa Salgado - mento e a divulgação dessas práticas foram ampliadas Coordenação do Projeto Novas Práticas de Gestão Municipal plicidade de demandas dos cidadãos. Hoje, o conheci- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Práticas de Gestão: Araraquara – Escola do Campo; da Boa Vista, São Sebastião da Grama, Tambaú, Caraguatatuba – Tempero de Mãe; Itapecerica da Ser- Tapiratiba e Vargem Grande do Sul. ra – Plano Diretor de Bairro; Pacaembu – Uma Cidade Esperamos que a premiação e esta publicação de Leitores; Consórcio Intermunicipal de Saúde – sejam o início de um processo de intercâmbio de composto pelos Municípios de Aguaí, Águas da Prata, saberes que subsidiem os municípios, a Adminis- Caconde, Casa Branca, Divinolândia, Espírito Santo do tração estadual e as demais instituições e pessoas Pinhal, Itobi, Mococa, Santo Antônio do Jardim, Santa que têm consciência de que a informação é recurso Cruz das Palmeiras, São José do Rio Pardo, São João fundamental para a gestão do município. 10 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Araraquara Escola do Campo Elisabete Darci Ferreira Alexandre Luiz Martins de Freitas, Coordenador Municipal Secretaria Municipal de Educação Rua Vicente Jerônimo Freire, 22 A fronteira na qual a informação das disciplinas intersecciona Araraquara - SP - CEP 14810-038 com os entendimentos e as experiências que os indivíduos Tel.: (16) 3301-1900 - Fax: (16) 3322-3977 carregam com eles para a escola, é o ponto onde o E-mail: [email protected] conhecimento é criado (construído). KINCHELOE, Joe L. A formação do professor como compromisso político. A proposta da Prefeitura de Araraquara de criar necessidades concretas das novas formas de con- uma escola de ensino fundamental, com nove anos teúdo e não pelas formas tradicionais de número fixo de duração, dirigida aos filhos de trabalhadores do cam- de aulas por matéria. po, é uma experiência que incorporou o que há de O objetivo principal da experiência é implementar mais avançado em termos das propostas pedagógi- uma escola de ensino fundamental no campo, com uma cas, que têm sua origem em Paulo Freire, e imple- proposta pedagógica voltada para atender às necessi- mentou o que há de mais consistente na nova Lei de dades dos alunos da zona rural, partindo de suas vivên- Diretrizes e Bases da Educação – LDB. cias, além de desenvolver, conjuntamente com o edu- A escola de Araraquara baseia seu conteúdo na cando, os saberes necessários para a construção de um realidade vivenciada pelos homens do campo, com modelo de desenvolvimento agrário, social e econômitemas que se entrelaçam pelas várias disciplinas, inco que viabilize sua permanência no campo, por meio tegrando-as da forma como se manifestam na pró- da melhora de suas condições de vida, tanto em ter- pria natureza. A divisão do espaço da escola dos laboratórios, seja nas salas temáticas, que permi- culturais e cultivo de valores solidários. O próprio traba- tem a integração entre a prática dos alunos em suas lho pedagógico já se constitui em exercício solidário e vidas, e o novo do saber teórico, crítico, dedutivo e cidadão, porque integra prática e teoria, ponto de parti- sistematizante, emergente das aulas. Os tempos pe- da eficiente para o entendimento do conceito de ciên- dagógicos de aprendizado são definidos a partir das cia e de seu papel no mundo dos homens. 11 Araraquara – Escola de Campo mos de produção agrícola como de maior acesso a bens corresponde a esses objetivos, seja na organização Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Histórico Foram levantadas demandas de populações envolvidas, dentre elas a necessidade de ampliar o aten- Hoje buscamos um novo tipo de escola, um dimento escolar para todo o Ensino Fundamental, den- novo jeito de educar. Uma escola onde se tro dos próprios assentamentos, proposta esta apre- educa partindo da realidade, onde se ofereça sentada pelos pais e comunidades de ambos os as- aos educandos a oportunidade de experiências de vida ricas, significativas e sentamentos. Ficou acertado entre a comunidade e os concretas, onde educador e educando são companheiros e trabalham juntos. órgãos fomentadores (Secretaria de Estado da Educa- Escola do Campo – documento ção e prefeitura), que a implementação de todo o ensino fundamental se daria mediante apresentação de Dada a necessidade de se discutir e melhorar a projetos que justificassem tal procedimento. qualidade da educação das escolas dos assentamen- A partir daí, foram criados coletivos mais abran- tos Bela Vista e Monte Alegre, membros da comuni- gentes dentro dos assentamentos para discutir o assun- dade dos dois assentamentos reuniram-se com técni- to, o que culminou com a proposta da Escola do Campo. cos do Instituto de Terras do Estado de São Paulo – Em 2001, durante os cem primeiros dias de Itesp e representantes da Federação dos Empregados governo da atual gestão, foi realizado um processo de Rurais Assalariados do Estado de São Paulo – Feraesp, discussões locais, para elaboração das diretrizes de durante o ano de 2000, para apreciar e implementar, políticas de governo e prioridades de investimentos. nos assentamentos, o Projeto Educacional Êxodo, do No fórum sobre educação, foi constituído um grupo pesquisador Sebastião Salgado. de trabalho de “escola rural”, composto por represen- A partir dessas reuniões ocorridas nos dois as- tantes dos assentamentos Bela Vista do Chibarro, sentamentos, reforçou-se a necessidade de se ampli- Monte Alegre e do Distrito de Bueno de Andrade, para ar a discussão educacional, visto que a comunidade elaborar uma proposta destinada a construir uma escola observou ser aquele espaço de discussão (em torno que correspondesse aos anseios da população rural. do Êxodo) um espaço também de análise de outras Esse grupo apresentou propostas que foram disa demandas educativas das comunidades envolvidas. cutidas e votadas na 1 Conferência Municipal de Edu- A partir de então, ampliaram-se as reuniões, que cação e as vencedoras foram oficializadas, na ocasião, passaram a ser mais freqüentes e alternadas entre as como diretrizes para as escolas rurais. O projeto apro- duas localidades e já com a presença significativa da vado ganhou uma coordenadoria específica na Secre- comunidade, assim como do coletivo de Educação do taria Municipal de Educação, que começou a viabilizar Movimento dos Sem-Terra – MST, que possui experi- sua efetivação a partir de abril de 2001. O primeiro ência significativa nesse setor. passo foi municipalizar a última escola rural que ainda Participaram, também, desses núcleos de discus- era estadual e, em seguida, estender o atendimento sões, a dirigente regional de Ensino do Estado de São do ensino fundamental para nove anos. Paulo, a secretária municipal de Educação, técnicos da Uma série de reuniões com a comunidade escolar Secretaria Municipal de Educação e do Itesp. e com os colaboradores do projeto serviu para elaborar 12 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam os princípios da Escola do Campo e sua proposta Outro problema enfrentado é a rotatividade dos pedagógica, com a finalidade de superar as resistências professores especialistas, pois, dadas as distâncias e e problemas que se colocaram no decorrer do processo. dificuldades de transporte, eles procuram alternativas Em seguida, a construção do prédio contemplou profissionais mais fáceis, dificultando a continuidade um conceito de arquitetura adequado à proposta do projeto e impedindo o acúmulo de experiências pedagógica. Pensar a realidade e intervir sobre a que subsidiem o avanço da iniciativa. Para amenizar o realidade se entrelaçam, permitindo, simultanea- problema, é oferecido transporte adequado para que mente, a prática cidadã e a construção do raciocínio os professores se desloquem até a escola e incluiu- crítico e independente. se, no Plano de Carreiras, um bônus para melhorar a As etapas de implementação do programa foram remuneração deles. duas. A primeira abrangeu dez reuniões, nas quais A instalação da Internet, instrumento básico para foram elaborados os princípios da Escola do Campo e a proposta pedagógica, é um obstáculo, devido ao seu discutidas exaustivamente as posturas e tendências alto custo. Não foi possível inseri-la ainda, pois seriam que correspondiam a diferentes concepções e valores. necessárias várias antenas para viabilizar a transmissão. No período seguinte, a comunidade escolar desenvolveu suas prioridades temáticas e propostas peda- Descrição e Funcionamento gógicas. Nesse momento, surgiram novas propostas, cuja implementação exigia instalações maiores. A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo de busca. Desafios e Dificuldades E ensinar e aprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria. Paulo Freire O natural conservadorismo sobre o novo mani- em relação às novas propostas e também à participa- O Projeto Escola do Campo, desenvolvido pela ção do MST nas discussões. A comunidade, em prin- Secretaria Municipal de Educação do Município de cípio, resistiu por pensar que a proposta estaria voltada Araraquara, tem como objetivos atender 100% da cli- apenas para a resignação de permanência no campo. entela, em projeto específico voltado para o campo; Essas dificuldades foram sendo superadas com desenvolver com o educando e ele com seus pais, os atividades coletivas/pedagógicas que não só esclare- saberes necessários para a construção de um modelo cem, mas mudam as práticas em curso. A mídia dos agrário, social e econômico viável, a fim de garantir a últimos anos tem, sistematicamente, depreciado o permanência do homem e da mulher no campo; de- campo em relação à cidade, que aparece como reden- senvolver com os educandos o espírito crítico, solidário ção econômica em um mundo em que tudo deriva do e cooperativo, a auto-estima e, em especial, o compro- dinheiro e do mercado. O campo é tratado mais como misso desse sujeito com a sua história; garantir o aces- o local bucólico de poetas, onde nada acontece. so e a permanência, na escola, de todas as crianças e 13 Araraquara – Escola do Campo festou-se pela resistência de parte dos professores Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas adolescentes, nos nove anos do ensino fundamental, te Alegre, o que representa 100% da população rural como forma inicial e básica de promover a cidadania no dessa faixa etária. a a campo. A escola é baseada em complexos temáticos As três escolas funcionam de 2 a 6 feira, em contextualizados na realidade vivenciada pelos homens três períodos. Nos finais de semana, são oferecidas do campo e em trabalhos de forma integrada pelas vá- atividades para os alunos e a comunidade local. O processo participativo efetiva-se através de rias disciplinas e áreas do conhecimento, em espaços vários espaços: do Conselho de Escola e da Associação e tempos pedagógicos diferenciados. A Escola do Campo tem como princípios funda- de Pais e Mestres, que se reúnem mensalmente com mentais a construção de um novo homem, a produ- toda a comunidade escolar (pais/mães, professores, ção coletiva da terra e o resgate da cultura do campo. funcionários, alunos e membros da comunidade); além Norteiam o Projeto a gestão democrática da escola, desses, esporadicamente, ocorrem assembléias de através de mecanismos de participação coletiva da pais/mães, educadores e educandos, convocados comunidade; a democratização do acesso, através de extraordinariamente para debater questões que educadores comprometidos em atender às especifi- envolvem o cotidiano da escola e do Grêmio Estudantil, cidades dos educandos da zona rural; e a partilha da cujos representantes são eleitos todos os anos. qualidade social da educação entre todos, a partir de Envolver a comunidade na elaboração das propostas conteúdos significativos. significa, também, transformá-la em defensora da própria escola, contra os que quiserem destruí-la ou É preciso atentar para o tamanho desse desafio, desfigurá-la. quando os jornais, quase todos os dias, divulgam no- Em uma das escolas, o período da manhã tem a tícias sobre as dificuldades do ensino fundamental pú- seguinte rotina: blico em cumprir as metas de diminuir a evasão e • As crianças chegam à escola por volta das 6h50 garantir a alfabetização e o aprendizado pretendido de e já recebem a primeira refeição, geralmente seus alunos. Crianças e adolescentes do campo, meninos e composta por achocolatado quente e biscoitos, meninas de 4 a 15 anos, residentes nos assentamen- cereais ou bolo. Os educandos dos lotes, que tos rurais de Bela Vista do Chibarro, Monte Alegre e chegam mais cedo, ainda têm a oportunidade nos arredores do Distrito de Bueno de Andrada, com- de brincar com jogos da brinquedoteca, que põem o público-alvo do Projeto. ficam disponíveis para eles. São atendidos 560 alunos, em três unidades de • O dia-a-dia começa com orações, cantos e alon- ensino fundamental do Município de Araraquara. A gamentos; passadas informações gerais da Escola Municipal de Ensino Fundamental – Emef escola e da comunidade; e comemorados os Hermínio Pagotto recebe crianças do assentamento aniversários do dia. Bela Vista; a Emef Eugênio Trovato atende o assenta- • Em seguida, as crianças são acompanhadas por mento do Distrito de Bueno de Andrada; e a Emef seus educadores para os espaços educativos, Maria de Lourdes da Silva Prado, o assentamento Mon- que podem ser as salas de aula, biblioteca, sala 14 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam de informática, cozinha experimental, labo- ingredientes. Em seguida, partem para a prática ratório de ciência, sala de multimeios, lotes, e os educandos conhecem um pouco do horta, casarão, jardim. processo de elaboração de alguns pratos e sobre • No início da jornada, as crianças participam do suas origens. Essas receitas são escolhidas de Projeto Leitura é para Sempre, ou seja, utilizam, acordo com temáticas abordadas em sala de aula. cerca de 15 minutos da primeira aula, lendo. • Apresentam os produtos cultivados, nos lotes • Em seguida, as atividades prosseguem, de e escola, pelos assentados, fazendo com que acordo com o espaço a ser utilizado. Nas salas os educandos os utilizem nas aulas e aprendam de aula/salas de referência, os educadores a dar o melhor uso possível a esses produtos. desenvolvem e sistematizam os conteúdos, Laboratórios, cozinha experimental, os lotes, as- tendo como princípios fundamentais o diálogo sim como a horta da escola, o jardim, as áreas de reser- e a valorização dos educandos. Buscam, nos va, todos são materiais de consulta, de vivência e de trabalhos com textos, e até mesmo com a gra- experiência significativa para o desenvolvimento dos mática tradicional, voltar-se para a realidade dos conteúdos curriculares. Os educadores têm, muito pre- educandos, ou seja, da vida deles no campo, sente, a valorização dos saberes dos assentados e a processo no qual trocam experiências e os conseqüente melhora da auto-estima das crianças. educadores acabam aprendendo muito também. Participação Popular • Na Sala de Multimeios, trabalham com jogos, filmes e músicas, sobre temáticas variadas, e promovem discussões, de acordo com o ciclo e São os seguintes os mecanismos utilizados para o ano de cada turma. facilitar a participação popular. • Se o espaço for a Biblioteca, oferecem atividades de leitura e pesquisa, para que as crianças possam Conselho de Escola mergulhar no universo dos livros e desenvolver • O Conselho de Escola é o órgão colegiado, de sua autonomia na busca do conhecimento. • No Laboratório de Ciências, através de obser- debater e deliberar sobre todas as questões vações e experimentos, os educandos redes- relativas ao funcionamento e ao cotidiano da cobrem e reconstroem o saber científico. escola, garantindo a mais ampla participação da • Na Sala de Informática, os educandos aprendem comunidade escolar, na decisão sobre aspectos a lidar com o computador, mas sem deixar de administrativos, financeiros e pedagógicos, tor- lado os conteúdos de cada disciplina, adequando, nando este coletivo, não só um canal de partici- assim, os programas e atividades desenvolvidas. pação, mas também um instrumento de gestão • Na Cozinha Experimental, trabalham, primeira- da própria escola. O Conselho de Escola é com- mente, a receita como texto, comparando pesos posto de 50% de representantes da população e medidas e analisando o valor nutricional dos usuária, distribuídos entre os segmentos de pais 15 Araraquara – Escola do Campo natureza deliberativa, que tem por finalidade Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas ou responsáveis, educandos e comunidade Os técnicos do Itesp e do Incra que prestam as- local, e 50% de representantes do Poder sessoria aos assentados, orientam os educadores nas Público, distribuídos entre os segmentos do aulas de campo. No projeto da Unesp, alunos estagiá- magistério, funcionários e direção da escola. rios, semanalmente, sob a coordenação de uma professora, orientam sobre saúde bucal. APM Recursos Financeiros • A Associação de Pais e Mestres – APM, entidade com objetivos sociais e educativos, não tem caráter político, racial ou religioso e nem fina- O município gasta anualmente R$ 923 mil com o lidade lucrativa. É uma instituição auxiliar da programa, de recursos próprios. A principal fonte escola, que tem por objetivo colaborar no financiadora é o Fundef. Da receita orçamentária mu- aprimoramento do processo educacional, na nicipal, 2,42% é gasta com o Programa. assistência ao escolar e na integração família- Recursos Humanos escola-comunidade. Grêmio Estudantil Fazer é a melhor maneira de dizer. José Martí • O grêmio é a entidade que representa os educandos da escola e os organiza em torno de interesses próprios. A direção do grêmio é O Programa é realizado por uma equipe compos- escolhida numa eleição em que votam todos ta de 59 pessoas ligadas à Secretaria Municipal de os educandos. Educação. Desse total, três mulheres compõem a direção e 48 mulheres e oito homens ocupam funções Gerenciamento da Iniciativa executivas (assistente educacional pedagógico, diretor de escola, professor, agente educacional, auxiliar Alexandre Luiz Martins de Freitas é o coordena- de limpeza, merendeira e secretário de escola). A co- dor do projeto Escola do Campo, da Secretaria Munici- munidade participa ativamente, como voluntária, das pal de Educação, e responsável pelo gerenciamento diversas atividades propostas pela escola. do Projeto. Os recursos são municipais (Fundo de De- Os educandos também auxiliam e formam três senvolvimento, Manutenção e Valorização do Ensino equipes. A Equipe de Serviços Gerais é responsável Fundamental e da Valorização do Magistério – Fundef) pela limpeza e organização da sala de aula, pela arru- e contam com a parceria sistemática de organizações mação dos armários, estantes e biblioteca, pelo cuida- como o Itesp, o Departamento de Odontopediatria da do do patrimônio público e embelezamento da clas- Universidade Estadual Paulista – Unesp, a Prefeitura se/escola. do Município de Araraquara e o Instituto Nacional de A Equipe Técnica de Subsistência é responsá- Colonização e Reforma Agrária – Incra/SP. vel pelo funcionamento das unidades de produção – 16 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam e econômico igualitário desta população. A horta, jardim, horto medicinal, árvores frutíferas – e identificação política e a inserção geográfica na pela coleta e catalogação dos produtos cultivados no própria realidade cultural do campo são condi- Assentamento, usados no enriquecimento da meren- ções fundamentais de sua implementação. Texto-Base: Por uma Educação Básica do da e para exposição. Campo da I Conferência Nacional, 1998 A Equipe Pedagógica e de Comunicação ajuda no aprendizado em sala de aula, é responsável pela co- Os instrumentos utilizados na avaliação abrangem municação dos aniversariantes e de notícias gerais e indicadores de evasão escolar; indicadores de desem- pela organização da rádio educativa/comunitária e do penho dos educandos na superação das dificuldades jornal escolar. de aprendizagem; indicadores de participação da co- Os educandos podem, ainda, promover assem- munidade na gestão da escola; indicadores do envol- bléias, elaborar princípios de convivência em sala de vimento da comunidade nos projetos da escola; e in- aula, avaliar o andamento do processo educativo, pro- dicadores de envolvimento dos educandos na preser- por trabalho voluntário e debater os rumos da escola. vação da escola e dos equipamentos. A avaliação quantitativa indicou que não houve Parcerias evasão escolar no ano de 2004. A participação da comunidade nas reuniões e assembléias é de 80%, Parcerias com as Secretarias Municipais de em média, e o índice de freqüência dos alunos é Esportes e Cultura, Proeaj, Unesp, Itesp, algumas ONGs de 90% (não ocorrem faltas, exceto em casos de e amigos voluntários, têm permitido a criação de es- extrema necessidade). paços extracurriculares para o enriquecimento cultu- A principal avaliação é a qualitativa. Por exemplo, ral, social e espiritual, através de aulas de vivência o patrimônio da escola está perfeitamente preserva- sobre saúde bucal, biblioteca viva, educação ambien- do, o que demonstra o cuidado que a comunidade tem tal (jardinagem, horta, fruticultura, cultivo de plan- para com a escola. Observa-se um efetivo interesse tas medicinais), oficina de direitos humanos e preser- dos pais/mães no acompanhamento da vida escolar vação do patrimônio. de seus filhos, um relacionamento mais próximo entre pais/mães e educadores e uma atuação mais efeti- Resultados Alcançados va nas assembléias e reuniões. Entende-se por escola do campo aquela que No entanto, o principal elemento de avaliação são trabalha desde os interesses, a política, a cultu- os próprios alunos, que se referem de modo enfatica- lhadores e trabalhadoras do campo, nas suas mente positivo à Escola do Campo, quando compa- diversas formas de trabalho e de organização, ram sua vivência atual ao período em que estudavam na sua dimensão de permanente processo, na cidade. Há um reconhecimento de que, nessa es- produzindo valores, conhecimentos e tecnologias na perspectiva do desenvolvimento social cola, seus saberes são valorizados e trabalhados pelos 17 Araraquara – Escola do Campo ra e a economia dos diversos grupos de traba- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas professores. Esses resultados demonstram uma clara solidário, ficando o desenvolvimento econômico su- superioridade de resultados em relação às médias atin- bordinado ao desenvolvimento social. gidas no ensino público fundamental no Brasil. Resultados O programa é inovador, pois utiliza todos os es- Os resultados alcançados foram: paços físicos construídos para a proposta, como laboratório de ciências, laboratório de informática, sala de • Garantia da escola de ensino fundamental multimeios, cozinha experimental e biblioteca, além completo para 100% dos educandos do campo. dos espaços sociais geradores de conhecimento e prá- • Evasão zero. ticas. A prática democrática é vivenciada no Grêmio • Superação da dicotomia teoria e prática. Estudantil, no Conselho de Escola e em outros meios • Resgate da identidade do homem e da mulher do campo. coletivos deliberativos. Nessa perspectiva, o conteúdo da democracia é trabalhado continuamente e não • Resgate da cultura do campo. de forma desvinculada da prática. Funciona como uma • Elaboração da proposta político-pedagógica da escola do campo. aula prática de democracia. • Experiência inovadora de escola contex- Outro espaço físico criado para as aulas são os tualizada. lotes dos assentados, o que evita que a escola gaste com estrutura e manutenção de viveiros, os quais fun- • Avanço na construção da cidadania. cionam como laboratórios permanentes e vivos para • Reconquista da auto-estima do educando, dos educadores e dos próprios assentados. as práticas pedagógicas, assim como a horta da escola, o jardim, as áreas de reserva, local em que as crian- Considerações Finais ças recolhem sementes para plantar, para catalogar/ compor um álbum, ou para que as maiores confeccio- Não são os conhecimentos, as informações e nem artesanato e bijuterias. nem as verdades transmitidas através de Um outro avanço se dá em relação ao resgate da discursos ou leis que dão sentido à vida. cidadania plena do homem e da mulher do campo, O sentido se tece de outra maneira, a partir de relações imediatas, a partir de cada ser, inclusive contribuindo para que possam se desenvol- a partir dos sucessivos contextos nos quais ver plenamente, através de atividades agrícolas eco- se vive... Educar é impregnar de sentido, nomicamente viáveis. Ao atuar no ensino fundamen- é estabelecer uma compreensão profunda entre as informações e as práticas, os tal completo de nove anos, aproximando a escola das atos cotidianos. necessidades do educando do campo e, conseqüen- PRADO, Francisco Gutierrez e Cruz. In: Ecopedagogia e cidadania planetária. temente, do assentado, pesquisando novas técnicas de produção e de fabricação artesanal, com agregação Essa experiência aponta os caminhos para uma de valores ao produto bruto, o programa tem condi- análise mais detida e profunda sobre a chamada quali- ções de contribuir para a superação da pobreza. A es- dade da educação. A intensa evasão escolar no ensino cola tem suas tarefas baseadas no trabalho coletivo e 18 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam público, bem como a falta de resultados positivos, construção de um raciocínio crítico e independente expressa no grande número de alunos que sai da es- dos seus alunos, nada demonstra que essas mesmas cola como semi-analfabeto, costumam ser apontadas escolas particulares reconhecidas sejam capazes de como falta de qualidade na educação. melhor construí-los, preocupadas que estão em ades- A chamada falta de qualidade, que tem como re- trar seus alunos para os resultados dos vestibulares. ferência o padrão de qualidade das escolas particula- Nada indica que essas escolas estejam preparando alu- res mais caras e reconhecidas, refere-se à competên- nos para buscar uma relação rica entre a teoria de suas cia e formação dos professores; às dificuldades de ra- aulas e a prática da vida e da profissão, bem como da ciocínio e vocabulário dos alunos, etc. Não ocorre o formação de cidadãos capazes de interagir política e questionamento sobre a necessidade de existir uma socialmente para a construção de um mundo melhor e nova proposta pedagógica, que restabeleça o sentido mais solidário. As propostas pedagógicas baseadas em Paulo A escola fundamental que, nos últimos anos, trou- Freire, como é a da Escola do Campo, apresentam os xe para seus muros inúmeros pobres e excluídos, terá pontos de partida para uma real transformação educa- que adequar seus conteúdos pedagógicos à vida, ex- cional, gerando a possibilidade de que seus alunos periência e formas de percepção de seus novos alu- possam ter uma visão integrada entre teoria e prática, nos, para obter melhores resultados. vida e ciência, sobrevivência e solidariedade, assim Partir de raciocínios e conceitos abstratos para como para a construção de uma participação crítica e alunos, que deles estão afastados em seu cotidiano, é cidadã. Em um mundo em que, cada vez mais, as realmente precipitá-los em um processo de exclusão. políticas públicas não mais conseguem ter eficácia Partir do cotidiano dos alunos, de suas preocupações sem a fiscalização, a parceria crítica, a consciência e a reais, do concreto de suas vidas, como indica a expe- presença da sociedade civil, a importância de formar riência de Araraquara, é a forma possível de obter bons cidadãos desloca as funções tradicionais da escola, resultados com a grande massa de excluídos deste exigindo um profundo repensar sobre seus objetivos. País. A partir do concreto, abrem-se as veredas neces- Neste sentido, a experiência da Escola do Campo de sárias para a construção dos conceitos abstratos, isto Araraquara constitui-se em rico objeto de reflexão e é, a percepção de sua importância e necessidade para inspiração de novas práticas pedagógicas para ou- a compreensão e ação sobre a realidade. Quanto à tros municípios. 19 Araraquara – Escola do Campo efetivo de aprendizagem. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 20 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Birigüi Hortas Comunitárias – Um Projeto Consolidado Josená Vitorino da Silva, Coordenador Social Prefeitura Municipal de Birigüi Lia Cruz Moura Rua Roberto Clark , 543 Birigüi- SP - CEP 16200-043 Tel.: (18) 3644-9870 - Fax: (18) 3643-6000 Antes das hortas começarem a funcionar, a população E-mail: [email protected] não tinha o hábito de comer verduras e legumes. Assim, implantamos o curso Delícias de Nossa Horta. As pessoas não sabiam que podiam fazer pizza de escarola, por exemplo. Com o curso, aprenderam a aproveitar melhor os alimentos que colhiam. Hebe Najas Camargo Cervelati 1 Birigüi possui 101.410 habitantes , e é referên- qualificação adequada para o mercado local, acarretando cia no Estado, por ser um pólo industrial de calçados condições de pobreza ou extrema pobreza”. Assim, infantis. As indústrias calçadistas movimentam a cida- destaca-se a importância de um programa de comple- de e empregam grande parte da população. Como as mentação alimentar como as hortas comunitárias. cidades em seu entorno são de pequeno porte e fun- A iniciativa Hortas Comunitárias consiste em um damentalmente agrícolas, muitas pessoas procuram programa de segurança alimentar em que os munícipes Birigüi para encontrar outras alternativas de trabalho. que participam do projeto produzem hortaliças e ervas Segundo dados da Fundação Sistema Estadual de medicinais. O objetivo é minimizar a fome e erradicar a Análises de Dados - Seade, a taxa de crescimento anual, desnutrição infantil, por intermédio da alimentação al- em 2000, foi de 2,6%, enquanto a média do Estado é de ternativa, pois os envolvidos produzem seu próprio 1,82%. No documento Síntese Diagnóstica para alimento em canteiros cedidos pela prefeitura. 2 Formulação do Plano, encaminhado pela prefeitura, Atualmente, 70 mil/m são ocupados pelas hor- consta que “grande parte das pessoas que migram para tas comunitárias; a meta da prefeitura é ampliar a área o município em busca de emprego, não possui de produção para 75 mil/m e aumentar o número de 2 famílias atendidas, de aproximadamente 2.400 famílias para 3.500. Outra meta dos gestores do projeto é a 1. FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal, 2004. 21 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas construção de estufas, para que as famílias cultivem ao programa. Assim, foram realizadas visitas domicili- hortaliças mesmo na entressafra. ares por assistentes sociais e chamadas em auto-fa- A prefeitura prevê como objetivo específico do lantes por carros de som que circulavam pela cidade. projeto a capacitação da equipe técnica por intermédio Assim, teve início a segunda horta comunitária, que de cursos em parceria com o Sebrae, secretarias foi implantada em uma região periférica da cidade. A estaduais e outros parceiros, bem como a capacitação partir daí, a população passou a reivindicar uma área das famílias em cursos de reaproveitamento de para cultivo de hortas nos bairros. alimentos, panificação de ervas e leguminosas, Os gestores do projeto observaram que, no iní- embalagens de alimentos congelados e higienização cio, a dificuldade para adesão ao programa ocorria pela dos alimentos. falta de hábito do público-alvo em incluir hortaliças em A iniciativa tem ampla divulgação e reconheci- sua alimentação. Para solucionar esse problema e mento na imprensa local e regional, por sua consolida- ampliar o atendimento, foram desenvolvidos projetos ção e sucesso devido ao tempo de implantação. O complementares de reeducação alimentar – como o projeto classificou-se entre os semifinalistas do Pro- Delícias de Nossa Horta, equivalente ao atual progra- grama Gestão Pública e Cidadania da Fundação Getú- ma do Serviço Social da Indústria – Sesi, Alimente-se lio Vargas, em 1996, quando havia, no município, 36 Bem com 1 Real. As aulas eram ministradas por hortas implantadas. nutricionistas, aos sábados, que ensinavam como melhor aproveitar os produtos colhidos nas hortas, di- A Ação no Tempo versificando receitas e criando alternativas para o aproveitamento dos alimentos, como, por exemplo, fazer As hortas comunitárias de Birigüi surgiram na pizza de escarola, que a população envolvida no proje- década de 80 com o apoio do então governador Fran- to não acreditava ser possível. co Montoro. Primeiramente, foi implantada, através da Aos poucos, a prefeitura introduziu o cultivo de Secretaria de Serviço Social, uma horta piloto, com ervas medicinais, por meio de cursos e cartilha que funcionários e terreno cedidos pela prefeitura. Locali- ensinavam e demonstravam os benefícios dos remé- zada no centro da cidade, o objetivo era despertar a dios caseiros. atenção e o interesse da comunidade. Com o sucesso alcançado pelo projeto, a prefei- Essa experiência serviu para estimular a secretá- tura recebeu uma doação de kits com ferramentas para ria de Serviço Social e primeira-dama do município, a as hortas. Como a quantidade deles era inferior ao nú- pensar na possibilidade de implantação do projeto, mero de integrantes do programa, a administração or- como uma iniciativa eficiente de combate à fome, com ganizou um forró para sorteá-los como brindes. base na constatação de que a alimentação das pesso- A adesão popular, que se deu por intermédio as era muito pobre em vegetais. das associações de bairros ou grupos organizados, Durante um mês, foi feito um trabalho de cons- que requeriam a implantação de uma horta em sua cientização e sensibilização da população para aderir região, foi crescendo. Atualmente, há no município 22 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam 45 hortas em funcionamento, em 35 bairros da cida- mesmo ocorre quando o parceiro de horta necessita. de, sendo que na gestão 2001/2004, a terceira do No dia da visitada da pesquisadora do Cepam, estava, atual prefeito, ainda foram implantadas quatro novas inclusive, regando a horta do amigo, impossibilitado hortas, custando, a sua instalação, R$ 6 mil cada, e as de fazê-lo naquele dia. demais foram reformadas. No caso de haver produção excedente, as hortaliças são doadas para creches, à Santa Casa, ou Gestão e Funcionamento entidades beneficentes, de acordo com os critérios da Secretaria de Serviço Social, ou ainda para parentes e Ao andar por Birigüi, muitos podem dar informa- amigos. São atendidas atualmente 2.449 famílias, ções sobre a localização das Hortas Comunitárias. Gran- beneficiando 11.500 pessoas. A venda de produtos é de parte da população conhece seu funcionamento ou proibida , entretanto, exceções ocorrem e a venda de algum parente ou vizinho que participa do projeto. pequenas quantidades de verduras e legumes é admi- 2 O que é produzido nas hortas serve para o tida, desde que justificada, como no caso de um bene- consumo de subsistência das famílias. O escambo ficiado que precisou vender algumas hortaliças para entre os participantes é permitido e incentivado pela poder comprar alimento especial (leite) para um filho. prefeitura. Participar das hortas passa a ser não só um A atuação da prefeitura como fomentadora das mecanismo para reduzir o problema da fome, mas atividades desenvolvidas nas hortas é fundamental. O também uma nova maneira de incentivar a sociabili- Poder Público Municipal fornece as sementes (que dade dos habitantes de uma mesma comunidade. O vêm em latas de 100g e são separadas em pacotinhos trabalho passa a ser, então, de cultivo das hortaliças e de 20g pelos funcionários da prefeitura), o adubo, além também de integração social. Os vizinhos de canteiro de conceder a área para o cultivo. 3 4 trabalham em regime de cooperação, inclusive com A prefeitura também mantém a infra-estrutura do ajuda mútua no trato e cuidados do plantio, e exemplos programa e fornece água encanada gratuitamente para disso aparecem em muitas das entrevistas realizadas. manter as hortas. As sementes, algumas vezes, também O Sr. João, por exemplo, que trabalha à noite como são doadas pela Secretaria de Agricultura e Abaste- porteiro, quando viaja, pede para seu amigo e vizinho cimento do Estado. Caso surja alguma praga, um de canteiro pôr água em suas plantas, e relata que o engenheiro agrônomo da prefeitura é enviado ao local 2. De acordo com o Regimento para Hortas Comunitárias 2001-2004, item não fazem uso de agrotóxicos, e utilizam, por exemplo, Do Destino da Produção, art. 1º, § 1º, é expressamente proibida a co- o fumo, para combater possíveis pragas. O uso da água mercialização das hortaliças colhidas na horta comunitária. está normatizado no Regimento para Hortas Comu- 3. A prefeitura incentiva também as hortas domiciliares e oferece sementes para aproximadamente 400 pessoas. nitárias 2001-2004, no qual se destaca a respon- 4. O participante não é obrigado a plantar exclusivamente as sementes sabilidade dos participantes em evitar o desperdício. disponibilizadas pela prefeitura. O produtor tem liberdade para escolher se deseja plantar outro produto e comprá-lo, desde que não infrinja a Os beneficiados são escolhidos para integrar o normatização das hortas, proíbe o plantio de plantas arbustos como: quiabo, mandioca, feijão-de-vara, mamão, milho e banana (art. 5º). projeto, primeiramente, pela necessidade de comple- 23 Birigüi – Hortas Comunitárias – Um Projeto Consolidado para resolver o problema. Nas hortas, os participantes Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas mentação alimentar. Se todas as pessoas que necessi- não utilizados), como foi o caso da primeira horta no tam participar do programa estiverem devidamente centro da cidade, que precisou ser encerrada para a assistidas, as vagas podem ser ocupadas por qual- construção de uma escola, a prefeitura disponibiliza quer munícipe, independentemente de sua situa- um novo espaço para o cultivo dos canteiros. De acordo com os participantes, devido às ele- ção socioeconômica. 2 Os canteiros medem 5x2m , e são disponi- vadas temperaturas da região, é necessário aguar as bilizados dois para cada família com até duas pessoas, plantas duas vezes ao dia e, às vezes até mais. Tanto no e quatro canteiros para famílias com mais de cinco período de safra como de entressafra, a prefeitura orienta integrantes. sobre quais tipos de produtos são mais apropriados para O orçamento anual do projeto é de R$ 183.897,04, a época, contribuindo assim, para que o cultivo seja dividido em custos com material de consumo (semen- constante durante o ano todo. Contudo, os gestores tes de hortaliças, postes para alambrado, tela mangueirão, alertam para as dificuldades encontradas na entressafra, adubo químico), num total de R$ 55 mil; e o restante em quando há maiores obstáculos para se obter produtos, recursos humanos (um coordenador social, um assisten- ocasionando a desistência de algumas famílias e te social, um assessor de assuntos comunitários e um provocando um movimento de invasão dos canteiros engenheiro agrônomo). abandonados por outras pessoas. Segundo relatório da O canal de comunicação entre a prefeitura e os prefeitura sobre o programa, na safra de 2003, foram integrantes das hortas é intermediado por um presi- produzidas 25 toneladas de alimentos, contribuindo dente eleito pelos participantes ou nomeado pela Se- substancialmente para a subsistência do grupo. cretaria, obedecendo assim ao disposto no artigo 1º Para a gestão do projeto, foi elaborado um banco do Regimento para as Hortas Comunitárias 2001- de dados com informações sobre os 2.500 par- 2004. No caso de emergências, são os presidentes ticipantes, inclusive endereço e telefone, facilitando a que entram em contato com a prefeitura para agendar convocação para reuniões, sempre que necessário, e uma reunião. também para participarem de outros projetos sociais. Tanto o presidente como os participantes e a O coordenador do projeto detecta que, para o bom prefeitura têm deveres a cumprir no espaço público funcionamento do sistema de hortas comunitárias, é cedido para o funcionamento das hortas. Segundo o necessário formar líderes, que serão os interlocutores coordenador do projeto, essa estrutura organizativa entre a prefeitura e os horticultores. Quanto mais forte também é utilizada como ligação entre a prefeitura e os a liderança, maior o sucesso da prática, já que os bairros da cidade, para trazer informação sobre outros problemas enfrentados em cada horta muitas vezes problemas locais existentes, contribuindo para uma são específicos, e só podem ser conhecidos através política de interação entre o Poder Público e a população. desse elo. No caso de a prefeitura precisar utilizar o espaço A implantação de hortas comunitárias não requer cedido para o cultivo das hortas, para outra finalidade procedimentos complexos, pois é um projeto prático (pois as hortas são implantadas em espaços públicos que permite a união e a mobilização das pessoas; além 24 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam de contar com o apoio da prefeitura, que orienta em o caminho, e depois diz: “Meu pai, já aposentado, relação ao seu funcionamento, fornece material e aju- tem canteiro lá. Vai várias vezes por dia (...) A vida da a executar as ações com bons resultados. Além dele é cuidar das plantas, é uma distração (...) As hor- disso, os problemas podem ser solucionados de ma- tas não vão acabar, né? Acho que é uma coisa muito 5 neira direta, por intermédio do balcão de denúncias boa pra ele”. existente na prefeitura. Nesta mesma horta, encontro Dona Maria, freqüentadora há três anos, e seu filho, com dois anos de Depoimentos participação no projeto. Ambos elogiam a iniciativa e contam os resultados positivos no orçamento familiar. Em uma das hortas, entrevistamos o Sr. Marcos, Considerações que tem como hobby cuidar de seus quatro canteiros na horta comunitária de seu bairro, mesmo pertencendo a uma faixa socioeconômica diferenciada da maio- Os pontos positivos são confirmados pela conso- ria das pessoas que freqüentam as hortas. Ele faz ques- lidação da prática durante todo o seu tempo de funcio- tão de deixar claro que não precisa cultivar hortaliças, namento. Além dos benefícios diretos para os usuári- mas que é um prazer tratá-las diariamente. Seu vizi- os, observado em campo, a iniciativa obteve reconhe- nho de canteiro é um senhor aposentado pela Ford, cimento da população não participante, e também dos que saiu da cidade de São Paulo para viver mais cal- demais munícipes que apontam as qualidades da exis- mamente em Birigüi. tência das hortas, como alimentar-se com produtos Conversando com os participantes das hortas, sem agrotóxicos ou até mesmo por produzir seu pró- pode-se ter uma noção dos benefícios alcançados pelo prio alimento, não necessitando de medidas puramen- projeto: todos concordam que há uma boa economia te assistencialistas. financeira ao deixarem de consumir produtos da feira Implantar um programa semelhante, exige a atu- para produzir seu próprio alimento. ação do Poder Público local na assistência e no seu Dona Alzira, que freqüenta o projeto desde 1986, acompanhamento diário. Seu papel pró-ativo é incen- conta que seus filhos aprenderam a comer hortaliças e tivar a atitude dos usuários na troca de alimentos, sem que agora é a vez dos netos, que cresceram habitua- burocratizar seu funcionamento. dos a ter uma alimentação mais saudável. “Só minha A iniciativa é simples e pode ser replicada em outros municípios. Em muitas localidades existem Ao perguntar a um rapaz, na rua, qual a localiza- espaços públicos ociosos que podem ser utilizados ção da horta mais próxima, ele informa, desconfiado, no plantio de verduras e hortaliças, promovendo um programa de complementação alimentar saudável, favorecendo a sociabilidade dos participantes 5. O Balcão de Denúncias é um sistema no qual qualquer cidadão pode fazer sua queixa, independentemente do presidente da horta ou convo- e mantendo um canal de interface entre a prefeitura cação para reuniões, cabendo ao coordenador do projeto propor uma solução rápida e pacífica, para ambas as partes envolvidas. e a comunidade. 25 Birigüi – Hortas Comunitárias – Um Projeto Consolidado neta que não gosta de comer cenoura...”. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 26 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Caraguatatuba Tempero de Mãe Silvia R. da Costa Salgado Rosana Ap. G. L. de Alburquerque, Supervisora de Ensino Secretaria Municipal de Educação (...) realmente é delicioso! Deve ser uma frutinha Av. Rio de Janeiro, 860 - Indaiá Caraguatatuba - SP - CEP 11665-050 aqui da região, não? Tel.: (12) 3897-7000 - Fax: (12) 3897-7025 Silvia Salgado, em visita ao Programa Você nunca tomou esse suco? É muito apreciado pelas crianças (...) Mas, não é fruta de Caraguá não (...) É suco de couve (...) É suco de couve com limão. Diretora de Escola do Bairro do Rio Claro Essa tentativa de degustar e adivinhar, por alimentares, depara-se com respostas como beterra- solicitação da equipe do Projeto, foi inesquecível. Mas ba, folha de batata-doce, doce de casca de abóbora, não foi a única. Todas com muito acerto, até o limite da mandioca, além dos bons e velhos feijão com arroz, insegurança em denominar, como polenta, uma gostosa macarrão, frango e frutas diversas. polenta. As iguarias criadas pelas mestres-cucas, As profissionais responsáveis pela execução do funcionárias da Divisão de Merenda Escolar de Cara- cardápio e também participantes de sua elaboração, guatatuba, fazem com que se considere banal aquela pelo conhecimento da clientela e criatividade nas su- publicidade veiculada atualmente pela televisão pa- gestões, são unânimes em afirmar que uma boa edu- ra “vender” um produto alimentício industrializado cação alimentar envolve o resgate de hábitos de nos- 1 para crianças. sas avós, que incluíam alimentos mais naturais, puros, Nas escolas visitadas, diante da inevitável e ne- nutritivos, sem adubos químicos, além de porcos e cessária curiosidade na identificação de preferências galinhas criados nos quintais. Mas, às memórias afetivas e culturais, essas mu- 1. O menino bate o pé em um hipermercado para que sua mãe compre brócolis enquanto as também mães, expectadoras atônitas, observam, lheres agregam saberes que mais recentemente che- ainda, o choro do atorzinho por uma chicória. Nos lares, a mensagem garam a elas como: nutrição (valor nutricional, apro- publicitária faz emergir a incompetência diante de um dos traços do capitalismo que alcança todas as classes sociais, ou seja, o incentivo ao veitamento integral dos alimentos); questões referen- consumo dos produtos artificiais e industrializados, principalmente no que se refere às crianças. O equivalente, para os adultos, é traduzido, sob tes à contaminação dos alimentos; higiene pessoal e o rótulo de saudável, nos produtos lights e diets. 27 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas no local de trabalho; organização das atividades da buscar razões para a implementação do projeto e tam- merenda (recebimento, armazenamento, pré-preparo bém para sua aceitabilidade e aperfeiçoamento, em e preparo, distribuição e técnica culinária); horta esco- função de características como: o compromisso de lar; e até prevenção de acidentes. uma atuação a partir do conhecimento da realidade; o Para os alunos, uma expressiva parcela da estabelecimento de metas claras para ações que vi- população, muitos provenientes de famílias preca- sam à segurança alimentar; o estímulo à participação e rizadas pelas condições de trabalho e conseqüente à parceria com a sociedade civil; a identificação/utiliza- inadequação de renda, essas novas merendeiras (o ção de programas e fontes de recursos dos governos cargo é auxiliar de cozinha) têm feito parte do conjunto federal e estadual para desenvolvimento e fortaleci- de ações que a Prefeitura de Caraguatatuba imple- mento das iniciativas locais. menta para garantir um trabalho de reeducação ali- O Tempero de Mãe visa garantir a qualidade da mentar, por meio da escola, para os escolares e toda a merenda escolar, estabelecida nas relações de intera- comunidade, respeitando a cultura alimentar de cada tividade permanente com a comunidade, proporcio- região do município. nando um envolvimento sócio-afetivo de mães de alu- A iniciativa “procura corresponder aos princípios nos, que têm a oportunidade de participar do desen- do Plano Nacional de Educação – PNE, cuja democrati- volvimento das crianças pelo preparo de uma comida zação e gestão do ensino público nos estabelecimen- caseira, acompanhando e atuando como agentes de tos oficiais, obedece às normas de participação dos transformação e multiplicadores na comunidade de um profissionais da educação na elaboração do Projeto programa de reeducação alimentar, higiene e saúde. Pedagógico da escola e a participação das comunida- Originado no interesse em enriquecer e melho- des escolar e local em Conselhos de Escola”, como rar a qualidade da merenda escolar e em desenvolver esclarece a secretária municipal de Educação, Roseli bons hábitos alimentares, a contratação de mães de Morilla Baptista dos Santos, citando a Lei de Diretrizes alunos para prestação de serviços de preparação da e Bases da Educação – LDB, artigo 14, incisos I e II. merenda, utilizando um tempero caseiro e alimentos Convicta de que atualmente as discussões sobre cultivados nas hortas das escolas, tem obtido resulta- educação apontam para caminhos que visam à elabo- dos que atraem a atenção de outras administrações, ração de ações singulares, a secretária tem buscado de órgãos governamentais de outras esferas de go- desenvolver projetos singulares, sobretudo envolven- verno e de organizações nacionais e internacionais. do a família no processo educativo dos alunos da Rede Apesar de os técnicos da equipe argumentarem Pública como um anseio não só do Governo Munici- modestamente sobre a simplicidade da concepção, o pal, mas do Estadual e do Federal. Projeto vai além do que preconizam normas usuais Componente do Programa mais amplo de Me- quando impacta na reflexão sobre a relação entre ali- renda Escolar Municipalizada, é neste que se podem mentação e a melhoria da qualidade da escola e, mais 28 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam do que isso, ao envolver a comunidade como um todo vida dos alunos, na capacitação de profissionais, na numa proposta que alia o alimento à qualidade de vida. geração de emprego para membros da própria comu- Se a legislação determina alguns procedimentos, isso nidade escolar, entre outros. Além disso, contribui para não significa que o Poder Público, incluindo o munici- avanços no processo de gestão democrática, pela par- pal, esteja perto de ações ideais que contemplem as- ticipação das APMs e do Conselho Escolar nas toma- pectos como o questionamento do valor nutritivo dos das de decisão e resolução de problemas relaciona- alimentos ou a contribuição para que o padrão alimen- dos à merenda escolar. tar não seja descaracterizado. Contextos Implantado em 2002, o Tempero de Mãe diferencia-se de outras iniciativas, afastando-se do modelo alimentar dominante, para buscar alternativas Remontando suas origens aos anos de 1653/ que acatem a diferença entre comer e alimentar-se. 1654, a Vila de Santo Antônio de Caraguatatuba tor- Nessa concepção, são atendidos 16 mil alunos entre na-se freguesia (1847) e foi elevada à categoria de Centros de Educação Infantil – CEIs, Educação Infantil município em 1857. Em 1947, a “enseada com altos e Ensino Fundamental. Destes, três unidades con- e baixos”, corruptela de Curuá Guatatybo, ou Caragua- templam o ensino de 5ª à 8ª série, além da Educação tatuba, transformou-se em Estância Balneária. A de Jovens e Adultos – EJA e das Telessalas. Comarca foi criada em 1959, pela Lei 5.282 e instala- Trinta e duas mil refeições diárias são servidas da em 23 de setembro de 1965. Comemorando 147 com qualidade e custo unitário de R$ 0,32, enquanto a anos de emancipação e com uma população estima- empresa de terceirização cobrava do município, em da de 92.283 habitantes para 2004 , o município deve 2002, R$ 0,68 (sem contabilizar o gás). O repasse às muito do seu desenvolvimento ao turismo, que é o Associações de Pais e Mestres – APMs, mediante con- atrativo principal. vênio, para o pagamento das 78 mães merendeiras é, Com 180 praias, 317 cachoeiras, 110 trilhas e em média, de R$ 38 mil mensais, já incluindo os en- 137.148 ha de Mata Atlântica, a cidade recebe até 500 cargos trabalhistas. mil pessoas em feriados prolongados e temporadas de Sinteticamente, pode-se dizer que o Projeto é verão. Ainda que Caraguá, como é chamada carinhosa- uma exitosa iniciativa que resultou não apenas na mente pelos habitantes, seja um lugar no qual os visi- melhoria da qualidade da merenda (flexibilização do tantes menos pensem em assuntos como trabalho ou cardápio, substituição dos alimentos formulados por escola, muitos deles têm ido à Estância Balneária espe- refeições, introdução de verduras, legumes e frutas), cialmente para ir à escola, ou melhor, para conhecer de como também na prática da educação alimentar na perto o trabalho realizado na área educacional, inclusive no que se refere à Merenda Escolar, como demonstra e 2. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. equipe do Tempero de Mãe, cujo diretor, Manoel Vi- 29 Caraguatatuba – Tempero de Mãe 2 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas cente, o Manu, ilustra informando que se pretende tor- Municipal de Educação, elaborado pelo Conselho Muni- nar o município um pólo regional de informações do cipal de Educação e Secretaria, cujo objetivo é garantir Programa Nacional de Alimentação – PNA. educação de qualidade nos próximos dez anos. Caraguá não tem nenhuma criança fora do Ensino Fundamental. Hoje prioridade da administração e setor que mais recebeu investimentos, a educação em Caraguá já foi Municipalização do Ensino Fundamental muito diferente. Até o início da década de 30, havia poucas escolas na região, algumas instaladas em residências dos próprios professores e outras funcionando precariamente em regiões isoladas no município. O processo foi iniciado em 1996 e em 1997 (Lei Os prédios próprios para o funcionamento das escolas Municipal 595/97) autoriza o poder Executivo a cele- só surgiram em 1941. Com o aumento da população, brar convênio com o Estado. Eram então 17 Escolas cresceu o número de alunos, dentre eles, filhos de Municipais de Educação Infantil – Emeis, com 180 alu- famílias que, entre as décadas de 40 e 50, vieram resi- nos, quatro creches municipais (400 crianças e 86 pro- dir em Caraguá. fessores, além das sete unidades rurais então existen- Em 1952, foram construídas mais duas salas de tes). São municipalizadas também três unidades na área aula e instalado o primeiro Ginásio Estadual. Outros central. Em 1998, há a municipalização total das esco- benefícios vieram do Estado, como verba de auxílio las, atendendo o Ensino Fundamental de 1ª a 4ª série. para a sopa escolar, inscrição no Plano Nacional de Em 2001, é ampliado o atendimento para crianças de Merenda Escolar, renovação e aumento do quadro fun- zero a três anos e, em 2002, tem início a municipalização cional, limpeza e conservação do prédio. de 5ª a 8ª série. Assim, em uma história recente, Caraguá tem hoje 16 mil alunos na rede municipal. O prédio que abrigou durante 60 anos a área da educação, e até 1999 teve a freqüência de centenas A Rede é constituída por 25 Emeis e 24 Escolas de crianças e jovens, é hoje o Pólo Cultural que abriga Municipais de Educação Fundamental – Emefs, sendo o Museu de Arte e Cultura – MAC, o Arquivo Histórico, parte delas integrantes dos 13 Centros Integrados de a Biblioteca de Artes e a Videoteca Lúcio Braum. Ensino Fundamental e Infantil, contando ainda com Atualmente, a Secretaria Municipal de Educação nove Centros de Educação Infantil (antigas creches coordena 1.383 profissionais em diversas áreas, dos municipais). Todas as Unidades têm o módulo de fun- quais 374 são funcionários que atuam na Educação In- cionários completo, assim como a equipe técnica, com 3 diretor, vice-diretor e professor coordenador. fantil, por meio de um convênio com a Fundação Orsa . O Conselho Municipal de Educação foi criado, Possui 36 prédios em funcionamento e um Plano no município, em 1995. Instalado em 1996, deu iní3. Criada em 1994 pelos acionistas do grupo de empresas Orsa, que tem cio ao atendimento de exigência legal. Em 1997, com como foco a área de celulose, papel, embalagem e caixas de papelão ondulado no Brasil. Sua missão é promover a formação integral da cri- a celebração do convênio com o Estado para a ança e do adolescente em situação de risco pessoal e social. Sua sede municipalização, essa exigência já estava cumprida, está localizada em Carapicuíba, São Paulo, de onde atua em projetos de abrangência nacional. embora algumas alterações se fizessem necessárias. 30 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam O processo de implementação do Conselho iniciou- um cardápio mais diversificado, mas causando muitos se já elaborando indicações e deliberando sobre a problemas, inclusive relacionados aos recursos huma- Educação Municipal. nos. Entre a abertura de concurso público para contratação de pessoal e a terceirização, opta-se pela expe- Tempero de Mãe: O Projeto e sua Implantação riência com uma empresa fornecedora de refeições (2002). Foram três meses de contrato e um aditamento de 30 dias para a busca de outra solução, tamanha a Caraguá, um Tempero de Mãe serrana quantidade de problemas apresentados pela adoção Na simplicidade do amor desse procedimento. De quem se ama A vila que um dia despertou (...) Durante o recesso escolar, em 13 de julho de A estrada onde o açúcar escoou 2002, o Memorando 484/02 da Secretaria dá entrada Fauna e flora a preservar no protocolo da Procuradoria-Geral do Município soli- No Parque da Serra do Mar (...) citando parecer sobre a proposta e autorização para Escola de Samba Unidos de Guaratinguetá, que vai homenagear Caraguatatuba assinatura de convênios com as APMs das Unidades Escolares, “objetivando subvenção por um prazo de A alegria que se apreende nas escolas municipais seis meses, prorrogável por iguais períodos, de ma- e no ambiente de trabalho da equipe técnica estará tam- neira que possamos fazer face ao pagamento de mães, bém na avenida, durante o Carnaval, na homenagem da que se constituem fator fundamental do projeto (...)”. Escola de Samba da cidade vizinha. Apenas alguns pro- Problema e Solução: Os Objetivos do Projeto tagonistas da história do Projeto lembrarão, provavelmente, da situação crítica, apesar dos contextos favoráveis, na qual o mesmo surgiu: o prefeito Antonio Carlos da Silva, que não estava satisfeito com o atendimento Diante da emergência, inicia-se o Projeto Tem- da empresa que oferecia a merenda; a secretária Roseli pero de Mãe que, mais do que oferecer refeições Morilla Batista que queria resolver o problema de ali- melhores e capacitar recursos humanos da própria mentação nas escolas com um tempero de mãe, subs- comunidade, está proporcionando uma melhoria do tituindo a impessoalidade das refeições servidas por padrão alimentar de todos os alunos da rede municipal terceiros; e as responsáveis pela elaboração do Proje- e, conseqüentemente, o de suas famílias, além de to: Cláudia Burihan e Rosana Albuquerque (super- buscar para toda a comunidade uma melhor qualidade visoras) e Silvana Regina Fonseca (nutricionista). de vida. O Projeto, por meio das mães auxiliares da A preocupação com a qualidade já existia desde cozinha e educadores, direção, funcionários e, sobre- 1997, quando não satisfaziam os resultados de uma cozinha central (Cozinha Piloto). Em 1997, tem início • Compreender e valorizar a importância do tra- uma transformação e, em 1998, estão instaladas todas balho da merenda no processo de desenvolvi- as cozinhas de forma descentralizada, já permitindo mento físico e mental da criança; 31 Caraguatatuba – Tempero de Mãe tudo, pais, tem objetivos como: Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas • Valorizar a merenda com um tempero caseiro, qual o que fundamentalmente está em curso é a proporcionando uma melhor aceitabilidade compreensão das estruturas internas de um con- diante da diversidade de alimentos oferecidos; teúdo que intencionalmente se quer ensinar às cri- • Incentivar as outras mães a expandir suas idéias anças”. É justamente em função disso que cada criando receitas e participando da elaboração escola, de acordo com sua comunidade específica, de cardápios; apresenta um Tempero de Mãe com característi- • Identificar as técnicas de higienização dos cas próprias. alimentos; Uma Gestão Humanizada • Reconhecer o aproveitamento integral dos alimentos, evitando desperdícios; • Conscientizar a comunidade da importância de Gerenciado pelo Setor de Alimentação Escolar aplicar recursos financeiros na compra de ali- diretamente ligado à Secretaria, o Projeto tem uma mentos saudáveis e de bom preço, buscando a equipe engajada para a qual há uma capacitação con- participação ativa no exercício da cidadania; tínua, como afirma Manu, seu diretor, um técnico em • Melhorar a saúde da comunidade por meio de Nutrição e Dietética que, afirmando ter sentido o problema da fome “bem de perto”, conduz a proposta um programa de reeducação alimentar; • Promover uma maior aceitação pelas crianças com empenho máximo. Diretamente ligados ao Tem- de uma alimentação mais variada, nutritiva pero de Mãe estão a nutricionista, quatro superviso- e saborosa; res, dois motoristas, quatro ajudantes, dois auxiliares • Colaborar na implantação do Projeto Horta administrativos, almoxarife, auxiliar de almoxarifado Escolar, com a colaboração de alunos, profes- e quatro ajudantes. Esse grupo operacionaliza a aqui- sores e comunidade; sição em sistema global (uma empresa fornecedora • Incentivar o cultivo de hortas domésticas; contratada por licitação); as atividades de uma Cen- • Reservar os restos não aproveitáveis dos ali- tral de Abastecimento com rigoroso controle de qua- mentos para reaproveitar em adubo orgânico; lidade; a distribuição e a supervisão do armazenamento nas escolas. • Colaborar com a prevenção e desnutrição infantil; Mas o Projeto mobiliza profissionais de todas • Servir como agentes multiplicadores de boas as áreas, promovendo a interação entre as várias práticas alimentares na comunidade. equipes da Secretaria. Trata-se de ação inter-setorial Objetivos específicos, orientações didáticas e que envolve a prefeitura, o Conselho Municipal de critérios de avaliação são elaborados e registrados Educação (parceiro que fiscaliza); conselhos de es- de acordo com o projeto pedagógico de cada uni- cola; associações amigos de bairros e associações dade escolar. Para a secretária Roseli Morilla, “para de pais e mestres, unidades executoras, com per- alavancar mudanças na prática pedagógica junto às sonalidade jurídica de direito privado, sem fins lu- crianças, é necessário a construção de projetos, na crativos, “que possui autonomia para exercer direi- 32 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam tos e contrair obrigações com recursos recebidos sobretudo, um fiscalizador atento, que tem garantido de órgãos governamentais, ou entidades públicas e avanços no Tempero de Mãe. privadas, doações a aqueles resultantes das promo- Operacionalizando ções de campanhas escolares, bem como fomenta atividades pedagógicas” (Decreto 041/99, de 1º de O Projeto tem, nas mães, um de seus maiores março de 1999). É com as APMs que a prefeitura realiza convênio investimentos. Seu comprometimento, dedicação e de cooperação técnica e financeira e é para elas que saber solucionam o problema de mão-de-obra, agre- são repassados os recursos para pagamento das mães, gam valor sócio-afetivo à atividade e efetivam a ação mediante os respectivos planos de trabalho apresen- como agentes de multiplicação, conforme declaram tados sempre no início do ano letivo, como ocorre com unanimemente os entrevistados Manu, diretor da o montante de R$ 10 mil mensais para outras ativida- Merenda, e as supervisoras Cláudia e Rosana. Assim, são atividades para operacionalização do des, depositado na conta corrente do Banco Nossa Projeto: a capacitação teórico-prática das mães; a ela- Caixa, tendo como titular o presidente de cada APM e boração de cardápios adequados às diversas faixas seu tesoureiro. etárias, com participação das mães e do CAE; a criação O trabalho das APMs de Caraguá pode ser senti- de um manual popular sobre cultura alimentar; o in- do em sua diversidade e eficiência desde a organiza- centivo e orientação na implantação da horta escolar; ção e cuidado na gestão dos recursos, bem como pode a criação de um caderno de receitas Reinventando a ser observada a criatividade em projetos que envol- Culinária, elaboradas pelas mães auxiliares de cozinha; vem a comunidade, como a Escola de Roupa Nova, a colaboração das mães para promover reuniões com que utiliza o cadastro de profissionais para obras de os pais e a comunidade; o desenvolvimento de um manutenção das escolas; a Escola de Pais; e as própriprojeto pedagógico multidisciplinar envolvendo os as Hortas Escolares, que são concebidas de forma auProjetos Horta Escolar e Tempero de Mãe. tônoma e funcionam de acordo com os interesses dessas novas comunidades escolares, que buscando Dificuldades tratar os alunos em sua totalidade, têm as medidas necessárias discutidas entre famílias e profissionais Em que pesem as ações avaliadas, há dificulda- em igualdade de condições. des que estão sendo solucionadas. Enquanto as mães O Conselho de Alimentação Escolar – CAE, do tempero estão gostando do trabalho por ficar perto colegiado composto por representantes dos Poderes dos filhos e poder cozinhar para outras crianças que Executivo e Legislativo, dos professores, de pais de do salário mensal de R$ 313,20, mais R$ 30,00 para apenas um Decreto (171/04, de 27 de setembro de aquisição de cesta básica, a prefeitura, em alguns mo- 2004), trata-se de recurso institucional do Projeto e, mentos, tem que enfrentar a oposição daquelas que 33 Caraguatatuba – Tempero de Mãe conhecem, além do fato de terem sido capacitadas e alunos e de trabalhadores rurais do município, não é Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas consideram a contratação irregular, pela não realização Para o prefeito Antonio Carlos da Silva, o Projeto de concurso público. Quanto a isso, a equipe esclare- Tempero de Mãe, “entre seus vários objetivos, acabou ce que o processo de seleção e a efetiva aprovação por gerar empregos para algumas mães de alunos, das mães auxiliares de cozinha são submetidos às criou um melhor aproveitamento de alimentos, resga- APMs, que ratificam, em ata, as contratações. tou hábitos alimentares, estimulou o Projeto Horta A participação também é um processo delicado e Escolar (alimentos naturais sem aditivos químicos) e a que se constrói cotidianamente. No início (1999), a reeducação alimentar. Colabora também para uma organização das APMs foi frágil. Mas, em 2001, sobretu- maior participação familiar no processo educativo”. do pelo trabalho dos diretores de identificação de Ainda que a equipe técnica e gestores apontem lideranças, aparecem as primeiras disputas e apre- que alguns aspectos do Projeto ainda são desafios, sentação de chapas com propostas. Hoje as APMs são como a extensão da educação alimentar e do cultivo atuantes em todas as escolas e parceiras indis- de hortas de forma efetiva para a comunidade, Tem- pensáveis ao Projeto e às outras iniciativas da Educa- pero de Mãe, concebido acatando a diferença entre ção Municipal. comer e alimentar-se, revalorizou profissionais medi- O desenvolvimento do Projeto Horta Escolar é ante capacitação; sensibilizou educadores e diretores; outro item citado como não satisfatório. Apesar de estabeleceu rotinas e procedimentos, obtendo com todas as escolas terem formado sua horta, os resulta- isso resultados como: dos são irregulares, de canteiros diversificados, a pe• A efetiva municipalização de merenda, possiquenos espaços apenas com temperos. Para a equibilitando qualidade; regionalização de cardápios pe, a solução está em viabilizar uma assistência téc(adaptações em cada escola); e introdução de nica que alcance toda a Rede. Enquanto isso não acon- mais alimentos frescos; tece, comunidades escolares mais experientes cau- • A substituição de alimentos formulados por sam “inveja” a outras que, movidas pela boa vonta- refeições (o fim da merenda seca); de, fazem tentativas. • O enriquecimento dos alimentos; • A introdução da educação alimentar; Os Resultados • A capacitação de profissionais; • O fim da desnutrição. Não há crianças desnutridas; A receita anual da Secretaria Municipal de Educação é de R$ 30,607 mil. Dessa receita, 10% é • A prevenção da obesidade. O município fechou investido na merenda escolar; desse valor, 17% são as cantinas nas escolas, enfrentando a disputa recursos de verbas estaduais (Quota Estadual do de interesses presentes nessas atividades; Salário Educação - QESE) e federais (Fundo nacional • Elaboração de um Caderno de Receitas, no prelo, de Desenvolvimento da Educação – FNDE/Programa contendo receitas selecionadas de todas as Nacional de Alimentação Escolar - PNAE). Caragua- escolas pelos critérios, custo e criatividade tatuba investe R$ 305 mil de seu orçamento anual (alternativas diferenciadas e aceitabilidade dos em Educação. alunos), para distribuição. 34 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Considerações Finais ção infantil à última série do ensino fundamental), tornando-a obrigatoriamente foco de atenção da Administração Municipal. Segurança alimentar, alimentação enriquecida, Ao oferecer 32 mil refeições de qualidade a 16 alimentos não-convencionais são conceitos que pas- mil alunos, diariamente, Caraguá é um exemplo. En- saram a fazer parte do universo da escola. O acesso a tretanto, a simplicidade e o impacto do Projeto Tem- refeições saudáveis e o envolvimento em ações de pero de Mãe é a chave para a replicação de experiên- reeducação alimentar, pelos alunos e suas famílias, do Poder Público Municipal, por envolver conhecimen- tuição brasileira é clara em relação a essa alimentação to da realidade, por viabilizar ações intersetoriais, por quando a indica como um direito humano de toda cri- estimular a participação e a parceria com a sociedade ança e adolescente que freqüenta a escola (da educa- civil e criar espaços para isso. 35 Caraguatatuba – Tempero de Mãe cias exitosas nesse importante setor de intervenção são fundamentais para a merenda escolar. A Consti- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 36 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Ipuã Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção Monir Neder Júnior, Presidente Câmara Municipal de Ipuã Maria do Carmo M. T. Cruz Pça Rotatória Deolinda F. - Coimbra, 919 Ipuã- SP - CEP 14610-000 Tel.: (16) 3832-1287 - Fax: (16) 3832-1287 O Parlamento Jovem é um exercício de cidadania. É o E-mail: [email protected] engajamento dos jovens na administração do Município. Monir Neder Jr., presidente da Câmara Municipal É uma visão diferenciada da política. Estamos discutindo com as crianças e os adolescentes os seus direitos e os seus deveres. Rosangela Coutinho Romualdo, vereadora Quando eu crescer quero ser vereadora e continuar ajudando o meu bairro. Geiza Alves Pereira, vereadora mirim pela Emef Prof. Osvaldo Francelin O Município de Ipuã, com uma população de Como pedagogo e professor de história da edu- 1 12.561 habitantes , está localizado na região adminis- cação, sempre trabalhou com seus alunos os siste- trativa de Franca. Sua economia, baseada na agricultu- mas políticos, a importância de conhecer a história, ra, tem a cana-de-açúcar como o principal produto. de resgatar a cultura como forma de valorização do O atual presidente da câmara municipal está em momento presente, bem como conhecer a política seu segundo mandato e sempre teve a intenção de local. Com o apoio dos vereadores e da comunida- abrir a câmara para a comunidade e, com esse intuito, de, o Legislativo criou, primeiramente, o Museu Po- organizou dois projetos para atrair a população para lítico, em julho de 2003, que abriga documentos, visitar e conhecer o funcionamento da câmara, bem materiais e pertences resgatados dos antigos políti- como para fazê-la entender o papel do vereador. cos do município. O material coletado está exposto no saguão da câmara e é utilizado pelos escolares para pesquisa. 1. FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal, 2004. 37 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas A segunda iniciativa foi a criação do Parlamento readores mirins, a proporção de alunos por escola, a Jovem. A intenção era trabalhar com os jovens o papel idade para os estudantes se candidatarem e votarem, do Legislativo e a sua importância para a comunidade, a possibilidade ou não de reeleição, entre outros as- bem como desenvolver o interesse pelo município e pectos do processo. Aprovado o projeto na câmara, o presidente visi- pela política, valorizando o protagonismo juvenil. tou as escolas para explicá-lo aos alunos e incentivá- Uma comissão de representantes da câmara los a participar. municipal, após pesquisas, foi conhecer o Parlamento Jovem promovido pela Assembléia Legislativa do Es- O Parlamento Jovem de Ipuã tado de São Paulo. Através de um concurso de redação, o jovem tem a possibilidade de vivenciar um dia da Assembléia e conhecer o seu papel. Entretanto, o Criado em março de 2003, através do Projeto de interesse do Legislativo de Ipuã era criar uma espécie Resolução 02/03, de autoria do presidente da câmara, 2 de câmara mirim , na qual os jovens vivenciassem, e aprovado, por unanimidade, pelos vereadores, trans- por um período, o papel dos vereadores. formou-se na Resolução 03/03, normatizada através de ato da mesa da câmara municipal. Por iniciativa do presidente da câmara, foi realizada uma reunião, em fevereiro de 2003, com a direção O Parlamento Jovem de Ipuã tem como princi- de todas as escolas públicas e particulares do municí- pal objetivo o engajamento da criança e do adoles- pio, ocasião em que foi apresentada a proposta do Par- cente no contexto político-social do município, dele- lamento Jovem que contou com a adesão das escolas gando a eles a responsabilidade, a preocupação e a locais. Em reuniões com a direção/coordenação das solução dos problemas que afetam suas vidas no mu- escolas, foram discutidas e adequadas as normas de nicípio. A finalidade é possibilitar aos alunos das es- funcionamento do projeto, definidos o número de ve- colas públicas e particulares a vivência do processo democrático, mediante participação em uma jornada parlamentar na câmara municipal, com diplomação e 2. A pesquisa foi realizada pela Internet e, na oportunidade, a Câmara de exercício do mandato. Permite que as escolas discu- Ipuã não tomou conhecimento da existência de nenhuma câmara mirim nos moldes do modelo almejado por Ipuã. tam com seus alunos todo o processo eleitoral, a im- 3. As escolas participantes da rede pública são as Escolas Municipais de portância do voto e como pode ser exercida a cidada- Ensino Fundamental – Emefs Prof. Monir Neder, Vereador Alberto Conrado, Antônio Francisco D’Ávila e Prof. Osvaldo Francelim. Da rede nia através do voto. particular, participam o Colégio Bom Samaritano e o Centro de Educa- Hoje, todas as seis escolas de ensino fundamen- ção Construindo – CEC. 4. A Emef Vereador Alberto Conrado tem até a 4ª série e apresentou inte- tal participam, sejam elas da rede pública ou particu- resse em participar do processo. Ficou acordado com a direção das 3 lar . Os estudantes matriculados, com idade de 10 a demais escolas que apenas os alunos desta escola, a partir de nove anos de idade, poderiam participar. 4 14 anos , podem fazer parte do Parlamento Jovem e 5. Na primeira proposta, o Parlamento Jovem tinha 11 membros, pois uma de todo o processo de eleição que o precede. escola particular não iria participar do processo. No decorrer das reuniões com os diretores e coordenadores, essa escola decidiu aderir, e, O Parlamento Jovem é composto de 13 vereado- em comum acordo com todos os participantes, o número foi ampliado 5 para 13. res , com mandato de um ano. Não é permitida a ree- 38 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam leição dos seus membros, de forma a permitir a parti- nome da escola; e assinaturas do eleitor, do diretor e cipação de um número maior de crianças e jovens. do presidente da câmara). Destaca-se que a vaga no As cinco escolas com menos de mil alunos têm duas Parlamento Jovem é da escola e não do aluno, portan- vagas e a escola com mais de mil alunos tem três to, se um aluno for transferido ou se evadir, a vaga vagas. O Parlamento Jovem realizou, em novembro ficará para o suplente. Um dos critérios estabelecidos de 2004, a segunda eleição de seus membros. pela direção/coordenação das escolas envolvidas é que 6 o aluno que estiver freqüentando a 8ª série não po- A Campanha Eleitoral e a Eleição derá se candidatar à vaga de membro do Parlamento Jovem, pois no ano seguinte não estará mais na esco- Cada escola tem a incumbência de definir as re- la; esse aluno participa do processo votando. gras para escolha dos candidatos e para a eleição. A campanha eleitoral tem início, em todas as es- O envolvimento dos professores e diretores de- colas, no primeiro dia útil do mês de outubro e termina pende de cada escola. Em algumas, os professores no último dia útil do mês de outubro do mesmo ano. trabalham o tema das eleições em sala de aula, antes No ano de 2004, o processo foi iniciado após o térmi- de implementar o projeto do Parlamento Jovem. Em no do processo eleitoral de 3 de outubro, de forma a outras, solicitam uma palestra do presidente da câma- não prejudicar o caráter educativo do processo. ra municipal para apresentar, aos estudantes, o proje- Na maioria das escolas, são escolhidos um ou to, bem como o papel do Legislativo. Alguns diretores dois alunos que representarão as salas no processo e/ou coordenadores repassam o processo para todos eleitoral como candidatos . os alunos. Cabe às organizações o papel de incentivar Após a definição das candidaturas, tem início a os estudantes. A câmara dá o suporte e apoio nos ca- campanha eleitoral. Os alunos preparam a sua campa- sos em que é solicitada. nha e elaboram propostas, muitas vezes com o apoio Todo o processo eleitoral é realizado nas respec- das famílias e dos professores. Os candidatos são ori- tivas escolas. Cada instituição tem a responsabilidade entados para incluir em seu programa de trabalho pro- de repassar à câmara municipal a relação dos alunos postas referentes à escola e ao município. com idade entre 10 a 14 anos que podem participar do Na maioria das escolas, os candidatos visitam processo. A câmara municipal emite um título indivi- todas as salas de aula apresentando suas proposições dualizado para cada aluno, com seus dados respecti- aos alunos, mas com a preocupação de não prejudicar vos (nome; data de nascimento; número do título; os trabalhos em andamento. Em outras instituições, há um dia para que todos se apresentem. Alguns candidatos fazem santinhos, cartazes ou utilizam outras 6. Na Emef Vereador Alberto Conrado participam como candidatos os alunos de 3ª série. formas de divulgar suas idéias. O horário dos recreios 7. Uma escola, com um número maior de alunos, realizou um procedi- também serve às campanhas, que envolvem toda a mento intermediário: os candidatos de cada sala se reuniram e entre eles escolheram alguns para participar da eleição na escola. escola e são muito parecidas com o processo eleitoral 39 Ipuã – Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção 7 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Posse, Treinamento e Trabalhos do Parlamento Jovem real. Vários professores orientam os eleitores para ficarem atentos às propostas, pois os candidatos devem ser votados pela possibilidade de realização delas. A eleição dos membros do Parlamento Jovem Os candidatos eleitos tomam posse na última de Ipuã ocorre em todas as escolas do município no sessão ordinária do ano, na câmara municipal, e o pre- mesmo dia, isto é, na primeira sexta-feira do mês de sidente do Legislativo preside a sessão solene de posse do Parlamento Jovem. novembro de cada ano. Para melhor exercer o papel de vereadores mi- A eleição é direta e secreta e os membros do rins, os membros do Parlamento Jovem passam por Parlamento Jovem são escolhidos por seus pares. A uma capacitação que ocorre de 15 a 31 de janeiro do escola organiza o processo de votação e a câmara acom- 9 ano subseqüente à eleição. No primeiro ano , foram panha o processo. No dia da votação, cada estudante orientados sobre o funcionamento dos trabalhos 8 deve trazer o seu título . legislativos, sobre o Regimento Interno da Câmara Na maioria das escolas, o processo eleitoral ocor- Municipal e a Lei Orgânica do Município de Ipuã, em re em uma sala predeterminada, onde há espaço para cinco tardes. A capacitação foi realizada pelo presidena urna. É realizado um cronograma de votação, em que te da câmara municipal. cada sala de aula vota separadamente, de forma a não As atividades do Parlamento Jovem ocorrem nos gerar filas e evitar o comprometimento no andamento mesmos períodos dos trabalhos da câmara municipal. das aulas. Ao chegar à sala de votação, os alunos têm Há, inclusive, o período de recesso, no mês de julho o título conferido pela equipe da escola; recebem a de cada ano. cédula com os nomes dos candidatos, assinam a lista Uma sessão ordinária mensal acontece no recin- de presença, votam e recebem o comprovante de to do plenário da câmara municipal, na segunda quar- votação. Os candidatos fiscalizam todo o processo de ta-feira de cada mês, com início às 19 horas e término votação evitando boca-de-urna e validando a lisura às 20 horas. Ela ocorre uma semana após a sessão da do processo. câmara municipal, de forma a não prejudicar os traba- No final do processo, os votos são apurados na lhos legislativos. presença dos candidatos e, em algumas escolas, de O Parlamento Jovem elege uma mesa diretora, todos os alunos. São identificados os vereadores mi- nos mesmos moldes da câmara municipal, cujas atri- rins eleitos e os possíveis suplentes. A totalização buições, guardadas as devidas proporções, são aque- dos votos válidos, brancos, nulos e abstenções é pos- las constantes no Regimento Interno oficial e na Lei teriormente encaminhada à câmara municipal. Orgânica do Município de Ipuã. 8. Em caso de perda, é solicitado um novo título à câmara. 9. A segunda legislatura terá início em janeiro de 2005. 40 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Nas sessões, os vereadores mirins discutem bela 1). No ensino fundamental, há 1.961 matricula- assuntos pertinentes ao município e às suas escolas. dos, sendo 1.721 na rede municipal e 240 na rede Fazem requerimentos com pedidos de seus colegas e particular . 11 da população de seus respectivos bairros, que são A primeira votação ocorreu em 2003, para os ve- votados e, quando aprovados, são enviados ao readores que tiveram o mandato em 2004. Em novem- presidente da câmara municipal, que, por sua vez, os bro de 2004, aconteceu a segunda eleição dos verea- encaminhará ao chefe do Poder Executivo municipal dores mirins que vão exercer o mandato em 2005. mediante ofício. Destaca-se que a autoria é do Em algumas escolas, a participação de 2004 foi vereador mirim. maior do que em 2003 e em outras houve uma redução. Segundo os gestores, as escolas que tiveram par- A Participação das Crianças e dos Jovens no Parlamento Jovem ticipação ampliada deveu-se ao trabalho desenvolvido pelos vereadores mirins atuais. No pleito de 2003, apresentaram-se 53 candidatos, com maior participação feminina. Em 2004, o nú- Do processo eleitoral, participam aproximada10 mente 1.150 crianças e jovens , envolvendo todas mero de candidatos aumentou, bem como a repre- as escolas de ensino fundamental do município (Ta- sentação masculina (Tabela 2). Tabela 1: Número de votos e variação porcentual, por escola, em 2003 e 2004 Escolas Emef Prof. Monir Neder Votos - 2003 Votos - 2004 Variação (%) 229 275 20 92 103 12 Emef Vereador Alberto Conrado 272 268 -1 Emef Antônio F. D’Ávila 412 351 -15 Centro de Educação Construindo 121 108 -11 33 37 12 1.159 1.142 -1 Emef Prof. Osvaldo Francelin Colégio Bom Samaritano Total 10. Em 2004, houve 6 votos brancos, 13 nulos e 135 abstenções. 11. FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal, 2003. 41 Ipuã – Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção Fonte: Câmara do Município de Ipuã Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Tabela 2: Número de candidatas e candidatos, por escola, e variação porcentual, em 2003 e 2004 Escolas Candidatas Candidatas Candidatos Candidatos 2003 2004 Variação Meninas (%) Variação Meninos (%) 2003 2004 Emef Prof. Monir Neder 3 6 2 4 100 100 Emef Prof. Osvaldo Francelin 3 2 4 4 -33 0 Emef Vereador Alberto Conrado 9 3 8 11 -67 38 Emef Antônio F. D’Ávila 9 5 2 13 -44 550 Centro de Educação Construindo 7 3 1 2 -57 100 Colégio Bom Samaritano 3 1 2 5 -67 150 34 20 19 39 -41 105 Total Fonte: Câmara do Município de Ipuã, 2004 Ao ser analisado o gênero dos membros do Par- um número maior de representantes do gênero femi- lamento Jovem, observa-se que, em 2003, foi eleito nino e, em 2004, do gênero masculino (Tabela 3). Tabela 3: Número de eleitas e eleitos, por escola, e variação porcentual, em 2003 e 2004 Variação Meninas (%) Variação Meninos (%) Eleitas Eleitas Eleitos Eleitos 2003 2004 2003 2004 Emef Prof. Monir Neder 2 1 0 1 -50 Emef Prof. Osvaldo Francelin 1 0 1 2 -100 100 Emef Vereador Alberto Conrado 1 1 1 1 0 0 Emef Antônio F. D’Ávila 2 2 1 1 0 0 Centro de Educação Construindo 1 1 1 1 0 0 Colégio Bom Samaritano 1 0 1 2 -100 100 Total 8 5 5 8 -38 60 Escolas Fonte: Câmara do Município de Ipuã, 2004 Os vereadores mirins que estão exercendo o lagoa; aplicação de asfalto; conserto de buracos em ruas mandato em 2004 apresentaram 28 requerimentos, com próximas da escola; conserto de bancos e luminárias 38 demandas e quatro indicações (Gráfico 1). A maioria quebradas em praças; aquisição de bolas e de nas áreas de educação, lazer e infra-estrutura. As uniformes; colocação de brinquedos em centros de requisições feitas pelos vereadores mirins abrangeram lazer; cobertura de quadras esportivas das escolas; a colocação de placa de aviso de perigo próximo a uma colocação de ventiladores nas salas de aula e na cozinha 42 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam da escola; disponibilização de veículo para transportar que a população participa do processo, requerendo pacientes de um bairro distante para a cidade; criação pedidos aos vereadores mirins e participando das ses- de opções de lazer para os jovens; disponibilização de sões parlamentares. parque de diversões em eventos; realização de No decorrer do ano, os vereadores mirins tam- campeonatos interclasses; aumento do número de bém realizaram um projeto de pesquisa sobre o muni- médicos em postos de saúde; instalação de biblioteca cípio. Com um roteiro orientador, eles pesquisaram em um bairro; organização do uso da quadra da escola, sobre educação, urbanismo, meio ambiente e saúde. reservando horário para as meninas jogarem vôlei; O levantamento contou com o apoio de pais, profes- apresentação de reforço policial na saída dos alunos; sores e, em alguns casos, de colegas. Dessa forma, foi entre outras. Das 38 demandas requeridas, foram possível conhecer melhor a cidade e buscar soluções atendidas 14 (40%) e nenhuma indicação. para os problemas detectados. A cada sessão, um tema É importante observar que várias das reivindica- era discutido e os resultados apresentados. No final ções dos vereadores mirins cabia à organização inter- das quatro sessões , foi elaborada uma carta aberta na da própria escola resolver. Outras demandas apre- ao prefeito municipal relatando os problemas levanta- sentavam influência dos pais, familiares e vizinhos. dos, com sugestões para melhorar a qualidade de vida Observou-se, em conversa com os vereadores mirins, do município. Fonte: Câmara do Município de Ipuã, 2004 Gráfico 1: Número de requerimentos e indicações apresentado pelos vereadores mirins, discriminado por escola 12. Foi uma sessão por tema pesquisado. 43 Ipuã – Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção 12 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Instituições Participantes e seu Papel tando o aluno a assinar, entregam o comprovante de votação, fazem a apuração e encaminham os dados de votação para a câmara. O Parlamento Jovem envolve a câmara, as escolas Os professores e a direção/coordenação das es- e a prefeitura. A Câmara do Município de Ipuã é colas podem utilizar o projeto do Parlamento Jovem responsável pelo gerenciamento e o suporte admi- para discutir questões do município, o processo políti- nistrativo do projeto. Também divulga a proposta nas co brasileiro, entre outros temas. Os vereadores con- escolas e sistematiza as regras de funcionamento. taram com o apoio de alguns professores para realizar Apóia o processo eleitoral, dá palestras nas escolas o diagnóstico do município e do bairro e, posterior- interessadas, descrevendo o papel e as atribuições do mente, apresentá-lo na sessão mirim. Legislativo, o sistema político brasileiro e outros temas A prefeitura do município, órgão que recebe os de interesse. O Legislativo municipal também fornece requerimentos do Parlamento Jovem, tem a respon- os títulos de eleitores aos alunos, a relação digitalizada sabilidade de atender às requisições e às indicações, com os nomes dos alunos aptos a participar da quando for possível, e respondê-las, em caso negati- votação, bem como os comprovantes de votação. vo, esclarecendo os motivos que impossibilitam o seu A conferência e a sistematização dos dados rece- atendimento. Conforme a natureza da solicitação, os bidos das escolas são feitas pela equipe do Legis- requerimentos são encaminhados às áreas ou respon- lativo, que também organiza a posse dos vereadores didos pelo próprio gabinete do prefeito. mirins, confeccionando até seus diplomas. O Recursos Humanos presidente da câmara preside as sessões do Parlamento Jovem; orienta os vereadores mirins, sugere e acompanha pesquisas referentes à situação do Uma qualidade do projeto é o aproveitamento município e do bairro de cada escola. Também é dos recursos humanos existentes no município. fornecido transporte a dois vereadores mirins, que Na câmara municipal, o presidente coordena o pro- moram em bairro distante da cidade e os pais não jeto e conta com o apoio de dois assistentes legislati- dispõem de veículo. vos. Ele é responsável por realizar a articulação com as As escolas municipais são responsáveis por di- escolas; dar palestras quando solicitado; e acompanhar vulgar o projeto para os alunos e realizar o processo o processo de eleição, fornecendo toda a infra-estrutu- de votação, controlando as candidaturas, a distribui- ra e o apoio logístico para o funcionamento adequado. ção de títulos, a votação e a apuração. Encaminham à Alguns vereadores participam do processo visitando câmara municipal, anualmente, a relação dos alunos as escolas no dia das eleições e também freqüentando aptos a votar. Estabelecem um local e preparam a algumas sessões do Parlamento Jovem. urna, organizam a votação, de forma a não prejudicar Um dos assistentes legislativos dá apoio admi- as aulas e, no dia da eleição, fazem a conferência do nistrativo aos vereadores mirins elaborando ata, título com a lista recebida da câmara municipal, orien- digitando as requisições, imprimindo as cédulas com 44 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam os nomes dos candidatos, preparando estatísticas, etc. mirins, entre outros. O gasto com impressão foi de O outro assistente é responsável por entregar comu- R$ 200,00, em 2004. As escolas utilizam a sua infra- nicados, transportar os vereadores mirins e fornecer estrutura física para realizar a eleição e não têm gasto todo o material necessário. algum além daquele já existente com sua equipe. As escolas utilizam seus próprios recursos. Nor- Resultados Observados malmente, um diretor, um vice-diretor, um coordenador, um professor ou uma secretária participam mais ativamente das reuniões preparatórias e da organiza- O maior avanço da iniciativa é o resgate da cida- ção da eleição. Observou-se também que alguns pro- dania, através da criança e do jovem que vivenciam fessores discutem a iniciativa na escola, trabalhando a uma jornada parlamentar. O projeto tomou dimensões importância da escolha do vereador mirim, o conceito amplas e o seu processo de implementação enrique- de cidadania, a consciência sobre o município em que ce os alunos, professores, a direção da escola e a equi- vivem, com seus problemas, as ações que poderiam pe da câmara. Em algumas escolas, aconteceram ações melhorá-lo, etc. interdisciplinares. Vários diretores e professores en- Entretanto, há sempre um professor, em função trevistados comentaram que todo o processo é edu- de suas habilidades, que se torna referência para as cativo, pois, desde a campanha eleitoral, trabalharam a crianças e os jovens; na maioria das escolas, é o profes- conscientização da importância do voto. Para exem- sor de português, de geografia ou o professor de clas- plificar, alguns alunos prometiam o inviável ou traziam se. Esses docentes assumiram o projeto, apoiando a balas como uma forma de “conquistar” os eleitores. elaboração de textos das propostas de campanha e Essas posturas foram discutidas com os estudantes e também orientando sobre a importância do voto. vários candidatos que as adotaram não ganharam. As Deve ser ressaltado que todas as escolas partici- escolas trabalharam a perda com os alunos como um pantes do projeto foram visitadas e os entrevistados processo de aprendizagem. informaram que o projeto não atrapalhou a rotina da Observa-se um entusiasmo, por parte dos ve- escola. O Parlamento Jovem pode ser incorporado em readores mirins, com a proposta do Parlamento Jo- várias disciplinas, dinamiza a escola, traz os pais e a vem, pois a experiência permitiu-lhes conhecer a câmara municipal para dentro da instituição. cidade e exercitar o papel do Legislativo municipal. Recursos Materiais e Financeiros vens na política municipal. A conquista mais signifiOs recursos materiais utilizados são da própria cativa, para a equipe da câmara e de algumas esco- câmara municipal e das escolas. Há gastos com o trans- las, foi que os alunos compreenderam como funcio- porte dos vereadores mirins do bairro rural para a câ- na o processo político de uma cidade e perceberam mara, e também com a impressão dos títulos de elei- que não é fácil realizar tudo o que se almeja. Um tores, listagens dos eleitores, diploma dos vereadores desafio apresentado pelos vereadores mirins é a di- 45 Ipuã – Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção Com a proposta, tem início a participação dos jo- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Desafios ficuldade de esclarecer a população sobre o que o vereador não pode executar; por ser uma responsabi- O Parlamento Jovem é recente em Ipuã e neces- lidade do Executivo. sita de ajustes no decorrer de sua consolidação. A maior satisfação de diversos vereadores mirins Na maioria das escolas, identificou-se que o acontecia quando alguma reivindicação era atendida, envolvimento dos professores e coordenadores acon- gerando um reconhecimento de seu trabalho por parte teceu apenas no processo eleitoral. Após a posse dos dos colegas, professores, pais e da própria comunidade. vereadores mirins, não houve um acompanhamento Destaca-se aqui o protagonismo dos vereadores da escola sistemático das ações. O apoio de alguns professores Emef Osvaldo Francelin, do bairro Capelinha, em especial na elaboração de requerimentos ou na pesquisa sobre da vereadora mirim. Como nessa região não havia o município foi pontual. Faltou uma prestação de vereadores, os alunos fizeram o papel dos mesmos e contas dos vereadores mirins, aos seus eleitores, so- conseguiram atender a várias reivindicações do bairro. Foi bre as realizações. a escola que conseguiu a maior integração dos vereadores Algumas escolas, ao identificar essa situação, mirins com os demais alunos; os jovens eram cobrados apresentaram um balanço das realizações dos verea- para realizar as reivindicações e fazer o acompanhamento dores mirins durante o processo da segunda eleição dos pedidos. Quando um requerimento era negado, para o Parlamento Jovem. Uma escola organizou reu- tinham que explicar as razões aos seus colegas. Perio- nião entre os vereadores atuais e os candidatos para dicamente, levavam outros alunos para participar da sessão. que eles discorressem sobre o papel do vereador Os gestores da experiência apontam uma mu- mirim. Uma outra instituição está incentivando a par- dança comportamental dos jovens. O espírito de lide- ticipação dos eleitos nas últimas atividades do Parla- rança é desenvolvido e eles começam a entender os mento Jovem para que se familiarizem com as futu- seus direitos e deveres, conscientizando-se do seu ras ações, bem como solicitando aos vereadores atuais que orientem sobre as suas funções antes mes- papel como cidadão. mo de a câmara realizar a capacitação, em janeiro. Outro avanço observado é a democratização da Uma escola pretende realizar, periodicamente, uma câmara municipal, que se torna mais acessível aos alu- visita dos vereadores eleitos às salas, esclarecendo nos, a seus pais e suas escolas. Há importante intera- seus trabalhos na Câmara Mirim. ção da equipe do projeto com os dirigentes das escoOutro ponto a ser aprofundado é a falta de las e a preocupação do presidente da câmara municicomprometimento de alguns vereadores mirins. pal em dar um retorno às escolas sobre o desempe- A maioria participou ativamente do processo, mas nho de seus vereadores. No final do ano, a equipe alguns apenas compareciam às reuniões mensais elaborou um comunicado agradecendo a participação na câmara. Em nove sessões, há vereadores mirins e a colaboração de todos os envolvidos e apresentou que faltaram uma única vez e outros que faltaram em a consolidação dos resultados alcançados. cinco sessões. 46 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Considerações Finais O principal desafio do Parlamento Jovem está em iniciativa da câmara municipal, o projeto não foi incor- A proposta de Parlamento Jovem é amplamente porado por todos os vereadores. Com a eleição, entra- replicável em outros municípios paulistas e brasileiros. rão novos vereadores e nova presidência da câmara Percebe-se que não há grandes despesas para a será indicada. A continuidade do Parlamento Jovem sua realização, necessitando apenas de vontade política dependerá do interesse de um vereador eleito em para articular as instituições na construção de um espaço continuar incentivando a participação das escolas e que amplie a participação da criança e do jovem. dos vereadores mirins eleitos. Há uma norma, aprova- O Parlamento Jovem é uma iniciativa interessan- da pela câmara, que gerencia a continuidade do proje- te, pois democratiza o acesso ao Legislativo, bem to nos anos seguintes, mas sabe-se que o envol- como abre um canal para a discussão sobre a situação vimento dos vereadores e da equipe do Legislativo é do município com as crianças, jovens, pais, alunos, fundamental para a realização do processo. professores, enfim, com toda a comunidade local. Um É importante ainda fortalecer o protagonismo Parlamento Jovem pode ser mais ou menos interes- infanto-juvenil, dando maiores desafios e responsabi- sante de acordo com a inserção que tiver na comuni- lidades aos vereadores mirins. dade local. 47 Ipuã – Parlamento Jovem – A Cidadania em Construção garantir a continuidade do projeto. Apesar de ser uma Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 48 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Itapecerica da Serra Plano Diretor de Bairro Elisabete Darci Ferreira Alexandre Vilela, Diretor de Departamento Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente Rua Inácio Pereira dos Santos, 80 A experiência de governar uma cidade ensina que nada se faz Itapecerica da Serra - SP - CEP 06871-020 sozinho. Cada idéia que se transforma em planejamento e Tel.: (11) 4667-9612 - E-mail: [email protected] depois em ação é fruto do trabalho em equipe. Como numa orquestra, o resultado depende do diálogo entre o maestro e os músicos, da habilidade de cada componente e da perfeita harmonia do conjunto. Confiar nas pessoas e apostar na sua capacidade de realizar é, por isso, a base de uma gestão aberta, democrática e participativa. Lacir Baldusco, prefeito de Itapecerica da Serra O mundo globalizado vive novas complexidades cipais participativas como uma nova estratégia políti- sociais, geradas pela internacionalização do capital e ca, capaz de forjar um novo conceito de governabilida- massificação do consumo. Um mundo em que os Esta- de, que extrapole os limites da instituição profissional dos nacionais perdem legitimidade e eficácia adminis- e burocrática do Poder Executivo, espraiando-se para trativas, tendo que ceder partes de seu poder decisório a sociedade civil. A participação popular passa a ser, para a sociedade civil. Vive-se no Brasil um momento cada vez mais, condição para a eficiência administrati- em que o Estado perde legitimidade, como conseqüên- va e manutenção da governabilidade. Torna-se funda- cia de suas limitações estruturais para realizar políticas mental que a ação política contemple, no seu trabalho, redistributivas e da decrescente governabilidade autô- a capacitação da população, no sentido de constituí-la noma na execução e fiscalização de políticas públicas. como parceira no processo de gestão. Essa nova realidade aponta para a grande discus- Histórico são deste início de milênio: o poder local. Discutir sua existência real, sua efetividade, seus limites, seu papel ideológico e sua função política são os maiores (...) a visão que o administrador municipal tenha acerca do povo e de sua condição de desafios atuais. ação política, condiciona em muito a ação É nesse quadro novo e contraditório que se inse- concreta que venha a desencadear. re a discussão sobre o papel das administrações muni- Jair Militão da Silva 49 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas A aprovação do Estatuto da Cidade, em 2001, lei Cerca de 600 pessoas participaram desse processo, federal que obriga todo município com mais de 30 no qual se observou que a compreensão dos urbanis- mil habitantes a elaborar seu próprio Plano Diretor tas sobre como administrar a cidade não era diferente num prazo de até cinco anos, com o objetivo de con- do pensamento da população. Esse processo conferiu ter o crescimento urbano desordenado e ao mesmo à equipe técnica, composta por um representante de tempo criar novas alternativas de desenvolvimento cada secretaria municipal e consultores, a legitimida- econômico, fez com que vários municípios se mobili- de necessária para realizar as ações demandadas. zassem no sentido de elaborar o seu Plano Diretor. O Plano Diretor Estratégico, aprovado em 29 de O Município de Itapecerica da Serra, situado na maio de 2001, por meio da Lei 1.238, reúne os objeti- Região Metropolitana de São Paulo, com uma popula- vos e estratégias das políticas públicas para o municí- ção de 155.171 habitantes, vinha enfrentando, desde pio, em suas diversas áreas de atuação, para o período os anos 70, problemas com o crescimento desordena- de 2001 a 2016. No capítulo III, seção IV, que dispõe do e com a ocupação irregular do solo, o que caracteri- sobre as diretrizes de política ambiental relativas a pro- zava uma situação extremamente grave, já que o mu- jetos setoriais nas áreas de saneamento, habitação e nicípio tem 100% do seu território em área de prote- projetos de melhoramentos urbanos, no parágrafo 2º, ção de mananciais. há a seguinte determinação: “Caberá ao município O prefeito Lacir Baldusco, arquiteto e urbanista, mobilizar as comunidades envolvidas para que partici- que se encontra em sua segunda gestão, percebeu, já pem das decisões relativas a esses programas e da no início do mandato, que a forma de gestão do muni- implementação dos mesmos, devendo as interven- cípio tinha que ser diferenciada. Levando isso em con- ções previstas harmonizarem-se com o disposto nos sideração, quis fazer um plano de gestão que condu- Planos Diretores de Bairro elaborados com a participa- zisse o município para um desenvolvimento sustentá- ção das comunidades”. vel. Assim, solicitou aos professores Candido Malta O Plano Diretor de Bairro contempla o desenvol- Campos Filho e Luis Carlos Costa, também arquitetos vimento local, com o objetivo de elevar as condições e urbanistas, que o auxiliassem na discussão do rumo socioeconômicas, físicas e ambientais do bairro. Nele, que a cidade deveria tomar e contratou-os como con- são listados todos os melhoramentos ambientais e sultores para a elaboração do Plano Diretor de urbanos necessários e também programas e projetos Itapecerica da Serra. para o desenvolvimento profissional e econômico da Formado o grupo que discutiria a elaboração do população do bairro. Plano Diretor, optou-se por convidar representantes Assim, os Planos Diretores de Bairro são ferra- de todos os segmentos socioeconômicos para a dis- mentas essenciais para a realização do Plano Diretor, cussão, que tinha como objetivo realizar um diagnósti- promovendo a conscientização popular em relação à co dos problemas existentes e das possibilidades de necessidade de planejamento, análise e priorização solução. Para convidar e mobilizar a população, utili- das ações a serem realizadas, e em relação aos custos zou-se o jornal local, além do mailing da prefeitura. das ações propostas. Essas parcerias efetivas com a 50 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam população são fundamentais para o entendimento, o forta- Atualmente, 21.775 moradores do bairro Jacira e lecimento e a fiscalização das diretrizes estabelecidas. 15.431 do bairro Crispim estão passando pelo projeto. A coordenadora da Secretaria de Planejamento e Já foram beneficiados 20.643 habitantes do Parque Meio Ambiente, Jumara Moraes Boccatto, afirma que: Paraíso e 3.628 do bairro Branca Flor. Há parceria com “A idéia de fazer o Plano Diretor de Bairro é que as o programa Habitar Brasil – BID, do governo federal, e pessoas saibam que isso custa e precisa de planeja- participação de comissões de bairro e do Conselho mento. Que o bairro é uma extensão da casa. O bairro Municipal de Planejamento. é como se fosse um cômodo da casa deles”. O município foi dividido em 15 Unidades Territo- Primeiro do Brasil, o Plano Diretor de Bairro de riais de Planejamento – UTP (Fig. 1). Para cada UTP foi Itapecerica da Serra foi instituído em 29 de maio de elaborado um Plano Diretor de Bairro e uma proposta 2001, como elemento fundamental do Sistema de Pla- de desenvolvimento, que inclui seu orçamento. A nejamento e Gestão Urbana a ser desenvolvido em experiência piloto foi realizada no Parque Paraíso a partir âmbito local, para promover ações e projetos de ges- de uma pesquisa preliminar do bairro, com base no tão vinculados ao Plano Diretor Estratégico do Municí- cadastro existente e em levantamento de campo. pio. Após passar pela câmara municipal e ser aprova- As pesquisas de campo são realizadas por uma equipe do, torna-se lei. de estagiários e pela coordenação do projeto, com a O bairro Branca Flor foi o primeiro a ter o Plano finalidade de levantar dados quantitativos como, por Diretor de Bairro aprovado pela câmara e transforma- exemplo, o número total de habitantes do bairro. Se- do em lei, em 22 de novembro de 2001. gundo o coordenador, Alexandre Vilela, “o trabalho é A revisão dos planos deve ser feita periodica- muito bom, porque você consegue um retorno alto e também consegue obter os dados reais”. anualmente. As prioridades e projetos definidos são Esse trabalho, feito de casa em casa, permitiu le- implementados de acordo com as dotações orçamen- vantar, por exemplo, a existência de 5.000 lotes, en- tárias da prefeitura ou de algum projeto, de outras es- quanto pelas plantas aprovadas na prefeitura, eram so- feras de governo, que contemplem o município. mente 3.800. Outra fonte de informações foram as fotos São objetivos do Plano Diretor de Bairro realizar aéreas. O georreferenciamento está disponível há sete levantamento da situação fundiária e das condições meses apenas. A pesquisa qualitativa foi realizada atra- de cada bairro (pesquisas quantitativas e qualitativas); vés de questionário com 16 perguntas, que foi encami- calcular déficit ou superávit de equipamentos nhado para 5% da população do bairro (definida por sor- públicos relativos à população futura; decidir, em teio), com o objetivo de traçar o perfil socioeconômico conjunto com a comunidade, os projetos e programas da região. Esses dados tabulados compõem um diag- prioritários; elaborar propostas e orçamento junto à nóstico, que é levado para assembléia no bairro e sub- população; e propor, quando necessário, programas metido à discussão, com base na legislação existente, de regularização fundiária. no custo da ação proposta e no que pode ser feito. 51 Itapecerica da Serra – Plano Diretor de Bairro mente, no mínimo, a cada quatro anos e, no máximo, Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Existem diferenças de um bairro para outro em Os bairros são divididos em Unidades de Vizinhança relação à mobilização. No bairro Branca Flor, em que o (conceito desenvolvido pelo professor Candido Malta). projeto Habitar Brasil está sendo desenvolvido, a mo- Uma unidade territorial pequena como o Branca Flor, bilização é alta, enquanto no Parque Paraíso, apesar de composta por dois bairros, foi dividida em três Unida- ser densamente povoado e da população dispor de des de Vizinhança. Cada uma delas escolheu dois re- uma renda maior, a mobilização é menor. Nessas as- presentantes, que compõem a comissão de bairro. O sembléias, o Poder Público e as comunidades do bair- Parque Paraíso, por exemplo, que tem quatro unidades ro que estão em planejamento são assessorados por de vizinhança, possui oito representantes (quatro titu- equipes técnicas, decidindo, em conjunto, quais os lares e quatro suplentes, porém com direitos iguais). Os vereadores participam das reuniões, levam projetos e programas estratégicos necessários e/ou as suas lideranças (que também auxiliam na mobi- prioritários para o melhoramento dos bairros. Figura 1: Mapa com as Unidades Territoriais de Planejamento – UTPs 52 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam lização) e fazem questionamentos e colocações. anos, o município mudou para melhor porque os ser- Ajudam a equipe técnica a responder às perguntas e viços públicos que eram muito difíceis, como a ligação são responsáveis pela defesa e aprovação do plano de água e luz, depois do Plano Diretor, foi possível na câmara municipal. normalizar o parcelamento, o que permitiu a regularização dos lotes e o acesso aos serviços públicos”. Gerenciamento da Iniciativa Segundo o coordenador do programa, esse processo foi realizado por completo em dois bairros (Parque Paraíso e Branca Flor), em virtude da dificuldade Em cada bairro, a população é representada por uma comissão de bairro, composta por um mínimo de de recursos. Em outros dois bairros (Crispim e Jacira), três até o máximo de sete membros, eleitos pela pró- o projeto está em andamento e no bairro Valo Velho pria comunidade. Um desses representantes é esco- deve ser feito na seqüência. Em Itapecerica da Serra, lhido, em assembléia, no final do processo, e tem sua a aplicação dessa metodologia levou três meses. participação assegurada no Conselho Municipal de Pla- Recursos Financeiros nejamento e Gestão – CMPG, esfera de governo que tem por finalidade assegurar a implementação das diretrizes estabelecidas pelo Plano Diretor Estratégico e O custo total para a elaboração de um Plano Dire- dar aval às questões relacionadas ao desenvolvimen- tor de Bairro é de aproximadamente R$ 60.500,00, to do município não previstas no PDE e em sua Lei considerando-se um período de cinco meses (tempo Complementar de Regulamentação Urbanística. O médio gasto para elaboração de um plano), o paga- CMPG é um colegiado composto por dez representan- mento dos salários da equipe técnica, demais encar- tes do Poder Público, sendo sete deles da prefeitura e gos, gasolina dos veículos, materiais de pesquisa e das diversas secretarias e três do Governo do Estado. variação mensal. Todos os recursos financeiros utiliza- Dez, também, são os representantes da sociedade ci- dos são próprios do município. Os orçamentos dos projetos e programas propos- vil, dos quais cinco da sociedade civil organizada e tos por Plano Diretor de Bairro são feitos pelo Poder cinco representantes das comissões de bairro. O Conselho consultivo e deliberativo, que está em Público em parceria com a população, criando um sis- início de atividade, foi criado por decreto, em abril, e tema pelo qual é possível saber o volume de investi- tomou posse em julho. As reuniões estão sendo men- mento necessário em cada bairro. Recursos Humanos O Sr. Delmiro Xavier dos Santos, representante do Conselho Municipal de Planejamento e Gestão, diz que “o Plano Diretor abre o horizonte para as pessoas A equipe é composta pela coordenadora da Se- ficarem informadas e saberem o que pode ou não pode cretaria de Planejamento e Meio Ambiente, responsá- ser feito, além de orientar em relação ao desenvolvi- vel pelo trabalho, um diretor de departamento, uma mento respeitando a questão ambiental. Nos últimos assistente social, um arquiteto, engenheiros e dez es- 53 Itapecerica da Serra – Plano Diretor de Bairro sais, apesar de previstas como trimestrais no estatuto. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas tagiários. Conta também com o auxílio de recursos urbanização de favelas porque estabelece um novo humanos de outras secretarias. núcleo urbano dotado de toda a infra-estrutura básica. Cada moradia é um módulo, que prevê a ampliação Resultados Alcançados futura pelo próprio morador, com o acréscimo ordenado de novos cômodos. A iniciativa é um modelo de Os principais resultados são o estudo da situação reurbanização capaz de restituir o direito a uma mora- do bairro e a identificação de demandas futuras; o or- dia digna para as famílias beneficiadas. çamento dos projetos e programas necessários ao O Plano Diretor de Bairro do Jardim Branca Flor é desenvolvimento local; o avanço da participação po- complementado com a construção e ampliação de pra- pular tanto na etapa de planejamento quanto na de ças, escolas, unidades de saúde, barracão cultural e elaboração do orçamento. muitas outras melhorias, estruturando um novo bair- O trabalho realizado até agora no Parque Paraíso e ro, que representa uma conquista e motivo de orgulho no bairro Branca Flor beneficiou 26 mil pessoas. Há para seus moradores. dois Planos Diretores de Bairro em andamento que Um outro resultado importante é que, de um ano devem beneficiar mais 40 mil pessoas. para cá, depois de uma evasão muito grande, as indús- O Sr. Paulo César da Silva, há 43 anos morador no trias estão retornando ao município e outras mostram bairro Branca Flor, afirma que, quando chegou, a área disposição em se instalar em Itapecerica. As obras do era uma fazenda, não tinha nada. “Até 1996, não foi Rodoanel, que vai passar pelo município, constituem, feito nenhum trabalho pela prefeitura municipal no sem dúvida, um importante atrativo. Dessa forma, tan- sentido de evitar a ocupação da área. Depois do Plano to o Plano Diretor Estratégico quanto o Plano Diretor Diretor de Bairro, a comunidade começou a participar. de Bairro significaram um grande passo no sentido de Tudo foi discutido e as prioridades foram decididas estabelecer, para o município, diretrizes fundamentais em conjunto com a comunidade”. capazes de garantir um desenvolvimento sustentável, No bairro Branca Flor, o Plano Diretor permitiu a o único compatível com sua realidade ambiental. criação de uma Zona Especial de Interesse Social - Zeis, Desafios com a conseqüente efetivação de um projeto social de interesse público que proporcionou a remoção da população do local de várzea (rio Embu-Mirim), área de Os desafios são muitos e dos mais diferentes ní- ocupação irregular, para novas moradias regulares. veis. O primeiro deles é em relação à vontade política A implantação do Plano Diretor de Bairro subsi- necessária para a continuidade ou não do programa, diou o pleito de recursos do Programa Habitar Brasil - pois o prefeito não se reelegeu. BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para Essa experiência evidencia, muito fortemente, a a construção de conjunto habitacional; a remoção das necessidade de o Poder Público trabalhar interse- famílias; a recuperação ambiental; e a reurbanização cretarialmente, integrando recursos materiais, técni- do bairro. O projeto difere radicalmente do sistema de cos e humanos, potencializando, assim, insumos e re- 54 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam sultados, o que representa um desafio para os funcio- do novas formas de sociabilidade, novos valores cul- nários das secretarias, que ainda possuem uma visão turais, novas concepções de elaboração, execução e setorizada, pois o Plano Diretor só acontece de forma fiscalização de políticas públicas e, ainda, novas ma- efetiva com um trabalho matricial. neiras de organização popular. A escassez de recursos ocorrida durante o de- A participação da comunidade, ainda hoje, é bas- senvolvimento da experiência; o fortalecimento e o tante restrita ou até inexistente, na maioria dos muni- avanço da participação popular e a manutenção e esta- cípios, quadro que vem lentamente se alterando, a belecimento de canais participativos; e a descoberta partir de novas experiências de gestão participativa. de fontes de geração de emprego e renda, que sejam Outras gestões apenas a incluem formalmente, de for- compatíveis com a realidade ambiental do município ma demagógica, o que é bastante compreensível, em e que permitam um desenvolvimento sustentável, são função de toda a história autoritária e restritiva da polí- outros desafios que se apresentam. tica e da administração pública brasileira. Nesse sentido, a contribuição do Município de Considerações Finais Itapecerica da Serra, com a instituição dos Planos Diretores de Bairros, é extremamente relevante, pois, A municipalização das políticas públicas certamen- além de marcar com o pioneirismo da iniciativa, inova te fortaleceu e reafirmou a autonomia local, desde a também em relação às possibilidades de espaços descentralização de recursos e decisões que permiti- organizativos, fundamentais para a garantia da ram racionalizar custos e economizar nas ações de- participação efetiva, introduzindo as Unidades de senvolvidas, até encontrar respostas mais adequadas Vizinhança. às necessidades locais e a abertura de novos espaços Essa experiência, além de fácil replicabilidade, é para o avanço da participação popular. referência de uma nova visão de mundo, que nega o Essa experiência demonstra que os governos paradigma individualista e excludente, hoje hegemô- municipais constatam a necessidade de estabelecer nico. Como coloca Paulo Freire , essa nova visão pres- parcerias ativas com a sociedade civil, melhor forma supõe a existência de estruturas democratizantes e de garantir resultados concretos. As experiências não de estruturas inibidoras da presença participativa municipais participativas vêm se multiplicando, geran- da sociedade civil no comando da res publica. 1. FREIRE, Paulo. Educação e participação comunitária. In: Inovação, p. 310. 55 Itapecerica da Serra – Plano Diretor de Bairro 1 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 56 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Jundiaí Travessia Segura Trânsito Seguro – Responsabilidade de Todos Nós Monir Neder Júnior, Presidente Câmara Municipal de Ipuã Elisabete Darci Ferreira Pça Rotatória Deolinda F. Coimbra, 919 Ipuã - SP - CEP 14610-000 Tel.: (16) 3832-1287 - Fax: (16) 3832-1287 Por suas características, o município é o local privilegiado para E-mail: [email protected] que o cidadão participe da construção de um ambiente acessível, por meio de ações diretas do cidadão e de intervenções dos Poderes Públicos municipais – a câmara e a prefeitura municipal. A Constituição Brasileira de 1988 traz, em seu ar- 1 ao transporte adaptado, à convivência familiar, ao tra- o tigo 3 , inciso IV, que constituem objetivos fundamen- balho, à saúde, à educação, etc. tais da República Federativa do Brasil, promover o bem Assim, várias iniciativas municipais vêm contri- de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, buindo para a integração social, especialmente dos idade e quaisquer outras formas de discriminação. deficientes. Para se construir um município para to- Em seu artigo V, o mesmo texto constitucional dos, é necessário que o administrador público esteja estabeleceu os direitos fundamentais da pessoa hu- aberto às necessidades de todos os segmentos de mana. Dessa forma, os governos municipais devem sua população. ter como objetivo fundamental o bem-estar das pes- “O município para todos é aquele onde se prati- soas idosas, das crianças e adolescentes, dos portado- cam ações concretas visando à participação comunitá- res de deficiência, etc. ria de todos os segmentos da população local; onde as A Constituição de 1988 destacou, ainda, alguns pessoas podem circular livremente e em condições direitos fundamentais e específicos da pessoa com adequadas às suas limitações decorrentes da idade, deficiência, do idoso e da juventude, como o direito à condição física ou sensorial; onde os idosos, jovens e igualdade, à eliminação das barreiras arquitetônicas, deficientes são informados adequadamente sobre os serviços públicos colocados à sua disposição; onde a 1. SOUZA, Ubiratan da S.R. de. O município para todos. Brasília, 1998. legislação municipal (Lei Orgânica do Município, Plano Ministério da Justiça, Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Diretor, Leis Orçamentárias, Leis de Parcelamento e Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Série: Política Municipal para a Pessoa Portadora de Uso do Solo, Código de Obras e Edificações, Código Deficiência. 57 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Histórico de Posturas, etc.) possa ser utilizada como instrumento de integração social e não como mecanismo de O trânsito, em condições seguras, é um 2 exclusão e opressão dessas pessoas.” direito de todos e dever dos órgãos e Os processos acelerados de urbanização e o cres- entidades, competentes do Sistema Nacional cimento significativo da frota de veículos em circula- de Trânsito, a estes cabendo, no âmbito das respectivas competências, adotar as medidas ção, nas últimas três décadas, têm produzido profun- 3 destinadas a assegurar esse direito. das mudanças na estrutura das cidades brasileiras, gerando custos econômicos decorrentes de aciden- A partir da implantação do Código de Trânsito tes e problemas ambientais, causados por altas velo- Brasileiro, através da Lei 9.503, de 23 de setembro de cidades e excessivos volumes de tráfego. 1997, várias ações foram implementadas nos municí- A necessidade de estabelecer uma nova forma pios paulistas, com o objetivo de reduzir o número de de administração municipal capaz de superar a inércia acidentes de trânsito, buscando garantir maior segu- do cotidiano e as práticas tradicionais de encaminha- rança para o pedestre e para os portadores de necessi- mento dos problemas, bem como tornar efetiva a in- dades especiais. clusão de toda a população em todos os espaços mu- 2 O Município de Jundiaí, com área de 432 km , nicipais, apontam para o aprofundamento das formas 2 2 sendo 112 km de área urbana e 320 km de área rural, descentralizadas de gestão. e 323 mil habitantes, tem localização privilegiada. Si- A descentralização e a municipalização já são, tuado a 34 km de Campinas e a 63 km da cidade de portanto, elementos concretos que compõem a ges- São Paulo, possui acesso facilitado pelas rodovias tão municipal e, sem dúvida, constituem o fundamen- Anhangüera, Bandeirantes e Dom Gabriel Paulino to das novas formas de gestão participativa e inclusi- Bueno Couto, além da proximidade com as rodovias va. Sua localidade permite trabalhar com correlações Castelo Branco, Dom Pedro I e Fernão Dias. de forças favoráveis aos excluídos, pois a gestão pú- Esta localização bastante favorecida torna Jundiaí blica passa a incorporar as necessidades e os anseios um pólo cada vez mais interessante para as empresas de todos. Os espaços abertos para a participação con- de logística, atraídas pela fácil distribuição de merca- figuram um grande laboratório para a demonstração dorias. Com frota de aproximadamente 168.500 veíde formas de governabilidade baseadas na solidarie- o culos, está classificado em 9 lugar no Estado de São dade e na elaboração coletiva de propostas de ação Paulo, em número de veículos registrados, represenque permitam avançar na solução de graves probletando 1,22% da frota estadual e 0,4% da nacional. mas como o do trânsito das cidades médias e grandes Tem o trânsito municipalizado desde 1997 e, a e sua relação com a população. partir daí, vem conquistando melhorias consideráveis nos sistemas viário e de transportes. A Secretaria Municipal de Transportes mantém um conjunto de di- 2. FUNDAÇÃO PREFEITO FARIA LIMA – CEPAM. Município acessível ao retrizes que vêm permitindo a realização de uma polí- cidadão. São Paulo, 2001. o o 3. Código de Trânsito Brasileiro, artigo 1 , § 2 . 58 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam tica pública articulada e integrada na área, com resulta- para a ordenação do trânsito; e a disciplina do direito dos bastante satisfatórios . de passagem. As características referidas vão desde a continui- A continuidade administrativa permitiu a ma- dade administrativa do atual secretário municipal de nutenção do projeto e de uma mesma equipe de Transportes, Sr. José Carlos Sacramone, que está na trabalho, possibilitando uma qualificação e amadu- secretaria desde 1992 e que, ao longo desse tempo, recimento quanto aos critérios adotados, em que a vem implantando um processo de gestão inspirado na prioridade passou a ser a garantia da segurança do concepção do traffic calming europeu, considerado pedestre e não o fluxo de automóveis. Como produ- como uma das possibilidades de enfrentar os proble- to desse trabalho, a área de transportes de Jundiaí mas gerados pelo trânsito de maneira eficiente. O ter- conta com uma equipe qualificada, integrada e ex- mo designa a aplicação através da engenharia de trá- tremamente motivada em relação ao trabalho, em fego, de regulamentação e de medidas físicas, desen- todos os seus departamentos. volvidas para controlar a velocidade e induzir os moto- A preocupação com a educação da comunidade ristas a dirigir de modo mais apropriado à segurança e para o trânsito é também uma constante, e diversos ao meio ambiente. projetos vêm sendo desenvolvidos nesse sentido. Os problemas verificados na cidade, como o ex- O Projeto Travessia Segura, inaugurado em se- cesso de velocidade, o crescente volume de tráfego e tembro de 2002, reforça o conceito do direito de todo o comportamento inadequado de motoristas, que cau- cidadão à cidade, instrumentalizando o ir-e-vir com sam insegurança para os moradores e usuários das segurança e autonomia dos usuários, inclusive daque- vias, além da degradação do ambiente, também po- les com mobilidade reduzida, pois “o que define a pes- dem ser tratados com as técnicas de traffic calming. soa portadora de deficiência não é a falta de um mem- No sentido restrito, seus objetivos dividem-se bro nem a visão ou a audição reduzida. O que caracte- em três categorias: reduzir o número e a severidade riza a pessoa portadora de deficiência é a dificuldade dos acidentes; reduzir os ruídos e a poluição do ar; e de se relacionar, de se integrar na sociedade. O grau revitalizar as características ambientais das vias atra- de dificuldade para a integração social é que definirá vés da redução do domínio do automóvel. que é ou não portador de deficiência” . 4 Assim, essa orientação tem promovido, na Se- Garantir aos pedestres condições seguras de tra- cretaria Municipal de Transportes de Jundiaí, o vessia em vários pontos da cidade, incluindo, em al- estabelecimento de critérios como: foco no pedestre guns casos, aos portadores de deficiências visual e e não no automóvel; a eliminação de conflitos no trân- física, é o principal objetivo da iniciativa. sito; a avaliação e a disciplina dos tempos utilizados Trata-se de programa continuamente focado em ações de educação, engenharia e fiscalização de trânsito. A engenharia analisa os pontos definidos para serem trabalhados, tendo por base a estatística de aci- TADORA DE DEFICIÊNCIA - CORDE. A proteção constitucional da pessoa portadora de deficiência. Brasília, 1994, p. 24/25 dentes de trânsito e as discussões com a comunidade. 59 Jundiaí – Travessia Segura 4. COORDENADORA NACIONAL PARA INTEGRAÇÃO DA PESSOA POR- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas De acordo com a característica de cada ponto, são rea- Foi executado um gabarito de madeira, conside- lizadas melhorias, como a sinalização, a iluminação, a rando a altura do apoio de pé da cadeira de rodas e o remodelação geométrica, os canteiros, o rebaixamen- início da rampa de maneira que, independentemente to de guia para deficiente físico, a instalação de sinal do abaulamento da faixa de rolamento, permita o aces- sonoro para deficiente visual, além de implantação de so adequado ao cadeirante. A conquista mais signifi- gradis, quando necessário. cativa, segundo os gestores, foi a sensibilização dos A educação de trânsito, utilizando folheto expli- profissionais envolvidos, a partir do contato direto com cativo e o trabalho de uma equipe, orienta a população as necessidades especiais desses pedestres, no sen- sobre como realizar uma travessia com segurança, fa- tido de humanizar os espaços públicos para que sir- zendo uso dos equipamentos implementados. vam a todos. A fiscalização realiza o monitoramento sistemáti- Etapas de Implementação co dos pontos. A localização dos rebaixamentos foi definida em conjunto com o Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Deficiência, nas proximidades de Segundo a ABNT (1983), “Engenharia de Tráfego clínicas que cuidam de reabilitação e de serviços de é a parte da Engenharia que trata do planejamento do utilidade pública como escolas, hospitais, unidades tráfego e da operação das vias públicas e de suas áre- básicas de saúde, correios, bancos, teatros, etc. as adjacentes, assim como do seu uso, para fins de A implantação dos equipamentos com sinal sonoro transporte, sob o ponto de vista de segurança, conve- para os portadores de deficiência visual foi definida com o niência e economia”. Assim, o Departamento de En- Instituto Jundiaiense Luiz Braille, como também a confec- genharia, com base em estatísticas de acidentes de ção de placas com orientação em braile. O projeto envol- trânsito ocorridos, identifica os pontos críticos, analisa ve o Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Defici- as causas dos acidentes à luz das informações conti- ência – CMPPD, o Ministério da Justiça (financiamento das nos boletins de ocorrência policial e apresenta pro- das ações relativas à acessibilidade) – e a comunidade postas de ações para reduzir os acidentes nesses lo- (encaminhamento de solicitações para estudo de traves- cais, elaboradas com base em auditorias de campo, na sia pelos diversos canais disponibilizados pela prefeitura). técnica de análise de conflitos de tráfego , realizadas Na execução dos rebaixamentos, realizados de de forma rotineira pelo órgão gestor, além de discus- acordo com as especificações da Associação Brasilei- são com diversos segmentos da comunidade, para os ra de Normas Técnicas – ABNT (norma NBR 9050/ quais foi disponibilizado um serviço telefônico, além 1994), alguns problemas foram identificados. Para das sugestões enviadas através dos vereadores e das saná-los, os membros do CMPPD e técnicos da Prefei- associações de moradores. 5 tura promoveram a visita das rampas existentes por pessoas portadoras de necessidades especiais, para 5. O conceito, desenvolvido por Perkin e Harris, em 1967, surgiu da necessidade de obter melhores e mais rápidas informações que aquelas for- que, a partir de um estudo técnico, os padrões de aces- necidas pelos acidentes. Eles identificam situações de acidentes potenciais, às quais chamaram de “conflitos de tráfego”. sibilidade das rampas pudessem ser revistos. 60 O Convênio147/01, firmado com o Ministério da sável pela criação dos projetos, para ensinar à popu- Justiça, possibilitou esse trabalho. A instalação de si- lação como utilizar de forma satisfatória os instrumen- nais sonoros em semáforos e o rebaixamento de gui- tos disponibilizados. O conteúdo a ser passado para a as contaram com financiamento do Ministério da Jus- população é definido pela professora responsável tiça. Com a verba, foram realizados 236 rebaixamen- pelo setor de educação da Secretaria Municipal de tos de guias, a adequação de 31 vagas de estaciona- Transportes e por psicóloga contratada. mento e a instalação de sinais sonoros em nove cruza- A educação e a cultura da população é contribui- mentos do município, com informações registradas ção básica no tocante à redução dos índices de aci- em braile, para os deficientes visuais. dentes em um dado local. Quando as pessoas conhe- O primeiro foi o da rua Petronilha Antunes com a cem e respeitam as leis e regras de trânsito, partici- rua Abílio Figueiredo (escolhido por ser um local críti- pam de treinamentos para aumentar suas habilida- co, que oferece pouca visibilidade); o segundo, na ave- des e, além disso, têm acesso às informações a res- nida Humberto Cerezer, em frente à Escola Estadual peito dos dados estatísticos dos acidentes de trânsi- Getúlio Nogueira de Sá, no Caxambu. to locais, elas passam a ser importantes colaborado- De acordo com a característica de cada ponto, res. Nesse sentido, são desenvolvidos vários proje- foram planejadas e realizadas melhorias como: sinali- tos como o Amigos do Trânsito, o Circolando Escola zação, iluminação, remodelação geométrica, canteiros, e o Trânsito em Transe, além de concursos sobre o rebaixamento de guia para deficiente físico, sinal so- tema realizados nas escolas. noro para deficiente visual e até implantação de gra- A fiscalização completa a estratégia do trabalho, dis. O projeto de acessibilidade do projeto, contem- monitorando sistematicamente os pontos, utilizando plou o princípio do Desenho Universal, ou seja, é vol- inclusive equipamentos eletrônicos de controle de tado a todos os usuários, respeitando as diferenças velocidade. A fiscalização, integrada pela Polícia Mili- entre as pessoas, inserindo soluções, às vezes de ca- tar, Guarda Municipal e Fiscalização de Trânsito, ráter universal – como as rampas nas travessias, que potencializou as ações nessa área. servem a carrinhos de bebe ou de compras, a quem Em 2002, foram iniciadas as obras de um amplo transporta carga ou a pessoas com dificuldade de lo- projeto para integrar todo o transporte de passagei- comoção – e às vezes adotando soluções especiais, ros de Jundiaí, chamado Sistema Integrado de Trans- como o código de diferenciação de piso, através de porte Urbano – Situ, em que os usuários podem che- texturas, para orientação de deficientes visuais. gar a qualquer lugar da cidade com mais facilidade, Através de folheto explicativo, a equipe da Edu- comodidade e rapidez. Seu funcionamento é seme- cação de Trânsito orienta a população sobre como rea- lhante ao de um metrô, com várias linhas interligadas lizar uma travessia segura fazendo uso dos equipa- que saem de um terminal central para as regiões pe- mentos implementados. No dia da inauguração, foi riféricas da cidade. As linhas vão do centro ao bairro e realizada uma performance, com cinco atores con- de bairro a bairro. Todo o sistema funcionará sete tratados, com a supervisão de uma psicóloga respon- dias por semana e durante 20 horas por dia e com 61 Jundiaí – Travessia Segura Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Membros do CMPPD e técnicos da prefeitura se isso haverá menor circulação de veículos pelas ruas, uniram e promoveram a visitação das rampas exis- melhorando o tráfego e a qualidade do ar. tentes e grande parte delas teve que ser retrabalhada. Ônibus e terminais foram especialmente projetados para atender às necessidades dos deficientes Gerenciamento físicos, que terão acesso facilitado. Desafios O projeto é gerenciado pela engenheira Ana Paula Silva, da Secretaria Municipal de Transportes, e Sensibilizar e qualificar a equipe técnica para a equipe é composta por todos os funcionários e di- essa nova postura, cujo foco não é mais o automóvel, retores dessa mesma secretaria, especialmente das mas sim o pedestre, buscando a humanização dos três áreas envolvidas: engenharia, educação e fisca- espaços públicos; a irregularidade das guias e lização, além de cinco atores e uma psicóloga contra- calçadas; a dificuldade técnica para implantar os tados para as perfomances educativas realizadas. equipamentos e rebaixar guias; a dificuldade em O Projeto Travessia Segura conta com o apoio manter uma regularidade nos investimentos direto do engenheiro Robson José Apezzato, respon- necessários e em relação à educação da comunidade sável pelo Planejamento de Trânsito, do coordena- para a utilização correta dos equipamentos, são os dor do Departamento de Fiscalização, Sr. José desafios gerais encontrados. Roberto Martinelli, e da professora Maria Emilia Especificamente durante a execução dos rebai- Jubran Picciano, responsável pelas ações educativas. xamentos, observou-se que, embora as obras seguis- É importante ressaltar que todas as sextas-feiras sem a Norma NBR 9050/1994, em função das caracte- ocorre uma reunião com os responsáveis pelas três rísticas físicas da via, como largura e altura das calça- áreas, os quais, em conjunto, discutem e avaliam as das e perfil da faixa de rolamento, especialmente a necessidades do projeto. altura do abaulamento, grande parte das rampas não Recursos Financeiros se tornaram funcionais, e, por isso, dois problemas foram enfrentados. O primeiro foi a inviabilidade de o cadeirante ven- As fontes de recursos foram provenientes, em cer o degrau, de até um centímetro, permitido pela sua primeira etapa (2002), do Ministério da Justiça, norma, no final da rampa, na sarjeta. O segundo pro- com R$ 200 mil, além dos recursos orçamentários. blema se dava na interface entre a faixa de rolamen- A Secretaria Municipal de Transportes dispõe de to, sarjeta e rampa, pois, dependendo da altura do um fundo próprio, desde 1997, que possibilita, assim, abaulamento da faixa de rolamento, o apoio de pé da maior autonomia em relação às suas iniciativas. Os cadeira de rodas enroscava, impedindo o cadeirante recursos desse fundo são oriundos do pagamento das de prosseguir sua trajetória. multas aplicadas no município. 62 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Resultados Alcançados Contudo, em poucas cidades se observam ações adequadas para melhoria da segurança viária e conseqüente redução dos acidentes de trânsito. As atuações da • Aumento na segurança viária com redução dos comunidade e dos órgãos públicos, quando existem, acidentes no trânsito. nem sempre são realizadas de forma eficaz, quer pela • Qualificação da equipe técnica para o trabalho, falta de conhecimento das pessoas no tratamento do que tem como foco o pedestre e não mais o problema, quer pela ausência de um conjunto de ações fluxo de carros. com enfoque global. • Estabelecimento de uma política pública inte- Jundiaí, hoje, tem muito a ensinar a outros muni- grada e articulada, como o Situ, que permitiu cípios paulistas, no sentido de minimizar os vários im- potencializar todas as ações. pactos causados por toda essa mudança. • Encaminhamento de proposta de lei para regula- Destaca-se que a continuidade administrativa do rização de guias e calçadas. secretário municipal de Transportes, Sr. José Carlos • Realização de campanhas e ações educativas, Sacramone, teve especial relevância para que novos para ampliar a compreensão das pessoas sobre critérios fossem incorporados de forma efetiva, atra- as questões relativas ao trânsito. vés do amadurecimento e qualificação da equipe técnica que hoje, de fato, trabalha tendo como foco de • Melhoria das condições de acessibilidade para suas ações o pedestre. todos os cidadãos, inclusive os portadores de O Município de Jundiaí concretiza com esse pronecessidades especiais. jeto o verdadeiro propósito das ações relativas ao trân• Por Jundiaí ser um município pólo regional, os 11 sito, que é o de promover a segurança viária e reduzir municípios do entorno também são beneficiados. ao máximo o número de riscos de acidentes no trânsito, a baixo custo, dentro dos padrões de boa circulação Considerações Finais dos usuários da via, além do tratamento do acesso irrestrito, reforçando o conceito do direito à cidade a Os processos acelerados de urbanização e o cres- todo o cidadão, instrumentalizando o ir-e-vir com se- cimento significativo da frota de veículos em circula- gurança e autonomia dos usuários, inclusive daqueles ção, nas últimas três décadas, têm produzido profun- com mobilidade reduzida. das mudanças na estrutura dos municípios brasileiros, gerando custos econômicos decorrentes de acidentes e problemas ambientais, causados por altas velocidades e excessivos volumes de tráfego. sito urbano são atualmente um grave problema para o País, principalmente nas grandes e médias cidades. 63 Jundiaí – Travessia Segura Os altos índices de acidentes e de mortes no trân- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 64 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Pacaembu Pacaembu – Uma Cidade de Leitores Luiz Fernando Steque, Diretor de Cultura Biblioteca Pública Municipal Av. Stélio Machado Loureiro, 1.130 Lia Cruz Moura Pacaembu- SP - CEP 17860-000 Tel.: (18) 3862-1144 - Fax: (18) 3862-1711 E-mail: [email protected] Em uma comunidade pequena e carente como a nossa, o maior desafio, por questões óbvias, seria avançarmos nas questões culturais. O projeto Pacaembu: uma cidade de leitores tornou-se uma ferramenta vital para atingirmos nosso objetivo. Prefeito Salvador Mustafa Campos Ir pela vida sem amor é como empreender uma longa viagem sem um livro, como ir pelo mar sem uma estrela que sirva de orientação. Stendhal O Município de Pacaembu possui aproximada- De acordo com levantamento realizado pela mente 12 mil habitantes e localiza-se na região de Pre- única escola de ensino Fundamental do município, sidente Prudente. Há duas penitenciárias na cidade: aproximadamente 30% dos alunos são considera- uma para detentos cumprindo regime fechado e a ou- dos de baixa renda. Na maioria das famílias, os pais tra para regime de semi-liberdade. Cerca de dois mil trabalham como lavradores nas plantações de cana presos estão nas penitenciárias, o que eleva o número e café. de munícipes. A instalação da Biblioteca Municipal em ambien- Há apenas uma rua de comércio, na qual estão te privilegiado, apontada como um destaque da inicia- localizados os bancos e poucas lojas de roupas, calça- tiva, está transformando a vida na cidade. A parceria e dos e artigos para esporte. As indústrias da cidade têm integração entre as Diretorias de Educação e Cultura como atividades principais a fabricação de doces e de denotam a existência de uma política cultural de in- calçados. O comércio da cidade é movimentado prin- centivo à leitura e permite ações como a parceria for- cipalmente pelas famílias dos presos que vêm, nos mada com o Governo Estadual por intermédio do pro- finais de semana, visitá-los. jeto Gosto de Ler, além de outras. 65 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Em 2001, a Rede Municipal de Ensino incluiu no partir da reformulação do espaço destinado à Bibliote- planejamento o Projeto Incentivo à Leitura, por in- ca Municipal que, até meados de 2001, funcionava em termédio do Programa Melhoria na Educação do três salas, no prédio onde hoje se localiza o Centro Município. Foram definidas como ações o planeja- Cultural do município. mento da rotina semanal, com definição diária das Ao assumir a Diretoria de Cultura, Luis Steque atividades de leitura; propaganda da leitura (depois de constatou, como tantos outros profissionais têm feito, terem lido os livros, as crianças divulgam a obra para que a Biblioteca Municipal possuía condições precári- os colegas de classe); hora do conto (o professor lê as, não ultrapassando a condição de velho depósito de para o aluno); rodas de leitura (semanalmente, alunos livros. A diferença, é que uma oportunidade de mu- das 4ª séries lêem para crianças menores); leitura no dança chegou com a redução das instalações do Ban- microfone; e biblioteca volante (minibiblioteca que co do Brasil, que propôs ceder à prefeitura parte do circula semanalmente). espaço desocupado pela agência (196m ), localizado 2 na praça principal, na região central da cidade. A conscientização dos educadores por meio de palestras permitiu uma nova forma na abordagem do Firmado o contrato de comodato com o Banco do problema referente à falta de leitura de crianças, jovens Brasil, em 16 de abril de 2001, o prefeito concedeu o e adultos residentes no município. A capacitação, espaço para as novas instalações da Biblioteca Muni- ministrada por Regina Drummond, destacou a impor- cipal, que foi reinaugurada em setembro de 2001. Na tância de incentivar o gosto pela leitura, não apenas disposição interna do espaço, além dos 12.175 livros pelos livros indicados em jornais ou pela academia, mas do acervo (contabilizados no ano de 2000), as fitas de por interesses que a população demonstrava ao procurar vídeo (104), gibis (54), periódicos (quatro jornais e 20 a biblioteca. É assim que hoje os livros são comprados, revistas), foi implantado o Programa Acessa São Pau- a cada trimestre, de acordo com as necessidades dos lo, do Governo do Estado, com o objetivo de proporci- usuários e a divulgação deles é feita pelo jornal local. onar a inclusão digital, uma sala de estudos e um ambiente mais descontraído, com tapete e almofadas, Conforme os gestores da iniciativa, alguns bene- para leitura. fícios decorrentes do programa de incentivo à leitura já são observados: uma prova regional aplicada, na A sala de estudos da Biblioteca também recebe qual os alunos tinham desempenho ruim, neste ano, alunos que se reúnem para estudar, realizar tarefas ou foi realizada sem problemas, indicando mudanças no trocar informações. A diretora da escola municipal de padrão de leitura, já que exigia sobretudo a leitura e ensino fundamental já verifica uma melhora no rendi- compreensão de textos extensos. mento dos alunos e redução da evasão escolar. O orçamento anual da Diretoria de Cultura, Gestão e Funcionamento de R$ 41 mil (recursos destinados também a despesas com pessoal, material de consumo, entre O Projeto Pacaembu – Uma Cidade de Leitores outros), proporcionou melhoras quantitativas. O envolve diversas ações, iniciadas na atual gestão a acervo de 12.175 livros, em 2000, hoje conta com 66 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam 13.194 exemplares, sendo que 185 títulos foram diversas dos educadores e dos alunos que ilustram recebidos em doação. Há também gibis e fitas de esse ambiente recém-descoberto. vídeo (com sala equipada para exibição). Neste A Integração Cultura e Educação: Uma Inovação ano, foram emprestados 3.819 livros, 337 revistas, 258 jornais e 15 fitas de vídeo. Em 2000, foram emprestados 1.766 livros, 506 revistas, 158 Os 25 alunos da 2ª série do Ensino Funda- jornais e 58 fitas de vídeo. mental recentemente foram à Biblioteca Outro benefício proporcionado no novo espaço Municipal, entre eles cinco já eram cadas- é o sistema de ar-condicionado, fundamental devido trados. O restante se inscreveu no dia da visita. “Amanda vai à Biblioteca todos os às elevadas temperaturas da região, também forne- dias” comunica a professora com orgulho. A cido pelo Banco do Brasil. O diretor de Cultura, Luis menina afirma: “Vou todos os dias mesmo. Eu gosto de ir lá”. Steque, destacou a ambientalização da Biblioteca, incluindo sua nova localização, como um ponto-chave Na Escola Municipal Manoel Teixeira Júnior, para o aumento de 362% na freqüência no período única do município para alunos de 1ª a 4ª série, são de 1999 a 2003. muitos os benefícios oferecidos para quem quer Para atrair os jovens leitores, a prefeitura pro- ler. Dos 730 alunos, 43 são matriculados no Ensino moveu até um concurso para aqueles que freqüen- para Jovens e Adultos – EJA. Esses alunos, hoje, tassem a Biblioteca no mês de julho, férias escolares, têm acesso a uma biblioteca interna com aproxi- em que concorriam a uma bicicleta. Para um municí- madamente 3.300 títulos entre gibis e livros de his- pio em que os mais velhos declaradamente não apre- tória e didáticos. ciam a literatura, a medida se fazia necessária, segun- O projeto contou com a parceria do Governo do do o diretor, para enfrentar “com todas as armas” a Estado, do Projeto Gosto de Ler, que tem como objeti- falta de hábito de ler das famílias em geral. vos “formar leitores; incentivar e sensibilizar as crian- Outro procedimento para aumentar o número 1 ças para a leitura; e criar amor e gosto pelos livros” , de freqüentadores da Biblioteca refere-se ao convite, também está disponibilizado ao conjunto dos estudan- feito aos que esperam pelo uso dos computadores tes. Para isso, educadores são capacitados por cursos para acessar a Internet, para que entrem e leiam e palestras, além de o município receber um baú com um livro ou gibi, enquanto esperam sua vez de usar livros e ter oportunidade de proporcionar aos educa- o equipamento. dores atividades extras como a dramatização e os con- Em todas as escolas municipais, desde a creche tadores de histórias. ao ensino fundamental, existem livros e trabalhos dos secretaria estadual, e definiu atividades como: “planejamento da rotina semanal de leitura; cantinho 1. Objetivos destacados no escopo do Projeto de Incentivo à Leitura Gosto da leitura em todas as salas de aula; horário semanal de Ler, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura. 67 Pacaembu – Uma Cidade de Leitores O Projeto de Pacaembu amplia a proposta da educadores com a leitura e a literatura. Há histórias Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas estabelecido para cada classe utilizar a Biblioteca da também a dramatização de obras, durante as quais os Escola – leitura e empréstimos de livros; rodas de professores aproveitam os recursos apreendidos nas 2 oficinas promovidas pelo Gosto de Ler para confeccio- leitura; leitura no microfone ; gibiteca e biblioteca 3 nar máscaras e fantasias. volante ; escritor, contador de histórias, teatro na escola e oficinas de leitura para os professores (parceria Os cursos oferecidos para a capacitação de pro- com a Secretaria Estadual da Cultura); visitas ao Clube fessores envolveram toda a Diretoria de Educação (cer- 4 do Livro em Junqueirópolis ; teatros: fantoches, ca de 80 educadores). Com isso, mesmo na Escola máscaras, etc, feitos por professores, alunos, agentes Municipal de Ensino Infantil – Emei, para alunos de saúde, Amigos da Escola, alunos de outras unida- de quatro a seis anos, há implementação do Projeto des educacionais”. Gosto de Ler. As escolas do município incentivam a ida dos alu- Na escola, há uma pequena biblioteca, com 350 nos, dos menores aos maiores, à Biblioteca. Todos livros e gibis, bem como carrinho volante. Freqüen- foram levados pelos professores a um passeio para tam a escola 321 crianças, sendo 60 em período inte- conhecê-la e se associarem e agora, podem retirar li- gral. A equipe da escola é composta por 32 funcioná- vros, com a autorização e responsabilização dos pais. rios (17 professores, três estagiárias, uma orientadora Essa medida contribuiu para a mudança da dinâmica pedagógica e uma diretora de ensino). da Biblioteca. Muitos alunos passaram a ser seus assí- Para habituar os alunos aos livros, os professores duos freqüentadores, não só para utilizar a Internet, fazem diariamente rodas de leitura. Incentivam tam- por intermédio do Acessa São Paulo, com orientação bém a dramatização, duas ou três vezes ao mês, de de monitor, mas também para a retirada de livros ou uma história selecionada. Bina, diretora da escola, exemplifica os benefíci- leitura de gibis. A Escola Municipal de Educação Fundamental – os da leitura com o caso de uma aluna de três anos que Emef também incentiva iniciativas individuais dos pro- faz tratamento com fonoaudióloga devido a dificulda- fessores. É o caso da 2ª série, na qual a professora des de fala. Em encontro no mercado, a criança pediu para que ela contasse uma história. A diretora contou. criou a Notícia de Leitura. Semanalmente, os alunos Ao encontrar a menina novamente, ela contou a mes- lêem livros e fazem um breve comentário com indica- ma história: “Vou contar a história que a Diretora Bina ção (ou não) de leitura da obra para os colegas. Há contou, na fila do supermercado!”. Com desenvoltura, não só a contou, como motivou seus amigos a contála também. 2. Todas as salas de aulas da Emef possuem caixas de som ligadas a uma rede central, onde fica o microfone. A criança ou convidado especial Os alunos do pré I da Emei também já foram à faz a leitura do livro no microfone e todas as pessoas da escola es- Biblioteca Municipal e ao Clube da Leitura, demons- cutam simultaneamente. 3. A Biblioteca Volante consiste em um carrinho de supermercado, com trando que incentivar a literatura no município, desde livros e gibis, que circula por todas as salas de aula semanalmente. 4. O Clube do Livro é um espaço em que há venda de livros, uma conta- cedo, é um propósito que os educadores de Pacaembu dora de histórias e espaço para leitura. Pode ser freqüentado por crian- resolveram assumir. ças e adolescentes, dos 6 aos 16 anos. 68 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Também os Centros de Educação Infantil – CEIs, pedagógica o estudo de sete histórias, incluindo a do que atendem crianças de zero a três anos buscam al- Patinho Feio. Além de ouvir as histórias contadas, cançar o objetivo. No CEI Bacelar Neto, são contadas pintam desenhos e fazem outras atividades comuns histórias e promovidas atividades de integração social para crianças dessa faixa etária, sempre com a com os pais, que ajudam a confeccionar roupas para as participação dos pais. festas de fim de ano, brinquedos e participam da dra- O Projeto e seus Impactos matização de histórias, incentivando o interesse pelos livros e pela biblioteca. Um exemplo dessa participação é a leitura em A política cultural, conforme salienta o diretor, família que ocorreu com os alunos do maternal I e do II. começou com a reforma da Biblioteca Municipal e hoje O trabalho resultou também na encenação de uma tem importante articulação com a rede de ensino do peça pelas crianças e em rodas de discussão com os município, aspecto fundamental para iniciativas dessa pais. O objetivo geral foi “envolver as famílias para natureza. Além de replicável, a iniciativa inverte a lógi- que percebam a importância do desenvolvimento da ca da biblioteca pública como prestadora de serviços 5 linguagem de seus filhos” . Especificamente, buscou- prioritariamente aos cidadãos e não ao público esco- se “trabalhar a história dentro de todos os Eixos Temá- lar, sendo uma exitosa ação municipal de integração ticos do Referencial Curricular Nacional para Educação entre biblioteca pública e escola. Estão em estudo dois outros projetos, que deverão Infantil, para que as crianças aprendam a respeitar as Durante a execução deste projeto, os alunos cujo objetivo é implantar bibliotecas nas penitenciárias também foram ao Clube do Livro para ouvir histórias. do município; e Gente que Lê, que prevê a implantação Neste ano, os alunos do CEI tiveram como proposta de três pequenas bibliotecas nos centros comunitários. 5. Projeto de História Infantil: Patinho Feio. 69 Pacaembu – Uma Cidade de Leitores integrar a política cultural do município: Livro para Você, diferenças pessoais de cada um”. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 70 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Praia Grande Projeto Cidade Integrada Silvia R. da Costa Salgado Leandro Fernandes Sanches, Chefe do Departamento de Tecnologia da Informação Prefeitura da Estância Balneária de Praia Grande Em pouco tempo, as possibilidades de uso da infovia deixarão Av. Presidente Kennedy, 9.000 - Praia Grande - SP de ser vantagens para se tornarem exigências; com o foco do CEP 11704-900 - Tel.: (13) 3496-2000 - Fax: (13) 3496-2047 município cada vez mais centrado na qualidade da prestação E-mail:[email protected] de serviços ao cidadão, torna-se imprescindível a existência de uma infra-estrutura que suporte ambos: o crescimento na demanda por serviços e a melhoria na qualidade dos mesmos. Alberto Pereira Mourão, prefeito As possibilidades são tantas que a meta é a utopia (...) Começa de dentro pra fora, é transformação silenciosa (...) O cidadão só sabe que está sendo melhor e mais rapidamente atendido. Leandro Fernandes Sanches, Departamento de Tecnologia de Informação Acho ótimo o monitoramento das escolas, porque a situação está terrível. Zulmira da Silva Leite, mãe de um adolescente de 15 anos Previsto no Plano Plurianual – PPA, 2002-2005, o de segurança da população e preservação do patrimô- Projeto Cidade Integrada tem atraído a atenção de ou- nio público. tros municípios brasileiros e de outros países, não ape- As ações do Programa consistem basicamente nas pelo monitoramento no combate à criminalidade, na integração das diversas unidades municipais, insti- considerado como um destaque da iniciativa. O inte- tucionais e de segurança e criação de nova rede de resse de outras Administrações está na melhoria da dados e imagens; na instalação de câmeras de segu- qualidade dos serviços prestados aos cidadãos, na cria- rança; na implantação de central de monitoramento, ção do cadastro social único, na facilitação do acesso para armazenamento, acompanhamento e gerencia- da população aos serviços públicos, na diminuição da mento das imagens; na implantação da Central de Pro- exclusão tecnológica, além das melhores condições cessamento de Dados, para armazenamento das in- 71 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas formações das diversas secretarias; na instalação de na administrativa; na finalidade prática de reconhecer sistemas operacionais; no desenvolvimento de siste- os problemas e tentar resolvê-los; na procura (estraté- mas de gestão setoriais, com ênfase na unificação do gica) por oportunidades pelo uso das tecnologias de banco de dados. informação e comunicação cada vez mais presentes e Utilizando uma rede de cabos de fibra ótica capaz necessárias no setor público. de oferecer serviços de comunicação de dados, ima- Ainda que se considere a complexidade que os gens, voz e Internet, ou seja, uma infovia, o Programa gestores enfrentam quando relacionam as tecnolo- integra as diversas unidades da administração e tam- gias de informação e comunicação com racionaliza- bém os órgãos de segurança. A avenida invisível per- ção do uso de recursos e o aumento da produtivida- mitiu a implementação de uma rede formada pelos ór- de, e também aos anseios da sociedade, pelo acesso gãos públicos, que incluindo a telefonia digital, elimina mais fácil à informação pública integrada, o Programa a necessidade de várias linhas para a comunicação en- Cidade Integrada, pelos resultados que já apresenta, tre as secretarias e as unidades descentralizadas, e com pode ser apresentado como uma exitosa experiên- os órgãos públicos estaduais e federais. cia nessa área. Para o prefeito Mourão, essa infra-estrutura “ofe- Em dois anos de funcionamento, foram implanta- rece a prestação de forma ordenada e racionalizada, dos 300 km de fibra ótica, por onde transitam informa- evitando o desperdício de recursos públicos e maxi- ções em tempo real. São 50 câmeras de vídeo, tipo mizando o retorno dos investimentos em informa- Speed Domo, com alcance num raio de 800 m e zoom tização realizados, favorecendo de forma decisiva a que aproxima a imagem em até 200 vezes, instaladas modernização da Administração Pública”. Investindo nas vias públicas, e cerca de 700 câmeras fixas, em em infra-estrutura, câmeras e demais equipamentos escolas, unidades de saúde e outros próprios munici- de informática, aproximadamente R$ 5,5 milhões, a pais. O sistema de transmissão por cabos de fibra ótica Administração descobre cotidianamente novas por todo o município é um diferencial que proporciona potencialidades, como esclarece o secretário de Pla- uma qualidade das imagens melhor do que sistemas nejamento Estratégico e Gestão, Alberto Rodrigues implantados pela Internet, que atualizam as imagens de Oliveira Neto: “o prefeito queria um instrumento de 30 em 30 segundos. de gerenciamento dos serviços públicos, educação e Além da instalação da infovia, o coordenador de saúde, com análise em tempo real, mas logo percebe- Integração da Informação, Wagner Mourão Milan, cita mos que ele teria outras utilidades e agregamos, tam- como resultados o estabelecimento da comuni- bém, a segurança pública”. cabilidade pela interligação dos próprios municipais; Diferenciado de outras iniciativas que se limitam as mudanças já verificadas em setores como educa- ao uso da tecnologia de forma restrita, além do moni- ção, administração, segurança, trânsito, promoção so- toramento, o Programa volta-se para aplicações diver- cial, saúde; o avanço na proposta de inclusão digital. sas, baseando-se na implementação de sistemas de Com 80% do Programa concluído, a transformação é informação como atividade típica de gestão da máqui- uma perspectiva que se coloca para gestores, funcio- 72 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam nários, munícipes em geral e também para a popula- de destaque no quadro de violência que atingiu gran- ção flutuante, principalmente se a administração esti- de parte das cidades brasileiras nos últimos anos. Ca- ver atenta para que a iniciativa tenha sempre como racterizada pela batalha para superar esses aspectos prioridade a integração e a ampliação das ações de negativos, Praia Grande tem outras peculiaridades. governo, visando a uma nova cidadania inserida no Localizado na Região Metropolitana da Baixada paradigma da sociedade da informação. Santista, com área de 145 km², sendo 22 km² de praias, o município, que tem 193.582 habitantes (Censo Contextos 2 de 2000 do IBGE) , recebe uma população flutuante de 300 mil pessoas nos finais de semana a 1.500.000 Emancipado de São Vicente em 19 de janeiro de na alta temporada de verão, reforçando sua vocação 1967 (a primeira eleição municipal foi em 15 de no- para o turismo e fomentando as atividades comerciais vembro de 1968), o município procura construir uma e os serviços. história local com a possibilidade de reflexão sobre Essa transformação ocorre por diversos fatores. os seus valores “para que seja possível dar visibilida- Um projeto de reurbanização da orla e a despoluição de à identidade desta cidade, destas pessoas, de seus das praias, com a eliminação de cem canais de águas espaços e memórias”, como indicado em Paisagens poluídas que cortavam a areia, fazem parte do quadro da Memória: Histórias de Praia Grande, livro edita- que atraiu os veranistas, contribuindo para a amplia- do em 2002, para professores e alunos do ensino ção dos investimentos na construção de casas e pré- fundamental, mas que é apreciado pelos demais dios e, mais do que isso, colaborando para que os moradores da cidade, por conter informações que se moradores voltassem a valorizar a cidade e criar com apresentavam fragmentadas. ela uma identidade. O pressuposto de que a cidade é um espaço em O Cidade Integrada, prevendo “um conjunto de construção permeia também o Programa, conforme recursos utilizados para interligar, conectar, processar, apreendido pelas entrevistas, assim como os depoi- controlar, compatibilizar as transmissões de informa- mentos que demonstram o entusiasmo que desperta ções e disponibilizar serviços públicos em meio eletrô- nos gestores e técnicos envolvidos e que começa a nico”, além de estar no cenário de busca por uma admi- chegar aos cidadãos. Município que já foi considerado nistração pública adequada ao crescimento do municí- 1 a Capital dos Farofeiros , mais tarde, amargou posição pio, é apontado como instrumento para romper com a violência – o outro aspecto adverso. O Sistema de Monitoramento de Vídeo-Vigilância reduziu o número de 1. Denominação utilizada pela própria Administração (em vídeo institudurante longo tempo, quando não havia infra-estrutura suficiente para para 998, em um ano de funcionamento, e os atos de atender às pessoas que vinham em centenas de ônibus que ficavam ao vandalismo comuns contra os espaços públicos foram longo das praias. 2. Para 2004, a estimativa é de 229.542 habitantes (Resolução IBGE 7 de a zero. Hoje, a Praia Grande está entre as dez cidades o 23/8/04, Referência 1 de julho de 2004). De 1980 a 2000, a população saltou de 66.011 para 193.582 habitantes. com menor número de homicídios por habitante. 73 Praia Grande – Projeto Cidade Integrada roubos e furtos de 2.896 (para cada cem mil habitantes) cional) para referir-se ao turismo de um dia que caracterizou a cidade Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Um Programa e seus Objetivos facilidade na operacionalização de programas como o Banco do Povo e o Posto de Atendimento ao Trabalha- A Cidade Integrada, gerenciado pela Secretaria dor – PAT. No trânsito: monitoramento do fluxo de de Planejamento Estratégico e Gestão, tem seus pro- veículos e cruzamentos críticos. Na segurança: moni- 3 pósitos associados às próprias funções do órgão toramento pelas câmeras de vídeo. Na administração: como: acompanhar a implantação de planos e proje- desburocratização de procedimentos; fluxo da infor- tos estratégicos; promover a implantação e gerencia- mação on-line, reduzindo o volume de papéis e circu- mento do desenvolvimento tecnológico nos órgãos lação e respectivas custas; a utilização de tecnologia da Administração e a disseminação da cultura e dos para geração de economia. serviços proporcionados pela tecnologia da informa- Um Programa e sua Trajetória ção; desempenhar as atividades de órgão central de informações, pela Central Integrada de Dados, reconhecida e alimentada pelas demais secretarias; ge- O prefeito Mourão já assumiu a Administração com renciar o desempenho dos serviços prestados aos ci- a idéia de utilizar a fibra óptica como meio de transmis- dadãos e a avaliação das políticas públicas, objetivando são de dados, imagens e som, considerando “sua a definição de prioridades na implementação de pro- potencialidade para uma administração pública moder- gramas, a busca de eficácia nos investimentos e a na e garantia de carrear a aproximação do Estado com o melhoria da qualidade de vida na cidade. cidadão”. Antes mesmo da posse (entre outubro de Os objetivos específicos referem-se a várias áreas. 2000 e janeiro de 2001), foram solicitados estudos que Na saúde: unidades informatizadas; controle de fre- perduraram durante o primeiro ano de gestão, paralela- qüência; agendamento de consultas via telefone; pron- mente ao levantamento de necessidades e a compila- tuários informatizados; controle sistemático de medi- ção de informações (diagnóstico de cada secretaria). camentos; agilização na detecção de incidências de A Ordem de Serviço GP/Seplan 003, de fevereiro doenças por região do município. Na educação: Internet de 2001, determina o desenvolvimento de um projeto de alta velocidade; e-mail para cada aluno; central de de informatização e modernização da administração, que vagas on-line; boletim escolar informatizado; bibliote- permitisse a melhoria da qualidade dos serviços presta- ca 24 horas (pesquisas e impressões); segurança den- dos ao cidadão. O Processo Administrativo 5.8196/01 tro das unidades escolares; ligação entre Escolas/Su- concentra os critérios de dimensionamento, as especi- pervisão. Na promoção social: cadastro de atendimen- ficações, os projetos e os memoriais descritivos. 4 tos e unificação de bancos de dados sociais, maior Na concepção do Programa, são considerados: a preocupação na agilidade e segurança da informação, na interligação da Administração Central com as unidades descentralizadas e com órgãos de outras 3. Decreto 3.311, de 26 de dezembro de 2001. 4. Segundo Wagner Mourão Milan, coordenador de Integração da Infor- esferas governamentais e institucionais e nos servi- mação, a implantação em módulos permitiu maior rapidez e também economia. Foram abertos mais de 20 processos. ços públicos prestados; a disponibilidade de infor- 74 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam mações, da pronta consulta de processos e dos pro- Entre a construção e a implementação, o Programa cedimentos; a segurança pública e a preservação do é desenvolvido entre 2001 e 2004, encontrando-se patrimônio público. em fase complementar de implantação de sistemas. Em função disso, são realizados os estudos das Gestão e Parcerias possibilidades técnicas de equipamentos e de infraestrutura para dotar a prefeitura de um sistema de dados para gerenciamento corporativo com capacidade O Programa inova não só pela implantação de de integração dos equipamentos instalados fora do infovia, até então inédita em cidades, conforme entre- Paço Municipal, compatível com novas tecnologias em vistas realizadas, mas também pelas novidades ge- desenvolvimento como: fast Internet, videocon- renciais e administrativas que empreendeu para viabi- ferência, banco de dados, vídeo de segurança e arqui- lizar essa supervia, tornando virtuais não só produtos, vos de imagem. mas transformando o trabalho humano e seus proces- Em abril de 2003, o acesso ao www.praiagrande.sp.gov.br sos produtivos e administrativos em sua operação. disponibilizava informações visuais da cidade em tempo É assim que se pode compreender a implantação real a estrangeiros, brasileiros, moradores e, principalmen- da Central de Monitoramento como ação tão impor- te, aos milhares de proprietários de veraneio no município tante quanto a infovia, pois a mesma é concebida para (mais de 90 mil imóveis). No mês seguinte, foi lançado o abrigar indigentes da Polícia Militar, Polícia Civil, Guar- Aluno On-line, que contempla, numa primeira etapa, os da Municipal, Corpo de Bombeiros e Serviço de Am- alunos de 3ª e 4ª séries da rede municipal de ensino, com bulância Municipal funcionando como um Centro Inte- endereços eletrônicos que podem ser acessados da es- grado de Operações em Segurança Pública. O contro- cola ou de qualquer outro lugar, por meio de um site pró- le do trânsito por meio de imagens tem facilitado o prio. Além dos estudantes, seus pais e avós são benefici- trabalho dos agentes de rua, além de possibilitar o con- ados com aulas de informática e acesso à Internet com trole mais adequado dos semáforos (a distância). tecnologia banda larga. O grande marco da abertura do Cidade Inte- Central, é viajar para o futuro não só pelas característi- grada ao público (dezembro de 2002) é a inaugu- cas do espaço físico com seus 32 monitores e quatro ração da Central de Monitoramento, instalada no bancadas de monitoramento, mas, sobretudo, pela cons- Paço Municipal como uma espécie de Central de tatação da eficácia do trabalho em parceria, que se expan- Inteligência das polícias, integrando todos os ór- de com o apoio da tecnologia. Outra parceria é a estabe- gãos de segurança pública. Com computadores lecida entre Praia Grande e o Sistema Ecovias, que per- doados pela prefeitura e softwares específicos mite o monitoramento dos transportes, o gerenciamento instalados em todas as unidades policiais da cida- e o controle do sistema viário da cidade e a comunica- de, o Programa passa a permitir informações on- ção direta com a central de monitoramento do Sistema line sobre qualquer ocorrência ou registro da Guar- Anchieta-Imigrantes, propiciando condições de interfe- da Municipal. rência em tempo real no fluxo de veículos. 75 Praia Grande – Projeto Cidade Integrada Visitar a Nasa, como os funcionários referem-se à Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas A Lei 1.179, aprovada em dezembro de 2002, passaram por capacitação entre 2002 e 2004. A Secre- permite a parceria entre a prefeitura e empresas e con- taria Municipal de Educação mantém um laboratório domínios do município, que podem economizar na específico para essa atividade como forma de garantir conta telefônica, utilizando-se do acesso à rede de a integração da informática à proposta pedagógica. Uma comunicação. Esses usuários particulares têm direito pesquisa realizada com 1.800 professores da rede pú- a utilizar a rede por dez anos, desde que doem as câ- blica municipal subsidiou a formulação do Programa. A inclusão digital de alunos da rede municipal, meras de vídeo e os acessórios, como já está sendo alcançando crianças de escolas de educação especial feito por empresários da cidade. Com equipamento de última geração, além de e de educação infantil, passa também pelo que o pre- gerar as imagens captadas pelas câmeras espalhadas feito Mourão chama de fim da discriminação aos sem pela cidade (47 móveis e 500 fixas nas unidades e e-mail. Utilizando seus nomes com a extensão próprios municipais), o sistema permite o armazena- @escolas.cidadaorg.sp.gov.br, os alunos passam a ter mento dessas imagens. Além da guarda e zelo do pró- endereço eletrônico e as consultas às suas caixas pos- prio municipal e da segurança pública, há monitora- tais podem ser feitas da escola ou de qualquer outro mento das áreas de proteção ambiental, visando ins- lugar, por meio de site específico. A parceria com universidades e escolas técnicas truir ações de controle de invasões. garante que alunos dessas instituições sejam contra- Da Inclusão Digital: Cidadão.gov tados como estagiários monitores dos laboratórios, auxiliando os professores. Um processo de qualifica- Novamente apostando nas parcerias, o Programa ção é realizado para selecioná-los. São 43 estagiários, encaminha, em paralelo às demais ações, um módulo, que atuam nos três períodos. definido desde o início, que se refere à área de educa- Da Inclusão Digital: O Info Pai e o Melhor Idade On-Line ção. A infovia permite ampliar a informatização das escolas municipais, abrangendo as questões administrativas (controle central de vagas, freqüência e evasão escolar) e as referentes à proposta pedagógica, Considerando que equipamentos e cursos caros como a inclusão digital pela instalação de 15 laborató- são inacessíveis à maioria da população, os Programas rios de informática (média de 20 computadores por Info Pai e Melhor Idade On-Line constituem uma for- laboratório, um para cada duas crianças) que possibili- ma de retorno dos recursos dos impostos à comunida- tam consulta e comunicação por e-mail. de. Além disso, proporcionam a aproximação entre Para o professor Marcos Pastorello, coordenador escola e comunidade, entre pais e avós e as crianças. de Projetos Especiais, as ações para a inclusão digital Os laboratórios de informática e sua estrutura, estão inseridas no projeto da educação, constituindo incluindo recursos humanos, são utilizados fora do diferencial que resulta na utilização do computador horário escolar para que pais e avós freqüentem cur- como ferramenta de trabalho para os professores, que sos de 60 horas (três meses) e seis módulos: introdu- 76 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Resultados e Metas ção à informática, windows, word, excel, power point e Internet. A iniciativa repercutiu de tal forma que famílias A infovia, permitindo a interligação e a integração de escolas particulares procuram os programas, que operacional das unidades da Prefeitura, é uma novida- têm fila de espera. Com entrega de certificados em de. Outros produtos foram apresentados neste relato. cerimônia realizada no Paço Municipal e a presença de Essa infra-estrutura proporciona o delineamento de secretários e do prefeito, pais, avós e parentes dos metas para as quais as condições parecem estar sen- alunos de Praia Grande tornam-se cidadãos on-line. do construídas. Outros resultados e metas ainda podem ser apontados. Recursos: Um Ponto Forte A interligação proporcionou maior agilidade para a gestão financeira e orçamentária, além de gerar be- Além dos, aproximadamente, R$ 5,5 milhões 5 nefícios aos contribuintes como a emissão de segun- investidos, até 2004, os custos do Programa não fo- da via do Imposto Predial e Territorial Urbano – IPTU e ram declarados, por estarem distribuídos nas várias certidões negativas de débitos, além da consulta de unidades e projetos. O fato é que os critérios de di- processos. A prefeitura espera economizar R$ 600 mil mensionamento e de escolha de equipamentos e infra- em ligações telefônicas, utilizando a fibra óptica e apa- estrutura respeitaram os preceitos preestabelecidos relhos por IP. O tarifador de custos monitora os gastos para os serviços de comunicação mais exigentes. Além como água, luz, telefone das diversas unidades, en- 6 da infovia (300 km de cabos) , existem 1.208 compu- quanto o registro de todos os bens da Administração é tadores distribuídos em cerca de 55 unidades de edu- feito por código de barras, ganhando agilidade e preci- cação e 25 unidades de saúde (todos ligados à rede). são. O controle eletrônico de ponto reduziu de 20 para Como explica Leandro Sanches, chefe de Tecno- três dias o tempo de fechamento da folha de paga- logia de Informação, os problemas passam por fatores mento. A meta é implementar outros serviços ao cida- relacionados à cultura organizacional, como a resistên- dão e disponibilizá-los pela Internet e em quiosques cia a mudanças, à integração de setores, à interface dispostos em diversos locais da cidade. com informática, à prática do planejamento, à tecnolo- Na área da saúde, foi instalada a segurança nas gia, entre outros. Esses problemas estão sendo solu- unidades por meio de câmeras e há vários planos para o cionados na medida em que o Programa avança, so- próximo ano, no qual o setor é apontado como priorida- bretudo pelos resultados e credibilidade alcançados e de. O Programa permitirá que os usuários da rede públi- pela capacitação que está sendo realizada. ca tenham seus prontuários on-line, proporcionando o Acesso por senhas, a resultados de exames 5. Desconsiderando a folha de pagamento de funcionários e outros inves- laboratoriais via Internet e controle de estoque de timentos indiretos. medicamentos também estão previstos. A idéia é que 6. A Companhia Pirelli Telecomunicações, Cabos e Sistemas do Brasil S.A. forneceu a fibra óptica para implantação do sistema. a rede informatizada contribua com a Administração 77 Praia Grande – Projeto Cidade Integrada acompanhamento do histórico médico dos pacientes. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas na definição do melhor investimento ao subsídio para recursos? Pelo número de visitas que o município tem proposição de campanhas, além de tornar mais rápi- recebido, há interesse nesse tipo de iniciativa e não das e confiáveis as estatísticas necessárias à gestão importa a localização – São Paulo, demais Estados do municipal da saúde. País e outros países – ou porte, vocação e disponibilidade de recursos. Na educação, os laboratórios de informática atendem hoje 10.269 crianças de 1ª a 4ª séries e o A experiência da Praia Grande, ainda que tenha Programa distribuiu 4.787 e-mails aos mesmos. muitas especificidades, é uma vitrine para que os gesto- A informática está inserida no projeto pedagógico res municipais reflitam sobre possibilidades das tecno- como recurso aos professores e não apenas para logias de informação e comunicação. Mas a utilização permitir a aproximação dos alunos. Seiscentas e delas deve ser precedida do planejamento de sistemas quarenta e cinco pessoas foram formadas pelo Info de informação que os alinhe às necessidades de cada Pai e 180 cidadãos acima de 60 anos realizaram cursos municipalidade. As tecnologias não prescindem, muito pelo Melhor Idade On-Line. Atividades iniciadas neste pelo contrário, da seleção, organização, armazenagem, ano têm como metas a expansão para a rede recuperação e distribuição de informação. Cooperação, municipal de ensino como um todo e a ampliação convergência e integração devem ser consideradas para crescente da inclusão digital de cidadãos que não uma utilização racional dos recursos. A mudança tecnológica exige inovações da orga- teriam essa oportunidade. Unificação dos cadastros sociais, imagens gra- nização pública. A capacidade de obter cooperação e vadas pelas câmeras já reconhecidas como válidas integração entre as unidades, entre outros fatores, faz em inquéritos policiais, descobertas de pontos de trá- parte da necessária mudança cultural dos processos fico de drogas são ainda apontados como resultados, de gestão, como demonstra também a experiência do incluindo situações curiosas como aquelas nas quais Cidade Integrada. Enfrentar resistências é desafio que parentes residentes em outros países revêem entes a equipe do Programa procura vencer pelas ações de queridos que se colocam estrategicamente no foco capacitação, interlocução constante e correções de rota. de câmeras e falam ao telefone com eles, os quais, Assim, por exemplo, a implantação do prontuário digi- por sua vez, os visualizam enquanto navegam no site tal na área da saúde, o gerenciamento eletrônico de da prefeitura. documentos e o acompanhamento em tempo real das consultas ainda estão sendo negociados com os fun- Considerações Finais: Desafios e Potencial de Replicação cionários médicos, e a interface entre as unidades e o setor responsável ainda está sendo construída. Para os gestores do Programa, a iniciativa pode É possível, para outros municípios, implantar pro- ser reproduzida, se houver vontade da administração, grama semelhante considerando os investimentos inclusive determinando prioridade a cada um dos necessários e os impactos na organização pública, ordenadores de despesas; se forem estabelecidas mesmo com a presença de tantas demandas e poucos parcerias sobretudo para a área de segurança pública; 78 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam se os custos forem diluídos nas várias unidades/ não parece ter sido relegada na experiência. Ainda que secretarias; se houver planejamento que permita pesem os resultados, não se pode esquecer que o essa implantação por módulos de acordo com as objetivo da ação governamental, utilizando ou não tec- necessidades identificadas; se a seleção do meio nologias, é o cidadão e seu direito à informação. Isso físico de transmissão e comunicação for feita de significa também promover um processo interativo e forma criteriosa. coletivo para escolhas, sobretudo quando envolve Acrescenta-se, a essas observações, a necessi- monitoramento de locais públicos, como avenidas, escolas, postos de saúde e praias. 79 Praia Grande – Projeto Cidade Integrada dade de uma ampla discussão com a sociedade, que Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 80 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Santa Fé do Sul Proagrosul – Programa de Incentivo à Agropecuária Fernando Jesus Carmo, Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente Silvia R. da Costa Salgado Prefeitura Municipal da Estância Turística de Santa Fé do Sul Av. Navarro de Andrade, 59 - Santa Fé do Sul - SP CEP 15775-000 - Tel.: (17) 3631-2822 - Fax: (17) 3631-1508 E-mail: [email protected] (...) andava pela cidade fazendo um bico aqui, outro ali (....) Vivia imaginando o dia de ter uma terrinha e voltar para o campo (...) Agora estamos construindo (...) A mulher e os filhos ajudam. Juscelino Rodrigues Machado, agricultor (...) ficou mais fácil (...) Os meninos ficam na escola. Eu e a mulher na lida (...) Sem ajuda da máquina? Aí, não tinha jeito (...) Odair Pastorim, agricultor (...) o vizinho tinha o terreno aí do lado, criando mato. Eu arrendei e tenho que trabalhar mais (...)Vou precisar do trator dia de sábado e de domingo (...) Valdomiro dos Santos, agricultor (...) a chuva é cada vez mais pouca (...) É só um sereno (...) A terra fica seca. Tem que arranjar comida pro gado. Geraldo Joaquim Pereira, agricultor Produtores rurais proprietários de áreas de tama- mo rural, o Programa atua para solucionar um proble- nhos diferenciados, respectivamente 2,42 ha, 19,36 ma – a utilização exclusiva da força manual – que ca- ha e 74,2 ha, e variada condição socioeconômica, têm racteriza mais de dois milhões de lavouras familiares algo em comum: constituem o público-alvo do Progra- no Brasil. ma de Incentivo à Agropecuária – Proagrosul. Inovan- Considerando a possibilidade de empregar efeti- do, ao inverter a relação de paternalismo, a iniciativa vamente meios de produção não utilizados, ou absor- transforma uma associação de agricultores em parcei- vidos precariamente, como incremento de qualidade, ra do Poder Público, pretendendo avançar em relação a o Proagrosul pretende promover a geração de renda. ações que objetivam apenas a universalização do aces- Tem como premissa que os micro, pequenos e mé- so à mecanização agrícola. Estimulando o associativis- dios produtores também executam atividades da ca- 81 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas deia produtiva, podendo agregar valor ao seu trabalho Mais do que os números, os impactos do e criar condições que lhes permitam permanecer na Proagrosul podem ser representados por um certo terra e participar do processo de desenvolvimento. reconhecimento da utilidade do associativismo e da Se Juscelino, recente proprietário de lote de gleba, prática do diálogo entre o Poder Público estatal e o obtida pelo núcleo municipal do Banco da Terra, tem cidadão, além da conscientização de que é necessário uma situação diversa da de Valdomiro, que implementa recuperar o solo degradado pela intensidade de melhorias para agregar valor à cana-de-açúcar por ele cultivos tradicionais, como o milho, o algodão, o café e produzida, ambos aproximam-se pela proposta que as pastagens. introduz técnicas agrícolas e agropecuárias, nem sem- Ainda que o importante fornecimento de máqui- pre disponíveis a esse segmento de produtores. O nas pela Administração Municipal não seja uma novi- Programa pretende também preservar o meio ambien- dade, o programa inova por promover: a universaliza- te, de modo a promover o desenvolvimento sustentá- ção do atendimento, com critérios objetivos e claros; vel das atividades e a melhoria na qualidade de vida, o fortalecimento do associativismo pela parceria que concorrendo para o desenvolvimento do município. implementa; a preocupação em identificar as necessi- Elaborado em parceria pela Associação de Produ- dades de agricultores excluídos dos programas go- tores Rurais Dr. Hélio de Oliveira e a prefeitura, o pro- vernamentais; a introdução de técnicas ainda não uti- grama apóia os produtores rurais para que consigam lizadas efetivamente nas pequenas propriedades. Além obter a melhoria quantitativa e a qualitativa dos reba- disso, a assessoria por técnicos especializados contri- nhos e plantações. Instituído pela Lei municipal 2.164, bui para a mudança de hábitos culturais arraigados e de 30 de janeiro de 2002, e regulamentado pelo De- para a ampliação de perspectivas para a agricultura fa- creto 2.087, de 21 de agosto de 2002, o Proagrosul miliar, servindo como exemplo aos demais municí- repassa anualmente até R$ 25 mil, por intermédio da pios que desejem/necessitem fornecer apoio para cooperativa, aos participantes, mediante planos de tra- maior produtividade das unidades rurais e para aumen- balhos aprovados por Comissão Especial, formada por to da renda gerada localmente. três membros representantes de segmentos da área O Contexto rural, sendo um deles do Conselho de Desenvolvimento Rural. Componente de uma proposta de governo partici- Situada no extremo noroeste paulista, a 625 km pativo e gerenciado pela Secretaria Municipal de Agri- da Capital, Santa Fé do Sul faz divisa com Mato Grosso cultura, Abastecimento e Meio Ambiente, o Programa do Sul (10 km), Minas Gerais (20 km) e Goiás (70 km). é formulado nas reuniões realizadas nos bairros rurais Localiza-se na denominada Região dos Grandes La- para identificar os problemas e discutir possíveis solu- gos, formada pelas Usinas de Ilha Solteira, Jupiá e Água ções. Até novembro de 2004, foram feitos 338 atendi- Vermelha, além do complexo hidro-rodoferroviário, mentos a 175 produtores, totalizando 754,79 ha de áreas constituído pelos rios Paraná, Paraíba, Grande, São José beneficiadas e 660,81 t de calcário adquiridas. e Tietê. 82 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Os pioneiros chegaram com a expansão da anti- municipal de turismo. Um outro fator que influencia ga estrada de ferro Araraquarense e a conseqüente positivamente a economia é a existência das Facul- demarcação de terras pela Companhia Agrícola de dades Integradas de Santa Fé do Sul - Fisa, mantida Imigração e Colonização - Caic. Para o secretário muni- pela Fundação Municipal de Ensino e Cultura - Funec, cipal de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambien- que atendem três mil universitários. Vindos de outras te, esse processo de ocupação já determina, como regiões, os jovens movimentam o comércio e também característica do município e região, a existência de o turismo. um grande número de propriedades rurais: 85% delas Sem Favelas são pequenas (menores de 50 ha), conduzidas pelos proprietários e seus familiares; e duas ou três têm mais de 1.000 ha. Com uma população de cerca de 30 mil habitan- A colonização recente (por volta de 1948) pro- tes, sendo 1.700 moradores na área rural, o município, porcionou o afluxo de imigrantes de diversas regiões de pequena extensão (208 km , 13,5 km de área ur- do País, e também do Exterior, promovendo a convi- bana), busca, como explica o prefeito Itamar Borges, vência de diversas culturas de povos, cujas atividades “em conjunto com a população, ajudar as pessoas a estão relacionadas, desde o início, à agricultura e à terem uma vida melhor, além de gerar empregos e pecuária. As pastagens e, mais tarde, o café constituí- renda”. O município é servido 100% por água canaliza- ram elementos determinantes da economia local, até da e tratada, esgoto e pavimentação asfáltica. Não há a década de 80. Com o declínio da produção do café, favelas, em Santa Fé do Sul, como informa com orgu- foram introduzidas outras culturas, principalmente a lho o secretário Fernando Jesus Carmo, esclarecendo fruticultura (laranja, uva, pinha, mamão, banana). A que o programa habitacional é uma das prioridades da diversificada produção agrícola desde então é marca atual Administração, como já tem sido desde Admi- da maioria das propriedades. As atividades envolvem nistrações passadas. 2 o rebanho bovino (corte/leite) e outras, como o cultivo 2 Vários programas são desenvolvidos no municí- de frutas, cereais e algodão. pio ou em parceria com as demais esferas de governo Mais recentemente, a cidade entrou na rota como Meu Primeiro Emprego; Frente de Trabalho; 1 turística , por sua formação paisagística, bela bacia Estágio e Jovem no Trabalho; Centro de Geração de hidrográfica, a receptividade ao visitante, o clima Renda; Apoio à Patrulha Agrícola; Galpão de Agrone- tropical, a qualidade de vida e a infra-estrutura de 100% gócios; Banco da Terra; Bolsa Auxílio-Desemprego; de água e saneamento básico. É a primeira estância Banco do Povo; Universidade Aberta da Terceira Ida- turística do Estado de São Paulo com faculdade de e Cartão do Idoso; Projeto Renascer para crianças e Santa Fé do Sul tem condições de vida atípicas 1. MICHI,Eliana. Pólo turístico da região noroeste: fomentar a economia e investir em turismo possibilitou à cidade de Santa Fé do Sul transformar- em relação a muitos municípios. Entretanto, existem se em estância turística. Municípios de São Paulo. A Revista da Associação Paulista de Municípios. São Paulo, 1 (10):21.24/2004. problemas nos setores da agricultura e da pecuária. O 83 Santa Fé do Sul – Proagrosul adolescentes entre 7 e 18 anos; Médico da Família. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas secretário esclarece que há produtores rurais com nível Com esse diagnóstico elaborado, a prefeitura, por tecnológico de Primeiro Mundo, os quais, há vários anos, intermédio do secretário de Agricultura, um entu- fazem rotação de pastagens, transferência de embriões siasmado engenheiro agrônomo extensionista, avalia e melhoramento genético em suas propriedades. Mas a situação e formula soluções técnicas viáveis, existem, também, os pequenos produtores que, por inclusive sob o aspecto dos custos a serem arcados um longo período, tiveram pouco apoio institucional pela municipalidade, adequando a ação ao orçamento para desenvolver suas atividades e encontram-se, municipal. Entre 2001 e 2002 (até setembro, quando portanto, longe da tecnificação necessária. são liberados os primeiros recursos), a equipe formulou a proposta, negociou com a Associação dos Produtores Identificando Problemas/ Buscando Soluções Rurais, indicada como operacionalizadora do programa, e promoveu a institucionalização da iniciativa, que envolve a aplicação e a incorporação de calcário, o As reuniões bairro a bairro localizam deficiências terraceamento, o plantio direto na palha e o plantio de e/ou dificuldades para as quais a Administração Muni- cana forrageira para atender às demandas identificadas. cipal procura fornecer apoio, desde o Plano de Ação O Proagrosul apóia o produtor da agricultura fami- 2 para cem dias . Uma primeira questão refere-se à com- liar, que é descapitalizado e tem dificuldade em inves- pra de calcário a granel, que só é vendido em carga tir, pois a própria busca de recursos por intermédio de fechada (18 t ou mais) ou ensacado em pequenas quan- financiamentos é complicada. Isso exige a participa- tidades, com preço superior ao dobro do valor no ata- ção do Poder Público como facilitador do acesso a ope- cado. Como a calagem do solo é procedimento básico rações básicas nas atividades agropecuárias, como a para garantir a qualidade da produção, sua ausência recuperação da fertilidade do solo. Simultaneamente, prejudica, e muito, os pequenos produtores que não introduz técnicas que melhoram os sistemas produti- têm como fazê-la. O custo do maquinário inviabiliza vos desse segmento que, diferentemente dos produ- seu uso em operações necessárias, como o terra- tores rurais maiores, não tem como modernizar seus ceamento, uma prática indispensável para a conserva- procedimentos, técnicas e instrumentos. ção do solo, mas que exige gastos, cujo retorno ocor- Para o secretário Fernando Carmo, considerando re nos médio e longo prazos. A alimentação do gado a expressiva (maioria) existência de pequenos produ- na época de seca (de maio a novembro) evidencia tores rurais no Brasil, esse tipo de iniciativa deve ser outro problema enfrentado pelos pequenos produto- implementada também para evitar uma outra prática res, que vêem seus animais morrerem desnutridos. que é o êxodo rural. Se não houver programas que insiram esse público no mercado exigente/competitivo, fatalmente acontecerá o que já se observa há anos: 2. Conforme documentos examinados, incluindo Ações Gerais; no Setor a venda das terras para os grandes e a emigração des- de Agroindústrias; no Setor de Produção Vegetal; no Setor de Produção Animal; no Setor de Recursos Naturais; e Ações que visam à ses pequenos agricultores para as cidades onde vão Organização de Produtores. Também foi consultado o Plano de Ação para 2003/2004. encontrar e criar problemas. 84 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Síntese dos Objetivos: Uma Explicação sobre as Técnicas permitido o plantio subsidiado de até 5 ha por produtor, cuja finalidade é a alimentação do rebanho leiteiro durante a entressafra; Com o objetivo geral de introduzir técnicas • Manutenção do botijão de sêmen abastecido com agrícolas e agropecuárias que não são aplicadas por nitrogênio, para uso dos produtores de leite que micro, pequenos e até médios produtores rurais, a queiram realizar inseminação artificial (sem experiência de Santa Fé do Sul busca promover o qualquer custo, para proprietários de até 100 ha). desenvolvimento tecnológico da agricultura e da O Programa e sua História pecuária, incentivando o aprimoramento de ações básicas e essenciais para que os setores consolidem a Um ponto importante do programa é que o cená- produtividade e a rentabilidade. São objetivos rio que o delineia remonta ao início da gestão, quando específicos do Proagrosul: • Aplicação e incorporação do calcário por pro- já havia uma preocupação voltada para a pequena pro- prietários de área inferior a 100 ha, introduzindo priedade e para a agricultura familiar, que caracterizam a prática da calagem no processo de produção; o município. No documento , são apontadas ações 3 como: • Terraceamento (curva-de-nível) para proprie- • Rearticular o Conselho Municipal de Desen- tários de área inferior a 50 ha, visando à con- volvimento Rural; servação do solo pela recuperação de suas • Incentivar a recuperação de pastagens e o qualidades físicas e químicas; aumento da produtividade; • Plantio Direto na Palha – PDP para proprietários de área inferior a 50 ha, difundindo essa tecno- • Elaborar projeto de conservação do solo para logia já existente e pouco utilizada, na qual a ser apresentado ao Comitê de Bacias Hidro- terra não é arada, nem movimentada, mas faz- gráficas, visando à obtenção de recursos; se a implantação do herbicida e, com uma • Realizar capacitação rural nas áreas de associa- plantadeira especial, são jogadas as sementes. tivismo, administração, gerenciamento, custos Essa prática diminui a degradação do solo, de produção e comercialização; aumenta a capacidade de retenção de líquido • Implantar Viveiro de Mudas; etc. No primeiro semestre de 2001, teve início o pla- na terra, tornando o custo de produção menor e nejamento do Programa, em reuniões de diagnóstico a ação dos herbicidas menos nociva; participativo, convocadas em todos os bairros rurais. • Plantio de cana forrageira para produtores de Com a participação média de 50% da população des- leite que tenham área inferior a 50 ha, sendo ço do produto ao do insumo – e apontadas soluções 3. PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA FÉ DO SUL. Secretaria Municipal por homens e mulheres (a freqüência é sempre do de Agricultura e Abastecimento. Plano de ação para 100 dias. Santa Fé do Sul, 2001. casal) que, segundo o secretário, demonstram ter cons- 85 Santa Fé do Sul – Proagrosul sas localidades, são identificados problemas – do pre- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas ciência dos problemas ambientais para sua atividade, de Oliveira, cujo objeto é a transferência de recursos quando solicitam, inclusive, a implementação de cole- financeiros da prefeitura para a associação, em conta ta seletiva. bancária específica para esse fim, com o intuito de A elaboração do plano de trabalho, no segundo adquirir calcário e sêmen, para manutenção de botijão semestre de 2001, incorporou o diagnóstico e o estudo de sêmen, e ressarcimento de serviços de mecaniza- de viabilidade econômica; a definição dos pré-requisitos ção prestados a produtores rurais do município, den- para participação, para atender o maior número de tro dos critérios estabelecidos no Decreto 2.087, de agricultores; a forma de operacionalização das ações; e 21 de agosto de 2002. São, então, liberados os primei- a viabilidade jurídica, considerando que os recursos ros recursos: R$ 7.500,00 para a compra de aproxima- públicos estariam sendo locados em áreas particulares. damente 50 t de calcário pela associação. Um período de negociação também faz parte do Gerenciamento, Recursos e Parcerias processo, que envolve o contato com as lideranças, as diretorias de associações, membros do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural e os técnicos A inserção do programa na proposta geral de agrícolas estaduais no município, hoje municipa4 lizados . A câmara municipal também é interlocutora governo pode ser apontada como aspecto influente nessa etapa. em sua gestão. O município tem como uma de suas Com a aprovação da lei municipal, em janeiro de prioridades a geração de emprego e renda e a instalação 2003, implanta-se o Proagrosul, “destinado a apoiar os de técnicas, estimuladas pela iniciativa, integradas a pequenos e médios produtores rurais estabelecidos no esse propósito . Várias outras ações demonstram a município, objetivando promover a melhoria quantitati- proatividade na busca de recursos e na identificação va e qualitativa dos rebanhos e plantações” (art. 1º). de possibilidades, de acordo com a vocação do muni- 5 Setembro de 2002 marca a abertura do Programa cípio, como, por exemplo, o Banco da Terra (Ministério ao público, quando é assinado o convênio entre a pre- do Desenvolvimento Agrário); o Incentivo à Agroin- feitura e a Associação de Produtores Rurais Dr. Hélio dústria (Incubadora de Empresa – Sebrae); o Galpão do Agronegócio (Secretaria Estadual da Agricultura); o Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas (Ciati 4. Em 31 de julho de 2003, conforme Termo de Convênio analisado, Santa – Secretaria Estadual de Agricultura); o Sistema Fé do Sul tem a agricultura municipalizada, objetivando, com a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento: “A integração dos serviços Agroindustrial Integrado – SAI (Sebrae); o Viveiro de assistência técnica, extensão rural e orientação de agronegócios e as demais ações voltadas ao desenvolvimento da agropecuária”. Municipal de Mudas (Fehidro); a Patrulha Agrícola (seis 5. Destaca-se que, antes mesmo da implantação do Proagrosul (de carac- tratores e 42 implementos agrícolas obtidos por con- terísticas mais específicas), a Lei 2.176, de 8 de maio de 2002, já dispunha sobre a criação de um Programa de Desenvolvimento da Agroin- vênios entre a prefeitura e outras esferas gover- dústria tendo como diretrizes: “a) estimular a criação, implantação e namentais); a Feira Livre do Produtor (60 produtores); desenvolvimento de micro e pequenas empresas agroindustriais; e ofertar às empresas participantes condições de instalação física, de uso e a Ficcap (Exposição de Produtos da Agropecuária e restrito e com uma infra-estrutura de apoio administrativo operacional, tendo por objetivo a redução de seus respectivos custos”. Produtos Artesanais). 86 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Essas parcerias têm proporcionado a valorização O gerenciamento da entidade é acompanhado das pequenas propriedades e da agricultura familiar. bimestralmente, quando sua diretoria se reúne para Especificamente em relação ao Proagrosul, a ação definições e fiscalização. Nesses encontros , dos quais conjunta entre a prefeitura e a Associação de Produ- também participam produtores do Programa Banco da tores Rurais Dr. Hélio de Oliveira proporciona sua Terra, são discutidos propostas, ações e problemas. operacionalização, cabendo à primeira: o repasse de Pelo Banco da Terra , 48 famílias estão com 3,5 ha recursos (até R$ 25 mil por ano) à associação, em conta cada e, em seu pedaço de terra, estão plantando e corrente bancária do programa; a análise e aprovação construindo benfeitorias. São 92 ha da Associação do da documentação técnica e administrativa, além de Alto Bacuri e 78 ha da Associação do Córrego Can Can. projetos apresentados pelos produtores, determinando O Proagrosul tem atendido esses produtores, de acor- sua execução; a fiscalização do andamento dos do com o termo de adesão (1º /4/2004), buscando trabalhos; e a avaliação/aprovação da prestação garantir, entre outros aspectos, condições adequadas de contas. de vida, particularmente, em termos de infra-estrutu- 6 7 Os serviços de mecanização agrícola são execu- ra, educação, saúde, transporte e assistência técnica. tados pela associação e envolvem a aplicação e incor- Uma Comissão Especial, nomeada pelo Poder poração do calcário, a conservação e a preparação do Público e composta pelo engenheiro agrônomo (se- solo e o plantio de cana-de-açúcar. A associação tam- cretaria municipal), pelo presidente da associação e bém adquire as doses de sêmen, transferindo-o pelo por produtor rural, faz análise, verificando o enquadra- valor de aquisição, além do nitrogênio, que é custeado mento do solicitante de acordo com os pré-requisitos, por recursos do programa. A prestação de contas e a além de avaliar a proposta/necessidade. devolução de valores eventualmente não aplicados Em Destaque: A Gestão dos Recursos são ainda atribuições da associação. 6. Participamos de reunião realizada em 25/11/2004, no Viveiro Municipal, Responsável por um conjunto amplo de atribui- envolvendo também produtores dos dois Núcleos Municipais Banco da 8 ções , a secretaria gestora realiza ações que proporci- Terra. A questão exigia muita discussão e um enfrentamento difícil. Entretanto, apesar das diferenças nas situações, o diálogo acontece e onem, além da gestão participativa e da metodologia acaba sempre em animado churrasco. 7. Parceria entre as associações de produtores rurais, Prefeitura de Santa para consolidá-la, conquistar credibilidade, obter par- Fé do Sul, por meio da Secretaria de Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente, com o Governo Federal (Ministério do Desenvolvimento cerias, profissionalizar e capacitar os beneficiários e Agrário) e com a interveniência da Associação dos Municípios da otimizar a estrutura de recursos humanos e materiais. Araraquarense – AMA. Com a formação da associação, os agricultores As principais atividades do programa caracteri- recebem até R$ 25 mil do Governo Federal para a compra de terreno (R$ 15 mil) e para as construções (R$ 10 mil). das. O binômio capacitação do homem do campo/ex- meio rural e meio ambiente; gerenciar ações relativas ao convênio para a implementação, no município, do Programa Estadual de Microbacias tensão rural transparece nas propostas e opções feitas Hidrográficas; prestar assistência e orientação técnica; realizar/fiscalizar a Feira Livre do Produtor; promover a educação ambiental. pelo município. A municipalização da agricultura, por 87 Santa Fé do Sul – Proagrosul zam-se pela qualidade técnica com que são executa- 8. Cabe à secretaria, entre outras atividades, planejar e implantar projetos no Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas exemplo, além da transferência de recursos financei- trabalho, que recebem mensalmente meio salário mí- ros (R$ 24 mil por ano), é valorizada, sobretudo, pela nimo e uma cesta básica. disponibilização de suporte técnico (Cati) e pela possi- Equipado com seis tratores e 43 implementos bilidade de capacitação dos técnicos e produtores. agrícolas, cedidos pela prefeitura, mas que não signifi- A ação conjunta dos órgãos municipal e estaduais pro- caram investimentos extras (utilizados pela Patrulha picia a difusão da tecnologia necessária, principalmen- Agrícola), o Programa tem um repasse anual de até R$ te em relação ao problema de empobrecimento do 25 mil (recursos municipais) para subsidiar 50% dos solo, questão crucial no atendimento aos pequeno e custos com horas-máquina e 100% da manuten- médio agricultores. ção de botijões de sêmen, para o atendimento dos 9 planos aprovados. O Proagrosul denota que o Poder Público assume sua responsabilidade na construção de uma política Para a calagem, a associação adquire o calcário e voltada ao desenvolvimento rural, levando em conta a repassa aos produtores, a preço de custo, executando especificidade regional e a desigualdade dos grupos os serviços de aplicação e incorporação mediante pa- sociais envolvidos no setor. Segundo o secretário, fal- gamento, pelo proprietário, de 50% do valor da hora- ta ao público-alvo do programa, desde operações ban- máquina. Os serviços de terraceamento, aplicação de cárias que melhorem a produção à assistência para a herbicidas e o plantio no sistema PDP (plantio direto sua inserção no mercado competitivo. na palha), além dos serviços de preparo do solo e plan- Em relação com os métodos tradicionais de ex- tio de cana forrageira, também são realizados sob o tensão rural, o Programa acresce o preparo técnico da mesmo sistema (pagamento de 50% do valor da hora- equipe e a proposta de uma ação contínua. Além do máquina). Com relação à inseminação artificial, a enti- secretário, o grupo de trabalho é composto por enge- dade conveniada adquire o sêmen e repassa o produ- nheiro, veterinário, técnico agrícola, auxiliar adminis- to a preço de custo ao produtor, cujo plano está apro- trativo e dois funcionários para serviços gerais. Na vado. Cabe a ela também a manutenção dos níveis de operacionalização (rotinas) das atividades do Proagro- nitrogênio dos botijões para conservação do sêmen sul, estão locados um gerente (contratado pela associ- que poderá ser utilizado sem qualquer custo por pro- ação) e dois auxiliares. No viveiro de mudas, há um prietários de até 100 ha. responsável (prático) e dois auxiliares concursados, A busca por parcerias é outro aspecto da gestão além de 15 trabalhadores contratados como frente de dos recursos. Não se trata de procedimento específico do programa, mas tem interface com ele na medida em que o grupo de proprietários beneficiado acaba 9. A prefeitura transfere o valor para a conta bancária da conveniada, 10 por fazer parte também das outras ações . aberta com a finalidade exclusiva de movimentação dos recursos passados, exigindo a prestação de contas ao final do exercício fiscal. O Sistema Agroindustrial Integrado – SAI/Sebrae 10. O produtor rural que participa das reuniões da associação relacionadas tem sido acionado para capacitar os produtores em ao Proagrosul acaba por discutir problemas que vão além da produção. É assim que outras ações são ampliadas para atendê-las, como a Saú- questões gerenciais e administrativas, ocorrendo de da Família, o Turismo Rural, o Transporte Escolar, a participação em diversos programas sociais. ações semelhantes com o Serviço Nacional da Indús- 88 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam tria – Senai e o Serviço Nacional de Aprendizagem artificial. Nos médio e longo prazos continuarão a Rural – Senar e, também, para a organização do Pavi- ser trabalhados os dois grandes gargalos da agricul- lhão do Agronegócio (Ficcap). tura familiar: a utilização de novas técnicas e a O Galpão do Agronegócio construído pela Secre- agregação de valor à produção agropecuária. taria Estadual da Agricultura abriga cinco empresas, Considerações Finais em fase de instalação, com o objetivo de agregar valor à produção agropecuária regional. O Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, também convênio Ainda que o fornecimento de máquinas pela Ad- entre a prefeitura e a secretaria, é outra parceria que ministração Municipal não seja novidade, sobretudo visa promover o desenvolvimento rural. no interior do País, a presença da associação na gestão delas, mediante critérios claros e objetivos, inova ao Resultados e Metas oferecer equipamentos e serviços a todos os Para o secretário, mais do que as áreas beneficia- listas. Além disso, o programa é dirigido declara- das com o terraceamento (67 ha), a aplicação de damente a um público específico (menos favorecido) calcário (85,30 ha), o plantio de cana (15,36 ha) e a em detrimento de outros. A presença da associação o aquisição de calcário (137,17 t), entre 1 de janeiro a 8 no programa incentiva o associativismo, ainda que a de novembro de 2004, os melhores resultados do pro- filiação não seja uma exigência. grama são a própria consolidação da parceria Poder Pela sua simplicidade e volume de recursos en- Público/associação e o conseqüente processo de cons- volvidos no Proagrosul, seu potencial de replicação é cientização sobre a importância de novas práticas de grande. Como afirma o secretário Fernando Carmo, produção que a tornem mais rentável e sustentável. “todo município tem maquinário agrícola que pode ser Ainda existe resistência e a equipe atua para utilizado e o Poder Público tem a responsabilidade de que, no curto prazo, os 480 produtores (do total de encontrar formas para viabilizar práticas que tornem 600 proprietários) que se enquadram nos critérios viável a produção de pequenas propriedades”. Entre- sejam agregados ao programa. Pretende-se, tam- tanto, é preciso conjugar ações, de modo que esses bém, fortalecer ações que se encontram frágeis, produtores possam continuar vivendo e gerando ren- como o plantio direto na palha e a inseminação da no campo. 89 Santa Fé do Sul – Proagrosul solicitantes, independentemente de relações cliente- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 90 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam São Manuel Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos – São Manuel Joga Limpo Flávio Roberto Massarelli Silva, Prefeito Municipal Prefeitura Municipal de São Manuel Rua Dr. Júlio de Faria, 518 - Centro - São Manuel - SP CEP 18650-000 - Tel.: (14) 3812-4400 - Fax: (14) 3812-4429 E-mail: [email protected] Lia Cruz Moura O projeto de São Manuel não envolve só a recuperação do lixão, o aterro, as aulas de educação ambiental e a associação de catadores. É um projeto de meio ambiente. Foi realizado um programa com as embarcações do Rio Tietê que passam aqui no município para que conservassem o rio limpo. No próximo ano, iniciaremos a Escola Ambiental. Amanhã estarei assinando um termo de compromisso com o Greenpeace, Programa Cidade Amiga da Amazônia. São diversas ações para preservar o meio ambiente. Prefeito Flávio Roberto Massarelli Silva (...) é preciso incentivar o crescimento da compreensão de nosso incomparável desperdício(...) (Noel Grove, 1994) O Município de São Manuel possui, aproximada- A principal atividade econômica é a agricultura, mente, 38 mil habitantes e está situado na região cen- com predomínio das culturas de laranja, cana-de-açú- tral do Estado de São Paulo, no planalto entre as serras car e limão. O município cultivou café, mas como ocor- de Botucatu e dos Cordeiros. É cercado pelos rios Tietê reu com outros municípios, os produtores optaram e Paranapanema. Dista 278 km de São Paulo, 170 km por plantar cana, que além de lucrativa, é de cultivo de Sorocaba, 80 km de Bauru e 24 km de Botucatu. mais simples. Devido à proximidade com Botucatu, a população pode Os canaviais agregam uma grande usina de açú- aproveitar os benefícios da cidade grande, residindo car e álcool, que emprega cerca de 1.800 pessoas. em um município pequeno. Percorrendo as estradas de terra do município, sente- 91 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas se o cheiro de melaço e vê-se a passagem dos tura e 6,9% do Fehidro. O total investido nos dois anos treminhões, que acabam por destruir o asfalto devido foi de R$ 618.477,38. ao seu peso quando carregados. A equipe técnica, envolvida nos trabalhos sociais O perfil socioeconômico fornecido pela Seas/ e de obras, é composta por 12 pessoas. Provenientes MPAS, de 2000, mostra que 22,40% das famílias resi- da prefeitura, seis têm formação técnica (biólogos, dentes em domicílios particulares têm rendimento assistentes sociais, pedagogos e psicólogos) e dois mensal per capita de até meio salário mínimo; 41,30%, são administrativos. Quatro consultores são contrata- de meio a dois salários mínimos per capita; e 36,29%, dos da Universidade Livre do Meio Ambiente – Unilivre de mais de dois salários mínimos per capita. e têm formação em arquitetura e urbanismo, comuni- Nesse contexto, surge o Projeto de Gerenciamen- cação visual, engenharia civil e serviço social. to Integrado de Resíduos Sólidos de São Manuel, que Dentre as atividades descritas no Plano de Ação envolveu diversas ações: a desativação do antigo lixão enviado ao ministério, encontra-se a elaboração do e sua recuperação; a implantação do aterro sanitário; a Plano de Gerenciamento Integrado de Resíduos Sóli- criação da associação de catadores; a implantação de dos – PGIRS , que prevê a criação de uma comissão coleta seletiva; aulas de educação ambiental; e pales- organizadora, audiências públicas, reuniões com os tras aos munícipes, sobre a coleta seletiva. diversos segmentos da sociedade civil organizada, 1 Para obter recursos para implementação das ações, encaminhamento, para a câmara, de projeto de lei so- a prefeitura enviou projeto solicitando recursos do Minis- bre o Plano de Remuneração e Custeio, e elaboração tério do Meio Ambiente, por intermédio da Secretaria de de diagnóstico dos serviços de limpeza urbana. Qualidade Ambiental nos Assentamentos Humanos – Assim, foi preparado um mapeamento dos tipos SQA, que é responsável pelo Programa Brasil Joga Limpo, de lixo coletados em cada bairro da cidade. Com o e do Fundo Estadual de Recursos Hídricos – Fehidro, ob- conhecimento da tipologia do lixo, foi organizada a coleta tendo aprovação de ambas as instituições. seletiva e o estudo das melhores formas para cons- O projeto, segundo a equipe técnica envolvida, cientização de cada segmento da população. Verificou- foi cumprido em todas as etapas, obedecendo à previ- se, nessas etapas, que a população mais carente, são do cronograma de trabalho encaminhado ao Fun- residentes dos bairros de São Geraldo e Santa Mônica, do Nacional do Meio Ambiente – FNMA. Tanto o tra- já realizavam coleta seletiva muito antes de sua balho social como as obras tiveram cronograma pre- implantação, pois vendiam o lixo seco e produziam visto para 12 meses. Em 2002, foram investidos R$ muito pouco lixo molhado. De acordo com o prefeito, 35.834,40, 21,87% provenientes da Caixa Econômica gestor direto do projeto, a região central da cidade, a Federal – CEF e 78,13% de recursos da prefeitura. Em mais rica do município, é também a de mais difícil 2003, foram investidos R$ 582.642,98, sendo 65,32% adequação à coleta seletiva. Atualmente, a adesão é de dos recursos provenientes da CEF, 27,78% da prefei- 90% da população. Concomitantemente, ainda de acordo com o Pla- 1. Item constante do projeto enviado ao Programa Brasil Joga Limpo. no de Ação, seguiram-se discussões com a comuni- 92 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam dade sobre a importância da implementação do PGIRS, O início do projeto deu-se em 2001, quando o prefeito que envolveu a distribuição de material impresso in- recém-eleito foi ameaçado de ser multado pela Com- formativo, divulgação na imprensa falada e na escrita panhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – e palestras. O trabalho de conscientização continuou Cetesb, devido ao funcionamento irregular do lixão. com reuniões para formação de multiplicadores, capa- Com isso, a equipe técnica da prefeitura – diretores e citação dos coletores e a criação do Fórum Municipal técnicos – foi mobilizada para tomar as providências Lixo e Cidadania (que possui nove membros da socie- necessárias na solução do problema. dade civil organizada). Um show com a banda Ira inau- No mesmo ano, foi enviada ao FNMA a pro- gurou a coleta seletiva. posta para captação de recursos destinados à execu- Aulas de educação ambiental com os alunos da ção dos trabalhos. Doutorandas da Universidade Esta- rede pública, em parceria com a Futurekids, atingiram dual Paulista – Unesp de Botucatu, Paula Valéria Coiado 100% das escolas municipais. Foram realizadas cam- Chamma e Kátia Hilário, residentes no município e panhas nas escolas, reuniões com os professores e estudantes do problema do lixo local, elaboraram um concursos para escolha de ícone, nome e slogan do Relatório Experimental para subsidiar tecnicamente o projeto. A implantação e manutenção da Central de projeto, enviado também ao Fehidro. Atendimento ao Usuário – CAU que, segundo o pre- Após a aprovação da proposta, o recurso foi feito, recebe ligações e visitas, informando sobre aque- liberado em junho de 2002. A Caixa Econômica Fede- les que jogam o lixo em local incorreto, contribuiu para ral, que repassa a verba, solicitou a elaboração do pla- o sucesso e popularização da iniciativa. no social, que já estava previsto pela equipe do proje- O trabalho de reinserção social dos catadores do to, para liberar os recursos oriundos do FNMA. A ver- lixão envolveu o cadastramento e inclusão das famí- ba do Fehidro foi disponibilizada em 2003. lias em programas e projetos sociais e o encaminha- O problema gerado pelo lixão não só era de assis- mento aos serviços de saúde e escola, além da organi- tência social, devido ao número de catadores que lá zação da Associação dos Catadores de Papel, Papelão habitavam, mas também de saúde pública, pois na ci- e Materiais Recicláveis de São Manuel – Acapel, com dade havia um grande número de moscas varejeiras treinamento dos catadores e implantação da unidade que impossibilitavam uma refeição sem problemas, de resíduos sólidos. como afirmam os moradores: “Antes era só fritar um A Iniciativa e sua Trajetória não há mais moscas em São Manuel”. Com a desativação do lixão e a implantação do De acordo com o panfleto de conscientização aterro, o problema foi solucionado. Entretanto, um sobre a coleta seletiva distribuído à população, “o Mi- outro surgiu. Os catadores sobreviviam no lixão há nistério Público de São Manuel havia, desde o ano de anos, muitas vezes a família toda. A equipe conta que 1995, assinado acordo, não cumprido pelos adminis- na primeira visita ao lixão, até então, um mundo isolado tradores anteriores, para o fechamento do lixão”. do restante do município, os técnicos ficaram chocados. 93 São Manuel – Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos bife que a cozinha se enchia de moscas, horrível. Hoje Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Numa segunda-feira, os restos eram apro- reduzir, reutilizar e reciclar – em diversos bairros e veitados pelos catadores que diziam: ‘Hoje é escolas do município. Foram distribuídos folhetos dia de churrasco!’, utilizando-se das sobras de informativos e realizadas propagandas na imprensa carne do dia anterior e do refrigerante sem gás nas garrafas. Olhos preciosos e mentes sábias local, comunicando à população as mudanças na coleta observavam com atenção o número infinito de moscas e bichos que circulavam em torno dos de lixo. O município, dividido em seis setores, tem catadores, entre eles crianças, que comiam não o lixo úmido coletado três vezes por semana e, o só o lixo, mas também no lixo. seco, semanalmente. A iniciativa não solicita a separação do lixo seco Ao retirar as famílias do lixão, o prefeito assinou por tipo (vidro, papel, plástico, entre outros) porque, documento com a Unicef, comprometendo-se com o segundo o prefeito, o fundamental nessa etapa é programa Criança no Lixo, Nunca Mais. Outra provi- conscientizar em relação à separação do lixo seco do dência referiu-se à eliminação do risco para a qualida- úmido, simplificando o trabalho dos moradores, na de da água servida no município, devido à sua proxi- busca pela inclusão de todos os habitantes na coleta midade do lixão (120 m). Havia risco de contaminação seletiva. do solo pelo chorume produzido, mas a área foi cerca- Nas escolas, as aulas sobre a importância de pre- da com arame farpado e recuperada com o plantio de servar o meio ambiente e destinar adequadamente o árvores e grama. Outra medida adotada para garantir a lixo, constam da grade curricular. O lixo reciclável é qualidade da água foi a instalação de um sistema de utilizado para fazer trabalhos manuais, que enfeitam as monitoramento que detecta a existência de poluentes escolas em dias de festa e no aniversário da cidade, na água. além de se tornarem fonte de renda para algumas mães O projeto do aterro aprovado pela Cetesb prevê que aprenderam a fazer artesanato com PET e outros seis células, cada uma com duração de oito a dez produtos recicláveis. anos, dependendo do sucesso da coleta seletiva. A célula do aterro que está sendo utilizada possui manta Gestão/Funcionamento de isolamento para evitar a contaminação do solo e tubo de escape das emanações produzidas pelo lixo Escola Estadual Maria Benedita de Almeida para evitar o aprisionamento de gás no aterro, que Baida às 14 horas. Olhos atentos. São as 150 pode ocasionar explosões. O prefeito comemora, crianças de 5ª série observando o prefeito do desde já, o sucesso da coleta seletiva, apontando um município chegar à escola para realizar mais prolongamento da vida útil do aterro. Mesmo assim, uma das 76 palestras sobre a importância de preservar o meio ambiente em São Manuel. para o final desta, já estão previstas atividades para O distrito onde se localiza a escola, recuperação do meio ambiente, com plantio de uma Aparecida tem aproximadamente três mil habitantes. reserva florestal. Para reforçar o sucesso da coleta seletiva, o O prefeito explica a importância da coleta seleti- próprio prefeito ministrou 76 palestras de cons- va, enfatizando que além de ser fundamental para cientização – nas quais aborda o conceito dos três erres: 94 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam De Catadores a Cidadãos ampliar o tempo de vida útil do aterro sanitário, recentemente implantado, 26 famílias de catadores, organizados em associação, precisam da renda obtida na co- O papel principal da coleta seletiva não está so- leta seletiva. Explica que o lixão, que existia até mea- mente concentrado nos benefícios para o meio am- dos de 2002, era prejudicial aos mananciais que fica- biente. Hoje, o material reciclável coletado na cidade vam a 120 m. Ressalta que preservar a água e o meio está disputado entre os agentes ambientais (ex- ambiente é importante para eles, que criarão filhos e catadores do lixão), reunidos na Acapel, e os catadores netos em uma cidade com água limpa e disposição não institucionalizados, denominados de clandestinos. adequada de lixo. A gerente da associação recebe muitas solicitações O prefeito salienta, ainda, a importância da parti- de trabalho que são avaliadas pela entidade e decidi- cipação de todos na coleta seletiva e a importância das em reunião. de as crianças orientarem seus pais. Para as crianças, Os recursos destinados à execução do trabalho confessa: “Fazer a coleta seletiva não é para ajudar o social são assim distribuídos: aluguel do espaço da uni- prefeito, mas para ajudar a todos nós, moradores de dade de separação de resíduos (R$ 400,00); aquisição São Manuel”, chamando todos para a responsabilida- de equipamentos (R$ 13.750,00); aquisição de materi- de com o meio ambiente. “Se jogarmos o lixo em al de segurança (R$ 1.675,00); assessoria da Unilivre lugar errado, há um gasto desnecessário para a pre- (R$ 3 mil); aquisição de cestas básicas (R$ 1.250,00); feitura, que tem que enviar um caminhão só para regularização da documentação das famílias (R$ 2 mil). pegar o lixo que foi jogado em local incorreto. Cada Há também a disponibilização de recursos humanos do um de vocês tem um pedacinho de responsabilidade quadro da prefeitura. O aluguel do espaço deveria ser para cuidar da cidade. A cidade não é minha, é de mantido pela prefeitura somente até o sexto mês após todos nós.” a implantação do projeto, porém, esse subsídio permanece, pois a associação ainda não se auto-sustenta. sitado recentemente pelos alunos. A escola tem, na O gasto da prefeitura com a associação, conta- grade curricular, aulas de educação ambiental. De- bilizando locação do barracão, despesas com água, pois de muito silêncio e a professora perguntando se luz, cestas básicas, caminhão para coleta seletiva não havia dúvidas quanto às explicações, uma aluna (busca somente objetos que não podem ser coletados levanta a mão e pergunta: “O tubo que tem no aterro pelos carrinhos), vassouras, manutenção dos pneus pode ser coberto?” Pacientemente, ele explica que e dos carrinhos de coleta, é de, aproximadamente, não e justifica sua resposta. Outra aluna pergunta: R$ 9 mil. No período de 6 de outubro a 9 de novembro “Depois que subir os 4 m de lixo do aterro, o que será de 2004, a receita dos agentes foi de R$ 10.432,00 feito lá?”. O palestrante responde que o aterro tem sendo ainda insuficiente para garantir a auto- seis células, cada uma com durabilidade entre seis e sustentabilidade da associação. oito anos. Quando esgotada uma célula, será feito Quando os catadores deixaram o lixão para formar um reflorestamento e iniciada uma nova célula. a Acapel, a renda mensal individual obtida com a coleta 95 São Manuel – Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos Fornece, então, informações sobre o aterro, vi- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas de lixo reciclável, era de R$ 97,00. Atualmente, os O aspecto social também é importante. A inclu- rendimentos são, em média, de R$ 500,00. Os asso- são dos catadores no projeto propicia que eles tenham ciados recebem também uma cesta básica, a mesma rendimento para manter suas famílias e possam usu- que recebem os funcionários da prefeitura, frisa o fruir os serviços públicos básicos, como o acesso à prefeito. É a gerente da associação que negocia o valor saúde e à educação. Apesar de os catadores clandes- dos fardos de produtos recicláveis com os compradores. tinos (os que não aderiram à Acapel) continuarem o Os 25 associados garantem o próprio sustento e trabalho de coleta de lixo reciclável paralelamente à o de suas famílias, integrando a parte cidadã do muni- associação, por diversas razões destacadas pelos ges- cípio até então desconhecida por eles. Mara, gerente tores do projeto, entre elas, a não disponibilidade para da associação, explica: “Quando vieram para cá, não o trabalho em período integral ou mesmo a dificulda- tinham sequer documentos. Os filhos não iam ao mé- de de atuação em grupo, há uma iniciativa do Poder dico ou à escola. Hoje, a situação é diferente”. A situa- Local em absorver essas pessoas. Está sendo elabora- ção de indigência no lixo é reconhecida por todos, tan- do um projeto complementar, pelo qual os clandesti- to catadores como técnicos, que constatam expressi- nos venderão os produtos coletados para a Acapel e va melhora na qualidade de vida. não para terceiros, possibilitando o aumento dos rendimentos dos associados e uma melhora nos ganhos Juliana e Isaias se conheceram no lixão. Ambos para os clandestinos. eram catadores. Tiveram o primeiro filho, hoje Uma fragilidade do projeto é a dificuldade dos com dois anos e quatro meses e, devido à associados em trabalhar em grupo. Uma ação contí- impossibilidade de criá-lo, a justiça tirou-lhes a tutela da criança. Há dois meses, a criança nua dos gestores procura superá-la com reuniões, du- foi devolvida aos pais e agora tem um irmãozinho com um ano e três meses. Segundo a rante as quais são discutidos aspectos da convivência mãe, a diferença entre o lixão e a nova vida coletiva diária. Outra dificuldade apontada, que era a que levam na Acapel é gritante: durante a falta de comprometimento de alguns com o horário de gestação fez pré-natal, teve licença-mater- trabalho, prejudicando o conjunto, foi solucionada. Por nidade e hoje são capazes de sustentar os filhos. decisão unânime, foi implantado um livro de ponto, Considerações Finais fiscalizado pela gerente do barracão e pelo presidente da associação. Os salários, no final do mês, são reduzi- Ter conseguido implantar a coleta seletiva com dos no caso de faltas não justificadas. sucesso, enquanto somente 3,5% dos municípios bra- O ponto forte da iniciativa é que as ações do Pro- sileiros (entre eles, 57 do Estado de São Paulo) o fazem, grama de Gerenciamento de Resíduos Sólidos fazem configura-se como impacto de destaque do projeto. O parte de um projeto maior de meio ambiente. No iní- primeiro aspecto a se considerar é o ambiental. São cio do mês, o prefeito assinou carta de intenções com Manuel é hoje um dos poucos municípios que resolve- o Greenpeace, Prefeito Amigo da Amazônia, na qual ram o problema da destinação final do lixo, em razão da se compromete a não comprar madeira sem certifica- conscientização popular sobre a questão ambiental. do, evitando o desmatamento de espécies em extin- 96 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam ção. A prefeitura tem também estudado, em conjunto além de possibilitar a inclusão social, resgata a digni- com a Unesp, o reaproveitamento de materiais com dade e a cidadania dessas pessoas. As ações adotadas “difícil” destinação final de lixo em insumos para a cons- no projeto caracterizam-se como modelo para implan- trução civil. tação de um projeto de gerenciamento integrado de resíduos sólidos , de responsabilidade das Adminis- Manuel não só envolve a questão ambiental, da cole- trações Públicas locais. Destaca-se também o poten- ta, destinação, redução e reciclagem de lixo, mas tam- cial de replicabilidade do projeto, principalmente na bém a questão social, quando promove os antigos implantação da coleta seletiva e da educação ambien- “catadores de lixo” em agentes ambientais, o que, tal nas escolas. 2. JARDIM, Nilza Silva (Coord.), et al. Lixo Municipal: manual de gerenciamento integrado. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas: Cempre, 1995. 97 São Manuel – Gerenciamento Integrado de Resíduos Sólidos 2 O projeto desenvolvido pelo município de São Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas 98 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Aguaí, Águas da Prata, Caconde, Casa Branca, Divinolândia, Espírito Santo do Pinhal, Itobi, Mococa, Santo Antônio do Jardim, Santa Cruz das Palmeiras, São José do Rio Pardo, São João da Boa Vista, São Sebastião da Grama, Tambaú, Tapiratiba e Vargem Grande do Sul Eliana N.M. Z. Giantomassi, Coordenadora do Consórcio Conderg – Hospital Regional de Divinolândia Avenida Leonor Mendes de Barros, 626 - Divinolândia - SP CEP 13780-000 - Tel.: (19) 3663-1945 - Fax: (19) 3663-1620 E-mail: [email protected] O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista – Uma Forma de Resolver a Saúde Conjuntamente Maria do Carmo M. T. Cruz Aqui nós somos atendidos com respeito. Há um cuidado especial com cada paciente. Marcos da Silva, paciente. O Consórcio vem se adequando de acordo com as necessidades dos municípios. Foi se reformulando no decorrer dos anos. Novos serviços foram criados a partir da demanda apresentada e sempre buscando a qualidade do atendimento aos cidadãos. Eliana N. M. Z. Giantomassi, coordenadora do Consórcio O planejamento anual é feito por toda equipe e norteia a nossa ação. Discutimos investimento, contratação de recursos humanos, etc. Estabelecemos as metas anuais. Cada um da diretoria é guardião pelo cumprimento de um conjunto de metas. Rosalina Ribeiro Lima Dias, diretora técnica do Consórcio O Conderg é uma conquista dos municípios da região, sobretudo no que se refere ao empenho e colaboração entre eles. O entusiasmo e o desempenho das equipes também são destaque para conseguimos uma articulação regional, em especial com a Diretoria Regional de Saúde – DIR. Laert de Lima Teixeira, ex-prefeito de São João da Boa Vista e presidente do Consórcio 99 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas No contexto da descentralização das políticas No Estado de São Paulo, os Consórcios Intermu- sociais, vários municípios têm buscado novas formas nicipais de Saúde surgiram a partir da década de 1980. de prestação de serviços. Na área da saúde, os gesto- Vários municípios se uniram para organizar os servi- res constataram que, para se ofertar uma atenção in- ços secundários (clínica de especialidades, laborató- tegral aos seus munícipes, é necessário transcender rios, hospitais, etc.) regionalmente, gerindo-os de for- as fronteiras municipais e sua solução, necessaria- ma colegiada. mente, passa por um ordenamento regional. Alguns municípios têm-se articulado nesse sentido, discu- Histórico e Implantação tindo seus problemas e alternativas em conjunto, buscando uma cooperação intermunicipal. Os con- O Consórcio de Desenvolvimento da Região de sórcios intermunicipais, como associações civis, são Governo de São João da Boa Vista – Conderg é uma uma das formas encontradas para se associar e resol- parceria firmada entre os Municípios de Aguaí, Águas ver problemas comuns e têm se apresentado como da Prata, Caconde, Casa Branca, Divinolândia, Espírito um instrumento para a implementação de algumas Santo do Pinhal, Itobi, Mococa, Santo Antônio do Jar- políticas públicas. dim, Santa Cruz das Palmeiras, São José do Rio Pardo, Tabela 1: Distribuição da população e mortalidade infantil dos municípios que compõem o Conderg Município Aguaí Águas da Prata Caconde Casa Branca Divinolândia Espírito Santo do Pinhal Itobi Mococa Santo Antônio do Jardim Santa Cruz das Palmeiras São José do Rio Pardo São João da Boa Vista São Sebastião da Grama Tambaú Tapiratiba Vargem Grande do Sul Total População Taxa de Mortalidade 2 % Infantil 30.385 7.358 18.986 27.324 12.171 42.185 7.828 68.416 6.395 27.162 52.494 80.458 12.798 23.257 6,47 1,57 4,05 5,82 2,59 8,99 1,67 14,58 1,36 5,79 11,19 17,14 2,73 4,96 18,33 12,50 16,72 25,71 7,04 13,89 45,98 16,55 13,51 10,80 13,95 16,50 10,31 30,96 13.390 38.688 469.295 2,85 8,24 100,0 11,24 21,43 Fonte: FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal. 100 3 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam São João da Boa Vista, São Sebastião da Grama, ISS, entre outros, mas, com o desenvolvimento da Tambaú, Tapiratiba e Vargem Grande do Sul. Foi criado tecnologia, cada município passou a ter os seus 1 em 1985 e abrange uma população de 469.295 habi- próprios computadores e essas atividades foram tantes (Tabela 1). extintas. Os sistemas de tratamento de lixo e de O Conderg surgiu a partir do estímulo do Gover- habitação não foram implementados. no Montoro (1983/1986) para que os municípios en- Hoje, atua nas áreas de conservação de estradas contrassem coletivamente soluções para diversos dos (Conderg – Pró-Estrada ) e de saúde (Conderg – Hospi- problemas enfrentados. Na época, órgãos como a tal Regional). O consórcio, como uma associação civil, Fundação Prefeito Faria Lima – Cepam e os Escritórios tem um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica – CNPJ. 5 Regionais de Governo – ERGs incentivavam a formação de consórcios, como meio de organizar forças en- Conderg - Hospital Regional tre os municípios para implementar políticas públicas. O consórcio foi criado com as finalidades de: “repre- O Conderg – Hospital Regional, uma variação do sentar o conjunto de municípios que o integram, em Conderg, foi criado em 13 de julho de 1987. Suas ativi- assuntos de interesse comum; reunir e oferecer re- dades são desenvolvidas em Divinolândia, em um pré- cursos e meio para que seus associados possam dar, dio desativado do antigo Sanatório Adhemar de Bar- de forma filantrópica, a seus munícipes, condições de ros. Desde 1974, funcionava no local a Associação Hos- vida e desenvolvimento de maneira digna e humani- pital Adhemar de Barros, cuja finalidade era o atendi- tária no campo do ensino e trabalho, especificamente mento médico-hospitalar aos munícipes. Em 1978, na saúde e assistência social; planejar, adotar e execu- através de convênio celebrado com a Secretaria de tar medidas destinadas a promover e acelerar o de- Estado da Promoção Social, recebeu para atendimen- senvolvimento socioeconômico da região” . Em seu to, em regime de internato, 150 pacientes, portadores estatuto, também consta como finalidade a atuação na de deficiência física e/ou mental profunda, provenien- área de saúde. tes de todo o Estado de São Paulo. Para isso, ocupava Em um primeiro momento, foi concebido para apenas parte do prédio. Como sua estrutura estava atuar nas áreas de informática, saúde, habitação e ociosa, o conjunto de prefeitos envolvidos assumiu o tratamento de lixo. As atividades de informática hospital como referência secundária para a região. permitiram sistematizar o Imposto sobre a Propriedade Assim, o Conderg – Hospital Regional surgiu como Territorial Urbana – IPTU, o Imposto sobre Serviços – uma alternativa para atender à população usuária do Sistema Único de Saúde – SUS. 1. FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal. Em 1989, o Conderg – Hospital Regional cele- 2. Dados de 2004. 3. Dados de 2003. 4. Estatuto alterado do Conderg, artigo 7º, 24/3/1999. 5. O Conderg – Pró-Estrada tem duas patrulhas agrícolas mecanizadas. Cada uma atende seis municípios consorciados. Até 2003, o Conderg também atuava como agente do Banco da Terra, programa extinto pelo Governo Federal, que beneficiava os pequenos produtores rurais. brou um convênio com o serviço de oftalmologia da Universidade de Campinas – Unicamp, para implementar o Projeto Catarata, cuja meta era detectar e resolver os inúmeros casos da doença, e o Banco de Óculos, 101 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista 4 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas que os confeccionava para pacientes que não tinham Permaneceu, ainda, com o atendimento integral como comprá-los. O projeto foi divulgado aos municí- aos pacientes moradores/portadores de deficiência, pios, os pacientes foram triados pela rede básica e os construindo área física apropriada, denominada Solar casos da doença encaminhados para o hospital. Com o das Magnólias, e criando uma equipe de reabilitação tempo, novas necessidades foram surgindo e novos no setor serviços foram sendo disponibilizados. Os municípios, com o Governo do Estado e o Assim, em 1998, celebrou convênio com o servi- Ministério da Saúde, montaram uma estrutura para ço de otorrinolaringologia da Unicamp e, em 2000, com atendimento, adequando a área física, adquirindo equi- o serviço de ortopedia do Hospital das Clínicas da Uni- pamentos, treinando os profissionais e disponibilizan- versidade de São Paulo – USP/Ribeirão Preto. do técnicos. As dificuldades encontradas para realizar cirurgias eletivas pelo SUS, nos municípios, levaram o Conderg Descrição e Funcionamento a também ofertar o serviço de cirurgia geral eletiva nas O Conderg é responsável pela administração de campanhas realizadas pelo Governo Federal, como um hospital com 227 leitos dos quais 95% são desti- laqueadura, vasectomia, cirurgias de varizes, etc. No decorrer do seu funcionamento, disponibilizou, nados aos pacientes do SUS (Tabela 2). Objetiva pres- de acordo com a necessidade apontada pelos municí- tar assistência médico-hospitalar secundária, aos 16 pios, consultas clínicas de cardiologia e neurologia. municípios consorciados , com a realização de proce- 6 Tabela 2: Número de leitos, discriminados por tipo e do SUS Leitos Leitos existentes Leitos SUS Cirúrgicos - Cirurgia geral 26 24 - Obstetrícia 5 2 29 23 Clínicos - Clínica geral - Obstetrícia 9 4 - Pediatria 13 12 150 150 227 215 Complementares - Crônicos Total Fonte: Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Datasus 6. O Conderg atende municípios não consorciados (Mogi-Mirim, MogiGuaçu, Itapira, Estiva Gerbi e Engenheiro Coelho) mas que pertencem à DIR – XX, em serviços de reabilitação e alguns exames complexos. 102 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam dimentos de pequena e média complexidades, nas sos de formação e treinamento, auxílio técnico, difu- áreas de clínica médica; clínica cirúrgica; ginecologia e são de dados e informações, bem como no atendi- obstetrícia; pediatria; cardiologia clínica; neurologia mento, em plantões, de casos encaminhados pelos clínica; oftalmologia; otorrinolaringologia; reabilitação municípios consorciados . Durante toda a semana as intermediária, com o fornecimento de órteses auditi- universidades disponibilizam seus residentes para vas e próteses ortopédicas; além do atendimento in- atender os pacientes, bem como um professor e o tegral aos 150 deficientes crônicos (físico/mental). coordenador da área para supervisionar o trabalho. E, Possui também um pronto-socorro que atende, prio- para casos mais complexos, garantem a referência nos ritariamente, ao Município de Divinolândia. hospitais escolas das universidades parceiras. 8 9 Os pacientes são encaminhados ao hospital, após Em 2003, foram realizadas 497 cirurgias de triagem e agendamento nas especialidades realizados catarata; 19.720 consultas de oftalmologia; 6.330 con- nos 16 municípios consorciados pela rede de saúde sultas de otorrinolaringologia; 7.550 consultas de or- básica (postos e centros de saúde). Os atendimentos topedia; 88.583 procedimentos de diagnose e tera- são feitos pelo SUS, com qualidade e não gerando pia; distribuídos 4.566 óculos e 694 aparelhos auditi- ônus para o paciente. Por estarem mais próximos de vos; e feitas 2.898 internações . 10 suas residências, dispensam o deslocamento para os Gerenciamento da Iniciativa grandes centros (Campinas e São Paulo) e evitam gran7 des esperas para agendamento . Ressalta-se que os 150 deficientes crônicos mo- O Conderg é uma associação civil, formada por ram no hospital e vêm de todo o Estado de São Paulo. entes públicos, e tem em sua estrutura administrati- São atendidos de bebês a idosos. va um Conselho de Prefeitos, um Conselho Fiscal e A assistência médico-hospitalar secundária, nas um coordenador. áreas de oftalmologia e otorrinolaringologia, tem o res- • O Conselho de Prefeitos é o órgão deliberativo, paldo da Unicamp e na de ortopedia, da USP – Ribeirão constituído pelos prefeitos dos municípios Preto. Através de convênio, as universidades colabo- consorciados; é presidido pelo prefeito de um ram com o Conderg com o repasse de tecnologia, cur- dos municípios, eleito em escrutínio secreto para o mandato de dois anos. O Conselho de Em especialidades como a otorrinolaringologia, a demanda é alta e o atendimento pode ser realizado em até 45 dias. Para procedimentos Prefeitos reúne-se a cada bimestre ou quando 11 se fizer necessário . como a cirurgia de amídalas, a fila de espera é de até quatro meses, pois • O Conselho Fiscal é constituído por tantos o hospital tem um número mensal de atendimentos limitado. 8. Convênio que entre si celebra o Consórcio de Desenvolvimento da Re- membros quantos sejam os municípios partici- gião de Governo de São João da Boa Vista e a Universidade Estadual 9. de Campinas, 2003. pantes, indicados pelas respectivas câmaras, Há, por semana, quatro residentes de oftalmologia, um de otorrino- que escolhe um representante. laringologia e dois de ortopedia. • O(a) coordenador(a) do hospital é eleito entre 10. Fonte: Questionário Novas Práticas Municipais, 2004. 11. No ano de 2004, reuniram-se nove vezes. os prefeitos dos municípios consorciados, ou é 103 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista 7. Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas indicado pelo Conselho de Prefeitos e contra- cos em campanhas, como a de prevenção de varizes tado por seu presidente. e catarata. A direção do hospital é realizada pela coordena- As universidades disponibilizam assistência médi- dora e uma equipe formada por seis chefias (adminis- ca no local, e dão respaldo terciário, quando é necessário. trativa, técnica, de controladoria, de enfermagem, das Tem ainda o apoio da empresa Alcoa – Poços de Caldas para investimentos esporádicos. A empresa li- atividades médicas e de reabilitação). 14 Os municípios consorciados contribuem financei- berou recursos para a implantação da rádio interna e ramente para suas atividades e disponibilizam transporte para construção de piscina aquecida destinada à fisio- para deslocamento de seus pacientes até o hospital. terapia, no Setor das Magnólias, área que trabalha com O consórcio possui um convênio, desde 1986, os deficientes crônicos. com a Secretaria de Estado da Saúde, ocasião em que Os secretários municipais de Saúde da região re- a secretaria transferiu a administração do hospital para únem-se, mensalmente, na DIR – XX para discutir ques- o Conderg. Para auxiliar na gestão do hospital, há um tões referentes à área e não especificamente sobre os Conselho Diretor, formado por seis membros, sendo serviços e rotinas do Conderg. Os conselhos municipais não atuam na gestão do três da Secretaria e três do Conderg. Seu papel é apre12 ciar e indicar o diretor técnico e o diretor clínico ; apro- Conderg. A população participa através de avaliação var o regimento interno; estabelecer as diretrizes; au- espontânea, preenchendo um questionário elaborado torizar as alterações no quadro de pessoal do hospital; pela instituição que avalia o grau de satisfação do usuá- 13 e autorizar as reformas e ampliações . A DIR participa rio em relação aos serviços prestados e coleta suges- com três membros nas reuniões trimestrais do Con- tões. O questionário é tabulado, a coordenação avalia selho Diretor e do planejamento para definir as estra- os dados e, com isso, ações são implementadas, atra- tégias a serem adotadas no hospital. A secretaria tam- vés do planejamento anual. bém contribui com recursos financeiros esporádicos, através de Termos Aditivos, e com assessoria técnica Recursos Financeiros e capacitação da equipe hospitalar. O hospital conta com os repasses mensais do As fontes de recursos do Conderg são: Ministério da Saúde, via convênio SUS, e com finan- • Contribuição municipal: as prefeituras consor- ciamento para realização de procedimentos estratégi- ciadas repassam 5% do Piso de Atenção Básica – PAB ao Conderg. A contribuição varia de 12. A definição do diretor técnico é responsabilidade do Conselho de Prefeitos e a decisão é aprovada pelo Conselho Diretor. O diretor Clínico acordo com o município. A menor é de R$ 317,00 (Itobi) e a maior de R$ 3.943,49 (São João da é eleito pelo corpo clínico. 15 13. Termo de Convênio celebrado entre o Estado de São Paulo, através da Boa Vista), totalizando R$ 23.371,53, por mês ; a Secretaria de Estado da Saúde, e o Conderg, Cláusula 4 , 12/9/86. • Valores provenientes da prestação de serviços 14. É uma espécie de rádio comunitária, utilizada pelos pacientes e/ou por referentes ao convênio com o SUS, em torno profissionais da equipe. 15. Alguns municípios estão devendo até três meses de contribuição. de R$ 627 mil/mês; 104 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Tabela 4: Fonte de receita, discriminada por ano – 1996, 2002 e 2003 – e a variação porcentual das receitas de 1996 a 2003 1996 2002 2003 Convênio – SUS 1.270.042,20 4.963.510,34 7.040.566,33 88,97 454,36 1.271,80 5.747,75 10.649,35 0,13 737,34 864,50 25.811,02 34.283,50 0,43 3.865,70 3,25 147,46 Convênio - Planos de saúde Internações particulares Repasses dos municípios % Variação Fonte de Receita 18 1996-2003 (%) 103.977,39 448.225,31 237.143,71 0,00 180.000,00 0,00 0,00 0,00 88.200,00 236.607,65 2,99 0,00 206.533,00 238.882,34 3,02 348,41 19.439,16 40.366,99 0,51 11.486,06 5.237,49 20.389,97 54.732,05 0,69 945,01 (deduzido o investimento) 1.419.445,79 5.777.856,55 7.893.231,92 100,00 457,50 Total 1.419.445,79 5.957.856,55 7.893.231,92 100,00 457,50 Repasses do Ministério (investimento) Repasses da Secretaria de Estado da Saúde Portadores de deficiência Receita do INSS – Portadores de deficiência Aplicações / Juros financeiros Receitas diversas Subtotal Fonte: CONDERG. Quadro Evolução Receitas (Sintético), 2004 • Convênios esporádicos com o Ministério da do setor de portadores de deficiências, no valor 17 Saúde, para financiamento de equipamentos, de R$ 22 mil /mês . 16 obras e ampliações e/ou campanhas ; No decorrer dos últimos oito anos, houve um in- • Valores provenientes de Termos Aditivos para cremento nas receitas do Conderg – Hospital Regio- custeio firmados com a Secretaria de Estado da nal. As maiores receitas provêm do convênio com o Saúde, tendo recebido R$ 236.607,65, em 2003; SUS (88,97%) e da contribuição municipal (3,25%). • Benefício oriundo do Instituto Nacional de Novas fontes de recursos foram buscadas, como o Seguro Social – INSS, concedido a 88 pacientes benefício de prestação continuada às pessoas com 16. Ministério assinou convênio com o consórcio, em 31 de dezembro de 2003, para o repasse de R$ 258.042,00. Até novembro de 2004, o atendimento através de convênio e particular (Tabela 4); bem como a DIR tem apoiado a revisão dos proce- Conderg recebeu R$ 129.021,00. 17. Uma das diretoras do hospital conseguiu, com o juiz local, ser a curadora, dimentos adotados com os doentes crônicos. para receber o benefício de prestação continuada para os portadores A análise das contribuições municipais e da utili- de deficiência, previsto na Lei Orgânica de Assistência Social - Loas. A utilização do recurso é definida em comum acordo com o juiz e destinase à alimentação, higiene, ou outra ação que beneficie os pacientes. zação dos serviços indica que alguns municípios ampliaram sua contribuição de 2002 para 2003 (Tabela 5). 18. Há variação entre o dado do balancete e o das contribuições municipais. Em conversa com a direção do hospital, esse dado foi alterado. Entretanto, ao ser verificada a porcentagem de contri- 105 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista deficiência, moradoras do hospital, e a ampliação do Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Tabela 5: Contribuições municipais, discriminadas por município, ano, porcentagem e variação 2003 % Variação 2002-2003 20.160,00 20.160,00 8,50 0,00 Águas da Prata 8.176,32 3.406,80 1,44 -58,33 Caconde 8.938,80 10.237,30 4,32 14,53 Casa Branca 15.423,96 15.423,96 6,50 0,00 Divinolândia 8.221,20 8.221,20 3,47 0,00 19.480,80 22.528,25 9,50 15,64 3.408,60 3.639,95 1,53 6,79 33.583,80 37.474,40 15,80 11,58 Santo Antonio do Jardim 3.181,20 3.656,20 1,54 14,93 Santa Cruz das Palmeiras 12.603,00 14.470,95 6,10 14,82 São José do Rio Pardo 25.803,60 28.854,80 12,17 11,82 São João da Boa Vista 38.806,80 43.939,85 18,53 13,23 6.145,80 7.084,60 2,99 15,28 12.100,56 13.008,95 5,49 7,51 0 4.613,70 1,95 17.959,20 20.582,80 8,68 14,61 213.833,64 237.143,71 100,00 10,90 Município Aguaí Espírito Santo do Pinhal Itobi Mococa São Sebastião da Grama Tambaú Tapiratiba Vargem Grande do Sul Total 2002 Fonte: CONDERG, 2004 buição de cada município, em relação à população, há a cota patronal que não era paga em 1996, o que exi- variações significativas que precisam ser estudadas giu um reparcelamento da sua dívida no INSS, através (Tabela 1). do Programa de Refinanciamento de Dívidas Fiscais As despesas do consórcio são compostas, princi- com a União – Refis. palmente, por salários, materiais médico-hospitalares Em uma primeira análise, o Conderg tem um dé19 e encargos (Tabela 6). ficit O consórcio, no decorrer desses anos, ampliou que é administrado no decorrer do ano, não ha- vendo margem de investimento. as suas despesas com investimento e passou a pagar 19. É necessário um estudo mais aprofundado sobre a situação financeira do Conderg, pois há divergência entre algumas fontes de informação. 106 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Tabela 6: Despesas, discriminadas por ano – 1996, 2002 e 2003 – e a porcentagem Despesas 1996 Imobilizado 2.222,82 Investimentos 2003 % 425.729,53 143.502,76 1,79 2.222,82 425.729,53 143.502,76 1,79 Medicamentos 48.541,14 234.135,05 325.769,85 4,07 Materiais médico-hospitalar 50.336,77 338.097,69 1.581.335,06 19,74 Gêneros alimentícios 60.236,12 136.261,90 213.842,19 2,67 Materiais de consumo - Diversos 74.900,22 247.345,47 285.591,67 3,57 3.951,29 124.927,70 146.983,39 1,84 0,00 117.704,87 125.790,54 1,57 Insumos 237.965,54 1.198.472,68 2.679.312,70 33,45 Salários 948.996,02 2.954.556,07 3.437.561,93 42,92 1.948,90 904.243,53 1.049.997,67 13,11 59,75 5.021,38 12.862,58 0,16 Juros e multas 12.303,57 89.275,65 92.898,10 1,16 Juros e Multas 12.363,32 94.297,03 105.760,68 1,32 427,54 3.941,38 8.806,48 0,11 Manutenção 24.741,20 121.045,87 146.398,99 1,83 Diversos 61.553,08 286.042,30 437.721,60 5,47 Despesas Diversas 86.721,82 410.579,55 592.927,07 7,40 1.290.218,42 5.987.878,39 8.009.062,81 100,00 Água, luz e telefone Serviços terceirizados – SADT Encargos Despesas bancárias Fretes e carretos TOTAL 2002 Fonte: CONDERG, Evolução das despesas, 2004 Recursos Humanos Do total de funcionários do Conderg há 13 médicos, seis clínicos gerais (dois cirurgiões gerais); dois clíni- O Conderg possui 355 funcionários, dos quais 312 20 pelo Estado e 16 cos pediatras; dois ortopedistas; um oftalmologista e pela Prefeitura de Divinolândia. Os funcionários do con- um otorrinolaringologista. Os serviços médicos con- sórcio são contratados por seleção pública com edital. tam com o apoio dos residentes. são contratados pelo Conderg, 18 O Setor das Magnólias possui equipe técnica 20. Há cinco funcionários do Estado que recebem gratificações por exercerem outras funções no consórcio. composta por um neuropediatra, um clínico geral, um dentista, uma fonoaudióloga, uma psicóloga, três 107 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista sendo um diretor clínico e também anestesiologista; Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas fisioterapeutas, uma farmacêutica, três terapeutas Há uma preocupação em facilitar o atendimento ocupacionais, duas assistentes sociais, uma nutri- aos municípios consorciados; as agendas são elabora- cionista e uma pedagoga. Com essa equipe multidis- das de tal maneira que cada município tem o seu dia ciplinar, foi possível humanizar o atendimento da de atendimento, independentemente da especialida- pessoa portadora de deficiência; foram criados espaços de, o que facilita o deslocamento de pacientes em de convivência, uma oficina de artes, salas especiais caravanas, reduzindo gastos com transporte. Muitos de reabilitação, dias de convivência dos pacientes com municípios, para otimizar seus recursos, trazem seus a comunidade, etc. pacientes em ônibus ou microônibus. Em 2003, foi contratada uma assessoria Destaca-se, no Conderg, a qualidade dos servi- externa, para definir a política de Recursos Humanos ços ofertados, prestados com tecnologia de última e elaborar um plano de cargos e salários. Foi pre- geração e por especialistas. A preocupação da equipe parado um fluxograma e definidas as responsabi- com a busca de melhorias contínuas foi reconhecida lidades dos funcionários. com a obtenção, em 2001, do título do Ministério da A direção incentiva a participação dos funcionári- Saúde de Qualidade Hospitalar, baseado na Avaliação os do hospital em congressos, de forma a atualizar e do Usuário realizada no primeiro trimestre de 2000. divulgar o trabalho e as pesquisas. A equipe de reabi- Dentre 1.421 hospitais nacionais avaliados, o Conderg litação do Setor das Magnólias promove anualmente ocupou o 7º lugar; o 5º lugar na classificação regional, o Seminário Multidisciplinar, já tendo realizado seis concorrendo com 608; e o 4º lugar na estadual, con- eventos, aberto às instituições públicas e privadas que correndo com 236 hospitais. Esse título foi dado a ape- trabalham com pacientes portadores de deficiência. nas 22 hospitais do País. O paciente avaliou o hospital Ao aderirem ao Programa de Controle de Quali- e deu nota 9,41. dade – CQH, ligado à Associação Paulista de Medicina, O processo de busca de certificação da qualidade na busca de certificação da qualidade de atendimento, de atendimento (Programa CQH) tem gerado modifi- também estão capacitando as equipes de vários setores. cações na estrutura física do hospital e no atendimento. A equipe técnica participa de capacitações e rece- Resultados Alcançados be acompanhamento sistemático. A farmácia, por exemplo, foi totalmente reformada, padronizados os O resultado mais expressivo do Conderg é o medicamentos e os kits utilizados nos diversos proce- atendimento personalizado e de qualidade, prestado dimentos; introduzida a dose unitária, para evitar risco aos pacientes da região que necessitam de serviço aos pacientes e desperdícios de medicamento, e re- especializado; há a comodidade de não precisar se organizado o trabalho. Foi criada a Comissão de Con- deslocar para grandes centros. O atendimento é trole de Infecção Hospitalar – CCIH que está alcançan- gratuito e essa determinação pode ser observada em do uma taxa menor que 3%. faixas, colocadas nos diversos andares, que orientam os pacientes. Em relação à parceria com as universidades, foi possível disponibilizar campo de trabalho para os resi- 108 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam dentes, com a supervisão dos professores e, em tários; fornecendo capacitação e orientações técnicas; contrapartida, oferecer atendimento primário e secun- e contribuindo com o planejamento e as definições dário aos munícipes da região com maiores recursos estratégicas do hospital. tecnológicos e científicos. As universidades ao estender os serviços à comunidade, abrem um campo para Desafios que os alunos aprendam sobre o SUS. Os municípios também ganham com essa parceria, pois têm atendi- O Conderg enfrentou dificuldades no decorrer do mento especializado de um hospital escola. Desta for- processo, que foram solucionadas com muita discus- ma, os hospitais universitários podem se dedicar mais são entre os prefeitos e a equipe do consórcio. No às pesquisas e ao atendimento terciário, deixando o início, os desafios referiam-se à montagem da estru- atendimento secundário aos municípios, sem compro- tura para atendimento (recursos financeiros para ade- meter a formação integral de seus alunos residentes. quação da área física, aquisição de equipamentos, etc.). Com tudo isso, o maior beneficiado é a popula- Com a implementação de novas atividades, ou- ção, que é o verdadeiro motivo das preocupações dos tros problemas surgiram e novas estratégias foram gestores municipais. sendo preparadas para solucioná-los. Um dos princi- reção. O compromisso, a preocupação com a compe- pais méritos do consórcio foi a capacidade de adequarse permanentemente às demandas dos municípios. tência administrativa, a permanência de oito anos de Os desafios atuais referem-se à manutenção dos trabalho conjunto e o apoio da DIR geraram uma cultu- serviços ofertados com a mesma qualidade, em função ra de planejamento das ações dentro da instituição. O de não existir margem para investimentos. O hospital hospital reestruturou-se, estabelecendo metas anu- precisa acompanhar as modernizações tecnológicas ais, que são acompanhadas em reuniões mensais pela ocorridas no setor e são poucos os recursos para inves- direção e replanejadas anualmente. timentos. Além disso, o incentivo financeiro recebido Foram estabelecidos indicadores de qualidade dos governos estadual e federal é pequeno. que são avaliados trimestralmente, como taxa de ocu- A articulação do conselho de prefeitos e da coor- pação, média de permanência, índice de infecção hos- denação do consórcio é necessária, para conseguir pitalar, taxa de rotatividade, etc. É também elaborado recursos dos órgãos estaduais e federais suficientes um indicador que é apresentado à DIR com dados re- para a modernização e aquisição de equipamentos, bem ferentes às internações dos municípios consorciados como para obter, do governo estadual, um aumento e de outros que receberam os serviços. Elaboram ain- do teto físico e financeiro para manter os atuais e im- da indicadores de produção das especialidades aten- plantar novos serviços (dermatologia, diagnose em didas (quantidade mensal, por especialidade). cardiologia, entre outros) demandados pelos muni- A DIR – XX tem contribuído, participando da cípios consorciados. reestruturação do Conderg; apoiando a realização de O consórcio está tentando obter na Justiça o títu- uma auditoria interna que identificou serviços defici- lo de filantropia, de forma a não pagar a cota patronal. 109 O Consórcio de Desenvolvimento da Região de Governo de São João da Boa Vista É importante destacar a coesão da equipe de di- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas Por muitos anos, o hospital não recolheu esse impos- campanhas, com o apoio do Ministério da Saúde, para to, o INSS acionou-o e obrigou-o a fazer o Refis. Hoje, que, em regime de mutirão, possa atender à demanda além do parcelamento dessa dívida, é paga, em dia, a existente e receber pelos serviços prestados. Entre- cota patronal, o que compromete 13% da receita. A tanto, mensalmente há atendimentos glosados por situação financeira do hospital não é ruim, em relação estarem acima do teto. a outras instituições hospitalares, mas essa posição Considerações Finais compromete o atendimento ao usuário do SUS. Os secretários municipais de Saúde reivindicam novos serviços e maior agilidade na prestação dos O processo de cooperação intermunicipal é reapli- atuais. Uma análise mais aprofundada do número de cável e está ao alcance dos municípios/regiões. Os ser- atendimentos, por município, da cota de contribuição viços de saúde secundários e terciários podem ser municipal de cada um, torna-se necessária, para prestados pelos municípios de forma consorciada. 21 identificar outras alternativas . Há equipamentos O Conderg deu início ao seu trabalho com a discussão ociosos nos municípios que poderiam ser alocados no do desenvolvimento econômico e social, que identifi- consórcio. Para tal, seria interessante que a coorde- cou como um vetor a infra-estrutura de atendimento nação do Conderg realizasse algumas reuniões no à saúde. próprio hospital, para apresentar os dados e discutir Com esse espírito e com o sistema hospitalar alternativas com as equipes municipais de saúde. É existente, as lideranças políticas foram capazes de ar- necessário ainda analisar os municípios que se utilizam ticular uma estratégia para organizar serviços de assis- mais dos serviços e pagam, proporcionalmente, menos tência à saúde no eixo da atenção secundária. Os municípios, em conjunto, conseguiram o apoio que os demais. Outro desafio enfrentado refere-se aos tetos físi- dos governos estadual e federal, bem como de uma co e financeiro estabelecidos pela Secretaria de Esta- empresa privada e estão ofertando um serviço de qua- do da Saúde para os serviços prestados pelo Conderg. lidade aos munícipes da região. Normalmente, a demanda é maior do que o número Elementos como a preocupação com a quali- de procedimentos estabelecidos, e os excedentes não dade e o processo de planejamento e construção têm sido pagos. O consórcio tem buscado renegociar de indicadores também podem ser adotados em ou- o teto com o governo do Estado, bem como realizar tras localidades. 21. Seria necessária uma análise sobre o atendimento de cada município. Não há uma proporcionalidade entre atendimentos e a população dos municípios. 110 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Assis, Cândido Mota, Cruzália, Florínea, Ibirarema, Lutécia, Maracaí, Nantes, Platina, Pedrinhas Paulista e Tarumã Patrícia Barbosa Fazano, Diretora Executiva Consórcio Intermunicipal do Vale do Paranapanema – Civap/Saúde Via Chico Mendes, 75 - Assis - SP - CEP 19807-130 Tel.: (18) 3323-2368 - Fax: (18) 3324-8033 E-mail: [email protected] Universalização do Acesso ao Medicamento: a Experiência da Farmácia de Manipulação do Consórcio Intermunicipal do Vale do Paranapanema - Civap/Saúde Maria do Carmo M. T. Cruz Agora eu tenho todos os remédios. Antes o médico passava e eu não tinha como comprar, eram caros. Marislene dos Santos, usuária da USF das Árvores, Tarumã Estamos socializando o acesso ao medicamento previsto na Constituição Federal. Oscar Gozzi, prefeito de Tarumã Todos os prefeitos estão discutindo a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos da nossa região. Juntos, estamos discutindo uma proposta de desenvolvimento regional. Ida Franzoso de Souza, prefeita de Pedrinhas Paulista Dos 645 municípios paulistas, 73,4% têm até 30 Com a Constituição Federal de 1988 e as leis mil habitantes e são responsáveis por 12,4% da popu- que a regulamentam, os municípios passaram a assu- lação do Estado (Tabela 1) . Essa distribuição mostra mir novas tarefas, que antes eram desempenhadas que nem todos os municípios podem resolver todos pelo governo federal. Na área de saúde, o município os seus problemas, e muitos desafios devem ser passa a ser o gestor do Sistema Único de Saúde – enfentrados de forma articulada e integrada. SUS. Entretanto, os municípios de pequeno porte não 111 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas possuem recursos (humanos, financeiros e materiais) ceiros para realizá-lo. Os prefeitos da região se articula- suficientes para a implantação de todos os serviços. ram e criaram o Consórcio Intermunicipal do Escritório Assim, desde a década de 1980, no Estado de da Região de Governo de Assis – Cierga, em 12 de São Paulo, algumas localidades têm se unido para dezembro de 1985, com a finalidade de possibilitar o solucionar problemas comuns, através da cooperação desenvolvimento regional, tendo como primeira ativi- horizontal, também chamada de cooperação intermu- dade captar recursos das prefeituras, cooperativas e nicipal. Várias passaram a discutir alguns dos seus usinas para efetivar o levantamento de solo. O estudo, problemas conjuntamente, prática que tem possi- iniciado em 1986 e finalizado em 1990, foi pago com bilitado a implementação de várias políticas públicas. recursos do Governo do Estado e da região. Nesse contexto, em 1983, a Associação dos Na década de 1990, novos projetos foram de- Engenheiros Agrônomos da região de Assis realizou senvolvidos pelo Consórcio, como o Programa de Exe- um seminário sobre manejo e conservação de solo, cução Descentralizada – PED /Projeto Agricultura Lim- durante o qual surgiu a idéia de realizar um levanta- pa, entre outros, consolidando um trabalho de coope- mento de solos na região. O Instituto Agronômico ração intermunicipal na região. Apenas para exem- de Campinas – IAC tinha a capacidade técnica para plificar, através do PED, foram plantadas mais de um viabilizá-lo, porém não dispunha de recursos finan- milhão de mudas, em 12 microbacias hidrográficas. 1 Tabela 1: Distribuição dos municípios paulistas, por porte populacional e população Faixa Populacional (mil habitantes) Número de Municípios % População 0 a 10 295 45,7 1.399.203 3,8 10 a 20 116 17,9 1.624.618 4,4 20 a 30 63 9,8 1.564.176 4,2 30 a 40 35 5,4 1.208.982 3,3 40 a 50 20 3,1 886.745 2,4 50 a 60 14 2,2 749.652 2,0 60 a 70 13 2,0 834.276 2,3 70 a 80 12 1,9 900.645 2,4 80 a 90 6 0,9 496.511 1,3 90 a 100 9 1,4 845.754 2,3 100 a 150 21 3,3 2.549.030 6,9 Acima de 150 41 6,4 23.972.811 64,7 645 100,00 37.032.403 100,00 Total Fonte: IBGE, 2000 1. O PED foi financiado pelo Banco Mundial. 112 % Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Em novembro de 2000, o colegiado de prefeitos consórcio está encaminhando, à Organização das Na- deliberou a alteração em seu nome, passando a chamá- ções Unidas para a Agricultura e Alimentação – FAO, lo de Consórcio Intermunicipal do Vale do Parana- 14 projetos de alternativas de desenvolvimento (im- panema – Civap. Abrange 17 municípios com uma po- plementação de fruticultura, floricultura e manipula- 2 pulação de 254.737 habitantes (Tabela 2). ção de essências e plantas medicinais na região; con- Atua como articulador e promotor do desenvol- solidação das atividades da pecuária de corte e leite, vimento e planejamento regional integrados. Atual- com pequenos animais; produção e comercialização mente, possui projeto em várias áreas de educação da mandioca; aprimoramento da piscicultura regional ambiental, meio ambiente, resíduos sólidos, recursos e da atividade de produção de grãos; turismo rural; hídricos, apoio à agricultura e aos assentamentos, tu- melhoria do segmento sucroalcooleiro; criação de par- 5 rismo, geração de emprego e renda e transporte . O que de bioprocesso, implementação e consolidação Tabela 2: Distribuição da população dos municípios pertencentes ao Civap População Assis 91.766 4 Campos Novos Paulista 3 % 36,02 4.282 1,68 30.838 12,11 Cruzália 2.606 1,02 Echaporã 7.122 2,80 Cândido Mota Florínea 3.178 1,25 Ibirarema 5.825 2,29 Iepê 7.312 2,87 Lutécia 3.019 1,19 Maracaí 13.249 5,20 2.240 0,88 Nantes Oscar Bressane 2.568 1,01 Palmital 21.514 8,45 Paraguaçu Paulista 42.002 16,49 3.006 1,18 Platina 2.914 1,14 Tarumã 11.296 4,43 254.737 100,00 Pedrinhas Paulista Total Fonte:FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal 2. FUNDAÇÃO SEADE. Perfil municipal. veu trabalhos de educação ambiental; apoiou a organização da central 3. Dados de 2004. de recebimento de embalagem de agrotóxicos; foi a agência regional 4. Pelo estatuto, o município faz parte do consórcio, mas, de fato, não do Banco da Terra; tem um engenheiro, de uma empresa contratada, participa das suas atividades. que dá apoio aos assentamentos rurais; incentiva encontros e o fomen- 5. No decorrer dos anos, o consórcio vem trabalhando com projetos e to de projetos que promovam as alternativas de desenvolvimento (pis- na busca de financiamento externo para realizá-los. Preparou diagnós- cicultura, agronegócio, biotecnologia, etc.); realizou a articulação para ticos do meio físico, dos recursos hídricos da região e turismo; promo- a duplicação da Rodovia Raposo Tavares; etc. 113 Universalização do Acesso ao Medicamento Município Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas da agricultura irrigada e um centro regional de comer- que é uma associação civil de direito privado, cujos cialização de produtos de origem agrícola). sócios membros são os mesmos 17 municípios. Para constituí-lo, os municípios encaminharam às câ- O Civap/Saúde maras municipais projetos de leis que autorizaram a sua participação no consórcio, bem como a Os municípios da região que, desde 1998, de- integralização de recursos para investimentos co- senvolviam alguns serviços na área de saúde muns. Sua estrutura organizacional (Figura 1) é com- (neurocirurgia, UTI móvel, etc.), receberam equipa- posta por : 6 mentos (eletrocardiograma, eletroencefalograma, etc.) • Colegiado de prefeitos – órgão de deliberação do Estado e praticavam a troca de serviços entre eles. máxima, composto pelos prefeitos de todos os Em 2000, após orientação do Ministério da Saú- municípios consorciados e que traça as dire- de, os prefeitos criaram um novo consórcio, com o trizes. Possui um presidente, um vice-presi- foco em saúde. Surgiu, assim, o Consórcio Intermu- dente, um secretário e um tesoureiro, esco- nicipal do Vale do Paranapanema – Civap /Saúde, lhidos entre seus pares. O colegiado reúne-se a Figura 1: Estrutura Organizacional do Civap/Saúde 6. Estatuto do Civap/Saúde, de 15/3/2002. 114 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam • O fomento à vinda da Faculdade de Medicina cada dois meses para deliberar sobre assuntos 7 de Marília – Famema para auxiliar no aten- de interesse do consórcio ; • Conselho intermunicipal de saúde – órgão dimento à população regional dentro do Hospital técnico de controle social e de fiscalização; é Regional de Assis; responsável por acompanhar a gestão e analisar • A distribuição de exames, através de equipa- as finanças e a contabilidade. É formado pelos mentos pactuados . Os equipamentos consor- secretários de Saúde dos municípios que ciados são um eletroencefalograma (localizado integram o consórcio, e por cinco represen- em Cândido Mota), o eletrocardiograma (locali- tantes dos Conselhos Municipais de Saúde, do zados em Pedrinhas Paulista), dois videoendos- 10 8 segmento de “usuários” ; e cópios (localizados um em Paraguaçu Paulista e • Secretaria executiva – é dirigida por um diretor outro emAssis) e o ultra-som (localizado em executivo e um diretor técnico, indicados Assis); e pelo colegiado de prefeitos e contratado por • A farmácia de manipulação de medicamentos. seu presidente. Os serviços prestados abrangem: A Farmácia de Manipulação de Medicamentos – Antecedentes • O pagamento das despesas de enfermagem e do motorista da UTI móvel; • Atendimento de urgência e emergência em Os municípios do Civap, desde 1998, estavam neurocirurgia – pagamento de três médicos buscando alternativas para oferecer um bom servi- neurocirurgiões que atuam em urgênciaço de saúde e com menos custo. Enfrentavam difiemergência no Hospital Regional de Assis; culdade de acesso aos medicamentos, pois esse • A capacitação da equipe técnica de saúde item absorve parcela significativa dos orçamentos 9 da região ; municipais e o seu custo torna-os restritivos aos • A contratação de nutricionista para atendimento pacientes. O Programa Dose Certa, do governo es- específico em cozinhas pilotos para três dos tadual, apesar de ser uma boa contribuição aos municípios consorciados; municípios, fornece apenas 41 medicamentos e não atende toda a demanda. A Fundação para o Reméo mesmo presidente do Civap, assim como seu vice-presidente, secre- dio Popular – Furp, por sua vez, atendia menos de 10% das necessidades. Não há farmácias popula- tário, tesoureiro e secretária executiva. 8. No estatuto está prevista a participação de cinco conselheiros municipais de saúde no Conselho Intermunicipal de Saúde, mas a participação res na região. deles ainda não ocorreu; está programada para 2005. A idéia da Farmácia de Manipulação de Medica- 9. O Civap/Saúde, em 2002, desenvolveu um programa regional de capacitação de saúde bucal para a equipe de saúde e professores da rede de ensino. Em 2004, apresentaram, ao Ministério da Saúde, projeto para mentos surgiu como uma alternativa para resgatar o direito dos usuários do SUS a ter acesso aos medica- capacitação da equipe regional de saúde, no valor de R$ 216 mil. 10. Os equipamentos foram doados ao Civap/Saúde pela Secretaria de Estado da Saúde. mentos. Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde – OMS, feita em 71 países, revela que os brasileiros 115 Universalização do Acesso ao Medicamento 7. Para otimizar os recursos, o colegiado de prefeitos do Civap/Saúde tem Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas gastam 19% da renda familiar com saúde. Entre as pes- municipais de saúde os 35 itens iniciais de produção, soas de baixa renda, o que mais pesa no bolso são os assim como a seleção e contratação da equipe . 13 11 medicamentos (61% das despesas com saúde) . Tarumã foi escolhido para sediar a farmácia devi- Diante da situação, a prefeita de Pedrinhas Pau- do à sua localização centralizada, que reduz gastos com lista, em reunião do Civap, propôs, em 1999, a criação transporte, e também por ter cedido espaço e equipe da Farmácia de Manipulação. para a construção do prédio . 14 12 Alguns prefeitos e a equipe do consórcio foram A concepção da farmácia foi feita coletivamente conhecer as experiências das farmácias dos consórci- entre o colegiado de prefeitos, a farmacêutica contrata- os de Duartina, Águas de Santa Bárbara e Ipauçu, e da e a equipe do consórcio, com a orientação da Vigi- também a do Município de Foz do Iguaçu/PR, como lância Sanitária da Direção Regional de Saúde – DIR. forma de verificar o seu funcionamento e a possibili- Dos 17 municípios do Civap/Saúde, 11 partici- dade de adotá-la na região. Nessas visitas, identifica- pam da farmácia (Assis, Cândido Mota, Cruzália, ram que o custo do medicamento produzido era entre Florínea, Ibirarema, Lutécia, Maracaí, Nantes, Platina, 30 e 40% mais barato do que em distribuidoras e após Pedrinhas Paulista e Tarumã), representando 65% dos várias discussões, adequaram o modelo de Foz de membros do consórcio . 15 Iguaçu à realidade regional. Realizaram orçamentos para cobrir a obra, os equipamentos e o custeio mensal. A Farmácia Após estudos, a equipe de obras da Prefeitura de Tarumã elaborou um projeto arquitetônico, discutiu-o A Farmácia funciona desde 28 de junho de 2002, e adequou-o, com a vigilância sanitária, às normas vi- em Tarumã, que disponibilizou o espaço e funcionári- gentes. Também foram definidos com os secretários os para a sua construção. Os demais municípios entraram com recursos para a compra de equipamentos e de material de consumo. Na obra, foram gastos R$ 80 11. Fonte: www.datasus.gov.br em Farmácia Popular do Brasil. 12. O programa de governo do prefeito de Tarumã previa ações para ampliar o acesso aos medicamentos. mil e, com equipamentos, R$ 211.014,14, totalizando 16 13. A farmacêutica, contratada após deliberação do colegiado de prefeitos para iniciar essa atividade, participou da escolha dos equipamentos, da padronização dos medicamentos, etc. 14. Há um decreto municipal de Tarumã autorizando o uso, a título precário, pelo período de 20 anos, do Civap/Saúde. 15. Inicialmente, cinco municípios aceitaram participar da farmácia. No R$ 291.014,14 . Os recursos para a compra de equipamentos e material de consumo foram rateados proporcionalmente à população dos demais municípios consorciados nessa atividade. decorrer das discussões, dez se incorporaram. Assis decidiu participar após seis meses de funcionamento da farmácia. 16. Os recursos para a integralização do investimento foram completados em dois anos. Nesse valor não está incluído o valor do terreno cedido Os objetivos principais do projeto são: • Diminuir os gastos das prefeituras consorciadas com medicamentos; por Tarumã. 17. O Civap pretende iniciar um projeto piloto para a produção de ervas em parceria com uma organização não-governamental e um assenta- • Fabricar medicamentos alopáticos e outros 17 produtos (fitoterápicos , por exemplo) de mento rural da região; oferecendo uma alternativa de renda. Conheceram o cultivo de plantas medicinais em Curitiba e pretendem introduzi-lo na região. interesse para a saúde pública, utilizando matéria-prima de síntese própria, aquisição local, 116 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam importação, bem como de extração ou de estima que esse atendimento representa cerca de cultura, de origem vegetal, animal ou mineral; 60% da clientela em potencial. Pelo fato de não existir • Fornecer produtos manipulados aos órgãos de um cadastro informatizado dos usuários, não é possí- 18 saúde e de assistência social dos municípios vel analisar o número e o perfil dos mesmos. consorciados; e O usuário, após passar por consulta e receber a 19 • Gerar emprego e renda na região do Vale do receita, entrega-a na farmácia da unidade de saúde . Paranapanema; Estas encaminham as receitas, diariamente, via fax, à Em sua implantação, foram identificados os me- farmácia do Civap/Saúde. As receitas, então, são 20 dicamentos com maior demanda e que não eram aten- digitalizadas didos pelo Programa Dose Certa do Governo estadual. que seguem para a produção dos medicamentos. As No decorrer de seu funcionamento, foi sendo amplia- cápsulas, xaropes e pomadas são produzidos em seus da a lista de itens oferecidos a partir da demanda de respectivos laboratórios, dentro da farmácia. As solici- médicos e secretários municipais de Saúde. Atualmen- tações que chegam até às 12 horas podem ser retira- te, produz 180 itens, em forma de cápsula, pomada e/ das em 24 horas; as encaminhadas após as 12 horas ou xarope. podem ser retiradas em 36 horas. A entrega do medi- e, em seguida, emitidas as etiquetas Para garantir a qualidade dos serviços prestados, camento é feita somente com a apresentação da re- um dos princípios da iniciativa, a equipe faz controle ceita original, que fica arquivada na sede da Farmácia. interno de qualidade, editando, inclusive, um Manual A retirada é feita por um veículo do município consor- de Boas Práticas que estabelece o procedimento ope- ciado, na maioria das vezes diariamente . 21 racional padrão. Desde 2003, a Fundação Educacional Recursos Humanos do Município de Assis controla a qualidade da água utilizada e, a partir de 2004, a Ortofarma realiza o controle externo do produto acabado, verificando os prin- A equipe da farmácia, com o aval do colegiado de cípios ativos e realizando o controle microbiológico. prefeitos, formula a política de medicamentos, de for- O público-alvo da farmácia são os usuários do SUS ma integrada, fixando prioridades para a produção. dos municípios consorciados. A equipe do consórcio A equipe inicial da farmácia foi composta por seis pessoas, sendo uma delas farmacêutica. Atualmente, ao Cepam. na farmácia, há 11 funcionários contratados pelo consórcio, sendo três deles estagiários. 19. Unidades básicas são Centros de Saúde, Unidade de Saúde da Fa- A relação entre a farmácia e a equipe administra- mília – USF ou outras similares. 20. A farmácia utiliza um sistema, desenvolvido para uma farmácia de tiva do Civap/Saúde é regulada através do protocolo manipulação privada, que controla os estoques, compras, saídas de medicamentos, etc. O Civap está solicitando à empresa contratada a de funcionamento da farmácia. adequação à realidade do consórcio, emitindo relatórios de interesse Cabe à equipe da farmácia, orientada por uma dos municípios. 21. A farmácia ensaca os medicamentos por paciente, por unidade de saúde e por município. farmacêutica, manipular os medicamentos e entregá-los em até 32 horas; controlar o almoxarifado e 117 Universalização do Acesso ao Medicamento 18. Civap/Saúde, questionário Novas Práticas Municipais encaminhado Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas solicitar compra quando necessário; realizar três or- A gestão administrativa da farmácia é feita pela çamentos dos produtos, equipamentos e insumos diretora executiva do Civap/Saúde, sendo responsá- necessários e encaminhar à unidade administrativa vel por autorizar as compras, efetuar os pagamentos do Civap para aquisição; realizar controle do esto- necessários e o controle jurídico, administrativo e que semanalmente; controlar a saída dos medica- contábil da atividade. mentos mensalmente; consolidar relatórios; conservar a estrutura física e de equipamentos da farmá- Recursos Materiais 22 cia; entre outros . A farmacêutica é responsável por selecionar, padronizar e divulgar a lista básica de A farmácia tem uma área construída de 172,81 2 medicamentos. Também avalia e define critérios e m , com 17 ambientes (laboratório de sólidos, lava- métodos para armazenamento, distribuição e pro- gem/esterilização, controle de qualidade, dispensação, dução de medicamentos. etc.) e está sendo ampliada em mais 107,09 m . 2 A farmacêutica é responsável pela capacitação Foi montada com equipamentos adquiridos com da equipe em serviço e, através da direção do Civap/ recursos dos municípios; não dispõe de veículo pró- Saúde, promoveu uma visita dos funcionários a uma prio e, quando necessita de transporte, utiliza o veí- feira de farmácia em São Paulo. culo do consórcio. Tabela 3: Contribuição mensal dos municípios consorciados do Civap/Saúde, em 2002 e 2003, e sua variação porcentual Município Contribuição 2002 Contribuição 2003 Assis 0,00 212.100,22 Cândido Mota 0,00 29.758,38 Variação 2002-2003 (%) Cruzália 3.512,02 26.871,35 665,13 Florínea 8.361,79 38.499,27 360,42 Ibirarema 4.290,76 44.142,84 928,79 Lutécia 3.042,30 20.887,41 586,57 Maracai 3.476,80 30.793,56 785,69 Nantes 1.299,91 9.905,85 662,04 951,30 13.118,89 1.279,05 5.982,36 19.807,85 231,10 Platina Pedrinhas Paulista Tarumã Total 8.500,91 39.418,15 23 Fonte: Civap/Saúde, 2004 22. CIVAP/SAÚDE. Protocolo de funcionamento da farmácia de manipulação. Assis, 24/7/02. 23. A farmácia é responsável por R$ 36.447,14 (Fonte: Balanço Financeiro da Farmácia de Manipulação, 2002). 118 69.435,81 716,80 515.321,43 1.207,32 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Recursos Financeiros será suspenso até o acerto do débito. Essa decisão é do colegiado de prefeitos e levou a um compromisso maior O Civap/Saúde pode receber recursos de outras dos municípios com suas responsabilidades. esferas para auxiliar em seu funcionamento. Entre- O Civap/Saúde teve, nos dois últimos anos, um tanto, nos dois últimos anos, suas receitas têm sido pequeno déficit contábil, segundo os gestores, devi- oriundas apenas das contribuições municipais (Tabe- do ao atraso nos pagamentos de alguns municípios. la 3), definidas a partir da utilização dos serviços Parcerias ofertados, envolvendo: • contribuições de neurocirurgia: o valor é proporcional à população, independentemente A implementação do consórcio é feita entre o da utilização; Civap e as prefeituras. O consórcio faz o planejamento • contribuições da UTI móvel – estabelecido um e gerenciamento e dá apoio nas áreas jurídica, adminis- valor de R$ 50,00 para pagamento do motorista trativa e contábil. As prefeituras participantes entram e R$ 150,00 para a enfermagem e é cobrado com recursos financeiros, integralizando-os para a pela utilização; aquisição dos equipamentos, mobiliário e matéria-pri- • contribuições referentes à contratação de nu- ma e também dos medicamentos produzidos. Não há tricionista para três dos municípios con- participação dos governos estadual e federal na expe- sorciados; e riência e nem dos Conselhos Municipais de Saúde. • aquisições de medicamentos na farmácia Resultados de manipulação. As despesas de custeio da farmácia atingiram, em 24 2003, R$ 533.756,89 . As principais despesas foram Ressalta-se que a experiência é nova, iniciada em com a aquisição de matéria-prima (R$ 388.828,31) e 28 de junho de 2002, e somente agora está começan- pessoal (R$ 82.906,24). Muitos dos materiais utilizados do a sistematizar as suas informações. Assim, serão para funcionamento da farmácia são produtos importa- apresentados alguns indicadores, e uma avaliação qua- dos, comprados de distribuidores. litativa dos resultados encontrados. Observou-se que o município inadimplente com a O primeiro ponto destacado é o acesso da popula- contribuição municipal recebe uma notificação do con- ção ao medicamento . Em visita a Unidades de Saúde sórcio, informando-o de que o atendimento na farmácia da Família de dois municípios consorciados, verificouse que os usuários têm disponíveis os medicamentos. 24. Balanço Financeiro da Farmácia de Manipulação, 2003. 25. Em Tarumã e Pedrinhas Paulista, nos municípios contatados durante a visita, observou-se que a equipe de saúde tem disponíveis todos os itens produzidos na farmácia. Portanto, há um amplo acesso aos medicamentos. Em Assis, em uma Unidade de Saúde da Família visitada, o acesso não é universal, pois apenas parte dos itens produzidos pela As equipes de saúde entrevistadas apontaram uma rejeição inicial dos pacientes sobre o uso do medicamento manipulado, mas que, no decorrer do tempo, foi desfeita. Em Tarumã, em pesquisa realizada pela Adminis- farmácia são adquiridos pelo município. 119 Universalização do Acesso ao Medicamento 25 Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas tração, 82% aprovam a política de saúde e a distribuição que são de domínio público podem ser produzidos dos manipulados. Para a maioria dos entrevistados, o com qualidade e com custo menor. acesso foi ampliado, bem como a rapidez de entrega; o Outro elemento identificado pelos gestores refe- produto está disponível no prazo máximo de 32 horas. re-se à forma de pagamento dos remédios. Ao Civap é Anteriormente, havia problemas com a licitação de com- feito um mês após o recebimento dos produtos, dife- pra de medicamentos e algumas vezes a população fi- rentemente das licitações, nas quais os produtos são 26 cava meses sem os mesmos . Os usuários entrevista- pagos antes do consumo. dos indicaram que os medicamentos disponíveis estão Segundo o prefeito de Tarumã, seus gastos com melhorando suas condições de saúde, bem como ge- a Assistência Social, órgão responsável por fornecer 27 rando uma economia nos gastos com a farmácia . É medicamentos às pessoas em situação de risco pes- importante salientar que o medicamento é específico soal e social, foram reduzidos, em função de uma mai- para cada paciente e com prazo de validade restrito, or lista de medicamentos produzidos. Em 2001, era de para evitar a sua automedicação. R$ 18 mil e hoje é de R$ 1.500,00. Outro ponto refere-se à preocupação com a qua- Destaca-se um aumento na produção da equipe. lidade. Em dois anos de trabalho, não houve qualquer No início do projeto, eram produzidas somente 40 mil problema com a medicação produzida. A busca de um cápsulas/mês e hoje produz-se 600 mil cápsulas, 218 controle externo mostra a preocupação com a melho- litros de xarope e 114 quilos de pomada, por mês . As ra do processo de produção. demandas por novos medicamentos feitas por médi- 28 Outro aspecto positivo, identificado pelos ges- cos e secretários de saúde foram incorporadas pela tores, refere-se ao custo do medicamento. Para eles equipe da farmácia e houve uma ampliação na oferta os produtos da farmácia de manipulação são 40% de medicamentos. Por demanda dos municípios, são menores que o das distribuidoras e laboratórios. Foi produzidos alguns fitoterápicos: cáscara-sagrada, observado que não estão incluídos nos custos a de- isoflavona, castanha-da-índia, daflon, ginko biloba e preciação dos equipamentos e do prédio, o transporte Kava kava. Entretanto, hoje estão sendo revistos o dos medicamentos e nem as horas da secretária exe- número de itens produzidos e o seu custo. cutiva do consórcio. Seria importante um estudo Outro ponto positivo é a geração de emprego na aprofundado do custo dos medicamentos. Segundo própria região. Além dos empregos formais, o Civap os gestores, inicia-se um processo de desmistificação abre espaço para estágios na farmácia, formando equi- da indústria farmacêutica, mostrando que produtos pes na própria região. A imagem positiva foi observada entre alguns 26. A compra de produtos da Furp está condicionada ao estoque existen- médicos, em especial os médicos da família. Hoje, te no momento da compra, o que também dificulta o acesso rápido aos produtos. 27. Um funcionário da farmácia particular de Tarumã informou que não segundo a farmacêutica, mais de 500 médicos da região utilizam os serviços da farmácia. Alguns espe- houve queda nas suas vendas. Isso mostra que o acesso ao medicamento foi ampliado àqueles que não tem renda. 28. Esses são valores médios anuais. cialistas ainda questionam a eficácia dos medicamentos manipulados. 120 Fundação Prefeito Faria Lima - Cepam Outro indicador é a expansão da farmácia para Deve ser planejada a ampliação da oferta de me- outros municípios do consórcio. Há um projeto para a dicamentos, em conjunto com uma análise de custo- construção de mais uma farmácia em Paraguaçu benefício. O aumento da oferta de itens levou alguns Paulista. Outros municípios do Estado (Limeira, Piraju municípios a disponibilizar todos os itens à sua popu- e Pirapora do Bom Jesus) foram conhecer a iniciativa. lação, ampliando o acesso e o gasto com medicamen- Destaca-se a direção do Civap; é enxuta, ágil e tos. É importante programar uma revisão periódica nos por estar trabalhando há vários anos em conjunto, co- preços cobrados dos municípios bem como dos itens nhece bem a realidade regional. produzidos. Hoje, a farmácia do Civap fornece 180 29 itens , enquanto o Programa Dose Certa, que conta Desafios com o apoio da Furp do Governo Estadual, fornece 41 e a Farmácia Popular do Governo Federal dispõe de 89 medicamentos. cesso e convencê-los a participar, o primeiro desafio, Um estudo mais aprofundado deve servir para foram utilizadas estratégias diferenciadas: visitas aos verificar a viabilidade de produção e seu impacto nos consultórios, introdução de controle de qualidade ex- orçamentos municipais. Apenas para exemplificar, em terna, etc. O uso do medicamento por alguns e os bons Tarumã, os usuários têm acesso a todos os medica- resultados obtidos, levaram outros a recomendar. Os mentos e seus gastos mensais, segundo o prefeito, usuários foram informados sobre os medicamentos com a farmácia do Civap, eram, em 2002, de R$ em palestras em salas de espera e em grupos (terceira 1.654,79 e, em 2004, passaram para R$ 18.342,75. idade, diabéticos, hipertensos, etc.), alguns médicos Cada município deve refletir sobre o acesso aos medi- os adotaram e os próprios pacientes, vendo os resul- camentos, conjuntamente com suas disponibilidades tados, divulgavam a outros usuários. Entretanto, ainda financeiras, padronizando e selecionando os remédi- há alguma resistência. os a serem distribuídos pela estrutura pública. É importante que seja criado um sistema monito- É necessário, ainda, implementar estratégias de rado de informações, de forma que os serviços sejam comunicação sobre a existência da farmácia entre as adequados às demandas. O sistema informatizado equipes de saúde e, em especial, os médicos. A res- deve auxiliar no planejamento das ações dos gestores ponsável pela farmácia que realiza palestras para gru- de saúde e dos prefeitos. Dados como o número de pos de diabéticos/hipertensos e que participou de uma usuários atendidos; demandas por unidades de saú- reunião de Conselho Municipal de Saúde de Tarumã, de, entre outros, devem ser fornecidos para os poderia visitar as equipes de farmácia e de unidades gestores para análise da resolutividade que esse ser- de saúde municipais. viço tem ofertado. Outro ponto a ser aperfeiçoado refere-se ao planejamento estratégico da farmácia. A farmacêutica 29. São produzidos antiinflamatórios, antihipertensivos, antibióticos, antivirais; até protetor solar, em função de ser uma região agrícola com alta incidência de sol; entre outros. deveria ter uma interface maior com o colegiado de prefeitos. Para definir a linha de produção da farmácia, 121 Universalização do Acesso ao Medicamento Para enfrentar a resistência dos médicos ao pro- Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas é necessário um planejamento regional, no qual se- Considerações Finais jam discutidos as demandas municipais e os custos Observa-se que a farmácia ampliou o acesso aos gerados, buscando um ponto de equilíbrio. Outro aspecto diz respeito à distribuição do medicamentos e a rapidez em sua obtenção; com des- medicamento nas unidades. Em um município visitado, taque daqueles de uso contínuo. A farmácia do Civap observou-se que alguns pacientes não buscam o contribui para que os municípios ofereçam uma assis- medicamento. Assim, as secretarias devem definir tência integral aos seus munícipes, garantindo-lhes o medidas a serem adotadas nessas situações. Em um direito à saúde preconizado na Constituição Federal. município, há o apoio de equipes de saúde da família É um projeto replicável a outras regiões ou para que conscientizam esses pacientes sobre a impor- municípios de grande porte. O investimento é peque- tância do consumo do medicamento e que o não uso, no, em relação aos benefícios trazidos à população além de causar problemas de saúde, também gera ônus usuária do SUS. Os equipamentos necessários estão ao município. disponíveis nos municípios e há oferta de profissio- É necessário, ainda, identificar outras parcerias nais especializados para coordenar a atividade. A es- e formas de financiamento para a farmácia. A partici- tratégia de trabalhar de forma consorciada garante o pação da universidade pode ser ampliada no decor- acesso aos medicamentos. Apesar dos desafios que ainda devem ser en- rer do processo. Salienta-se, ainda, que a equipe da farmácia iden- frentados, principalmente quanto aos custos e à di- tificou ser necessário um trabalho de reflexão sobre versidade de produção, muito há para se aprender os princípios adotados e os resultados. Escrever sobre com a experiência do Civap/Saúde. É uma idéia sim- a experiência é um desafio a ser enfrentado. ples, que compõe uma estratégia de desenvol- Outro ponto de reflexão refere-se a algumas do- vimento regional. enças, cujo tratamento exige um início imediato; espe- A experiência pode ser implementada em outras rar 36 horas pode ser prejudicial ao paciente. Assim, localidades, desde que seja feita uma análise de cus- seria importante que a equipe de saúde disponibilizasse to-benefício, aperfeiçoada a iniciativa e adequada às alguns produtos em estoque para casos urgentes. suas realidades. 122 Escritórios Regionais da Secretaria de Economia e Planejamento - Erplans ARAÇATUBA PRESIDENTE PRUDENTE Tels.: 18 3623-7088/7828 Tels.: 18 221-2255/4065 Fax: 18 3623-7817 Fax: 18 221-8941 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] BAIXADA SANTISTA RIBEIRÃO PRETO Tels.: 13 3219-5809 Tels.: 16 636-4221/4227/610-7147 Fax: 13 3219-6004 Fax: 16 625-0036 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] BARRETOS SÃO CARLOS Tels.: 17 3324-5858 Tels.: 16 3372-2627 Fax: 17 3324-5858 Fax: 16 3372-5438 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] BAURU SÃO JOSÉ DO RIO PRETO Tels.: 14 3203-4333/1444 Tels.: 17 232-3993/233-6089/6988 Fax: 14 3203-1953 Fax: 17 233-6894 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] CAMPINAS SÃO JOSÉ DOS CAMPOS Tel.: 19 3241-1095 Tels.: 12 3921-3666/4821/4666 Fax: 19 3242-1241 Fax: 12 3921-6077 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] FRANCA SOROCABA Tels.: 16 3723-9199/9615 Tels.: 15 3232-9885/6813/9970 Fax: 16 3711-9199 Fax: 15 3232-0099 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] GRANDE SÃO PAULO VALE DO RIBEIRA Tels.: 11 3032-7200 Tels.: 13 3856-1173/1285/1284 Fax: 11 3032-7200 Fax: 13 3856-1173 E-mail: [email protected] E-mail: [email protected] MARÍLIA Tels.: 14 3433-8573/1099 Fax: 14 3433-1802 E-mail: [email protected] Municípios Paulistas em Busca de Novas Práticas As 12 Finalistas do Prêmio Chopin Tavares de Lima – Novas Práticas Municipais