História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br O Retrato, o Fato, o Insensato: as tramas da fotografia de uma mulher afegã Silvia Danielle Schneider Mestre em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivo problematizar a imagem da fotógrafa Jodi Bieber, premiada como a melhor fotografia do ano de 2011, no concurso 54° World Press Photo, uma importante premiação feita a fotógrafos de todo o mundo. O concurso foi criado no ano de 1955, e é realizado anualmente. A fotografia em questão retrata uma jovem afegã, chamada Bibi Aisha, que teve o rosto mutilado pelo marido. As tramas se desenrolam a partir da fotografia. Palavras-Chave: fotografia; estigma; identidade; diferenças culturais. 1 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br O Retrato e o Fato A imagem da fotógrafa Jodi Bieber, que retrata Bibi Aisha – uma mulher afegã - foi premiada como a melhor fotografia do ano de 2011, no 54o prêmio anual do World Press Photo1. Os juízes do concurso elegeram essa imagem pelo fato dela retratar a situação de maus-tratos que muitas mulheres enfrentam em todo o mundo2. Olhar intrigante, vago e distante. Um lenço roxo, com finas listras em branco e rosa envolvendo os cabelos, levemente encaracolados, na altura dos ombros e uma franja que camufla um rosto bonito, porém mutilado pelo marido, o qual causou sérios ferimentos em suas orelhas e seu nariz. Bibi Aisha – uma jovem de apenas dezoito anos - fugiu da casa do marido e foi capturada, julgada - a partir das leis do talibã - e condenada a sofrer essas punições.3 Imagem 1: Retrato de Bibi Aisha, fotografada por Jodi Bieber. 1 O World Press Photo foi fundado em 1955; desde então já premiou diversas fotografias, das mais variadas temáticas, e fotógrafos de países diversificados. É um concurso importante, conhecido no mundo todo, e é visado por todos os fotógrafos ter um trabalho premiado no WPP. Maiores informações, http//www.worldpressphoto.org/, acessado em 02/05/2011. 2 Informações disponíveis em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-2104733934.00.html, acessado em 18/02/2011. 3 Aisha foi acolhida pela Ong Grossman Burn Foundation, onde foi operada e teve seu nariz e orelhas reconstruídas. 2 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Fonte: Time v. 176, n. 6. http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html A fotografia foi publicada na capa da revista norte-americana Time4, em agosto de 20105, e gerou inúmeros impactos e manifestações, em diferentes tipos de mídia, como a escrita, a televisiva e a internet, evidenciando a crueldade e a repressão que as mulheres estão sujeitadas em países do Oriente, e nesse caso o Afeganistão – o qual gerou e gera muitas discussões, principalmente em relação à permanência das tropas norte-americanas no país. Neste ano de 2011 completará 10 anos de ocupação dos Estados Unidos em terras afegãs. O estopim para a ocupação foi o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, gerando uma corrida estadonidense contra o terrorismo e favorável à democracia. O alvo no Afeganistão era Osama Bin Laden, o qual era apontado como chefe do Talibã6. O editor da Time, Richard Stengel, escreveu na seção To our Readers (Para nossos leitores) sobre a fotografia da capa da revista, quando esta foi publicada, em agosto de 2010. Stengel comenta, Our cover image this week is powerful, shocking and disturbing. It is a portrait of Aisha, (...) who was sentenced by a Taliban commander to have her nose and ears cut off for fleeing her abusive in-laws. Aisha posed for the picture and says she wants the world to see the effect a Taliban resurgence would have on the women of Afghanistan, many of whom have flourished in the past few years.7 A representação elaborada pela sociedade – de uma maneira geral – aliada com as palavras de Stengel sobre a fotografia, direcionou vários olhares. Desta forma, o retrato se tornou uma imagem premiada e vista por milhares de pessoas em todo o mundo, principalmente pelo acesso à internet, onde em minutos uma notícia é vista/lida por milhões, e 4 Revista norte-americana criada em 1923, pelo jornalista DeWitt Wallace. SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. São Paulo: Contexto, 2006. p. 23. 5 BAKER, Aryn. Afghan women and the Return of the Taliban. Time v. 176, n. 6. Disponível em http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html. Acessado em 15/042011. 6 Foi publicado na mídia, que Osama Bin Laden foi capturado e morto, pelas tropas norte-americanas em 1 de maio de 2011. 7 http://www.time.com/time/world/article/0,8599,2007269,00.html. Acessado em 06/05/2011. Minha tradução: “Nossa imagem da capa dessa semana é forte, chocante e perturbadora. É o retrato de Aisha, (...) que foi sentenciada pelo comando Talibã de ter ser nariz e orelhas cortadas por ter fugido, um insulto para as leis que regem o Talibã. Aisha posou para a foto e disse que queria que o mundo visse o efeito que o ressurgimento do Talibã teve sobre as mulheres afegãs, muitas que tinham, no passado uma vida que florecia. 3 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br até ao mesmo tempo em que está sendo postada. O editor da Time explicou em seu editorial, que a imagem se tornaria um símbolo do preço que essas mulheres pagam para sobreviver dentro da ideologia repressiva doTalibã.8 Stengel esclarece que houve uma preocupação sobre o impacto que a imagem teria quando a população visse o retrato estampado na capa da Time, principalmente como seria a reação das crianças. Para tanto, foi feito um estudo visando compreender o “potencial impact” (Impacto Potencial) entre as crianças. Segundo o Dr. Michael Rich - diretor do centro de mídia e saúde da criança do Hospital das Crianças de Boston - afirmou que a imagem se tornaria “(...) como um símbolo de coisas ruins que pode acontecer com as pessoas.”9 Podemos nos espantar, ficarmos atônitos, ou mesmo com inúmeros sentimentos e sensações, os quais não teremos capacidade de explicá-los ao certo, pois somos confrontados com uma realidade cruel e espantosa. Aisha, em seu retrato, mantem uma postura firme e um olhar fixo, ao mesmo tempo distante, encara a lente fotográfica, expõem seu rosto mutilado, fotografia que choca, por estarmos olhando para aquela mulher – com seus poucos anos de vida, apenas 18 – e trocando olhares com a jovem. Como o espectador reage? Quais os sentimentos que afloram, estando diante do sofrimento do outro10? Sontag nos ajuda a compreender algumas questões sobre as imagens de horror, de sofrimento; “A iconografia do sofrimento tem uma longa linhagem. Os sofrimentos mais comumente considerados dignos de ser representados são aqueles tidos como fruto da ira divina ou humana.”11 Aisha foi vítima da ira humana, mas esta ira não apóia seus fundamentos em Deus? As mãos humanas são apenas o intrumento para consolidar a vontade de Deus? Porém, o Corão – livro sagrado para os muçulmanos - enfatiza que não há diferenças entre homens e mulheres (mas não podemos esquecer as diferentes leituras feitas a partir do mesmo documento, livro, etc.). 8 Idem. Minha tradução: “She knows that she will become a symbol of the price Afghan women have had to pay for the repressive ideology of the Taliban.” 9 Idem. Minha tradução: “(…) as a symbol of bad things that can happen to people.” 10 SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. São Paulo: Cia das Letras, 2003. 11 Idem, p. 37. 4 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Segundo Hourani, em fins do século VII, o Corão foi adotado como o livro sagrado, tendo sido escrito por Maomé, o profeta mandado por Deus ao mundo dos homens. O Corão era, “(...) uma revelação que completava aquelas que haviam sido anteriormente feitas a profetas ou mensageiros de Deus, e criava uma nova religião, o Islã, distinta do judaísmo e do cristianismo.”12 Nas partes do Corão que se julga terem sido reveladas então, há uma maior preocupação com a definição das observâncias rituais da religião e com a moralidade social, as regras de paz social, propriedade, casamento e herança. Em alguns aspectos, dão-se instruções específicas; em outros, princípios gerais. Ao mesmo tempo, a doutrina torna-se mais universal, voltada para toda a Arábia pagã, e por implicação para todo o mundo, e separa-se com mais clareza da dos judeus e cristãos.13 Sontag novamente nos afronta com o seguinte questionamento – quando fala de outras cenas que provocam horror – “(...) você é capaz de olhar para isso? Existe a satisfação de ser capaz de olhar para a imagem sem titubear. Existe o prazer de titubear.”14 Titubeando, cambaleando... é como se sentissemos medo de um filme de terror, mas não conseguissemos ficar sem vê-lo. Sontag completa, Um horror tem seu lugar numa cena complexa – figuras numa paisagem – que dá conta do engenho visual e manual do artista. O outro horror é o registro de uma câmera, feito bem de perto, o registro da indescritível e horrenda mutilação de um ser humano; isso e mais nada. Um horror inventado pode ser completamente avassalador. (...) Mas, além de choque, sentimos vergonha ao olhar uma foto em close de um horror real.15 O retrato de Aisha perpassa esses caminhos apontados por Sontag, seguindo o caminho por duas vias. Ou seja, esse duplo sentimento de olhar e não olhar a imagem. Como andarilhos, vagamos por uma imensidão de imagens, que nos provocam e formam nossas percepções e maneiras de compreender o que nos cerca. O medo, o horror causado ao ver uma 12 HOURANI, Albert Habib. Uma História dos povos árabes . São Paulo: Cia das Letras, 1994. p. 32. 13 Idem, p. 35. 14 Idem, p. 38. 15 Idem, p. 38. 5 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br jovem mutilada por seu marido, ajuda a causa política de justificar os porquês dos Estados Unidos estarem ainda no Afeganistão. O editor da revista Time, Stengel, tece algumas considerações sobre a fotografia principalmente com o interessante parágrafo, em que o editor diz que a imagem retrata/justifica o porque da presença americana no Afeganistão, lembrando que o país ainda tem uma forte influência do regime Talibã, os quais oprimem violentamente as mulheres, das quais Aisha tornou-se um símbolo.16 O Talibã é um grupo político que atua, principalmente, no Afeganistão. O grupo se formou em 1994, alguns anos depois da desocupação soviética, que durou de 1979-1988. Em 1996, o Talibã assumiu o controle da capital Cabul, governando o país até a invasão norteamericana em 200117. O alvo, pós 11 de setembro, foi o Afeganistão, pois acreditava-se que Osama Bin Laden, o finaciador de diversos ataques terroristas, inclusive o de 11 de setembro, estaria escondido em território afegão. Desde então, passou-se uma década e os EUA continuam ocupando o país. Assim, a utilização da fotografia de Bibi Aisha, com o nariz e as orelhas mutiladas, serviram/servem como ponto de partida para a discussão sobre a permanência dos EUA no Afeganistão. Através do texto da Revista Time, o discurso empregado foi de que se os Estados Unidos deixarem o país, o Talibã voltará a tomar conta do governo do país, e a democracia – objetivo dos EUA de levar para nações oprimidas por regimes antidemocráticos – não seria concretizado, o que levaria a questionar, quais foram os benefícios de os EUA terem empregado essa luta? Toda essa discussão que é levantada pela Time, ancorando-se na fotografia de Bibi Aisha. A repercussão dessa imagem, como já citado, foi muito grande, tanto que foi premiada no 54o prêmio anual de fotografia, o World Press Photo. Segundo a revista Época, “[a] capa de agosto do ano passado da revista Time, reflete a situação de maus-tratos de muitas mulheres no mundo. A fotografia foi escolhida entre 108.059 imagens.”18 E cita ainda, o 16 http://www,time.com/time/world/article/0,8599,2007269,00.html. Acessado em 06/05/2011. 17 http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/taliba-470320.shtml. Acessado em 02/05/2011. 18 http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-210473-3934,00.html. Acessado em 18/02/2011. 6 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br presidente do júri do concurso, David Burnett, “essa pode se tornar uma daquelas fotos – e só veremos talvez umas dez dessas em nossa vida – sobre a qual alguém fala ‘sabe aquela foto de uma garota...’, e você sabe exatamente qual é”19. Uma fotografia emblemática, que causa repulsa, medo, enfrentamentos culturais e existenciais, o choque com o diferente, com o outro. A obra Estigma20, de Erving Goffman, inicia com uma carta enviada por uma moça, de 16 anos, para a senhorita LonelyHearts (Corações Solitários)21, narrando brevemente a sua história, baseada em preconceito e sentimentos asquerosos que ela causava nas pessoas que cruzavam sua vida. A razão para tudo isso era o fato de ela ter nascido sem nariz, o que a fazia diferente e provocava o estranhamento nas pessoas. O que liga esta história com a de Bibi Aisha é por ambas serem diferentes, possuírem um estigma, o qual passou a designar quem elas eram e não o contrário, de elas determinarem quem eram. A obra de Goffman22 analisa o termo estigma, percebendo que já entre os gregos existia o termo, usado para se referir às marcas corporais que evidenciavam algo de extraordinário ou mau em uma determinada pessoa. Durante a Era Cristã, a palavra era utilizada tanto para se referir a algum sinal divino quanto a um distúrbio físico. Segundo o autor, a utilização do vocábulo no decorrer do século XX, está atrelado à um sentido semelhante ao original, mas é aplicado mais intensamente, para se referir à “própria desgraça”. Estigma, teria assim, o sentido de desvio social, algo ou alguém que se encontra fora das normas, inabilitado, diferente das pessoas consideradas normais, devido à um sinal/marca que carrega. O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso, nem desonroso23. 19 Idem. 20 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1988. 21 Idem, p. 9. 22 Idem. 23 Idem, p. 13. 7 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Desta forma, segundo Goffman, a adjetivação de uma pessoa – tanto no sentido negativo como positivo – está completamente relacionado com a sociedade a qual esta pertence. O que parece certo aos olhos do Oriente, pode não ser ao Ocidente e vice-versa. Através da fotografia de Aisha, - não quero salientar e mostrar que existem certos ou errados na questão, mas sim quero apontar para a diferença, a pluralidade, e como nos comportamos ao sermos colocados diante do oposto (que talvez não seja tão oposto assim). O marido de Bibi, através do consentimento das leis Talibãs, achou conveniente – diante de sua fuga – mostrar à ela que estava errada, e o erro foi punido com a mutilação do nariz e das orelhas. As leis e a mutilação foram realizada no Oriente, e o papel do Ocidente foi divulgar essa barbárie através de uma fotografia, como o pesquisador Jorge Sousa de refere, uma “Foto-Choque”.24 A foto-choque é um instrumento utilizado pelos fotógrafos há algum tempo. Possui as características de revelar a dor, o sofrimento e a tragédia humana, provocada pela fome, pela guerra. Uma fotografia que ficou eternizada, é a da menina fugindo do bombardeio de napalm feito pelos norte-americanos no Vietnã25. 24 SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo Ocidental. Chapecó: Grifos; Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2000. 25 Conflito que durou de 1959 à 30 de abril de 1975. 8 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Imagem 2: Bombardeio de Napalm, Guerra do Vietnã. Menina correndo no centro chama-se Phan Thị Kim Phúc, também conhecido como Kim Phúc, atualmente é embaixatriz da Boa Vontade da UNESCO. Fotografia de Huynh Cong Ut. Fonte: http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=138 Durante os anos que se seguiram entre as duas grandes guerras mundiais, o fotojornalismo passou a ter acesso à novas formas tecnológicas, filmes e câmeras. A fotografia é um vínculo especial entre a sociedade e o fato específico narrado e comprovado pela imagem. Sousa exemplifica, utilizando a foto da execução de Ruth Brown Snyder, na cadeira elétrica26, a qual foi julgada culpada pelo assassinato do marido e teve a imagem da sua morte publicado no jornal New York Daily News, uma típica foto-choque27. A fotografia, segundo Sousa, [da] banalização da violência, do choque, que, na fotografia, remete unicamente para o campo fotográfico, pode promover a neutralição afetiva, pode insensibilizar, pode passivar, independentemente do efeito profundo, visceral, que, num instante passageiro, uma fotochoque pode ter.28 26 http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg. Acessado em 19/05/2011. 27 SOUSA, p. 98-103. 28 SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo Ocidental. Chapecó: Grifos; Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2000. p. 170. 9 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Imagem 3: Ruth Brown Snyder, na cadeira elétrica, fotografada por Tom Howard. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg Através dessa fotografia, que poderia ter sido utilizada de várias maneiras, a Revista Time se apropriou da imagem para justificar uma questão política, a presença dos Estados Unidos no Afeganistão, mas lançou essa questão parecendo uma problemática de segundo plano, já que a central seria a preocupação com a humilhação e a violência que inúmeras mulheres vivenciam em diversas partes do mundo. Mas é difícil separar e colocar qual dos problemas é o central, pois um justifica o outro, formam um ciclo difícil de romper. O Insensato Compreender a cultura, o emaranhado de costumes e tradições que existem em uma comunidade, cidade ou país é uma tarefa difícil, pois carregamos nossos próprios costumes e valores morais que fazem com que possamos julgar o certo e o errado, o positivo e o negativo, e assim sucessivamente. A partir daí vamos tecendo, observando e escrevendo nossas percepções sobre o mundo. E mais do isso, falamos sobre nós mesmos, e também de outros 10 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br pessoas, comunidades, cidades, países, continentes – enfim, nos reconhecemos no outro, mas também vemos claramente nossas divergências, esse é o ponto onde as impressões sobre o outro, passam por um terreno minado, e qualquer palavra ou gesto pode ser interpretado de forma errada, tanto por quem fala como para quem ouve. Para que esse enredamento possa ser compreendido, utilizo Geertz, principalmente sua obra A Interpretação das Culturas. A descrição densa proposta pelo autor, é utilizada para entender os significados das diferenças entre as culturas, estudando-a profundamente, densamente, procurando deixar nossos pré-conceitos e conhecimentos um pouco de lado (mesmo sendo tarefa tão difícil, senão impossível), para olhar o outro com os olhos livres de entraves, pronto para mergulhar em uma nova concepção de mundo, sem que aquilo cause transtorno e julgamentos errados. Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.29 Sobre essa ondulada e embaraçada tenção que ocorre quando os diferentes se encontram, Geertz cita Wittgenstein, que discorre com muita clareza sobre essa questão. Falamos... de algumas pessoas que são transparentes para nós. Todavia, é importante no tocante a essa observação que um ser humano possa ser um enigma completo para outro ser humano. Aprendemos isso quando chegamos a um país estranho, com tradições inteiramente estranhas e, o que mais, mesmo que se tenha um domínio total do idioma do país. Nós não compreendemos o povo (e não por não compreendermos o que eles falam entre si.) Não nos podemos situar entre eles.30 A diferença cultural também é abordada por Homi Bhabha em O Local da Cultura. O autor faz a seguinte consideração, A diferença cultural não representa simplesmente a controvérsia entre conteúdos oposicionais ou tradições antagônicas de valor cultural. A diferença cultural introduz no processo de julgamento e interpretação cultural aquele choque repentino do tempo sucessivo, não-sincrônico, 29 GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973. p. 20. 30 WITTGENSTEIN, Apud. Idem, p. 23. 11 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br da significação, ou a interrupção da questão suplementar [...] A própria possibilidade de constestação cultural, a habilidade de mudar a base de conhecimentos, ou se engajar-se na “guerra de posição”, demarca o estabelecimento de novas formas de sentido e estratégias de identificação.31 Teoricamente, pode ser fácil escrever sobre a alteridade, mas quando nos vemos confrontados com uma situação em que a cultura e os valores morais estão expostos, o choque cultural é grande. A alteridade nos ajuda a percebermos que a diferença existe, e a nossa compreensão ou a não-compreensão, não fará que a diferença exista ou deixa de existir. Diante da diferença entre o Oriente e o Ocidente, Said escreveu uma importante obra. Para ele, a concepção de Oriente foi uma construção feita pelo Ocidente. Assim, ele conceitua, o chamado orientalismo, como “(...) um estilo de pensamento baseado em uma distinção ontológica e epistemológica feita entre ‘o Oriente’ e (a maior parte do tempo) ‘o Ocidente”.32 Para desenvolver e empregar o conceito de orientalismo, Said apoia-se em Michel Foucault, especialmente por tomar a construção do Oriente pelo Ocidente (e viceversa) como formas de discursos, onde cada incógnita da equação tenta defender seus argumentos, os quais são eleitos como verdades a serem seguidas ou questionadas. A obra do autor nos mostra que “(...) o imperialismo francês e inglês do século XIX construiu imagens sobre uma região ao mesmo tempo mítica e selvagem, que vigora até hoje, e definiu o que conhecemos como Oriente.”33 Na pesquisa intitulada Fotojornalismo: dor e sofrimento de Barcelos foram analisadas fotografias vencedoras do World Press Photo, refletindo sobre a forma que as imagens foram retratadas, com o que estas se relacionavam, e qual era a temática das fotografias. Barcelos aponta, Mas o que se entende por dor e por sofrimento? Se recorrermos aos dicionários de língua portuguesa, verificaremos que dor deriva do latim, dolore, e significa sofrimento físico ou moral, mágoa e aflição, 31 BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 228. 32 SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 14. 33 SILVA, Kalina V.; SILVA, Maciel H. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2010. p. 320. 12 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br ou seja, refere-se a experiências sensoriais e emocionais desagradáveis, associadas a algum dano. O sofrimento ou padecimento já é o ato de sofrer, do latim, sufferere, o ato de suportar, tolerar, padecer dores físicas ou morais, infortúnios capazes de ferir corpo ou alma, uma experiência aversiva e a emoção negativa que lhe corresponde. Dessa forma, dor e sofrimento são intimamente relacionados, sendo o sofrimento o ato de sentir a dor e a dor, a causa do sofrimento34. A pesquisa sobre as fotografias ganhadoras do World Press Photo, revelaram, de acordo com a autora, o seguinte quadro: Ao verificarmos a comprovação da hipótese de que quase todas as imagens vencedoras da categoria “Foto do Ano”, do concurso mundial promovido pela World Press Photo, retratam dor e sofrimento, a maioria resultante de conflitos, principalmente bélicos, passamos a questionar de forma mais contundente por que tal temática é tão valorizada como notícia.35 Ao refletir sobre as fotografias duras e cruéis, Sontag observa que o realismo buscado pelos fotógrafos, “permitia-se – exigia-se – que se mostrassem fatos desagradáveis, brutais36. Sontag continua, com citações de Gardner37, que achava que estes tipos de fotografias transmitem “uma moral útil”, quando mostra “o puro horror e a realidade da guerra, em oposição à sua pompa”38. Fotografar é um ato de construção, um direcionamento que o fotógrafo dá ao observador da cena em que estava presente. Quando a fotografia chega até os observadores, podem ser feitas inúmeras análises, pois de acordo com o contexto em que se apresenta a imagem, pode ter seu significado, muitas vezes, diferente daquela pensada pelo fotógrafo, pois sabemos que após chegar ao público uma foto ou um texto, o autor perde – de certa forma – a sua autoria. Assim, a fotografia de Aisha pode assumir diferentes análises, pode entrar em diversos contextos. Sontag nos mostra ainda, que muitas fotografias são posadas, inventadas, e conclui, 34 BARCELOS, Janaína Dias. Fotojornalismo: Dor e Sofrimento - Estudo de caso do World Press Photo of the Year 1955-2008. Dissertação de Mestrado/Comunicação e Jornalismo. Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra, 2009. p. 40. 35 Idem, p. 142. 36 Sontag, p. 46. 37 Repórter, fotógrafo e editor escocês, Alexander Gardner nasceu na Escócia, em 1821. 38 Sontag, p. 46. 13 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Em termos técnicos, as possibilidades de retocar e manipular fotos eletronicamente são maiores do que nunca – quase ilimitadas. Mas o costume de inventar dramáticas fotos jornalísticas, encená-las para a câmera parece em via de se tornar uma arte perdida39. Mas no caso do retrato trabalhado neste artigo, este foi posado, evidenciando a dor, o sofrimento (físico e moral), a agressão sofrida por várias mulheres, principalmente no Oriente. Novamente, nos debatemos com o choque cultural, Oriente e Ocidente, ou como falaria Norbert Elias, os “estabelecidos e os outsiders”40, ou seja, quem manda e quem obedece, quem está no topo de pirâmide. Uma fotografia serve para inúmeros fins, precisamos ficar atentos como elas são utilizadas e o porque da sua utilização. E principalmente, quando vemos o diferente, o outro, ou mesmo o choque entre Ocidente-Oriente, possamos parar e pensar que a diferença ou igualdade depende do ângulo em que estamos olhando. Referências BARCELOS, Janaína Dias. Fotojornalismo: Dor e Sofrimento - Estudo de caso do World Press Photo of the Year 1955-2008. Dissertação de Mestrado/Comunicação e Jornalismo. Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra, 2009. ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973. HOURANI, Albert Habib. Uma História dos povos árabes . São Paulo: Cia das Letras, 1994. 39 Sontag, p. 51. 40 ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. 14 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1988. NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em Revistas no Brasil: um estudo das construções discursivas em veja e manchete. São Paulo: Annablume, 2002. SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990. SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. São Paulo: Contexto, 2006. SILVA, Kalina V.; SILVA, Maciel H. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2010 SONTAG, Susan. Diante da dor dou outros. São Paulo: Cia das Letras, 2003. http://www.infopedia.pt/$alexander-gardner>. http//www.worldpressphoto.org/ http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-210473-3934.00.html http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=138 15