História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br O Retrato, o Fato, o Insensato:
as tramas da fotografia de uma mulher afegã
Silvia Danielle Schneider
Mestre em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE
[email protected]
Resumo
Este artigo tem como objetivo problematizar a imagem da fotógrafa Jodi Bieber, premiada como a melhor
fotografia do ano de 2011, no concurso 54° World Press Photo, uma importante premiação feita a fotógrafos de
todo o mundo. O concurso foi criado no ano de 1955, e é realizado anualmente. A fotografia em questão retrata
uma jovem afegã, chamada Bibi Aisha, que teve o rosto mutilado pelo marido. As tramas se desenrolam a partir
da fotografia.
Palavras-Chave: fotografia; estigma; identidade; diferenças culturais.
1 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br O Retrato e o Fato
A imagem da fotógrafa Jodi Bieber, que retrata Bibi Aisha – uma mulher afegã - foi
premiada como a melhor fotografia do ano de 2011, no 54o prêmio anual do World Press
Photo1. Os juízes do concurso elegeram essa imagem pelo fato dela retratar a situação de
maus-tratos que muitas mulheres enfrentam em todo o mundo2.
Olhar intrigante, vago e distante. Um lenço roxo, com finas listras em branco e rosa
envolvendo os cabelos, levemente encaracolados, na altura dos ombros e uma franja que
camufla um rosto bonito, porém mutilado pelo marido, o qual causou sérios ferimentos em
suas orelhas e seu nariz. Bibi Aisha – uma jovem de apenas dezoito anos - fugiu da casa do
marido e foi capturada, julgada - a partir das leis do talibã - e condenada a sofrer essas
punições.3
Imagem 1: Retrato de Bibi Aisha, fotografada por Jodi Bieber.
1
O World Press Photo foi fundado em 1955; desde então já premiou diversas fotografias, das mais variadas
temáticas, e fotógrafos de países diversificados. É um concurso importante, conhecido no mundo todo, e é visado
por todos os fotógrafos ter um trabalho premiado no WPP. Maiores informações,
http//www.worldpressphoto.org/, acessado em 02/05/2011.
2
Informações disponíveis em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-2104733934.00.html, acessado em 18/02/2011.
3
Aisha foi acolhida pela Ong Grossman Burn Foundation, onde foi operada e teve seu nariz e orelhas
reconstruídas.
2 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Fonte: Time v. 176, n. 6. http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html
A fotografia foi publicada na capa da revista norte-americana Time4, em agosto de
20105, e gerou inúmeros impactos e manifestações, em diferentes tipos de mídia, como a
escrita, a televisiva e a internet, evidenciando a crueldade e a repressão que as mulheres estão
sujeitadas em países do Oriente, e nesse caso o Afeganistão – o qual gerou e gera muitas
discussões, principalmente em relação à permanência das tropas norte-americanas no país.
Neste ano de 2011 completará 10 anos de ocupação dos Estados Unidos em terras afegãs. O
estopim para a ocupação foi o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 aos Estados
Unidos, gerando uma corrida estadonidense contra o terrorismo e favorável à democracia. O
alvo no Afeganistão era Osama Bin Laden, o qual era apontado como chefe do Talibã6.
O editor da Time, Richard Stengel, escreveu na seção To our Readers (Para nossos
leitores) sobre a fotografia da capa da revista, quando esta foi publicada, em agosto de 2010.
Stengel comenta,
Our cover image this week is powerful, shocking and disturbing. It is
a portrait of Aisha, (...) who was sentenced by a Taliban commander
to have her nose and ears cut off for fleeing her abusive in-laws. Aisha
posed for the picture and says she wants the world to see the effect a
Taliban resurgence would have on the women of Afghanistan, many
of whom have flourished in the past few years.7
A representação elaborada pela sociedade – de uma maneira geral – aliada com as
palavras de Stengel sobre a fotografia, direcionou vários olhares. Desta forma, o retrato se
tornou uma imagem premiada e vista por milhares de pessoas em todo o mundo,
principalmente pelo acesso à internet, onde em minutos uma notícia é vista/lida por milhões, e
4
Revista norte-americana criada em 1923, pelo jornalista DeWitt Wallace. SCALZO, Marília. Jornalismo de
Revista. São Paulo: Contexto, 2006. p. 23.
5
BAKER, Aryn. Afghan women and the Return of the Taliban. Time v. 176, n. 6. Disponível em
http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html. Acessado em 15/042011.
6
Foi publicado na mídia, que Osama Bin Laden foi capturado e morto, pelas tropas norte-americanas em 1 de
maio de 2011.
7
http://www.time.com/time/world/article/0,8599,2007269,00.html. Acessado em 06/05/2011. Minha tradução:
“Nossa imagem da capa dessa semana é forte, chocante e perturbadora. É o retrato de Aisha, (...) que foi
sentenciada pelo comando Talibã de ter ser nariz e orelhas cortadas por ter fugido, um insulto para as leis que
regem o Talibã. Aisha posou para a foto e disse que queria que o mundo visse o efeito que o ressurgimento do
Talibã teve sobre as mulheres afegãs, muitas que tinham, no passado uma vida que florecia.
3 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br até ao mesmo tempo em que está sendo postada. O editor da Time explicou em seu editorial,
que a imagem se tornaria um símbolo do preço que essas mulheres pagam para sobreviver
dentro da ideologia repressiva doTalibã.8
Stengel esclarece que houve uma preocupação sobre o impacto que a imagem teria
quando a população visse o retrato estampado na capa da Time, principalmente como seria a
reação das crianças. Para tanto, foi feito um estudo visando compreender o “potencial impact”
(Impacto Potencial) entre as crianças. Segundo o Dr. Michael Rich - diretor do centro de
mídia e saúde da criança do Hospital das Crianças de Boston - afirmou que a imagem se
tornaria “(...) como um símbolo de coisas ruins que pode acontecer com as pessoas.”9
Podemos nos espantar, ficarmos atônitos, ou mesmo com inúmeros sentimentos e
sensações, os quais não teremos capacidade de explicá-los ao certo, pois somos confrontados
com uma realidade cruel e espantosa. Aisha, em seu retrato, mantem uma postura firme e um
olhar fixo, ao mesmo tempo distante, encara a lente fotográfica, expõem seu rosto mutilado,
fotografia que choca, por estarmos olhando para aquela mulher – com seus poucos anos de
vida, apenas 18 – e trocando olhares com a jovem.
Como o espectador reage? Quais os sentimentos que afloram, estando diante do
sofrimento do outro10? Sontag nos ajuda a compreender algumas questões sobre as imagens
de horror, de sofrimento; “A iconografia do sofrimento tem uma longa linhagem. Os
sofrimentos mais comumente considerados dignos de ser representados são aqueles tidos
como fruto da ira divina ou humana.”11 Aisha foi vítima da ira humana, mas esta ira não apóia
seus fundamentos em Deus? As mãos humanas são apenas o intrumento para consolidar a
vontade de Deus? Porém, o Corão – livro sagrado para os muçulmanos - enfatiza que não há
diferenças entre homens e mulheres (mas não podemos esquecer as diferentes leituras feitas a
partir do mesmo documento, livro, etc.).
8
Idem. Minha tradução: “She knows that she will become a symbol of the price Afghan women have had to pay
for the repressive ideology of the Taliban.”
9
Idem. Minha tradução: “(…) as a symbol of bad things that can happen to people.”
10
SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
11
Idem, p. 37.
4 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Segundo Hourani, em fins do século VII, o Corão foi adotado como o livro sagrado,
tendo sido escrito por Maomé, o profeta mandado por Deus ao mundo dos homens. O Corão
era, “(...) uma revelação que completava aquelas que haviam sido anteriormente feitas a
profetas ou mensageiros de Deus, e criava uma nova religião, o Islã, distinta do judaísmo e do
cristianismo.”12
Nas partes do Corão que se julga terem sido reveladas então, há uma
maior preocupação com a definição das observâncias rituais da
religião e com a moralidade social, as regras de paz social,
propriedade, casamento e herança. Em alguns aspectos, dão-se
instruções específicas; em outros, princípios gerais. Ao mesmo tempo,
a doutrina torna-se mais universal, voltada para toda a Arábia pagã, e
por implicação para todo o mundo, e separa-se com mais clareza da
dos judeus e cristãos.13
Sontag novamente nos afronta com o seguinte questionamento – quando fala de outras
cenas que provocam horror – “(...) você é capaz de olhar para isso? Existe a satisfação de ser
capaz de olhar para a imagem sem titubear. Existe o prazer de titubear.”14 Titubeando,
cambaleando... é como se sentissemos medo de um filme de terror, mas não conseguissemos
ficar sem vê-lo. Sontag completa,
Um horror tem seu lugar numa cena complexa – figuras numa
paisagem – que dá conta do engenho visual e manual do artista. O
outro horror é o registro de uma câmera, feito bem de perto, o registro
da indescritível e horrenda mutilação de um ser humano; isso e mais
nada. Um horror inventado pode ser completamente avassalador. (...)
Mas, além de choque, sentimos vergonha ao olhar uma foto em close
de um horror real.15
O retrato de Aisha perpassa esses caminhos apontados por Sontag, seguindo o
caminho por duas vias. Ou seja, esse duplo sentimento de olhar e não olhar a imagem. Como
andarilhos, vagamos por uma imensidão de imagens, que nos provocam e formam nossas
percepções e maneiras de compreender o que nos cerca. O medo, o horror causado ao ver uma
12
HOURANI, Albert Habib. Uma História dos povos árabes . São Paulo: Cia das Letras, 1994. p. 32.
13
Idem, p. 35.
14
Idem, p. 38.
15
Idem, p. 38.
5 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br jovem mutilada por seu marido, ajuda a causa política de justificar os porquês dos Estados
Unidos estarem ainda no Afeganistão.
O editor da revista Time, Stengel, tece algumas considerações sobre a fotografia
principalmente com o interessante parágrafo, em que o editor diz que a imagem
retrata/justifica o porque da presença americana no Afeganistão, lembrando que o país ainda
tem uma forte influência do regime Talibã, os quais oprimem violentamente as mulheres, das
quais Aisha tornou-se um símbolo.16
O Talibã é um grupo político que atua, principalmente, no Afeganistão. O grupo se
formou em 1994, alguns anos depois da desocupação soviética, que durou de 1979-1988. Em
1996, o Talibã assumiu o controle da capital Cabul, governando o país até a invasão norteamericana em 200117.
O alvo, pós 11 de setembro, foi o Afeganistão, pois acreditava-se que Osama Bin
Laden, o finaciador de diversos ataques terroristas, inclusive o de 11 de setembro, estaria
escondido em território afegão. Desde então, passou-se uma década e os EUA continuam
ocupando o país. Assim, a utilização da fotografia de Bibi Aisha, com o nariz e as orelhas
mutiladas, serviram/servem como ponto de partida para a discussão sobre a permanência dos
EUA no Afeganistão. Através do texto da Revista Time, o discurso empregado foi de que se
os Estados Unidos deixarem o país, o Talibã voltará a tomar conta do governo do país, e a
democracia – objetivo dos EUA de levar para nações oprimidas por regimes antidemocráticos – não seria concretizado, o que levaria a questionar, quais foram os benefícios
de os EUA terem empregado essa luta? Toda essa discussão que é levantada pela Time,
ancorando-se na fotografia de Bibi Aisha.
A repercussão dessa imagem, como já citado, foi muito grande, tanto que foi premiada
no 54o prêmio anual de fotografia, o World Press Photo. Segundo a revista Época, “[a] capa
de agosto do ano passado da revista Time, reflete a situação de maus-tratos de muitas
mulheres no mundo. A fotografia foi escolhida entre 108.059 imagens.”18 E cita ainda, o
16
http://www,time.com/time/world/article/0,8599,2007269,00.html. Acessado em 06/05/2011.
17
http://revistaescola.abril.com.br/geografia/fundamentos/taliba-470320.shtml. Acessado em 02/05/2011.
18
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-210473-3934,00.html. Acessado em
18/02/2011.
6 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br presidente do júri do concurso, David Burnett, “essa pode se tornar uma daquelas fotos – e só
veremos talvez umas dez dessas em nossa vida – sobre a qual alguém fala ‘sabe aquela foto de
uma garota...’, e você sabe exatamente qual é”19.
Uma fotografia emblemática, que causa repulsa, medo, enfrentamentos culturais e
existenciais, o choque com o diferente, com o outro. A obra Estigma20, de Erving Goffman,
inicia com uma carta enviada por uma moça, de 16 anos, para a senhorita LonelyHearts
(Corações Solitários)21, narrando brevemente a sua história, baseada em preconceito e
sentimentos asquerosos que ela causava nas pessoas que cruzavam sua vida. A razão para
tudo isso era o fato de ela ter nascido sem nariz, o que a fazia diferente e provocava o
estranhamento nas pessoas. O que liga esta história com a de Bibi Aisha é por ambas serem
diferentes, possuírem um estigma, o qual passou a designar quem elas eram e não o contrário,
de elas determinarem quem eram.
A obra de Goffman22 analisa o termo estigma, percebendo que já entre os gregos
existia o termo, usado para se referir às marcas corporais que evidenciavam algo de
extraordinário ou mau em uma determinada pessoa. Durante a Era Cristã, a palavra era
utilizada tanto para se referir a algum sinal divino quanto a um distúrbio físico. Segundo o
autor, a utilização do vocábulo no decorrer do século XX, está atrelado à um sentido
semelhante ao original, mas é aplicado mais intensamente, para se referir à “própria
desgraça”. Estigma, teria assim, o sentido de desvio social, algo ou alguém que se encontra
fora das normas, inabilitado, diferente das pessoas consideradas normais, devido à um
sinal/marca que carrega.
O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo
profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma
linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza
alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é,
em si mesmo, nem honroso, nem desonroso23.
19
Idem.
20
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Ed.
Guanabara, 1988.
21
Idem, p. 9.
22
Idem.
23
Idem, p. 13.
7 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Desta forma, segundo Goffman, a adjetivação de uma pessoa – tanto no sentido
negativo como positivo – está completamente relacionado com a sociedade a qual esta
pertence. O que parece certo aos olhos do Oriente, pode não ser ao Ocidente e vice-versa.
Através da fotografia de Aisha, - não quero salientar e mostrar que existem certos ou errados
na questão, mas sim quero apontar para a diferença, a pluralidade, e como nos comportamos
ao sermos colocados diante do oposto (que talvez não seja tão oposto assim).
O marido de Bibi, através do consentimento das leis Talibãs, achou conveniente –
diante de sua fuga – mostrar à ela que estava errada, e o erro foi punido com a mutilação do
nariz e das orelhas. As leis e a mutilação foram realizada no Oriente, e o papel do Ocidente
foi divulgar essa barbárie através de uma fotografia, como o pesquisador Jorge Sousa de
refere, uma “Foto-Choque”.24
A foto-choque é um instrumento utilizado pelos fotógrafos há algum tempo. Possui as
características de revelar a dor, o sofrimento e a tragédia humana, provocada pela fome, pela
guerra. Uma fotografia que ficou eternizada, é a da menina fugindo do bombardeio de napalm
feito pelos norte-americanos no Vietnã25.
24
SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo Ocidental. Chapecó: Grifos; Florianópolis:
Letras Contemporâneas, 2000.
25
Conflito que durou de 1959 à 30 de abril de 1975.
8 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Imagem 2: Bombardeio de Napalm, Guerra do Vietnã. Menina correndo no centro chama-se
Phan Thị Kim Phúc, também conhecido como Kim Phúc, atualmente é embaixatriz da Boa
Vontade da UNESCO. Fotografia de Huynh Cong Ut.
Fonte: http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=138
Durante os anos que se seguiram entre as duas grandes guerras mundiais, o
fotojornalismo passou a ter acesso à novas formas tecnológicas, filmes e câmeras. A
fotografia é um vínculo especial entre a sociedade e o fato específico narrado e comprovado
pela imagem. Sousa exemplifica, utilizando a foto da execução de Ruth Brown Snyder, na
cadeira elétrica26, a qual foi julgada culpada pelo assassinato do marido e teve a imagem da
sua morte publicado no jornal New York Daily News, uma típica foto-choque27. A fotografia,
segundo Sousa,
[da] banalização da violência, do choque, que, na fotografia, remete
unicamente para o campo fotográfico, pode promover a neutralição
afetiva, pode insensibilizar, pode passivar, independentemente do
efeito profundo, visceral, que, num instante passageiro, uma fotochoque pode ter.28
26
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg. Acessado em 19/05/2011.
27
SOUSA, p. 98-103.
28
SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo Ocidental. Chapecó: Grifos; Florianópolis:
Letras Contemporâneas, 2000. p. 170.
9 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Imagem 3: Ruth Brown Snyder, na cadeira elétrica, fotografada por Tom Howard.
Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg
Através dessa fotografia, que poderia ter sido utilizada de várias maneiras, a Revista
Time se apropriou da imagem para justificar uma questão política, a presença dos Estados
Unidos no Afeganistão, mas lançou essa questão parecendo uma problemática de segundo
plano, já que a central seria a preocupação com a humilhação e a violência que inúmeras
mulheres vivenciam em diversas partes do mundo. Mas é difícil separar e colocar qual dos
problemas é o central, pois um justifica o outro, formam um ciclo difícil de romper.
O Insensato
Compreender a cultura, o emaranhado de costumes e tradições que existem em uma
comunidade, cidade ou país é uma tarefa difícil, pois carregamos nossos próprios costumes e
valores morais que fazem com que possamos julgar o certo e o errado, o positivo e o negativo,
e assim sucessivamente. A partir daí vamos tecendo, observando e escrevendo nossas
percepções sobre o mundo. E mais do isso, falamos sobre nós mesmos, e também de outros 10 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br pessoas, comunidades, cidades, países, continentes – enfim, nos reconhecemos no outro, mas
também vemos claramente nossas divergências, esse é o ponto onde as impressões sobre o
outro, passam por um terreno minado, e qualquer palavra ou gesto pode ser interpretado de
forma errada, tanto por quem fala como para quem ouve.
Para que esse enredamento possa ser compreendido, utilizo Geertz, principalmente sua
obra A Interpretação das Culturas. A descrição densa proposta pelo autor, é utilizada para
entender os significados das diferenças entre as culturas, estudando-a profundamente,
densamente, procurando deixar nossos pré-conceitos e conhecimentos um pouco de lado
(mesmo sendo tarefa tão difícil, senão impossível), para olhar o outro com os olhos livres de
entraves, pronto para mergulhar em uma nova concepção de mundo, sem que aquilo cause
transtorno e julgamentos errados.
Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma
leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses,
incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito
não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos
transitórios de comportamento modelado.29
Sobre essa ondulada e embaraçada tenção que ocorre quando os diferentes se
encontram, Geertz cita Wittgenstein, que discorre com muita clareza sobre essa questão.
Falamos... de algumas pessoas que são transparentes para nós.
Todavia, é importante no tocante a essa observação que um ser
humano possa ser um enigma completo para outro ser humano.
Aprendemos isso quando chegamos a um país estranho, com tradições
inteiramente estranhas e, o que mais, mesmo que se tenha um domínio
total do idioma do país. Nós não compreendemos o povo (e não por
não compreendermos o que eles falam entre si.) Não nos podemos
situar entre eles.30
A diferença cultural também é abordada por Homi Bhabha em O Local da Cultura. O
autor faz a seguinte consideração,
A diferença cultural não representa simplesmente a controvérsia entre
conteúdos oposicionais ou tradições antagônicas de valor cultural. A
diferença cultural introduz no processo de julgamento e interpretação
cultural aquele choque repentino do tempo sucessivo, não-sincrônico,
29
GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973. p. 20.
30
WITTGENSTEIN, Apud. Idem, p. 23.
11 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br da significação, ou a interrupção da questão suplementar [...] A
própria possibilidade de constestação cultural, a habilidade de mudar a
base de conhecimentos, ou se engajar-se na “guerra de posição”,
demarca o estabelecimento de novas formas de sentido e estratégias de
identificação.31
Teoricamente, pode ser fácil escrever sobre a alteridade, mas quando nos vemos
confrontados com uma situação em que a cultura e os valores morais estão expostos, o choque
cultural é grande. A alteridade nos ajuda a percebermos que a diferença existe, e a nossa
compreensão ou a não-compreensão, não fará que a diferença exista ou deixa de existir.
Diante da diferença entre o Oriente e o Ocidente, Said escreveu uma importante obra.
Para ele, a concepção de Oriente foi uma construção feita pelo Ocidente. Assim, ele
conceitua, o chamado orientalismo, como “(...) um estilo de pensamento baseado em uma
distinção ontológica e epistemológica feita entre ‘o Oriente’ e (a maior parte do tempo) ‘o
Ocidente”.32 Para desenvolver e empregar o conceito de orientalismo, Said apoia-se em
Michel Foucault, especialmente por tomar a construção do Oriente pelo Ocidente (e viceversa) como formas de discursos, onde cada incógnita da equação tenta defender seus
argumentos, os quais são eleitos como verdades a serem seguidas ou questionadas. A obra do
autor nos mostra que “(...) o imperialismo francês e inglês do século XIX construiu imagens
sobre uma região ao mesmo tempo mítica e selvagem, que vigora até hoje, e definiu o que
conhecemos como Oriente.”33
Na pesquisa intitulada Fotojornalismo: dor e sofrimento de Barcelos foram analisadas
fotografias vencedoras do World Press Photo, refletindo sobre a forma que as imagens foram
retratadas, com o que estas se relacionavam, e qual era a temática das fotografias.
Barcelos aponta,
Mas o que se entende por dor e por sofrimento? Se recorrermos aos
dicionários de língua portuguesa, verificaremos que dor deriva do
latim, dolore, e significa sofrimento físico ou moral, mágoa e aflição,
31
BHABHA, Homi. O Local da Cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 228.
32
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p.
14.
33
SILVA, Kalina V.; SILVA, Maciel H. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Contexto, 2010. p.
320.
12 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br ou seja, refere-se a experiências sensoriais e emocionais
desagradáveis, associadas a algum dano. O sofrimento ou
padecimento já é o ato de sofrer, do latim, sufferere, o ato de suportar,
tolerar, padecer dores físicas ou morais, infortúnios capazes de ferir
corpo ou alma, uma experiência aversiva e a emoção negativa que lhe
corresponde. Dessa forma, dor e sofrimento são intimamente
relacionados, sendo o sofrimento o ato de sentir a dor e a dor, a causa
do sofrimento34.
A pesquisa sobre as fotografias ganhadoras do World Press Photo, revelaram, de
acordo com a autora, o seguinte quadro:
Ao verificarmos a comprovação da hipótese de que quase todas as
imagens vencedoras da categoria “Foto do Ano”, do concurso mundial
promovido pela World Press Photo, retratam dor e sofrimento, a
maioria resultante de conflitos, principalmente bélicos, passamos a
questionar de forma mais contundente por que tal temática é tão
valorizada como notícia.35
Ao refletir sobre as fotografias duras e cruéis, Sontag observa que o realismo buscado
pelos fotógrafos, “permitia-se – exigia-se – que se mostrassem fatos desagradáveis, brutais36.
Sontag continua, com citações de Gardner37, que achava que estes tipos de fotografias
transmitem “uma moral útil”, quando mostra “o puro horror e a realidade da guerra, em
oposição à sua pompa”38.
Fotografar é um ato de construção, um direcionamento que o fotógrafo dá ao
observador da cena em que estava presente. Quando a fotografia chega até os observadores,
podem ser feitas inúmeras análises, pois de acordo com o contexto em que se apresenta a
imagem, pode ter seu significado, muitas vezes, diferente daquela pensada pelo fotógrafo,
pois sabemos que após chegar ao público uma foto ou um texto, o autor perde – de certa
forma – a sua autoria.
Assim, a fotografia de Aisha pode assumir diferentes análises, pode entrar em diversos
contextos. Sontag nos mostra ainda, que muitas fotografias são posadas, inventadas, e conclui,
34
BARCELOS, Janaína Dias. Fotojornalismo: Dor e Sofrimento - Estudo de caso do World Press Photo of the
Year 1955-2008. Dissertação de Mestrado/Comunicação e Jornalismo. Faculdade de Letras - Universidade de
Coimbra, 2009. p. 40.
35
Idem, p. 142.
36
Sontag, p. 46.
37
Repórter, fotógrafo e editor escocês, Alexander Gardner nasceu na Escócia, em 1821.
38
Sontag, p. 46.
13 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br Em termos técnicos, as possibilidades de retocar e manipular fotos
eletronicamente são maiores do que nunca – quase ilimitadas. Mas o
costume de inventar dramáticas fotos jornalísticas, encená-las para a
câmera parece em via de se tornar uma arte perdida39.
Mas no caso do retrato trabalhado neste artigo, este foi posado, evidenciando a dor, o
sofrimento (físico e moral), a agressão sofrida por várias mulheres, principalmente no
Oriente. Novamente, nos debatemos com o choque cultural, Oriente e Ocidente, ou como
falaria Norbert Elias, os “estabelecidos e os outsiders”40, ou seja, quem manda e quem
obedece, quem está no topo de pirâmide.
Uma fotografia serve para inúmeros fins, precisamos ficar atentos como elas são
utilizadas e o porque da sua utilização. E principalmente, quando vemos o diferente, o outro,
ou mesmo o choque entre Ocidente-Oriente, possamos parar e pensar que a diferença ou
igualdade depende do ângulo em que estamos olhando.
Referências
BARCELOS, Janaína Dias. Fotojornalismo: Dor e Sofrimento - Estudo de caso do World
Press Photo of the Year 1955-2008. Dissertação de Mestrado/Comunicação e Jornalismo.
Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra, 2009.
ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das Culturas. Zahar. Rio de Janeiro, 1973.
HOURANI, Albert Habib. Uma História dos povos árabes . São Paulo: Cia das Letras,
1994.
39
Sontag, p. 51.
40
ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os Outsiders. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
14 História, imagem e narrativas No 15, outubro/2012 ‐ ISSN 1808‐9895 ‐ http://www.historiaimagem.com.br GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de
Janeiro: Ed. Guanabara, 1988.
NASCIMENTO, Patrícia Ceolin. Jornalismo em Revistas no Brasil: um estudo das
construções discursivas em veja e manchete. São Paulo: Annablume, 2002.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Cia das
Letras, 1990.
SCALZO, Marília. Jornalismo de Revista. São Paulo: Contexto, 2006.
SILVA, Kalina V.; SILVA, Maciel H. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo:
Contexto, 2010
SONTAG, Susan. Diante da dor dou outros. São Paulo: Cia das Letras, 2003.
http://www.infopedia.pt/$alexander-gardner>.
http//www.worldpressphoto.org/
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT210473-15228-210473-3934.00.html
http://www.time.com/time/magazine/0,9263,7601100809,00.html
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Snyder_chair.jpg
http://www.revistacapitu.com/materia.asp?codigo=138
15 
Download

O Retrato, o Fato, o Insensato - História