PESQUISAS / RESEARCH / INVESTIGACIÓN História e memória da tuberculose em Teresina – Piauí History and memory of tuberculosis in Teresina-Piauí Historia y memoria de la tuberculosis en Teresina-Piauí Adrielly Caroline Oliveira Enfermeira graduada pela Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e Tecnológicas do Piauí (NOVAFAPI). Piauí, Brasil. E-mail: adriellycaroliveira@ hotmail.com Daniel Coelho Farias Enfermeiro graduado pela Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e Tecnológicas do Piauí (NOVAFAPI). Piauí, Brasil. E-mail: danielcoelhosjp@ hotmail.com Benevina Maria Vilar Teixeira Nunes Doutora em Enfermagem pela UFRJ, professora do Curso de Graduação em Enfermagem e do Programa de Mestrado em Enfermagem da Universidade Federal do Piauí RESUMO O estudo tem como objeto a história dos serviços de tuberculose criados em Teresina. Objetivou descrever a história dos serviços de Tuberculose criados em Teresina no contexto da Campanha Nacional de Tuberculose e analisar a atuação da enfermagem nesses serviços. Trata-se de um estudo de natureza histórico-social com abordagem qualitativa. As fontes primárias de dados foram sete entrevistas realizadas com personagens que trabalharam nos serviços de tuberculose no Piauí. Utilizaram-se ainda fontes secundárias. Os resultados foram subdivididos em duas categorias: Os serviços de tuberculose criados em Teresina e a atuação da enfermagem nos serviços de Tuberculose. Os resultados permitiram entender a estreita vinculação entre as ações do controle da tuberculose que eram desenvolvidas localmente, com o que determinava as autoridades sanitárias nacionais, principalmente no que se refere às ações de controle efetuadas no sanatório e dispensário aqui instituídos e o processo de evolução da atuação do serviço de enfermagem no tratamento ao tuberculoso. Descritores: Tuberculose. Hospital. História da enfermagem. ABSTRACT The studied has as its object, the history of tuberculosis services created in Teresina in the context of the National Tuberculosis Campaign. Aimed to describe the history of tuberculosis services in Teresina, created in this context and analyze the performance of the nursing in these services. This is a study of historical and social nature with a qualitative approach. The primary sources of data were seven interviews realized with people who worked in tuberculosis services in Piauí. Secondary sources were also used. The results were subdivided in two categories: The tuberculosis services created in Teresina and the nursing in the Tuberculosis Pavilion. The results allowed understanding the close ties between the actions of tuberculosis control that were developed locally, with what determined national health authorities, especially with regard to control actions performed in the sanatorium and dispensary established here and the evolution process of nursing service performance in treatment of tuberculous. Descriptors: Tuberculosis. Hospital. History of nursing. RESUMEN Submissão: 12/01/2010 Aprovação: 21/06/2010 El estudio tiene como objeto, la historia de los servicios de la tuberculosis creados en Teresina en el contexto de la Campaña Nacional contra la Tuberculosis. Tuvo como objetivo describir la historia de los servicios de la tuberculosis en Teresina creados en este contexto, y analizar el desempeño de la enfermería en estos servicios. Se trata de un estudio de carácter histórico y social con un enfoque cualitativo. Las principales fuentes de datos fueron siete entrevistas realizadas con personas que trabajaban en los servicios de la tuberculosis en Piauí. También se utilizó fuentes secundarias. Los resultados se dividieron en dos categorías: Los servicios de la tuberculosis creados en Teresina y la enfermería en el Pabellón de la Tuberculosis. Los resultados permitieron comprender la estrecha relación entre las acciones de control de la tuberculosis que se desarrollan a nivel local, con lo que determina las autoridades sanitarias nacionales, principalmente con respecto al control de las acciones Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. 37 Oliveira, A. C.; Farias, D. C. ; Nunes, B. M. V. T. realizadas en el sanatorio y el dispensario establecido aquí y el proceso de evolución de lo desempeño de servicios de enfermería en el tratamiento de la tuberculosis. Descriptores: Tuberculosis. Historia de la Enfermería. Hospital. 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS No Brasil, a tuberculose teve uma importância histórica, na área da saúde, principalmente no século vinte, tendo em vista a dimensão epidemiológica da doença no território nacional, como também pela produção de conhecimento sobre a mesma na comunidade científica e impacto social causado pelas políticas de controle, assim como as representações produzidas socialmente (FERNANDES, ALMEIDA, NASCIMENTO, 2010). As concepções sobre a tuberculose por muito tempo permaneceram como uma doença que vem do “outro”, do comportamento amoral, do ar impuro, de aglomerações não higiênicas, do crescimento acelerado e desestruturado e mesmo com a evolução do tratamento da cura da doença, parte dessas concepções ainda se mantém (GONÇALVES, 2000). Dessa forma, as ações de combate a tuberculose começaram no Brasil no campo da filantropia, com solidariedade de médicos e intelectuais sensibilizados com o problema da tuberculose e seu avanço no Brasil (ANTUNES, WALDMAN, MORAES, 2000). Destacou-se como instituição filantrópica a Liga Brasileira contra a Tuberculose, fundada no Rio de Janeiro em 1900, a qual criou dois dispensários e desenvolveu um trabalho de propaganda sobre o problema da tuberculose e os meios para minimizá-lo (FERNANDES, ALMEIDA, NASCIMENTO, 2010). No campo da ação governamental em saúde, até o inicio da década de 1920, foi dirigida ao combate de doenças como a varíola, a peste e a febre amarela, que ameaçavam as políticas de incentivo à migração e ao desenvolvimento agrário. Nesse contexto, foi com a proposta de Oswaldo Cruz, então Diretor Geral de Saúde Pública, em 1907, que ocorreu a primeira tentativa de envolver o Poder Público na luta contra a tuberculose, pois sugeriu a implantação de medidas profiláticas no Regulamento Sanitário e a instituição de sanatórios e hospitais, embora sua proposta não tenha se efetivado (HIIJAR, et. al. 2007). Todavia, foi a Reforma Carlos Chagas, em 1920, que deu origem ao Departamento Nacional de Saúde Pública e introduziu maior intervenção do Estado no combate à tuberculose, criando a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose. A criação do Ministério da Educação e Saúde Pública, em 1930 estendeu a intervenção do Estado no combate à tuberculose, no entanto a convivência com as iniciativas filantrópicas permaneceu (FERNANDES, ALMEIDA, NASCIMENTO, 2010). O Governo Federal teve participação intensificada na atenção ao tratamento da tuberculose com a criação do Serviço Nacional de Tuberculose, em 1941, e da Campanha Nacional contra a Tuberculose, em 1946 desempenhando um papel único, devido à particularidade de sua constituição administrativa e financeira, que lhe permitia uma maior flexibilidade, assumindo, como proposta, o aumento da estrutura hospitalar e sanatorial em todo o País (FERNANDES, ALMEIDA, NASCIMENTO, 2010). No Piauí, a inauguração do Hospital Getúlio Vargas, em 1941, em consonância com o movimento de expansão da rede hospitalar no Brasil, tornou-se não só um marco na área da saúde, como também na formação profissional da área. (NUNES, BORGES, SANTOS, 2008). Nesse hospital, 38 funcionaram as primeiras enfermarias destinadas ao tratamento dos portadores de tuberculose. A partir de 1949, com a participação da Divisão Nacional de Tuberculose, tiveram início efetivamente às ações contra a tuberculose no Estado do Piauí, como a construção do Pavilhão de Tuberculose. O serviço era mantido pelo Ministério da Educação e Saúde, com recursos da antiga Divisão Nacional de Tuberculose, e contribuiu efetivamente para o tratamento e controle da tuberculose no Estado. No que diz respeito a enfermagem, naquela época não existiam escolas que formassem profissionais no Estado. Assim, o serviço de enfermagem do Pavilhão de Tuberculose foi desenvolvido por pessoas com baixa escolarização treinadas para exercerem as funções do cuidado aos doentes. Somente no final da década de 1950 é que começaram a chegar ao Piauí as primeiras enfermeiras formadas em outros estados do País, que tiveram um papel significativo na implementação de medidas profiláticas como no tratamento da doença. Diante do exposto, esse estudo tem como objeto a configuração dos serviços de tuberculose criados em Teresina, no contexto da Campanha Nacional de Tuberculose. O recorte de tempo do estudo compreende o período de 1949 a 1976, compreendendo respectivamente a inauguração do Pavilhão de Tuberculose e criação da Divisão Nacional de Pneumologia Sanitária, quando o enfoque no tratamento da tuberculose passou para outro contexto. Foram traçados os seguintes objetivos para o estudo: descrever as circunstancia da criação e desenvolvimento dos serviços de tuberculose em Teresina, no contexto da Campanha Nacional de Tuberculose e analisar a atuação da enfermagem nesses serviços de tuberculose. 2 MÉTODO Trata-se de um estudo qualitativo com abordagem sócio-histórica. Os estudos dessa natureza permitem compreender o movimento de contradições da realidade e problematizar as relações entre o passado e o presente (PADILHA, BORENSTEIN). A produção de dados do estudo foi baseada na história oral, que constitui-se na percepção do passado como algo que tem continuidade no presente, e cujo processo histórico não está concluído, entretanto proporciona sentimentos à vida social dos depoentes e leitores, levando-os a compreender o seguimento histórico e a se identificar como parte dele (MEIHY, HOLANDA). A história oral consiste em um recurso contemporâneo utilizado para elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas (FERREIRA, AMADO, 2002). Incide em uma história do tempo presente e é reconhecida como história viva. Os dados desse estudo provêm de fontes primárias e secundárias. As fontes primárias orais foram os depoimentos de sete sujeitos da pesquisa, dentre eles médicos, enfermeiras, funcionários e outros profissionais que vivenciaram os processos de prevenção, tratamento e cura da tuberculose à época do recorte do estudo. Cada entrevistado indicou outras pessoas que vivenciaram o processo da Campanha de Tuberculose em Teresina, as quais se tornaram sujeitos do estudo. Os depoimentos dos sujeitos foram indicados no texto pela letra inicial da profissão, como M para os médicos, E para as enfermeiras e F para outros funcionários. O tipo de instrumento foi a entrevista semi-estruturadas, cujos sujeitos ficaram à vontade para responder às perguntas, sem haver, no entanto, por parte dos entrevistadores, nenhuma rigidez na sua implemenRevista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. História e memória da tuberculose em Teresina – Piauí tação. Outras questões foram acrescidas durante as entrevistas, à medida que os próprios entrevistados informaram sobre determinados assuntos. As entrevistas foram gravadas utilizando-se de equipamentos eletrônicos para posterior transcrição. As fontes secundárias foram constituídas por livros e artigos, referentes à história da tuberculose no Brasil e no Piauí, pertinentes ao contexto histórico, político e social da época, que contribuíram nas argumentações e contra-argumentações das informações recebidas dos entrevistados. A análise dos dados produzidos foi realizada a partir da organização dos documentos e da transcrição das entrevistas, que depois de lidos, analisados e categorizados, foram interpretados à luz dos autores que deram sustentação ao estudo. O estudo cumpriu as determinações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Os entrevistados foram orientados quanto ao tipo de pesquisa, o direito de participar ou não e de poder desistir em qualquer tempo do estudo, como também quanto a garantia do anonimato. Considerando que nem todos concordaram em utilizar o próprio nome no estudo e respeitando a garantia do anonimato os sujeitos foram denominados com abreviaturas de acordo com a função que exerciam. Os sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Faculdade NOVAFAPI com protocolo de número 0158.0.043.000-10. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO O processo de coleta e analise permitiu sistematizar os depoimentos dos sujeitos em duas categorias: os serviços de tuberculose criados em Teresina (1949 -1976) e a atuação da enfermagem nesses serviços de tuberculose. Os sujeitos do estudo por ocasião das entrevistas rememoraram suas vivencias do passado, relatando aspectos importantes da memoria dos serviços de Tuberculose no Piauí, o que permitiu desenvolver essa versão histórica. 3.1 Os serviços de tuberculose criados em Teresina (1949 1976) O agravamento do quadro de tuberculose, como principal causa de mortalidade no Brasil, tornou-se um dos mais sérios problemas de saúde pública do País, desencadeando, por parte do Estado Brasileiro, uma série de medidas sanitárias, para controle dessa enfermidade. Dentre essas medidas, foi criado, em 1941, o Serviço Nacional de Tuberculose (SNT), órgão responsável pela política de combate a essa enfermidade no território nacional e posteriormente, o Decreto-Lei n.º 9.387, de 20 de junho de 1946, instituiu a Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT), sob a orientação e a fiscalização do Serviço Nacional de Tuberculose e do Departamento Nacional de Saúde, ambos ligados ao Ministério de Educação e Saúde Pública (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004) . Dessa forma, o Serviço Nacional de Tuberculose elaborou o Plano de Ação da Campanha, fundamentado na atuação objetiva em todo território nacional e priorização das regiões ou localidades com maior incidência da tuberculose, com desenvolvimento de medidas de profilaxia e assistência, ensino, pesquisa, educação e ação social (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). A função que a Campanha Nacional contra a Tuberculose exerceu no controle da doença, foi peculiar, tendo em vista a particularidade de Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. sua constituição administrativa e financeira. Assim a campanha assumiu como proposta, a expansão da estrutura hospitalar e sanatorial em todo o País, trazendo a idéia da padronização do atendimento, a normatização das ações de saúde e a formação de recursos humanos, envolvendo pessoal de nível médio e superior (FERNANDES, ALMEIDA, 2010). A partir da avaliação do Governo Federal de que a Campanha Nacional deveria ser descentralizada, tendo focos regionais de maior incidência da doença, começaram a criar estabelecimentos hospitalares chamados Pavilhões para tratamento de tuberculose nas áreas mais incidentes. 3.1.1 O Pavilhão de tuberculose Nesse contexto, o Estado do Piauí fez parte do plano da Campanha Nacional de Tuberculose, tendo como principal resultado a criação de serviços para tratamento e controle da doença. Dentre esses serviços, foi instituído primeiro o Pavilhão de Tuberculose e, posteriormente o Dispensário de Tuberculose, na capital do Estado, para internação dos pacientes portadores de formas graves da doença e para controle dos doentes respectivamente. O Pavilhão foi inaugurado em 1949, assumindo um papel importante no tratamento da doença no Estado, passando a funcionar com 94 leitos. Os serviços de tuberculose foram coordenados no Piauí pelo médico Lucídio Portela, que se formou em medicina na cidade do Rio de Janeiro, tendo realizado o curso de pneumologia e tisiologia, conforme depoimento: Eu me formei em medicina no Rio de Janeiro e fiz o curso de pneumologia e o curso de tisiologia. Então fui convidado para dirigir um hospital que ia ser criado no Piauí, porque não tinha leitos para tuberculosos e a tuberculose era uma doença altamente contagiosa e precisava-se abrigar o pessoal contagiante para evitar o contato familiar. Eu vim para dirigir o hospital e fui eu que coloquei as primeiras camas; elas foram arrumadas por mim. Eu vim sozinho, depois foi que recrutamos o pessoal auxiliar (M1). O Pavilhão de Tuberculose foi o primeiro hospital público do Piauí destinado ao atendimento de tuberculosos. A sua institucionalização ocorreu dentro da proposta da Campanha Nacional Contra a Tuberculose, cujo objetivo principal era o isolamento dos doentes em hospitais (sanatórios), mantidos longe do convívio social e familiar, visando, com isso, diminuir a disseminação da doença. Vale ressaltar que o Pavilhão foi construído como anexo do Hospital Getúlio Vargas (HGV), um hospital moderno inaugurado em 1941, no contexto da reorganização sanitária do Estado, tudo provocado pelas mudanças desencadeadas no País, com o advento do Estado Novo. A área de construção do Pavilhão foi escolhida próxima ao HGV, certamente pela sua localização, que embora fosse situada no perímetro urbano, mantinha-se isolada do centro da cidade, evitando poeira e outros transtornos desagradáveis para doentes que careciam de repouso. Outro aspecto considerado foi a facilidade de serviços do HGV, como a sua cozinha, que atendeu ao Pavilhão, dada a sua proximidade. Apesar de o prédio, à época, ser considerado um anexo, ele tinha uma estrutura própria de atendimento isolada do HGV. Todavia, por mais de uma década, o seu funcionamento dependeu dos serviços da cozinha do HGV, como recordam os depoentes. A cozinha era no HGV e, todo dia, havia reclamação por parte dos pacientes de que a comida não dava e não tinha como controlar. Então começamos a cozinhar no próprio Pavilhão com um fogãozinho doméstico. Quando foi um dia o Dr. Lucídio entrou e perguntou que história era aquela que nós estávamos fazendo comida lá. Eu respondi os motivos e ele foi ao Rio de Janeiro com o projeto e ganhou o recurso e nós montamos a cozinha (E1). 39 Oliveira, A. C.; Farias, D. C. ; Nunes, B. M. V. T. A alimentação era precária. Eles colocavam os restos pra nós. Aí nós resolvemos fazer uma cozinha e uma lavanderia também. A roupa antes era lavada no hospital, mas eu resolvi: “Vamos comprar o material”. Comprei uma lavanderia e colocamos a lavanderia para funcionar (M1). Dessa forma, conseguiram, aos poucos, montar a estrutura de apoio no próprio prédio do Pavilhão, que foi ficando independente desse serviço do Hospital Getulio Vargas, considerando que o Pavilhão era mantido com recursos da antiga Campanha Nacional de Tuberculose. Conforme informações dos depoentes, o Pavilhão apresentava uma estrutura bem organizada, tendo uma coordenação local da campanha, que era realizada pelo médico Lucídio Portela Nunes, que exercia o papel de diretor do Hospital e do Dispensário. Outro destaque da equipe foi a enfermeira Maria Vieira de Moraes, que era da equipe do Ministério e veio trabalhar no Piauí. Outros profissionais também compunham essa equipe de trabalho: médicos, enfermeiras, assistente social, bioquímicos e as visitadoras sanitárias. A administração dos serviços do Pavilhão era rigorosa, e os serviços prestados eram de qualidade. “O Dr. Lucídio era rigoroso com o serviço; ele era muito bom, mas todos tinham que cumprir as obrigações, era tudo na íntegra e todos admiravam o modo como era o Pavilhão” (F1). Convém mencionar que a organização do Pavilhão seguia rigorosamente as recomendações da Campanha Nacional contra Tuberculose, que era basicamente igual no País, pois a coordenação, era em âmbito nacional, de forma verticalizada, sendo que o Ministério da Saúde conduzia o processo conforme analisam as depoentes. “Era uma coisa muito verticalizada: o Ministério da Saúde conduzia, o Estado não tinha uma certa liberdade, era seguido o que o Ministério mandava.”. (E2). “Nesse tempo a campanha era vinda do Rio de Janeiro, tudo era determinado pelo Rio de Janeiro” (F1). O problema da tuberculose no Estado era gravíssimo, considerando que, até o final da década de 1940, não existia a cura da doença nem esses serviços de apoio. Nesse sentido, a internação dos primeiros pacientes foi um problema gravíssimo; pois, não existindo a cura, o tratamento se resumia ao repouso e à internação, tendo mais o objetivo de isolar do que curar os doentes. O relato abaixo retrata a ocasião da chegada dos primeiros pacientes. Na primeira semana, em que o hospital foi instalado todos os tuberculosos que sabiam se internaram, independente de qualquer gravidade e desses morreram 38. Eu fiquei alarmado e quase desisti e pensava: “Eu não vim aqui pra enterrar gente, o que diabo é que eu vim fazer aqui?” Mas insisti e essa luta demorou alguns anos; muita gente veio do interior atrás de cura; mas, na realidade, não sabiam que a cura era pouco provável. O paciente ficava em repouso no hospital, às vezes se curavam uma porcentagem de mais ou menos 5%. Em cada 100 casos de tuberculose, morriam 95 e se recuperavam 5, com o repouso que lhes davam no hospital (M1). Posteriormente, o trabalho no Pavilhão foi obtendo avanços relativos à cura dos doentes, principalmente quando as primeiras drogas eficazes contra a tuberculose foram surgindo no mercado e deram um novo alento tanto para os doentes como para os profissionais que os tratavam. Assim, o final da década de 1940 foi uma fase historicamente frutífera para o combate à doença; pois, naquele período, a quimioterapia antibiótica começou a alterar o quadro da enfermidade. Com a cura possível, a tuberculose passou de uma doença mortal a uma moléstia passível de cura, pelo avanço científico. Uma possibilidade real de cura se apresentou em 1944, com a descoberta da estreptomicina, que exibia um importante efeito terapêutico (GONÇALVES). A estreptomicina foi o primeiro remédio que apareceu para tuberculose. Começamos a usar e curar os doentes, sobretudo os casos iniciais, e todos eles se curavam desde que tomasse pontualmente o remédio. Depois apareceram outros remédios, em segundo lugar o PAS. Eram uns comprimidos grandes, 40 que tomavam 10 comprimidos por dia, junto com a estreptomicina, aumentando a taxa de recuperação e cura também. Depois apareceu o terceiro remédio, a hidrazida, e esse foi a salvação. A partir daí, inverteu-se o problema ao invés de morrer 95 e recuperar 5, passou a ser o contrário recuperavam-se 95 e morriam cinco (M1). Em 1946, quando a CNCT foi instituída, dois agentes quimioterápicos anti-TB eram utilizados a estreptomicina (S) e o ácido para-amino-salicílico (PAS), descoberto em 1946. O início da prática da quimioterapia se fazia só com a estreptomicina que era importada e distribuída pelo poder público. Os animadores resultados iniciais logo se mostraram decepcionantes com as altas taxas de resistência bacteriana. Mas, a combinação da estreptomicina e PAS aumentavam a eficácia do tratamento ao produzir um aumento da taxa de conversão bacteriológica e diminuir o aparecimento da resistência. Assim foi estabelecido o primeiro esquema terapêutico prontamente adotado no Brasil (HIIJAR, et. al. 2007). Dessa forma, a mortalidade caiu sensivelmente por força da quimioterapia. Porém, algum tempo depois, começou a perder sua velocidade de queda. Essa condição e outras decorrentes do avanço tecnológico, levaram o Governo Federal a lançar uma ofensiva conclamando governadores, prefeitos, outras autoridades, profissionais, para dar apoio ao programa da CNCT, em 1961. A ofensiva era voltada para a ação dispensarial, visando à padronização dos métodos e sua expansão para o interior e o entrosamento efetivo dispensário-hospital, assim como a retomada da construção de hospitais e o aproveitamento de leitos dos hospitais gerais, dentre outros. Essa preocupação do governo, em Teresina, de acordo com as entrevistas faz-se como forma de apoio a Campanha assumindo o incentivo financeiro e fornecimento de medicações para o tratamento dos tuberculosos, como demonstra o relato do depoente: O governo realmente dava o remédio. Nunca faltava medicação no Piauí. O apoio do governo foi muito grande naquela época, depois as coisas mudaram. A campanha entusiasmou muito a classe médica especializada, e os casos diminuíram muito; mas, quando isso aconteceu, começaram a relaxar. O que fizeram? Extinguiu-se a campanha, coisa que deveria existir até hoje (M1). Com os anos, os avanços científicos, como as novas medicações e a descoberta do fator sócio-econômico como determinante da TB, que vieram questionar afirmativas até então aceitas, como o “fator clima”, na cura da tuberculose, e a hereditariedade na etiologia da doença. Aquele momento se caracterizou pela intensa discussão entre os tisiólogos, na medida em que esses avanços promoviam mudanças significativas no entendimento e nas representações sobre a doença (FERNANDES, ALMEIDA, 2010). Assim, com o tempo de funcionamento do Pavilhão e do Dispensário, de forma cíclica, todos os casos diagnosticados de tuberculose eram encaminhados para internação e tratamento, sendo acompanhados e cuidados diariamente. Nos anos de 1970, intensificou-se a ação do Estado no controle da doença até alcançar sua completa monopolização na década seguinte. Foi criada, em 1970, a Divisão Nacional de Tuberculose, em substituição ao Serviço Nacional de Tuberculose. Essa década teve, como marco fundamental para a tuberculose, o início da implementação do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, contido no II Plano Nacional de Desenvolvimento (FERNANDES, ALMEIDA, 2010). Com isso, intensificou-se o tratamento ambulatorial, reduzindo as internações desnecessárias que consumiam os recursos disponíveis. O controle da distribuição das drogas passou a ser estatal, devido a uma política de racionalização (HIIJAR, GERHARDT, TEIXEIRA, 2007). Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. História e memória da tuberculose em Teresina – Piauí A consolidação do uso dos antibióticos como terapêutica eficaz para o tratamento da tuberculose, ao lado das medidas profiláticas e da simplificação do diagnóstico, levou a uma mudança no perfil epidemiológico da doença com uma queda acentuada no índice de mortalidade. Essa alteração contribuiu para o estabelecimento de uma nova relação entre as pneumopatias, dando corpo à pneumologia. Nesse sentido, em 1976, a Divisão Nacional de Tuberculose transformou-se em Divisão Nacional de Pneumologia Sanitária, passando a se ocupar não só da tuberculose, como também de outras pneumopatias consideradas de interesse da Saúde Pública (FERNANDES, ALMEIDA, 2010). E assim, dado a esses avanços no Estado do Piauí, também não havia mais sentido manter o Pavilhão em funcionamento. “Todos os casos de tuberculose passaram a ser tratados em ambulatório porque o contágio desapareceu com a instalação do esquema tríplice de tratamento. Então, o Ministério da Saúde resolveu fechar o hospital” (M1). 3.1.2 O dispensário de tuberculose Após a implantação do processo de internação dos casos graves de tuberculose, no Estado do Piauí foi criado, em 1958, o Dispensário de Tuberculose. Isso se deveu em virtude das mudanças ocorridas nos planos de ação contra a Tuberculose no Brasil, que, ao longo dos anos, passou por diversas mudanças, dados os avanços dos estudos que iam sendo produzidos, principalmente nos aspectos inerentes ao tratamento dos pacientes. Nessa nova fase, as discussões se pautavam na necessidade de investir na internação hospitalar de curta permanência, sendo utilizada a classificação por prognóstico dos pacientes e com duração média de três a seis meses, voltados para educação sanitária dos internos, medicação assistida e controle dos comunicantes e egressos. Esse modelo de internação objetivou conter o fenômeno da resistência bacteriana e otimizar os leitos hospitalares, reduzindo assim os gastos com a internação (MONTENEGRO et. al ) . O dispensário era uma unidade de saúde que desenvolvia ações de prevenção, diagnóstico e tratamento da TB, possibilitando a utilização e a difusão de novas técnicas terapêuticas. Nesse sentido, ocorreu um esforço na expansão da rede de dispensários com o início da execução do plano de implantação de pelo menos um sanatório em cada estado do Brasil. Houve também a inclusão das ações de controle da TB nos serviços assistenciais dos institutos e caixas de aposentadoria e pensões (HIIJAR, et. al. 2007). O tratamento realizado no Pavilhão de Tuberculose sempre foi pautado na ideia da internação somente dos pacientes com complicações, sendo os outros pacientes tratados a nível ambulatorial, com as orientações sobre como deveria ser a alimentação, medicação e as possíveis reações. Com a criação do Dispensário de Tuberculose, as ações contra a tuberculose foram ampliadas, pois o dispensário visava dar continuidade aos casos daqueles pacientes que se internavam e, no ambulatório, eram monitorizados até concluir o tratamento. Ainda acompanhavam os comunicantes e faziam a visita domiciliar. O dispensário foi localizado no centro da cidade em prédio próximo a Secretaria Estadual de Saúde. “O dispensário de tuberculose foi criado na Secretaria de Saúde e visava fazer o tratamento, no ambulatório, dos casos que começavam no hospital e iam para o ambulatório para terminar o tratamento” (E1). Dessa maneira, o objetivo do dispensário era fazer o tratamento no ambulatório e monitorar o doente até a sua cura. Para coordenar e Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. desenvolver esse trabalho, a instituição dispunha de uma equipe de profissionais preparados, como médicos, assistentes sociais, enfermeiros sanitaristas, atendentes e auxiliares de enfermagem e visitadoras sanitárias. O depoimento a seguir relembra esse momento. Fazia-se o seguinte: identificado o tuberculoso, elas iam às casas dos pacientes, ensinar como é que se evitava e tratava a tuberculose no ambiente familiar. Então eles faziam isso na própria casa do paciente e também o acompanhavam na falta ao tratamento. Elas iam atrás do doente e levavam para o dispensário. Nós chegamos a ter mil e poucos doentes no dispensário de tuberculose e a recuperação era altíssima (M1). Após a implantação dessa primeira fase, de acordo com os relatos, a intensificação da visita domiciliar teve maior atuação na década de 1970, quando se realizou o mapeamento da cidade em áreas delimitadas para realização das visitas. Nós encaminhávamos os doentes para o Pavilhão quando era o caso de internação. A equipe da coordenação da campanha de tuberculose mapeou Teresina e havia os bairros que se fazia visita domiciliar. Nós tínhamos o visitador sanitário tanto a nível central, na Secretaria de Saúde, quanto no dispensário de tuberculose, então todos os casos novos recebiam uma visita e lá era vista toda a condição que o paciente vivenciava e dava toda a orientação de contato se a pessoa tinha tomado vacina e se não, era encaminhado pra tomar (E2). Além da visita domiciliar, o Dispensário prestava serviços à população, fazendo Abreugrafia. Em 1936, houve o surgimento de uma tecnologia que se tornou primordial para o diagnóstico da doença. Manoel de Abreu apresentou a abreugrafia, que se generalizou nos consultórios pelo baixo custo, rapidez e praticidade. Passou a ser comum um cadastro torácico, que veio determinar, mais tarde, a requisição de tal exame para controle nas admissões em instituições e empresas. Portanto, ser ‘tuberculoso’ implicava muito mais do que estar debilitado organicamente; as alterações no cotidiano não eram apenas temporárias ((HIIJAR, et. al. 2007). O depoente seguinte lembra a importância da realização do exame: Em todo lugar tinham focos de tuberculose. Então, se você ia se matricular em um colégio, numa faculdade, num concurso, tudo tinha que levar a abreugrafia; quando era uma coisa assim bem importante, não era nem a abreugrafia, era a teleradiografia, que era maior (F2). Nos anos 1960 e 70, uma obrigação sanitária relacionada à tuberculose acompanhou diversos passos da vida civil. De posse do registro fotográfico da imagem radiológica dos pulmões, o interessado comprava um selo médico em bancas de jornal, juntava o certificado de vacinação contra a varíola e levava toda essa documentação para apreciação do médico que emitiria o atestado de saúde. Esse certificado foi requisito associado principalmente às obrigações trabalhistas, na admissão e controle periódico de saúde dos trabalhadores, sendo inclusive requisito para o ingresso em algumas escolas (ANTUNES, WALDMAN, MORAES, 2000). O serviço de abreugrafia funcionava no dispensário de 7 as 13 horas, onde se fazia toda a ficha de cadastro e, após o resultado, indicava-se uma avaliação médica para um possível tratamento ou apenas a liberação dos exames. Tinha que fazer a ficha completa, depois fazia a abreugrafia, no outro dia, recebia o resultado. Quem não tinha tomado a BCG a gente oferecia. E quem dava suspeito na abreugrafia, a gente passava pra outra sala, pedindo outros exames, aquela teleradiografia, e levava diretamente ao médico, porque eram as pessoas suspeitas (F2). O mérito do procedimento residia na simplificação e redução de custos da radiografia convencional, o que permitiria sua aplicação em larga escala. A técnica consistia na obtenção de uma fotografia em miniatura da imagem que aparece na radioscopia do tórax, motivo pelo qual seu criador a denominou de roentgenfotografia ou fluorografia. Apesar dos 41 Oliveira, A. C.; Farias, D. C. ; Nunes, B. M. V. T. termos propostos, o I Congresso Nacional de Tuberculose, realizado no Rio de Janeiro em 1939, tornaria oficial o nome de “abreugrafia”, conceito posteriormente ratificado pela União Internacional contra a Tuberculose (ANTUNES, WALDMAN, MORAES, 2000). Assim, o trabalho desenvolvido no Dispensário de Tuberculose em Teresina foi fundamental para o controle da doença, como rememora um depoente. Após a saída das primeiras enfermeiras verificou-se, por meio dos relatos, a presença de uma enfermeira religiosa, que atuava na administração do Pavilhão e no treinamento de funcionárias para exercer as atividades de enfermagem, as quais foram denominadas posteriormente de atendentes. A religiosa, Irmã Teresa, era Vicentina advinda da Escola Maria Antoinette Blanchot, primeira escola piauiense de ensino auxiliar de enfermagem. O dispensário foi fundamental. Nós fazíamos também o seguinte: o nosso trabalho era um trabalho interno. Nós fazíamos o cadastro por exame de abreugrafia. Nós fazíamos uma média de 200 abreugrafias, por dia, em familiares. De forma que eu era quem fazia as abreugrafias e dava o resultado de duzentas e poucas abreugrafias por dia. Era um trabalho muito interessante (M1). Nós éramos atendentes sob a supervisão da irmã Teresa, que era a enfermeira chefe; ela era religiosa, mas era formada. O curso teve uma grande importância porque a gente começou do nada e foi aprendendo essa parte ética, parte profissional da mão na massa como se diz, e tudo aquilo a gente aprendeu com doutor Lucídio e com a enfermeira irmã Teresa. Todo dia de manhã ela explicava tudo; todos os dias, antes de reunir pra chamada, pra saber quem tinha faltado e quem tinha chegado na hora ela dava muita orientação pra gente. A irmã Teresa quando a gente partia dali pras enfermarias, a gente ia saber o que ia fazer com o doente, ia tratar bem, ia tratar com carinho, ia ter toda aquela ética (F3). No final, as ações desenvolvidas nos Dispensários foram absorvidas pela Divisão de Pneumologia Sanitária da Secretaria Estadual da Saúde, quando as ações da Campanha Nacional de Tuberculose foram encerradas. 3.2 Atuação da Enfermagem nos serviços de tuberculose Em 1949, quando as ações de combate a tuberculose no Piauí foram implantadas não existiam escolas para formar pessoal de enfermagem em nível superior e médio, portanto inúmeras eram as dificuldades de encontrar profissionais com formação específica em enfermagem. Nesse sentido, a permanência de enfermeiras da região sudeste recrutadas para trabalhar no Hospital Getúlio Vargas, na década de 1940, foi frustrada, pois elas não “encontravam condições de trabalho compatíveis com a sua formação, principalmente no tocante aos ganhos salariais” (NOGUEIRA, 1996 ). Assim, quando o Pavilhão de Tuberculose iniciou suas atividades, além do Diretor Lucídio Portela Nunes, vieram duas enfermeiras para organizar o serviço de enfermagem no hospital, dentre as quais foram mencionados nas entrevistas os nomes de Maria Alice Almeida e Maria Pires Leão. Os relatos também indicam que as mesmas não permaneceram por muito tempo, pois os salários eram baixos e havia atrasos nos pagamentos salariais. Dessa forma, o problema da fixação das enfermeiras no Estado ocorreu também nos primeiros anos de funcionamento do Pavilhão, como no Hospital Getúlio Vargas. Na segunda metade da década de 1950 é que começa o movimento de chegada das enfermeiras para o Piauí. Na CNCT, a adoção de princípios de divisão funcional do trabalho levou à inclusão das profissionais femininas na equipe de saúde, como enfermeiras, assistentes sociais e nutricionistas, então chamadas de paramédicas, e à utilização de grande contingente de pessoal auxiliar, treinado em serviço, o que determinou a atribuição às enfermeiras de um papel fundamental na organização dos sanatórios (BARREIRA, 1996). O planejamento do serviço de enfermagem de cada sanatório era realizado em conjunto com o planejamento geral do hospital, no Rio de Janeiro, pelo pessoal da sede do SNT, em equipe multiprofissional, com base em dados demográficos e epidemiológicos (BARREIRA, 1996). Em todo o Brasil, as principais ações desenvolvidas pela enfermagem no apoio ao tratamento da tuberculose, consistiam principalmente em orientar o doente e a sua família sobre o perigo do contágio da doença, prestar noções básicas de higiene, sobre a importância do tratamento e da administração dos medicamentos, além da orientação nutricional. Também desenvolvemos e ministramos cursos de orientação social (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). 42 Essa enfermeira religiosa teve um papel importante não só na formação das atendentes e auxiliares de enfermagem, como também no tratamento dos doentes internados no Pavilhão. Devido ao longo período de internação dos pacientes no pavilhão e ao grande número de portadores da enfermidade que eram analfabetos, foi criada uma escolinha de alfabetização dentro do próprio hospital e muitos deles saíram alfabetizados. Após o treinamento realizado pela religiosa, muitas dessas atendentes fizeram o curso auxiliar de enfermagem, em 1958, quando foi criada a primeira Escola Auxiliar de enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot (NUNES, BORGES, SANTOS). O pavilhão já tinha o seu funcionamento, tinha a enfermeira Vangi e as atendentes que nós as transformamos em auxiliares de enfermagem. Eram vinte e duas atendentes que foram transformadas em auxiliares de enfermagem. E como existia a escola de enfermagem Maria Antoinette Blanchot, ali o curso era de um ano e oito meses; a gente dispensava integralmente dois atendentes, a cada ano, e assim nós fechamos o quadro (E1). A contribuição do Serviço de Enfermagem na construção da missão social do Pavilhão de Tuberculose é facilmente percebida em todos os depoimentos. Foram Identificadas algumas enfermeiras como as pioneiras do Serviço de Enfermagem do Pavilhão de Tuberculose, como Irmã Teresa, Maria do Espírito Santo, conhecida como Vangi, e principalmente Maria Vieira Moraes. Esta, desde a década de 1960 realizou um importante trabalho na Campanha, sendo mencionada em várias entrevistas. Um dos depoentes descreve sua relevância: “A Maria Vieira foi quem estruturou boa parte do serviço de tuberculose no Piauí. Tiveram várias outras enfermeiras, porém a Maria foi a visão maior. É tanto que ela era conhecida como a “Maria da tuberculose” (F4). Ao final da década de 1960, na CNCT a enfermagem passou a guiar suas ações para a organização de serviços em âmbito nacional e projeção profissional, mediante não só atividades de planejamento em equipe multiprofissional, assim como supervisão local, educação continuada das enfermeiras, como também assessoria técnica aos órgãos de direção da campanha, entre outros (BARREIRA, 1996). Dessa maneira, podemos perceber que a função do enfermeiro, nos pavilhões de TB, era bastante extensa. Elas coordenavam praticamente todos os setores existentes no hospital, como cozinha, lavanderia, rouparia e a própria enfermagem. No Pavilhão de TB, em Teresina, era o enfermeiro que realizava todas as orientações acerca do tratamento e os cuidados que o paciente deveria tomar; também realizava entrega dos medicamentos, encaminhava para baciloscopia e atuava como enfermeira sanitarista. Por meio dos depoimentos pôde-se inferir que a enfermagem era Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. História e memória da tuberculose em Teresina – Piauí bastante empenhada no que se refere ao bem estar mental dos pacientes, proporcionando a estes, momentos de descontração. A enfermagem era altamente comprometida com o seu trabalho, com o seu paciente, com o tratamento, com a cura e com a parte educativa. Todo mundo era envolvido com aquilo. Nós tínhamos uma boa relação com os pacientes, com os familiares. Nós fazíamos festas comemorativas, almoços, para que eles se sentissem mais livres, já que estavam em um lugar segregado. Nós deixávamos o ambiente mais leve (E2). Os relatos mostram que a família tinha maior confiabilidade na enfermagem e qualquer dúvida ou problemas que tivessem com o tratamento procuravam a enfermagem visto que a mesma fazia a ponte entre o paciente e o médico. Essa confiança e credibilidade era reconhecida não somente por parte da família e dos pacientes. A colaboração desses profissionais logo foi reconhecida pelo Doutor Lucídio Portela, que, em seu relato, fala do apoio que encontrou na categoria, que colaborou em diversos setores, principalmente administração. “A enfermagem não fazia só o trabalho sanitário, a enfermagem fazia o trabalho administrativo do hospital. As enfermeiras eram sub-diretoras do hospital, que se manteve com um bom padrão, tendo 95-96% de cura dos casos que se tratavam (M1). A Campanha Nacional Contra a Tuberculose configurou-se como fator importantíssimo no que se refere ao incremento do quantitativo de enfermeiras, devido ao apoio prestado às escolas de enfermagem, facilitando assim o recrutamento de candidatas mediante a concessão de bolsas e contratação de parcela considerável das enfermeiras diplomadas a cada ano (BARREIRA, 1996). A contribuição do serviço de enfermagem na construção da missão social dos serviços de tuberculose no Piauí foi facilmente percebida em todas as entrevistas realizadas. As lembranças são de luta intensa, de compromisso com a saúde daqueles que estavam sobre suas responsabilidades e de luta também para qualificar profissionais de enfermagem para esses serviços. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao recuperar a memória das ações desenvolvidas no Estado do Piauí por ocasião da Campanha Nacional Contra Tuberculose contribuímos para a preservação de parte da história dessas instituições, a partir do preenchimento de algumas lacunas existentes na história da saúde e de enfermagem nesses espaços específicos. Nesse sentido compreendemos que os objetivos desse estudo foram atendidos. Os resultados obtidos nos permitiram entender a estreita vinculação entre as ações do controle da tuberculose que eram desenvol- Revista Interdisciplinar NOVAFAPI, Teresina. v.4, n.1, p.37-44, Jan-Fev-Mar. 2011. vidas localmente, com o que determinavam as autoridades sanitárias nacionais, principalmente no que se refere às ações de controle efetuadas no sanatório e dispensário aqui instituídos. O Pavilhão e o Dispensário de tuberculose desempenharam a função de ser o principal pólo de assistência médica e de enfermagem aos portadores de tuberculose naquele período, em Teresina. O Pavilhão funcionou de 1949 a 1979, exatos trinta anos de serviços prestados à comunidade da época, de maneira séria e comprometida. Funcionou em meio a dificuldades financeiras e, apesar da árdua luta do trabalho, foram descritas relações de muito respeito entre os profissionais no âmbito intra-hospitalar, como nos demais serviços. Através da história da Tuberculose tivemos a oportunidade de conhecer parte da historia da enfermagem no Estado. Observamos que em 1949 vieram duas enfermeiras Maria Pires Leão e Maria Alice Almeida para organizar o serviço do Pavilhão, em Teresina. Embora a presença delas tenha sido rápida, porque aqui não permaneceram é importante registrar a passagem dessas profissionais. Dentre as enfermeiras que trabalharam no pavilhão foi lembrado o nome da Irmã Teresa, religiosa que deu uma grande contribuição ao serviço. Além dos treinamentos ao cuidar daquelas pessoas, desenvolviam-se também atividades, como arte, pinturas e dramatizações. Assim, embora os pacientes vivessem segregados, a condição oferecida pelo hospital os tornava mais dignos e humanos do que viver externamente em meio aos olhares temerosos das pessoas que viviam a sua volta. No final da década de 1950 outras enfermeiras vieram somar esse trabalho como Maria Vieira Moraes, que contribuiu para o engrandecimento da enfermagem, proporcionando maior credibilidade e confiabilidade a categoria através do brilhantes trabalhos prestados aos pacientes desses serviços. Dada a especificidade do trabalho de enfermagem no Pavilhão, as candidatas a esse trabalho recebiam treinamento, que era ministrado pelas enfermeiras e pelo diretor. Posteriormente, quando iniciou a escola de auxiliar de enfermagem, todas elas foram profissionalizadas. Ao concluir o estudo entendemos que buscar esse passado histórico que permanecia silenciado, se mostrou da maior importância para a compreensão de aspectos da memória e historia dos serviços de tuberculose e da área da saúde no Estado do Piauí, como também da história da enfermagem na realidade local. Descrevemos aspetos simples, que encontravam perdidos nas lembranças dos sujeitos que vivenciaram esse processo, tentando registrar ações de um passado, não tão distante, que merece atenção e reflexão. 43 Oliveira, A. C.; Farias, D. C. ; Nunes, B. M. V. T. REFERÊNCIAS FERNANDES, T. M.D; ALMEIDA ABDS; NASCIMENTO, D.R. Memória da tuberculose: acervo de depoimentos. MEIHY, J.C.S.B.; HOLANDA, F. História Oral: como fazer como pensar. São Paulo: Editora Contexto, 2007. p. 176 GONÇALVES, H. A Tuberculose ao longo dos tempos. Hist. cienc. saude-Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, p. 305-327, out, 2000. FERREIRA, M.D.M.; AMADO, J. organizadoras. Uso e abuso da história oral. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002. ANTUNES, J.L.F.; WALDMAN, E.A.; MORAES, M. A tuberculose através do século: ícones canônicos e signos do combate à enfermidade. Ciênc. saúde coletiva. Rio de Janeiro, v.5, n. 2, p. 367-379, Nov, 2000. BRASIL, Ministério da Saúde. 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