A Análise Ergonômica do Trabalho (AET) como ferramenta de auxílio
na concepção de produtos com maior usabilidade considerando o idoso
como usuário final
Lígia Cristina Oliveira Roberto
Estudante do curso de Economia Doméstica. Bolsista FUNARBIC - (UFV) - [email protected]
Luciana Aparecida de Oliveira
Estudante do curso de Economia Doméstica. Bolsista PIBEX - (UFV) - [email protected]
Tatiana Rodrigues Conegundes
Estudante do curso de Economia Doméstica - (UFV) - [email protected]
Breno O. Baião Silva
Estudante do curso de Economia Doméstica - (UFV) – [email protected]
Simone Caldas Tavares Mafra, Dra. Engenharia
Professora Associada do Departamento de Economia Doméstica - (UFV) - [email protected]
Resumo: O foco deste estudo bibliográfico foi voltado à compreensão de como a Análise
Ergonômica do Trabalho (AET) pode auxiliar no desenvolvimento de produtos com maior
usabilidade, considerando o idoso como usuário final. Este tema remete a idéia do processo
de envelhecimento vivenciado pelo país e, conseqüentemente, na busca do mercado produtor
de bens e serviços em contemplar esse novo consumidor em potencial. Foram abordados
conceitos de ergonomia, usabilidade e da AET na concepção de produtos a fim de discutir a
perspectiva vislumbrada pelos projetistas de uso da referida metodologia no auxílio da
compreensão da interface usuário-produto de forma a se obter produtos mais adequados ás
necessidades do usuário final.
Palavras-chave: Análise Ergonômica do Trabalho; Usabilidade; Interface; Idosos.
1. Introdução
O advento da globalização trouxe consigo inúmeras transformações no campo político,
econômico e social. O fluxo de informação aumentou e tornou-se mais rápido, permitindo aos
cidadãos se informar melhor e de forma mais rápida. Com isso, os cidadãos tornaram-se mais
exigentes, pois passaram a conhecer melhor os seus direitos. Houve avanço na
industrialização, refletindo na melhoria da qualidade de vida da sociedade e,
conseqüentemente, aumentando a expectativa de vida.
Nas sociedades modernas industrializadas, um fenômeno mundial importante é a saída
do indivíduo do cenário social via aposentadoria e,ou entrada na velhice (FIGUEIREDO,
2007). Segundo Camarano (1999 apud Moraes et al., 2004b), uma característica comum,
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tanto ao mundo desenvolvido quanto ao em desenvolvimento, neste século, é o
envelhecimento de sua população. O segmento populacional em idade considerada idosa é ‘’o
que mais cresce na maioria das sociedades. Isso se deve ao aumento da longevidade, à
redução da mortalidade e à queda da fecundidade. Esta queda tem elevado esse segmento, que
passou a viver mais, assumindo uma porcentagem maior no total da população.
Esse fenômeno tem se tornado mais freqüente, pois conforme Moreira (2000, apud
Dutra, s.d.), o crescimento da população idosa, aumentou consideravelmente nas duas últimas
décadas, e vem despertando a atenção de pesquisadores, do setor de serviços e do estado, pois,
tornou-se uma questão social de grande relevância.
Os idosos tornaram-se um mercado consumidor em potencial, principalmente, de
produtos eletrodomésticos, uma vez que os mesmos devem facilitar as atividades do cotidiano
desses consumidores (GOUVINHAS et al., 2001).
Constitui-se então, um dos desafios da sociedade e do mercado oferecer a esse
público, bens e serviços que considerem suas limitações. Ou seja, que coloquem no mercado
produtos duráveis, de fácil uso e boa interface, que tenham utilidade e atenda aos critérios de
usabilidade.
O desenvolvimento de produtos baseava-se quase que, exclusivamente, em conceitos
técnicos e funcionais (FLEURY, 1990; IIDA, 2005 apud CANCIGLIERI JUNIOR et al.,
2007). Mas, atualmente, com a globalização, o desafio para as empresas e os projetistas no
desenvolvimento de novos produtos, é fazer com que esses saibam converter as necessidades
dos consumidores em produtos e serviços com valores considerados importantes para os
mesmos, que estão cada vez mais exigentes. Um produto competitivo deve apresentar design
moderno, robustez, performance, qualidade técnica, praticidade, segurança e preço, bem como
interfaces com boa usabilidade (AGUIAR, 2004).
Atualmente, investe-se mais em aspectos ergonômicos e de usabilidade agregando
qualidade e valor aos produtos, guiando-se nas necessidades do usuário, e no ambiente no
qual ele está inserido (IIDA, 2005 apud CANCIGLIERI JUNIOR et al., 2007)
Considerando esses aspectos abordados, a Ergonomia é uma ciência recente que busca
adequar o ambiente de trabalho ao ser humano nas suas características físicas e psicológicas,
objetivando assegurar a saúde e a segurança, no desenvolvimento de suas atividades laborais
(MOREIRA, 2000 apud DUTRA, s.d.)
No entanto, a usabilidade está associada à qualidade da interface de um sistema
interativo, representando, também, os critérios ergonômicos em processos de avaliação.
Ambos, usabilidade e ergonomia, trabalham para atingir objetivos comuns que se pautam na
investigação e aplicação de conceitos durante o desenvolvimento do produto (REBELO, 2003
apud SOUZA, 2004)
O desenvolvimento de interfaces com boa usabilidade proporcionará a satisfação do
usuário, uma vez que ele conseguirá atingir seus objetivos com menos esforços e com mais
facilidade (AGUIAR, 2004).
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Para Moraes et al. (2003), cabe aos ergonomistas a tarefa de analisar tanto os
produtos, como também seus manuais, pois trata-se de importante ferramenta, principalmente
quando o usuário não possui as informações necessárias para o manuseio dos mesmos, ou
apresenta algumas limitações físicas, motoras e audio-visuais, como o seguimento de
usuários, na categoria idosos.
Diante disso, justifica-se a importância desse estudo bibliográfico, pois pauta-se na
necessidade de evidenciar que todos os usuários, independente de classe, raça, idade ou
religião tenham acesso a produtos de qualidade que ofereçam satisfação ao realizarem suas
tarefas e atividades diárias.
Sendo assim, objetiva-se compreender como a metodologia da Análise Ergonômica do
Trabalho pode auxiliar na concepção de produtos que ofereçam melhor usabilidade e
proporcione aos idosos autonomia ao realizar suas tarefas cotidianas.
2. Revisão Bibliográfica
2.1 A ergonomia e a usabilidade na interface usuário-produto
2.1.1 A Ergonomia
A palavra Ergonomia deriva do grego Ergon (trabalho) e nomos (normas, regras, leis).
Segundo a Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO) (2008), trata-se de uma disciplina
orientada para uma abordagem sistêmica da atividade humana. Para tanto, é preciso que os
ergonomistas tenham uma abordagem holística de todo o campo de ação da disciplina, tanto
em seus aspectos físicos e cognitivos, como sociais, organizacionais, ambientais, entre outros.
Em agosto de 2000, a IEA - Associação Internacional de Ergonomia adotou a
definição oficial apresentada a seguir:
“A Ergonomia (ou Fatores Humanos) é uma disciplina científica relacionada
ao entendimento das interações entre os seres humanos e outros elementos
ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos
a fim de otimizar o bem estar humano e o desempenho global do sistema”
(ABERGO, 2008: p.1).
De acordo com Iida (1993), a ergonomia é a adaptação do trabalho ao homem,
abrangendo todo o contexto no qual o relacionamento entre o homem e seu trabalho ocorre,
ou seja, toda a interação entre os aspectos do ambiente físico, organizacional, de como o
trabalho é programado, controlado na perspectiva de compreender melhor o resultado
esperado. Sendo assim, uma definição para a ergonomia na perspectiva da Ergonomics
Research Society, Inglaterra apud Iida (1993) é:
“ergonomia é o estudo do relacionamento entre o homem e o seu trabalho,
equipamento e ambiente, e particularmente a aplicação dos conhecimentos
de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas surgidos desse
relacionamento”( IIDA,1993: p.1).
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A ergonomia para Gomes Filho (2003), caracteriza-se por um caráter interdisciplinar,
no qual utiliza de diversas áreas de conhecimentos, tais como: medicina, sociologia,
antropologia, antropometria, arquitetura e urbanismo, comunicação social dentre outras para
compreender o homem e o trabalho realizado pelo mesmo.
O Grupo Ergo&Ação (2003), acrescenta que áreas de especialização representam
competências profundas em atributos humanos específicos ou características da interação
humana que são amplamente caracterizados como os que se seguem:
- A ergonomia física preocupa-se com características humanas anatômicas,
antropométricas, fisiológicas e biomecânicas e como as mesmas relacionam-se com as
atividades físicas. Tópicos pertinentes incluem posturas, manuseios de materiais, movimentos
repetitivos, desordens muscoesqueléticas relacionadas ao trabalho, layout dos postos de
trabalho, segurança e saúde (ERGO&AÇÃO, 2003);
- Ergonomia cognitiva relaciona-se aos processos mentais, como percepção, memória,
raciocínio, e resposta motora, como eles interferem nas interações entre o homem e outros
elementos de um sistema, que incluem carga de trabalho mental, tomada de decisão,
qualificação, interação homem-computador, confiabilidade, estresse e treinamento,
integrando-os na concepção da relação homem-sistema (ERGO&AÇÃO, 2003);
- Ergonomia organizacional relaciona-se com a otimização do sistema sociotécnico,
incluindo suas estruturas organizacionais, políticas e processos. Tópicos pertinentes incluem
comunicação, administração de recursos, projeto do trabalho, jornada de trabalho, trabalho em
equipe, projeto participativo, ergonomia de comunidades, trabalho cooperativo, novos
paradigmas de trabalho, organizações virtuais, tele-trabalho e administração de qualidade
(ERGO&AÇÃO, 2003).
Sendo assim, os diferentes domínios estabelecido pela IEA são amplos e devem ser
compreendidos à luz das diferentes especialidades e correntes metodológicas que estão
reunidas nas diferentes abordagens da ergonomia, englobando o conjunto de abordagens
teóricas e práticas que hoje constituem a ergonomia no mundo (ERGO&AÇÃO, 2003).
2.1.2 Usabilidade
A norma ISO 9241-11 define usabilidade como a efetividade, a eficiência e a
satisfação com que usuários particulares atingem objetivos específicos em ambientes também
específicos, quando utilizam determinado produto ou serviço (MARTINEZ, 2003;
PINHEIRO, 2003; TORRES, 2004).
Bevan (2004, apud Pinheiro, 2003) apresenta a discussão da ISO 9126, que refere-se à
usabilidade enquanto capacidade de um software de ser compreendido, aprendido, utilizado e
ser atrativo para o utilizador, em condições específicas de utilização.
Para Pinheiro (2003), as ISOs enfatizam os atributos internos e externos do produto
que contribuem com a sua usabilidade, funcionalidade e eficiência, assim como, na qualidade
de utilização, referindo-se desde como o utilizador realiza efetivamente as tarefas específicas
em cenários específicos. Para o autor, a usabilidade depende tanto do produto como do
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usuário, ou seja, a usabilidade de um produto está intimamente relacionada com a capacidade
de ser utilizado, compreendido por pessoas e situações particulares.
Ainda em relação as ISOs, Jordan (1998, apud Moraes, 2002) diz que a usabilidade
pode ser compreendida como o quanto é fácil um produto de ser utilizado. E que o mesmo,
seja feito de forma efetiva, eficiente e com satisfação pelo usuário, independente de quem ele
é e de qual é o contexto no qual ele está inserido.
De outra forma, o autor traduz a usabilidade como a propriedade da interação produtousuário-tarefa; ou o conjunto de tarefas que uma pessoa está tentando completar. Pinheiro
(2003) acrescenta que não importa qual o sistema, desde que o mesmo possa interagir com o
usuário. Ou seja, pode ser um software, uma máquina fotográfica ou mesmo uma máquina de
lavar roupa.
Conforme Bevan (1995, apud Winckler, s.d), a usabilidade é o termo técnico que
quando usado, descreve a qualidade de uso de uma interface, tornando possível o aumento da
produtividade dos usuários, redução da ocorrência de erros, assim como, contribuir para a
satisfação dos mesmos.
Segundo Winckler (s.d.), deve-se considerar que a usabilidade está relacionada a
algumas questões, tais como, o tipo de aplicação/uso, o perfil dos usuários, o contexto de
utilização, dentre outras variáveis. Por outro lado, essas questões, podem se modificar ao
longo dos anos, em função do crescimento da população usuária, mudança dos requisitos e
recursos da aplicação e mesmo atualização da tecnologia.
Conforme Pinheiro (2003), a usabilidade foca o campo da interação usuário-máquina.
Ela faz a ligação entre as pessoas e as máquinas. Essa interação com o usuário, ocorre a partir
de dispositivos de saída e de entrada das máquinas e do conhecimento e experiência do
usuário.
Jordan (1998, apud Moraes et al., 2002) acrescenta que a eficiência da interação
usuário/máquina está no fato da pessoa atingir o objetivo, ou seja, cumprir a tarefa implicada
na interpretação humano-máquina objetivamente. Já a eficácia consiste no volume de trabalho
que o usuário alcança com o nível mínimo de erro. E o que traz satisfação é o grau de
conforto que o usuário sente ao usar um determinado produto atingindo seu objetivo.
Considerando então a interação homem-máquina como foco de usabilidade, tem-se
que a mesma está relacionada à eficácia e eficiência da interface diante do usuário e pela
reação do usuário diante da interface (FERREIRA, 2002).
Matias (s.d., apud Bifano, s.d.) descreve usabilidade como sendo uma combinação das
seguintes características oriundas ao usuário: facilidade de aprendizagem, rapidez no
desempenho da tarefa, baixa taxa de erro e satisfação do usuário. Sendo assim, para Scanpin
(s.d., apud Bifano, s.d.), os problemas de usabilidade das interfaces ocorrem em conseqüência
direta de algumas características dos projetistas, pois os mesmos tendem a carecer de
conhecimento prévio sobre as tarefas e os usuários.
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Macleod (1994, apud Dias, s.d.) considera a usabilidade uma "qualidade de uso, e
interação entre usuário e sistema". E essa interação depende das características do sistema e
do usuário. Em suma, o autor enfatiza que, o resultado dessa interação pode ser bom para
alguns e ruim para outros. Portanto, deve-se considerar também que a usabilidade depende
das tarefas específicas que os usuários realizam dentro do sistema, assim como do ambiente
físico (incidência de luz, barulho, interrupções da tarefa, disposição do equipamento, dentre
outros). Logo, a usabilidade é uma qualidade de uso de um sistema, diretamente associada ao
seu contexto operacional e aos diferentes tipos de usuários, tarefas, ambientes físicos e
organizacionais. Com isso, pode-se considerar que qualquer modificação em algum aspecto
relevante do contexto de uso é capaz de alterar a usabilidade de um sistema, envolvendo o
homem e a máquina.
Apesar de esses conceitos serem utilizados desde a década de 1980, só nos últimos
anos a palavra ‘‘usabilidade’’ começou a ser melhor investigada e tornou-se mais popular
com o surgimento da web ( MARTINEZ, 2003).
2.2 Adoção da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) na usabilidade de produtos
Segundo o Grupo Ergo&Ação (2003), a ergonomia engloba diversas escolas, sendo as
mesmas explicadas e entendidas a partir da consideração de duas correntes diferentes: uma
corrente de origem anglo-saxônica (abordagem clássica), de natureza experimental, onde os
conhecimentos gerados acerca do ser humano são disponibilizados para aplicação na
concepção de produtos e postos de trabalho; e, uma corrente francofônica (abordagem
situada) associada à Análise Ergonômica do Trabalho, fundamentada no estudo de situações
de trabalho singulares e socialmente situadas.
No primeiro caso, fica em primeiro plano os conhecimentos acerca do homem e, em
segundo plano a situação de trabalho. No segundo caso, destaca-se a situação específica de
trabalho, recorrendo-se, posteriormente, aos conhecimentos acerca do homem no trabalho
(ERGO&AÇÃO, 2003).
Na perspectiva da AET, as situações de trabalho são únicas e socialmente
contextualizadas. Sendo assim, ao recorrer aos conhecimentos em relação ao homem em
atividade a ergonomia transforma estes conhecimentos adaptando-os a uma realidade
específica (ERGO&AÇÃO, 2003).
Para Iida (1993), a ergonomia é uma ferramenta que busca adaptar o trabalho ao
homem, atuando na adequação e concepção de sistemas e produtos. Para que eles funcionem
harmoniosamente com o homem e que seus desempenhos sejam satisfatórios, tanto para o
usuário quanto para a tarefa que estará auxiliando em seu desenvolvimento.
Essa adequação de produtos vem sofrendo transformações ao longo dos anos.
Conforme Iida (1993), a ergonomia começou estudando parte do produto, depois os produtos
de uma forma completa e, atualmente, o estudo se dá em termos de componente de sistemas
maiores e complexos.
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Diante disso, os produtos na visão da ergonomia, independente do tamanho ou
complexidade, devem buscar satisfazer as necessidades do homem, logo, seu funcionamento
será classificado como bom ou ruim em função das suas interações com o usuário/consumidor
(IIDA, 1993).
A análise ergonômica para Gomes Filho (2003), em relação aos produtos (objetos) é
baseada em reflexões conceituais, traduzidas por análises, diagnósticos e recomendações
sobre os problemas detectados nos objetos. Esses problemas consistem basicamente em
conformação física, a funcionalidade e suas eventuais interfaces em relação ao seu uso.
São várias as situações em que o estudo ergonômico do produto aparece, como nos
exemplos citados por Mario César Vidal (s.d.):
‘‘ - de manutenção. A concepção dos hardwares de computador foi
concebida sob este aspecto: ao invés de componentes, um computador é
pensado em termos de arquitetura de placas substituíveis, facilitando a
reativação rápida de uma unidade em pane. Esta filosofia tem sido no campo
da manutenção como sendo os produtos que são projetados visando a
facilidade adotada pela indústria automobilística, e hoje está intensificada
com a adoção da fabricação por consócio modular.
- no campo doméstico, além do caso do fogão (Iida,1990) vemos uma
preocupação especifica com um design ergonômico na maioria dos
eletrodomésticos;
- no campo dos escritórios, o conceito de mobiliário ergonômico é algo
disseminado -embora a maioria do mobiliário existente não mereça essa
adjetivação;
- nas salas de controle vemos a aplicação freqüente das regras de controles e
mostradores disseminadas nos manuais de fatores humanos’’(VIDAL, s.d.:
p.29).
Independente da situação em que o estudo ergonômico foi realizado, há uma
preocupação, segundo Iida (1993), com a qualidade ergonômica do produto. Ele deve ser de
fácil manuseio, adaptável antropometricamente, fornecer as informações de forma simples e
clara, ter compatibilidade de movimentos assim como fornecer todos os itens necessários para
o conforto e segurança do usuário.
Entretanto, para que os conhecimentos ergonômicos sejam incorporados aos produtos,
segundo Iida (1993), é fundamental a adoção de normas e padrões atualizados na elaboração
dos mesmos, e que elas sejam aceitas tanto pelos fabricantes como pelos usuários.
Segundo Moraes (1992, apud Moraes et al., 2004a), o atendimento aos critérios
ergonômicos possibilita melhorar não só o conforto, a satisfação e o bem-estar, mas também,
garantir a segurança, diminuir constrangimentos, encargos humanos e carga cognitiva,
psíquica e física, tanto para os operadores como para os usuários. Esses critérios podem,
ainda, otimizar o desempenho da tarefa, o rendimento no trabalho e a produtividade da
relação homem-máquina. Sendo assim, o uso da ergonomia para analisar a situação de
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trabalho, assim como intervir na melhoria da interação homem-máquina analisa não apenas
essa relação, mas também tudo que está envolvido durante o desenvolvimento da atividade a
partir da tecnologia.
Conforme Wisner (1987, apud Souza, 2004), a ergonomia é um conjunto de
conhecimentos científicos relativos ao homem e necessário ao desenvolvimento de
instrumentos, dispositivos ferramentas e máquinas, que ao serem utilizados ofereçam conforto
e segurança ao usuário final.
Existem casos em que o uso inapropriado de produtos, seja por um mau projeto ou
outras questões não identificadas, culmina em dores e ferimentos em seus usuários e pode
reduzir o desempenho causando insatisfação com a tarefa. Por isso, deve-se considerar não
apenas o uso considerado normal dos produtos, mas também as possíveis modificações
introduzidas pelo usuário para que elas não resultem em acidentes ou incidentes (IIDA, 1993).
Em decorrência disso, diversos pesquisadores buscaram abordar os riscos existentes
no uso de determinados produtos e,ou tecnologias, bem como o conhecimento dos aspectos
ergonômicos e de segurança no trabalho, para que os usuários, a partir da análise ergonômica
do produto, se sintam contemplados em suas necessidades no uso dos mesmos,
principalmente propondo medidas que visem melhorar a saúde e a segurança desses usuários,
assim como a interação homem-máquina, possibilitando a melhora no desempenho dos
produtos e satisfação do fabricante e do usuário com os mesmos.
Para Proença (1993, apud Santos, 2001), a AET permite categorizar as atividades dos
trabalhadores, assim como fazer uma narração dessas atividades, possibilitando, desta forma,
transformá-las. Franco (1995, apud Santos, 2001) acrescenta que a AET reduz a distância
entre a atividade prescrita e a atividade real do operador/usuário. Ou seja, pressupõe que a
atividade realizada pelo trabalhador é o elo entre ele e as formas próprias de organização que
o mesmo utiliza para estruturá-lo.
Segundo Bifano (s.d.), vários autores defendem que para a obtenção de interação com
melhor usabilidade, a avaliação das mesmas deve estar inserida no projeto e no
desenvolvimento do produto. E que a aplicação de conceitos ergonômicos ao projeto e
avaliação de interfaces busca privilegiar a lógica de utilização, ao invés da lógica de
funcionamento dos equipamentos.
2.3 O idoso como usuário final de produtos
O envelhecimento da população no Brasil, segundo Padovan (s.d.), vem se acentuando
nos últimos anos, podendo ser assim caracterizado, como um fenômeno novo. Este aumento
se deve, particularmente, ao avanço da medicina, à diminuição da mortalidade infantil e à
queda da taxa de natalidade, fatores estes que, segundo o IBGE (2000), comenta a autora,
contribuirão para que em 2020, a população de idosos no Brasil seja a sexta maior do planeta.
Esta realidade nos conduz, conforme aborda Ramos (s.d.), a refletir sobre o fato de que
a velhice significa o direito que cada ser humano tem de viver muito, mas com dignidade. E
para que isto seja possível, o Estado precisa criar e oferecer uma rede de serviços que venha
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lhes assegurar acesso à saúde, cultura, lazer, esporte, autonomia, alimentação, dignidade e
respeito. Tais direitos são garantidos aos idosos pelo artigo 3º do Estatuto do Idoso, Lei Nº
10741, de 01 de outubro de 2003.
Mas, além dos serviços, os idosos necessitam e usam produtos em seu cotidiano que
devem ser adequados às suas limitações. Segundo Gouvinhas et al. (2001), estas limitações
ocorrem ao longo da vida e podem ser físicas e,ou intelectuais.
Como limitações físicas pode-se citar de acordo com Moraes et al. (2004a), a perda da
audição e da visão, fragilidade dos ossos e da agilidade motora. Todos estes fatores
contribuem para que o idoso se sinta incapaz, gerando nele um sentimento de
constrangimento podendo até mesmo afetar sua auto-estima.
Moraes et al. (2004a) cita ainda que tais fatores também ajudam a constituir um
ambiente emocional negativo em que vive o idoso, criando neste uma sensação de
insegurança e gerando uma dependência em relação a terceiros. Por isso, é preciso antes de
lançar um produto no mercado, conhecer bem as características da população a que ele se
destina.
Considerando estes aspectos, Iida (1993), já discutia que a aplicação da ergonomia aos
projetos dos objetos e ambientes requer um conhecimento melhor dos indivíduos idosos. De
modo que, a adoção de produtos ergonômicos para o idoso sirva para a reabilitação e a
adaptação dos mesmos, tornando-os indivíduos mais satisfeitos, produtivos e com melhor
qualidade de vida.
Ressalta-se que, a ergonomia refere-se a todos os produtos, sejam de grande ou
pequeno porte, de tecnologia simples ou complexa, que esses sejam projetados com o
propósito de satisfazer a certas necessidades humanas (IIDA, 1993).
A concepção de um novo produto baseia-se conforme citado por Gouvinhas et al.
(2001), no design universal, que é um movimento mundial que considera todos os produtos,
sejam esses ambiente e meios de comunicação, entre outros aspectos do cotidiano das
pessoas, concebidos com o intuito de atender às necessidades de um maior número possível
de usuário, onde os idosos se incluem.
Os produtos são considerados como meios para que o homem possa executar
determinadas funções. Sendo assim, torna-se necessário, conforme coloca Canciglieri Junior
et al. (2007), a incorporação de conceitos de ergonomia e usabilidade no desenvolvimento de
produtos, e, sobretudo, em produtos customizados para grupos especiais de usuários, para que
esses possam melhorar a interface usuário-produto, de forma a favorecer a todas as funções
que lhe são necessárias.
Pois, de acordo com Bifano (2003), uma das dificuldades enfrentadas na concepção
dos produtos é conseguir um número de características que torne possível a diferentes
indivíduos compreender, operar e extrair o máximo de utilidade de um produto ao adquiri-lo.
A referida autora ainda acrescenta que, as pesquisas de interface e usabilidade comprovam
que a maneira como os produtos são concebidos não corresponde à forma como os indivíduos
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os utilizam. Pois, eles possuem mecanismos próprios de ação, e esta é situada, ou seja, ela
depende do contexto no qual se desenvolve a tarefa.
Segundo Bifano (s.d.), a incompreensão das informações de uso ou as dificuldades de
interação de alguns grupos de usuários com o produto não são percebidas pelos projetistas
como problemas relacionados à incapacidade ou limitações do produto e da equipe de
Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), mas sim da incapacidade cognitiva do usuário para
utilizar o produto. Moraes et al. (2004a), acrescenta que isso se deve ao fato dos engenheiros
não conceitualizarem as informações com a mesma linguagem dos usuários.
Para Glushko e Bianchi (1982, apud Moraes et al., 2004a), as empresas precisam
entender que os requisitos para uma boa interação começam com um planejamento de
conteúdo bem feito.
Na pesquisa de Moraes et al. (2004a), constatou-se que a maioria das dificuldades
encontradas pelos idosos ao utilizarem equipamentos domésticos é atribuída ao manuseio e ao
entendimento das funções do produto. Mas, segundo os autores, há uma tendência de quem
sofre acidente se culpar pelo mesmo, como por exemplo, ao errar no manuseio durante o uso
do equipamento doméstico.
Existem inúmeros fatores que podem influenciar negativamente um indivíduo ao usar
seu produto doméstico, por exemplo: dimensões mal planejadas, má configuração,
inconsistência das funções atribuídas ao mesmo, comandos mal posicionados ou projetados,
entre outros. Há ainda quem recorra aos manuais de instrução, no entanto, estes, podem
apresentar problemas de interpretação bem como de informações gerando baixa compreensão
das mesmas, compatibilidade entre a quantidade de informações, legibilidade, entre outros
pontos que poderiam ser evidenciados, considerando a análise dos manuais de instrução. Em
função disso, em qualquer momento durante o uso poderá haver a ocorrência de acidentes ou
incidentes, se o produto não proporcionar a segurança necessária aos usuários. O mesmo
ocorrerá se o manual de instrução não for bem claro. Dependendo do produto, um erro no
manuseio do mesmo pode custar à própria vida (MORAES et al., 2003).
3. Considerações Finais
Considerando os aspectos apresentados pela literatura consultada, pode-se inferir que,
os serviços e produtos atendem de forma precária a população de idosos, que requer atenção
especial devido às limitações acarretada pela idade. Apesar da aplicação de princípios
ergonômicos no desenvolvimento de produtos, como afirma Bifano et al. (s.d.), não ser
recente, no entanto, se limitou a aspectos normativos, tais como alturas de mesa,
características de assento, entre outros.
Logo, é necessário que os ergonomistas ofereçam condições para melhorar o cotidiano
desses usuários, adotando princípios ergonômicos no desenvolvimento de produtos com
maior usabilidade.
Os produtos precisam ser adaptados aos usuários, e não estes se adaptarem àqueles.
Ou seja, é importante considerar além dos aspectos que são necessários de ajuste do produto,
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aqueles que são peculiares às alterações que ocorrem naturalmente com os indivíduos em
função da idade.
Acredita-se que somente assim, o idoso enquanto consumidor terá sua satisfação
atendida, a qual contribuirá de forma significativa para o desenvolvimento de sua autonomia,
bem-estar e, conseqüentemente, melhora da sua auto-estima.
Para tanto se julga imprescindível realizar estudos e pesquisas enfocando a usabilidade
de produtos para a população idosa, visto que, são restritos os estudos sobre esse assunto
apesar da sua grande relevância, em função do crescente aumento da população idosa no país
e no mundo.
Diante do exposto, considera-se que a AET pode facilitar na concepção de produtos
mais ergonômicos, com maior usabilidade, visto que, esta metodologia permite observar o
usuário em seu ambiente de trabalho ou em suas atividades cotidianas, facilitando a interface
usuário/produto.
Referências
AGUIAR, Vera Coelho de. O desenvolvimento da usabilidade de interfaces em projetos: Um estudo de caso em
lavadora de roupa. São Carlos: 2004, 113p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção), Universidade
Federal de São Carlos, 2004.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ERGONOMIA (ABERGO). O que é ergonomia. Disponível em:
<http://www.abergo.org.br/oqueeergonomia.htm>. Acesso em: 26 mai. 2008.
BIFANO, Amélia Carla Sobrinho. Avaliação de produtos: uma reflexão metodológica. Viçosa, MG: 8p.
Departamento de Economia Doméstica, Universidade Federal de Viçosa.
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8 análise ergonômica do trabalho (aet) como ferramenta de auxílio