Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? LEITZKE, Volnei Wruch36 COTRIM, Décio37 RESUMO O presente trabalho objetiva verificar em estudo se a perspectiva orientada pelos autores se aplica ao caso da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas – a Coomafitt – a qual é formada exclusivamente por agricultores familiares tendo como linha de comercialização os mercados institucionais. Uma das características importantes desta organização é o forte componente da participação e constante mobilização interna na busca de resolver os problemas e buscar soluções. Nas analises realizadas pode-se afirmar que os resultados obtidos pela cooperativa são explicáveis pela teoria explicitadas pela POA. Palavras-Chave: Cooperativa. Agricultura Familiar. ABSTRACT Este trabajo tiene como objetivo verificar si el estudio de perspectiva guiada por los autores se aplica al caso de la Cooperativa de Agricultores Familiares Itatí tierra de arena y tres bifurcaciones - el Coomafitt - que está formado exclusivamente por los agricultores como de la comercialización en línea mercados institucionales. Una de las características importantes de esta organización es el fuerte elemento de participación y movilización interna constante para tratar de resolver los problemas y encontrar soluciones. En los análisis realizados se puede afirmar que los resultados obtenidos por la cooperativa son explicables por la teoría explicada por el POA. 36 37 Mestre em Agronomia; Graduação em Agronomia pela Universidade Federal de Pelotas (1999); Técnico em Agropécuaria pelo Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça (1994). Tem experiência na área de Agronomia, com ênfase em Ciência do Solo. Empregado da Ascar/Emater desde 2001. Engenheiro Agrônomo. Gerente de Recursos Humanos da EMATER/RS-ASCAR. Doutor em Desenvolvimento Rural PGDR-UFRGS. Professor Orientador do Curso de Especialização em Gestão de Cooperativas da ESCOOP. E-mail: [email protected]. 199 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? 1 INTRODUÇÃO Em 06 de setembro de 2006 foi criada a Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas - a Coomafitt -, com a missão de promover o desenvolvimento, por meio da organização dos agricultores familiares e da comercialização de produtos de qualidade com preços justos, para a melhoria da qualidade de vida com responsabilidade social e ambiental. E tendo como visão à organização da agricultura familiar comprometida com a melhoria da vida do produtor (associado) e da comunidade, a partir da comercialização de produtos de qualidade. Para cumprir com a sua missão, e transpor, assim, sua visão de futuro, a mesma está calcada em valores e princípios, os quais são: transparência, honestidade, cumplicidade, parceria, participação, respeito às pessoas e ao ambiente, crítica consequente, qualidade e gestão democrática. Sua sede fica localizada no município de Itati/RS, tendo sob sua área de abrangência, além deste, ainda os municípios de Terra de Areia e Três Forquilhas, todos localizados no litoral norte do Rio Grande do Sul. Atualmente, a cooperativa abrange 128 famílias de agricultores familiares, sendo que 57% são mulheres e dois terços da atual diretoria são constituídos por pessoas com idade inferior a trinta anos. O estatuto social da cooperativa estipula que, no mínimo, 90% dos seus sócios deverão, obrigatoriamente, estar enquadrados como beneficiários do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf), ou seja, possuem DAP – que é a Declaração de Aptidão ao Pronaf. Em termos comerciais, a cooperativa coloca a produção agrícola dos associados nos Programa de Aquisição de Alimentos (PAA); nos municípios de Capão da Canoa e Terra de Areia, e na modalidade de Doação Simultânea (DS), em Porto Alegre e em Caxias do Sul, sendo ambos operados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mas com a intermediação dos municípios. Ainda para o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, comercializa para presídios localizados nos municípios de Canoas, São Leopoldo e Encruzilhada do Sul. 200 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? No Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) atua nos municípios de Itati, Terra de Areia, Três Forquilhas, Capão da Canoa, Imbé, Tramandaí, Caxias do Sul, Porto Alegre, São Leopoldo, Sapiranga, Estância Velha e Montenegro, chegando a 47.000 beneficiários em PAA’s e 175.000 beneficiários em alimentação escolar, entregando em mais de 400 pontos distintos a cada 15 dias. Esse movimento resultou, no ano de 2012, em um faturamento de R$ 1,4 milhão, no conjunto de suas atividades. Para superar os números de público atendido e o faturamento, considerando ainda que a mesma atua somente com seis agroindústrias, as quais são de açúcar mascavo, de melado, de aipim descascado e de panificados, existe a necessidade do entendimento dos processos internos da cooperativa. 1.1 ESTRUTURAÇÃO DA COOPERATIVA O processo inicial de constituição da Cooperativa remonta ao ano de 2002, quando, por influência de um programa estatal chamado RS Rural, originou a organização de um grupo de oito agricultores que, dedicados à produção de mel, construíram uma unidade chamada “Casa do Mel”. O processo ali iniciado, com muitos debates e tentativas de compreensão dos sistemas de monitoramento sanitário levou o grupo a entender que a produção do mel, atendendo a todas as exigências sanitárias e fiscais para aquele reduzido grupo, tornar-se-ia algo inviável, mesmo possuindo equipamentos da mais alta tecnologia, por exemplo: uma operculadora, que é um equipamento capaz de elaborar cera alveolada com a precisão espacial definida pela biologia das abelhas. Portanto, mesmo constituindo um grupo coeso, com clareza de objetivos, com a noção de limites e dificuldades, houve a compreensão de que o mel e seus derivados não seriam suficientes para superar a dificuldade de comercialização e a sua inserção no mercado. Sendo assim, e considerando a característica de produção de cada um, este grupo de pioneiros buscou a agregação com outros grupos que produziam outros produtos, ou um conjunto de pessoas que tinham o mesmo interesse, e que buscavam algum espaço para iniciar a comercialização. Somam-se a esse fato dois episódios ocorridos nesta comunidade: o asfaltamento da Rota do Sol, no final de 2004, o qual propiciou a abertura de um 201 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? grande número de “tendas de comércio” na beira da RS – Rota do Sol – e a implementação do PAA, ainda que em fase inicial, no ano de 2005, somado ao acesso ao Pronaf Infraestrutura, que possibilitou aumentar o prédio e a aquisição de um veículo. Ambas as situações criaram condições para que esse grupo inicial abrisse espaço para outros grupos se inserirem no debate, ou seja: havia um grupo de produtores de mel que, pressionados pela legislação, tinham problemas em se arriscar no mercado. Ao mesmo tempo em que uma política estatal beneficiava a compra e a outra, em complementaridade, financiava a estrutura, o grupo entendeu que deveria se abrir a outros grupos, a fim de viabilizarem seu projeto econômico. Dessa compreensão e com o apoio da extensão rural oficial, o grupo identificou e buscou um caminho alternativo, o qual seria a construção de processos que adicionassem, além da produção do mel, outras formas ou sistemas de produção locais que pudessem utilizar cada uma das potencialidades, transformando-as em avanços do processo coletivo. Do debate coletivo e do entendimento de que um produto em específico não seria o encaminhamento estratégico possível, esse grupo inicial, considerando já possuir área, prédios e algum conhecimento, se abriu a um processo mais amplo. Ou seja, abriu a pequena associação aos demais grupos e construíram um processo que levou à construção de uma cooperativa, considerando, assim, os diferentes grupos e interesses possíveis existentes. Este processo de entendimento se iniciou em 2004 e teve seu ápice no ano de 2006, com a criação da Comafitt. Portanto, quando da constituição da Cooperativa, estavam claros e delimitados alguns espaços que se organizaram, não necessariamente por ordem de importância ou prioridade, mas exemplificando: Grupo 1: Mel; Grupo 2: Açúcar Mascavo; Grupo 3: Panificados; Grupo 4: Olericultura; Grupo 5: Citros e demais frutas temperadas; Grupo 6: Banana; Grupo 7: Frutas tropicais (abacaxi e maracujá); Grupo 8: Agroindústrias e Grupo 9: demais atividades. O grupo 1, do mel, por ser o grupo pioneiro, apresentava, inicialmente, mais clareza de suas limitações, dificuldades e compreensão de como se inserir no mercado, até porque, sob a ótica da legislação, entendia a sua inviabilidade enquanto grupo. O grupo 2, do açúcar mascavo, apesar de possuir uma produção tradicional da 202 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? região, não detinha o reconhecimento perante a legislação sanitária, fiscal e ambiental para o exercício da atividade. No grupo 3, dos panificados, havia uma série de problemas de origem do produto, limitações fiscais e de estrutura que impossibilitavam a sua inserção no mercado. O grupo 4, da olericultura, por apresentar produtos de consumo in natura, como a alface, cenoura, beterraba, milho verde, abóbora, dentre outros, não apresentava, num primeiro momento, nenhum empecilho além da escala de produção e quantidades. O grupo 5, de citros e demais frutas temperadas, possuía volume, quantidade e época definida, apresentava-se como um grupo estável. O grupo 6, da banana, por ser um fruto climatérico e necessitar de uma série de procedimentos anteriores ao consumo e, também, por assumir ao longo da constituição da cooperativa um peso considerável, exploraremos em um capítulo em separado. O grupo 7, das frutas tropicais, como abacaxi e maracujá. Notadamente o abacaxi, por ser produzido nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, e assim sofrer uma forte concorrência na época do turismo de praia, bem como também ser produzido em épocas em que as compras institucionais sofrem uma drástica redução, sofreu ao longo dos anos da cooperativa uma relevante diminuição de sua importância. O maracujá, por sua vez, tem sua expansão limitada à capacidade do público beneficiário de entender sua importância. O grupo 8, dos agroindustrializados, têm, como destaque, os produtos que se originam da mandioca, como os farináceos e o aipim congelado, sendo que, tradicionalmente, o litoral norte era conhecido como produtor de mandioca e farinha, porém esse espaço foi sendo perdido ao longo dos anos. A produção avançou com o produto descascado, congelado e licenciado pelos órgãos de saúde, mesmo que necessitando um volume relativamente maior de mão de obra. Em relação ao grupo 9, o mesmo engloba produtos de escala ou consumo reduzido, porém importantes na diversificação e de grande relevância para determinadas famílias, como a produção de temperos (salsa, cebolinha, alho, etc.), os quais também auxiliam na diversificação de produtos oferecidos pela cooperativa, mas de valor agregado baixo. 203 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? 1.2 CONTEXTUALIZAÇÃO GERAL DO SISTEMA DE PRODUÇÃO DA BANANA, O GRUPO SEIS A banana é um fruto climatérico, ou seja, o fruto é colhido verde e necessita passar por fases ou processos de amadurecimento, nos quais se submete a fruta a gazes de aceleração da maturação em câmaras herméticas, com controle de temperatura e volume de gás etileno – responsável pelo amadurecimento. Este procedimento necessita, em média, de sete dias, entre a colheita, o amadurecimento e estar pronta para a comercialização. É o fruto de maior produção da Coomafitt. Do potencial de produção dos seus 128 membros associados, cerca de 60% produzem essa fruta, que atinge um total de 900 mil toneladas produzidas, sendo que a cooperativa comercializou, em 2012, algo em torno de 400 mil toneladas. A banana, de acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Produtos de Origem Vegetal, apresenta classificação de comercialização com parâmetros definidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que, de forma universal, define a classificação dos produtos de origem vegetal e animal para o país todo. Porém, a cooperativa, bem como seus associados, está localizada em área marginal, em termos de condições climáticas aos sistemas tradicionais de produção, e, considerando os programas como o PNAE e PAA, que beneficiam produções locais, mas que também forçaram a comercialização em unidade de peso e não por volume. Deste modo, a cooperativa se viu obrigada a desenvolver processos internos de classificação e normatização de sua produção. Assim como uma logística de climatização, embalagem, classificação e distribuição da produção. E considerando, ainda, que dentre os sócios produtores de banana, assim como em toda a região, predominava uma disputa acirrada em relação ao mercado e com os intermediários, principalmente em relação à classificação e ao peso das caixas de plástico para o transporte dos produtos, uma vez que os intermediários utilizavam como padrão as caixas de vinte quilos, sobretaxando estas em até quatro quilos por caixa com a justificativa de que este era o valor quantitativo perdido no próprio processo de climatização, ou seja, além de serem penalizados na classificação, os agricultores eram também lesados no peso por unidade. 204 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? 1.3 O PROCESSO PARTICULAR DE CONSTRUÇÃO DO GRUPO DA BANANA NA COOMAFITT Para a sequência do entendimento do processo se faz necessário outro corte temporal. Quando da criação da cooperativa, os cooperados construíram um “ponto” de comercialização direta ao consumidor junto à “Rota do Sol”. Este “ponto” manteve-se em atividade de outubro de 2007 até março de 2008, porém, com extrema dificuldade de operacionalização e funcionamento, gerando inclusive perdas financeiras e uma série de conflitos internos advindos não só da falta de organização interna, mas também da pressão do mercado e dos intermediários sobre os agricultores. Esse processo de tentativa de comercialização foi desativado na Assembleia Ordinária de março de 2008, quando ficou claro que, ou a cooperativa buscava outras formar de se organizar internamente dividindo os grupos por produtos com suas diferentes limitações, ou se tornariam inviáveis frente ao mercado tradicional e o institucional que se avizinhava. Ainda é oportuno ressaltar aqui duas questões importantes que naquele momento balizavam a ação da cooperativa. Primeiro, este período de março de 2008 até dezembro do mesmo ano, que foi para o grupo um grande laboratório, porque se iniciava, neste período, efetivamente, a implantação tanto do PAA quanto do PNAE, embora ainda em taxas reduzidas, fato que criou a necessidade de “um tempo” para que ocorresse um processo todo de articulação interna. Segundo, existe uma questão fundamental nestes programas institucionais de compra de alimentos, porque na hora que um determinando grupo ou cooperativa assume um compromisso de comercialização junto a outra entidade – Prefeituras Municipais, Conab, Escolas Estaduais e Presídios –, estes, basicamente, além de assumir a entrega dos mesmos, também definem uma calendarização em termos de quantidade e qualidade para serem entregues ao longo da vigência do contrato, os quais variam de mensais, bimensais, semestrais ou anuais. Ou seja, existe uma pactuação entre fornecedores e compradores sobre a qualidade do produto que se está negociando. Além disso, ainda que os agricultores sócios consigam manter a qualidade de seus produtos, mesmo tendo uma limitação de produção, pois estão localizados em 205 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? uma região que não se apresenta claramente como de clima tropical e/ou temperado, essa produção não alcança – como no caso da banana – as especificações técnicas válidas para o território nacional, ou seja, especificações como tamanho, comprimento da fruta, cor da casca, formato, entre outros. Criou-se, assim, via o artifício da amostra, condições de comprometimento de qualidade e volume do produto a ser entregue. Este artifício, somado ao “tempo” que a cooperativa possuía, levou a que os grupos conseguissem se articular internamente e encaminhar soluções negociadas para a superação dos problemas. No caso específico do grupo da banana, por exemplo, foi realizada uma série de atividades, as quais tentavam entender seu próprio sistema de produção, assim como o produto originário desta. Dentre as atividades realizadas, pode-se citar a aplicação de ferramentas de diagnóstico participativo, como a leitura de paisagem, a qual explicou por que a produção de banana de Terra de Areia apresentava-se em melhores condições que a dos outros municípios; a montagem de unidades de observação para determinar, naquelas condições, a perda de peso e volume, em face ao processo de climatização; a criação de um sistema coletivo próprio de classificação da banana, ou seja, estimulados pelo processo de “amostra”, foi criado, aos moldes da classificação oficial, um modelo que classifica a produção da cooperativa, a partir da produção individual. A cooperativa conseguiu obter a informação de qual volume pode comercializar e em quais tipos de classificação, assim como a introdução de algumas tecnologias simples, como o manejo de desbaste, a utilização de embalagens plásticas no ensaque do cacho, melhorando o desenvolvimento da fruta, a readequação da densidade e a introdução de outras variedades de cultivares. Estes processos de mediação, negociação e adequação ou criação de outros modelos, foram elaborados e construídos a partir de uma série de atividades, como encontros, reuniões, debates, visitas técnicas e excursões. Tais processos têm sido mantidos desde a origem até a presente data, e permitiram alterações técnicas como a adoção de classificação, peso e preço para o mercado regional, ou seja, não mais somente aos sócios da cooperativa, mas, sim, tornam-se referência de preços e custos que extrapolam a ação interna da cooperativa. Assim, além da alteração no tipo de caixa, que passou de 20 kg para 10 kg, e do 206 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? ganho financeiro, o processo também abriu caminho para que, hoje, os agricultores possam, depois da colheita do fruto e ainda na propriedade, realizar a classificação, colocar as frutas nas caixas e preencher o bloco do produtor. No modelo convencional, era o intermediário que classificava, embalava e pesava o produto. Na atualidade, os transportadores da cooperativa somente confirmam ou atestam a conformidade do processo. Ainda em relação ao preço da banana, este é definido coletivamente em reuniões periódicas e de validade semestral, considerando todo o processo que vai desde a produção até a entrega ao consumidor final. Esse debate que organiza a produção, define as estratégias de classificação, volume, preços, logística de entrega e comercialização, a qual apresenta um elevado grau de complexidade e a necessidade, em vários momentos, de investimentos, como a aquisição de caixas para o acondicionamento e o transporte da fruta, bem como de câmara de climatização, demonstra a clareza do grupo em sua organização. Cabe lembrar que a cooperativa se constitui via vários outros grupos de interesse por produto, os quais também apresentam organização aproximada ao exemplo citado. Esses se relacionam, necessariamente, entre si, a fim de que o interesse de determinado grupo não se sobreponha ao do outro. A Coomafitt se posiciona nas relações externas como um grupo único, sendo, na verdade, os resultados dos acordos e embates internos que são constantemente mediados e dialogados entre os indivíduos e seus grupos. 2 REFERENCIAL TEÓRICO As agriculturas tradicionais possuem alto grau de diversidade, tanto do ponto de vista ecológico como biológico-evolutivo, sendo representado pela estrutura policultural do sistema de produção, a diversidade de espécies utilizadas e a diversidade genética de determinado lugar. (BUTTEL, 1995). Ainda segundo este mesmo autor, existem mecanismos de configuração social dessa diversidade através da seleção ativa e direcionada realizada pelo homem para equilibrar seus objetivos, como segurança de produção, produção de alimentos, diminuição dos riscos e redução da penosidade do trabalho. Para além da agricultura, no seu estrito senso como produção de alimentos e 207 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? fibras, também existem conhecimentos e estratégias desenvolvidas entre os agricultores, os arranjos comunitários que propiciam a organização do mercado e das várias funções sociais, desde as religiosas, até as de gestão da coletividade. Esse processo de coprodução se caracteriza como o encontro em curso de interações e da transformação entre o que é sociedade e o que é natureza. (COTRIM, 2013). Cotrim (2013) ainda salienta que o acúmulo de conhecimento e o próprio processo de produção do conhecimento local estão ligados aos tempos naturais e perpassam um conjunto de regras e costumes aceitos socialmente, sendo que esses diálogos dentro dos espaços comunitários utilizam elementos da comunicação oral e estão cercados de regras e tradições locais. Os sistemas biológicos têm potencialidades agrícolas que são captadas pelos agricultores em um procedimento de observação e aprendizado, gerando conhecimento seletivo e cultural. Nesse processo de coevolução dos sistemas sociais e culturais, existe uma dependência estrutural entre eles, ou seja, a evolução da cultura do homem pode ser explicada pela relação ambiente-cultura e vice-versa. (NORGAARD, 1989). Sendo assim, é possível a percepção de que cada agricultor é um ator que elabora e reelabora suas experiências e as dos outros na construção de suas práticas e de seus projetos individuais. Essa noção de agricultor se afasta da percepção de um sujeito simples, replicador de técnicas agrícolas para a produção de alimentos. (LONG, 2001; PLOEG, 2003). Ainda segundo Buttel (1995), citado por Cotrim (2013), o conhecimento construído socialmente sobre o sistema de produção é acumulado e transmitido através do estabelecimento de procedimentos e critérios, para ajustes por meio da experimentação e seleção. A troca entre os atores desse conhecimento é conduzida por uma rede de confiança e de compadrio, prioritariamente por um sistema de comunicação oral, em uma relação direta entre os agricultores nas redes sociotécnicas dentro das comunidades. Essa transferência de saberes ocorre na área local formada por diversos espaços comunitários, como os salões das localidades, igrejas, casas paroquiais, entre outros, ou seja, os atores se manifestam, trocam, debatem e se afirmam em espaços que podem ser chamados de arenas. 208 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? Se, portanto, um indivíduo é considerado um ator e este se expressa em diferentes espaços chamados arenas, é importante buscar melhorar a compreensão do que é o ator e suas relações sociais. Para tanto, uma das possibilidades teóricas que busca estudar isto é a Perspectiva Orientada pelo Autor (POA). Dentro da POA, algumas conceituações são importantes para a sua compreensão, sendo que os conceitos de ator e de arena – que já foram acima explicitados – são fundamentais, porém, como se dá a manifestação deste indivíduo que enquanto ator se expressa dentro das arenas? Isto porque se o ator é algo não passivo, como acima foi afirmado, este tem uma capacidade de agência, ou seja, conforme Giddens (1984), a agência atribui ao ator individual a capacidade de processar a experiência social e de delinear formas de enfrentar a vida, mesmo sob as mais extremas formas de coerção. Ainda seguindo o mesmo raciocínio, os atores sociais – dentro dos limites da informação, da incerteza e de outras restrições (físicas, normativas ou políticoeconômicas) existentes – são “detentores de conhecimento” e “capazes”. Eles procuram resolver problemas, aprender como intervir no fluxo de eventos sociais ao seu entorno e monitorar continuamente suas próprias ações, observando como os outros reagem ao seu comportamento e percebendo as várias circunstâncias inesperadas (GIDDENS, 1984). Segundo Schneider (2011), uma vantagem da abordagem centrada nos atores é que ela parte de um interesse em explicar respostas diferenciadas a circunstâncias estruturais similares, mesmo que as condições pareçam relativamente homogêneas. Portanto, presume-se que os padrões diferenciais que emergem são, em parte, criados pelos próprios atores. Os atores sociais não são vistos meramente como categorias sociais vazias (baseadas na classe ou em outros critérios de classificação) ou recipientes passivos de intervenção, mas, sim, como participantes ativos que processam informações e utilizam estratégias nas suas relações com vários atores locais, assim como com instituições e pessoas externas. Os diferentes padrões de organização social que emergem resultam das interações, negociações e lutas sociais que ocorrem entre os diversos tipos de atores. Os últimos incluem não só as lutas presentes em determinados encontros face a face, mas também as ausentes, mas que, não obstante, influenciam a situação, afetando ações e resultados, ou seja, os atores sociais têm capacidade de se manifestarem em arenas sociais através da sua 209 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? capacidade de atuarem enquanto agência. (LONG, 2001; PLOEG, 2003; SCHEIDER, 2011). Em termos gerais, Giddens (1984) destaca que a agência não diz respeito às intenções que as pessoas têm para fazer determinadas coisas – a vida social é cheia de diferentes tipos de consequências involuntárias com ramificações variáveis –, “mas primeiramente à sua capacidade de fazer essas coisas”... A ação depende da capacidade do indivíduo de “causar uma mudança” em relação a um estado de coisas ou curso de “eventos pré-existente”. Isso implica que todos os atores (agentes) exercem um determinado tipo de poder. Para Giddens (1985), a agência requer capacidades de organização e não é simplesmente o resultado de certas capacidades cognitivas e poderes persuasivos. Por conseguinte, a agência efetiva requer a geração/manipulação estratégica de uma rede de relações sociais e a canalização de itens específicos. Clegg (1989) coloca essa ideia da seguinte forma: para alcançar a agência estratégica é necessário disciplinar o entendimento de outras agências. Reconhecendo que os atores são o centro das decisões e das ações, Hindess (1986) desenvolve ainda mais esta discussão, salientando que a tomada de decisões implica o uso implícito ou explícito de “meios discursivos” na formulação de objetivos e na apresentação dos argumentos para as decisões tomadas. Esses meios ou tipos de discurso variam e não são simplesmente características inerentes aos próprios atores: eles formam uma parte do estoque diferenciado de conhecimento e de recursos à disposição dos atores de diferentes tipos. Uma vez que a vida social nunca é tão uniforme ao meio em que cada ator está envolvido. Cotrim (2013) afirma que do arcabouço teórico da perspectiva orientado pelos autores destaca-se a noção de projetos dos atores para melhor compreensão dos processos de desenvolvimento. Os atores, a partir das regras e costumes ligados à cultura do grupo social, constituem em arena específica, ou seja, o espaço de interface entre os atores, os seus projetos formados pelas articulações das práticas sociais. Cada projeto individual é articulado com projetos, interesses e perspectivas de outros atores dentro de um complexo de arenas interlaçadas. O projeto social é o conjunto socialmente negociado das escolhas dos projetos individuais dos atores gerando naturalmente uma ampla diversidade dentro do grupo. (LONG, 2001). Assim, ainda segundo o mesmo autor, os projetos dos atores entram em luta ou 210 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? disputa, configurando a noção de articulação de projetos. Nessa ação, na interface entre os atores, lança-se mão de estratégias, de recursos, de um repertório de discursos e modos de argumentação, no sentido de busca de hegemonia. 3 REFERENCIAL METODOLÓGICO A coleta de informações partiu de entrevistas semiestruturadas com os associados, diretoria atual e ex-diretores, assim como técnicos da extensão rural oficial, além de participação em assembleias e reuniões. Também foram analisadas as atas, tanto das Assembleias Ordinárias e Extraordinárias como dos Conselhos de Administração e Fiscais e dos diferentes grupos da Cooperativa. Partiu-se, também, da análise e acompanhamento da Elaboração do Planejamento Estratégico e dos balancetes demonstrativos anuais, assim como da experiência do autor em vivenciar parte importante deste processo. 4 DESENVOLVIMENTO E CONCLUSÃO Quando se compara os processos desenvolvidos pela Coomafitt ao longo dos anos com os pressupostos da Perspectiva Orientada pelo Autor, verifica-se grande similaridade entre estes processos, ou seja, considerando que os agricultores familiares da mesma possuem alto grau de diversidade, tanto do ponto de vista de produção quanto de estrutura e capacidade de produção, a qual está de acordo com o que Butell (1995) afirma. Da mesma forma, existem conhecimentos e estratégias desenvolvidas pelos agricultores que visam à organização do mercado e da gestão via coletividade, o que se aproxima das ideias de Cotrim (2013). Ainda conforme Long (2001) e Ploeg (2003), é possível se entender claramente a percepção dos agricultores, de que estes se comportam e se enxergam como atores que elaboram e reelaboram suas experiências e as dos outros na construção de suas práticas e de seus projetos individuais, fugindo completamente da noção de ser o agricultor um sujeito simples, replicador de técnicas agrícolas para a produção de alimentos. Ainda analisando e comparando o grupo da banana na Coomafitt, verifica-se que, sim, existem espaços de debate e acúmulo de experimentação, validação e 211 Capítulo X - Estudo de Caso: COOMAFITT – Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas: um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores? aceite de práticas que foram sendo desenvolvidas e utilizadas pelos agricultores, ou seja, os atores agricultores se manifestam, trocam, debatem e se afirmam em diferentes espaços, que foram sendo construídos e mantidos dentro da organização, independente do nível – se no grupo ou entre os grupos da mesma –, através da constituição e da manutenção de diferentes arenas. Ao mesmo tempo em que estes atores dentro da cooperativa tiveram espaço para o debate e a formulação, verifica-se claramente a sua capacidade de agência, tanto dentro dos grupos quanto fora, haja vista as relações e inter-relações entre os mesmos, mesmo com as incertezas externas. Estes agricultores conseguiram resolver seus problemas, aprenderam a intervir no fluxo de eventos sociais ao seu entorno e monitoraram continuamente suas próprias ações, observando como os outros reagem ao seu comportamento e percebendo as várias circunstâncias inesperadas, de acordo com o que Giddens (1984) defende. Os resultados obtidos pela cooperativa demonstram claramente que os atores, a partir das regras e costumes ligados à cultura do grupo social, constituíram-se em arenas específicas, onde seus projetos formados pelas articulações das práticas sociais, ou seja, pela interface entre os atores, tiveram a habilidade de, mesmo considerando seus projetos individuais, se articular com projetos, interesses e perspectivas de outros atores dentro de um complexo de arenas interlaçadas, bem como defende Long (2001). Sendo assim, construíram um projeto social negociado partir dos projetos individuais dos atores. Portanto, mesmo que preliminarmente, em resposta ao questionamento inicial do título do artigo em que se questionava se o caso em questão, sobre os resultados da Coomafitt, era um acaso ou a expressão da perspectiva orientada pelos atores, pode-se afirmar – considerando as premissas da POA – que esta alcança sólidos resultados e que estes são explicáveis pela referida perspectiva. 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