LITERATURA E IMAGENS:
A CRIANÇA E O PRAZER DE LER
QUADROS, Deisily de. – PMC
[email protected]
ROSA, Viviane Maria Cristine Dias – PMC
[email protected]
MENINO, Viviane Vieira Rodrigues dos Santos – PMC
[email protected]
Eixo Temático: Didática: Teorias, Metodologias e Práticas
Agência Financiadora: Não contou com financiamento
Resumo
A literatura é importante para a formação de qualquer criança. É no contato com essa arte que
a criança aprende a ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de
descoberta e de compreensão do mundo. Portanto, o livro ganha vida quando aberto pelo
leitor, que adentra o mundo literário pelo caminho do afeto. É no contato com a literatura que
se suscita o imaginário, a curiosidade, a brincadeira, as idéias. E é por meio da literatura que
se pode vivenciar emoções importantes, como a tristeza, a raiva, o medo, a alegria, a
tranqüilidade e tantas outras mais. A leitura de imagens literárias é capaz de provocar todas
estas emoções. É uma brincadeira com cores e formas e traz à criança a dinamicidade do
visual, ao mesmo tempo corroborando e confrontando com a sociedade de hoje, na qual a
maior parte das informações é apreendida pelo sentido da visão. No entanto, quando se fala
em leitura, o que primeiro costuma vir à mente é a compreensão das palavras, mais ainda se
tratando de crianças em idade escolar. Porém, como bem alerta Paulo Freire (2003), a leitura é
bem mais que decodificar palavras: é ler o mundo. E, neste mundo moderno, repleto de
mensagens imagéticas, a leitura também envolve ler imagens. É com o intuito de verificar
como as crianças da faixa etária de 9 a 11 anos se relacionam com a leitura de imagens na
literatura e de propor um trabalho com esse tipo de literatura que este projeto será
desenvolvido, apresentando argumentações teóricas e atividades que serão desenvolvidas com
as crianças, na tentativa de formar leitores, provocar o imaginário infantil e demonstrar que a
imagem, enquanto literatura, deve ter um valor como arte, desvinculando da literatura, a visão
utilitarista .
Palavras-chave: Literatura. Leitura de imagem. Literatura na escola.
Introdução
É preciso ler isto, não com os olhos,
mas com a memória e a imaginação.
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Machado de Assis
A literatura infantil envolve, simultaneamente, a razão e a emoção. Sua natureza foge
ao padrão característico da maioria dos textos em circulação social. Histórias que seduzem e
despertam o imaginário de crianças, a literatura infantil é pensamento e arte, e a leitura é a
produção de sentidos e afetividade resultante do encontro do texto literário com a criança
leitora.
Cabe à escola criar esse encontro. E aceitar o desafio de despertar no aluno o gosto
pelo texto literário é o primeiro passo a ser dado pelo professor na formação de leitores.
Neste projeto, trabalharemos com o texto imagético na literatura, propiciando o
encontro deste com a criança leitora.
Imagem, literatura e sociedade
A imagem é uma linguagem que está presente na sociedade há muito tempo. Desde as
paredes das cavernas até os outdoors, as imagens estão arraigadas à sociedade. E, atualmente,
mais do que nunca vivemos entre uma multiplicidade de imagens.
Artísticas, comunicativas, apelativas, comerciais, conscientes, inconscientes, as
imagens estão presentes nos mais variados locais e objetos: quadros, revistas, roupas, livros,
ruas e até mesmo em chinelos.
A história da imagem segue seu rumo, acompanhando os novos valores adotados pelo
tempo histórico e social em que vivemos. Somos, sem dúvida, consumidores passivos e ativos
de imagens.
Segundo Platão em La Republique, imagens são “as sombras, depois os reflexos que
vemos nas águas ou na superfície de corpos opacos, polidos e brilhantes e todas as
representações do gênero”. (PLATÃO apud JOLY, 1996, p.13-14). Ou seja, uma imagem é
uma representação de um ser, um objeto, uma paisagem, enfim, de algo que pertence ao real.
E esta representação é uma leitura que se faz da realidade, daí imagens tão diferentes umas
das outras, mesmo quando se trata de um mesmo objeto.
A imagem visual é uma forma de comunicação, é uma linguagem tal como a escrita, o
cinema, a televisão. Essa linguagem presente hoje de forma tão intensa na contemporaneidade
vem de tempos muito antigos. No paleolítico, o homem já manifestava suas mensagens
através de desenhos realizados nas pedras, quando ainda nem mesmo a escrita existia.
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Representações religiosas e mundanas, afrescos, pinturas, iluminuras, ilustrações,
desenhos, gravuras, esculturas, filmes, fotografias, outdoors, grafites. A linguagem imagética
caminhou com a humanidade, sofreu mudanças, ganhou novos suportes; porém ainda
continua sendo uma forma de representação do real, obedecendo a certas normas e a
diferentes modos de ver o mundo.
A vida nos oferece, todos os dias, uma variedade de cores, formas, movimentos e
significados. O nosso olhar curioso observa os detalhes, as diferenças, as mudanças, o
permanente, o antigo, o novo dando-lhes significado pessoal. O desenvolvimento dessa
prática educa o olhar, estimulando-o a ver para além da aparência e, assim, perceber a
essência das coisas e dos fatos. O viver se torna, ao mesmo tempo, atraente e intrigante. Com
o olhar atento, a busca sobre a compreensão da realidade ganha mais elementos de análise,
enriquecendo o processo de integração social.
Nesta permanente busca de registrar a vida, se sobressaem aqueles que o fazem de
uma forma própria, original, diferente de outros: os artistas. Essa contribuição criadora dos
artistas é que possibilita aquela experiência perturbadora, emocionante, que nos faz despertar
para o que não estava sendo percebido antes. Desde o início da história da humanidade, o
artista, em suas mais variadas maneiras de ser e de se expressar, tem sido o catalizador e o
incentivador de ações e atitudes. O artista nem sempre chega a ter conhecimento do impacto
que suas obras causam nas pessoas. Mas, certamente, são milhares aqueles que depois de
verem uma obra de arte, ou depois de lerem um livro, repensam o rumo de suas vidas.
É o que o livro de imagens faz: desperta emoções. A Idade Média, segundo Ângela
Lago descreve no curso “O livro de imagem” ministrado no “III Congresso da Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil”, é especialmente importante na história do livro de
imagens. Isso porque a
qualidade plástica dos laboriosos manuscritos medievais continua a influenciar
alguns ilustradores contemporâneos, como parece ter influenciado também o
principal movimento de artes gráficas dos finais do século XIX: Arts and Crafts.
(http://www.angela-lago.com.br/aulaImag.html)
As imagens medievais eram utilizadas enquanto processo narrativo, recurso esse
utilizado ainda hoje nos trabalhos de ilustradores de livros contemporâneos, talvez pelas
ilustrações serem adequadas à expressão de uma imagem que se quer narrativa, diz ainda
10401
Ângela Lago. A literatura, enquanto uma forma expressiva em imagens visuais, cria imagens
mentais no leitor.
O "livro de imagem" é aquele que conta histórias sem a existência de palavras. Eles
são chamados também de "livros sem texto" ou "livro mudo". O primeiro livro desse gênero,
publicado no Brasil, foi Ida e Volta de Juarez Machado em 1976 pela Editora Primor. Na
atualidade ele está sendo publicado pela Editora Agir.
Nos últimos anos, as imagens que pretendem encantar ganham as páginas do gênero
literário infantil dos livros de imagem sem texto. E esses livros ganham, por sua
vez, “cada vez mais espaço na produção brasileira, gerando um ‘boom’ nas
produções dessa natureza”. (Nakagawa; Reily, 2001, p.09).
Por ser um importante instrumento para desenvolver um leitor-intérprete competente,
o livro de imagem é de extrema importância na formação da criança, exercendo um forte
papel como mediador na formação da linguagem e na formação do leitor.
Ao ler o livro sem texto, a criança descobre sua própria voz e desenvolve o senso do
que é lógico e possível na história, transformando-se em uma narradora e
desenvolvendo um processo de significação por meio da linguagem visual, gerando
múltiplas interpretações e estimulando a imaginação. (Nakagawa; Reily, 2001,
p.12).
Apesar de o caráter do desejo e do gesto de registrar imagens poder ser espontâneo, a
expressão pictórica e a consciência estética podem ser e devem ser educadas. Não em sua
forma autoritária, mas democrática, isto é, proporcionando a todos as oportunidades de
contato com a variedade e a qualidade dos bens culturais e artísticos.
Durante muito tempo, o trabalho com o texto escrito se restringiu aos conteúdos
formais e as imagens foram vistas apenas como complemento ou adorno, mas hoje já
sentimos uma mudança. Luís Camargo, autor, ilustrador e pesquisador de literatura infantil,
lembra que "tem gente que faz cara feia para livro de poucas páginas, com muitas ilustrações,
com pouco texto" e questiona: "Por que essa má vontade? As letras impressas no papel
também têm um desenho - não são pensamentos para serem captados telepaticamente...".
(CAMARGO, 1995, p.72).
Esta diferença valorativa entre imagem e texto escrito, no currículo da escola
fundamental, reflete a frágil formação cultural nos cursos de formação de professores. Esta é
uma lacuna grave entre nós, principalmente por sermos um país sem tradição de visitar
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museus e exposições. As imagens e os textos nas escolas, seja nos livros ou nas paredes,
precisam contribuir mais para desenvolver a observação das crianças.
O livro, como alimento fértil e essencial para a imaginação, para o pensamento, para a
criação, deve ser um objeto cultural de qualidade total, seja no aspecto textual, literário ou
informativo, seja no que se refere às imagens, ilustrações e fotos. Fica, portanto, o convite ao
leitor: abrir um livro e adentrar um mundo inusitado a ser descoberto.
A literatura e o leitor
O texto de literatura invoca o caráter imaginário ao ser lido. O conhecimento da
literatura suscita experiências culturais e históricas, leva o leitor a se reconhecer enquanto
indivíduo e ser social, abre um caminho de sonhos e possibilidades. “A literatura, em sua
natureza representativa e mimética, transforma em linguagem essa necessidade humana de
construção da singularidade” (COSTA, 2007, p.99), aproximando minimamente o leitor
daquilo que ele acredita ser sua identidade.
Enquanto criação da linguagem, a literatura tem uma característica social. É por meio
da linguagem que se dá a interação do autor e do leitor. Tem também uma característica
humana, já que trata de assuntos e temas que têm relação com a vida, como sentimentos,
temores, desejos e afetos. Por esse motivo, desperta sentimentos no leitor, estimulando o
desenvolvimento do pensamento, a formação dos valores ideológicos e alimentando o
imaginário.
A literatura evoca o imaginário do leitor porque cria uma outra realidade, que
apresenta o que se acredita ser o real. É exatamente essa característica que dá ao texto literário
o caráter de fantasia e de imaginação:
O uso da fantasia na literatura infantil é mais um recurso de adequação do texto ao
leitor (...) já que a criança compreende a vida pelo viés do imaginário. A partir da
transfiguração da realidade pela imaginação, o livro infantil põe a criança em
contato com o mundo e com todos os seus desdobramentos. (AGUIAR, 2001, p.83).
No momento em que o leitor depara-se com um texto literário, não é apenas a
imaginação que é acionada: recursos cognitivos como a atenção, a memória, o esforço mental,
a vontade, a disponibilidade, o estabelecimento de relações, a seleção e as inferências também
são. E são essas inferências que contribuirão para a atribuição de um significado ao texto.
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Desse modo, é o leitor que irá colaborar para a atribuição de um sentido ao texto. O
entendimento deste se dará a partir do repertório de experiências vividas, ouvidas, imaginadas
ou lidas que o leitor possui. Assim, é o leitor que dá vida ao livro, iluminando-o com uma
nova interpretação.
O leitor, portanto, é um dos componentes que constitui a literatura, juntamente com o
autor e a obra. É no final da década de 60, com a teoria da recepção, que o papel do leitor
ganha importância e que a sintonia entre os três componentes da literatura passa a ser
considerada: “o autor, ao construir o texto de imaginação em linguagem criativa, propõe ao
leitor um desafio e um contrato”. (Grifo nosso). (COSTA, 2007, p. 65).
A Estética da Recepção, teoria da análise literária que se concentra na forma como um
texto é recebido pelo leitor, proporcionou uma mudança de orientação nas análises da
literatura, que passam a não mais se concentrar com exclusividade na mensagem do texto,
mas nos efeitos deste e sua recepção. Em 1967, Hans Robert Jauss faz um pronunciamento
titulado “A história da literatura como provocação”, na Universidade de Constança, sobre
seus estudos acerca da recepção de uma obra. O teórico encara o texto como algo que muda
com as leituras, as quais seriam um diálogo do leitor com a obra. Para Jauss, o leitor lê um
texto em função de modelos resultantes da sua experiência da literatura, de seu “horizonte de
expectativas”, e aceita ou não que determinada obra infrinja o seu paradigma de texto. Essa
relação entre literatura e leitor possui implicações estéticas e literárias. Estética porque o leitor
avalia o valor estético de uma obra pela comparação com outras obras que já conhece. É o que
Jauss denomina repertório. E histórica porque a compreensão da obra pelos primeiros leitores
tem uma continuidade, enriquecendo-se a cada geração, a cada leitura. Há, portanto, uma
cadeia de recepções, o que faz com que o sentido de uma obra seja histórico e não imanente.
Outro representante da Estética da Recepção seria o também alemão Wolfgang Iser,
que marcou o início desta teoria literária com um texto: “A estrutura apelativa do texto”.
Volta seus estudos ao efeito que um texto causa no leitor e considera-o também autor da
obra, visto que se portará ativamente em relação a esta. Esse efeito dependerá do “repertório”
que cada leitor possui para preencher os “vazios” suscitados pelo texto. Essa relação só se
torna possível porque o texto concebe já sua recepção na formulação de um “leitor implícito”
que deverá ser explicitado no ato da leitura. Esta relação ocorre porque os efeitos da leitura já
estão, portanto, desenhados na formulação do texto, concebido como interação entre sujeitos.
Portanto, “se o leitor estrutura o texto graças às suas competências, então isso significa que no
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fluxo temporal da leitura se forma uma seqüência de reações, na qual a significação do texto é
gerada”. (ISER, 1996, p.69).
Atualmente, se dá grande valor ao trabalho de compreensão de textos pelo leitor, o
modo como ele percebe a avalia o que lê. É o que pretendemos com esse projeto: verificar
como o texto literário formado por imagens motiva e que efeitos produz na criança leitora,
além de incentivar a leitura enquanto fonte de prazer e transformação.
A escola e a formação do leitor
A escola tem como fundamento ensinar a escrever e a ler. E por que não incluir como
fundamento a formação de leitores? Cabe sim à escola inserir a criança no mundo de
encantamento que a literatura traz. A escola, enquanto instituição social, e os professores,
enquanto agentes da leitura, são responsáveis pela promoção do crescimento do leitor,
seja pelo contato com muitos e variados temas de leitura, seja quanto ao formato da
escrita literária, seja, ainda, pelo compartilhamento e pela discussão de idéias com o
uso da argumentação sólida e coerente. (COSTA, 2007, p.10).
Para que a literatura cumpra seu papel de encantamento no imaginário do leitor, é
fundamental o trabalho do professor. Ele será o mediador e condutor do trabalho realizado em
sala de aula, demonstrando a utilidade do livro e o prazer que há no ato de ler. Segundo
Regina Zilberman,
ao professor cabe o desencadear das múltiplas visões que cada criação literária
sugere, enfatizando as variadas interpretações pessoais (...) em razão de sua
percepção singular do universo representado. (ZILBERMAN, 2003, p.28).
A criança compreende o mundo pelo viés da fantasia. A literatura tem a capacidade de
transfigurar a realidade pela imaginação, pondo, portanto, a criança em contato com o mundo
a partir do imaginário. Há, então, nessa utilização da fantasia e na resposta encontrada pela
literatura uma das mais importantes razões para que a escola trabalhe com a literatura infantil.
No entanto, é preciso elucidar que a literatura não pode ter um caráter utilitário na escola. A
literatura basta por sua fantasia, por ter a capacidade de mostrar à criança mais do que o
ambiente em que vive (família, história e vida social). A literatura não é uma ferramenta para
se trabalhar Língua Portuguesa ou Matemática, é uma arte com fim em si mesma. O que a
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ficção concede ao leitor é uma visão de mundo que ocupa as lacunas resultantes de sua restrita
experiência existencial, através de sua linguagem simbólica. Para Regina Zilberman,
a literatura infantil (...) é levada a realizar sua função formadora, que não se
confunde com uma missão pedagógica. (...) Aproveitada em sala de aula na sua
natureza ficcional que aponta a um conhecimento de mundo, e não enquanto súdita
do ensino de boas maneiras (de se comportar e ser ou de falar e escrever), ela se
apresenta como o elemento propulsor que levará a escola à ruptura com a educação
contraditória e tradicional. (Ibiden, p. 25).
Portanto, a leitura de textos literários com a finalidade instrumental reduz a qualidade
literária e a função poética dos textos até o desaparecimento da literatura entendida enquanto
arte. “A literatura passa a ser pretexto para enfoques e abordagens que a distorcem e
mutilam”. (COSTA, 2007, p.125).
Assim, o professor deve considerar o caráter de criação artística e propor exercícios
criativos apenas quando considerar necessário para uma maior compreensão do texto lido.
Isso porque aprender a ler não é o mesmo que saber preencher questionários ou dar a resposta
esperada pelo professor.
Aprender a ler significa aprender a encontrar sentido e interesse na leitura. Significa
aprender a se considerar competente para a realização das tarefas de leitura e a sentir a
experiência emocional gratificante da aprendizagem”. (SOLÉ, 1998, p.172).
E é o professor que promoverá o contato da criança com o texto literário, levando-a a
se sentir recompensada seja porque aprendeu, seja porque venceu obstáculos ou seja porque
se emocionou ao ler. É o professor que esclarecerá um tema profundo e complexo e
encorajará a criança a perseverar na leitura, aprendendo a lidar com as dificuldades de um
texto mais complexo.
Desse modo, professor e aluno devem integrar-se no processo da leitura de textos
literários. Esse processo envolve diferentes e atuantes sujeitos: o autor, que constrói com
beleza e intenções o texto, a criança leitora, que busca com o repertório que possui de outras
leituras atribuir sentidos a essa literatura, e o professor mediador, que será o responsável por
criar um ambiente proveitoso e enriquecedor de leitura.
Ler se aprende lendo. E o papel do professor é fundamental enquanto mediador e
exemplo de leitor pois, aprender a ler requer que se ensine a ler. E aprender a ler não é um
luxo, mas uma necessidade, é emancipar-se e reconhecer-se como indivíduo e ser social, é
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vivenciar emoções e aprender a lidar com elas, é adentrar mundos imaginários aonde os pés
não podem ir, somente o pensamento galopando a fantasia.
Procedimentos Metodológicos
Antes de que o trabalho com a leitura de imagens na literatura seja iniciado, dois
aspectos se fazem muito importantes: primeiramente, que o livro de imagem é essencial na
formação educacional da criança, já que o seu processo de leitura proporciona o
desenvolvimento de um rico vocabulário verbal, da criatividade e do pensamento. E, em
segundo lugar mas não menos importante, se faz necessário observar que o livro de imagens
não seja apenas mais uma atividade escolar, já que o intuito não é ensinar outros conteúdos a
partir da literatura ou formar escritores, mas proporcionar aos alunos o interesse por esse
gênero literário, formando, assim, leitores.
Com o trabalho com a leitura de imagens, pretende-se oferecer aos alunos um espaço
onde esteja presente uma linguagem carregada de magia, possibilitando uma relação entre o
pensar e o sentir, uma relação mais sedutora com a imagem e com o literário.
Pretendemos, com as atividades propostas no projeto, verificar como os alunos do
Ciclo I e II (4 a 9 anos), que, na sua maioria, não têm contato com livros de histórias em casa,
relacionam-se com a leitura de imagens. Para tanto, escolhemos autores que dedicaram seu
trabalho aos livros de imagem, que serão apresentados aos alunos, propondo práticas que
levem à reflexão e à criatividade.
1º momento
O projeto será iniciado com a leitura do livro Ida e Volta, de Juarez Machado. Após a
leitura (em silêncio por parte do professor), os alunos serão questionados a respeito do
possível personagem cujo livro apresenta, elencando as características do mesmo, procurando
estimular a oralidade, a criatividade e o respeito ao próximo no aprender a ouvir. Serão
abordados também elementos da obra: autor, enredo, título da história, tipo de texto. Em
seguida, será solicitado que os alunos registrem o personagem que imaginaram ser o dono das
pegadas por meio do desenho.
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2º momento
Em um segundo momento, será apresentado aos alunos o livro Trucks, de Eva Furnari.
Após a leitura realizada pelo professor (que mostrará as imagens, incentivando os alunos a
contarem o que estão vendo, oralmente), os alunos irão exercitar a criatividade, tentando criar
diferentes animais, com as mais variadas misturas através de montagens com figuras de
animais e/ou desenhos próprios.
3º momento
No próximo encontro, o livro a ser lido será O ratinho que morava no livro, de
Monique Félix. Após a leitura e os questionamentos a respeito das características da obra, ao
alunos irão recriar o espaço sugerido pelo livro através de uma maquete confeccionada com
materiais recicláveis e personagens com bonecos em miniatura e/ou dedoches. Os objetos
serão retirados de uma caixa-surpresa e, à medida que forem sendo observados, os alunos
adivinharão o espaço onde o ratinho se encontra.
4º momento
Para finalizar, será contada a história do livro Mestre Vitalino, de André Neves. Os
alunos serão instigados a refletir sobre as características do povo desta determinada região e a
importância da diversidade étnica, presente em nosso país. Após os questionamentos
referentes à obra, os alunos irão criar ou reproduzir seus próprios personagens através de
bonecos confeccionados em massa de modelar.
Conclusões
O trabalho realizado com os livros de imagem nos permitiu levantar algumas reflexões
sobre os modos de ler.
As crianças, mesmo ainda as não alfabetizadas, demonstravam um estranhamento
quando não líamos palavras, só mostrávamos figuras. “Você não vai ler, professora?” Essa
pergunta foi feita por todas as turmas. E no final do livro, quando indagávamos se era possível
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entender uma história contada só por gravuras muitos respondiam que não, que uma história
precisava de palavras.
Outra situação comum a todas as turmas foi o incômodo que o silêncio causava.
Atualmente, o ser humano não sabe mais ouvir. Vivemos numa sociedade midiática, na qual
se valoriza sobremaneira o visual, o sonoro e o escrito. O ouvir, este se perdeu. O silêncio,
então, é incabível nos dias atuais. E a falta da leitura em voz alta das palavras incomodava as
crianças. Elas se olhavam com olhos indagantes: “a professora não vai falar? Ninguém vai
falar?”. E a situação incômoda durava até que um dos alunos tomava para si a
responsabilidade de quebrar o silêncio, e começava a contar o que estava vendo. Outros
alunos tomavam coragem e passavam a portar-se também como narradores.
Com o livro Ida e volta, de Juarez Machado, a surpresa foi grande: “olha, a história
não para! Você vai contar de novo?”. E a inquietação para saber quem era o dono das pegadas
também foi grande. Não havia consenso nas turmas: uns diziam ser um homem velho, porque
usava chapéu e tinha uma vitrola em casa. Outros acreditavam ser um jovem, porque andava
de bicicleta, usava um sapato de gente nova, tinha bola, esqui e roupa do super-homem no
armário. E ainda houve os que disseram tratar-se de uma mulher, pois a bicicleta era rosa. Nas
falas que justificavam a opinião de quem era o dono das pegadas percebemos estereótipos,
crenças e ainda falta de argumentos e justificativas.
Na segunda obra trabalhada – Truks, de Eva Furnari –, o primeiro comentário dado
foi: “olha, outro livro sem palavras”. O silêncio pareceu menos aterrorizante, os olhos
focaram a bruxa e o leão, e as demais personagens (passarinho e minhoca) foram esquecidas
pelas crianças maiores. Na última página, quando aparecem as borboletas – a bruxa
transforma sem querer o passarinho e a minhoca em borboletas – as crianças maiores não se
dão conta da situação. A maioria delas olha sem realmente ver. Então, questionamos: “quais
são as personagens que aparecem na história?”. Realmente não se deram conta da existência
das borboletas. Então, dissemos que havia mais duas personagens, que íamos apresentar
novamente o livro para que tentassem descobrir. Só então viram as borboletas.
Com as crianças menores (Educação Infantil e 1º anos), já foi diferente: “Olha,
apareceram duas borboletas aqui”. A observação foi imediata. “E de onde surgiram essas
borboletas? Elas já estavam na história?”, perguntávamos. A resposta também era imediata:
“A bruxa transformou a minhoca e o passarinho”. E justificavam a transformação com as
cores das borboletas, que eram iguais as cores do passarinho e da minhoca.
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Devido a prática de leitura de imagens retringir-se basicamente à educação infantil,
vemos claramente a dificuldade por parte dos alunos maiores em compreender o que está
sendo narrado, ao ponto de não visualizarem a sequência nas imagens.
Vivemos em um mundo midiático, saturado de informações, sejam elas escritas,
visuais, orais. E a criança maior já está há mais tempo em contato com toda essa gama de
informações, o que faz com que detenha menos atenção aos detalhes. Por esse motivo, a
criança menor interage com as imagens com mais atenção, mais curiosidade, identificando
aspectos não percebidos pelas crianças maiores.
O ratinho que morava no livro, de Monique Félix, foi o terceiro livro trabalhado.
Com ele percebemos claramente que as inferências realizadas em uma obra são frutos do
conhecimento de mundo do seu leitor. Quando o ratinho começa a dobrar a folha que abre o
livro para o mundo, as crianças já percebem o que será fruto da dobradura: “O ratinho está
dobrando a folha, vai fazer um avião!”. “Para que um avião”, indagamos. “Para voar para a
fazenda”.
Quanto a adivinhar o lugar que seria descoberto pelo ratinho quando este retirasse a
página do livro, o tempo para a descoberta variava com a ordem dos objetos que iam sendo
retirados da caixa. Se retiravam primeiro objetos que caracterizavam mais claramente o
campo, adivinhavam antes. Caso contrário, a descoberta se dava um pouco mais tarde, com a
maquete já repleta de objetos.
Com algumas turmas foi solicitado que após a leitura do livro os alunos retirassem
algum objeto de dentro da caixa e iniciassem uma história, sendo continuada a partir dos
outros objetos que fossem retirados. Foi observado que da mesma maneira como não
conseguem observar a sequência narrativa, também encontram dificuldade em realizá-la na
oralidade.
O último livro trabalhado foi Mestre Vitalino, de André Neves. Fica claro que os
alunos, apesar de possuir alguma bagagem cultural, não conseguem fazer a relação entre os
personagens e suas características regionais de início. A grande maioria não reconheceu a
sequência nas imagens e, consequentemente, não identificou o enredo. Apenas um pequeno
número de alunos identificou as personagens como sendo bonecos quando chega o fim da
história.
10410
Houve um grande interesse em conhecer a origem da “festa do boi” retratada no livro,
bem como na riqueza de detalhes da arte nordestina na confecção posterior dos personagens
com massinha de modelar.
Enfim, constatamos que os livros de imagens são riquíssimos, despertaram o interesse
das crianças, levaram à reflexões, práticas orais, exercícios do olhar e do silêncio. Ler
imagens é uma atividade prazerosa que pode e deve permear todo o ensino fundamental.
Afinal, ouvir o silêncio e ver com olhos-de-ver-poesia nos levam a grandes e inusitadas
descobertas no mundo da literatura.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Vera Teixeira de. (org.) Era uma vez... na escola: formando educadores para
formar leitores. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2001.
CAMARGO, Luís. Ilustração do livro infantil. Belo Horizonte: Editora Lê, 1995.
COSTA, Marta Morais da. Metodologia do ensino da literatura infantil. Curitiba: IBPEX,
2007.
Endereço eletrônico: [http://www.angela-lago.com.br/aulaImag.html]. Acesso em 20 mai.
2008.
FELIX, Monique. O ratinho que morava no livro. São Paulo: Melhoramentos, 2005.
FURNARI, Eva. Truks. São Paulo: Ática, 2005
ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Editora 34,
1996.
JOLY, Martine. Introdução à análise da imagem. Campinas: Papirus, 1996.
MACHADO, Juarez. Ida e volta. Rio de Janeiro: Agir,2001.
NAKAGAWA, Cristina Mayumi I.; REILY, Lucia Helena. O livro de imagem sem texto e a
percepção de sentidos visuais. São Paulo: Unicamp, 2007.
NEVES, André. Mestre Vitalino. São Paulo: Paulinas,2000.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998.
ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003.
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fonte - PUCPR