Entrevista
O crescente número de profissionais na área de Ortodontia, tem conduzido ortodontistas na
busca pela qualidade e excelência do tratamento ortodôntico.
A qualificação profissional é, sem dúvidas, um fator primordial de diferenciação no mercado
competitivo da atualidade. Uma das maneiras para se determinar a qualidade da Ortodontia praticada é a criteriosa avaliação dos profissionais, considerando-se seus conhecimentos básicos e suas
habilidades práticas.
Nos Estados Unidos esta qualificação é obtida através do American Board of Orthodontics (ABO),
valorizando os profissionais submetidos e aprovados por esta instituição.
A Revista Dental Press, na presente edição, entrevista o Dr. Roberto Lima Filho, conceituado
ortodontista de São José do Rio Preto, Pós-graduado pela Universidade de Illinois - Chicago e primeiro profissional brasileiro na odontologia e na ortodontia que, através de sua qualificação e da
dedicação à profissão, conquistou esta importante certificação.
Em sua entrevista o Dr. Roberto aborda e explana o processo que lhe conferiu o certificado do
Board americano, sua importância para a profissão e a possibilidade de um conselho brasileiro de
certificação, o que incontestavelmente destacaria a Ortodontia brasileira internacionalmente.
01 - O que é o American Board
of Orthodontics (ABO)? Conselho Editorial Científico
O ABO é o primeiro Conselho especializado que oferece um programa de
certificação para ortodontistas. Fundado em 1929 em Estes Parks, no
Colorado, o ABO foi incorporado ao estado de Illinois em 1930. Em 1950 o
Conselho de Educação em Odontologia, da Associação Odontológica Americana (ADA) reconheceu o ABO como
agência certificadora oficial em
Ortodontia e Ortopedia Dento Facial.
Desde a sua formação, o ABO diplomou 3.197 profissionais, dos quais apenas 1.910 estão na ativa nos EUA e
Canadá e outros 40 membros diplomados estão distribuídos em 17 países.
02 - Qual o objetivo do ABO?
Conselho Editorial Científico
O objetivo do ABO é estabelecer e
manter os mais altos padrões de excelência clínica em Ortodontia, avaliando os conhecimentos básicos e a
habilidade clínica do ortodontista que
após cumprir as etapas do programa
recebe o título de Diplomate of the
American Board of Orthodontics.
tia, é um processo voluntário.
04 - Por que o senhor procurou
a certificação do ABO uma vez
que esta não é exigida, principalmente no Brasil? Conselho Editorial Científico
Roberto Lima Filho
03 - A certificação do ABO é
obrigatória nos Estados Unidos?
Conselho Editorial Científico
Atualmente a maioria dos programas de pós-graduação em Ortodontia exigem que os residentes façam
exame escrito (fase II) como método
de avaliação. Nos Estados Unidos, os
pacientes têm demonstrado maior interesse em ortodontistas qualificados.
Entretanto, a certificação do Board não
é exigida para a prática da Ortodon-
Na atualidade é crescente a importância da qualidade em todas as áreas
de atuação profissional. A preocupação com a qualidade tem relação direta
com a necessidade de atualização e
aprimoramento. A prática de serviço
com qualidade é fundamental para o
sucesso nesse mundo competitivo uma
vez que propicia maior satisfação para
o cliente que passa a receber atendimento com padrão de excelência.
Na área de saúde a qualidade do
serviço está diretamente relacionada
com a qualidade e a quantidade de treinamento, o grau de especialização e
a experiência do clínico em seu respectivo campo de atuação. Apesar da
vasta literatura que trata de qualidade
na área médica, pouca ênfase é dada
à qualidade em Ortodontia.
Embora a certificação pelo ABO
não seja obrigatória, o ortodontista é
levado a buscá-la movido pela neces-
Revista Dental Press de Ortodontia e Ortopedia Facial - v.4, n.4 - JUL./AGO. - 1999
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sidade de aperfeiçoar-se e melhorar
os seus conhecimentos.
Dr. George Ewans, foi o ortodontista que melhor traduziu o sentimento dos profissionais que buscaram o certificado quando disse:
“O ABO não o fará melhor do que
os outros, mas com certeza o fará
melhor que antes.
05 - Como o senhor se tornou
Diplomado do ABO ? Conselho
Editorial Científico
Completando os 3 passos do processo de certificação:
1 - Fase I (candidatura), onde
foram avaliados: meu currículo e as
credenciais do curso de pós-graduação em Ortodontia que realizei na
Universidade de Illinois em Chicago, USA;
2 - Fase II (exame escrito) de um
dia. Neste exame, meus conhecimentos nas disciplinas básicas e conceitos clínicos foram avaliados;
3 - Fase III (exame oral e a avaliação dos casos tratados em meu consultório).
Como o tratamento Ortodôntico,
o processo de certificação é um compromisso à longo prazo.
O candidato típico do ABO completa o exame escrito (fase II) três
anos após a conclusão do curso de
pós-graduação e termina a fase III
(exame clínico) nos próximos 10
anos. Portanto, são aproximadamente 11 anos para atingir a certificação
do Board em Ortodontia. O candidato terá em média 40 anos de idade,
quando for diplomado.
06 - Como deve ser a preparação para a fase II? Conselho Editorial Científico
Um dos melhores caminhos é revisar os cursos feitos durante a pós-graduação em Ortodontia, consultando os
principais livros e a literatura atual. As
perguntas no exame são relacionadas
às disciplinas básicas, ciências biomédicas, teoria Ortodôntica, Ortodontia clínica, disciplinas odontológicas relacionadas e literatura Ortodôntica.
07 - No que consiste a fase III?
Conselho Editorial Científico
A fase III, parte do processo de
certificação, consiste em duas etapas:
A primeira que avalia a habilidade do candidato em diagnosticar e planejar o tratamento ortodôntico. Para
tanto, é apresentada ao candidato a
documentação de dois casos, a fim
de que ele faça o diagnóstico e o planejamento do tratamento.
Na segunda etapa, são avaliados
os conhecimentos e habilidade clínica demonstradas durante o tratamento pela apresentação de casos tratados. Trata-se de exame oral em que
são discutidos os casos que o candidato tratou em seu consultório e a
literatura ortodôntica atual.
8 - Como o candidato deve preparar-se para a fase III? Conselho Editorial Científico
Inicialmente deve tomar conhecimento das categorias de casos a serem apresentados e assim selecionar
seus pacientes adequadamente. Em
seguida deve preparar e organizar a
documentação desses pacientes de
acordo com os padrões do ABO e
estar também a par da literatura ortodôntica publicada nos últimos anos.
9 - Que tipo de caso o candidato
pode apresentar? Conselho Editorial Científico
Devem ser apresentados 10 relatos de casos, cada um incluído nas
diferentes categorias estabelecidas
pelo ABO:
1 - Maloclusão precoce (tratamento
em uma ou duas fases).
2 - Maloclusão de adulto.
3 - Classe I com extração de dentes
permanentes.
4 - Caso de sobremordida profunda.
5 - Classe II Divisão 1.
6 - Classe II Divisão 1 com extração
de dentes permanentes.
7 - Discrepância esquelética ânteroposterior.
8 - Discrepância transversa.
9 - Opcional.
10 - Opcional.
10 - Qual a forma de apresentação desses casos? Conselho
Editorial Científico
Atualmente, o candidato tem duas
opções de apresentação, ou leva os
10 casos já tratados em seu consultório ou apresenta ao diretor do ABO
12 casos antes do tratamento. Esses
casos serão selecionados em 8 categorias, sendo que dessas, duas são
opcionais. A documentação dos casos deve ser feita 6 meses antes da
reunião com o diretor. Após aprovação, o candidato terá quatro anos para
apresentar 6 casos dos 12 originais.
Esta segunda opção foi introduzida
recentemente e se assemelha aos prérequisitos para o ingresso na Edward
Angle Society of Orthodontists.
11 - Tem ocorrido mudanças
na forma de avaliação dos candidatos? Conselho Editorial Científico
Após cinco anos de extensivos estudos, os diretores do ABO principalmente os Drs. Eldon Bills, John Casko
e Vincent Kokich introduziram um método objetivo de avaliação dos modelos e radiografias panorâmicas dos casos tratados.
Eles desenvolveram um instrumento que permite tomar as medidas diretamente nos modelos, isto
vem facilitar a seleção dos casos uma
vez que pelas medidas obtidas, o candidato poderá objetivamente avaliar
a qualidade do tratamento.
O modelo deste medidor está disponível na Internet (http://
www.americanboardortho.com/)
afim de que os interessados possam
reproduzi-lo para avaliar os seus
próprios casos.
12 - Sabemos que o senhor foi
pioneiro nesta área sendo o primeiro brasileiro na Odontologia
e Ortodontia a conquistar esta
conceituada certificação. O senhor tem conhecimento de outros brasileiros certificados?
Conselho Editorial Científico
Para mim é uma honra ser um
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diplomado do ABO desde 1992. Posteriormente outros dois ortodontistas
brasileiros também foram certificados,
fora dos Estados Unidos a Dra. Anna
Letícia Lima, de São José do Rio Preto (SP), sendo a primeira mulher a
receber a certificação e o Dr. Airton
Arruda de Ribeirão Preto (SP).
Gostaria de acrescentar que para
nós, aqui no Brasil, a maior importância desta realização está no fato
de que abrimos caminhos para a criação de um conselho brasileiro semelhante ao ABO que certamente
contribuirá para a elevação dos padrões da Ortodontia Brasileira.
13 - A certificação do Board é
importante para a especialidade? Conselho Editorial Científico
Sem dúvida! Nos Estados Unidos, a American Dental Association
(ADA) reconhece a importância da
certificação no Board. Todas as especialidades da Odontologia reconhecidas pela ADA, devem ter uma
agência de certificação reconhecida pela mesma.
Além disso, a comissão da ADA
que atribui os créditos para os cursos de pós-graduação exige que o
coordenador do curso seja certificado pelo ABO.
A certificação do Board é um critério muito importante para diferenciar uma área de especialidade.
Em 1950 o Conselho de Educação Odontológica da ADA reconheceu o ABO como agência oficial de
certificação em Ortodontia. Além
disso a Ortodontia foi a primeira especialidade a criar um conselho de
certificação na Odontologia e a terceira na área Médica.
14 - Qual o valor do certificado
para o Ortodontista? Conselho
Editorial Científico
O certificado emitido pelo Board
não é um grau profissional ou acadêmico, trata-se de um certificado de
mérito, portanto não confere qualificação, privilégio ou licença para a prática da Ortodontia.
No entanto, esta certificação permite a avaliação dos conhecimentos
do profissional e o aperfeiçoamento
constante, conferindo ao Ortodontista o reconhecimento da excelência
em seu serviço.
15 - Como o senhor já mencionou anteriormente, os passos
para obtenção da certificação
exigem dedicação e empenho do
candidato. No que isto interferiu
na rotina do seu consultório?
Conselho Editorial Científico
Pelo o que já foi exposto, fica claro que este tipo de trabalho requer
tempo e dedicação. Na prática, isto
poderia trazer transtornos na rotina
de atendimento do consultório.
Entretanto, posso afirmar que os
benefícios que este processo de certificação trouxe para o consultório superaram todas as dificuldades. Desde que comecei este projeto, passamos a trabalhar com rigorosos critérios de padronização, desde a documentação até o seguimento à longo
prazo dos casos tratados.
Este procedimento é de extrema
importância, já que faz parte da formação do ortodontista considerar um
tratamento de sucesso aquele que
apresenta estabilidade do resultado
vários anos após a correção.
Para se ter uma idéia do que isto
significa, acompanho os meus pacientes desde que iniciei na Ortodontia
em 1975, tendo pacientes de mais
de 20 anos de seguimento.
Outro aspecto importante é que
passei a ter uma visão mais crítica
na finalização dos casos tratados.
Enfim a certificação não trouxe apenas realização pessoal, mas principalmente mudanças na minha conduta profissional refletidas no nível
de satisfação dos pacientes.
16 - O senhor acredita que a
criação de um conselho brasileiro de certificação voluntária
funcionará no Brasil? E qual será
o impacto disto na Ortodontia
brasileira? Conselho Editorial
Científico
A idéia é que isto funcione como
nos Estados Unidos, onde os critérios de seleção do candidato são rigorosíssimos e aqueles que se dispõem
a isto são movidos pôr um ideal e
amor a profissão.
Temos que ter em mente que uma
certificação, seja qual for, implica em
determinação e mérito.
Tenho plena certeza que o Brasil
conta com Ortodontistas de altíssimo
nível e capacitados para este trabalho. Para que o projeto de criação
de um conselho nacional de certificação se torne realidade e dê bons
frutos, penso apenas ser necessário
que estes profissionais se juntem e
que a formação de novos especialistas seja revista, pois acredito serem as Universidades as únicas instituições capacitadas para atribuição
de tais títulos. Desta forma a Ortodontia brasileira terá um lugar de
destaque no contexto internacional.
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