EDITORIAL “Aleluia significa louvai o Senhor. Louvemos o Senhor, irmãos, pela vida e pelos lábios, pelo coração e pela boca, pela voz e a conduta. Deus quer que digamos Aleluia sem que haja desacordo com seu significado. Coloquemos em uníssono nossa vida e nossos lábios, nossa voz e nossa conduta. Eu o repito, com receio de que o nosso belo canto esteja em contradição com nossa má conduta. Cantemos agora Aleluia com solicitude, para que um dia possamos cantá-lo em toda a quietude. Cantemos Aleluia em meio aos perigos e às tentações [...]. Canta como canta o viajante, que canta, mas caminha. Canta para sustentar teu esforço, não cultives a preguiça. Canta e caminha. O que quer dizer caminhar? Quer dizer fazer progresso, progresso no bem. Progredir na retidão da fé e em pureza de vida. Portanto, canta e caminha”. Santo Agostinho Revista Santa Cruz - 45 Ainda desfrutando dos últimos dias do tempo pascal e da segunda fase do Moratorium Provincial, auguramos que estas sábias palavras do venerável bispo de Hipona nos estimulem, com vigor sempre crescente, no serviço do Reino, a exemplo do santo de Assis. Com alegria, apresentamos mais um número da Revista Santa Cruz. Aqui, poderemos degustar um pouco da riqueza de nossa caminhada franciscana em terras mineiras e sul-baianas. Uma boa leitura a todos! 46 - Revista Santa Cruz SUMÁRIO EDITORIAL ........................................................................................45 VIDA DA PROVÍNCIA 1. ENCONTROS DE FAIXA ETÁRIA DA PSC (FREIS JONAS NOGUEIRA, DONIZETE AFONSO E JOAQUIM FONSECA) ..............................................................48 2. ENTREVISTA COM OS FREIS ELIAS HOOIJ, MARCOS MONTEIRO E LOURENÇO TOLLENAAR (FREIS JÚNIO FERNANDO, LUCIANO LOPES E ARLATON) ...........54 MEMÓRIA 1. UM SÉCULO DE PRESENÇA FRANCISCANA EM JEQUITINHONHA - 2 (SHEILA A. N. LUNKES) ............................................................................................... 67 2. FREI EGÍDIO SÖNTJENS (FREI FRANCISCO VAN DER POEL) ...................... 82 UMAS E OUTRAS - HUMOR FRANCISCANO ..........................................................................83 Revista Santa Cruz - 47 VIDA DA PROVÍNCIA Esta seção consta de um breve relato sobre os três encontros de faixa etária da PSC, ocorridos neste primeiro semestre de 2011, e de uma entrevista com os freis Elias Hooij e Marcos Monteiro (60 anos de ministério presbiteral) e Lourenço Tollenaar (50 anos de ministério presbiteral). 1. ENCONTROS DE FAIXA ETÁRIA FAIXA ETÁRIA V Frei Jonas Nogueira Ao longo deste primeiro semestre de 2011, três grupos de frades, divididos por faixa etária, se reuniram. A seguir, um breve relato desses encontros. Nos dias 13 a 19 de março do corrente ano, reuniram-se em Guarapari (ES) os seguintes confrades pertencentes à Faixa etária V: Adilson Corrêa, Vicente Paulo, Gabriel José, Jonas Nogueira, Edvaldo Alves, Gilberto Custódio e Alexsandro Rufino. 48 - Revista Santa Cruz Conosco também esteve o Moderador da Formação Permanente, frei Pedro José de Assis, que nos trouxe dois textos para a reflexão, a saber: “Carta por ocasião do 8º Centenário da fundação da Ordem de Santa Clara” e um estudo da Ordem sobre a Formação Permanente. Como é de praxe, os encontros anuais da faixa etária constituem momentos ricos de partilha da vida e da caminhada franciscana em busca da vivência fraterna do Evangelho. Foi sentida por todos a ausência dos demais confrades desta faixa: José Aguinaldo, Geraldo Machado, Renato Alves, Laércio Jorge, Oton Júnior. Revista Santa Cruz - 49 FAIXA ETÁRIA IV Frei Donizete Afonso da Silva “Os irmãos não se escolhem, mas se aceitam. Não há verdadeira fraternidade se não queremos entrar na vida de nosso irmão e se não consentirmos que ele entre na nossa”. 50 - Revista Santa Cruz Foi assim que nos dias 2 a 6 de maio de 2011, os confrades da Faixa etária IV se reuniram, em Arraial do Cabo (RJ), para mais um momento de convivência fraterna, oração/celebração, partilha, lazer, alegria. Momento gratificante e enriquecedor na vida fraterna e na vida da Província, preparado pelos freis Hilton e Fabiano. “Sem esta comunhão de vida, a fraternidade seria apenas a referência a uma pertença genealógica, sem interesse para ninguém” (DF- Fraternidade, p. 274). Irmãos que há muito não participavam estiveram presentes, irmãos de perto e de longe. Outros nem sequer uma nota. Sentimos falta da não participação dos irmãos ausentes nesse momento importante da nossa formação permanente. A partilha de vida, como os outros momentos, é importante para o crescimento pessoal e fraterno, pois cada um traz em si “o dom de ser capaz, de ser feliz...”. Juntos, formamos um belo mosaico franciscano. E mosaicos são obras de arte. São feitos com cacos. Mas os cacos, em si, nada significam. Não têm beleza alguma. São peças de um quebra-cabeça. É preciso que um artista junte-os segundo o seu desejo. As Sagradas Escrituras, como os Escritos de São Francisco, são livros cheios de cacos: poemas, estórias, mitos, pitadas de sabedoria, relatos de acontecimentos. Quem os lê, junta os cacos segundo manda o seu coração. Os mosaicos podem ser bonitos ou feios. Tudo dependerá do coração do artista. Como disse Jesus, “o homem bom tira coisas boas do seu tesouro; o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro”. Coração mau faz mosaico feio, coração bom faz mosaico bonito. Mas quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos dos infernos. Esperamos que no próximo encontro, a ser realizado em Guarapari (ES), possamos nos encontrar a todos para mais um momento fraterno. Os responsáveis pelo encontro de 2012 são os freis Luciano e Marcelo. Revista Santa Cruz - 51 FAIXA ETÁRIA III Frei Joaquim Fonseca Nos dias 17 a 19 de maio p.f, aconteceu mais um encontro dos confrades da Faixa etária III. Estiveram presentes os freis Francisco Carvalho, Pedro José de Assis, dom Dario Campos, Joaquim Fonseca, Adelmo Francisco, Paulo Afonso, João José de Jesus, Moisés José Bastos e Jacir de Freitas. 52 - Revista Santa Cruz Como nos anos anteriores, o encontro foi marcado por momentos de oração, reflexão e partilha de vida. Na verdade, o ponto alto desse encontro de 2011 foi o convívio fraterno e a alegria de estar juntos. Embora o Moderador da Formação Permanente, frei Pedro José de Assis, tivesse planejado o estudo de dois textos de documentos recentes da OFM, tal intento não se concretizou, pois a partilha de vida de cada um dos nove participantes ocupou todo o tempo de que se dispunha. O exercício da escuta atenta de cada irmão foi uma demonstração concreta da profunda cordialidade e do amor fraterno existente no grupo. Dentre os diversos assuntos abordados e discutidos durante a partilha, ficou evidente a importância do Moratorium que vem sendo introduzido na Província. Este apelo do Governo Geral da Ordem tem instigado cada frade a mergulhar num profundo exercício de revisão de seus projetos pessoais e de vida fraterna. Foi sentida a ausência dos confrades: Mário Rodrigues, Juvenil Batista, Antônio Teófilo, João Bosco, Dari Bernardino e Flávio Silva. Mesmo assim, esses irmãos de caminhada que, por motivos vários, não puderam se juntar a nós, se fizeram presentes em muitos instantes, sobretudo nos momentos de oração diária e da celebração eucarística. O próximo encontro ficou agendado para os dias 9 a 12 de abril de 2012, em Guarapari (ES). Estejamos todos lá, com renovada alegria e disposição. Revista Santa Cruz - 53 2. ENTREVISTA COM OS FREIS, ELIAS HOOIJ, MARCOS MONTEIRO E LOURENÇO TOLLENAAR Freis Júnio Fernando, Luciano Lopes e Arlaton Neste ano de 2011, os confrades Elias Hooij e Marcos Monteiro celebram 60 anos de ministério presbiteral, e Nas páginas que se seguem, dentre ou-tras coisas, eles nos falam de sua vocação e missão. FREI ELIAS HOOIJ RSC: Frei Elias, fale-nos um pouco de sua família, sua vocação. Frei Elias: Bem, meu avô paterno, Simon Hooij (1847-1928) serviu, por dois anos, como “Zouaaf”, na “Legião Estrangeira” de Papa Pio IX, com outros 3000 holandeses, alistado sob o nº 9.075. Era a guerra contra o rei Victor Emanuel II e seu General Garibaldi. O que se 54 - Revista Santa Cruz pretendia era o “Risorgimento” da Itália e sua unificação, o que incluía o fim dos Estados Pontifícios. O Papa perdeu esta guerra e - com toda razão – seu território. Ele se retirou, amargado, morando como preso voluntário no Vaticano. Os sobreviventes do seu exército foram prisioneiros de guerra, como meu avô. Uma vez, ele retornou à Holanda, a pé, o que corresponde a quase 2000 km. Obviamente, até a mãe dele teve dificuldade de reconhecer aquele “vagabundo barbudo” como seu filho. Também enfrentou dificuldade na recuperação de sua cidadania, perdida pelo serviço num exército estrangeiro. Minha mãe tinha três primos primeiros: um era frei Benício Woolderink, irmão do nosso pioneiro frei Adalberto de Manaus (1899) e o terceiro frei Reginaldo, três irmãos franciscanos. Benício foi, durante 25 anos, mestre de noviços da província holandesa. Perguntado a respeito, ele me confidenciou que tinha mais arrependimento dos noviços que ele tinha deixado continuar do que daqueles que ele tinha mandado embora. Ainda houve um irmão meu, frei Simon, e dois primos, todos franciscanos, três primos redentoristas e três primos passionistas. Um dos primos franciscanos era frei Carlos Schep que esteve no Brasil, duran- te os anos 1936-1967, sendo, por último em Ibirapoã, na diocese de Caravelas. Eu celebrei duas vezes sua missa de 7º dia. A primeira vez fora alarme falso: num acidente de ônibus, o confrade foi tido por morto, porém, ele se recuperou. Inclusive o Provincialado se precipitou ao avisar a família sobre a morte de frei Carlos. Em 1967, ele voltou para a Holanda por motivos de saúde. Ao longo de dez anos, exerceu uma atividade pastoral na Alemanha. De volta à Holanda, agora aposentado, ele fora mais uma vez acidentado, enquanto atravessava uma avenida de bicicleta. Desta vez, ele morreu de verdade (26/10/1983). Que Deus o tenha. Meu pai recebeu a condecoração Pro Eclesia e Pontífice pelos 25 anos de Vicentino e do colégio dos “Coletantes” em nossa matriz. E seu trabalho nas organizações católicas de atletas. Na Holanda era assim: cada confissão tinha suas organizações próprias, de criadores de cabritos, de filatelistas ou de emissores de rádio. Ainda duvida da predestinação? RSC: E seu ingresso na Ordem Franciscana? Frei Elias: Em 1944, enquanto preparava as coisas para o noviciado, recebi como número de marcação de roupa: o nº 1275. Era o fim daquela guerra que destruiu boa parte do mundo. Parte do noviciado fora ocupada pelos retirantes SSNazistas, gente ruim mesmo, e, em seguida, pelos bem-vindos Americanos, com cigarros e ração de biscoitos, chocolate amargo e “corned beef” enlatado. Eles pediram nossos terços em troca. O meu provavelmente está ainda com um veterano em Massachusetts ou num dos cemitérios militares, espalhados pela Europa. Quando em 1966 vim para o Brasil, aos 40 anos, a província já era bem menor, reduzindo-se sempre mais até o patamar de 188 membros em 2010 – uma perda dramática de 1000 membros, em pouco mais de 60 anos! Durante muitos anos, fiquei emocionalmente ligado às duas províncias. Custou perder – e nunca perdi total - o “cheiro do ninho” holandês, para me sentir membro 100% da Santa Cruz. Ainda com um português de roceiro e um sotaque cabeludo, que todo mundo sempre faz perguntar: “O Senhor é polonês?” Enfim, é mais fácil perder os cabelos do que o sotaque. O repertório religioso de liturgia e pregação era mais fácil. Mas, mesmo agora, entrando numa oficina mecânica com o carro quebrado, para explicar o defeito, que Deus me acuda! Revista Santa Cruz - 55 RSC: Por que o Brasil? Frei Elias: Eu não escolhi o Brasil. O Brasil me escolheu na pessoa de dom Filipe. Sempre tinha sonhado com Papua, Nova Guiné, Paquistão, Índia, o Oriente. Mas como recémordenado, fui indicado a estudar linguística, para servir como professor num dos nossos colégios. Depois de três anos, consegui convencer o provincial que minha vocação não era a linguística. O resultado foi dois anos como redator da revista da Ordem Terceira, para ficar no ramo. Um artigo nessa revista sobre “a Ordem dos Companheiros Construtores” me recompensou com 10 anos como capelão desta organização. A OCC foi fundada por Werenfried van Straaten OPraem, como braço forte da sua atual “Ajuda à Igreja que Sofre” (Kirche in Not). Trabalhei na região oeste da Europa e, por sete meses, no Congo-Zaire, onde também tinha voluntários. Lá a independência de 30/06/1960 causou uma guerra civil/tribal, que colocava em risco a permanência dos voluntários. Eu devia preparar a decisão, ficar ou sair? Ficamos! De volta à Holanda me encontrei com dom Filipe, que me pescou. Ele queria voluntários para a construção do hospital regional em Caravelas, enfermeiras e assistentes sociais. E a Rainha da Holanda, 56 - Revista Santa Cruz ou o ministério do exterior, me enviou como chefe da equipe num contrato de dois anos, com todas as despesas pagas. Que luxo! RSC: O senhor poderia destacar algum fato marcante nesta sua trajetória de vida? Frei Elias: Tem muita coisa, que a gente não esquece. Uma, quando meu pai faleceu, aos 11/02/1972. Duas semanas mais tarde li por acaso o anúncio na revista da Província da Holanda, de manhã cedo. Nós, dom Filipe e eu, estávamos voltando do Rio Grande do Sul, onde fomos buscar irmãs belgas para o Posto de Saúde em Teixeira de Freitas. E em Cascadura, na sala de leitura, peguei a revista: Falaceu Simon Hooij, pai dos freis Simon Hooij em Heerhugowaard, Holanda, e Elias Hooij, em Teixeira de Freitas, no Brasil. O provincialado não tinha conseguido me avisar antes. E quando voltei para Teixeira, encontrei o Sr. Nascimento na estrada. Este se estranhou de minha aparência. Ele tinha recebido um telegrama atrasado, dizendo: “Pai Elias hospitalizado”. Pensando que era eu, morto na estrada. O povo já estava rezando pela minha alma. No dia da morte, eu estava ainda na Bahia, em Cruzelândia, naquela terra de ninguém entre o rio Mucuri e a divisa de Espírito Santo. De manhã cedo, o meu companheiro e sacristão, Edison Bispo dos Santos, me contou que tinha sonhado: um homem idoso morrendo e a gente estava dando assistência a ele. Mais tarde, descobrimos que naquela mesma hora meu pai tinha morrido. Outra ainda. Eu estava ainda em Teixeira de Freitas. Era o dia do Cristo Rei, em 1977. Neste dia levei frei Júlio à rodoviária, para procurar tratamento em Belo Horizonte. Ainda triste pela despedida, sentado num tronco de árvore de frente da casa paroquial, recebi, via um policial, a notícia da morte do pároco vizinho, frei Geraldo, um jovem capuchinho, de Itamaraju. Ele morrera debaixo de um trator que ele tinha adquirido como ferro velho, e que ele mesmo tentava consertá-lo. Inclusive, semanas antes, eu trouxe algumas peças para ele, de Salvador. A saída de um e a morte do outro – o que Deus afinal queria de nós? Exatamente no dia do Cristo Rei! Frei Júlio nunca mais voltou. Fora meu colega de estudos na Holanda e chegava agora, em Teixeira, para me ajudar e fugir da vida um pouco burguesa de Teófilo Otoni, com as festas do povo do MFC. Morreu em meus braços dois meses depois no hospital Felício Rocho, aos 02/01/1978. Eu não tive coragem de ir à Missa de corpo presente, nem de um nem do outro. RSC: E o hospital de Caravelas que o senhor ajudou a construir? Frei Elias: Quando o hospital de Caravelas começou a funcionar, os voluntários voltaram para a Holanda, e eu fiquei no Brasil. Fui nomeado Pároco de Posto da Mata junto com frei Teodoro e, mais tarde, frei Cleto. Mas Teodoro se ambientou bem em Posto da Mata, enquanto Teixeira de Freitas me atraiu: o desafio de criar comunidades num centro nevrálgico do Extremo Sul da Bahia, no cruzamento das estradas de madeireiros da Bralanda em Nanuque e da fábrica de Eleosípio Cunha, em Nova Viçosa. Era pura futurologia. A primeira Missa (campal) foi aos 15/08/68. Teixeira tinha 5.000 habitantes e só uma capelinha de 3x4m dedicada a Santo Antônio, com uma imagem de porcelana, toda quebrada e colada com esmalte vermelho. Aliás, eu mesmo destruí essa imagem. Consegui, democraticamente, ‘empurrar’ São Pedro pra frente como padroeiro da primeira igreja. Depois de muitos anos, São Pedro tornou-se o padroeiro da Catedral e da Diocese. Frei Teodoro e eu criamos, em todo o interior, o Culto Dominical (frei Revista Santa Cruz - 57 Raul Ruijs usou nosso material para o nada informatizado INFORMAC). Criamos um livrinho de cantos que foi reeditado pelo menos dez vezes. E com as Irmãs de São José articulamos a formação de catequistas e de monitores de alfabetização. Cursos com centenas de pessoas em Teixeira, Posto da Mata, Argolo, Nova Viçosa, Mucuri. Era uma festa! Apesar da ajuda dos colegas vizinhos, Teixeira foi carga pesada: durante a semana, a visita às capelas no interior dos municípios de Alcobaça, Nova Viçosa e Mucuri. Sábado à tarde, me esperavam uns casamentos. Aos domingos, uma média de quatro a cinco missas (às vezes duas simultaneamente, em igrejas diferentes, sem bilocação. Imaginem como!, lembrando as “Estationes” na antiga Roma). Todo domingo, às 13h, uma média de 25 batizados. Ainda durante a semana, dava assistência aos dez pequenos centros de comunidades dentro e fora de Teixeira. Uma vez por mês, a reunião de todas as lideranças de Teixeira. Atualmente, a cidade de Teixeira de Freitas é sede do bispo diocesano e possui nove paróquias. Em 1983, morreu frei Ismael, enquanto se preparava para transferirse para o noviciado em Visconde do Rio Branco. O coração dele não aguentou! E eu fui transferido para 58 - Revista Santa Cruz Alcobaça. Em 1992, fui transferido para Betim e ali permaneci por quase três anos, na paróquia São Francisco. (A torre com coroa é daquele tempo!) Retornei à Bahia e, juntamente com frei Venâncio, trabalhei, por três anos, na paróquia de São Sebastião, em Teixeira de Freitas. Também com ele, mais três anos, em Alcobaça. Depois chegaram os mineiros frei José Silva, frei Moisés e por fim frei Geraldo, junto com frei João José. De qual lugar mais gostei? De todos. De Alcobaça, um pouco mais, porque ela me presenteou com a praia. Todos os dias ando, corro e nado, durante uma hora. Se não sou brasileiro sou “baianopraiano”! RSC: Depois de 60 anos de ministério presbiteral, como o senhor avalia a realidade eclesial em nossos dias? Frei Elias: Ao que me parece, hoje é mais difícil navegar entre “Skylla e Caribdes”, monstros mitológicos (rochas submersas) no estreito perigoso entre Sicília e Itália. A Skylla da tentação carismática sem espinha dorsal e a Caribdes do tradicionalismo apoiado no Direito Canônico, que se abraçam nestes tempos da “pós-pós-modernidade” para formar a espiritualidade do novo milênio. Também me parece difícil reco- nhecer que nas igrejas - ainda cheias - faltam as grandes massas de trabalhadores, estudantes e universitários, que têm seus templos no Estádio, nas Lan-houses, nos Shoppings e nos Shows. A Igreja Católica está reduzida a 50% da população, me parece. Na matriz de Alcobaça tem, neste ano de 2011, dez crianças se preparando para a Primeira Comunhão. RSC: E na Holanda? Não é fácil crer que o Espírito Santo é ecumênico por definição. Mesmo nestes tempos, em que o protestantismo atinge em cheio a América Latina, porém, com um atraso de cinco séculos. Frei Helano, em sua obra: Nossas paróquias de Caravelas, Alcobaça e Prado (BA) Cascadura e Cavalcante (RJ), na página 11, citando frei Celestino, fala sobre Alcobaça: “Sua população é católica, não existindo nenhuma seita nem culto estranho.” Eu penso que lá acontece o que aconteceu com o pé de frutapão no pátio do nosso Centro de Formação de Alcobaça: num certo momento, fomos obrigados a sacrificar a árvore centenária (chorando, mesmo que ainda não se falava em Direitos Humanos e respeito pela Criação). Mas, veja só, pela raiz brotou um novo pé, no lugar certo, agora crescido e dando frutos bons. É o que vejo hoje com o aparecimento de ONG’s, grupos de entre-ajuda, de proteção ao meio ambiente, gente nova que prefere a bicicleta ao carro, grupos de Direitos Humanos, Partido Verde, de Jovens de Taizé, Médicos sem Fronteiras, voluntários de toda plumagem. Vamos arrancar o mato que cresce dentro do trigo? A razão das mudanças? A consciência da liberdade, a liberdade da consciência. Afinal, o Espírito sopra onde quer e ninguém o segura. Como é bonito! Precisa só crer. Quando eu cheguei ao Brasil, em 1966, havia em Alcobaça só uma igrejinha “crente”, do PrefeitoFundador-Presidente Amasias, a Igreja do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta não existe mais, mas em contrapartida, houve uma proliferação de crenças, de modo que não há mais uma rua que se preze sem ao menos ter uma igrej(inh)a “evangélica”. Louvado seja Deus! Fazer o quê? Frei Elias: A última vez que estive na Holanda foi em 2009. Lá, a Igreja está devagarzinho, aprendendo que sua vocação é: realizar o Reino, pequeno como a semente de mostarda, invisível como o fermento, acreditando no Espírito que sopra onde quer. Revista Santa Cruz - 59 FREI MARCOS MONTEIRO del-Rei, convivia muito com os fra des, de tal forma que me encantei com a vida deles. Pedi a eles que me levassem para ser frade. Conversaram com minha mãe e ela aceitou sem problemas. Assim, iniciei, em fevereiro de 1937, meus estudos no Seminário Santo Antônio, em Taquari, no Rio Grande do Sul. RSC: Frei Marcos, conte-nos um pouco de sua infância. Frei Marcos: Eu tenho poucas lembranças de meus primeiros anos antes de ingressar, aos 10 anos de idade, no seminário menor em Taquari (RS). Tive uma vida normal, com meus irmãos e minha mãe, porém sentia a ausência de meu pai, já que ele veio a falecer quando eu era muito novo. Depois que fui ser franciscano, só retornei à casa de meus familiares aos 18 anos. Eles se espantaram ao me verem de farda. Achavam engraçado um seminarista de farda. Naquela época tinha essa mania de nos fardar. RSC: Qual ou quais foram suas motivações para o senhor querer ser franciscano? Frei Marcos: Por ser de São João 60 - Revista Santa Cruz RSC: Como foi seu processo de formação inicial? O que senhor se recorda do tempo de seminário? Frei Marcos: Normal. Eu me lembro que tinha muitas saudades de minha família nos primeiros anos, mas ao longo do tempo fui me acostumando. Também me recordo dos momentos de esporte que havia em Taquari. Fazíamos times de futebol com vinte meninos e jogávamos no campo. Lembro- me que era uma bagunça quarenta meninos jogando ao mesmo tempo. Outro fato de que me recordo é que, durante o período da 2ª Guerra Mundial, muitos dos gaúchos de origem alemã que estudavam conosco eram a favor dos exércitos alemães e entravam em atrito com os mineiros, que apoiavam os franceses. RSC: O senhor poderia destacar os principais lugares por onde viveu como frade? Frei Marcos: Após Taquari, fui fazer o Noviciado e a Filosofia em Daltro Filho. Após minha primeira profissão, fui morar em Divinópolis para cursar Teologia onde professei solene. Depois de ser ordenado padre, fui morar em Santos Dumont como professor de Latim, Português e Ciências Naturais no Seminário Seráfico Santo Antônio. Morei também, por muitos anos, cerca de vinte, na paróquia São Miguel e Almas, como vigário rural, atuando nas comunidades ao redor de Santos Dumont. Morei também em Pará de Minas, Monte Belo e Ubá. Por fim, voltei a Divinópolis e me encontro atualmente em Belo Horizonte. RSC: Frei Marcos, ao longo de todos estes anos, qual foi a sua maior alegria? Frei Marcos: Sem dúvida, tive muitas em minha vida. Mas, o fato que me marcou profundamente foi minha ordenação na igreja de São Francisco das Chagas, em Carlos Prates (BH). Senti-me realizado, foi um sonho de criança que se concretizou. RSC: E sua maior dificuldade? Frei Marcos: Não tive muitas dificuldades, mas o que me deixou muito triste foi, sem dúvida, minha transferência da cidade de Monte Belo para Ubá. Gostava muito do povo da paróquia de Monte Belo. Foi muito difícil presenciar a entrega daquela paróquia do Sul de Minas. RSC: Para finalizar nossa conversa, o que senhor gostaria de dizer aos demais confrades da Província Santa Cruz? Frei Marcos: Que cultivem a vida fraterna, pois ela é fundamental para a vida franciscana. Ela não é mentira, acontece mesmo. Todos nós somos irmãos de fato. E que nunca deixem de procurar vocações, pois os novos irmãos darão continuidade ao projeto franciscano de viver o Evangelho, aqui em Minas Gerais e no extremo sul da Bahia. Revista Santa Cruz - 61 FREI LOURENÇO TOLLENAAR RSC: Frei Lourenço, fale um pouco sobre sua origem e família. Frei Lourenço: Nasci na crise de 1929, em Haarlem, na Holanda. Sou o mais velho de cinco irmãos. Meu pai era um pequeno comerciante de laticínios. Na época, em minha região, conviviam pacificamente católicos e protestantes, embora separados. Minha família era de tradição católica. RSC: Como surgiu a vocação Franciscana? Frei Lourenço: Desde menino vivenciei várias experiências que contribuíram para definir minha opção por ser padre. Estudei no Seminário Diocesano, pois já sentia o desejo pela vida religiosa. 62 - Revista Santa Cruz Com a Segunda Guerra Mundial, o seminário foi ocupado pelos alemães e, mais tarde, foi fechado. Esse episódio esfriou meu desejo e interesse de seguir minha vocação. Assim, prestei serviço militar, trabalhei com meu pai, namorei..., mas a ideia de ser padre persistia. Fui estudar no Colégio Santo Agostinho, onde um padre me orientou sobre a vida religiosa. Encontrei-me também com um frade franciscano que me relatou toda sua vida religiosa. Identifiqueime com ele de imediato. Foi o “empurrão” que faltava para eu me definir. RSC: Quando chegou ao Brasil? Sua primeira transferência? E como se deu o processo de adaptação a um novo país? Frei Lourenço: Cheguei ao Brasil em outubro de 1957, no Rio de Janeiro, e logo fui enviado para trabalhar em Abaeté. A adaptação foi muito fácil, com exceção da língua portuguesa. A alimentação, o clima tropical, a alegria, a receptividade e o acolhimento do povo brasileiro foram fatores que muito contribuíram e facilitaram para minha adaptação à nova terra. RSC: Em 1958, o senhor iniciou o curso de teologia em Divinópolis. Fale sobre sua experiência en- quanto estudante. Frei Lourenço: Foi uma experiência muito rica e gratificante. Frei Aloísio Lorscheider foi ótimo como professor e mestre. Orientava e acompanhava os jovens estudantes com muita sabedoria, princípios éticos e cristãos. Em uma visita à Europa, visitou meus pais, na Holanda. Um aspecto negativo: o sucessor de frei Aloísio foi frei Mateus, como professor de Direito Canônico era ótimo, mas como mestre não me agradava. RSC: Como foram os primeiros trabalhos como padre, em Belo Horizonte? Frei Lourenço: Em Belo Horizonte, fiz o curso de “Pastoral”. Quem ministrava as aulas de como administrar uma paróquia, como fazer uma pregação era frei Bruno. Nesse período, trabalhei alguns meses em Salinas, substituindo um padre que saiu de férias. Era um trabalho mais sacramental, principalmente celebrando missas. RSC: Em 1964, o senhor foi transferido para Teófilo Otoni, como “Vigário Cooperador”. Conte-nos sobre seu trabalho nesta cidade. Frei Lourenço: Trabalhei em Teófilo Otoni com frei Felipe que, pos- teriormente, foi nomeado bispo de Caravelas (BA) e foi substituído por frei Cristiano. O trabalho inicial era a pastoral sacramental, se estendendo mais tarde à assistência a uma escola profissionalizante (produção de vassouras, dentre outros). Trabalhei também no Albergue frei Dimas, assistindo a idosos e crianças. RSC: E sua presença em Pirapora? Frei Lourenço: Pirapora foi muito agradável. Convivi e trabalhei com frei Ronaldo Zwinkels, que hoje reside em Divinópolis e com frei Valério e frei Bento. Trabalhávamos muito para atender a toda demanda paroquial. Viajávamos com bastante frequência para celebrar nas comunidades rurais. Nessa cidade aconteceu um fato muito divertido: uma vez caí de uma cascata e machuquei as costelas, então passaram esparadrapos e faixas no meu peito. Quando foram retirá-los, eu gritei muito, pois, junto com os esparadrapos, saíram também os cabelos do meu peito. RSC: O senhor foi diretor do INFORMAC. Fale-nos algo sobre essa nova atividade. Frei Lourenço: O Instituto de Formação e Cultura (INFORMAC) nasceu por iniciativa de frei Ri- Revista Santa Cruz - 63 cardo. Consistia na ampliação do já existente curso de religião por correspondência. Ampliando essa atividade, o INFORMAC tinha a proposta de oferecer também cursos de profissionalização, difundir a cultura católica através de publicações, cursos e conferências. Mais tarde, com a saída de frei Ricardo, o INFORMAC ficou entregue aos leigos que com ele trabalhavam. Essa mesma equipe, percebendo que o INFORMAC não caminhava bem, resolveu fundar, ao lado, uma editora de livros didáticos (Vigília), com perspectivas mais lucrativas. Em 1966, o ministro provincial frei Erardo Veen me convidou para ser o diretor do INFORMAC. Inicialmente eu não queria aceitar, pois o Instituto estava falido e eu não tinha ideia do que fazer com ele. Com o incentivo de frei Ronaldo Zwinkels, resolvi aceitar o desafio de reerguê-lo. Entregaramme então: móveis, equipamentos e materiais que estavam no porão da Igreja São Francisco, mas quase tudo era sem utilidade, pois estavam muito velhos, estragados e desatualizados. Depois nos transferimos para o Colégio Santo Agostinho. Nosso enfoque eram as publicações litúrgicas. Um sucesso de Norte a Sul do Brasil! Era uma espécie de liturgia diária, adotada em muitas paróquias. Nossas pu- 64 - Revista Santa Cruz blicações atingiram cinco mil exemplares/mês. Eram solicitadas em Portugal e Angola. A colaboração de muitas pessoas foi decisiva para todo esse sucesso, dentre elas: Vicente de Paula Viotti, frei Luiz Fernando, frei Adriano, frei Antônio do Prado, frei Antonio Vicente e frei Raul, que era o redator chefe. Toda essa equipe que ajudei a coordenar com entusiasmo e dedicação, produziu muitos frutos, contribuindo, inegavelmente, para a renovação da Igreja. E o sucesso continuava. Muitas editoras como a Vozes, espelhando-se em nosso trabalho e com mais recursos, passou a ser nosso forte concorrente. Frei Diogo, ministro provincial da época, recomendou-nos, então, que paralisássemos as atividades do INFORMAC. Mais tarde, a editora Vozes também não mais publicava seus folhetos. A editora Paulus assumiu esse trabalho, produzindo o folheto dominical e, bem mais tarde, a “Liturgia diária”. RSC: Em Ribeirão das Neves, o senhor trabalhou como Capelão do Presídio de Neves e Contagem. Como foi essa experiência? Frei Lourenço: Eu gostava desse trabalho. Percebi, no entanto, que o problema não estava só nos detentos, mas nos funcionários também. Eram despreparados e desinteressados para exercer essa função. Os presos não recebiam atendimento psicológico, não lhes ofereciam nenhum curso dentro do presídio etc. Além de celebrar as missas, eu procurava contribuir de forma diferente para a sua formação: levava produtos para fabricação de artesanatos e revistas de informação. Por volta do ano de 1993 (não me lembro ao certo), trabalhando em Ribeirão das Neves, fui feito refém numa rebelião, mas nem isto me fez desistir de trabalhar com os presos. Pegando um gancho nesta passagem da minha vida, quando eu morava em Areias, lembro-me também do meu trabalho na Fazenda Renascer (em Pedro Leopoldo), prestando assistência a dependentes químicos. RSC: E a ARPEMA? Frei Lourenço: A ARPEMA (Artefatos de Pedras e Madeiras) foi criada em 1974. Era uma firma de artesanato de madeira e pedras semipreciosas. Sua proposta era, sobretudo, a profissionalização de jovens da região. Contava com cerca de 40 funcionários. Tivemos êxito durante sua existência, mas, por razões diversas, suas atividades foram encerradas há cerca de cinco anos. RSC: E a sua atividade pastoral em Ibirité? Frei Lourenço: Cheguei a Ibirité em 1968 e, atualmente, trabalho com cinco comunidades: São Judas Tadeu, Maria dos Remédios, Bom Pastor, São Francisco de Assis, São João Batista. RSC: Celebrando 50 anos de ministério presbiteral, como o senhor avalia sua caminhada ao longo desses anos? Quais são os planos para o futuro? Frei Lourenço: Não me entusiasmo muito por festas e comemorações. Quando cheguei a Ibirité, a cidade tinha 15 mil habitantes aproximadamente, hoje são cerca de 200 mil. Com o crescimento e o desenvolvimento, as cidades vão se tornando perigosas e os desafios são cada vez maiores. Apesar da deficiência visual acentuada, e de ter me privado de algumas atividades, considero minha qualidade de vida muito boa. Minha história em Ibirité começa na Fazenda do Rosário (fundada por Helena Antipoff – 1940), a convite de frei Feliciano. Fui o último franciscano, numa fileira de sete a prestar serviços a essa Instituição, depois de frei Bruno, frei Ricardo, frei Teófilo, frei Eduardo Copray e frei Justino. No plano social, meu enfoque continua Revista Santa Cruz - 65 sendo o incremento da produção de produtos hidropônicos, plantas medicinais com extensão em produtos orgânicos. A renda é pequena, mas o objetivo é a utilização do terreno e a geração de empregos. Tenho toda uma estrutura pronta. A possibilidade de intercâmbio com a Faculdade de Viçosa e a proximidade da Fundação Helena Antipoff - agora transformada em Faculdade, tendo em seu currículo o curso de biologia -, são fatores que me entusiasmam a continuar investindo nesse projeto. Gostaria ainda de acrescentar, encerrando esta entrevista: com a extinção de ARPEMA, criamos, em 66 - Revista Santa Cruz 2006, uma Associação de nome COLMEIA, que objetiva várias atividades sociais e espirituais, principalmente a missionariedade. Meu interesse é possibilitar a formação de leigos, de sorte que eles contribuam na missão, inclusive “ad gentes”. Um exemplo da capacidade dos leigos está na religião islâmica que vem crescendo rapidamente na Europa, e todo o trabalho é realizado por leigos e não pelo clero islâmico. Finalmente, estou ciente de que não verei a realização de meus planos. Deixo-os como fonte de inspiração e realização para aqueles que por eles se interessarem... MEMÓRIA Esta seção traz a segunda e última parte dos “apontamentos” sobre a presença centenária dos franciscanos em Jequitinhonha e ainda uma ‘meditação’ manuscrita encontrada no livro da “Liturgia das Horas” de frei Egídio Söntjens. 1. UM SÉCULO DE PRESENÇA FRANCISCANA EM JEQUITINHONHA - 2 (APONTAMENTOS) Sheila A. N. Lunkes E a história da presença franciscana em Jequitinhonha continua sendo contada por alguns de seus vigários (párocos): Revista Santa Cruz - 67 FREI LETÂNCIO VASKE Num relatório de 1940, frei Letâncio informa: A cidade conta 4 a 5 mil habitantes, todos batizados catolicamente. Vida religiosa monótona e indisciplinada, razão de eu não conseguir criar um movimento religioso animador. A instrução nas nossas poucas escolas é deficiente, dificultada ainda pela incúria dos pais. Mesmo o fazendeiro rico pouco se interessa pelo que passa longe da sua fazenda. Se chover a tempo e o boi tiver bom preço, tudo vai bem. Pela generosidade do povo conseguimos manter na cidade o hospital, havendo no fim do ano passado um bom saldo favorável. Os trabalhos do acabamento da Matriz continuam. Há alguns meses terminou o reboco por fora... o telhado foi novamente revistado, devido às suas múltiplas goteiras. Os núcleos de catecismo se suprimiram e se fundiram num só, com instrução do vigário, seguida pela Santa Missa recitada 68 - Revista Santa Cruz com assistência das catequistas. O ensino religioso no Grupo não sofreu alterações. Em primeiro de novembro tivemos a ventura de assistir à “missa nova” de frei Osório da Silva Santos, em Felisburgo; é ele o primeiro sacerdote franciscano desta freguesia. Parece que este fato único tenha impressionado a população e daí nutrimos a esperança que haja o início de verdadeiro interesse e real cooperação. Em 1942: [...] “Ainda há pouco progresso espiritual; uma das causas vejo no espírito ainda não extinto da velha politicagem, outrora aqui famosa como forte, quente, fervente. Paralisada agora essa atividade - do sangue e da raça - agora cansaço... um sono prolongado, do qual, de vez em quando, acordam para dançar e divertir- se um pouco no meio de um barulho carnavalesco. O número de comunhões aumentou uns 10%; foi instituída a Cruzada e uma espécie de ‘O sino paroquial’ vai ser editada a partir de janeiro, a menos que a nova lei da imprensa no-lo proibir. Ficando nosso trabalho restrito à freguesia de Jequitinhonha só, poderemos dar mais atenção à grande localidade de Joaíma. Jequitinhonha, pra frente!... “Em janeiro de 1942 começou a circular ‘O Sino de Jequitinhonha’, uma folha em 8º, impressão nítida, em papel pergaminho sem marca!... Aos freis e aos paroquianos nossos parabéns! (Santa Cruz, 1942, p. 18). Em 1944, logo no começo do ano, como bom filho, frei Floriano voltou para Jequitinhonha: bem vindo! No fim de 1943 chegou frei Celestino van de Kerkhof, então coadjutor e que trabalhava em Barracão, Felizburgo, Monte Belo e Joaíma, um telegrama do superior nomeando-o para Araçuaí. Em seu lugar veio o nosso velho conhecido frei Floriano, robusto, risonho e disposto a continuar as obras da nova capela, já começadas, em Joaíma. Na matriz, houve poucos melhoramentos; movimentos espirituais bem acentuados na catequese, no Grupo e na Matriz, e nas Associações da Cruzada e das Filhas de Maria. Ainda muitos homens afastados: rancor político, respeito humano, certos vícios. Forçar? Vamos trabalhando para um catolicismo mais militante. Contudo, não queremos teimar em ter razão. O bem na freguesia seja feito de modo que for e por quem que seja. No relatório de 1944, frei Letâncio confessa que ainda não pode gloriar-se “de nenhum triunfo espiritual”. Materialmente vai tudo muito bem. Frei Floriano entende da arte de lidar com o povo de Joaíma e na festa de São Sebastião sobraram 30.000 cruzeiros para a igreja em construção. Na nossa matriz e no hospital houve mais uns melhoramentos. Em 1946, ao alegar provas em favor da bondade desta terra, a mais eloquente talvez seja de que vigários e coadjutores quase sempre se retiram daqui com pesar, levando consigo muitas saudades. Atribuo a frouxidão da nossa vida religiosa pela maior parte à influência da malfadada reinante “política” que é tão assimilada que parece criar um ídolo, com cara de doido, a quem apaixonadamente tudo é sacrificado: bom senso, felicidade doméstica, decência cívica, mesmo pátria e religião. Em Joaíma, frei Floriano exerce seu apostolado, querido e amado pelo povo. Em fins de 1946, houve finalmente (por causa da guerra) o Capítulo Provincial na Holanda. Logo depois, frei Rufino se reuniu com seus conselheiros, organizaram muitas transferências. Frei Letâncio (começo de 1947) foi transferido para Teófilo Otoni e, em seu lugar o novo vigário de Jequitinhonha, frei Joaquim van Kesteren e frei Floriano, encarregado de Joaíma. No fim de dezembro de 1949, houve nosso primeiro Capítulo Provincial com novas mudanças: Revista Santa Cruz - 69 Frei Gotardo Boom vigário e frei Floriano, encarregado da quase paróquia Joaíma. FREI EMILIANO SOEDE Falando do hospital, frei Emiliano assim se expressa: “O Município de Jequitinhonha já era emancipado quando um ‘Grupo de Cavalheiros’ fundou a Associação Hospital São Miguel. Isso se deu no dia 1º de janeiro de 1918 e a cidade tinha somente uma rua de cima e uma rua de baixo e, entre elas, a Igreja Matriz (antiga). A população era muito menos de mil. Em 1923, cinco anos depois da fundação da Associação, foi inaugurado um pequeno prédio com quatro quartos grandes, uma cozinha e uma pequena sala de curativos, exames, farmácia. Um médico: Dr. Cordeiro, que cuidava dos doentes pobres. Parece que os ‘cavalheiros’ não tinham muito 70 - Revista Santa Cruz interesse e talvez também não muito jeito de angariar esmolas para a manutenção do Hospital. As ‘senhoras’ deles podiam muito bem fazer esse serviço. O vigário da paróquia, com medo de ver afundada esta bela iniciativa, criou, então, a Associação das Damas de Caridade com a finalidade de manter o hospital em benefício dos doentes pobres. Assim, os padres da paróquia entraram nas atividades do hospital. Os ‘cavalheiros’, vendo o interesse do padre, acharam tudo muito bom e se criou assim o costume de eleger o vigário como provedor do hospital. Eles, por sua vez, ficaram livres dessa penosa responsabilidade e também, politicamente, ninguém tira proveito de um hospital somente para pobres. A política passou para as Damas de Caridade e a desunião era tão grande que a manutenção da casa de saúde correu perigo, e mais vezes era necessário um apelo ao vigário para acabar com as brigas porque a caridade não podia acabar. Dez anos depois da criação das Damas de Caridade, a paróquia, sob direção de frei Querubim e de frei Virgílio, conseguiu aumentar o hospital com uma casinha para os tuberculosos e mais duas enfermarias. Isso foi em 1936, mais dez anos, em 1946, outro aumento: uma maternidade construída quando frei Letâncio era provedor. Depois foram eleitos uns provedores‘leigos’ e um deles levantou a ideia de construir um hospital regional. Em 1957, a política era favorável para ganhar verbas, a cidade cresceu com quase cinco mil habitantes e outras cidades vizinhas não tinham nem posto de saúde. A ideia foi para frente e foram colocados todos os alicerces para um hospital de 80 leitos. Mas, em 1958, a política mudou. O médico da cidade e responsável pelo hospital abandonou os seus clientes e foi para a capital. Frei Edgar, então, assumiu o cargo de provedor, mas as verbas sumiram, muito material roubado, um vice-provedor que não tinha nenhum interesse em continuar o hospital novo, porque era uma obra do seu adversário, tudo isso levou à conclusão: parar as obras do hospital novo e reformar o hospital velho, que de fato já era uma ruína. Assim era a situação quando cheguei a Jequitinhonha, em 1962: nem Hospital novo, nem Hospital velho porque o prédio estava fechado para reforma. Quando em 1964 terminou a reforma, fui eleito provedor do hospital e poucos dias depois abrimos o hospital para receber as vítimas das enchentes. Não era fácil manter o hospital porque não tinha nada, nada mesmo. Tudo foi roubado, estava lá só o prédio reformado com algumas camas velhas e uns instrumentos enferrujados. Superamos tudo e conseguimos um funcionamento regular dessa casa que abrigava os doentes mais miseráveis. Regularizamos a situação perante os órgãos federais e estaduais e reformamos os Estatutos. Esse hospital, quase cinquentenário, nunca teria condições de receber doentes de outras classes da sociedade a não ser pobres. Um hospital com mais médicos e mais recursos seria importante para toda a população. É com essa intenção que continuamos, em 1967, a construção do ‘Hospital Novo’. Com pequenas contribuições do povo, com a sobra da verba do Fundo Rural e mais outros subsídios estaduais, conseguimos levantar tantos cômodos que, no início de 1970, era possível mudar do velho para o novo hospital. Em 1969-1970 foi feita uma grande campanha no meio do povo da cidade, ao mesmo tempo elaboramos um projeto pedindo recursos à Alemanha e à Holanda. Com todos esses recursos, conseguimos construir um hospital de oitenta leitos, mais ou menos sofisticado, o maior e melhor da região. No fim de 1972, ficou tudo pronto para a instalação oficial que, de fato, nunca houve, porque naquela Revista Santa Cruz - 71 época estávamos numa disputa muito grande. Quando chegaram as primeiras verbas do exterior, o novo hospital começou a ser muito cobiçado como um elefante branco. Uns achavam que o hospital podia ser uma boa fonte de renda, outros queriam fazer do hospital um instrumento político. Houve então a luta pelo poder. Nossa convicção foi sempre de que, com a entrada da política, o hospital não ia sobreviver e por isso ficamos firmes e não entregamos o hospital. Fizeram todo o possível para me afastar do hospital, houve muita perseguição e desaforos, mas afinal ganhamos a causa na justiça. Não que tudo tenha terminado, porque com um médico, filho da terra, dentro do hospital continuou ainda a mentalidade de ganância e politicagem. Com o afastamento dele e de mais outro médico no fim de 1978, veio a tranquilidade sobre o hospital e começou a funcionar melhor. Eliminado o perigo de influência política, chegou a hora de o padre se afastar da direção do hospital. O que se deu em 1979. Ficamos como provedor e administrador de 1964 a 1972. Quando o Hospital cresceu, separamos essas duas funções, e fiquei somente como administrador até 1979. Agora está tudo nas mãos de leigos e vai muito bem. Com uma 72 - Revista Santa Cruz boa equipe médica e uma turma zelosa de enfermeiras e quase todos os convênios. O hospital há de crescer e já estão falando em aumentar o prédio com uma ala especial para doenças contagiosas. O único elo que liga a Igreja ao hospital é o fato de o vigário da paróquia ser membro do Conselho Superior. Este Conselho escolhe, a cada dois anos, os membros da Diretoria. Assim, com um terço dos votos, a Igreja pode zelar pelo bom funcionamento e orientação certa no Hospital”. Outra grande atividade social desenvolvida pelos franciscanos em Jequitinhonha foi a Rádio Santa Cruz. Frei Emiliano também deixou registrado, nas páginas da Revista Santa Cruz de 1986, como se deu a fundação dessa emissora: “Fundada em 1966 como Sociedade Limitada, tendo três dos nossos confrades como cotistas, a Rádio Santa Cruz passou, em 1978, a ser uma fundação, tendo o Bispo de Araçuaí como responsável, e com o direito de indicar o presidente e o vicepresidente da fundação. Atualmente o bispo de Almenara é o presidente da fundação, e o vice-presidente e os diretores-assistentes são leigos de Jequitinhonha ligados à Igreja. Quando a emissora passou da Província para o Bispado de Araçuaí, o bispo Dom Silvestre pediu para os franciscanos tomarem conta da Rádio enquanto estiverem em Jequitinhonha. A finalidade da Rádio Santa Cruz pode ser expressa em duas palavras: “educacional e vocacional” ou também “promoção humana”. Nos primeiros cinco anos, o acento da nossa programação caiu na educação, instrução e informação; depois se destacou mais o serviço pastoral e, nos últimos cinco anos estava em primeiro lugar a promoção humana e conscientização, com um acento especial na defesa dos direitos humanos. Nos próximos cinco anos, a programação será dedicada à informação dada pelos próprios ouvintes; principalmente os pobres e injustiçados têm de contar a sua própria história. Tentamos assim chegar a uma conscientização dos graúdos, principalmente em relação à reforma agrária, conseguir soluções pacíficas, melhorar o entendimento e chegar a mais fraternidade. A instalação da Rádio Santa Cruz é, sem dúvida, uma das melhores do interior de Minas. O estúdio é construído no terreno da casa paroquial e é puramente funcional, sem enfeites e luxo. O lugar da antena e a casa dos transmissores ficam fora da cidade. Numa cidade como Jequitinhonha os recursos humanos são sempre escassos, principalmente no início das nossas atividades, quando a emissora entrou no ar em janeiro de 1971. Para recrutar o pessoal, abrimos mais vezes um concurso com tarefas específicas. Usamos o método de desclassificação dos menos capacitados. Para os dez últimos candidatos houve um curso prático de radiodifusão. Nos primeiros anos, a nossa programação era muito rígida. Depois de alguns anos, os próprios funcionários pediram mais liberdade na locução. Excluindo alguns abusos, deu muito certo essa experiência. Sempre a emissora está aberta para qualquer ouvinte que queira dar seu recado ou queixa, seja por carta, telefone ou pessoalmente. Como os recursos humanos são difíceis, assim também a manutenção encontra os mesmos problemas: cidade pequena, comércio fraco, predominância da agropecuária, sem indústrias, muita pobreza e grandes riquezas em poucas mãos, tudo isso não é ideal para a manutenção de uma emissora. Trabalhando, porém, com um mínimo de pessoal remunerado, deu para sobreviver. Houve uns anos em que devíamos reduzir o ho-rário de funcionamento, mas no fim voltamos ao horário normal. A Província prometeu ajudar na manutenção, pagando o salário de um técnico do equipamento e do Revista Santa Cruz - 73 gerente da emissora. Achamos que a Rádio Santa Cruz cumpriu e está cumprindo a sua missão de levar o homem para mais perto de Deus. Sei que diversos confrades não estão de acordo que nos dediquemos aos meios de comunicação, mas o fato é que todos usam um ou outro meio para se comunicar: um jornal paroquial, um projetor de slides ou até vídeo-recorder. E quem não tem um serviço de alto falantes na sua igreja? Nossa voz humana não tem força para chegar ao fundo das igrejas onde os fiéis têm o costume de se esconder, por isso um sistema de som é muito prático e eficiente. E qual a finalidade de um alto-falante nas torres das igrejas? Uma emissora de rádio é um prolongamento de um alto-falante e penetra todos os lares para receberem a mensagem cristã. Pela estatística, sabemos que qualquer emissora tem pelo menos 10.000 ouvintes. Quem já encheu a sua igreja com 10.000 fiéis? Somos massacrados pelo mau uso dos meios de comunicação e quantas vezes nós mesmos somos as vítimas! Por que, então, não fazer um bom uso do poder que temos em nossas mãos? Depois de quinze anos de prática com a Rádio Santa Cruz, conhecemos a força que a Igreja tem nas mãos, e o bem que faz ao povo de Deus, e como é uma ajuda 74 - Revista Santa Cruz inestimável para o vigário no seu serviço pastoral. Quando a estação está nas mãos da Igreja, ninguém pode impedir a nossa palavra, temos toda a liberdade, porque a Palavra de Deus deve ser pregada oportuna e inoportunamente”. FREI ADALBERTO LAU “Depois de ter trabalhado 19 anos em Nanuque, ocupando a maior parte de meu tempo com o ensino, moro desde o ano passado (fevereiro de 1975), no Vale do Jequitinhonha, na cidade do mesmo nome. Tantos homens nobres e santos ocuparam o cargo de vigário nesta paróquia! Frei Flaviano van Liempt (1922-1926); frei Querubim Breumelhof, que construiu a matriz e a casa paroquial entre os anos de seu glorioso vicariato de 1926 a 1939. E depois, frei Letâncio Vaske (1939-1947); frei Joaquim van Kesteren (1947-1950); frei Gotardo Boom (1950-1959); frei Edgar Groot (1959-1962); e frei Emiliano Soede (1962-1975). E antes destes vigários todos, já trabalhava na cidade e na região o frei Samuel Tetteroo. Já alguns anos vivia e trabalhava frei Emiliano, sozinho na paróquia, além de uma emissora de rádio e um hospital. Não podia dedicar às três obras a atenção que cada uma delas merecia. Ele me ofereceu a escolha entre a Paróquia e o combinado Rádio/Hospital. Escolhi a Paróquia. Mas repartimos fraternalmente as missas na Matriz e em Joaíma. E todo dia falo pela Rádio. Estou gostando muito daqui, do povo da cidade e da roça, do ambiente, tanto em casa como no meu trabalho. Não deixei o ensino totalmente, porque vou duas noites por semana ao Colégio Estadual para ensinar um pouco de Religião e Química no 2º grau. Também dou sempre uma mãozinha ao Mobral. Com mais seis homens fiz, no mês de outubro do ano passado, o cursilho. O grupo cresceu e já somos 14 pessoas. E neste mês de fevereiro realizou-se outro sonho: chegaram as Irmãs; uma pequena comunidade de quatro irmãs da Congregação das Irmãs da Santíssima Eucaristia (as de Pirapora), das quais duas são capixabas e duas mineiras. Elas ajudam no Hospital e no Colégio, mas todas elas atuam na pastoral direta. O Plano Pastoral da Diocese de Araçuaí tem como objetivo específico, para o biênio 76/77, multiplicar e desenvolver as Comunidades Eclesiais de Base na roça e na cidade, geográfica e ambientalmente falando. Principalmente na roça é a religião que une mais facilmente o povo. E, por isto, procuramos - em geral criar pontos de Culto Dominical, cada um com seus dirigentes, para então partir daí a caminho de uma “Comunidade”. Até agora já funciona o Culto Dominical em quatro pontos da cidade e em onze pontos na roça. Quase sempre aos domingos aproveitamos a tarde para visitar um dos cultos. Uma das Irmãs já está dando aula de canto pela Rádio. Após multiplicar e distribuir folhetos com os cantos. Para conseguir isso, sofreu a casa paroquial uma reforma bastante grande. Quase a metade agora se destina aos serviços ‘públicos’ paroquiais. Funcionam a comunicação, gabinete do agente de pastoral, secretaria, salãozinho de reuniões e instalações sanitárias. Foi feita também outra entrada para a casa paroquial, a saber, no beco entre a Matriz e a casa. Já que esse beco não tem nome ainda, batizei o endereço da Casa Paroquial: Beco do Padre s/n. Isto obedecendo a uma tradição local de dar apelido às ruas. Revista Santa Cruz - 75 Graças a uma campanha financeira - antes da crise atual - conseguimos colocar bancos novos na Matriz, trocar nove janelas fixas por basculantes (movimento já iniciado por frei Emiliano), abrir mais duas portas laterais, construir um altar fixo e realizei mais algumas mudanças. As três capelas da cidade foram consertadas e estão sendo usadas tanto para o Culto Dominical como para o Mobral. Pertencendo já ao Lions Club, não encontrei este clube aqui. Encontrando o Rotary, achei bom aceitar o convite de nele entrar. Entre os vários motivos, cito um: melhor entrosamento na sociedade, parte integrante da paróquia. O ambiente da casa é muito bom. Frei Emiliano é um bom companheiro que, graças a sua vasta experiência na região, representa um apoio forte. A Província está vivinha, em Jequitinhonha. Porque não nos interessa só passado franciscano do Vale. Vamos lutar por um futuro glorioso”. E a vida continua... Outro projeto relevante que vem sendo realizado na Paróquia São Miguel e Almas, em nossos dias, é o “Projeto de Alfabetização Reveja”. A ideia de criar um movimento de alfabetização de jovens e adultos se deu em 2001, quando os frades perceberam o alto índice 76 - Revista Santa Cruz de analfabetismo e a baixa escolarização existente na cidade e região, sobretudo na zona rural. A proposta de alfabetização, a partir do método de Paulo Freire, inclusive no aspecto da evangelização, foi o ponto de partida. Os objetivos do Reveja são: - Fornecer, ao lado das iniciativas do poder público, uma oferta de educação básica para jovens e adultos que são excluídos do sistema regular de ensino, favorecendo, assim, o pleno e efetivo exercício da cidadania. - Contribuir na criação de oportunidades para que todos possam ter uma vivência participativa e democrática nos espaços organizados da sociedade. - Desenvolver experiências pedagógicas alternativas, visando à permanência, ao aproveitamento, à progressão e à posterior inserção no ensino regular. E suas Dimensões: - Psicológica: resgate da autoestima; respeito e valorização da individualidade; (auto) confiança; liberdade de expressão; autoavaliação; consciência crítica. - Política: identidade e cidadania; liberdade e democracia; construção da sociedade de maneira participativa. - Pedagógica: construção e valo- rização do conhecimento; elaboração de um saber popular e formal contextualizado, integrado e interdisciplinar; aquisição da lei- tura e da escrita, proporcionando, assim, uma formação integral em todas as áreas. Vigários (párocos) da Paróquia São Miguel e Almas antes da chegada dos frades: Pe. Manoel Soares de Souza (1830-1843) Pe. Antônio da Costa Melo (1843-1847) Pe. Frei Domingos Casale, ofm cap. (1847-1864) Pe. José Timóteo da Silva (1864-1868) Pe. Emerenciano Alves de Oliveira (1870-1921) *** Vigário (pároco): Pe. Emerenciano (1870-1921) Coadjutores (vigários paroquiais): Pe. Sebastião Ayala (1910-1912) Frei Samuel Tetteroo (1912-1917) - Residia em Joaíma. Frei Feliciano Smitz (1913-1920) Frei Luiz Geldens (1916-1918) Frei Querubim Breumelhof (1917, 1920-1921) Frei Gualberto Schoonhof (1917-1921) Frei Flaviano van Liempt (1917-1921) *** Vigário (pároco): Frei Flaviano van Liempt (1922-1926) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Querubim Breumelhof (1922-1924) Frei Luiz Geldens (1923-1926) Frei Alfredo Waardeloo (1923-1926) Frei Liberto Soppe (1924-1925) Revista Santa Cruz - 77 Vigário (pároco): Frei Querubim Breumelhof (1926-1939) Coadjutores (vigários paoquiais): Frei Alfredo Waardeloo (1926-1930) Frei Letâncio Vaske (1926-1929) Frei Teodoro Ouwendijk (1929-1933) Frei Floriano Groen (1933-1936) Frei Constantino van Rijn (1936-1938) Frei Virgílio Hoogenboom (1938-1939) Frei Teodulfo Kamsma (1938-1940) *** Vigário (pároco): Frei Letâncio Vaske (1939-1947) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Teodulfo Kamsma (1939-1940) Frei Felicíssimo Mattens (1940-1941) Frei Celestino van den Kerkhof (1941-1944) Frei Floriano Groen (1944-1947) *** Vigário (pároco): Joaquim van Kesteren (1947-1950) Coadjutor (vigário paroquial): Frei Floriano Groen (1947-1950) *** Vigário (pároco): Frei Gotardo Boom (1950-1958) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Floriano Groen (1950-1951) Frei Leônides Schoorl (1950-1952) 78 - Revista Santa Cruz Frei Hugo de Podestá (1952) Frei Liberto Soppe (1952-1953) Frei Aurélio Peters (1958) *** Vigário (pároco): Frei Edgar Groot (1958-1962) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Aurélio Peters (1958-1960) Frei Hildebrando van Petten (1960-1962) *** Vigário (pároco): Frei Emiliano Soede (1962-1975) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Marino van Vondelen (1962-1969) Frei Tobias (Hugo) van Steekelenburg (1964-1965) Frei Bento van den Broek (1966-1968) Frei Ismael Lambi (1967-1968) Frei Marino van den Heuvel (1970) Frei Irineu van Tongeren (1971-1972) Frei José Seegers (1970-1972) *** Vigário (pároco): Frei Adalberto Lau (1975-1986) Coadjutores (vigários paroquiais): Frei Emiliano Soede (1975-1986) Frei Marino van Vondelen (1983-1986) Frei Afonso Muré (1984-1986) *** Igreja concluída Revista Santa Cruz - 79 Pároco: Frei Dari Bernardino Pinto (1986-1987) Vigários paroquiais: Frei Eliseu Tijdink (1986-1987) Frei Marino van Vondelen (1986-1987) *** Pároco: Frei Oscar van der Neut (1987-1995) Vigários paroquiais: Frei Emiliano Soede (1987-1989) Frei Francisco Prick (1987-1992) Frei Eliseu Tijdink (1987-1995) Frei José Mauro Lopes – Agente pastoral (1992-1995) *** Pároco: Frei Mário Rodrigues dos Reis (1995- 1998) Vigários paroquiais: Frei Oscar van der Neut (1987-1994) Frei Marino van Vondelen (1995-1997) Frei Eliseu Tijdink (1995-1998) Frei José Mauro Lopes - Agente pastoral (1992-1997) *** Pároco: Frei Eduardo Metz (1998- 2001) Vigários paroquiais: Frei Eliseu Tijdink (1998-2001) Frei Marino van Vondelen (1998-2001) Frei João Bosco Resende da Silva (1999-2001) *** 80 - Revista Santa Cruz Pároco: Frei Antônio Francisco Blankendaal (2001-2004) Vigários paroquiais: Frei Marino van Vondelen (2001 até seu falecimento em 05/03/2003) Frei Pedro José de Assis (2001-2004) Frei João José van der Slot (2001-2004) Frei Donizete Afonso - Diácono (2002-2004) Pároco: Frei Mário Rodrigues do Reis (2004-...) Vigários paroquiais: Frei Pedro José de Assis (2004-2009) Frei Antônio Francisco Blankendaal (2004-...) Frei Donizete Afonso da Silva (2004-2006) Frei Laércio Jorge de Oliveira (2006-2008) Frei Clézio Ferreira de Lacerda – Agente pastoral (2008-2009) Frei Márcio Carneiro Cabral - (2010-...) Frei Fernando Resende da Silva - Agente pastoral (2010 -...) *** Referências: - KOPPEN, Helano. Nossas Paróquias Mineiras. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio Santo Antônio, 1991, p. 11-16 - REVISTA SANTA CRUZ (1936), p. 40, 74-76, 83; (1937), p. 57; (1939), p. 75; (1942), p. 32; (1944), p. 1, 47-49; (1947), p. 25; (1959), p. 15-21; (1962): p. 36, 38,40; (1975), p. 95; (1981), p. 289-292; (1986), p. 278-283; - REVISTA SPI - Serviço Provincial de Informações (1976), p. 16-19. - www.diocesealmenara.org.br Revista Santa Cruz - 81 2. MEMÓRIA DE FREI EGÍDIO SÖNTJENS (+ 17/08/2005)1 Tudo tem seu tempo. Gerações passam, gerações vêm. Eterno é só Deus. A Ele nós rogamos: Que empreguemos bem o tempo da nossa vida; e, de ano em ano, aumentemos em sabedoria, e cresçamos com a graça de Deus. Que sejamos gratos por tudo o que recebemos, humildes nas nossas exigências, equilibrados nas nossas expectativas. Que estejamos presentes nos votos que fazemos, nos presentes que damos, e felizes com as coisas pequenas. 1 Texto manuscrito encontrado por frei Francisco van der Poel (em 23/03/2011), no livro Liturgia das Horas que pertenceu a frei Egídio Söntjens. 82 - Revista Santa Cruz Que não nos esqueçamos dos que ganham pouco; e que guardemos na memória os que foram tirados do meio de nós. Das tuas mãos, ó Deus, recebemos nossos dias e anos. Abençoa início e fim, e fortalece o trabalho das nossas mãos. Deus de misericórdia, chame-me de volta, quando eu fugir de ti; atraia-me até vós, quando eu resistir, levante-me, depois de eu cair, apóie-me, depois de eu me levantar, conduze-me, enquanto eu prosseguir. Não me esqueça, embora eu te esqueça; Não me abandone, embora eu te abandone, Não retire teu olhar de mim, embora eu seja um pecador. Não repare minha fraqueza, mas somente tua bondade infinita. Perdoe-me com tua graça o mal que fiz. Dê-me arrependimento sobre o que passou, e faze que eu seja cuidadoso para não tornar a pecar. UMAS E OUTRAS E para alegrar a vida, uma pitadinha de “humor franciscano”. Deita que lá vem tiro Receoso da extrema violência dos grandes centros, frei Luciano Lopes tem feito um curso de sobrevivência na selva de pedras. Na lição número um, aprendeu que, quando se ouve um tiro, mesmo distante e sem saber onde foi, o melhor a fazer é deitar-se rápido no chão e procurar se proteger o melhor possível. De tanto repetir o feito, já até perdeu uns quilinhos. Revista Santa Cruz - 83 O espantalho do Aqua man Em sua viagem de regresso, vindo de Timor Leste, frei João Bosco teve certos contratempos na conexão em Londres. As agências internacionais foram acionadas, mas o filho de São Francisco só foi localizado tempos depois. Será que estava reservando lugar para acompanhar o casamento real? Visita ao Museu da Loucura No postulantado, tem sido desenvolvido um projeto inovador de espantalhos para a horta. Dessa vez, acoplado ao boneco, se pôs uma saída de água que, quando menos se espera, dispara jatos por todo o canto. Às vezes acontece de o jato sair mais forte que o previsto, e quase faz o espantalho decolar, mas frei Kelisson já está providenciando melhorias. Londres, uma cidade boa pra se perder 84 - Revista Santa Cruz Como atividade extraclasse, os frades do primeiro período de filosofia foram visitar o “Museu da Loucura”, em Barbacena. Tudo interessante, tudo muito instigador, mas o pior ainda estava por vir: o sufoco de convencer os guardas na saída de que eram visitantes, frades, pessoas tranquilas, gente boa, estudante, da Igreja, franciscanos... O fashion da vez Ronaldo ir pescar, no auge de seus ataques de nervos? Pois, atendendo a pedidos, assim que ele chegou a Betim, tratou de cavar um poço de peixes. Se vai funcionar, ou seja, deixá-lo mais zen, devemos esperar um pouco mais. Até lá, dálhe suco de maracujá. Cadê meus óculos? A homenagem ao look dos frades dessa vez vai para frei José da Cruz, que trouxe à cena uma peça que se pensava esquecida: a estola de bolso. Pouco maior que uma régua escolar, o modelo oferece comodidade e elegância para o frade em suas atividades cotidianas. Leve, prática, portátil, o modelo promete fazer sucesso. Tá nervoso?... Atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de mandar frei Vicente Após consultar o médico, frei Pedro Chiaretti regressava pra casa feliz da vida até que sentiu falta de seus inseparáveis óculos. O problema é que já estava longe, havia escadas pra subir, mas, paciência, sem os óculos não podia ficar. Ao chegar de novo ao consultório, o frade explicou toda a situação para a secretária que o atendeu: “é que não sei onde esqueci meus óculos. Talvez os tenho deixado aqui...”. “Quais? – perguntou a gentil secretária – os que estão no rosto do senhor?”. Revista Santa Cruz - 85 Luá da juventude Aproveitando as solenidades da Semana Santa, frei Geraldo Machado promoveu um encontro de jovens pra lá de animado. O sarau atraiu a juventude para cantar, dançar, curtir a vida. Querem saber o nome desse tipo de evento? Frei Geraldo esclarece: “luá”. O nome deve vir da famosa música: “não há ó gente, ó não, luá como este do sertão....”. De passagem por Teixeira de Freitas, frei Rogério Rodrigues seguia com um grupo de religiosos para a “Missa da Unidade” da diocese. Como não conheciam bem o caminho, foi preciso pedir informações. Lá foi o frade. Quando voltou, parecia ter ganhado um prêmio por ter desvendado o caminho. “É só pegar a rua São Paulo”. “E onde é a rua São Paulo?” – quiseram saber os companheiros. “Ah, isso me esqueci de perguntar”. Estacionamento a muque A arte de se informar Frei Emanuel, pertencente à Fundação do Triângulo Mineiro, tem encontrado muitas dificuldades pra se acostumar à vida na grande BH. Uma das queixas é o tamanho das garagens, muito apertadas, segundo ele. Já se tornou comum o cabeludo motorista estacionar e ter de chamar os confrades pa- 86 - Revista Santa Cruz ra acabar de chegar o carro no lugar. O detalhe: a muque, porque qualquer manobra a mais seria um risco na pintura. “Terão de fabricar carros mais estreitos!” – desabafou o desolado motorista. Sermão de Semana Santa Conforto animador Em uma visita à ala hospitalar, frei Pedro de Assis encontrou-se com uma senhora muito deprimida: “Frei, quero uma bênção porque vou morrer nesta semana”. Para animar a pobre mulher, o frade a confortou: “Tudo bem. Pelo que vejo, se não morrer nesta semana, morrerá na próxima”. Durante a “Grande Semana”, frei Patrício foi matar a saudade de sua antiga paróquia, em Betim. Muitas visitas, muitos reencontros e, acima de tudo, muitos sermões acalorados. As massas afluíram dos lugares mais distantes para ouvir suas pregações. Gostaríamos, aqui, de transcrever alguns trechos de tão eloquentes palavras – o que muito edificaria os leitores! -, infelizmente trata-se de um desejo impossível pois nem o mundo todo poderia contê-las. Revista Santa Cruz - 87 Traíras com mutação genética Após uma alteração no PH da água na represa, em Areias, surgiu uma nova espécie de traíras, capazes dos mais ferozes ataques. Patos, gansos e outros peixes têm sido o prato predileto dessa nova geração. Se outra mutação acontecer, certamente começarão a perseguir os passantes. É melhor não se arriscar. Fica o alerta para os que transitarem pelas imediações do temeroso açude: “sebo nas canelas”! Vocações a todo custo Na tentativa de arrebanhar sempre mais vocações, frei Eron Cerrato tem disparado tiros pra todo canto. Costuma convidar para os encontros vocacionais até os carteiros que batem à porta, frentistas dos postos de gasolina, caixas de supermercado etc. Vale recordar dois de seus telefonemas: no primeiro, ligou para a casa do cara que tinha batido na traseira da Parati. Ironia do destino, embora o número estivesse errado, o nome do tal homem era o mesmo do de um vocacionado. A esposa dele nada entendeu sobre o que o frade lhe relatava ao telefone. E o ‘barraco’ foi armado: “Meu marido não tem carro. Eu não estava com ele. Só se ele estiver me traindo. Meu marido não é santo. Cafajeste...”. Bem que o frade tentou interromper e esclarecer o mal-entendido, mas a mulher se recusava a ouvi-lo. Tudo se resolveu após longos minutos de diálogo. Em outra ligação, nosso “Promotor vocacional” teve o cuidado de medir as palavras para não repetir o episódio acontecido anteriormente. Apesar de tudo, também desta vez, o confrade errou o “bote”. O rapaz não pôde atender ao convite para participar do próximo encontro vocacional pelo simples fato de ele ser casado e pai de dois filhos. Liga não, frei Eron, o Senhor da Messe vai mandar outros! 88 - Revista Santa Cruz