EDITORIAL
“Aleluia significa louvai o Senhor.
Louvemos o Senhor, irmãos, pela vida e pelos lábios, pelo
coração e pela boca, pela voz e a conduta.
Deus quer que digamos Aleluia sem que haja desacordo com
seu significado.
Coloquemos em uníssono nossa vida e nossos lábios, nossa
voz e nossa conduta.
Eu o repito, com receio de que o nosso belo canto esteja em
contradição com nossa má conduta.
Cantemos agora Aleluia com solicitude, para que um dia
possamos cantá-lo em toda a quietude.
Cantemos Aleluia em meio aos perigos e às tentações [...].
Canta como canta o viajante, que canta, mas caminha.
Canta para sustentar teu esforço, não cultives a preguiça.
Canta e caminha.
O que quer dizer caminhar?
Quer dizer fazer progresso, progresso no bem.
Progredir na retidão da fé e em pureza de vida.
Portanto, canta e caminha”.
Santo Agostinho
Revista Santa Cruz - 45
Ainda desfrutando dos últimos dias do tempo pascal e da segunda
fase do Moratorium Provincial, auguramos que estas sábias palavras do
venerável bispo de Hipona nos estimulem, com vigor sempre crescente,
no serviço do Reino, a exemplo do santo de Assis.
Com alegria, apresentamos mais um número da Revista Santa Cruz.
Aqui, poderemos degustar um pouco da riqueza de nossa caminhada
franciscana em terras mineiras e sul-baianas.
Uma boa leitura a todos!
46 - Revista Santa Cruz
SUMÁRIO
EDITORIAL ........................................................................................45
VIDA DA PROVÍNCIA
1. ENCONTROS DE FAIXA ETÁRIA DA PSC (FREIS JONAS NOGUEIRA, DONIZETE
AFONSO E JOAQUIM FONSECA) ..............................................................48
2. ENTREVISTA COM OS FREIS ELIAS HOOIJ, MARCOS MONTEIRO E LOURENÇO
TOLLENAAR (FREIS JÚNIO FERNANDO, LUCIANO LOPES E ARLATON) ...........54
MEMÓRIA
1. UM SÉCULO DE PRESENÇA FRANCISCANA EM JEQUITINHONHA - 2 (SHEILA A. N.
LUNKES) ............................................................................................... 67
2. FREI EGÍDIO SÖNTJENS (FREI FRANCISCO VAN DER POEL) ...................... 82
UMAS E OUTRAS
- HUMOR FRANCISCANO ..........................................................................83
Revista Santa Cruz - 47
VIDA DA
PROVÍNCIA
Esta seção consta de um breve relato sobre os três encontros de faixa
etária da PSC, ocorridos neste primeiro semestre de 2011, e de uma
entrevista com os freis Elias Hooij e Marcos Monteiro (60 anos de
ministério presbiteral) e Lourenço Tollenaar (50 anos de ministério
presbiteral).
1. ENCONTROS DE FAIXA ETÁRIA
FAIXA ETÁRIA V
Frei Jonas Nogueira
Ao longo deste primeiro semestre de
2011, três grupos de frades, divididos
por faixa etária, se reuniram. A seguir,
um breve relato desses encontros.
Nos dias 13 a 19 de março do
corrente ano, reuniram-se em Guarapari (ES) os seguintes confrades pertencentes à Faixa etária
V: Adilson Corrêa, Vicente Paulo,
Gabriel José, Jonas Nogueira, Edvaldo Alves, Gilberto Custódio e
Alexsandro Rufino.
48 - Revista Santa Cruz
Conosco também esteve o Moderador da Formação Permanente,
frei Pedro José de Assis, que nos
trouxe dois textos para a reflexão,
a saber: “Carta por ocasião do
8º Centenário da fundação da
Ordem de Santa Clara” e um estudo
da Ordem sobre a Formação
Permanente.
Como é de praxe, os encontros
anuais da faixa etária constituem
momentos ricos de partilha da
vida e da caminhada franciscana
em busca da vivência fraterna do
Evangelho. Foi sentida por todos
a ausência dos demais confrades
desta faixa: José Aguinaldo, Geraldo Machado, Renato Alves, Laércio
Jorge, Oton Júnior.
Revista Santa Cruz - 49
FAIXA ETÁRIA IV
Frei Donizete Afonso da Silva
“Os irmãos não se escolhem, mas
se aceitam. Não há verdadeira fraternidade se não queremos entrar
na vida de nosso irmão e se não
consentirmos que ele entre na
nossa”.
50 - Revista Santa Cruz
Foi assim que nos dias 2 a 6 de
maio de 2011, os confrades da
Faixa etária IV se reuniram, em
Arraial do Cabo (RJ), para mais um
momento de convivência fraterna,
oração/celebração, partilha, lazer,
alegria. Momento gratificante e
enriquecedor na vida fraterna e na
vida da Província, preparado pelos
freis Hilton e Fabiano.
“Sem esta comunhão de vida, a
fraternidade seria apenas a referência a uma pertença genealógica, sem interesse para ninguém” (DF- Fraternidade, p. 274).
Irmãos que há muito não participavam estiveram presentes, irmãos de perto e de longe. Outros
nem sequer uma nota. Sentimos
falta da não participação dos irmãos ausentes nesse momento
importante da nossa formação
permanente. A partilha de vida,
como os outros momentos, é importante para o crescimento pessoal e fraterno, pois cada um traz
em si “o dom de ser capaz, de ser
feliz...”. Juntos, formamos um belo
mosaico franciscano. E mosaicos
são obras de arte. São feitos com
cacos. Mas os cacos, em si, nada
significam. Não têm beleza alguma.
São peças de um quebra-cabeça.
É preciso que um artista junte-os
segundo o seu desejo. As Sagradas
Escrituras, como os Escritos de
São Francisco, são livros cheios
de cacos: poemas, estórias, mitos,
pitadas de sabedoria, relatos de
acontecimentos. Quem os lê, junta
os cacos segundo manda o seu
coração. Os mosaicos podem ser
bonitos ou feios. Tudo dependerá
do coração do artista. Como disse
Jesus, “o homem bom tira coisas
boas do seu tesouro; o homem mau
tira coisas más do seu mau tesouro”.
Coração mau faz mosaico feio,
coração bom faz mosaico bonito.
Mas quem tem muitas vinganças a
realizar faz mosaicos dos infernos.
Esperamos que no próximo encontro, a ser realizado em Guarapari (ES), possamos nos encontrar a todos para mais um momento fraterno. Os responsáveis pelo
encontro de 2012 são os freis
Luciano e Marcelo.
Revista Santa Cruz - 51
FAIXA ETÁRIA III
Frei Joaquim Fonseca
Nos dias 17 a 19 de maio p.f,
aconteceu mais um encontro dos
confrades da Faixa etária III. Estiveram presentes os freis Francisco Carvalho, Pedro José de
Assis, dom Dario Campos, Joaquim
Fonseca, Adelmo Francisco, Paulo
Afonso, João José de Jesus, Moisés
José Bastos e Jacir de Freitas.
52 - Revista Santa Cruz
Como nos anos anteriores, o
encontro foi marcado por momentos de oração, reflexão e
partilha de vida. Na verdade, o
ponto alto desse encontro de 2011
foi o convívio fraterno e a alegria de
estar juntos.
Embora o Moderador da Formação Permanente, frei Pedro José
de Assis, tivesse planejado o estudo
de dois textos de documentos
recentes da OFM, tal intento não
se concretizou, pois a partilha
de vida de cada um dos nove
participantes ocupou todo o tempo
de que se dispunha. O exercício da
escuta atenta de cada irmão foi
uma demonstração concreta da
profunda cordialidade e do amor
fraterno existente no grupo.
Dentre os diversos assuntos abordados e discutidos durante
a partilha, ficou evidente a importância do Moratorium que vem
sendo introduzido na Província.
Este apelo do Governo Geral da
Ordem tem instigado cada frade a
mergulhar num profundo exercício de revisão de seus projetos
pessoais e de vida fraterna.
Foi sentida a ausência dos
confrades: Mário Rodrigues, Juvenil Batista, Antônio Teófilo, João
Bosco, Dari Bernardino e Flávio
Silva. Mesmo assim, esses irmãos
de caminhada que, por motivos
vários, não puderam se juntar
a nós, se fizeram presentes em
muitos instantes, sobretudo nos
momentos de oração diária e da
celebração eucarística.
O próximo encontro ficou agendado para os dias 9 a 12 de abril de
2012, em Guarapari (ES). Estejamos
todos lá, com renovada alegria e
disposição.
Revista Santa Cruz - 53
2. ENTREVISTA COM OS FREIS,
ELIAS HOOIJ, MARCOS MONTEIRO
E LOURENÇO TOLLENAAR
Freis Júnio Fernando, Luciano
Lopes e Arlaton
Neste ano de 2011, os confrades Elias
Hooij e Marcos Monteiro celebram
60 anos de ministério presbiteral, e
Nas páginas que se seguem, dentre
ou-tras coisas, eles nos falam de sua
vocação e missão.
FREI ELIAS HOOIJ
RSC: Frei Elias, fale-nos um pouco de
sua família, sua vocação.
Frei Elias: Bem, meu avô paterno,
Simon Hooij (1847-1928) serviu,
por dois anos, como “Zouaaf”, na
“Legião Estrangeira” de Papa Pio
IX, com outros 3000 holandeses,
alistado sob o nº 9.075. Era a
guerra contra o rei Victor Emanuel
II e seu General Garibaldi. O que se
54 - Revista Santa Cruz
pretendia era o “Risorgimento” da
Itália e sua unificação, o que incluía
o fim dos Estados Pontifícios.
O Papa perdeu esta guerra e - com
toda razão – seu território. Ele se
retirou, amargado, morando como
preso voluntário no Vaticano. Os
sobreviventes do seu exército foram prisioneiros de guerra, como
meu avô. Uma vez, ele retornou à
Holanda, a pé, o que corresponde
a quase 2000 km. Obviamente,
até a mãe dele teve dificuldade
de reconhecer aquele “vagabundo
barbudo” como seu filho. Também
enfrentou dificuldade na recuperação de sua cidadania, perdida
pelo serviço num exército estrangeiro.
Minha mãe tinha três primos primeiros: um era frei Benício Woolderink, irmão do nosso pioneiro
frei Adalberto de Manaus (1899) e o
terceiro frei Reginaldo, três irmãos
franciscanos. Benício foi, durante
25 anos, mestre de noviços da
província holandesa. Perguntado
a respeito, ele me confidenciou
que tinha mais arrependimento
dos noviços que ele tinha deixado
continuar do que daqueles que ele
tinha mandado embora.
Ainda houve um irmão meu, frei
Simon, e dois primos, todos franciscanos, três primos redentoristas
e três primos passionistas. Um dos
primos franciscanos era frei Carlos
Schep que esteve no Brasil, duran-
te os anos 1936-1967, sendo, por
último em Ibirapoã, na diocese de
Caravelas. Eu celebrei duas vezes
sua missa de 7º dia. A primeira vez
fora alarme falso: num acidente
de ônibus, o confrade foi tido por
morto, porém, ele se recuperou.
Inclusive o Provincialado se precipitou ao avisar a família sobre a
morte de frei Carlos. Em 1967, ele
voltou para a Holanda por motivos
de saúde. Ao longo de dez anos,
exerceu uma atividade pastoral
na Alemanha. De volta à Holanda,
agora aposentado, ele fora mais
uma vez acidentado, enquanto
atravessava uma avenida de bicicleta. Desta vez, ele morreu de
verdade (26/10/1983). Que Deus o
tenha.
Meu pai recebeu a condecoração
Pro Eclesia e Pontífice pelos 25
anos de Vicentino e do colégio
dos “Coletantes” em nossa matriz.
E seu trabalho nas organizações
católicas de atletas. Na Holanda era
assim: cada confissão tinha suas
organizações próprias, de criadores
de cabritos, de filatelistas ou de
emissores de rádio. Ainda duvida
da predestinação?
RSC: E seu ingresso na Ordem Franciscana?
Frei Elias: Em 1944, enquanto preparava as coisas para o noviciado,
recebi como número de marcação
de roupa: o nº 1275. Era o fim
daquela guerra que destruiu boa
parte do mundo. Parte do noviciado
fora ocupada pelos retirantes SSNazistas, gente ruim mesmo, e,
em seguida, pelos bem-vindos
Americanos, com cigarros e ração
de biscoitos, chocolate amargo e
“corned beef” enlatado. Eles pediram nossos terços em troca. O
meu provavelmente está ainda
com um veterano em Massachusetts ou num dos cemitérios militares, espalhados pela Europa.
Quando em 1966 vim para o Brasil,
aos 40 anos, a província já era bem
menor, reduzindo-se sempre mais
até o patamar de 188 membros em
2010 – uma perda dramática de
1000 membros, em pouco mais de
60 anos!
Durante muitos anos, fiquei emocionalmente ligado às duas províncias. Custou perder – e nunca
perdi total - o “cheiro do ninho”
holandês, para me sentir membro
100% da Santa Cruz. Ainda com um
português de roceiro e um sotaque
cabeludo, que todo mundo sempre faz perguntar: “O Senhor é
polonês?” Enfim, é mais fácil perder
os cabelos do que o sotaque.
O repertório religioso de liturgia
e pregação era mais fácil. Mas,
mesmo agora, entrando numa oficina mecânica com o carro quebrado, para explicar o defeito, que
Deus me acuda!
Revista Santa Cruz - 55
RSC: Por que o Brasil?
Frei Elias: Eu não escolhi o Brasil. O
Brasil me escolheu na pessoa de
dom Filipe. Sempre tinha sonhado
com Papua, Nova Guiné, Paquistão,
Índia, o Oriente. Mas como recémordenado, fui indicado a estudar
linguística, para servir como professor num dos nossos colégios.
Depois de três anos, consegui
convencer o provincial que minha
vocação não era a linguística.
O resultado foi dois anos como
redator da revista da Ordem Terceira, para ficar no ramo. Um artigo
nessa revista sobre “a Ordem dos
Companheiros Construtores” me
recompensou com 10 anos como
capelão desta organização. A OCC
foi fundada por Werenfried van
Straaten OPraem, como braço
forte da sua atual “Ajuda à Igreja
que Sofre” (Kirche in Not). Trabalhei
na região oeste da Europa e, por
sete meses, no Congo-Zaire, onde
também tinha voluntários. Lá a
independência de 30/06/1960 causou uma guerra civil/tribal, que
colocava em risco a permanência
dos voluntários. Eu devia preparar
a decisão, ficar ou sair? Ficamos!
De volta à Holanda me encontrei
com dom Filipe, que me pescou.
Ele queria voluntários para a construção do hospital regional em
Caravelas, enfermeiras e assistentes
sociais. E a Rainha da Holanda,
56 - Revista Santa Cruz
ou o ministério do exterior, me
enviou como chefe da equipe num
contrato de dois anos, com todas
as despesas pagas. Que luxo!
RSC: O senhor poderia destacar
algum fato marcante nesta sua
trajetória de vida?
Frei Elias: Tem muita coisa, que a
gente não esquece. Uma, quando
meu pai faleceu, aos 11/02/1972.
Duas semanas mais tarde li por
acaso o anúncio na revista da
Província da Holanda, de manhã
cedo. Nós, dom Filipe e eu, estávamos voltando do Rio Grande
do Sul, onde fomos buscar irmãs
belgas para o Posto de Saúde em
Teixeira de Freitas. E em Cascadura,
na sala de leitura, peguei a revista:
Falaceu Simon Hooij, pai dos freis
Simon Hooij em Heerhugowaard,
Holanda, e Elias Hooij, em Teixeira
de Freitas, no Brasil. O provincialado
não tinha conseguido me avisar
antes. E quando voltei para Teixeira,
encontrei o Sr. Nascimento na estrada. Este se estranhou de minha
aparência. Ele tinha recebido um
telegrama atrasado, dizendo: “Pai
Elias hospitalizado”. Pensando que
era eu, morto na estrada. O povo já
estava rezando pela minha alma.
No dia da morte, eu estava ainda
na Bahia, em Cruzelândia, naquela
terra de ninguém entre o rio Mucuri
e a divisa de Espírito Santo. De
manhã cedo, o meu companheiro e
sacristão, Edison Bispo dos Santos,
me contou que tinha sonhado:
um homem idoso morrendo e a
gente estava dando assistência a
ele. Mais tarde, descobrimos que
naquela mesma hora meu pai tinha
morrido.
Outra ainda. Eu estava ainda em
Teixeira de Freitas. Era o dia do
Cristo Rei, em 1977. Neste dia levei
frei Júlio à rodoviária, para procurar
tratamento em Belo Horizonte.
Ainda triste pela despedida, sentado num tronco de árvore de
frente da casa paroquial, recebi,
via um policial, a notícia da morte
do pároco vizinho, frei Geraldo, um
jovem capuchinho, de Itamaraju.
Ele morrera debaixo de um trator
que ele tinha adquirido como ferro
velho, e que ele mesmo tentava
consertá-lo. Inclusive, semanas antes, eu trouxe algumas peças para
ele, de Salvador. A saída de um e a
morte do outro – o que Deus afinal
queria de nós? Exatamente no dia
do Cristo Rei!
Frei Júlio nunca mais voltou. Fora
meu colega de estudos na Holanda
e chegava agora, em Teixeira, para
me ajudar e fugir da vida um pouco
burguesa de Teófilo Otoni, com as
festas do povo do MFC. Morreu em
meus braços dois meses depois
no hospital Felício Rocho, aos
02/01/1978. Eu não tive coragem
de ir à Missa de corpo presente,
nem de um nem do outro.
RSC: E o hospital de Caravelas que o
senhor ajudou a construir?
Frei Elias: Quando o hospital de
Caravelas começou a funcionar, os
voluntários voltaram para a Holanda,
e eu fiquei no Brasil. Fui nomeado
Pároco de Posto da Mata junto com
frei Teodoro e, mais tarde, frei Cleto.
Mas Teodoro se ambientou bem em
Posto da Mata, enquanto Teixeira
de Freitas me atraiu: o desafio de
criar comunidades num centro
nevrálgico do Extremo Sul da Bahia, no cruzamento das estradas
de madeireiros da Bralanda em
Nanuque e da fábrica de Eleosípio
Cunha, em Nova Viçosa. Era pura futurologia. A primeira Missa
(campal) foi aos 15/08/68. Teixeira
tinha 5.000 habitantes e só uma
capelinha de 3x4m dedicada a
Santo Antônio, com uma imagem
de porcelana, toda quebrada e
colada com esmalte vermelho. Aliás,
eu mesmo destruí essa imagem.
Consegui, democraticamente, ‘empurrar’ São Pedro pra frente como
padroeiro da primeira igreja. Depois de muitos anos, São Pedro
tornou-se o padroeiro da Catedral
e da Diocese.
Frei Teodoro e eu criamos, em todo
o interior, o Culto Dominical (frei
Revista Santa Cruz - 57
Raul Ruijs usou nosso material para
o nada informatizado INFORMAC).
Criamos um livrinho de cantos
que foi reeditado pelo menos
dez vezes. E com as Irmãs de São
José articulamos a formação de
catequistas e de monitores de
alfabetização. Cursos com centenas
de pessoas em Teixeira, Posto da
Mata, Argolo, Nova Viçosa, Mucuri.
Era uma festa!
Apesar da ajuda dos colegas
vizinhos, Teixeira foi carga pesada:
durante a semana, a visita às
capelas no interior dos municípios
de Alcobaça, Nova Viçosa e Mucuri.
Sábado à tarde, me esperavam uns
casamentos. Aos domingos, uma
média de quatro a cinco missas (às
vezes duas simultaneamente, em
igrejas diferentes, sem bilocação.
Imaginem como!, lembrando as
“Estationes” na antiga Roma). Todo
domingo, às 13h, uma média de
25 batizados. Ainda durante a semana, dava assistência aos dez
pequenos centros de comunidades
dentro e fora de Teixeira. Uma vez
por mês, a reunião de todas as
lideranças de Teixeira. Atualmente,
a cidade de Teixeira de Freitas é
sede do bispo diocesano e possui
nove paróquias.
Em 1983, morreu frei Ismael, enquanto se preparava para transferirse para o noviciado em Visconde
do Rio Branco. O coração dele não
aguentou! E eu fui transferido para
58 - Revista Santa Cruz
Alcobaça. Em 1992, fui transferido
para Betim e ali permaneci por
quase três anos, na paróquia São
Francisco. (A torre com coroa
é daquele tempo!) Retornei à
Bahia e, juntamente com frei
Venâncio, trabalhei, por três anos,
na paróquia de São Sebastião, em
Teixeira de Freitas. Também com
ele, mais três anos, em Alcobaça.
Depois chegaram os mineiros frei
José Silva, frei Moisés e por fim frei
Geraldo, junto com frei João José.
De qual lugar mais gostei? De
todos. De Alcobaça, um pouco
mais, porque ela me presenteou
com a praia. Todos os dias ando,
corro e nado, durante uma hora.
Se não sou brasileiro sou “baianopraiano”!
RSC: Depois de 60 anos de ministério
presbiteral, como o senhor avalia a
realidade eclesial em nossos dias?
Frei Elias: Ao que me parece, hoje
é mais difícil navegar entre “Skylla
e Caribdes”, monstros mitológicos
(rochas submersas) no estreito
perigoso entre Sicília e Itália. A
Skylla da tentação carismática sem
espinha dorsal e a Caribdes do
tradicionalismo apoiado no Direito
Canônico, que se abraçam nestes
tempos da “pós-pós-modernidade”
para formar a espiritualidade do
novo milênio.
Também me parece difícil reco-
nhecer que nas igrejas - ainda
cheias - faltam as grandes massas
de trabalhadores, estudantes e
universitários, que têm seus templos no Estádio, nas Lan-houses,
nos Shoppings e nos Shows. A Igreja
Católica está reduzida a 50% da
população, me parece. Na matriz
de Alcobaça tem, neste ano de
2011, dez crianças se preparando
para a Primeira Comunhão.
RSC: E na Holanda?
Não é fácil crer que o Espírito
Santo é ecumênico por definição.
Mesmo nestes tempos, em que o
protestantismo atinge em cheio
a América Latina, porém, com um
atraso de cinco séculos. Frei Helano,
em sua obra: Nossas paróquias de
Caravelas, Alcobaça e Prado (BA)
Cascadura e Cavalcante (RJ), na
página 11, citando frei Celestino,
fala sobre Alcobaça: “Sua população
é católica, não existindo nenhuma
seita nem culto estranho.”
Eu penso que lá acontece o que
aconteceu com o pé de frutapão no pátio do nosso Centro
de Formação de Alcobaça: num
certo momento, fomos obrigados
a sacrificar a árvore centenária
(chorando, mesmo que ainda não
se falava em Direitos Humanos e
respeito pela Criação). Mas, veja
só, pela raiz brotou um novo pé, no
lugar certo, agora crescido e dando
frutos bons. É o que vejo hoje com
o aparecimento de ONG’s, grupos
de entre-ajuda, de proteção ao
meio ambiente, gente nova que
prefere a bicicleta ao carro, grupos
de Direitos Humanos, Partido Verde, de Jovens de Taizé, Médicos
sem Fronteiras, voluntários de toda plumagem. Vamos arrancar o
mato que cresce dentro do trigo? A
razão das mudanças? A consciência
da liberdade, a liberdade da consciência. Afinal, o Espírito sopra onde
quer e ninguém o segura. Como é
bonito! Precisa só crer.
Quando eu cheguei ao Brasil, em
1966, havia em Alcobaça só uma
igrejinha “crente”, do PrefeitoFundador-Presidente Amasias, a
Igreja do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta não existe
mais, mas em contrapartida, houve
uma proliferação de crenças, de
modo que não há mais uma rua
que se preze sem ao menos ter uma
igrej(inh)a “evangélica”. Louvado
seja Deus! Fazer o quê?
Frei Elias: A última vez que estive na
Holanda foi em 2009. Lá, a Igreja
está devagarzinho, aprendendo
que sua vocação é: realizar o
Reino, pequeno como a semente
de mostarda, invisível como o fermento, acreditando no Espírito que
sopra onde quer.
Revista Santa Cruz - 59
FREI MARCOS MONTEIRO
del-Rei, convivia muito com os fra
des, de tal forma que me encantei
com a vida deles. Pedi a eles que me
levassem para ser frade. Conversaram
com minha mãe e ela aceitou sem
problemas. Assim, iniciei, em fevereiro de 1937, meus estudos no Seminário Santo Antônio, em Taquari,
no Rio Grande do Sul.
RSC: Frei Marcos, conte-nos um
pouco de sua infância.
Frei Marcos: Eu tenho poucas lembranças de meus primeiros anos
antes de ingressar, aos 10 anos
de idade, no seminário menor em
Taquari (RS). Tive uma vida normal,
com meus irmãos e minha mãe,
porém sentia a ausência de meu
pai, já que ele veio a falecer quando
eu era muito novo.
Depois que fui ser franciscano, só
retornei à casa de meus familiares
aos 18 anos. Eles se espantaram
ao me verem de farda. Achavam
engraçado um seminarista de farda.
Naquela época tinha essa mania de
nos fardar.
RSC: Qual ou quais foram suas
motivações para o senhor querer ser
franciscano?
Frei Marcos: Por ser de São João
60 - Revista Santa Cruz
RSC: Como foi seu processo de
formação inicial? O que senhor se
recorda do tempo de seminário?
Frei Marcos: Normal. Eu me lembro
que tinha muitas saudades de
minha família nos primeiros anos,
mas ao longo do tempo fui me
acostumando. Também me recordo
dos momentos de esporte que
havia em Taquari. Fazíamos times
de futebol com vinte meninos e
jogávamos no campo. Lembro-
me que era uma bagunça quarenta
meninos jogando ao mesmo tempo.
Outro fato de que me recordo é
que, durante o período da 2ª Guerra
Mundial, muitos dos gaúchos de
origem alemã que estudavam
conosco eram a favor dos exércitos
alemães e entravam em atrito
com os mineiros, que apoiavam os
franceses.
RSC: O senhor poderia destacar os
principais lugares por onde viveu
como frade?
Frei Marcos: Após Taquari, fui
fazer o Noviciado e a Filosofia em
Daltro Filho. Após minha primeira
profissão, fui morar em Divinópolis
para cursar Teologia onde professei solene. Depois de ser ordenado
padre, fui morar em Santos Dumont como professor de Latim,
Português e Ciências Naturais no
Seminário Seráfico Santo Antônio.
Morei também, por muitos anos,
cerca de vinte, na paróquia São
Miguel e Almas, como vigário rural,
atuando nas comunidades ao redor
de Santos Dumont. Morei também
em Pará de Minas, Monte Belo e
Ubá. Por fim, voltei a Divinópolis e
me encontro atualmente em Belo
Horizonte.
RSC: Frei Marcos, ao longo de todos
estes anos, qual foi a sua maior
alegria?
Frei Marcos: Sem dúvida, tive muitas em minha vida. Mas, o fato que
me marcou profundamente foi
minha ordenação na igreja de São
Francisco das Chagas, em Carlos
Prates (BH). Senti-me realizado, foi
um sonho de criança que se concretizou.
RSC: E sua maior dificuldade?
Frei Marcos: Não tive muitas dificuldades, mas o que me deixou
muito triste foi, sem dúvida, minha transferência da cidade de
Monte Belo para Ubá. Gostava muito do povo da paróquia de Monte
Belo. Foi muito difícil presenciar a
entrega daquela paróquia do Sul
de Minas.
RSC: Para finalizar nossa conversa,
o que senhor gostaria de dizer aos
demais confrades da Província Santa
Cruz?
Frei Marcos: Que cultivem a vida
fraterna, pois ela é fundamental
para a vida franciscana. Ela não é
mentira, acontece mesmo. Todos
nós somos irmãos de fato. E que
nunca deixem de procurar vocações, pois os novos irmãos darão
continuidade ao projeto franciscano de viver o Evangelho, aqui em
Minas Gerais e no extremo sul da
Bahia.
Revista Santa Cruz - 61
FREI LOURENÇO TOLLENAAR
RSC: Frei Lourenço, fale um pouco
sobre sua origem e família.
Frei Lourenço: Nasci na crise de
1929, em Haarlem, na Holanda. Sou
o mais velho de cinco irmãos. Meu
pai era um pequeno comerciante
de laticínios. Na época, em minha
região, conviviam pacificamente
católicos e protestantes, embora
separados. Minha família era de
tradição católica.
RSC: Como surgiu a vocação Franciscana?
Frei Lourenço: Desde menino vivenciei várias experiências que
contribuíram para definir minha
opção por ser padre. Estudei no
Seminário Diocesano, pois já sentia o desejo pela vida religiosa.
62 - Revista Santa Cruz
Com a Segunda Guerra Mundial,
o seminário foi ocupado pelos
alemães e, mais tarde, foi fechado.
Esse episódio esfriou meu desejo e interesse de seguir minha
vocação. Assim, prestei serviço
militar, trabalhei com meu pai,
namorei..., mas a ideia de ser padre
persistia. Fui estudar no Colégio
Santo Agostinho, onde um padre
me orientou sobre a vida religiosa.
Encontrei-me também com um
frade franciscano que me relatou
toda sua vida religiosa. Identifiqueime com ele de imediato. Foi o
“empurrão” que faltava para eu me
definir.
RSC: Quando chegou ao Brasil? Sua
primeira transferência? E como se
deu o processo de adaptação a um
novo país?
Frei Lourenço: Cheguei ao Brasil em
outubro de 1957, no Rio de Janeiro,
e logo fui enviado para trabalhar
em Abaeté. A adaptação foi muito
fácil, com exceção da língua portuguesa. A alimentação, o clima
tropical, a alegria, a receptividade
e o acolhimento do povo brasileiro foram fatores que muito contribuíram e facilitaram para minha
adaptação à nova terra.
RSC: Em 1958, o senhor iniciou o
curso de teologia em Divinópolis. Fale sobre sua experiência en-
quanto estudante.
Frei Lourenço: Foi uma experiência
muito rica e gratificante. Frei Aloísio Lorscheider foi ótimo como
professor e mestre. Orientava e
acompanhava os jovens estudantes
com muita sabedoria, princípios
éticos e cristãos. Em uma visita
à Europa, visitou meus pais, na
Holanda. Um aspecto negativo:
o sucessor de frei Aloísio foi frei
Mateus, como professor de Direito
Canônico era ótimo, mas como
mestre não me agradava.
RSC: Como foram os primeiros
trabalhos como padre, em Belo
Horizonte?
Frei Lourenço: Em Belo Horizonte,
fiz o curso de “Pastoral”. Quem ministrava as aulas de como administrar uma paróquia, como fazer
uma pregação era frei Bruno. Nesse período, trabalhei alguns meses
em Salinas, substituindo um padre
que saiu de férias. Era um trabalho
mais sacramental, principalmente
celebrando missas.
RSC: Em 1964, o senhor foi transferido
para Teófilo Otoni, como “Vigário
Cooperador”. Conte-nos sobre seu
trabalho nesta cidade.
Frei Lourenço: Trabalhei em Teófilo Otoni com frei Felipe que, pos-
teriormente, foi nomeado bispo
de Caravelas (BA) e foi substituído
por frei Cristiano. O trabalho inicial
era a pastoral sacramental, se
estendendo mais tarde à assistência a uma escola profissionalizante
(produção de vassouras, dentre
outros). Trabalhei também no Albergue frei Dimas, assistindo a
idosos e crianças.
RSC: E sua presença em Pirapora?
Frei Lourenço: Pirapora foi muito
agradável. Convivi e trabalhei com
frei Ronaldo Zwinkels, que hoje
reside em Divinópolis e com frei
Valério e frei Bento. Trabalhávamos
muito para atender a toda demanda paroquial. Viajávamos com
bastante frequência para celebrar
nas comunidades rurais. Nessa
cidade aconteceu um fato muito
divertido: uma vez caí de uma
cascata e machuquei as costelas,
então passaram esparadrapos e
faixas no meu peito. Quando foram
retirá-los, eu gritei muito, pois,
junto com os esparadrapos, saíram
também os cabelos do meu peito.
RSC: O senhor foi diretor do INFORMAC. Fale-nos algo sobre essa
nova atividade.
Frei Lourenço: O Instituto de
Formação e Cultura (INFORMAC)
nasceu por iniciativa de frei Ri-
Revista Santa Cruz - 63
cardo. Consistia na ampliação
do já existente curso de religião
por correspondência. Ampliando
essa atividade, o INFORMAC tinha
a proposta de oferecer também
cursos de profissionalização, difundir a cultura católica através de
publicações, cursos e conferências.
Mais tarde, com a saída de frei
Ricardo, o INFORMAC ficou entregue aos leigos que com ele trabalhavam. Essa mesma equipe,
percebendo que o INFORMAC não
caminhava bem, resolveu fundar,
ao lado, uma editora de livros
didáticos (Vigília), com perspectivas
mais lucrativas.
Em 1966, o ministro provincial
frei Erardo Veen me convidou
para ser o diretor do INFORMAC.
Inicialmente eu não queria aceitar,
pois o Instituto estava falido e
eu não tinha ideia do que fazer
com ele. Com o incentivo de frei
Ronaldo Zwinkels, resolvi aceitar o
desafio de reerguê-lo. Entregaramme então: móveis, equipamentos
e materiais que estavam no porão
da Igreja São Francisco, mas quase tudo era sem utilidade, pois estavam muito velhos, estragados e
desatualizados. Depois nos transferimos para o Colégio Santo Agostinho. Nosso enfoque eram as
publicações litúrgicas. Um sucesso
de Norte a Sul do Brasil! Era uma
espécie de liturgia diária, adotada
em muitas paróquias. Nossas pu-
64 - Revista Santa Cruz
blicações atingiram cinco mil exemplares/mês. Eram solicitadas
em Portugal e Angola. A colaboração de muitas pessoas foi decisiva
para todo esse sucesso, dentre elas:
Vicente de Paula Viotti, frei Luiz
Fernando, frei Adriano, frei Antônio
do Prado, frei Antonio Vicente e
frei Raul, que era o redator chefe.
Toda essa equipe que ajudei a
coordenar com entusiasmo e dedicação, produziu muitos frutos,
contribuindo, inegavelmente, para
a renovação da Igreja. E o sucesso
continuava. Muitas editoras como
a Vozes, espelhando-se em nosso
trabalho e com mais recursos, passou a ser nosso forte concorrente.
Frei Diogo, ministro provincial da
época, recomendou-nos, então,
que paralisássemos as atividades
do INFORMAC. Mais tarde, a editora Vozes também não mais
publicava seus folhetos. A editora
Paulus assumiu esse trabalho, produzindo o folheto dominical e, bem
mais tarde, a “Liturgia diária”.
RSC: Em Ribeirão das Neves, o senhor
trabalhou como Capelão do Presídio
de Neves e Contagem. Como foi essa
experiência?
Frei Lourenço: Eu gostava desse
trabalho. Percebi, no entanto, que
o problema não estava só nos
detentos, mas nos funcionários
também. Eram despreparados e
desinteressados para exercer essa
função. Os presos não recebiam
atendimento psicológico, não lhes
ofereciam nenhum curso dentro
do presídio etc. Além de celebrar
as missas, eu procurava contribuir
de forma diferente para a sua
formação: levava produtos para
fabricação de artesanatos e revistas
de informação. Por volta do ano de
1993 (não me lembro ao certo),
trabalhando em Ribeirão das Neves,
fui feito refém numa rebelião,
mas nem isto me fez desistir de
trabalhar com os presos. Pegando
um gancho nesta passagem da
minha vida, quando eu morava
em Areias, lembro-me também do
meu trabalho na Fazenda Renascer
(em Pedro Leopoldo), prestando
assistência a dependentes químicos.
RSC: E a ARPEMA?
Frei Lourenço: A ARPEMA (Artefatos de Pedras e Madeiras) foi
criada em 1974. Era uma firma de
artesanato de madeira e pedras
semipreciosas. Sua proposta era,
sobretudo, a profissionalização de
jovens da região. Contava com
cerca de 40 funcionários. Tivemos
êxito durante sua existência, mas,
por razões diversas, suas atividades foram encerradas há cerca de
cinco anos.
RSC: E a sua atividade pastoral em
Ibirité?
Frei Lourenço: Cheguei a Ibirité em
1968 e, atualmente, trabalho com
cinco comunidades: São Judas
Tadeu, Maria dos Remédios, Bom
Pastor, São Francisco de Assis, São
João Batista.
RSC: Celebrando 50 anos de ministério presbiteral, como o senhor
avalia sua caminhada ao longo
desses anos? Quais são os planos
para o futuro?
Frei Lourenço: Não me entusiasmo
muito por festas e comemorações.
Quando cheguei a Ibirité, a cidade tinha 15 mil habitantes aproximadamente, hoje são cerca de
200 mil. Com o crescimento e o
desenvolvimento, as cidades vão
se tornando perigosas e os desafios
são cada vez maiores. Apesar da deficiência visual acentuada, e de ter
me privado de algumas atividades,
considero minha qualidade de vida
muito boa. Minha história em Ibirité começa na Fazenda do Rosário
(fundada por Helena Antipoff –
1940), a convite de frei Feliciano.
Fui o último franciscano, numa
fileira de sete a prestar serviços
a essa Instituição, depois de frei
Bruno, frei Ricardo, frei Teófilo, frei
Eduardo Copray e frei Justino. No
plano social, meu enfoque continua
Revista Santa Cruz - 65
sendo o incremento da produção
de produtos hidropônicos, plantas
medicinais com extensão em produtos orgânicos. A renda é pequena, mas o objetivo é a utilização do
terreno e a geração de empregos.
Tenho toda uma estrutura pronta.
A possibilidade de intercâmbio
com a Faculdade de Viçosa e a
proximidade da Fundação Helena
Antipoff - agora transformada em
Faculdade, tendo em seu currículo
o curso de biologia -, são fatores
que me entusiasmam a continuar
investindo nesse projeto.
Gostaria ainda de acrescentar, encerrando esta entrevista: com a
extinção de ARPEMA, criamos, em
66 - Revista Santa Cruz
2006, uma Associação de nome
COLMEIA, que objetiva várias
atividades sociais e espirituais,
principalmente a missionariedade.
Meu interesse é possibilitar a formação de leigos, de sorte que eles
contribuam na missão, inclusive “ad
gentes”. Um exemplo da capacidade dos leigos está na religião
islâmica que vem crescendo rapidamente na Europa, e todo o trabalho é realizado por leigos e não
pelo clero islâmico.
Finalmente, estou ciente de que não
verei a realização de meus planos.
Deixo-os como fonte de inspiração
e realização para aqueles que por
eles se interessarem...
MEMÓRIA
Esta seção traz a segunda e última parte dos
“apontamentos” sobre a presença centenária dos
franciscanos em Jequitinhonha e ainda uma ‘meditação’
manuscrita encontrada no livro da “Liturgia das Horas”
de frei Egídio Söntjens.
1. UM SÉCULO DE PRESENÇA
FRANCISCANA EM
JEQUITINHONHA - 2
(APONTAMENTOS)
Sheila A. N. Lunkes
E a história da presença franciscana
em Jequitinhonha continua sendo
contada por alguns de seus vigários
(párocos):
Revista Santa Cruz - 67
FREI LETÂNCIO VASKE
Num relatório de 1940, frei Letâncio informa: A cidade conta 4 a
5 mil habitantes, todos batizados
catolicamente. Vida religiosa monótona e indisciplinada, razão de eu
não conseguir criar um movimento
religioso animador. A instrução nas
nossas poucas escolas é deficiente,
dificultada ainda pela incúria dos
pais. Mesmo o fazendeiro rico
pouco se interessa pelo que passa
longe da sua fazenda. Se chover
a tempo e o boi tiver bom preço,
tudo vai bem. Pela generosidade do povo conseguimos manter
na cidade o hospital, havendo
no fim do ano passado um bom
saldo favorável. Os trabalhos do
acabamento da Matriz continuam.
Há alguns meses terminou o reboco
por fora... o telhado foi novamente
revistado, devido às suas múltiplas
goteiras. Os núcleos de catecismo
se suprimiram e se fundiram num
só, com instrução do vigário,
seguida pela Santa Missa recitada
68 - Revista Santa Cruz
com assistência das catequistas.
O ensino religioso no Grupo não
sofreu alterações.
Em primeiro de novembro tivemos
a ventura de assistir à “missa nova”
de frei Osório da Silva Santos,
em Felisburgo; é ele o primeiro
sacerdote franciscano desta freguesia. Parece que este fato único
tenha impressionado a população
e daí nutrimos a esperança que haja o início de verdadeiro interesse e
real cooperação.
Em 1942: [...] “Ainda há pouco
progresso espiritual; uma das
causas vejo no espírito ainda não
extinto da velha politicagem,
outrora aqui famosa como forte,
quente, fervente. Paralisada agora
essa atividade - do sangue e da
raça - agora cansaço... um sono
prolongado, do qual, de vez em
quando, acordam para dançar e
divertir- se um pouco no meio de
um barulho carnavalesco.
O número de comunhões aumentou uns 10%; foi instituída a Cruzada e uma espécie de ‘O sino
paroquial’ vai ser editada a partir
de janeiro, a menos que a nova lei
da imprensa no-lo proibir. Ficando
nosso trabalho restrito à freguesia
de Jequitinhonha só, poderemos
dar mais atenção à grande localidade de Joaíma.
Jequitinhonha, pra frente!... “Em
janeiro de 1942 começou a circular
‘O Sino de Jequitinhonha’, uma
folha em 8º, impressão nítida, em
papel pergaminho sem marca!...
Aos freis e aos paroquianos nossos
parabéns! (Santa Cruz, 1942, p. 18).
Em 1944, logo no começo do
ano, como bom filho, frei Floriano
voltou para Jequitinhonha: bem
vindo! No fim de 1943 chegou frei
Celestino van de Kerkhof, então
coadjutor e que trabalhava em
Barracão, Felizburgo, Monte Belo e
Joaíma, um telegrama do superior
nomeando-o para Araçuaí. Em seu
lugar veio o nosso velho conhecido
frei Floriano, robusto, risonho e
disposto a continuar as obras da
nova capela, já começadas, em
Joaíma.
Na matriz, houve poucos melhoramentos; movimentos espirituais
bem acentuados na catequese,
no Grupo e na Matriz, e nas
Associações da Cruzada e das
Filhas de Maria. Ainda muitos
homens afastados: rancor político,
respeito humano, certos vícios.
Forçar? Vamos trabalhando para
um catolicismo mais militante.
Contudo, não queremos teimar em
ter razão. O bem na freguesia seja
feito de modo que for e por quem
que seja.
No relatório de 1944, frei Letâncio
confessa que ainda não pode
gloriar-se “de nenhum triunfo
espiritual”. Materialmente vai tudo
muito bem. Frei Floriano entende
da arte de lidar com o povo de
Joaíma e na festa de São Sebastião
sobraram 30.000 cruzeiros para
a igreja em construção. Na nossa
matriz e no hospital houve mais
uns melhoramentos.
Em 1946, ao alegar provas em
favor da bondade desta terra,
a mais eloquente talvez seja de
que vigários e coadjutores quase
sempre se retiram daqui com pesar,
levando consigo muitas saudades.
Atribuo a frouxidão da nossa
vida religiosa pela maior parte à
influência da malfadada reinante
“política” que é tão assimilada que
parece criar um ídolo, com cara de
doido, a quem apaixonadamente
tudo é sacrificado: bom senso,
felicidade doméstica, decência
cívica, mesmo pátria e religião. Em
Joaíma, frei Floriano exerce seu
apostolado, querido e amado pelo
povo.
Em fins de 1946, houve finalmente
(por causa da guerra) o Capítulo
Provincial na Holanda. Logo depois, frei Rufino se reuniu com seus conselheiros, organizaram muitas transferências. Frei Letâncio
(começo de 1947) foi transferido
para Teófilo Otoni e, em seu lugar
o novo vigário de Jequitinhonha,
frei Joaquim van Kesteren e frei
Floriano, encarregado de Joaíma.
No fim de dezembro de 1949,
houve nosso primeiro Capítulo
Provincial com novas mudanças:
Revista Santa Cruz - 69
Frei Gotardo Boom vigário e frei
Floriano, encarregado da quase
paróquia Joaíma.
FREI EMILIANO SOEDE
Falando do hospital, frei Emiliano
assim se expressa: “O Município de
Jequitinhonha já era emancipado
quando um ‘Grupo de Cavalheiros’
fundou a Associação Hospital São
Miguel. Isso se deu no dia 1º de
janeiro de 1918 e a cidade tinha
somente uma rua de cima e uma
rua de baixo e, entre elas, a Igreja
Matriz (antiga). A população era
muito menos de mil.
Em 1923, cinco anos depois
da fundação da Associação, foi
inaugurado um pequeno prédio
com quatro quartos grandes, uma
cozinha e uma pequena sala de
curativos, exames, farmácia. Um
médico: Dr. Cordeiro, que cuidava
dos doentes pobres. Parece que
os ‘cavalheiros’ não tinham muito
70 - Revista Santa Cruz
interesse e talvez também não
muito jeito de angariar esmolas
para a manutenção do Hospital.
As ‘senhoras’ deles podiam muito
bem fazer esse serviço. O vigário
da paróquia, com medo de ver
afundada esta bela iniciativa, criou,
então, a Associação das Damas
de Caridade com a finalidade de
manter o hospital em benefício dos
doentes pobres. Assim, os padres da
paróquia entraram nas atividades
do hospital. Os ‘cavalheiros’, vendo
o interesse do padre, acharam
tudo muito bom e se criou assim o
costume de eleger o vigário como
provedor do hospital. Eles, por sua
vez, ficaram livres dessa penosa
responsabilidade e também, politicamente, ninguém tira proveito
de um hospital somente para pobres. A política passou para as
Damas de Caridade e a desunião
era tão grande que a manutenção
da casa de saúde correu perigo,
e mais vezes era necessário um
apelo ao vigário para acabar com
as brigas porque a caridade não
podia acabar. Dez anos depois da
criação das Damas de Caridade, a
paróquia, sob direção de frei Querubim e de frei Virgílio, conseguiu
aumentar o hospital com uma casinha para os tuberculosos e mais
duas enfermarias.
Isso foi em 1936, mais dez anos,
em 1946, outro aumento: uma
maternidade construída quando
frei Letâncio era provedor. Depois
foram eleitos uns provedores‘leigos’
e um deles levantou a ideia de
construir um hospital regional. Em
1957, a política era favorável para
ganhar verbas, a cidade cresceu
com quase cinco mil habitantes
e outras cidades vizinhas não tinham nem posto de saúde. A
ideia foi para frente e foram colocados todos os alicerces para um
hospital de 80 leitos. Mas, em 1958,
a política mudou. O médico da
cidade e responsável pelo hospital
abandonou os seus clientes e foi
para a capital. Frei Edgar, então,
assumiu o cargo de provedor, mas
as verbas sumiram, muito material
roubado, um vice-provedor que
não tinha nenhum interesse em
continuar o hospital novo, porque
era uma obra do seu adversário,
tudo isso levou à conclusão: parar as
obras do hospital novo e reformar
o hospital velho, que de fato já era
uma ruína.
Assim era a situação quando
cheguei a Jequitinhonha, em 1962:
nem Hospital novo, nem Hospital
velho porque o prédio estava
fechado para reforma. Quando em
1964 terminou a reforma, fui eleito
provedor do hospital e poucos dias
depois abrimos o hospital para
receber as vítimas das enchentes.
Não era fácil manter o hospital
porque não tinha nada, nada
mesmo. Tudo foi roubado, estava lá
só o prédio reformado com algumas
camas velhas e uns instrumentos
enferrujados. Superamos tudo e
conseguimos um funcionamento
regular dessa casa que abrigava
os doentes mais miseráveis. Regularizamos a situação perante os
órgãos federais e estaduais e reformamos os Estatutos. Esse hospital, quase cinquentenário, nunca
teria condições de receber doentes
de outras classes da sociedade a
não ser pobres. Um hospital com
mais médicos e mais recursos seria
importante para toda a população.
É com essa intenção que continuamos, em 1967, a construção do
‘Hospital Novo’. Com pequenas
contribuições do povo, com a
sobra da verba do Fundo Rural e
mais outros subsídios estaduais,
conseguimos levantar tantos cômodos que, no início de 1970, era
possível mudar do velho para o
novo hospital.
Em 1969-1970 foi feita uma
grande campanha no meio do
povo da cidade, ao mesmo tempo
elaboramos um projeto pedindo recursos à Alemanha e à Holanda. Com todos esses recursos,
conseguimos construir um hospital de oitenta leitos, mais ou menos sofisticado, o maior e melhor
da região.
No fim de 1972, ficou tudo pronto
para a instalação oficial que, de
fato, nunca houve, porque naquela
Revista Santa Cruz - 71
época estávamos numa disputa
muito grande. Quando chegaram
as primeiras verbas do exterior, o
novo hospital começou a ser muito
cobiçado como um elefante branco.
Uns achavam que o hospital podia
ser uma boa fonte de renda, outros
queriam fazer do hospital um
instrumento político. Houve então
a luta pelo poder. Nossa convicção
foi sempre de que, com a entrada
da política, o hospital não ia sobreviver e por isso ficamos firmes e
não entregamos o hospital.
Fizeram todo o possível para me
afastar do hospital, houve muita
perseguição e desaforos, mas afinal ganhamos a causa na justiça.
Não que tudo tenha terminado,
porque com um médico, filho da
terra, dentro do hospital continuou
ainda a mentalidade de ganância
e politicagem. Com o afastamento
dele e de mais outro médico no
fim de 1978, veio a tranquilidade
sobre o hospital e começou a
funcionar melhor. Eliminado o
perigo de influência política, chegou a hora de o padre se afastar
da direção do hospital. O que
se deu em 1979. Ficamos como
provedor e administrador de 1964
a 1972. Quando o Hospital cresceu,
separamos essas duas funções, e
fiquei somente como administrador até 1979.
Agora está tudo nas mãos de
leigos e vai muito bem. Com uma
72 - Revista Santa Cruz
boa equipe médica e uma turma
zelosa de enfermeiras e quase
todos os convênios. O hospital há
de crescer e já estão falando em
aumentar o prédio com uma ala
especial para doenças contagiosas.
O único elo que liga a Igreja ao
hospital é o fato de o vigário da
paróquia ser membro do Conselho
Superior. Este Conselho escolhe,
a cada dois anos, os membros da
Diretoria. Assim, com um terço dos
votos, a Igreja pode zelar pelo bom
funcionamento e orientação certa
no Hospital”.
Outra grande atividade social
desenvolvida pelos franciscanos
em Jequitinhonha foi a Rádio Santa
Cruz. Frei Emiliano também deixou
registrado, nas páginas da Revista
Santa Cruz de 1986, como se deu a
fundação dessa emissora: “Fundada
em 1966 como Sociedade Limitada, tendo três dos nossos confrades
como cotistas, a Rádio Santa Cruz
passou, em 1978, a ser uma fundação, tendo o Bispo de Araçuaí
como responsável, e com o direito
de indicar o presidente e o vicepresidente da fundação. Atualmente o bispo de Almenara é o presidente da fundação, e o vice-presidente
e os diretores-assistentes são leigos
de Jequitinhonha ligados à Igreja.
Quando a emissora passou da Província para o Bispado de Araçuaí,
o bispo Dom Silvestre pediu para
os franciscanos tomarem conta
da Rádio enquanto estiverem em
Jequitinhonha.
A finalidade da Rádio Santa
Cruz pode ser expressa em duas
palavras: “educacional e vocacional”
ou também “promoção humana”.
Nos primeiros cinco anos, o acento
da nossa programação caiu na
educação, instrução e informação;
depois se destacou mais o
serviço pastoral e, nos últimos
cinco anos estava em primeiro
lugar a promoção humana e
conscientização, com um acento
especial na defesa dos direitos
humanos. Nos próximos cinco
anos, a programação será dedicada
à informação dada pelos próprios
ouvintes; principalmente os pobres
e injustiçados têm de contar a sua
própria história. Tentamos assim
chegar a uma conscientização
dos graúdos, principalmente em
relação à reforma agrária, conseguir
soluções pacíficas, melhorar o
entendimento e chegar a mais
fraternidade.
A instalação da Rádio Santa Cruz
é, sem dúvida, uma das melhores
do interior de Minas. O estúdio
é construído no terreno da casa
paroquial e é puramente funcional,
sem enfeites e luxo. O lugar da
antena e a casa dos transmissores
ficam fora da cidade. Numa
cidade como Jequitinhonha os
recursos humanos são sempre
escassos, principalmente no início
das nossas atividades, quando a
emissora entrou no ar em janeiro
de 1971. Para recrutar o pessoal,
abrimos mais vezes um concurso
com tarefas específicas. Usamos
o método de desclassificação dos
menos capacitados. Para os dez
últimos candidatos houve um curso prático de radiodifusão.
Nos primeiros anos, a nossa programação era muito rígida. Depois de alguns anos, os próprios
funcionários pediram mais liberdade na locução. Excluindo alguns
abusos, deu muito certo essa experiência. Sempre a emissora está
aberta para qualquer ouvinte que
queira dar seu recado ou queixa,
seja por carta, telefone ou pessoalmente.
Como os recursos humanos são
difíceis, assim também a manutenção encontra os mesmos problemas: cidade pequena, comércio fraco, predominância da agropecuária, sem indústrias, muita
pobreza e grandes riquezas em
poucas mãos, tudo isso não é ideal
para a manutenção de uma emissora. Trabalhando, porém, com um
mínimo de pessoal remunerado,
deu para sobreviver. Houve uns
anos em que devíamos reduzir o
ho-rário de funcionamento, mas
no fim voltamos ao horário normal.
A Província prometeu ajudar na
manutenção, pagando o salário de
um técnico do equipamento e do
Revista Santa Cruz - 73
gerente da emissora.
Achamos que a Rádio Santa
Cruz cumpriu e está cumprindo
a sua missão de levar o homem
para mais perto de Deus. Sei que
diversos confrades não estão de
acordo que nos dediquemos aos
meios de comunicação, mas o fato
é que todos usam um ou outro
meio para se comunicar: um jornal
paroquial, um projetor de slides
ou até vídeo-recorder. E quem não
tem um serviço de alto falantes na
sua igreja? Nossa voz humana não
tem força para chegar ao fundo das
igrejas onde os fiéis têm o costume
de se esconder, por isso um sistema
de som é muito prático e eficiente. E
qual a finalidade de um alto-falante
nas torres das igrejas? Uma emissora de rádio é um prolongamento de
um alto-falante e penetra todos os
lares para receberem a mensagem
cristã. Pela estatística, sabemos
que qualquer emissora tem pelo
menos 10.000 ouvintes. Quem já
encheu a sua igreja com 10.000
fiéis? Somos massacrados pelo mau
uso dos meios de comunicação e
quantas vezes nós mesmos somos
as vítimas! Por que, então, não fazer
um bom uso do poder que temos
em nossas mãos?
Depois de quinze anos de prática com a Rádio Santa Cruz, conhecemos a força que a Igreja
tem nas mãos, e o bem que faz ao
povo de Deus, e como é uma ajuda
74 - Revista Santa Cruz
inestimável para o vigário no seu
serviço pastoral. Quando a estação
está nas mãos da Igreja, ninguém
pode impedir a nossa palavra,
temos toda a liberdade, porque a
Palavra de Deus deve ser pregada
oportuna e inoportunamente”.
FREI ADALBERTO LAU
“Depois de ter trabalhado 19 anos
em Nanuque, ocupando a maior
parte de meu tempo com o ensino,
moro desde o ano passado (fevereiro de 1975), no Vale do Jequitinhonha, na cidade do mesmo nome.
Tantos homens nobres e santos
ocuparam o cargo de vigário
nesta paróquia! Frei Flaviano van
Liempt (1922-1926); frei Querubim
Breumelhof, que construiu a matriz
e a casa paroquial entre os anos
de seu glorioso vicariato de 1926 a
1939. E depois, frei Letâncio Vaske
(1939-1947); frei Joaquim van
Kesteren (1947-1950); frei Gotardo
Boom (1950-1959); frei Edgar Groot
(1959-1962); e frei Emiliano Soede
(1962-1975). E antes destes vigários
todos, já trabalhava na cidade e na
região o frei Samuel Tetteroo.
Já alguns anos vivia e trabalhava
frei Emiliano, sozinho na paróquia,
além de uma emissora de rádio e um
hospital. Não podia dedicar às três
obras a atenção que cada uma delas
merecia. Ele me ofereceu a escolha
entre a Paróquia e o combinado
Rádio/Hospital. Escolhi a Paróquia.
Mas repartimos fraternalmente as
missas na Matriz e em Joaíma. E
todo dia falo pela Rádio.
Estou gostando muito daqui, do
povo da cidade e da roça, do ambiente, tanto em casa como no meu
trabalho. Não deixei o ensino totalmente, porque vou duas noites
por semana ao Colégio Estadual
para ensinar um pouco de Religião
e Química no 2º grau. Também dou
sempre uma mãozinha ao Mobral.
Com mais seis homens fiz, no mês
de outubro do ano passado, o cursilho. O grupo cresceu e já somos 14
pessoas. E neste mês de fevereiro
realizou-se outro sonho: chegaram
as Irmãs; uma pequena comunidade de quatro irmãs da Congregação
das Irmãs da Santíssima Eucaristia
(as de Pirapora), das quais duas
são capixabas e duas mineiras. Elas
ajudam no Hospital e no Colégio,
mas todas elas atuam na pastoral
direta.
O Plano Pastoral da Diocese de
Araçuaí tem como objetivo específico, para o biênio 76/77, multiplicar e desenvolver as Comunidades Eclesiais de Base na roça
e na cidade, geográfica e ambientalmente falando. Principalmente na roça é a religião que
une mais facilmente o povo. E,
por isto, procuramos - em geral criar pontos de Culto Dominical,
cada um com seus dirigentes,
para então partir daí a caminho
de uma “Comunidade”. Até agora
já funciona o Culto Dominical em
quatro pontos da cidade e em onze
pontos na roça. Quase sempre aos
domingos aproveitamos a tarde
para visitar um dos cultos.
Uma das Irmãs já está dando
aula de canto pela Rádio. Após
multiplicar e distribuir folhetos com
os cantos. Para conseguir isso, sofreu a casa paroquial uma reforma
bastante grande. Quase a metade
agora se destina aos serviços ‘públicos’ paroquiais. Funcionam a comunicação, gabinete do agente de
pastoral, secretaria, salãozinho de
reuniões e instalações sanitárias. Foi
feita também outra entrada para a
casa paroquial, a saber, no beco
entre a Matriz e a casa. Já que esse
beco não tem nome ainda, batizei
o endereço da Casa Paroquial: Beco
do Padre s/n. Isto obedecendo a
uma tradição local de dar apelido
às ruas.
Revista Santa Cruz - 75
Graças a uma campanha financeira
- antes da crise atual - conseguimos
colocar bancos novos na Matriz,
trocar nove janelas fixas por
basculantes (movimento já iniciado por frei Emiliano), abrir mais
duas portas laterais, construir um
altar fixo e realizei mais algumas
mudanças. As três capelas da cidade foram consertadas e estão
sendo usadas tanto para o Culto
Dominical como para o Mobral.
Pertencendo já ao Lions Club,
não encontrei este clube aqui. Encontrando o Rotary, achei bom
aceitar o convite de nele entrar.
Entre os vários motivos, cito um:
melhor entrosamento na sociedade, parte integrante da paróquia. O
ambiente da casa é muito bom. Frei
Emiliano é um bom companheiro
que, graças a sua vasta experiência
na região, representa um apoio
forte. A Província está vivinha, em
Jequitinhonha. Porque não nos
interessa só passado franciscano
do Vale. Vamos lutar por um futuro
glorioso”.
E a vida continua...
Outro projeto relevante que vem
sendo realizado na Paróquia São
Miguel e Almas, em nossos dias, é
o “Projeto de Alfabetização Reveja”.
A ideia de criar um movimento de
alfabetização de jovens e adultos se deu em 2001, quando os
frades perceberam o alto índice
76 - Revista Santa Cruz
de analfabetismo e a baixa escolarização existente na cidade e
região, sobretudo na zona rural. A
proposta de alfabetização, a partir
do método de Paulo Freire, inclusive
no aspecto da evangelização, foi o
ponto de partida.
Os objetivos do Reveja são:
- Fornecer, ao lado das iniciativas
do poder público, uma oferta de
educação básica para jovens e
adultos que são excluídos do sistema regular de ensino, favorecendo, assim, o pleno e efetivo exercício
da cidadania.
- Contribuir na criação de oportunidades para que todos possam
ter uma vivência participativa e
democrática nos espaços organizados da sociedade.
- Desenvolver experiências pedagógicas alternativas, visando à
permanência, ao aproveitamento,
à progressão e à posterior inserção
no ensino regular.
E suas Dimensões:
- Psicológica: resgate da autoestima; respeito e valorização da individualidade; (auto) confiança; liberdade de expressão; autoavaliação; consciência crítica.
- Política: identidade e cidadania;
liberdade e democracia; construção da sociedade de maneira participativa.
- Pedagógica: construção e valo-
rização do conhecimento; elaboração de um saber popular e
formal contextualizado, integrado
e interdisciplinar; aquisição da lei-
tura e da escrita, proporcionando,
assim, uma formação integral em
todas as áreas.
Vigários (párocos) da Paróquia São Miguel e Almas antes da
chegada dos frades:
Pe. Manoel Soares de Souza (1830-1843)
Pe. Antônio da Costa Melo (1843-1847)
Pe. Frei Domingos Casale, ofm cap. (1847-1864)
Pe. José Timóteo da Silva (1864-1868)
Pe. Emerenciano Alves de Oliveira (1870-1921)
***
Vigário (pároco): Pe. Emerenciano (1870-1921)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Pe. Sebastião Ayala (1910-1912)
Frei Samuel Tetteroo (1912-1917) - Residia em Joaíma.
Frei Feliciano Smitz (1913-1920)
Frei Luiz Geldens (1916-1918)
Frei Querubim Breumelhof (1917, 1920-1921)
Frei Gualberto Schoonhof (1917-1921)
Frei Flaviano van Liempt (1917-1921)
***
Vigário (pároco): Frei Flaviano van Liempt (1922-1926)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Querubim Breumelhof (1922-1924)
Frei Luiz Geldens (1923-1926)
Frei Alfredo Waardeloo (1923-1926)
Frei Liberto Soppe (1924-1925)
Revista Santa Cruz - 77
Vigário (pároco): Frei Querubim Breumelhof (1926-1939)
Coadjutores (vigários paoquiais):
Frei Alfredo Waardeloo (1926-1930)
Frei Letâncio Vaske (1926-1929)
Frei Teodoro Ouwendijk (1929-1933)
Frei Floriano Groen (1933-1936)
Frei Constantino van Rijn (1936-1938)
Frei Virgílio Hoogenboom (1938-1939)
Frei Teodulfo Kamsma (1938-1940)
***
Vigário (pároco): Frei Letâncio Vaske (1939-1947)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Teodulfo Kamsma (1939-1940)
Frei Felicíssimo Mattens (1940-1941)
Frei Celestino van den Kerkhof (1941-1944)
Frei Floriano Groen (1944-1947)
***
Vigário (pároco): Joaquim van Kesteren (1947-1950)
Coadjutor (vigário paroquial):
Frei Floriano Groen (1947-1950)
***
Vigário (pároco): Frei Gotardo Boom (1950-1958)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Floriano Groen (1950-1951)
Frei Leônides Schoorl (1950-1952)
78 - Revista Santa Cruz
Frei Hugo de Podestá (1952)
Frei Liberto Soppe (1952-1953)
Frei Aurélio Peters (1958)
***
Vigário (pároco): Frei Edgar Groot (1958-1962)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Aurélio Peters (1958-1960)
Frei Hildebrando van Petten (1960-1962)
***
Vigário (pároco): Frei Emiliano Soede (1962-1975)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Marino van Vondelen (1962-1969)
Frei Tobias (Hugo) van Steekelenburg (1964-1965)
Frei Bento van den Broek (1966-1968)
Frei Ismael Lambi (1967-1968)
Frei Marino van den Heuvel (1970)
Frei Irineu van Tongeren (1971-1972)
Frei José Seegers (1970-1972)
***
Vigário (pároco): Frei Adalberto Lau (1975-1986)
Coadjutores (vigários paroquiais):
Frei Emiliano Soede (1975-1986)
Frei Marino van Vondelen (1983-1986)
Frei Afonso Muré (1984-1986)
***
Igreja concluída
Revista Santa Cruz - 79
Pároco: Frei Dari Bernardino Pinto (1986-1987)
Vigários paroquiais:
Frei Eliseu Tijdink (1986-1987)
Frei Marino van Vondelen (1986-1987)
***
Pároco: Frei Oscar van der Neut (1987-1995)
Vigários paroquiais:
Frei Emiliano Soede (1987-1989)
Frei Francisco Prick (1987-1992)
Frei Eliseu Tijdink (1987-1995)
Frei José Mauro Lopes – Agente pastoral (1992-1995)
***
Pároco: Frei Mário Rodrigues dos Reis (1995- 1998)
Vigários paroquiais:
Frei Oscar van der Neut (1987-1994)
Frei Marino van Vondelen (1995-1997)
Frei Eliseu Tijdink (1995-1998)
Frei José Mauro Lopes - Agente pastoral (1992-1997)
***
Pároco: Frei Eduardo Metz (1998- 2001)
Vigários paroquiais:
Frei Eliseu Tijdink (1998-2001)
Frei Marino van Vondelen (1998-2001)
Frei João Bosco Resende da Silva (1999-2001)
***
80 - Revista Santa Cruz
Pároco: Frei Antônio Francisco Blankendaal (2001-2004)
Vigários paroquiais:
Frei Marino van Vondelen (2001 até seu falecimento em
05/03/2003)
Frei Pedro José de Assis (2001-2004)
Frei João José van der Slot (2001-2004)
Frei Donizete Afonso - Diácono (2002-2004)
Pároco: Frei Mário Rodrigues do Reis (2004-...)
Vigários paroquiais:
Frei Pedro José de Assis (2004-2009)
Frei Antônio Francisco Blankendaal (2004-...)
Frei Donizete Afonso da Silva (2004-2006)
Frei Laércio Jorge de Oliveira (2006-2008)
Frei Clézio Ferreira de Lacerda – Agente pastoral (2008-2009)
Frei Márcio Carneiro Cabral - (2010-...)
Frei Fernando Resende da Silva - Agente pastoral (2010 -...)
***
Referências:
- KOPPEN, Helano. Nossas Paróquias Mineiras. Belo Horizonte: Gráfica do Colégio
Santo Antônio, 1991, p. 11-16
- REVISTA SANTA CRUZ (1936), p. 40, 74-76, 83; (1937), p. 57; (1939), p. 75; (1942),
p. 32; (1944), p. 1, 47-49; (1947), p. 25; (1959), p. 15-21; (1962): p. 36, 38,40; (1975),
p. 95; (1981), p. 289-292; (1986), p. 278-283;
- REVISTA SPI - Serviço Provincial de Informações (1976), p. 16-19.
- www.diocesealmenara.org.br
Revista Santa Cruz - 81
2. MEMÓRIA DE FREI EGÍDIO
SÖNTJENS (+ 17/08/2005)1
Tudo tem seu tempo.
Gerações passam, gerações vêm.
Eterno é só Deus.
A Ele nós rogamos:
Que empreguemos bem o tempo
da nossa vida;
e, de ano em ano, aumentemos em
sabedoria,
e cresçamos com a graça de Deus.
Que sejamos gratos por tudo o que
recebemos,
humildes nas nossas exigências,
equilibrados nas nossas expectativas.
Que estejamos presentes
nos votos que fazemos,
nos presentes que damos,
e felizes com as coisas pequenas.
1 Texto manuscrito encontrado por frei Francisco van
der Poel (em 23/03/2011), no livro Liturgia das Horas
que pertenceu a frei Egídio Söntjens.
82 - Revista Santa Cruz
Que não nos esqueçamos dos que
ganham pouco;
e que guardemos na memória
os que foram tirados do meio de
nós.
Das tuas mãos, ó Deus,
recebemos nossos dias e anos.
Abençoa início e fim,
e fortalece o trabalho das nossas
mãos.
Deus de misericórdia,
chame-me de volta,
quando eu fugir de ti;
atraia-me até vós,
quando eu resistir,
levante-me,
depois de eu cair,
apóie-me,
depois de eu me levantar,
conduze-me,
enquanto eu prosseguir.
Não me esqueça,
embora eu te esqueça;
Não me abandone,
embora eu te abandone,
Não retire teu olhar de mim,
embora eu seja um pecador.
Não repare minha fraqueza,
mas somente tua bondade infinita.
Perdoe-me com tua graça o mal
que fiz.
Dê-me arrependimento sobre o
que passou,
e faze que eu seja cuidadoso
para não tornar a pecar.
UMAS E
OUTRAS
E para alegrar a vida, uma pitadinha de
“humor franciscano”.
Deita que lá vem tiro
Receoso da extrema violência dos
grandes centros, frei Luciano Lopes
tem feito um curso de sobrevivência
na selva de pedras. Na lição número
um, aprendeu que, quando se ouve
um tiro, mesmo distante e sem
saber onde foi, o melhor a fazer é
deitar-se rápido no chão e procurar
se proteger o melhor possível. De
tanto repetir o feito, já até perdeu
uns quilinhos.
Revista Santa Cruz - 83
O espantalho do Aqua man
Em sua viagem de regresso, vindo
de Timor Leste, frei João Bosco
teve certos contratempos na conexão em Londres. As agências
internacionais foram acionadas,
mas o filho de São Francisco só
foi localizado tempos depois. Será
que estava reservando lugar para
acompanhar o casamento real?
Visita ao Museu da Loucura
No postulantado, tem sido desenvolvido um projeto inovador
de espantalhos para a horta. Dessa
vez, acoplado ao boneco, se pôs
uma saída de água que, quando
menos se espera, dispara jatos por
todo o canto. Às vezes acontece
de o jato sair mais forte que o
previsto, e quase faz o espantalho
decolar, mas frei Kelisson já está
providenciando melhorias.
Londres, uma cidade boa pra se
perder
84 - Revista Santa Cruz
Como atividade extraclasse, os
frades do primeiro período de filosofia foram visitar o “Museu da
Loucura”, em Barbacena. Tudo interessante, tudo muito instigador,
mas o pior ainda estava por vir: o
sufoco de convencer os guardas na
saída de que eram visitantes, frades, pessoas tranquilas, gente boa,
estudante, da Igreja, franciscanos...
O fashion da vez
Ronaldo ir pescar, no auge de seus
ataques de nervos? Pois, atendendo a pedidos, assim que ele chegou a Betim, tratou de cavar um
poço de peixes. Se vai funcionar, ou
seja, deixá-lo mais zen, devemos
esperar um pouco mais. Até lá, dálhe suco de maracujá.
Cadê meus óculos?
A homenagem ao look dos frades
dessa vez vai para frei José da Cruz,
que trouxe à cena uma peça que
se pensava esquecida: a estola de
bolso. Pouco maior que uma régua
escolar, o modelo oferece comodidade e elegância para o frade em
suas atividades cotidianas. Leve,
prática, portátil, o modelo promete
fazer sucesso.
Tá nervoso?...
Atire a primeira pedra quem nunca
teve vontade de mandar frei Vicente
Após consultar o médico, frei Pedro
Chiaretti regressava pra casa feliz
da vida até que sentiu falta de seus
inseparáveis óculos. O problema é
que já estava longe, havia escadas
pra subir, mas, paciência, sem os
óculos não podia ficar. Ao chegar
de novo ao consultório, o frade
explicou toda a situação para a secretária que o atendeu: “é que não
sei onde esqueci meus óculos.
Talvez os tenho deixado aqui...”.
“Quais? – perguntou a gentil secretária – os que estão no rosto do
senhor?”.
Revista Santa Cruz - 85
Luá da juventude
Aproveitando as solenidades da
Semana Santa, frei Geraldo Machado promoveu um encontro de
jovens pra lá de animado. O sarau
atraiu a juventude para cantar,
dançar, curtir a vida. Querem saber
o nome desse tipo de evento? Frei
Geraldo esclarece: “luá”. O nome
deve vir da famosa música: “não há
ó gente, ó não, luá como este do
sertão....”.
De passagem por Teixeira de Freitas,
frei Rogério Rodrigues seguia com
um grupo de religiosos para a “Missa da Unidade” da diocese. Como
não conheciam bem o caminho,
foi preciso pedir informações. Lá
foi o frade. Quando voltou, parecia
ter ganhado um prêmio por ter
desvendado o caminho. “É só pegar a rua São Paulo”. “E onde é a rua
São Paulo?” – quiseram saber os
companheiros. “Ah, isso me esqueci
de perguntar”.
Estacionamento a muque
A arte de se informar
Frei Emanuel, pertencente à Fundação do Triângulo Mineiro, tem
encontrado muitas dificuldades pra
se acostumar à vida na grande BH.
Uma das queixas é o tamanho das
garagens, muito apertadas, segundo ele. Já se tornou comum
o cabeludo motorista estacionar
e ter de chamar os confrades pa-
86 - Revista Santa Cruz
ra acabar de chegar o carro no
lugar. O detalhe: a muque, porque
qualquer manobra a mais seria um
risco na pintura. “Terão de fabricar
carros mais estreitos!” – desabafou
o desolado motorista.
Sermão de Semana Santa
Conforto animador
Em uma visita à ala hospitalar, frei
Pedro de Assis encontrou-se com
uma senhora muito deprimida:
“Frei, quero uma bênção porque
vou morrer nesta semana”. Para animar a pobre mulher, o frade a confortou: “Tudo bem. Pelo que vejo, se
não morrer nesta semana, morrerá na próxima”.
Durante a “Grande Semana”, frei
Patrício foi matar a saudade de
sua antiga paróquia, em Betim.
Muitas visitas, muitos reencontros
e, acima de tudo, muitos sermões
acalorados. As massas afluíram dos
lugares mais distantes para ouvir
suas pregações. Gostaríamos, aqui, de transcrever alguns trechos
de tão eloquentes palavras – o
que muito edificaria os leitores! -,
infelizmente trata-se de um desejo
impossível pois nem o mundo todo poderia contê-las.
Revista Santa Cruz - 87
Traíras com mutação genética
Após uma alteração no PH da água
na represa, em Areias, surgiu uma
nova espécie de traíras, capazes
dos mais ferozes ataques. Patos,
gansos e outros peixes têm sido o
prato predileto dessa nova geração.
Se outra mutação acontecer, certamente começarão a perseguir os
passantes. É melhor não se arriscar.
Fica o alerta para os que transitarem
pelas imediações do temeroso açude: “sebo nas canelas”!
Vocações a todo custo
Na tentativa de arrebanhar sempre
mais vocações, frei Eron Cerrato tem disparado tiros pra todo canto. Costuma convidar para
os encontros vocacionais até os
carteiros que batem à porta, frentistas dos postos de gasolina,
caixas de supermercado etc. Vale
recordar dois de seus telefonemas:
no primeiro, ligou para a casa do
cara que tinha batido na traseira da
Parati. Ironia do destino, embora o
número estivesse errado, o nome
do tal homem era o mesmo do de
um vocacionado. A esposa dele nada entendeu sobre o que o frade
lhe relatava ao telefone. E o ‘barraco’ foi armado: “Meu marido não
tem carro. Eu não estava com ele. Só
se ele estiver me traindo. Meu marido não é santo. Cafajeste...”. Bem
que o frade tentou interromper e
esclarecer o mal-entendido, mas a
mulher se recusava a ouvi-lo. Tudo
se resolveu após longos minutos
de diálogo. Em outra ligação, nosso “Promotor vocacional” teve o
cuidado de medir as palavras para
não repetir o episódio acontecido
anteriormente. Apesar de tudo,
também desta vez, o confrade errou o “bote”. O rapaz não pôde
atender ao convite para participar
do próximo encontro vocacional
pelo simples fato de ele ser casado
e pai de dois filhos.
Liga não, frei Eron, o Senhor da
Messe vai mandar outros!
88 - Revista Santa Cruz
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