IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil __________________________________________________ A influência do nível doméstico nas posições ambivalentes adotadas pelo Brasil nas negociações do Protocolo de Kyoto Claudino Luiz Menezes Mestre em Sociologia Política [email protected] Resumo Este artigo tem como objetivo analisar a forma como se estabeleceram as clivagens e alinhamentos entre os vários atores que compunham a arena política doméstica brasileira (com diferentes percepções, valores, interesses e demandas), durante o período da negociação internacional e da ratificação brasileira do Protocolo de Kioto); e como a configuração desta arena influenciou na ambivalência das posições assumidas pelo Brasil durante as negociações. Posições ambivalentes essas que, por um lado, contribuíram para que o protocolo ganhasse substância e viabilidade operacional. Mas que, por outro lado, contribuíram para que se inviabilizasse o consenso em certas negociações pontuais-chaves – tornando-o um instrumento fraco do ponto de vista político e com alcance limitado para mitigar os efeitos da ação humana no aumento da concentração de gases que provocam o “efeito estufa”. Palavras-chave Negociações Internacionais, Nível Doméstico, Protocolo de Kyoto 2 Introdução O Protocolo de Kyoto (atualmente em vigor na forma de Tratado), juntamente com a Convenção–Quadro de Mudanças Climáticas, constitui-se no principal instrumento do Regime de Mudanças Climáticas. Nele a comunidade internacional depositou grande parte de suas esperanças em mitigar um dos principais problemas ambientais globais da atualidade: o aumento da emissão de gases de “efeito estufa” e seus efeitos na alteração do clima do planeta. Desde o inicio das discussões iniciais, nos anos 80, a respeito das implicações da ação humana na mudança da estabilidade do clima do planeta, passando pela tentativa de se levar para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) um documento com metas e responsabilidades de redução de emissões de gases de “efeito estufa”, observou-se uma dinâmica de clivagem e alinhamento entre os países. Sem o devido consenso em questões-chaves, somente às vésperas da abertura do evento no Rio, em 1992, foi possível ter o texto definitivo da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas a ser aberto às assinaturas dos participantes. Como característica deste tipo de documento, os compromissos apresentados eram demasiados genéricos e de difícil operacionalização. Assim, a definição mais precisa e operacionalizável de metas foi postergada para ser negociada pelas partes em futuras conferências: as Conferências das Partes (COPs). A primeira dessas conferências (COP 01) viria a ser realizada dois anos depois da Rio-92 quando, então, criaram-se as bases para um protocolo de negociações que regulamentasse a Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas anteriormente criada. Passando por uma Segunda Conferência das Partes, cuja proposta principal de metas foi apresentada pela delegação americana, finalmente na Terceira Conferência das Partes (realizada em Kyoto, no Japão) o protocolo foi adotado. Tal como havia ocorrido com o texto da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas, cuja dificuldade de consenso nas negociações levou a que seu texto só fosse concluído às vésperas do inicio do evento, vários artigos-chaves do Protocolo de Kyoto também ficaram para serem precisados numa próxima Conferência das Partes – dado ao fato de que a aprovação do seu conteúdo textual só foi possível numa negociação de última hora. Entre a possibilidade de não se adotar um protocolo e adotar um protocolo polêmico, optou-se pela segunda alternativa. A inserção do Brasil nesta dinâmica de negociações se caracterizou pela apresentação de um comportamento ambivalente. Por um lado, ao apresentar e negociar propostas inovadoras e criativas, do ponto de vista técnico, contribuiu para que o protocolo ganhasse substância e viabilidade operacional. Mas por outro lado, liderou ou participou de 3 certas alianças que inviabilizaram o consenso em certas negociações pontuais-chaves do protocolo – tornando-o um instrumento fraco do ponto de vista político e com alcance limitado para mitigar os efeitos da ação humana no aumento da concentração de gases que provocam o “efeito estufa”. Ou seja, no sentido propositivo, a inserção brasileira foi decisiva para que no processo de negociações se encontrassem mecanismos flexíveis de mercado a fim de viabilizar o compromisso dos países desenvolvidos de redução de emissão dos gases de “efeito estufa”. Nesse caso também foi decisiva a inserção brasileira no sentido de assegurar que O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) fosse o primeiro dos três mecanismos flexíveis de mercado a ser implementado e que seu Conselho Diretor tivesse uma representação significativa dos países pobres e emergentes. Porém, no sentido oposto, ao liderar a aliança dos países do G77/China contra o estabelecimento futuro de metas de redução de emissões de gases de “efeito estufa” aos países emergentes, contribuiu para inviabilizar um controle de emissão de gases de “efeito estufa” mais fiel à realidade dos principais países poluidores. Naquele momento, países emergentes como China, Índia e Brasil já eram vistos como potenciais candidatos a encabeçar a lista dos países mais poluidores no inicio do século XXI - o que os estudos atuais confirmam. Da mesma forma, ao se aliar com países contrários à inclusão das florestas nativas no protocolo como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”), contribuiu para que compromissos de combate ao desmatamento e à biopirataria não fossem contemplados no protocolo. Sendo assim, o que segue é uma tentativa de analisar em que medida o ambiente doméstico influenciou os negociadores brasileiros a agirem de forma ambivalente. Para tal, é utilizada a abordagem teórica nomeada de Jogos de Dois Níveis (Two-Level Games) – especialmente as contribuições de Robert D. Putnam e Helen Milner. Na perspectiva dos Jogos de Dois Níveis (Two-Level Games) a cooperação entre Estados é afetada pelas conseqüências distributivas, entre os grupos domésticos, das metas cooperativas. Ou seja, acordos de cooperação geram perdedores e ganhadores domésticos. Portanto, entre os grupos de interesses domésticos, geram-se apoiadores e opositores às posições dos governantes ou negociadores internacionais. Por conta disso, a posição relativa de preferências políticas e sociais dos principais atores domésticos (Executivo, Legislativo e grupos de interesses) durante uma determinada negociação se constitui em importante variável para se compreender sua evolução e seus rumos. Desta forma, na primeira parte é feita uma apresentação dos pressupostos do modelo dos Jogos de Dois Níveis (Two-Level Games). Na segunda parte é feita uma análise da forma como se estabeleceram as clivagens e alinhamentos entre os vários atores que compunham a arena política doméstica (com diferentes percepções, valores, interesses e 4 demandas) durante o período da negociação internacional e da ratificação brasileira do Protocolo de Kyoto). Na terceira parte são apresentadas algumas considerações finais, decorrentes do resultado dessa análise. Negociações Internacionais e o Nível Doméstico A partir do final dos anos 80 um intenso debate/diálogo irá se desenvolver entre neorealistas e neo-institucionalistas. Partindo de uma base epistemológica comum (Estados como principais atores, com caráter racional e unitário, atuando em função do poder e calculando seus interesses em função do poder), buscarão aprofundar as explicações sobre os efeitos e condicionamentos da estrutura anárquica do sistema internacional nas tomadas de posições que envolvem os processos de cooperação internacional. A fertilidade deste debate, assentado na tradição racionalista, daria espaço para a ascendência da abordagem teórica nomeada de Jogos de Dois Níveis (Two-Level Games).1 Embora não negassem os efeitos e condicionamentos da estrutura anárquica do sistema internacional como um vetor de força importante ao quais os governantes ou negociadores internacionais estão submetidos, os formuladores da teoria dos Jogos de Dois Níveis passaram a criticar tanto neo-realistas como neo-institucionalistas por estes desconsiderarem que, além do comportamento estatal estar condicionado pela estrutura do sistema internacional (anarquia e distribuição de poder) ou pelas instituições, o nível doméstico constitui-se em uma variável importante na análise do processo de tomada de decisão nas negociações. Quer dizer, por não tratarem o nível doméstico como importante vetor de força capaz de mudar os rumos da cooperação internacional. Entre a resposta elaborada pelos neo-realistas de que o comportamento dos Estados se explica mais pelos constrangimentos estruturais do sistema internacional que pelos atributos ou características de cada um deles; e a dos neo-institucionalistas que apostam numa explicação na capacidade das instituições de ajustar o comportamento dos Estados e, consequentemente, de reduzir os níveis de dissensão,2 aqui se entende que “a cooperação entre Estados é afetada menos pelo medo dos ganhos relativos ou da trapaça de outros paises do que pelas conseqüências distribucionais internas das tentativas de cooperação”. Isto porque, acordos de cooperação criam perdedores e ganhadores domésticos. Portanto, 1 Embora desde os anos 50 já houvesse preocupação por parte de alguns analistas (Thomas Schelling, 1956 e 1960; David Singer, 1961; Graham Allison, 1969) em buscar encontrar pontos de intersecção entre os níveis interno e externo, foi com Robert Putnam, a partir do final dos anos 80, que essa variante analítica começou a ganhar força de argumentação. Depois, a partir da década de 90, contribuições empírico-analiticas de pesquisadores como Helen Milner (1997) ampliariam a capacidade analítica da teoria dos Jogos de Dois Níveis. 2 Para os Neo-Realistas as possibilidades de cooperação estarão limitadas pela incerteza sobre o impacto dos ganhos relativos na posição das capacidades de poder. Enquanto para os Neo-Intitucionalistas a cooperação será imotivada pelo medo da trapaça que a estrutura anárquica (ausência de um poder supra-estatal) possibilita aos negociadores. 5 geram grupos de apoio e grupos de oposição. Consequentemente, “a luta interna entre esses grupos condiciona a possibilidade e a natureza dos acordos de cooperação” (Milner, 1997, p. 09-10). É que de acordo com o modelo dos Jogos de Dois Níveis (Two-Level Games) um processo de negociação internacional sempre estará envolvido por dois momentos específicos: a) A negociação interestatal, onde os agentes do governo (Executivo) responsáveis pela negociação de cada Estado se encontrarão para negociar um acordo sobre uma determinada questão de interesse comum (chamado de nível I); b) A ratificação, no nível doméstico, do acordo realizado internacionalmente (chamado de nível II). Assim, dado que o que for acordado externamente terá que ser ratificado domesticamente pelo Legislativo, grupos domésticos que têm interesses ligados à questão em negociação buscarão assegurá-los pressionando o governo para que adote políticas que atendam suas preferências. Desta forma, Putnam (1993) entende que o nível doméstico deve ser considerado em igualdade de importância com o nível internacional para explicar motivações e constrangimentos à cooperação. Já Milner (1997, p. 10-11) vai mais além. Para ela o nível doméstico deve ser tratado com mais relevância que o nível internacional quando se deseja explicar motivações e constrangimento dos Estados à cooperação. Isto porque a política doméstica não se organiza em uma estrutura hierárquica, com um único ator no topo tomando as decisões finais, mas sim em uma estrutura poliárquica onde atores com preferências variadas compartilham poder durante as tomadas de decisão – frequentemente de forma desigual. Por isso, a Estrutura de Preferências Domésticas (políticas e sociais), entendida como “a posição relativa de preferências de importantes atores domésticos sobre o assunto em pauta”, se constitui em importante variável para compreender a evolução e os rumos da cooperação (Milner, 1997, p. 10-11). A razão dessa importância se deve ao fato que “as diferenças entre as preferências políticas dos atores que compartilham poder de decisão exercem uma poderosa influência sobre como políticas domésticas afetam a cooperação internacional” (Milner, 1997, p. 10-11). É que, como já vimos acima, acordos de cooperação geram custos a estes atores (custos distributivos), determinando condições de ganhadores e perdedores entre eles. Assim, de acordo com o efeito desses custos (negativo/positivo) passam a assumir uma posição de oponentes (veto players) ou de partidários do acordo. Entre os atores políticos (Executivo/Legislativo) o cálculo dos efeitos eleitorais é que irá definir a estrutura de preferências políticas nas estratégias de negociação (Milner, 1997, p. 42). No caso dos atores sociais (grupos de interesses) a estrutura de preferências sociais será definida pelos 6 cálculos dos efeitos dos custos distributivos sobre seus interesses e sobre suas habilidades para maximizá-los (Milner, 1997, p. 06). Sendo assim, além da variável Estrutura de Preferências Domésticas, outras duas variáveis deverão ser levadas em conta para se compreender a evolução e os rumos da cooperação: as Instituições Políticas Domésticas e a Distribuição da Informação entre os atores domésticos. Com relação à primeira variável, significa levar em consideração como o controle sobre o processo de formulação da decisão é distribuído domesticamente. Quer dizer, perceber como são compartilhados, entre os atores domésticos, alguns poderes como o de definir a agenda, de propor emendas, de vetar ou de ratificar o acordo. Isto porque em situações em que um ator tem maior controle sobre esses poderes terá maior influência sobre o processo de tomadas de decisão e, por conseqüência, suas preferências mais facilmente estarão contempladas na escolha política final (Milner, 1997, p. 18).3 Com relação à importância de se levar em conta a Distribuição da Informação entre os atores domésticos para se compreender a evolução e os rumos da cooperação significa ter em mente que tal distribuição define a forma como será composta a Estrutura de Preferências Domésticas. A existência de uma assimetria nesta distribuição ou de Informações incompletas, por parte dos atores sobre a questão em negociação, pode gerar resultados abaixo das possibilidades reais, além de permitirem que aqueles que as detêm em maior quantidade as usem para obter vantagens políticas. In general, incomplete information has two effects. Not only does it create inefficient outcomes, it also confers political advantage (Milner, 1997, p. 21). Sendo assim, Milner (1997, p. 21), propõe que duas hipóteses sejam levadas em consideração: a) A hipótese que onde existem assimetrias domésticas de informação, tratados internacionais são menos prováveis, uma vez que atores domésticos desinformados irão rejeitar certos acordos que não rejeitariam se estivessem totalmente informados. Além disso, se o Executivo possui uma vantagem nas informações, será mais provável que alcance acordos que reflitam suas preferências; b) A hipótese que em certas circunstâncias, informações incompletas podem não ser prejudiciais a acordos internacionais. É o caso que ocorre quando o Legislativo é menos informado. Desde que o mesmo possa receber informações fornecidas pelos grupos de interesses (endorsers) não haverá comprometimentos 3 De acordo com Milner (1997, p. 102-108), o ator que controla a agenda (agenda setter) pode impor o perfil do debate e definir as alternativas disponíveis, dispensando aquelas que não lhe agradam e estruturando aquelas que são mais atraentes para os outros. Da mesma forma, o ator doméstico que controla o poder de emenda (amendment power) terá a possibilidade de alterar a proposta do agenda setter, buscando assegurar que suas preferências sejam contemplados no acordo (Milner,1997, p. 102108). 7 à cooperação e o resultado do acordo tende a ser favorável às preferências do Legislativo. Portanto, os negociadores internacionais sentar-se-ão à mesa de negociações internacionais (nível I) com posições influenciadas por seus win-sets. Ou seja, influenciados por um conjunto de pontos previamente negociados com os grupos de interesse domésticos, cujo atendimento e inclusão no documento do acordo efetuado no nível I assegurarão sua aprovação pela maioria necessária de parlamentares quando for submetido à ratificação. Isto porque, segundo Putnam (1993, p. 436): At the national level, domestic groups pursue their interests by pressuring the government to adopt favorable policies, and politicians seek power by constructing coalitions among those groups. At the international level, national governments seek to maximize their own ability to satisfy domestic pressures, while minimizing the adverse consequences of foreign developments. Neither of the two games can be ignored by central decision-makers, so long 4 as their countries remain interdependent, yet sovereign. Sendo assim, a dinâmica da negociação no nível I estará afetada pelos win-sets de cada negociador. Isto faz com que o poder de barganha de cada um deles esteja submetido ao perfil do seu win-set. Conforme Putnam (1993, p. 441), há dois motivos para isto: A) winsets maiores tornam o acordo mais provável; B) o tamanho relativo dos win-sets de cada parte negociadora afetará a distribuição dos ganhos em comum. Quer dizer, um negociador que apresentar um win-set maior tenderá a ser conduzido a fazer maiores concessões. A conseqüência disso é que, por um lado, a sua possibilidade de barganha diante dos outros negociadores do nível I diminui. Por outro lado, suas possibilidades de cooperar tenderão a ser maiores. Já se seu win-set for menor poderá ter a vantagem de restringir sua oferta de concessões sob o argumento de que terá dificuldades para conseguir a ratificação do acordo no seu Parlamento. Neste caso, suas possibilidades de cooperar tenderão a ser menores. O resultado disso é que sua possibilidade de barganha diante dos outros negociadores do nível I tende a aumentar, enquanto suas possibilidades de cooperar tenderão a ser menores. Desta constatação decorre o fato de que quanto mais divididas e heterogêneas forem as estruturas de preferências no nível doméstico mais poder de barganha terá o negociador diante dos outros negociadores do nível I. Já em situações de pouca divisão e homogeneidade das posições o poder de barganha do negociador estará reduzido. 4 “No nível nacional, grupos domésticos buscam atingir seus interesses pressionando o governo a adotar políticas favoráveis e políticos procuram poder construindo coalizões entre tais grupos. No nível internacional, governos nacionais tentam maximizar sua própria habilidade de satisfazer pressões domésticas, ao mesmo tempo em que minimizam as conseqüências adversas de desenvolvimentos externos. Nenhum dos dois jogos pode ser ignorado pelos tomadores de decisão, desde que seus países permaneçam interdependentes, porém soberanos.” (tradução nossa). 8 Contudo, em processos de negociações longos, mudanças na arena política doméstica podem alterar as posições iniciais e determinarem o poder de barganha do negociador em momentos específicos das negociações. O fundamento para esta argumentação será buscado por Putnam na chamada “Conjectura de Schelling”. Nela se encontra a afirmação de que a heterogeneidade e a divisão do nível doméstico constituem-se em importantes recursos políticos com o qual os negociadores podem contar. Ou seja, estando dois negociadores num processo de negociação aquele que apresenta uma heterogeneidade no seu nível doméstico ou uma divisão na sua Estrutura de Preferências poderá utilizar tal condição como argumento para limitar suas concessões ao outro, sob a alegação de que o seu nível doméstico lhe impõe limites a partir do qual a oferta de concessões não poderá avançar. Numa condição assim, tal negociador conseguirá melhorar sua posição na mesa de negociação. Por outro lado esta condição de heterogeneidade no nível doméstico influenciará no processo de ratificação do acordo. Ocorre que numa situação de heterogeneidade os pontos acordados afetarão de forma distinta os grupos de interesses domésticos. Alguns grupos são mais favorecidos nas suas preferências com o teor do acordo. Outros, menos. Sendo assim, é grande a probabilidade de haver propostas de emendas parlamentares ao conteúdo do acordo, visando ajustá-lo às preferências daqueles grupos menos favorecidos. Conforme Milner (1997, p. 235), quanto maior for a divisão entre os grupos de interesses domésticos menor será a possibilidade de ratificação. Isto porque, em países democráticos o Executivo será forçado a negociar com o Legislativo certos pontos relacionados às preferências de distintos grupos domésticos que pressionam os parlamentares a atenderem suas preferências. Em cenários heterogêneos assim, duas variáveis tendem a determinar o sucesso da ratificação: a) A disciplina partidária entre os parlamentares, que leva os membros da coalizão partidária do governo a votarem favoravelmente à proposta de ratificação do Executivo; b) A inclinação da balança de preferências no Legislativo pendendo para o lado das demandas dos grupos de interesses mais moderados, o que favorecerá as negociações entre as duas esferas. Assim, na perspectiva do modelo teórico dos Jogos de dois Níveis, o resultado das negociações serão influenciados tanto pela margem de poder para barganhar que os interlocutores do nível I dispõem, quanto pelas conseqüências geradas pela distribuição dos custos do acordo entre os interlocutores do nível II. 9 A arena política doméstica brasileira no período da negociação e da ratificação do Protocolo de Kyoto O Protocolo de Kyoto foi adotado em dezembro de 1997 e aberto para assinatura em março de 1998, ficando para serem negociadas em reuniões posteriores sua regulamentação e a forma de sua implementação. Com relação ao processo de ratificação, ficou acordado que entraria em vigor noventa dias após sua ratificação por pelo menos 55 países pertencentes ao Anexo Um (países desenvolvidos pertencentes à OCDE e países pertencentes ao ex-bloco comunista). A ratificação do Brasil, embora não viesse a influenciar diretamente na entrada em vigor do protocolo, tinha peso simbólico por conta da sua liderança junto aos paises do G77/China no processo de negociações. Tal ratificação, pelo congresso Nacional, ocorreu em 2002. Este período, que foi da adoção do protocolo até a ratificação brasileira em 2002 coincidiu com os dois mandatos subseqüentes do governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Partimos da hipótese de que houve, então, uma relação entre a Estrutura de Preferências Domésticas (políticas e sociais) que se configurou durante esse período e as posições ambivalentes adotadas pelo Brasil durante a participação nas negociações do protocolo. De um modo geral, desde seu primeiro mandato FHC buscou redefinir a posição do Brasil na arena política internacional, tornando o mais competitivo diante do novo contexto econômico globalizado (integração competitiva). Tal estratégia estava alicerçada em um processo doméstico de desregulamentações e privatizações; e no plano externo na tentativa de dar seqüência às medidas de abertura econômica e convergência com as políticas liberais dos países da OECD que já havia sido iniciada no governo Collor de Mello e de Itamar franco (quando FHC esteve à frente da pasta de Relações Exteriores). Para tal, buscou-se enfatizar a participação mais eficiente nas discussões dos grandes temas globais em instâncias multilaterais, como os regimes. Em alguns momentos essa estratégia prosperou graças à chamada “diplomacia pessoal” de FHC - associada ao seu poder persuasivo como intelectual renomado internacionalmente. Contudo, esse perfil “globalista” da política externa de FHC levou a que “fossem feitas críticas intensas a interferência dessas instituições nos negócios domésticos, com a oposição governamental denunciando com freqüência a quebra da soberania nacional” (Miyamoto, 2000, p. 122), além de ter encontrado resistências entre atores importantes ligados ao próprio Executivo. Ocorre que uma parte importante da burocracia estatal brasileira (forças armadas, ministérios responsáveis pela promoção do desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, Ministério do Exterior/Itamaraty) é nacionalista (ainda que pragmática) 10 e tradicionalmente resistente a qualquer tipo de negociação internacional que envolva proposta de ações coletivas sobre os recursos naturais – sobretudo aquelas que possam relativizar a soberania nacional sobre o ecossistema amazônico. Sendo assim, como veremos a seguir, as posições brasileiras defendidas nas negociações do Protocolo de Kyoto refletiram o antagonismo entre um discurso presidencial bastante “globalizado” e a predominância de uma postura nacionalista entre o grupo condutor das negociações. Isto porque, foram justamente os Ministérios do Exterior/Itamaraty e da Ciência e Tecnologia, com seus órgãos vinculados (Instituto Nacional de pesquisas Espaciais e Agência Espacial Brasileira), os responsáveis pela elaboração da agenda e das negociações. Coube a eles o papel de negociadores tanto pelo fato de no primeiro mandato a cúpula presidencial de FHC não ter considerado a negociação do Protocolo de Kyoto um assunto importante na sua agenda, quanto pelo fato de que na cultura diplomática brasileira o ator doméstico considerado como legítimo para conduzir as negociações do país nas convenções da ONU é o Ministério do Exterior, através da sua agência diplomática: o Itamaraty. Essa legitimidade para conduzir negociações se deve, de acordo com Neves (2006, p. 366), à crença, “disseminada na academia e nos meios oficiais, de que a política externa, devido ao seu alto grau de complexidade e especificidade, deve ficar livre dos anseios imediatistas da opinião pública e da política doméstica, bem como sob total responsabilidade de uma agência especializada, o Ministério das Relações Exteriores”. Nesse sentido, na avaliação de (Santilli et al, 2002, p.62), o prestigio que o grupo formado por representantes dos Ministérios da Ciência e Tecnologia e do Exterior/Itamaraty recebeu dentro da burocracia estatal para negociar o Protocolo de Kyoto suscitou-lhe uma síndrome de auto-suficiência e tutela dos interesses nacionais quanto ao tema. “Preferiram investir em interlocuções pontuais com a sociedade, por meio de núcleos acadêmicos ou empresariais com os quais mantinham relações acumuladas, a uma estratégia pró-ativa de informação e mobilização pública mais aberta, resistindo às iniciativas mesmo governamentais, que visassem ampliar os processos de decisão sobre a posição brasileira”. Assim sendo, o que se pôde observar como resultado do poder que este grupo teve para definir e negociar a agenda, isolando-a dos demais atores da arena doméstica, foram as posições ambivalentes assumidas ao longo das negociações. Por um lado, houve a criação de propostas inovadoras e bem negociadas do ponto de vista técnico. Por outro lado, liderou ou participou de certas alianças que inviabilizaram o consenso em certas negociações pontuais-chaves do protocolo – tornando-o um instrumento fraco do ponto de vista político e com alcance limitado para mitigar os efeitos da ação humana no aumento da concentração de gases que provocam o “efeito estufa”. Uma destas propostas inovadoras 11 foi a de criação de um Fundo de Desenvolvimento Limpo (FDL), cuja sustentação se daria pelas multas pagas por países desenvolvidos. Diante da não-aceitação desta proposta pelos países desenvolvidos, as delegações brasileira e estadunidense buscaram encontrar uma saída vitoriosa para os dois lados. Numa articulação diplomática inédita entre elas, a versão punitiva que fundamentava o FDL foi transformada em um mecanismo que possibilitasse aos países desenvolvidos cumprirem parte de suas metas de redução de emissão de gases de “efeito estufa” recorrendo ao financiamento de projetos de desenvolvimento sustentável elaborados pelos países não-desenvolvidos: o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). O grupo negociador brasileiro também foi hábil em apresentar uma proposta (vitoriosa) para que o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) fosse o primeiro dos três mecanismos flexíveis de mercado a ser implementado e que seu Conselho Diretor tivesse uma representação significativa dos países pobres e emergentes. Com relação à liderança ou participação em certas alianças que inviabilizaram o consenso em certas negociações pontuais-chaves do protocolo (tornando-o um instrumento fraco do ponto de vista político e com alcance limitado para mitigar os efeitos da ação humana no aumento da concentração de gases que provocam o “efeito estufa”), duas posições se destacaram: a de não-estabelecimento de metas de redução aos países emergentes; e a de não-inclusão das matas nativas no protocolo como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”). No que diz respeito à primeira, a idéia da determinação da responsabilidade pela redução das emissões de gases de “efeito estufa” entre países foi primeiramente proposta na Convenção-Quadro de Mudanças Climáticas. Nela os países foram divididos em Pertencentes ao Anexo Um (países desenvolvidos, pertencentes à OCDE e países pertencentes ao ex-bloco comunista) e Não-Pertencentes ao anexo Um (países em desenvolvimento e pobres). Aos países pertencentes ao primeiro grupo estabeleceu-se um compromisso genérico de controle de emissão de gases de “efeito estufa” e aos países do segundo grupo (como o Brasil) apenas a responsabilidade de realizações de relatórios nacionais de emissão. Assim, desde o inicio das negociações do Protocolo de Kyoto para se estabelecer metas e compromissos mais precisos, os Estados Unidos liderou a posição de que deveriam ser estabelecidas metas obrigatórias de redução para os países do Anexo Um a serem cumpridas no primeiro período de implementação do protocolo (2008 a 2012) e metas futuras de redução de emissão aos países em desenvolvimento – especialmente os emergentes (Brasil, Índia e China). O Brasil, por seu lado, passou a assumir o papel de liderança dos países do G77/China no sentido de se opor à idéia de que os países em 12 desenvolvimento devam ter a obrigatoriedade de cumprir metas futuras de redução de emissão dos gases de “efeito estufa”. Esta posição defensiva assumida e liderada pelo Brasil se fundamentava no pressuposto de que a adoção de compromisso de redução futura de emissão dos gases de “efeito estufa” pelos países em desenvolvimento representaria um retrocesso em termos da Convenção-Quadro de Mudanças Climáticas, a qual reconhece, através do seu princípio da responsabilidade comum, porém diferenciada, que todos os países são responsáveis, mas historicamente a responsabilidade maior é dos países industrializados e estes países devem, portanto, assumir a responsabilidade pelo combate às interferências antropogênicas perigosas no sistema climático global. A condição de líder na defesa dessa posição levou o Brasil a se confrontar com os Estados Unidos (em particular) e com os demais países desenvolvidos (de uma forma geral) em várias fases das negociações. Ao se retirar das negociações em 2001 os Estados Unidos alegou, entre outros motivos, a não-concordância com esta posição defendida pelo Brasil. Na perspectiva do governo Bush, sem a exigência sobre os países em desenvolvimento para reduzirem as suas emissões, o Protocolo de Kyoto estava "fatalmente fracassado". Ainda que a posição brasileira fosse justa do ponto de vista histórico, uma atitude mais flexível por parte, especialmente dos países emergentes (China, Índia e Brasil), teria favorecido um acordo final mais fiel à realidade atual dos principais países poluidores (Viola, 2002, p. 15.). Estes países já eram vistos naquele momento como potenciais candidatos a encabeçar a lista dos países mais poluidores no inicio do século XXI - o que os estudos atuais confirmam. A outra posição, derivada da liderança ou participação em alianças que inviabilizaram o consenso em certas negociações pontuais-chaves do protocolo (tornando-o um instrumento fraco do ponto de vista político e com alcance limitado para mitigar os efeitos da ação humana no aumento da concentração de gases que provocam o “efeito estufa”), se observou durante as negociações para a definição das atividades de supressão de carbono que deveriam ser consideradas como elegíveis no MDL. Os chamados “países florestais” propuseram que florestas nativas manejadas de forma sustentável e, portanto, protegidas do desmatamento, fossem consideradas como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”). Nessa condição, florestas nativas “manejadas” poderiam ser usadas para reclamar créditos (pelas reduções de emissão que elas proporcionariam) para efeito dos cálculos de emissão e computados para efeito de compensações para os países com obrigatoriedade de atingir metas de redução de emissão (países desenvolvidos e países pertencentes ao exbloco comunista). A posição da delegação brasileira foi contrária. De acordo com Miguez (1998, p. 01), um dos principais negociadores brasileiros, a consideração de florestas 13 nativas “manejadas” como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”) “representaria um grande risco à Convenção, pois haveria a possibilidade de créditos no Protocolo (reduzindo emissões) por absorções em florestas nativas, ou seja, que não representariam qualquer atividade antrópica para aquela redução” Além disso, “a Convenção apenas lida com emissões e remoções antrópicas e não teria sentido reclamar créditos por remoções naturais feitas, quer por florestas nativas, quer pelos oceanos”. No final das negociações essa posição brasileira foi vitoriosa. Ficou determinado que só reflorestamento e florestamento (novas plantações de florestas) podem ser considerados “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”) e, portanto, elegíveis no MDL. Para Viola (2002, p. 15) “o que estava implícito nas declarações dos negociadores brasileiros era que o país não conseguiria conter de maneira significativa o desmatamento na Amazônia”. Havia o temor de que, “no futuro, quando se estabelecerem compromissos para os países emergentes, o Brasil possa vir a ter um grande passivo advindo do desmatamento na Amazônia”. Com relação a esse temor, Santilli et al (2002, p. 63) observam que “diferentemente de outros importantes países emissores, dentre os em desenvolvimento, como a China e a Índia, que preferiram ver os seus respectivos passivos climáticos associados à matriz energética contemplados pelo MDL como forma de acessar recursos do nascente mercado de carbono para poder enfrentá-los, o Brasil preferiu excluir o seu passivo, associado à matriz florestal (desmatamento e queimadas) do âmbito do MDL”. Como pano de fundo desse posicionamento estava, ainda, o entendimento dos diplomatas do Itamaraty de que a Amazônia deveria ser tratada nas negociações como um fator de segurança nacional. Temia-se que com a inclusão da mesma no protocolo como “sumidouro de carbono” (com o conseqüente incentivo ao controle do seu desmatamento) poderia vir a ocorrer futuras ingerências internacionais sobre a mesma. Um posicionamento inverso ao adotado teria elevado a discussão sobre o manejo sustentável das florestas nativas, ainda existentes no planeta, a um patamar mais condizente com a necessidade de preservá-las. A aproximação e não o confronto do Brasil com os chamados países florestais teria mudado o rumo das negociações a respeito da inclusão das florestas nativas no protocolo como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”) e, conseqüentemente, teria havido a legitimação do reconhecimento dos serviços ambientais que elas desempenham para o equilíbrio global do clima. Além de desencadear um processo de modificação da cultura do desmatamento para fins comerciais; e das queimadas em cada país e/ou região para fins de uso do solo para agricultura ou pastagens – como ocorre no ecossistema amazônico. Essa condição de isolamento da agenda pelo grupo de negociadores estabelecido nos Ministérios do Exterior/Itamaraty e da Ciência e Tecnologia, contribuiu para que até 1999 a participação do Legislativo na formulação das propostas brasileiras fosse mínima. Só 14 a partir desse ano é que passou a haver uma mobilização dos parlamentares direcionada para a questão das mudanças climáticas. Contribuiu para esta mobilização a criação, em junho de 2000, do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.5 Através dele, o conhecimento do conteúdo do protocolo foi disseminado no interior da sociedade civil. Além disso, se constituiu num novo espaço multissetorial para a discussão do posicionamento brasileiro nas negociações do Protocolo de Kyoto. A partir de então, novas demandas oriundas desse fórum começaram chegar ao Parlamento, obrigando os parlamentares a se posicionarem (ainda que de forma eleitoreira) a respeito do conteúdo do Protocolo de Kyoto. Por outro lado, a mobilização dos parlamentares direcionada para a questão das mudanças climáticas se deu em função do empenho estratégico do Executivo em tornar conhecido o Protocolo de Kyoto entre os parlamentares, visando obter sua ratificação antes da realização da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +10), prevista para setembro de 2002, em Joanesburgo. Naquele momento, FHC desfrutava de um grande prestigio internacional e era esperado em Joanesburgo como uma das principais lideranças mundiais. Era importante, então, que chegasse lá com a ratificação brasileira do protocolo já realizada. Assim, empenhou-se diretamente junto ao Congresso Nacional para que isso ocorresse. Uma cerimônia pública chegou a ser realizada para divulgar a mensagem presidencial solicitando a ratificação ao Congresso Nacional. Dessa aproximação entre Executivo e Legislativo derivou a posição brasileira, apresentada na Cúpula, de que “não somente a pobreza contribuía para a degradação climática, mas também os modos de produzir e consumir nos países mais desenvolvidos” (Gabeira, 2003, p.284). A criação, em 2000, do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e o clima de debates sobre questões ambientais, suscitado pela eminência da realização da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +10), favoreceram, também, a entrada de outros grupos de interesses na arena de discussões sobre a ratificação do protocolo. Foi o caso do setor empresarial e das ONGs ambientalistas. Os empresários ganharam motivação com a criação do MDL, quando, então, começaram vislumbrar as oportunidades de novos negócios que a implementação daquele mecanismo oferecia. A elegibilidade no MDL de projetos de eficiência energética (redução das emissões pela otimização no uso de energia); de energias alternativas (substituição de energias de fontes fósseis por energias de fontes renováveis); de reflorestamento e de florestamento serviu de estímulo para que grandes empresas passassem a desenvolvê-los. 5 O Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas foi criado por iniciativa do, então, Deputado Federal Fábio Feldmann (ambientalista histórico) e da Presidência da República (decreto n. 3.515 de 20 de junho de 2000). Da sua composição faziam parte representantes da sociedade civil (ONGs, entidades empresariais, instituições científicas), de agências governamentais, além de Ministros de Estado. A presidência do Fórum coube ao próprio Presidente da República. 15 A motivação empresarial também foi impulsionada através das ações desenvolvidas pelo Conselho empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Criado em 1997, o CEBDS reunia grandes grupos privados e estatais, responsáveis pelas principais unidades produtivas localizadas em várias partes do país. Tendo como objetivos, entre outros, o de “fomentar a comunicação e o diálogo entre os empresários, o Estado, as ONGs, a comunidade acadêmica e a sociedade em geral”; e o de “participar da definição de políticas que conduzam ao Desenvolvimento Sustentável”, o CEBDS ajudou a internalizar a questão das mudanças climáticas no mundo corporativo e a formar uma opinião favorável à ratificação do Protocolo de Kyoto, entre os parlamentares. Nesse sentido, criou, em 2000, a Câmara Técnica de Energia e Mudanças do Clima, a qual tinha como objetivos, entre outros, o de ”representar de maneira pró-ativa a visão das empresas do CEBDS em assuntos relacionados à mudança do clima; e em debates e formulação de políticas públicas com governos e demais grupos de interesses”.6 Assim como o Legislativo e o setor empresarial, as Organizações NãoGovernamentais ambientalistas só começaram a ter uma atuação mais expressiva a partir de 1999, especialmente após a criação, em junho daquele ano, do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS). Dali para frente passaram a participar mais ativamente das reuniões das Conferências das Partes (COPs) da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas; e de ações na arena política doméstica, visando ampliar o campo de debate para a definição das posições brasileiras nas negociações do Protocolo de Kyoto. Foi o caso, por exemplo, das ONGs com forte atuação na conservação do ecossistema amazônico que passaram a questionar a posição brasileira contrária à inclusão das florestas nativas como “sumidouros de carbono” (“carbon sinks”). Como já vimos, não obtiveram êxito. Prevaleceu a posição do grupo negociador oficial. Além do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), outro espaço de articulação das ONGs, para atuação nas reuniões internacionais e na ampliação do campo de debate para a definição das posições brasileiras nas negociações do Protocolo de Kyoto, foi criado em março de 2002. Trata-se do “Observatório do Clima”: uma rede de articulação sobre o tema das mudanças climáticas globais, formada por organizações não-governamentais e movimentos sociais. Entre seus objetivos estavam os de “acompanhar e influenciar as negociações internacionais e as posições do governo brasileiro sobre mudanças climáticas”; “propor e acompanhar a 6 No primeiro semestre de 2002, ano de realização da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +10), o CEBDES realizou, ainda, no auditório da Câmara dos Deputados (em Brasília) o encontro “Rio+10 – onde estamos, para onde vamos”. Nele foi lançado o “Relatório de Sustentabilidade empresarial 2002” o qual seria levado para divulgação durante a realização da Rio+10. No final do encontro, uma cópia do relatório foi entregue diretamente ao presidente FHC. 16 definição de políticas públicas e normas no país visando estabelecer o equilíbrio da concentração de gases de efeito estufa no Planeta, de forma a eliminar a ameaça das mudanças climáticas à humanidade e aos ecossistemas”; “participar de forma qualificada de fóruns, instâncias e redes nacionais e internacionais de discussão, consulta e participação sobre mudanças climáticas”. Contudo, passado o clima de entusiasmo e de motivação, criado às vésperas da realização da Rio+10, a arena política doméstica passaria por um período de desarticulações e arrefecimento dos debates sobre a importância do Protocolo de Kyoto. Tanto porque se voltou de Joanesburgo sob um sentimento de frustração com a não-entrada em vigor do Protocolo (esperava-se atingir o número necessário de ratificações durante aquele evento), tanto porque o governo Lula que assumiu o governo em 2003 voltou a não considerar a questão das mudanças climáticas um assunto importante em sua agenda – chegando a, entre outras atitudes políticas, esvaziar o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Mas este período merece uma análise mais aprofundada e escapa à proposta desse artigo. Considerações Finais A presente análise permitiu a corroboração da constatação, já presente em outros estudos, de que a cultura diplomática brasileira, pela sua característica de centralizar a formulação das agendas de negociações no Ministério das Relações Exteriores/Itamaraty, acaba restringindo a possibilidade do Legislativo e dos grupos de interesses de expressarem suas preferências e vê-las inclusas na constituição das agendas de negociações do país. Ou seja, munido de uma estrutura burocrática especializada e institucionalizada e seguindo uma tradição histórica, o Ministério das Relações Exteriores/Itamaraty tende a isolar a agenda de negociações dos demais atores domésticos. A conseqüência desse isolamento é que a discussão sobre temas importantes de política externa do país acaba recebendo pouca atenção na agenda de discussões do Legislativo e entre os grupos de interesses da sociedade. Nos anos 90 o Legislativo era visto como mero espectador da política externa e como “vitima” do domínio do poder Executivo. Diante disso, não raramente, acabava dispondo de informações incompletas em momentos específicos que era convocado a se posicionar sobre as alternativas de decisão ou no momento da ratificação de acordos. Essa assimetria na distribuição de Informações acabava gerando 17 aprovações ou rejeições inconvenientes que não ocorreriam se as informações fossem completas, conforme assegura a hipótese de Milner (vista na primeira parte deste artigo). No caso da inserção do Brasil nas negociações do Protocolo de Kyoto, essa condição acima teve dois momentos distintos. Até 1999 o Legislativo teve uma participação mínima na definição das estratégias a serem adotadas nas negociações, ficando restrito à função de expectador das posições assumidas pelo Executivo. A partir de 2000 houve uma alteração parcial dessa condição. Com a entrada de novos atores na arena política doméstica, o Legislativo passou a ser abastecido, pelos mesmos, com informações sobre a temática em negociação e, consequentemente, pressionado a assumir uma posição mais pró-ativa. Contudo, a assimetria de informações entre Executivo e Legislativo permaneceu. Essa divisão temporal na forma de atuação frente às negociações do Protocolo de Kyoto também pôde ser observada no caso dos grupos de interesses sociais. Tanto o setor empresarial, quanto as ONGs ambientalistas, tiveram uma atuação modesta até 1999. Só a partir daquele momento, com novos espaços de mobilização criados e sob o efeito do clima de entusiasmo e de motivação, criado às vésperas da realização da Rio+10, é que passaram a ter uma participação mais ativa e influente – ainda que sem força suficiente para mudar as posições do grupo de negociadores situado no âmbito do Executivo. O que se constata disso é que a configuração homogênea da arena política doméstica até 1999 influenciou no perfil das posições assumidas pelo Brasil nas negociações do protocolo (as quais refletiram, basicamente, os valores, crenças e percepções do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Ministério das Relações Exteriores/Itamaraty); e na facilidade que o Executivo teve para ratificá-lo no Congresso Nacional. Diante de uma situação de pouca divisão e homogeneidade da Estrutura de Preferências Domésticas, o grupo de negociadores daqueles Ministérios pôde restringir sua oferta de concessões na mesa de negociações (nível II), dispensando as alternativas disponíveis que não lhe agradava do ponto de vista dos seus valores, crenças e percepções - tal como prevê o modelo dos Jogos de Dois Níveis. No momento da ratificação (2002), embora a Estrutura de Preferências Domésticas já fosse mais dividida e heterogênea, o Executivo não teve dificuldades para alcançar a votação necessária no Congresso Nacional. Com uma capacidade de articulação ainda recente e sem força política suficiente, os novos atores em cena foram incapazes de levar o Legislativo a conseguir alterar o conteúdo do acordo, assegurando que suas preferências fossem contempladas. Prevaleceram as preferências do grupo de negociadores situados no âmbito do Executivo, tal como prevê a hipótese de Milner para situações desta natureza. 18 Referências Bibliográficas: GABEIRA, F. Poder Legislativo. In: TRIGUEIRO, A. (coord.). Meio ambiente no Século 21. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. EVANS, P. B; JACOBSON, H. K. e PUTNAM, R. D. (Eds.). Double-Edged Diplomacy: international bargaining and domestic politics. Berkeley & Los Angeles: University of California Press, 1993. MIYAMOTO, S. O Brasil e as negociações multilaterais. 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