A formação profissional do restaurador. A
formação acadêmica, cursos de formação “In
loco” e em canteiros-escola.
Gostaria de iniciar agradecendo ao Magnífico
Reitor Dr. Gilberto Mendes de Oliveira Castro,
demais autoridades da Universidade Estácio de
Sá, que hoje tão gentilmente nos acolhem, e a
todos os presentes a este evento.
Um agradecimento especial para a Dra. Daisy
Ketzer, que tanto trabalhou para que nossas
conferências pudessem se concretizar, pela sua
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experiência e profissionalismo e por nossa longa
amizade e profícua colaboração. Estou certo que
a sua contribuição para a Estácio será preciosa
e levará a esplêndidas e duradouras iniciativas
culturais.
A minha exposição diz respeito a problemática
ligada à formação profissional do restaurador,
amadurecidas durante a minha experiência de
mais de trinta anos no setor.
Sou químico e
universidade me
já durante os anos de
ocupava de restauração
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(período após a enchente que ocorreu em
Florença). Fui por quase 30 anos diretor de um
prestigioso instituto de formação no setor de
restauro e de artes aplicadas, em Florença.
Atualmente sou consultor no setor de Bens
Culturais e Presidente do CAAR – Centro para a
Arte, o Artesanato e a Restauração. Como
consultor do Ministério do Exterior Italiano, da
UNESCO e do Instituto Ítalo Latino Americano,
organizei e estou organizando laboratórios de
restauro e cursos de formação em vários países
do Oriente Médio e da América Latina, dos quais
citarei algumas experiências a seguir.
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Mas vamos ao tema desta conferência
Para iniciar o tema será necessário que
confirmemos a importância que possui o
patrimônio histórico e artístico sobre o qual os
restauradores são chamados a intervir.
A obra de arte, na verdade, não é somente
matéria, mas também valor e cultura e,
sobretudo, testemunho da história do homem.
O patrimônio cultural, portanto, deve ser
protegido como algo de sagrado para ser
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transmitido
à
posteridade
condições possíveis.
nas
melhores
Partindo desta convicção, tomou forma a
legislação que tutela os Bens Culturais, tanto no
nosso como em outros países.
Nesta área sem dúvida, a Itália pode reivindicar
a primazia.
Quero recordar que a moderna historiografia
artística nasceu, justamente, em Florença, com
as “Vite” (Vidas) de Giorgio Vasari, e que o
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próprio conceito de tutela não é um fenômeno
recente: possui sua tradição histórica que, a
partir dos Romanos e através do Renascimento,
convergiu
na
moderna
concepção
de
conservação e salvaguarda.
Hoje podemos considerar como ponto de
chegada, o “Testo Unico”, - lei italiana relativa
aos Bens Culturais e Ambientais - aprovado pelo
decreto legislativo nº42, de 22 de janeiro de
2004, e que resulta como ponto de referência
mundial para todas as legislações relacionadas
ao patrimônio.
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É interessante notar que no segundo capítulo do
“Testo Unico”, relativo à conservação, foi
introduzida uma seção inteiramente dedicada ao
restauro.
Se torna óbvia, a pergunta, o que é o restauro?
O restauro é uma intervenção sobre uma obra,
destinada a preservá-la ou a restabelecer a sua
integridade material e prolongar-lhe a vida.
Esta intervenção é desenvolvida, justamente,
pelos Restauradores.
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Antigamente, entretanto quem se ocupava eram
os artistas, competindo em perícia e habilidade
com os autores do passado, deixando assim
amplo espaço para a fantasia e o gosto pessoal.
Desde o início do século XX, o restauro é visto
principalmente como uma atividade suspensa
entre a arte e o artesanato, e aos restauradores
não era reconhecida a sua dignidade e sobretudo
uma bagagem de conhecimento específico.
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Só recentemente assistiu-se a um rápido
crescimento da figura e da consideração social
do restaurador.
Em resumo: o papel que o restaurador adquiriu é
fruto de uma formação que impõe uma adequada
preparação cultural, um profundo conhecimento
das técnicas de intervenção, uma atualização
constante e uma sensibilidade artística e crítica.
Em outras palavras, um particularíssimo e raro
equilíbrio entre habilidade manual e rigor
científico.
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A
formação
acadêmica
atual
baseia
a
articulação de seus programas nestas premissas
constitutivas.
A duração dos cursos pode variar de 2 a 4 anos e
geralmente são subdivididos por disciplinas:
Restauração da pintura sobre tela e sobre
madeira.
Restauração do afresco e da pintura mural.
Restauração
da
cerâmica,
do
material
arqueológico e lapídeo.
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Restauração de obras em papel,
manuscritos.
Restauração de obras em madeira.
Restauração de tecidos.
livros
e
Algumas instituições de ensino preferem fazer
uma abordagem geral para posteriormente
direcionar os alunos para uma área específica.
Outras instituições preferem especificar desde o
início as áreas.
O plano de estudo das várias áreas, que diferem
naturalmente pelas práticas de laboratório e
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pelo conteúdo de cada matéria, compreende
várias disciplinas comuns: História da arte,
Métodos de pesquisa e de documentação,
Tecnologia dos materiais, História, Teoria e
Ética da Conservação e do Restauro, Desenho,
Química, Biologia e Física dos processos de
degradação e dos métodos de conservação,
Laboratório de restauração.
Os programas de cada disciplina devem
concorrer, em alguns casos, para informar o
aluno; em outros casos, para formá-lo como
restaurador.
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O Restaurador não deverá ser também um
historiador da arte, um químico ou um biólogo,
mas deverá ter todos os conhecimentos que lhe
permitam poder dialogar com históricos da Arte,
químicos e biólogos.
A Histórica da Arte é de fundamental
importância, bem como a história das técnicas
artísticas e artesanais, cuja evolução aparece
ligada a momentos fundamentais da própria
história da arte, e cujo conhecimento é
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fundamental na formulação
Projeto de Restauração.
de
um
correto
A história e a teoria da restauração constituirão
a base da formação crítica do aluno, que deverá
conhecer as metodologias do passado e ter
presente que as atuais estão em contínuo
desenvolvimento.
Também para as matérias científicas é
importante que o seu ensinamento seja
direcionado à capacitação de avaliar seja a
degradação da matéria que constitui a obra, seja
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a causa ambiental de tais danos, seja para
conhecimento dos materiais usados na prática
da profissão.
Nos laboratórios de restauração serão ensinadas
as técnicas tradicionais de intervenção junto
àquelas estudadas e experimentadas nos
últimos anos em institutos de pesquisa, como na
Itália o Opificio delle Pietre Dure em Florença, o
ICR de Roma , o CNR.
Julgamos que na base de uma boa formação,
seja fundamental a condução de docentes
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especialistas; sublinho a palavra docente porque
o conhecimento profissional é, como se diz em
linguagem matemática, condição necessária,
mas não suficiente. A capacidade e a
experiência
didática
são
fundamentais,
particularmente no setor da restauração.
Na ótica moderna, o restaurador, além de atuar
na salvaguarda do patrimônio artístico, deve
paralelamente empenhar-se em salvaguardar um
outro bem inestimável, isto é, aquele da
habilidade
manual,
dos
materiais,
dos
instrumentos antigos e da própria terminologia,
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técnica
que
desaparecer.
muito
rapidamente
vemos
Os planos de trabalho das disciplinas de restauro
deverão prever, nos primeiros anos de curso,
exercícios de intervenções simuladas, estudadas
para evidenciar os vários problemas da obra
original.
Nos anos sucessivos estudarão a aplicação das
intervenções em obras originais, através dos
canteiros-escola.
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Em alguns setores como a restauração de
madeira, antes de passar à restauração, é
necessário que sejam ensinadas as técnicas
artesanais,
como
entalhe,
marchetaria,
marcenaria e douradura.
Para cada restauração cada estudante deverá
executar
um
Projeto
de
Restauração,
documentação fotográfica, relevos gráficos,
relatório final, aprendendo assim todas várias as
fases deste complexo e facetado mecanismo
que constitui a intervenção de restauro em uma
obra de arte.
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Outro ponto muito importante que cada
programa educativo deve considerar é o da
formação de uma postura de respeito e de
modéstia em relação à obra de arte; ensinar que
é preferível parar e não restaurar quando se
apresentam situações pouco conhecidas. Na
verdade, é muito freqüente que a restauração se
faça necessária para recuperar danos causados
por outras intervenções de restauro.
Hoje é impensável que a formação de um
restaurador
possa
acontecer
somente
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trabalhando ao lado de outros restauradores. A
contribuição das matérias científicas e históricoartísticas é fundamental para a correta formação
de um Restaurador.
É necessário, porém, prestar muita atenção na
formulação dos programas escolares para não
incorrer no erro oposto, isto é - o de se
direcionar exclusiva ou principalmente ao
aspecto teórico e descuidar-se do aspecto
prático.
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Sem dúvida é mais fácil organizar uma escola de
nível teórico, enquanto que a organização de
laboratórios comporta dificuldades técnicas,
tempo de aprendizado mais longo, porém
indispensáveis para uma correta formação
profissional.
Cada país deveria possuir, além de uma
legislação específica e instituições que se
ocupem da tutela do Patrimônio Cultural, um
instituto
permanente
de
formação
de
Restauradores.
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Sobre isso, gostaria de comunicar que, no
México, na cidade de Cuernavaca, no estado de
Morellos, foi fundado o Istituto Fondazione
Botticelli,
instituto
de
formação
para
restauradores, que nasce com a contribuição e
com a experiência italiana no setor do restauro.
Estou particularmente orgulhoso de ter sido
chamado para formular os programas didáticos e
a
montagem
dos
laboratórios.
Fui
expressamente encarregado de colocar o espaço
do Istituto Fondazione Botticelli à disposição da
Universidade Estácio de Sá, se esta pretender
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desenvolver atividade didática e cultural no
México.
Sem dúvida, uma formação acadêmica comporta
muitas vantagens do ponto de vista educativo. A
diluição do programa em períodos mais longos
permite aos professores afinar continuamente o
conteúdo e modular o aprendizado ao nível dos
próprios alunos; para os estudantes, a vantagem
é ter tempo para reflexão e auto-avaliação.
Muitas vezes, porém, não há tempo disponível,
para longos aprendizados, seja pela necessidade
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dos alunos como também pela disponibilidade de
professores qualificados.
É este o caso quando se faz necessário organizar
cursos de curta duração ou canteiros-escola,
particularmente nos países estrangeiros.
Os cursos de curta duração são muito difíceis de
organizar até porque podem criar a ilusão aos
participantes
de
serem
já
restauradores
experientes. O objetivo, portanto, é sempre
aquele de oferecer e, sobretudo impulsionar ma
experiência de metodologia profissional e
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cultural que deverá estimular uma
atualização futura dos participantes.
auto-
Estes cursos deverão igualmente basear-se nos
mesmos princípios observados nos institutos
acadêmicos,
isto
é,
equilíbrio
entre
os
ensinamentos
técnico-científicos,
históricoartísticos e laboratoriais.
Ocorre porém observar algumas condições
fundamentais:
-Clara definição do sujeito e do objetivo didático
do curso
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-Homogeneidade da preparação e da capacidade
dos participantes (nem sempre é possível nivelar
um aluno sem que haja prejuízo para o grupo).
-Professores
peritos
e
com
experiência
específica em cursos de curta duração, com
capacidade de estimular a curiosidade e
interesse necessários a uma futura autoeducação do aluno.
-Lições e exercícios bem programados para
serem terminados no tempo previsto
-Perfeita coordenação entre os programas dos
vários docentes.
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Outra condição fundamental a ser observada na
formulação dos programas para cursos de curta
duração em países estrangeiros é a presença de
matérias relativas à História da Arte e à
legislação do país sede, desenvolvidas por
professores do local.
Estes são em síntese os pressupostos sobre os
quais
foram
projetados
os
cursos
que
apresentarei em seguida, e para os quais fui
chamado para fornecer a minha contribuição de
experiência.
Gostaria porém de fazer uma consideração:
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O patrimônio cultural é caracterizado por vários
artefatos que nem sempre são reconhecidos por
seu valor histórico-artístico de maneira a
permanecer à margem da conservação e
portanto de sua restauração. Gostaria de chamar
a atenção dos presentes sobre a importância
deste enorme patrimônio chamado de menor,
que é o mais difundido mas o menos
considerado, e que melhor representa a
civilização de um povo.
É clara, portanto a dificuldade das instituições
que se ocupam da conservação destes, de achar
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patrocinadores que geralmente dão preferência
a obras de maior retorno publicitário e que as
vezes não necessitam de intervenção imediata.
Neste
ponto
apresentarei
as
últimas
experiências de cursos realizados na América
Latina e de maneira particular os financiados e
realizados pelo IILA e coordenados por mim.
Devido à exigüidade do tempo, acenarei
rapidamente as experiências no Oriente Médio,
apesar
de
extremamente
interessantes,
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principalmente no setor de restauração
manuscritos da cultura islâmica.
de
Desejo pontuar que a apresentação será
baseada em conteúdos didáticos, e não serão
consideradas as técnicas de restauração. Estou
de qualquer maneira disponível e muito feliz em
discuti-las com os interessados.
A seguir, a apresentação em Power Point dos
seguintes projetos:
Suleymaniye Library. Istanbul, Turquia
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Centre for the Restoration of Al Aqsa
Manuscripts Al Ashrfyyia Madrassa. JerusalémIsrael
Manuscript Libray, Dar al-Makhutat- Sana’a
Yemen
Curso de Restauro da Pintura em tela – Rio de
Janeiro – Brasil
Curso de aperfeiçoamento na restauração de
madeira. Belo Horizonte – Brasil
Curso de Conservação, Gestão e Valorização de
Bens Culturais - Ouro Preto. Brasil
Curso de restauração de cerâmica de interesse
artístico e arqueológico. Salvador- Brasil
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Curso de formação de restauradores em madeira
– Montevidéo, Uruguai
Projeto Moinho Histórico de Ilópolis. Rio Grande
do Sul – Brasil.
Curso de restauração de cerâmica. São Miguel
das Missões, Rio Grande do Sul- Brasil
Curso de conservação e restauração de
cerâmica – Cuenca, Equador
Curso de restauração de madeira. Valparaíso,
Chile.
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Palestra do Prof. Andrea Papi em 09/06/2005 na
Universidade Estácio de Sá, Campus Centro I.
Tradução e revisão
Alessandra Gibelli
Sonia Gibelli
Daisy Ketzer
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