A ORIGEM DO MANIFESTO DOS EDUCADORES MAIS UMA VEZ CONVOCADOS, DE 1959, NA CORRESPONDÊNCIA DE ALGUNS DE SEUS SIGNATÁRIOS Dr. João do Prado Ferraz de Carvalho Universidade Presbiteriana Mackenzie [email protected] Palavras-chave: Manifesto de 1959; educadores e articulação política; memória e história. O ano de 1959 marca um importante momento no debate que então provocava a tramitação da LDB, futura 4.024/61, pelo Congresso Nacional. Impulsionado pela apresentação de um polêmico substitutivo pelo Deputado Carlos Lacerda, em janeiro de 1959, o debate educacional ganhou maior visibilidade nos meios comunicação e passou a envolver diferentes segmentos da sociedade civil. O principal resultado desse processo foi a articulação de um grupo de educadores em busca de uma reação organizada que fizesse frente aos princípios contidos no substitutivo Lacerda. Uma importante conseqüência dessa mobilização foi a divulgação do Manifesto dos Educadores Mais Uma vez Convocados. Busca-se neste texto estudar a correspondência de alguns dos mais importantes signatários do Manifesto de 59 e flagrar a movimentação política que deu origem a esse documento. Nas cartas trocadas entre Fernando de Azevedo, Paschoal Lemme, Anísio Teixeira, entre outros, podemos perceber que o lançamento de um manifesto de educadores fora, por várias vezes, ensaiado durante a década de 50 e que a preocupação de torná-lo um documento-memória acompanhou todas as etapas de sua elaboração até sua divulgação pública em 30 de Junho de 1959.1 Escrito pelo mesmo redator do manifesto de 32, Fernando de Azevedo, e assinado por alguns dos signatários do primeiro documento agora acompanhados de um número bem maior de novos adeptos, a relação entre os dois documentos se manifesta já no seu próprio título, no qual aparece expressa a idéia de uma nova convocação. Embora esse documento tenha sua origem normalmente atribuída a uma conseqüência política dos embates que se travavam na sociedade civil em torno da questão da LDB e sua tramitação pela Câmara Federal naquele ano de 1959, a idéia de um novo manifesto já fora aventada em oportunidades anteriores. Tendo sempre como referência a repercussão do texto de 1932, a elaboração de um novo documento de educadores era tema constante na correspondência trocada entre dois signatários importantes do primeiro manifesto, Fernando de Azevedo e Paschoal Lemme. Em carta de 20 de setembro de 1952, Paschoal Lemme escreve a Fernando de Azevedo comunicando que teve notícias de manifestações de Azevedo sobre a “oportunidade do lançamento de um novo manifesto” (Lemme, 2000: 232 e 233). Concordando com tal posição, Lemme defendia que essa necessidade estava atrelada à desarticulação dos educadores brasileiros naquele início da década de 50, motivos de suas críticas inclusive à Associação Brasileira de Educação (ABE). 2 Ainda nessa mesma carta, Lemme afirmava que tomara conhecimento de uma entrevista de Júlio de Mesquita Filho ao jornal Última Hora, publicada em 15/09/1952, na qual “fazendo severas críticas às condições (...) do ensino no país” naquele momento, Mesquita Filho concordava também com a “necessidade do lançamento de um novo manifesto” ( Lemme, 2000: 232). O objetivo de Pashoal Lemme era buscar a ação unificada dos educadores brasileiros e para isso já havia até proposto a criação de uma outra associação que os congregasse e os impelissem à defesa unificada das questões educacionais pois acreditava que a ABE não o vinha fazendo. Porém, no entendimento de Fernando de Azevedo, como afirma em carta dirigida a Lemme, datada de 26 de setembro de 1952, “para despertar do marasmo em que vivem educadores, indiferentes e sonolentos, é preferível começar com um grito de alarme e um toque de reunir, congregando, todos, o maior número possível, sob a mesma bandeira, para uma nova campanha pela educação nacional” e, mais abaixo de sua carta, completava: Admitida a possibilidade de se obter a desejada unidade de ação, tão importante para encaminhar a solução de problemas fundamentais, parece-me que um novo Manifesto de educadores ao povo e ao governo será o melhor meio para abrir a campanha que as condições da educação atual no Brasil tornam cada vez mais urgente. Mas, um manifesto claro nos seus propósitos, realista e objetivo na análise da situação atual como preciso nas soluções propostas (Lemme, 2000: 235). A própria articulação para a elaboração de tal documento chegou a ser realizada, embora não tenha prosperado muito. Carta de Lemme enviada a Fernando de Azevedo, datada de 5 de dezembro de 1952, atesta que as articulações para a elaboração de um novo manifesto chegaram a ser ensaiadas. Relatando encontro que teve com Nóbrega da Cunha, Lemme escreve que alguns pontos haviam sido acordados, já que o mesmo havia aceitado, inclusive na condição de “coordenador-geral da questão”, a incumbência de redigir um documento a ser assinado por um grupo de educadores, inclusive alguns dos signatários do “Manifesto de 32”, dizendo da oportunidade, conveniência e necessidade do lançamento de um novo Manifesto e concluindo por mostrar que a pessoa a ser escolhida para redator deve ser o Dr. Fernando de Azevedo (Lemme, 2000: 237). Malograda tal iniciativa, como indica carta de 10 de fevereiro de 1953, escrita por Lemme a Azevedo, o primeiro tenta encontrar uma explicação para tal fato e, num claro desabafo, escreve: Não quero prejulgar, mas segundo me parece, estão se confirmando as minhas suposições: os educadores parece que se cansaram da luta tão bem iniciada naqueles tempos heróicos da “Reforma Fernando de Azevedo”. É certo que alguns dos mais combativos elementos já não são mais do mundo dos vivos, mas devem estar atuando outros fatores para levar tantos outros elementos a essa verdadeira “demissão” ou deserção das fileiras em que naquele tempo combatiam com tanta bravura. Na minha opinião, a principal razão dessa atitude é que, hoje, uma definição clara de princípios, no caos em que estamos vivendo, 3 envolve uma crítica de tal modo severa às instituições e aos homens que hoje dirigem o País, que um sentimento de verdadeiro temor paralisa tal gesto, pois resultaria com toda certeza, na perda de uma situação mais ou menos cômoda, no próprio seio da vida pública, oficial, que quase todos esses elementos foram adquirindo, durante anos em que as vozes discordantes foram sendo reduzidas ao silêncio. Além disso, o conflito ideológico, em que se debate o mundo, torna mais difícil uma definição clara de pontos de vista. (Lemme, 2000: 241 - 242). Nessa mesma carta, Pashoal Lemme afirmava claramente sua posição em face da relação educação e sociedade. Acusando o fato de não ver na ABE uma análise da educação que atacasse os seus reais problemas escreveu: Tudo isso resultou nessa forma de agir de quase todos os nossos mais destacados educadores (e o exemplo típico é a conduta da ABE), de fugirem, cuidadosamente de penetrar o fundo das questões, indagação perigosa, para ficarem nesse remexer eterno de sintomas, de superficialidade cujo trato não compromete (Lemme, 2000: 242). E deixando clara sua análise estrutural da questão, justificava a publicação de seu “Estudos de Educação” denunciando o seu o “não conformismo com tal situação” apontando para uma definição dos seus “pontos de vista sobre as principais questões relacionadas com o problema”. Escreveu: Minha conclusão(...) é de que a educação no Brasil é assim porque o País conserva uma estrutura econômico-social atrasada de séculos que a condiciona: sem a modificação pois dessa estrutura, serão vãos quaisquer esforços, por mais honestos que sejam, no sentido de dar ao povo brasileiro melhores condições de educação, ensino e cultura (Lemme, 2000: 243). E voltando nessa mesma carta a defender a oportunidade de um Novo Manifesto, afirmava que “nessa luta”, cada um tem um papel a desempenhar e a “única atitude que não conduzirá a nada é o conformismo, ... a recusa em discutir os problemas, em ouvir todas as opiniões” Sendo assim, via naquela oportunidade a possibilidade de elaboração de um novo documento de educadores, liderados por Fernando de Azevedo, no qual “o terreno comum das opiniões fosse exposto.” ( Lemme, 2000: 243). A insistência de Paschoal Lemme na elaboração de um documento assinado por vários educadores se posicionando sobre as principais questões relativas à educação brasileira voltará a se repetir, mesmo após malograda a iniciativa descrita acima. As justificativas de Lemme para tais posicionamentos ficam explícitas em carta de 29 de maio de 1955, novamente endereçada a Fernando de Azevedo. Lemme escrevia que há algum tempo vinha se “preocupando seriamente com a questão da unidade dos educadores brasileiros, rompida em 1931, na Confederação de Niterói: situação essa depois agravada, por motivos bem conhecidos” (Lemme, 2000: 246 - 247). Em busca dessa “unidade”, chega a propor, como atesta a mesma carta de 29 de maio de 1955, a criação de uma Academia Brasileira de Pedagogia, proposta essa que chega a ser detalhada na mesma carta. 4 Em sua resposta, datada de 4 de junho de 1955, Fernando de Azevedo, após saudar com satisfação carta que quebrara “um longo silêncio”, afirmava que ficara muito contente em saber que Lemme novamente preocupava-se “com o problema da união dos educadores brasileiros” e, descartando a idéia de fundação de uma Academia Brasileira de Pedagogia - receando que “esse academicismo e pedagogismo” pudessem “concorrer para se meterem a ridículo uma das coisas mais sérias e mais graves da vida, que é a formação do homem, e uma das campanhas mais belas e fecundas como essa que resultou a obra de renovação educacional no Brasil” - voltava a propor um novo Manifesto. Nas palavras de Fernando de Azevedo: Teremos, dentro de oito meses, novo governo. Em vez de nos recolhermos em corporações acadêmicas, devemos é sair a público e promover um novo e vigoroso movimento de opinião: de aproximação do povo e junto aos poderes políticos, para redespertar a consciência da gravidade e importância dos problemas de educação e da necessidade urgente de resolvê-los ou pó-los em via de solução. Poderá esse movimento ser precedido de um novo manifesto, bastante lúcido, preciso, positivo e realista para desencadeá-lo (In: Lemme, 2000: 249 e 250). A idéia de lançamento de um documento de educadores que buscasse influir nas questões educacionais, portanto, foi tema recorrente na troca de correspondência aqui estudada. O impacto que, na visão dos “pioneiros”, o manifesto de 1932 tivera na história educacional do país, inclusive tendo sido considerado quando da elaboração dos textos de duas constituições levava esses educadores a manterem a idéia de um novo documento. .2 Porém, essa referência ao valor histórico do manifesto de 1932 e o entendimento segundo o qual esse era um documento que mantinha sua atualidade, nem sempre era compartilhada no mesmo tom por todos os signatários desse documento. Anísio Teixeira, por exemplo, por ocasião das lembranças que se fizeram quando da proximidade dos 20 anos daquele documento, escreve a Fernando de Azevedo, de forma até irônica, carta datada de 31 de março de 1951, informando-lhe de que recebera convite da União Paulista de Educação, através da pessoa de Sólon Borges dos Reis, comunicando “desejo de celebrar o vigésimo aniversário do seu Manifesto dos Pioneiros da Reconstrução Educacional, com a presença dos signatários desse documento”. O comentário de Anísio sobre tal questão merece destaque. Escreveu o educador: Não sei se essa comemoração tem oportunidade. Aí está o projeto de Bases e Diretrizes (sic) empacado desde... quando? O país é aquele mesmo de que dizia Nabuco faltar solidez para medrarem raízes. Tudo nasce mas não pega. O conselho seria continuar a plantar. O manifesto é, porém, semente velha, a despeito de tudo nele ser ainda bom e são. Os pioneiros são hoje veteranos frustrados em seus sonhos de pioneiros (Vidal, 2000: 67, grifos do autor). Assim, quando no início de 1959 as articulações em torno da elaboração da LDB que tramitava na Câmara Federal caminhavam para momentos decisivos, a elaboração de um novo documento volta à tona. Recuperando o itinerário de tais articulações 5 através da correspondência trocada entre alguns dos educadores envolvidos, como aqui está proposto, encontramos carta de Fernando de Azevedo, datada de 21 de fevereiro de 1959, endereçada a Paschoal Lemme, na qual lamenta a falta de discussão sobre questão de suma importância. “Infelizmente continua a ser o nosso país uma caixa de ressonância para os problemas de educação que por toda parte se consideram de uma importância vital”, lamenta o educador paulista, completando que nem o debate do projeto de lei de Diretrizes e Bases teve a repercurssão que era de esperar, nem o substitutivo de deputado da UDN levantou o clamor ou a onda de protestos que contra ele deviam erguer-se de todas as instituições escolares públicas e as associações de professores. A própria imprensa (se excetuarmos um ou outro grande matutino) encolheu-se e emudeceu. (Lemme, 2000: 257 - 258). Em carta de 3 de abril de 1959, anunciando que resolvera “romper definitivamente as baterias” contra o substitutivo Lacerda através de carta enviada ao jornal Última Hora na qual criticava veementemente o projeto, Lemme perguntava categoricamente a Fernando de Azevedo: “Não seria o caso e a oportunidade de voltarmos à idéias do lançamento de um novo manifesto ao povo e ao governo?” (grifo do autor) E deixando explícito os motivos pelos quais recorria ao educador paulista naquele momento, escreve recuperando a memória de embates anteriores: E nesses momentos difíceis para a educação brasileira, sempre me volto para o nosso grande líder – Fernando de Azevedo – que há trinta anos, na campanha mais memorável que se travou nesse país pele renovação educacional, pôs abaixo com uma energia e um denodo invulgares a montanha de rotina que se acumulara, durante séculos, nesse setor da vida brasileira Lemme, 2000: 259). Para Paschoal Lemme, somente o “prestígio” de Fernando de Azevedo seria “capaz de emprestar o sucesso” à iniciativa de um novo documento de educadores. Por isso era a esse educador paulista, redator do Manifesto da Educação de 1932, que fazia a sugestão de um nova tomada de posição conjunta, posição que deveria estar alicerçada na tradição que o documento acima inaugurara, por isso o líder dos “pioneiros da educação nova” era a figura ideal para redigir o novo posicionamento. A partir dessa carta de abril de 1959, as articulações objetivando a elaboração de um novo manifesto visando intervir no processo de tramitação da LDB ganha um vulto maior. Através da leitura das correspondências trocadas entre Fernando de Azevedo e Paschoal Lemme durante esse ano, podemos acompanhar um pouco dessas articulações que se centralizavam na figura do educador paulista redator do manifesto de 1932, condição esta, aliás, referenciada diversas vezes nas cartas aqui analisadas. Na documentação pesquisada, sempre que surge alguma referência a idéia de produção de um documento conjunto de educadores, recorre-se a expressão novo manifesto, indicando uma clara relação entre o que se pretendia escrever e a memória do documento de 1932, de tal forma que podemos afirmar que as articulações assim como a própria redação de um novo documento de educadores devem ser pensadas como momentos de reafirmação dessa memória que os “pioneiros” construíram sobre a educação brasileira a partir da década de 20. Assim, retomando a narração das articulações que precederam o Manifesto de 59, em carta de 11 de abril de 1959, Fernando de Azevedo responde ao “apelo” feito pelo educador carioca ligado ao PCB: 6 (...) quanto a idéia de um “novo manifesto ao povo e ao governo” e ao apelo que me dirige... “para que empunhe de novo a bandeira e a chefia de outra etapa da libertação cultural do povo brasileiro”, estou de acordo com a idéia e disposto a atender a seu apelo. Outros já me têm convocado com igual empenho(Lemme, 2000: 261). Vai ganhando corpo, portanto, a elaboração de um novo documento de educadores e a correspondência entre os envolvidos indica o grau de importância da participação de Paschoal Lemme em tal evento. Preocupado, como várias vezes demonstrou em suas cartas, com a unidade dos educadores brasileiros, a participação desse educador na elaboração do Manifesto de 1959 parece decisiva, não só pelo fato de ter lançado a idéia, ou de pelos menos ter tratado dela com certa insistência na correspondência aqui analisada, mas principalmente por, como veremos adiante, ter influenciado em alguns pontos centrais na linha a ser seguida no texto do documento. Os acontecimentos relativos à tramitação do projeto de LDB na Câmara dos Deputados apressaram as tratativas quanto à elaboração de um documento unificado de educadores contrários ao substitutivo Lacerda. Assim, em carta de 11 de maio de 1959, aludindo à necessidade de produzir um texto a tempo de interferir na tramitação, Azevedo propõe dividir o texto do documento com Lemme, que não aceita, afirmando em carta de 14 de maio de 1959 que “foi sempre e continua sendo minha convicção que somente o senhor tem autoridade para redigir o documento, e ainda mais, para coordenar o seu lançamento” (Lemme, 2000: 263). A insistência no nome do “reformador de 1928, no Distrito Federal, de 33, em São Paulo e no antigo Manifesto de 1932”, forma como Fernando de Azevedo se refere a si mesmo nas cartas trocadas com seus correspondentes, é certamente algo importante. Pois, por mais que a gentileza entre dois amigos que trocavam cartas há tantos anos possa influenciar num discurso dissimulador, algumas observações de Lemme sobre a escolha em questão apontam para algo mais concreto, qual seja, a necessidade de uma articulação política competente em momento político tão radicalizado. Para Lemme, além da autoridade do reformador de 1928 e 1933, respectivamente no Distrito Federal e em São Paulo, além da redação do Manifesto de 1932, outra questão, mais contemporânea aos acontecimentos,impunham, tal decisão. Nas palavras de Lemme: (...) parece-me que o movimento poderia ser de certa forma prejudicado se chegasse a saber que o manifesto tinha sido elaborado com a colaboração direta de pessoas “comprometidas” com determinadas correntes de idéias (é o meu caso) ou de outras muito visadas por correntes de opinião que ainda têm grande preponderância no País (é o caso de Anísio em relação aos católicos) (Lemme, 2000: 263). A oportunidade exigia um manifesto amplo, apoiado por diferentes correntes, pois na análise que se fazia, concluía-se que a situação era “muito diferente daquela em que foi concebido e lançado o Manifesto de 1932”, dizia Lemme na mesma carta. Para ele, a “luta ideológica” se acirrara “em face dos acontecimentos ocorridos nos últimos vinte anos, no mundo e entre nós”. E completando a análise da nova situação e das imposições que a mesma trazia ao novo documento, escrevia que “um novo manifesto tem que ser redigido com extrema habilidade e amplitude, sem prejuízo da nitidez e firmeza das afirmações fundamentais de modo a reunir em torno dele todos os 7 educadores progressistas, independente de suas convicções pessoais, políticas ou religiosas” (Lemme, 2000: 263 - 264). Essa carta de Lemme a Azevedo é fundamental ainda por duas outras questões: primeiro que por meio dela o educador comunista insistia no fato de que por estarem vivendo um momento de “vésperas de decisões de grande importância com a entrada na ordem do dia do projeto de Lei de Diretrizes e Bases”, fato que associa o segundo manifesto ao contexto dos embates em torno da legislação educacional, chegara o “momento mais oportuno para uma manifestação pública dos educadores progressistas”, e segundo, é nessa mesma carta que Lemme sugere nomes que posteriormente encontraremos como signatários do documento de 1959. 3 Ainda nessa mesma carta, Lemme, aludindo a tradição do primeiro manifesto e sempre ligando os dois momentos, afirmava que mesmo que não atingisse o seu objetivo maior, que era o de influenciar “na elaboração” da lei em discussão na Câmara dos Deputados, o novo manifesto, “ficaria, tal como o de 1932, como um novo marco na história da educação brasileira” (Lemme, 2000: 266). A leitura das cartas também deixa entrever que uma das preocupações desses educadores que estavam a “costurar” uma manifestação pública sobre a tramitação da LDB se referia ao posicionamento da ABE e a divisão entre os educadores. Nas cartas, é aludida a necessidade de se lançar o novo manifesto no contexto de uma Conferência promovida pela tradicional associação de educadores, mas as divisões políticas internas a essa entidade, na visão de Fernando de Azevedo dividida em “reacionários” e “progressistas”, tornavam difícil tal acontecimento. Assim, o teor ameno do documento era algo tratado como importante nas trocas de cartas entre os seus articuladores, pois deveria ser evitada uma divisão ainda maior dos educadores. Diante de tal situação, o elo unificador de posições contrárias, seria, na visão de Paschoal Lemme, a figura de Fernando de Azevedo, sendo a alusão a uma determinada memória histórica que consagrava a importância desse educador fator importante nos debates educacionais da época. Nas conversas que manteve com Anísio Teixeira e Almeida Júnior, sobre a oportunidade do lançamento de um novo manifesto, conta Fernando de Azevedo em carta para Lemme, de 15 de maio de 1959, que eles concordavam sobre a oportunidade de uma manifestação coletiva, porém, alertavam para a necessidade de evitar dar ao texto um caráter polêmico. Azevedo, concordando com tal análise, afirmava que “um documento de tal ordem e em tal conjuntura tem de ser escrito com sobriedade, mas com força e vigor”, e reforçando os cuidados políticos que envolviam a elaboração do texto, completava: “Não será (é o que também penso) um grito de guerra, mas uma tomada, franca e decidida, de posição” (Lemme, 2000: 268 - 269). A possibilidade de lançar o novo manifesto numa Conferência da ABE, no caso a décima terceira, era visto por Paschaol Lemme como uma oportunidade de ampliar o leque de adesões e garantir um caráter mais equilibrado politicamente ao documento, aumentando suas possibilidades de intervenção concreta na realidade educacional, além de, nas palavras de Lemme, ser “uma maneira mais apropriada de recolocá-la no seu verdadeiro caminho, naquele caminho em que se inspiraram Heitor Lyra e seus companheiros ao fundá-la em 1924” (In: Lemme, 2000: 271). Assim, pretendia Lemme através de suas articulações políticas, aproveitar o momento para, como manifestou claramente, “recuperar” (são palavras suas) a ABE, e via no lançamento do manifesto através da planejada XIII Conferência dessa entidade, uma oportunidade para fazê-lo. Além dessa questão de disputa pelo controle político da ABE, o próprio contexto político, segundo Lemme, exigia uma ampliação do leque dos signatários do novo 8 documento em articulação. É o que deixa claro quando escreve, em 25 de maio de 1959, em carta a Fernando de Azevedo: O ambiente de hoje é muito diferente do de 1932. Os antagonismos ideológicos se acirraram, em face do que aconteceu e vem acontecendo no mundo e no País, a partir da II Grande Guerra Mundial, e assim, mais do que naquela época, um novo manifesto, se assinado por um grupo pequeno de educadores, mesmo de grande expressão nacional, arrisca-se a não ser discutido, mas a ser combatido apenas como mais uma manifestação de um “pequeno grupo sectário, já muito conhecido por suas idéias pragmátistas, materialistas e até comunistas...” (Lemme, 2000: 272). Por isso, completava sobre essa questão Paschoal Lemme, seria importante que o novo manifesto não contivesse nada que pudesse “assumir o caráter de luta religiosa, ou de imposição de ideologias”, concordando assim com Fernando de Azevedo quando esse afirmara que não se tratava de “um grito de guerra, mas um tomada franca e decidida de posição” A troca de correspondências entre esses dois educadores, quando das articulações para a elaboração do novo manifesto, lança luz sobre uma questão fundamental, qual seja, a participação decisiva do educador carioca Paschoal Lemme, signatário do primeiro manifesto e adepto das idéias marxistas, nas articulações que levaram ao segundo manifesto. As evidências apontam para a centralidade dessas articulações, e, segundo o próprio Fernando de Azevedo, em carta de 6 de junho de 1959, Lemme foi um dos que lhe incentivaram a ser o redator de tal documento: “se não fosse v., com seus reiterados e calorosos apelos, não me aventuraria a redigir o novo manifesto.” ( Lemme, 2000: 280). Tomados os cuidados devidos, não deixa de ser uma afirmação carregada de significado, ainda mais porque, nessa mesma carta, seu autor comunica a Lemme sua decisão de, enfim, escrever o documento. Fernando de Azevedo escreveu: “Tomei agora a decisão de escrever o novo Manifesto... Deverá estar datilografado até o fim de junho, se não me faltarem tempo e forças. Obrigado por sua excelente colaboração.” (Lemme, 2000: 280). Descontadas as gentilezas inerentes a uma relação respeitosa e amigável, fato que as cartas deixam transparecer com clareza, a comunicação feita por Azevedo a Lemme de que iria escrever o documento, tem relevância como indicador da participação destacada do segundo na trama que levou à produção do documento. As causas da insistência de Paschoal Lemme na elaboração de um novo documento podem ser procuradas na maior liberdade política da qual gozava esse educador, pois como não ocupava cargo de confiança no aparelho do Estado encontrava-se numa melhor situação para exercer pressão visando uma nova manifestação pública dos educadores. Certamente, para eficácia de tal empreitada, contar com a companhia dos “pioneiros da educação nova” seria fundamental, daí a recorrência à memória do Manifesto de 1932 ser uma constante na correspondência aqui estudada.4 No entanto, evidências menos dependentes de uma interpretação de informações subjetivas contidas nas correspondências, permitem afirmar com maior grau de certeza que Paschoal Lemme exerceu papel decisivo na elaboração do “Manifesto dos Educadores Mais Uma Vez Convocados”. Podemos buscar essas evidências na linha desenvolvida pelo texto que veio a público em meados do ano de 59. Além de ser um documento-resposta às articulações dos defensores do substitutivo Lacerda, e por isso 9 “menos doutrinário, mais realista e positivo”, conforme escreveu Fernando de Azevedo, o documento contém algumas respostas diretas às questões prementes do momento pelo qual passava a educação brasileira na sua relação com a sociedade brasileira. Para dar essas respostas, o documento seguia duas linhas básicas: a defesa da escola pública como um instrumento democrático e, segundo, a discussão da relação entre a educação e o desenvolvimento econômico. O importante aqui é destacar que podemos encontrar, nas cartas de Paschoal Lemme endereçadas a Fernando de Azevedo, a sugestão explícita das duas linhas ou formas de direcionar o texto do documento. Na mesma carta, de 25 de maio de 1959, na qual Lemme defendia que o novo manifesto deveria representar “uma nova etapa, adaptada às circunstâncias, do pensamento da mesma corrente de educadores sobre os problemas da educação brasileira, dirigidos e coordenados pelo mesmo educador” (Lemme, 2000: 272), são indicadas as linhas que o documento deveria assumir. Para Lemme, uma das linhas que deveria direcionar o texto do novo manifesto deveria ser a da defesa da “verdadeira educação democrática, da escola democrática e progressiva, que tem como postulado a liberdade de pensamento e a igualdade de oportunidades para todos”, sendo que a escola e a educação que tornam isso tudo possível, nas palavras de Lemme, seriam “a escola e a educação públicas, conquista definitiva da burguesia em sua ascensão no século XIX...”. A esse aspecto que acabou sendo um dos pontos centrais do Manifesto de 1959, o autor da carta acrescenta outro que, segundo pensava, “o documento não poderia deixar de abordar”, qual seja Seria o das preocupações dos educadores em face dos problemas do desenvolvimento econômico (tão em moda no momento) e o da independência econômica do País, em face das pressões que os países subdesenvolvidos sofrem no sentido de atenderem aos interesses de outros países, prejudicando um desenvolvimento harmônico em benefício de seu próprio povo. Reconheço que é um problema delicado, mas não vejo como um documento, que pretende ser a manifestação de um grupo de educadores progressistas, possa se furtar a dizer em que sentido a educação, a instrução, a formação técnica, especialmente, deve concorrer para a emancipação econômica do País (Lemme, 2000,:273 e 274). Ainda sobre a mesma questão, em carta de 1 de junho de 1959, Paschoal Lemme escreve categoricamente: “A defesa da educação pública como conquista irreversível da humanidade e a educação para o trabalho, para o desenvolvimento, são, do meu ponto de vista, as teses fundamentais a serem defendidas por educadores progressistas” (Lemme, 2000: 279). Não poderiam ser mais explícitas as evidências de que a influência de Lemme sobre o texto do Manifesto de 1959 foi decisiva, inclusive para a definição das teses centrais que documento apresentaria. Além disso, será esse educador um importante homem na articulação das adesões ao documento, como atesta carta de Anísio Teixeira, datada de 26 de junho de 59, enviada a Fernando de Azevedo, quando escrevia que “ a questão das assinaturas é muito importante e, para isso, o Paschoal está percorrendo as residências dos signatários do manifesto de 32, com os acréscimos de sua indicação e mais os que vimos aqui sugerindo” (Vidal: 2000: 127). As articulações de Paschoal Lemme objetivavam uma atuação unificada dos educadores brasileiros na defesa da escola pública, porém, em nenhum momento esse 10 objetivo era entendido como sendo por si só suficiente para fazer com que a causa da escola pública servisse ao avanço da sociedade brasileira. Defendendo o envolvimento dos educadores brasileiros com o “movimento nacionalista e progressista” que, na sua visão, estava em crescimento no País à época, escreveu: Os educadores, em geral, assumem a atitude de portadores de uma “panacéia” que aplicada à sociedade, com a necessária técnica pedagógica, seria o fator fundamental da transformação social. Isolam-se, assim, das outras forças progressistas que atuam na sociedade, especialmente as mais organizadas, ou seja, os partidos, as organizações sindicais e estudantis, estas últimas que, como se sabe, desempenham um importantíssimo papel nas lutas pela liberdade e pelo desenvolvimento dos países coloniais e subdesenvolvidos. Entre nós, os estudantes figuram como força atuante de primeira grandeza em todos os episódios marcantes da história do Brasil. (Lemme: 1988b, 174). A participação decisiva de Paschoal Lemme não diminui em nada a já conhecida importância de Fernando de Azevedo na elaboração do novo documento de educadores. Além de redator do primeiro manifesto, “o reformador de 28 e 33”, como o próprio se intitulava, se encontrava, no momento das articulações políticas para a resistência ao substitutivo Lacerda, à frente da direção do CRPE paulista, portanto ocupava cargo importante no aparelho burocrática estatal, fato que indicava possibilidades amplas de articulação. Embora com receios de que a sua condição de ocupante de cargo público fosse utilizada politicamente, Fernando de Azevedo articulou politicamente a elaboração do documento. A análise das correspondências trocadas por Fernando de Azevedo durante o período no qual o debate em torno do substitutivo Lacerda foi destaque, indica essas articulações, o que aqui se quer acrescentar, apenas, é a participação decisiva de Paschoal Lemme. Na mesma carta através da qual Anísio Teixeira informava Fernando de Azevedo das atividades de Paschoal Lemme em torno da coleta de assinaturas para o documento, esse educador mantinha com Azevedo uma interlocução no sentido da elaboração do documento. Assim, Anísio sugere a Azevedo o nome do deputado Luis Viana para leitura do documento na Câmara, fato que acabou se concretizando, já que acreditava que o nome de Santiago Dantas já estava comprometido devido à polarização que o mesmo mantinha com Carlos Lacerda na Comissão da mesma casa legislativa que examinava a matéria. Defendia ainda, que a publicação do Manifesto só deveria ocorrer após a sua leitura na Câmara, pois isso significaria ‘’uma homenagem dos autores à consciência do Legislativo nacional” (Vidal, 2000: 127).5 Também na mesma carta, algumas sugestões são feitas quanto à redação do documento, o que denota o caráter das articulações para sua redação, da qual Azevedo foi personagem central. Sugere Anísio: Li todo o documento com atenção e tomei apenas a liberdade de sugerir que, na pág. 16, fosse supressa a expressão intercalada – ensine quem quiser e como puder – pois usei-a, em entrevista recente, em sentido um tanto diverso e isto provocará a insinuação de contradição. Fiz uso do slogan no sentido de que, se (o) ensino privado quisesse verdadeiramente liberdade, devia buscar a sua 11 independência não aceitando também a sanção do Estado... retirada a expressão, nada perde o seu texto (Vidal: 2000: 127, grifos do autor). E mais abaixo, na mesma carta, indicando outra sugestão ao redator do novo manifesto, escrevia Anísio: Devo-lhe dizer que considero exemplar todo o manifesto e se for provocado a acrescentar-lhe alguma coisa, procurarei não me afastar do seu texto, sublinhando apenas, talvez um pouco mais, pois lá já está tudo, o caráter nacional da escola pública, a mais capaz de transmitir e infundir aquele conjunto de crenças e valores comuns, que o Estado propugna a vista exatamente de ser o defensor da liberdade de consciência individual de cada um. (In; Vidal: 2000, 127 e 128, grifos do autor) Outra troca de correspondência que atesta a centralidade da participação de Fernando de Azevedo nas articulações que levara ao segundo manifesto, foi com o educador mineiro Abgar Renault. Em carta escrita a Fernando de Azevedo, datada de 15 de maio de 1959, na qual comunica, entre outras coisas, sua nomeação para a chefia do CRPE mineiro, convidado que fora pelo “nosso Anísio” conforme palavras suas, Abgar Renault escreve que achou “excelente” a idéia de um novo “manifesto ao povo e ao governo” tratando da “educação pública.” Na sequência da mesma carta, escrevia: Considero indispensável lançar nova campanha pela educação. Num país sem acústica nenhuma como o nosso, é preciso gritar a mesma cousa, ou antes, as mesmas cousas muitas vezes. Ninguém com melhores títulos para redigir esse documento do que você, que já foi autor de outro da mesma natureza. Terei o maior gosto em lê-lo e muita honra em assiná-lo (Arquivo Fernando de Azevedo, IEB, caixa 27 A). Interessante pensar que o nome de Abgar Renault aparece, em carta de Paschoal Lemme, como um dos nomes que deveriam ser consultado para ampliar o leque de apoios visando dar um caráter mais amplo aos signatários do novo manifesto, pois o fato de esse ser um educador comprometido com as idéias católicas ajudaria muito a diluir uma das críticas que os defensores da escola pública recebiam, a de atentarem contra princípios católicos. Embora aqui não seja possível avançar muito, não seria demais pensar que essa condição de proximidade de Abgar Renault com as idéias católicas também tenha sido o motivo pelo qual Anísio, em meio às pesadas críticas que sofria dos adeptos da corrente católica, viu na sua nomeação para o CRPE de Minas Gerais, como uma forma de ampliar sua base de sustentação no Governo de Juscelino Kubitschek e se manter na direção do INEP, apesar das fortes pressões que sofria em sentido contrário. Em outra carta, datada de 16 de junho de 1959, as articulações em torno da produção do manifesto de 1959, volta a aparecer. Escreve Abgar Renault para Fernando de Azevedo: Insisto em dizer-lhe que esta é a hora para um novo manifesto e você é o homem para fazê-lo como ele deve ser feito – amplo, largo, batido de sol e de vento, orgânico e ardente, vivo e belo, como devem ser todos os documentos destinados a durar Exatamente por que a hora é inquieta e incerta, exatamente por que os rumos são muitos, embora 12 um só, exatamente por que o mundo está em mudança, exatamente por que o Brasil não tem ouvidos e marcha firmemente para o caos, pede urgente uma palavra alta, severa, grave e bela (repito esse adjetivo deliberadamente: sem forma, isto é, beleza, não há o que dure), capaz de criar ouvidos no Brasil, isto é, capaz de fazer-se ouvir e de deter o descaminho dos nossos passos. Essa palavra é a sua. (grifos do autor) (Arquivo Fernando de Azevedo, Caixa 27 A). A troca de correspondência, entre Fernando de Azevedo e Abgar Renault é de certa forma constante entre os anos de 1959 e 1960, e como indica uma carta de Abgar, havia sido retomada por volta daquele período Sendo assim, embora não possamos precisar exatamente qual o período de tal interrupção, por não termos acesso ao universo total dos documentos em questão, podemos afirmar, pelas evidências que a troca de correspondência trazem, que essa retomada se dá provocada pelas articulações visando o lançamento do Manifesto de 1959. Assim, Fernando de Azevedo, seguindo sugestão de Paschoal Lemme no sentido de ampliar o leque ideológico dos signatários do novo documento, procurou Abgar Renault, que por sua ligação com correntes católicas, poderia dar um caráter menos direcionado ao documento escrito pelo educador paulista. O que chama a atenção na análise das correspondências trocadas por Fernando de Azevedo visando a elaboração do Manifesto de 1959, é a ausência de Lourenço Filho. Não há uma única carta trocada entre os dois que mencione explicitamente esse documento. 6 O único indício encontrado foi uma cópia de telegrama enviado por Fernando de Azevedo a Lourenço Filho, no qual deixa entrever uma certa preocupação. Datado de 02 de julho de 1959, um dia após o lançamento do Manifesto, o telegrama dizia: “Lamento profundamente não tenha recebido minha carta fins maio sobre idéia Manifesto me foi insistentemente solicitado afetuoso abraço - Fernando” ( Arquivo Fernando de Azevedo, Caixa 10 A ). Insuficiente para explicar os motivos da ausência de Lourenço Filho como signatário do Manifesto de 1959 indica, entretanto, a tentativa de incluir no novo documento todos os “cardeais da educação brasileira”, forma como Afrânio Peixoto se referia aos educadores Fernando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho, (Lemme, 1988a: 4), denominação que a historiografia de matriz azevediana tratou de adotar. Recuperada em parte a história das articulações que levaram ao lançamento do Manifesto de 1959, cabe aqui fazer uma breve análise de sua repercurssão, para caracterizar melhor a sua utilização como uma importante estratégia na disputa política que travavam os defensores da escola pública e da escola particular em torno da produção de uma lei educacional. Como já indicava a preocupação dos seus principais articuladores, manifestada acima, O Manifesto dos Educadores Mais Uma vez Convocados, de 1959, não teve a mesma trajetória histórica do tradicionalmente consagrado Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, seu antecessor.7 Para refletirmos sobre esta questão, é fundamental frisar que boa parte da repercussão histórica do primeiro manifesto deve ser atribuída à atuação dos seus principais signatários, no momento posterior ao seu lançamento, o que equivale dizer que a construção da memória do documento de 1932 foi trabalhada pelos seus próprios 13 signatários. Em vários momentos posteriores à sua produção, esse manifesto funcionou como um instrumento nas diversas batalhas pela educação que seus signatários se envolveram na busca da “reconstrução educacional do País”. Os autodenominados “pioneiros da educação nova” não cansaram de utilizar tal fato para marcar as bases de onde falavam, de lembrar a todos os objetivos da sua obra, enfim, de cultuar a memória de “pioneiros”. Podemos encontrar tal posicionamento em diversos documentos, seja nas cartas acima mencionadas e que foram trocadas entre os seus signatários, ou mesmo nos livros escritos pelos principais envolvidos, ou sobre eles e mesmo no texto do Manifesto de 1959, como foi analisado acima. A constante alusão ao documento de 1932 na correspondência trocada entre alguns de seus signatários já foi analisada no item anterior, mas pela importância de tal correspondência, vale recorrer novamente a elas. Em carta endereçada a Paschaol Lemme, datada de 15 de dezembro de 1952, escreveu Fernando de Azevedo: Abriram-se já muitos claros em nodssas fileiras. Somos um grupo mais reduzido de combatentes fiéis às idéias do manifesto de 32 e à causa da educação no Brasil. Entre estes, estão v., o Gouveia, o Sussekind de Mendonça, o Anísio, o Lourenço, o Nóbrega da Cunha, para citar apenas alguns. No Rio, conversamos sobre a oportunidade e a necessidade de um novo Manifesto (Lemme, 2000: 239). Quanto às obras desses educadores que contribuíram para a produção de uma memória sobre o manifesto de 1932, a mais clássica é a de Fernando de Azevedo A Cultura Brasileira - trabalho escrito para servir de Introdução ao Recenseamento de 1940, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE (Azevedo, 1963, p.21) - da qual deriva uma matriz para se pensar a história da educação brasileira (Carvlaho, 1989). Em A Cultura Brasileira, em sua terceira parte , Azevedo escreveu: Seja qual for o ponto de vista em que nos coloquemos, para apreciar esse documento e que nos poderá levar a combatê-lo ou a apoiá-lo, não se pode contestar que no manifesto de 1932 - “A reconstrução Educacional no Brasil”, se analisa o problema da educação nacional sob todos os seus aspectos, se definem os princípios e se traçam, pela primeira vez, as diretrizes de um programa geral de educação, cujas peças articuladas entre si, num plano sistemático, são subordinadas a finalidade precisas que atuam sobre o conjunto (1963, 668, grifos meus). Ainda lemos na seqüência: Não foi o manifesto apenas uma “declaração de princípios”, que teve grande repercussão e suscitou numerosos debates; nem somente um documento pelo qual um grupo de educadores tomou posições em face dos mais graves problemas da educação nacional; mas ainda um vigoroso esforço para constituir uma nova política educacional e propor à execução um dos mais largos planos escolares que já se traçaram no Brasil (Azevedo, 1963, 668 -669, grifos meus). 14 Ao Manifesto de 1959 não foi possível tal sorte histórica. Produzido no calor das disputas que se travavam em torno da produção de uma lei educacional, esse documento não obteve o mesmo resultado. Em virtude do envolvimento posterior de vários de seus signatários com a radicalização do processo político que sucedeu ao período de sua divulgação, levando-os a posicionamentos diversos, a idéia de uma frente de intelectuais de diferentes matrizes ideológicas, que presidiu a proposta de tal documento, perderia força. Tal característica do documento passa de idéia-força na sua elaboração à condição de problema no panorama político posterior. Essa situação pode ser exemplificada pelos caminhos diferenciados seguidos por dois “novos pioneiros da educação nova”, Laerte Ramos de Carvalho e Florestan Fernandes - signatários do Manifesto de 1959 - logo após o golpe militar de 1964. Enquanto o primeiro assumiu o cargo de Reitor da Universidade de Brasília (Piletti, 1991: 65 - 66), o segundo foi cassado pelo novo regime e exilado. Sendo assim, com a desarticulação do grupo que assinou o documento de 1959, fato que começou antes do período inaugurado em 1964, seu texto não se transforma numa referência nas lutas políticas posteriores à aprovação da LDB. Com isso, ao contrário do que ocorreu com o documento de 1932, a memória dos signatários do Manifesto de 1959 pouca influência tem em sua repercussão, ficando sua legitimação histórica atrelada ao primeiro documento, sem o qual perde sentido, aparecendo como um manifesto que, do ponto de vista de sua utilização como instrumento político, mais se projeta para o passado do que para o futuro. Notas 1 Na sessão da Câmara dos Deputados de 30 de junho de 1959, o deputado Luiz Vianna leu o manifesto redigido por Fernando de Azevedo (Saviani: 1983, p.131). No dia seguinte, o jornal O Estado de S. Paulo e o Diário de Notícias publicaram, pela primeira vez, o texto do documento, que posteriormente também seria publicado em outros jornais e revistas, como a revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, nº 74, de abril/maio de 1959. 2 No texto do Manifesto de 1959, ao se referir ao documento de 1932, no item O Manifesto de 32 e o projeto de Diretrizes e Bases, podemos ler o seguinte: “O texto é claro e positivo, e é dele, como do programa da política educacional extraído do manifesto, que provieram os textos respectivos de duas Constituições, na elaboração dos quais participaram alguns de seus signatários.” (Mais uma vez convocados, 1959: 8) O redator do documento se refere às Constituições de 1934 e 1946. 3 São citados os nomes Raul Bittencourt, Gustavo Lessa, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Carneiro Leão, Artur Moses, Nóbrega da Cunha, Abgar Renault, Almeida Júnior, Gilberto Freire e Delgado de Carvalho (In: Lemme, 2000, 265 e 266). 4 Em meados de 1959, Fernando de Azevedo dirigia o CRPE de São Paulo e Anísio Teixeira o INEP, condição política que poderia levar, como acabou acontecendo, a acusação de utilização dos cargos públicos como instrumentos de pressão nos debates sobre a tramitação da LDB. 5 Lido pelo deputado Luiz Vianna na sessão da Câmara dos Deputados de 30 de junho de 1959, o Manifesto foi publicado no Diário do Congresso Nacional em 1º de julho do mesmo ano, concomitantemente com o jornal O Estado de S. Paulo, fato que denota um certo grau de organização dos seus articuladores. Posteriormente, vários outros periódicos publicaram esse documento. 6 Claro que esta afirmação se refere exclusivamente à documentação consultada no Arquivo Fernando de Azevedo, depositado no Instituto de Estudos Brasileiro (IEB), o 15 que não ajuda a eliminar a dúvida que permanece sobre os motivos pelos quais Lourenço Filho não assina o Manifesto de 1959. 7 A questão das diferentes repercussões que os dois manifestos tiveram foi discutida por Mirian Jorge Warde em Comunicação realizada no XV Encontro Regional de História, organizado pela Associação Nacional de História (ANPUH ) em 2000, sob o título Intelectuais da educação: dois manifestos e muitas trajetórias. Referências Bibliográficas AZEVEDO, Fernando. A Cultura brasileira. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963. CARVALHO, Marta Maria Chagas. O novo, o velho, o perigoso: relendo A Cultura brasileira. Cadernos de Pesquisa, São Paulo (71): 29-35, nov de 1989. LE GOFF, Jacques. História e Memória.Campinas: Editora da Unicamp. 1994. LEMME, Paschoal. A educação brasileira num momento crítico. In: Revista Brasiliense. São Paulo. nº 25, set/out. , pp. 95 -109, 1959 ________________. Educação Democrática e Progressista. São Paulo: Editoria Pluma, 1961. _______________. Memórias 2: Vida de família, formação profissional, opção política. São Paulo: Cortez Editora, 1988a _______________. Memória 3: Reflexões e estudos sobre problemas da educação e ensino. Perfis: Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Heloísa Alberto Torres, Humberto Mauro, Souza Silveira. Cortez Editora, 1988b. Mais uma vez convocados (ao povo e ao governo). In: Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro: INEP/MEC, vol. XXXI, abril./maio, 1959, nº 74, pp. 3 24, 1959. PILETTI, Nelson. Laerte Ramos de Carvalho: o discurso e a prática. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, vol. 17, nº 1/2, pp. 65 -101, 1991. Dermeval. 1983. Educação Brasileira: estrutura e sistema. São Paulo: Editora Saraiva. SAVIANI, Dermeval. Educação e Política no Brasil. São Paulo: Cortez/Autores Associados. 1988. VIDAL. Diana Gonçalves. Na batalha da educação: correspondência entre Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo (1929 - 1971). Bragança Paulista: EDUSF, 2000.