LUIZ FELIPE DE OLIVEIRA TEIXEIRA
EDUCAÇÃO FORMAL E EDUCAÇÃO POPULAR NA CONSTRUÇÃO DA
IDENTIDADE DOS AFRO-BRASILEIROS
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentada a coordenação do curso
Realidade Brasileira.
Orientador: Prof. Mário Augusto Sanssegundo
Porto Alegre
2009
“Aprendemos até hoje em salas de aulas e livros
que existiram negros ociosos, conformados
e covardes; que poucos foram os que resistiram
e ousaram contra o sistema.
E a esses foram dados títulos que lembram mais
Desordeiros do que heróis”.
(PODE CRÊ, n.0, p. 15).
3
RESUMO
O trabalho de conclusão de Curso – TCC ora apresentado tem como
tema: “A educação formal e a educação popular na construção da identidade dos
afro-brasileiros”.
O
desenvolvimento
deste
estudo,
tornou-se
necessário,
primeiramente pela realidade atual por que passam os afro-brasileiros, pois, no
momento em que buscam resgatar a dívida da sociedade para com eles, pelo jugo
do sistema escravagista, surge na sociedade uma grande reação, principalmente de
oposição a política de ações afirmativas, como as cotas nas universidades. Ainda
relevante na construção do trabalho, o reflexo que tem qualquer ação que envolva
os afro-brasileiros, tendo em vista a sua participação em percentuais na população
brasileira, que já chega a quase cinquenta por cento, segundo o censo do IBGE. O
objetivo principal foi identificar as formas como o nosso sistema educacional formal
atuou para reproduzir e perpetuar, o sistema de subjugação do povo negro herdado
da escravização e de nosso sistema colonial, da mesma forma identificar
experiências de educação popular desenvolvidas no Brasil. Nos três primeiros itens
deste trabalho trato de analisar as peculiaridades do negro ainda no território
africano, e buscar apresentar uma visão das características deste território, com o
objetivo de demonstrar a contrariedade que existe no discurso racista de que o
negro é indolente e avesso ao trabalho, pois constata-se analisando estes itens de
que o negro precisou, para viver e desenvolver neste território inóspito, embora rico,
desenvolver habilidades e conhecimentos evoluídos para seu tempo, bem como ser
portador de grande capacidade de trabalho e perseverança. Após o trabalho procura
demonstrar que a construção da inferiorização do negro, deveu-se a necessidade do
branco, europeu, justificar sua escravização. Processo que se deu a partir da
mudança de relação entre brancos e negros, onde passou de uma relação de trocas,
para um sistema de exploração de um pelo outro, expõe ainda, que a igreja teve
papel preponderante em difundir e sustentar a visão de inferioridade do negro, entre
outros por afirmar que o negro não possuía alma. Mostra também o contexto de
construção de nosso sistema escolar, baseado na reprodução e perpetuação das
mesmas relações de poder estabelecidas nesta sociedade, e sua cultura
discriminatória, que nossas escolas são um espaço privilegiado de legitimação do
discurso racista e discriminatório. Por fim, apresenta experiências de processos de
educação popular, especialmente educação popular com especificidade afrobrasileira.
Palavras chaves: Educação – Racismo – Libertação.
SUMÁRIO
RESUMO..................................................................................................................3
SUMÁRIO.................................................................................................................5
INTRODUÇÃO.........................................................................................................6
1 O PORQUE DE CONHECER A VIDA DO NEGRO NA ÀFRICA..........................9
1.1 O CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO AFRICANO.......................................10
O TERRITÓRIO AFRICANO ÍNGRIME E A CONTRADIÇÃO DO DISCURSO DA
AVERSÃO DO NEGRO AO TRABALHO.......................................................11
2 O PROCESSO HISTÓRICO DE INFERIORIZAÇÃO DO NEGRO.....................13
2.1 A ESCOLA NO CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO-POLÍTICO......................14
2.2 A INFLUÊNCIA DO LIVRO DIDÁTICO NA CONSTRUÇÃO DA
SUBJETIVIDADE DOS INDIVÍDUOS............................................................16
3 NOSSA TAREFA: CONSTRUIR UMA NOVA EDUCAÇÃO – REALMENTE
DEMOCRÁTICA E IGUALITÁRIA...........................................................................18
AS EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO AFRO-BRASILEIRA.................................20
TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO (TEN)...........................................................21
NÚCLEO DE ESTUDOS NEGROS - NEN............................................................23
ESCOLA ALTERNATIVA KA-NAOMBO................................................................24
CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................26
REFERÊNCIAS......................................................................................................29
6
INTRODUÇÃO
O presente trabalho de Conclusão de Curso – TCC tem como tema:
Educação Formal e Educação Popular.
O objetivo principal deste estudo foi, através de consulta bibliográfica e
outros meios didáticos, identificar a forma pela qual a educação formal brasileira
contribuiu no processo de negação da cultura do povo africano, na construção da
sua baixa auto-estima e no processo de implementação de sua invisibilidade na
sociedade brasileira, mesmo tendo os africanos trazido sua cultura junto, nos porões
dos navios negreiros. Apesar disso, os afro-brasileiros foram ainda estereotipados
como “indolentes”, “preguiçosos” e “inferiores”. Este trabalho busca identificar o
processo pelo qual a educação massificou a idéia de inferioridade cultural, biológica
e social dos negros, como propagou o senso comum de que os negros têm uma
tendência natural á violência e de que sua personalidade é dotada de uma natural
animalidade.
Encontrar nesta consulta didática, a relação entre a visão eurocêntrica de
mundo e o estereótipo da inferioridade dos negros, disseminada através das idéias
de intelectuais, cientistas e filósofos brancos. Estabelecer os meios didáticos e
pedagógicos, que estabeleceram o senso comum de que os afro-brasileiros são
apenas descendentes de escravos ou ex-escravos. Identificar como esta educação
tutelada pelo nosso colonizador e escravizador, ocultou em nossa história os
diversos heróis negros e os que lutaram contra a escravidão.
Outro objetivo deste trabalho é, após identificar este processo de exclusão a
partir do sistema educacional formal, buscar encontrar experiências de educação
7
popular realizadas no Brasil, especialmente educação popular para afro-brasileiros,
para entendermos como a educação popular pode ser um instrumento de
democratização da escola, favorecendo assim o resgate da história e da cultura
africana e a recuperação da auto-estima dos afro-brasileiros. Pois como nos
ensinava
Paulo
Freire
(1994),
a
educação
tem
de
ser
“libertadora
e
conscientizadora”, pois “A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente
da história e de seu papel nela. Recusa-se acomodar-se, organiza-se para mudar o
mundo” (FREIRE, 1994, s/n).
Este tema apresenta-se de grande relevância social, em virtude do que
representa o total de negros na população brasileira, conforme podemos observar a
seguir, em matéria divulgada pelo site g1 da Rede Globo baseada em pesquisa do
IPEA:
Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) aponta que, em 2008, a população negra será maioria no Brasil [...]
Em 1976, os brancos representavam 57,2% da população; os negros e
pardos, 40,1% e os amarelos e índios, menos de 3%. Trinta anos depois, o
número de brancos caiu para 49,7%. O de negros passou para 49,5%. O de
amarelos e índios caiu para menos de 1%. As projeções demográficas
indicam que, até o fim de 2008, os negros e pardos serão maioria entre a
população[...] (REDE GLOBO,13/05/2008).
Assim,
podemos
entender
facilmente,
as
consequências
para
o
desenvolvimento do Brasil, de qualquer ação realizada em referência a população
afro-brasileira.
O interesse em estudar este tema, surgiu através da realidade vivenciada
como militante do movimento de luta contra a discriminação racial, especialmente,
durante o processo de discussão e implementação das resoluções da conferência
de Durban (África do Sul, 2001), por ocasião do debate sobre as formas de
implementação das ações afirmativas, como por exemplo, a política de cotas,
principalmente nas universidades públicas, ocasião em que surgiram diversos
grupos, inclusive de intelectuais, num grande movimento de articulação em
contrariedade a estas políticas.
Exemplo disto, a discussão da implementação de cotas na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, onde grupos contrários, pixaram nos prédios em
8
torno do Campus Central da UFRGS e em manifestações colocadas no Orkut com
frases racistas, segundo o colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, Paulo
Sant’ana “As pixações são de uma violência verbal revoltante”, entre outras
constavam as seguintes frases: “Negro, só se for na cozinha do restaurante
universitário”, Voltem pra senzala” e no orkut “Eu não tenho culpa de ter nascido
com a cor certa” (Sant’ana, Jornal ZH, 2007).
Outro fator de interesse neste tema surgiu a partir da observação da
resistência de grandes grupos em relação à identificação de comunidades
quilombolas e da titulação das terras de quilombos, bem como, pela dificuldade da
implementação da lei 10.639/03 ( de 09 de janeiro de 2003) que introduz no ensino
básico o estudo da história da África, da cultura afro-brasileira e dos africanos no
Brasil. Analisando estes fatos, esse trabalho de conclusão analisa o surgimento
destes movimentos de resistência a estes processos, que visam dar visibilidade aos
afro-brasileiros, reconhecer sua contribuição à construção desta nação e recuperar
uma divida com estas comunidades pela exclusão impingida pela política de
desenvolvimento adotada nestas terras, baseada no colonialismo, na exploração e
no escravismo.
Assim o referencial teórico exposto neste TCC, visa buscar um maior
conhecimento e esclarecimento sobre a questão do “Racismo X Educação Formal X
Educação Popular”, tendo como enfoque a invisibilidade, a exclusão e a
discriminação do negro no contexto escolar.
9
1
O PORQUE DE CONHECER A VIDA DO NEGRO NA ÀFRICA
Embora os afro-brasileiros representem 45% da população brasileira, (IBGE,
Censo Demográfico, 2000), portanto tendo grande influência e participação no
desenvolvimento do País, mesmo com a grande influência que tiveram na formação
étnico-cultural, social e econômica do Brasil e ainda que consideremos o fato de que
a África é o continente mais próximo do Brasil, das muitas semelhanças humanas e
naturais existentes, e de que a própria história da humanidade surgiu na África, o
desconhecimento em relação ao continente africano ainda é muito grande, este
conhecimento se faz necessário no sentido de reconhecer a contradição contida em
afirmações, estigmas e mitos, os quais o sistema colonial impingiu a respeito dos
negros, que estes são “indolentes”, “preguiçosos”, que “não gostam de trabalhar”.
Somente com o conhecimento da realidade do negro na África,
compreenderemos a vida do negro no Brasil e no mundo, pois é inegável que a
história da África se confunde com a própria história humana, isto já comprovado por
estudos arqueológicos, antropológicos e científicos, foi lá que surgiu o Homo
sapiens, cerca de 160 mil anos atrás, na África nos defrontamos com o nosso
passado, como afirma Analúcia Danilevicz Pereira:
[...] podemos afirmar, portanto, que a história começa com a evolução da
espécie humana na África Oriental e Meridional, ponto de partida para a
colonização do restante do continente e do mundo [...] posteriormente, o
conhecimento da produção de alimentos e dos metais daria origem à lenta
concentração de população, pois as rochas antigas, os solos pobres, as
chuvas escassas, a profusão de insetos e as doenças geraram um ambiente
hostíl às comunidades agrícolas, exceto no Egito e em outras regiões
privilegiadas (PEREIRA: 2007, p.11).
Este conhecimento nos faz compreender o quanto os habitantes do
continente africano tiveram de aprender a desenvolver seus conhecimentos nas
técnicas da agricultura, de produzir e trabalhar com instrumentos de metais, e o
conhecimento de técnicas que lhe propiciaram viver em um ambiente na maioria das
vezes hostil, como as regiões desérticas do Saara ou do Kalahari .
Conhecendo esta história de superação, poderemos apontar as contradições
das afirmativas sobre a indolência e a preguiça dos negros, ainda mais se
10
considerarmos que mesmo no senso comum, quando uma pessoa realiza um
trabalho penoso, difícil ou trabalha muito, diz-se que “trabalhou como um negro”, por
isso apenas o conhecimento histórico pode reescrever a história do negro, resgatar
sua auto-estima e forjar sua identidade de homem livre.
1.1 O CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO AFRICANO
Considerando que o objetivo deste TCC é identificar a forma pela qual a
educação formal contribuiu para a invisibilidade dos afro-brasileiros e para a sua
exclusão na sociedade, e os processos de educação popular desenvolvidos no
Brasil, não vou aprofundar a análise sobre a geografia do continente africano, mas,
se faz necessário apontar alguns aspectos que considero, podem ajudar a construir
a visão do conhecimento que possuíam os negros e do desenvolvimento de sua vida
e sociedade no continente africano antes da diáspora a que foi submetido este povo.
Se considerarmos a grande extensão do território africano, este possui
poucos rios e lagos, com destaque para as bacias do rio Nilo, Congo e Níger, os rios
Zambeze e Limpopo que deságuam no oceano Índico, ao sul, e o Orange que
deságua no oceano Atlântico, merece destaque ainda a bacia do lago Chade. O rio
Nilo é o segundo maior do mundo em extensão, o rio Congo é o segundo maior do
mundo em volume de água. Em consequência do relevo (Planalto) do território
africano, os rios formam uma série de cachoeiras, onde as cataratas de Stanley, no
rio Congo, são as maiores do mundo em volume de água.
O continente possui diversas zonas climáticas, por isso, diversas e
diferentes características de vegetação caracterizam suas diferentes regiões. No
centro e oeste da faixa equatorial, ocorre o clima equatorial, com temperaturas
médias de 25º C, chuvas abundantes e bem distribuídas, no interior do continente
ocorre o clima tropical semi-úmido, com temperaturas médias entre 18ºC e 25ºC e
duas estações bem definidas, apresenta um verão bem acentuado e chuvoso,
inverno moderado e relativamente seco. Assim, estas variações climáticas fazem
com que exista uma grande variedade de características na vegetação e no solo
africano, desde uma floresta com árvores de até 50m de altura e matas
11
impenetráveis até florestas tropicais, semelhantes as equatoriais, porém menos
ricas, com árvores de porte menor. As savanas com vegetação formada por campos
com árvores e arbustos esparsos. Na faixa litorânea da Líbia e do Egito, o ambiente
torna-se semi-árido, com plantas arbustivas e espinhosas, vegetação esta conhecida
como Garrigue.
Nas regiões áridas, surgem os desertos que apresentam plantas com
espinhos em lugar de folhas, com caules cobertos por uma cera, com o objetivo de
impedir a evaporação. Nas regiões semi-áridas, surgem os grandes desertos, o
Saara ao norte, que é o segundo maior deserto do mundo, fazendo fronteira com o
oceano Atlântico ao oeste, ao norte com a cadeia do Atlas e o mar mediterrâneo ao
leste, o mar Vermelho e o vale do rio Níger ao sul. Ao sul do Saara, há a faixa do
Sahel, o Sahel situa-se entre o deserto do Saara e as terras mais férteis ao sul, o
Sahel coincide também com a fronteira entre o mundo muçulmano, ao norte, e o
mundo cristão ao sul.
Ao sul do continente, há o deserto do Kalahari, com cerca de 900 mil Km²,
com formação de solo pedregoso e de difícil aproveitamento agrícola, porém com
um subsolo riquíssimo em recursos minerais, com urânio, chumbo e diamantes. A
África é riquíssima em recursos minerais, possuindo a maioria dos minerais
conhecidos e muitos em quantidades notáveis, como grandes jazidas de carvão,
reservas de petróleo e de gás natural, bem como as maiores reservas do mundo de
ouro, diamantes, cobre, bauxita, manganês, níquel, rádio, germânio, lítio, titânio e
fosfato.
O TERRITÓRIO AFRICANO ÍNGRIME E A CONTRADIÇÃO DO DISCURSO DA
AVERSÃO DO NEGRO AO TRABALHO
Porque abordar, em um trabalho que tem como tema a educação e sua
influência na exclusão do negro, o resgate sobre o território, o clima e o sub-solo
africano e suas riquezas? Este questionamento é satisfeito quando fazemos a
relação entre as dificuldades oferecidas pelo território, a sobrevivência de seu povo,
e a capacidade deste povo em vencer estes obstáculos da natureza. Como
12
observamos no item anterior, a África, devido ás características geográficas,
composta por regiões com grande altitudes, planaltos e desertos, por possuir em
torno de sete regiões climáticas, com grandes diferenças entre si, o que proporciona
igual diversidade de vegetação, oferece aos seus habitantes uma enorme
dificuldade de fixação á uma determinada região, torna difícil a prática da agricultura,
pecuária e outras atividades que lhes possibilitem não necessitar viver peregrinando.
Por esta razão os negros africanos precisaram para sobreviver neste
ambiente hostil, de muita perseverança e capacidade para o trabalho “bruto”, além
de ser imprescindível desenvolver técnicas e conhecimentos apurados e avançados
(para seu tempo) para produzir instrumentos e ferramentas que lhes possibilitassem
dominar o ambiente, trabalhar a agricultura, tornar o terreno íngreme menos hostil e
assim prover suas necessidades de alimentos, moradia e produtos os quais
pudessem negociar, por escambo ou outras formas de comércio, por aquilo que não
produziam.
Este é sem dúvida o caso dos negros africanos, que começaram com a
produção de instrumentos e armas rudes de pedra ou osso, passando pelo domínio
do uso do fogo e o domínio dos metais, entre outras coisas para produzir
ferramentas para trabalhar a terra e armas, para a caça ou defesa e ataque a outras
tribos. Estes fatos com certeza desfazem a idéia errônea, disseminada
propositalmente pelo invasor, colonizador, opressor, discriminador da inferioridade e
incapacidade do negro.
13
2
O PROCESSO HISTÓRICO DE INFERIORIZAÇÃO DO NEGRO
A condição em que o segmento negro da população encontra-se hoje, ou
seja, numa condição de discriminação e marginalização, deve-se muito ás raízes
históricas da constituição desta sociedade, que via no negro não um sujeito, um
igual, mas um objeto por meio do qual se poderia obter lucros, fosse por meio do
seu trabalho, fosse pela sua comercialização. Nem sempre o negro foi subjugado e
considerado inferior, quando as relações econômicas entre brancos e negros eram
de troca e não de exploração, antes da colonização européia, o ser negro era
diferença que não se traduzia em inferioridade, devido ao escravismo é que o
europeu necessitou, para justificar o sistema, destruir a cultura, a história e a autoestima dos africanos, que passaram a ser considerados seres sem alma, sem
humanidade, instintivo e desprovido de razão, em fim, um ser inferior, para os quais
a escravização seria uma oportunidade de humanização e salvação, através de sua
inserção no processo civilizatório “superior” europeu.
A igreja contribuiu para a sustentação desta justificativa, já que foi uma
grande aliada do regime escravocrata, exemplo desta relação foi a bula que
autorizava o mercado escravo de africanos a “Romanus Pontifex” emitida pelo Papa
Nicolau V em janeiro de 1454, argumentando que assim o negro seria salvo para a
eternidade, sendo esclarecedor o que diz Joaquim Nabuco, em o Abolicionismo:
Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à
igreja do Estado: pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos
conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o
sentimento religioso dos senhores de escravo. No sacerdote, estes não
viam senão um homem que os podia comprar e, aqueles, a última pessoa
que se lembraria de causá-los. A deserção pelo nosso clero, do posto que o
evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar
a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro e
para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou nunca
impedir um leilão de escravos, nem condenar o regime religioso das
senzalas [...] (CHIAVENATTO, apud SILVA 2002, p.16 ).
Já no século XIX, são produzidas diversas teorias raciais, supostamente
cientificas, sustentando a inferioridade da raça negra, este processo nada mais é do
que uma ideologia utilizada para manter as situações de exploração do grupo
dominante sobre os dominados. Os reflexos da ideologia desta sociedade que só
14
pensa em lucros e sem escrúpulos em relação à exploração do ser humano, incidem
diretamente sobre a população negra, privando-a de oportunidades iguais e
limitando seus horizontes no meio social.
É necessário lembrarmos que vivemos em uma sociedade capitalista, em
que seus alicerces foram estabelecidos com base na exploração do trabalho
escravo, com as relações de produção baseada na mais-valia e na exploração do
trabalho do outro, estas bases, determinaram também o rumo das relações sociais e
estabeleceram uma enorme distância entre os que detinham o poder de comandar e
os que eram apenas comandados, originando uma sociedade composta por classes
sociais bem distintas, realidade que se perpetua até hoje, elevando ao topo da
pirâmide social brasileira, aqueles que se beneficiam da mão-de-obra barata dos
milhões de indivíduos que permanecem na base do sistema, lugar onde esta a
maioria da população negra, este é um sistema que explora, discrimina, marginaliza
e restringe, á uma minoria as oportunidades de mobilidade social.
2.1
A ESCOLA NO CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO-POLÍTICO
Para entender as relações que se estabelecem dentro da escola e a forma
como estas relações afetam o universo escolar, e como no Brasil isto dificulta uma
educação democrática e igualitária, é preciso que tenhamos consciência de que a
escola é parte de um contexto social, econômico e político, que reproduz as relações
estabelecidas pelos mesmos princípios que serviram de base a nossa sociedade,
este aspecto foi muito bem abordado por Paulo Freire:
[...] na medida em que uma estrutura social se denota como rígida, de feição
dominadora, as instituições formadoras que nela se constituem estarão,
necessariamente, marcadas por seu clima, veiculando seus mitos e
orientando sua ação no estilo próprio da estrutura. Os lares e as escolas,
primárias, médias, universitárias, que não existem no ar, mas no tempo e no
espaço, não podem escapar as influências das condições objetivas
estruturais (FREIRE, 1999, p. 151).
Paulo Freire nos mostra que engana-se quem acredita que as escolas e
seus posicionamentos sejam neutros, é preciso entender que, da mesma forma que
ocorre na sociedade, os mecanismos que regem as atividades de nossas escolas,
15
estão relacionados a relações de poder, ou seja, a escola reproduz em seus
conteúdos e práticas os interesses dos mesmos grupos dominantes de nossa
sociedade, isto fica claro na seguinte colocação:
[...] as instituições educacionais são um dos lugares mais importantes de
legitimação dos conhecimentos, destrezas e ideais de uma sociedade, ou
ao menos, das classes e grupos sociais que possuem parcelas decisivas de
poder, todos aqueles conteúdos e formas culturais que são considerados
como relevantes por tais grupos são facilmente encontrados como parte de
alguma disciplina ou tema de estudo nas salas de aula. Basta observar as
disciplinas dos distintos cursos e níveis do sistema educacional e seus
correspondentes temários para logo nos darmos conta do tipo de cultura
que a escola valoriza e contribui para reforçar, ao mesmo tempo que
também podemos observar as ausências, ou seja, tudo aquilo que esta
mesma instituição não considera merecedor de ocupar sua atenção.
(SANTOMÉ, apud CERSTANI, 2003, p. 38).
Entendemos então, que assim como na sociedade, todo sistema escolar é
determinado por relação de poder, as práticas pedagógicas, valores, conteúdos, e
conhecimentos, sendo assim determinado o que deve ser ensinado e de que forma
deve ser ensinado, neste ambiente só os grupos que detém o poder na sociedade,
tem o poder de se fazer representar através destes mecanismos e através destes
mantém e legitimam sua posição, evidentemente que nesta sociedade, que como
afirmamos antes, é regida por um sistema capitalista, de mais-valia e de exploração
do trabalho do outro, em que pelo processo histórico e o evento do escravismo do
povo negro, os negros ocupam o lugar mais baixo na pirâmide social brasileira,
também na escola este fato irá se repetir, reproduzindo, legitimando e perpetuando o
discurso da inferioridade do negro e da negação de sua cultura, conforme discorre
Nilma Lino Gomes:
Enquanto pode ser alardeada como o lado exótico, sensual,
cultural, que faz do Brasil um país festivo, alegre, sempre ligado ao som e a
música (explorando ao máximo o mito da democracia racial), a herança
cultural negra aparece muito bem explorada pela mídia, pelo governo e pela
escola, porém quando se trata de analisar a atual situação dos
descendentes de africanos, o racismo, a invisibilidade do negro na política e
nos cargos de poder, as diferentes formas de discriminação na escola e na
sociedade, essa mesma herança não é levada em consideração (GOMES,
apud CRESTANI, 2003, p.38 ).
16
2.2 A
INFLUÊNCIA
DO
LIVRO
DIDÁTICO
NA
CONSTRUÇÃO
DA
SUBJETIVIDADE DOS INDIVÍDUOS
Que fatores despertam um interesse tão grande dos grupos dominantes e
hegemônicos em impor seus conhecimentos e valores através dos currículos, como
sendo os únicos corretos? Certamente porque os mecanismos construídos por estes
mesmos grupos para comporem o currículo escolar (pois foi estes grupos
hegemônicos
que
construíram
a
escola
como
é
até
hoje),
conteúdos,
conhecimentos, práticas pedagógicas, instrumentos pedagógicos e outros, agem
diretamente sobre a subjetividade dos indivíduos que estiverem submetidos a eles,
ou seja todos aqueles que estão inseridos na escola são influenciados por este
sistema, assim as práticas pedagógicas e os discursos impostos pela escola vão
construir cada um de nós como sujeitos particulares, específicos, o que vai nos
posicionar a cada um dentro das divisões sociais, portanto, o currículo vai
determinar aquilo em que iremos nos transformar como sujeitos sociais.
O currículo passa a ter importância estratégica, e influência nesta formação
dos sujeitos, porque é através de seus mecanismos que são instituídos e
transmitidos aos sujeitos, como sendo únicas e corretas, noções particulares sobre
conhecimento, forma de organização da sociedade e sobre os diversos grupos
sociais.
Paulo Freire afirma em relação aos discursos produzidos e disseminados
pelos dominadores, “opressores”, entre eles os discursos (re)produzidos na escola
que (FREIRE, 1999, p. 150).
É importante, na invasão cultural, que os invadidos vejam sua
realidade com a ótica dos invasores e não com a sua. Quanto mais
mimetizados fiquem os invadidos, melhor para a estabilidade dos invasores.
Uma condição básica ao êxito da invasão cultural é o conhecimento por
parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca. Como não há nada que
não tenha seu contrário, na medida em que os invadidos vão reconhecendose “inferiores” necessariamente irão reconhecendo a “superioridade” dos
invasores.
Com o que analisamos até aqui, concluímos que os discursos escolares são
uma das mais eficientes formas de ação cultural a serviço dos interesses dos grupos
hegemônicos, porque, ao legitimar e veicular uma determinada visão de mundo e
17
excluir outras, estes discursos além de direcionarem a construção da subjetividade,
contribuem para estabelecer diferenciações que permitem inferir uma relação de
superioridade, inferioridade, entre os diferentes sujeitos e grupos a que pertencem, o
que da margem ao surgimento de preconceitos e discriminações, por isso é
necessário dar muita atenção, especialmente aos discursos veiculados através das
práticas de sala de aula e em particular os veiculados pelo livro didático, pois não
podemos esquecer que os conhecimentos e visões de mundo transmitidas pelo livro
didático são determinadas por relações de poder, como afirma Davies:
[...] o livro didático é um produto cultural – com suas especificidades, é claro
– e, portanto, conformado segundo a lógica da escola e da sociedade onde
está inserido. O LD não poderia fugir à lógica que rege esta sociedade, em
que as classes dominantes procuram não só garantir e ampliar a
acumulação de capital ( e o LD deve ser visto como atividade econômica
que possibilita isso) como também veicular as visões que lhes interessam e
neutralizar possíveis oposições (DAVIES, 1996, p. 24).
Percebemos então que os indivíduos negros têm uma representação nos
materiais didáticos que não contribui em nada para á construção de uma identidade
positiva, ao contrário, as representações do negro, principalmente no livro didático
vem carregada de estereótipos e concepções negativas, estando a serviço de uma
ideologia que pretende manter o negro na mesma posição que ele encontra-se
desde a sua chegada a terras brasileiras, numa posição marginalizada e
inferiorizada em relação aos indivíduos brancos. Este papel do livro didático fica bem
claro na seguinte afirmação de Ana Célia da Silva (1995, p. 47-48):
O livro didático, de modo geral, omite o processo histórico e
cultural, o cotidiano e as experiências dos seguimentos subalternos da
sociedade, como o índio, o negro e a mulher, entre outros. Em relação ao
seguimento negro, sua quase total ausência nos livros e sua rara presença
de forma estereotipada concorrem em grande parte para a fragmentação da
sua identidade e auto-estima. Não é apenas o livro o transmissor de
estereótipos. Contudo é ele que, pelo seu caráter de “verdadeiro”, pela
importância que lhe é atribuída, pela exigência social de seu uso, de forma
constante e sistemática logra introjectar na mente de crianças, jovens e
adultos, visões distorcidas e cristalizadas da realidade humana e social. A
identificação da criança com a mensagem dos textos concorre para a
dissociação de sua identidade individual e social.
Deste modo se estabelece uma discriminação em via dupla: o negro vê o
branco como superior ao mesmo tempo em que vê a si próprio como marginalizado,
enquanto o branco se vê como superior e passa a discriminar o negro.
18
3
NOSSA TAREFA: CONSTRUIR UMA NOVA EDUCAÇÃO – REALMENTE
DEMOCRÁTICA E IGUALITÁRIA
Certamente esta não é uma tarefa fácil, tampouco se daria pela modificação
natural e automática do quadro que limita as possibilidades de ascensão dos negros,
tendo em vista o ambiente escolar em que vivem, percebendo-se desta realidade, os
negros reagem a esta perspectiva de sociedade e escola pensada pelos brancos,
passam a identificar seus antepassados não apenas como escravos, mas como
trabalhadores, ensinam seus jovens sobre a verdadeira história dos negros, de como
e para quê foram trazidos ao Brasil, com o objetivo de romper com os mitos que o
sistema colonial colocou sobre eles, então os negros começam a reescrever sua
história.
Matéria de Ricardo Andrade, publicado no Jornal Folha Popular: O Segredo
de Oxum revela um aspecto muito interessante, peculiar, verdadeiro e revelador da
cultura africana.
O nascimento de um rio não acontece quando a água brota do solo e segue
pela superfície da terra. Antes disso, uma seqüência de fatos desencadearam e
influenciaram esse processo. Existe por traz do nascimento de um rio um enorme
fundamento.
Primeiro Olorum através do sol aquece a água dos lagos e oceanos,
Oxumarê com seu arco-íris, leva a água em forma de vapor para as nuvens que
ficam carregadas, Xangô anuncia com seu trovão, que Iansã está juntando ás
nuvens com o vento mágico que surge quando ela balança suas saias, quando as
nuvens estão todas arrumadas, Xangô lança o Edun-Ará (pedra de raio) sobre a
terra avisando a Odudúa que prepare seu ventre, pois a chuva irá cair, Ossãe
pendura suas cabaças em Iroko para conter o líquido maravilhoso da vida.
O momento sublime acontece, numa sintonia perfeita de toda a natureza, a
chuva cai, trazendo consigo toda força do céu e alimentando toda a terra, Odudúa
absorve todo o líquido e cria um enorme lago no interior da terra, seu ventre, quando
a água acumulada se enche de força mineral (axé), Odudúa abre seu ventre e dá
19
vida à majestosa Oxum, que brotará do solo e deslizará sobre seu leito levando vida
por toda a superfície da terra, mais a frente água se acumulará de novo e tudo
começará novamente.
Assim como a vida de Oxum tem o seu segredo, nós negros e negras
também temos o nosso. A nossa história não começa em 1500 com a chegada dos
portugueses no Brasil, antes disso, uma seqüência de fatos marcaram e até hoje
influenciam nossas vidas, existe por traz do aparecimento do povo negro no Brasil
um enorme fundamento.
Não somos descendentes de escravos, como dizem os livros escolares,
somos descendentes de civilizações africanas, de reinados fortes e poderosos,
somos descendentes de reis, rainhas, príncipes e princesas, somos parentes de
homens e mulheres que desenvolveram a escrita, a astrologia, a numerologia, às
ciências e as pirâmides. Somos fruto de um povo que desenvolveu as técnicas
agrícolas e que domina a medicina alternativa, somos fruto de um povo que conhece
as folhas e como despertar o poder delas, nosso povo sabe estar no Aiyê(Terra)sem
perder a essência do Orum (Céu). (Jornal Folha Popular, Ed. nº.11, Nov de 2006).
Apesar deste “despertar dos negros”, a transformação do ambiente escolar e
de seus instrumentos pedagógicos não é uma tarefa fácil, porém como refere Paulo
Freire:
Não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o
que se espera, na espera pura, que vira, assim, espera vã.
Sem o mínimo de esperança não podemos sequer começar o
embate, mas sem o embate, a esperança, como necessidade ontológica, se
desarvora, se desinteressa e se torna desesperança, que ás vezes, se
alonga em trágico desespero. Daí a precisão de uma certa educação da
esperança (FREIRE, apud, SANTOS, 2002, p.73 ).
Paulo Freire, na citação acima, nos fala da importância da esperança ligada
a uma ação concreta, e a luta mais importante daqueles comprometidos com a
justiça, a liberdade, a dignidade e a construção de um mundo melhor, é a luta contra
o racismo e a discriminação racial, dificultada em nossa realidade brasileira pelo
mito da democracia racial, a ideologia do branqueamento, os meios de comunicação
e o sistema educacional. Sabemos ainda que a utilização bem articulada destes
20
instrumentos e de uma política sócio-econômica excludente são os meios pelos
quais o racismo procura manter o apartheid brasileiro, daí a necessidade de uma
alternativa, que em meu entendimento, passa certamente pela educação popular.
AS EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO AFRO-BRASILEIRA
Diante do desconhecimento de experiências de processos diferenciados de
educação para afro-brasileiros, faz-se necessário apresentar algumas experiências
construídas por grupos e entidades do movimento negro brasileiro, que
demonstraram serem eficientes na conscientização, não só dos afro-brasileiros, mas
também de uma parcela da população branca também excluída.
Muito tem se falado e pesquisado sobre movimentos populares e educação
no Brasil, entretanto, verifica-se a ausência de estudo das expressões afrobrasileiras em educação, e educação popular, isto nos leva a crer, num primeiro
momento que as práticas educativas do movimento negro não existiram e/ou não
existem. Porém ao estudarmos a história do movimento social negro no Brasil,
encontramos uma rica trajetória política que se espraia por diversas áreas de
atuação e entre estas a educação popular.
Estudando os movimentos sociais negros, constatamos o surgimento de
inúmeras experiências de perfil educativo e pedagógico e o interesse permanente
pela questão da educação. Já nos anos 20 com o surgimento da imprensa negra,
estas questões passam a serem colocadas em pauta, num apelo insistente para que
as crianças e os jovens negros sejam educados e para que os pais assumam esta
responsabilidade.
A Frente Negra Brasileira, uma das mais importantes organizações negras
do Brasil, fundada na década de 30, criou uma escola primária, com a finalidade de
dar conta da tarefa que a escola oficial não dava.
No entanto é na década de 40, que surge um projeto político pedagógico
mais articulado, o TEN – Teatro Experimental do Negro.
21
TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO (TEN)
O TEN vem articular o pensamento político com o educacional, evidencia a
exclusão do negro pelo racismo e reivindica o reconhecimento da matriz africana na
construção da sociedade brasileira, apontando uma nova abordagem na luta antiracista, tendo como um de seus aspectos pioneiros, a luta pela educação não só
para os negros, mas, também para os brancos e pobres, particularidade apontada
por Gonçalves & Silva:
[...] como todos os movimentos artísticos de vanguarda dos anos 50, o TEN
não abandonava as questões centrais da sociedade para se dedicar
exclusivamente ao tema da particularidade negra. Ao contrário, ele seguia
as orientações culturais ditadas pelos imperativos de sua época, uma época
em que o Brasil vivia, por intermédio de seus intelectuais, uma
extraordinária (por vezes dolorosa) experiência de busca de si mesmo. E
pela intervenção do TEN, o Brasil era obrigado a reconhecer que era um
país culturalmente moldado pela influência africana (GONÇALVES & SILVA,
apud ROMÃO, 2002, p. 43).
Abdias do Nascimento tem a idéia de fundar o TEN quando assiste à
apresentação da peça Imperador Jones, no Chile, na qual o personagem negro é
representado por um ator branco pintado de preto, como esta prática não era
comum só no Chile, Abdias reivindica espaço para os artistas negros no Teatro
Brasileiro. O TEN (Teatro Experimental do Negro) em maio de 1995, viu a estréia de
sua primeira montagem original –O Imperador Jones, de Eugene O’neill, no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro. Articulam-se então as várias políticas que poderiam
ressignificar a presença negra no Brasil. apesar das críticas ao suposto “elitismo” do
TEN, este não estava alheio à natureza dos conflitos e das desigualdades raciais no
Brasil dos anos 40, tanto que um de seus objetivos era, reeducar os brancos e
descomplexificar os negros.
O TEN implementa pioneiramente uma proposta pedagógica para os negros
e todos os interessados em seu projeto, articulando arte e educação. Instalado
primeiramente em uma sala na União Nacional dos Estudantes/UNE, organizou
cursos de alfabetização de adultos, tendo o teatro como meio principal de
sensibilizar o público tanto negro como branco. A alfabetização atacava a realidade
da vida do negro adulto que era a falta de acesso a educação, o teatro era usado
como gerador de toda essa mobilização, visto que as pessoas precisavam saber ler
22
para decorar e encenar as peças. Os cursos contavam com a participação crescente
no número de pessoas, tendo a frente dos cursos Ironides Rodrigues, que era muito
considerado por seus companheiros e que fez a seguinte afirmação:
O Teatro Experimental do Negro tinha por base o teatro como
veículo poderoso de educação popular [...] aportavam dos subúrbios e de
vários pontos da cidade operários, domésticas, negros e brancos de várias
procedências humildes. Ali [...] ministrei cursos por anos a fio, um extenso
curso de alfabetização em que, além dos rudimentos de Português, História,
Aritmética e Educação Moral e Cívica, ensinei noções da História e
Evolução do Teatro Universal, tudo entremeado com lições sobre folclore
afro-brasileiro e as façanhas dos maiores vultos de nossa raça. Uma vez por
semana, um valor de nossas letras ali ia fazer conferência educativa e
acessível àqueles alunos operários que, até altas horas da noite, vencendo
cansaço físico, iam ali aprendendo tudo o que uma pessoa recebe num
curso de cultura teórica e, ao mesmo tempo, prática. Com o aprendizado
das matérias mais prementes para um alfabetizado, havia a leitura, os
ensaios e os debates de peças [...] (RODRIGUES, apud ROMÃO, 2002, p.
44).
Entre outros apoiadores, na década de 40, o ator e jornalista Haroldo Costa,
que participou da minissérie de TV Chiquinha Gonzaga, participou do TEN, um outro
depoimento nos esclarece bem o que foi esta experiência de alfabetização:
[...] todo aquele movimento de crioulos – meus amigos – era interessante
[...] além do teatro, o grupo tinha a proposta de alfabetizar as pessoas que
apareciam por lá. E abriram curso para ensinar a ler. Ironides Rodrigues, um
negro extremamente brilhante e inteligente, ensinava as primeiras letras ás
pessoas [...] havia gente que trabalhava até mesmo de lixeiro. Era
comovente o interesse deles no projeto [...] (MEDEIROS, apud Romão,
2002, p.45).
A imprensa da época deu relativa repercussão às atividades, ressaltando o
curso de alfabetização para adultos e o fato de que não era restrito aos negros. Na
realidade o TEN assumiu o compromisso de construir um modelo democrático de
sociedade e o exercitou. A atriz Rute de Souza revela em seu depoimento, o que
representou em termos de intensidade as atividades do TEN:
A UNE já não poderia ceder seus espaços, pois o TEN começou a
crescer: de repente havia lá umas 300 pessoas – aulas de alfabetização,
conferências – um movimento incríve [...] vinha gente aprender a ler. O
curso de alfabetização fazia parte do projeto do TEN. Acho que foi o
primeiro mobral no Brasil (SOUZA, apud Romão, 2002, p. 45).
23
Esta atividade de alfabetização de adultos foi interrompida dois anos após a
fundação do TEN. A UNE, segundo Abdias do Nascimento, recebeu orientações
políticas para que não mais cedesse seus espaços para aquelas atividades.
NÚCLEO DE ESTUDOS NEGROS - NEN
O NEN foi fundado em 1986 em Florianópolis, Santa Catarina, é formado por
universitários e pessoas com terceiro grau concluído que, objetivam contribuir a
partir de suas áreas de formação para a compreensão e a mudança das relações
raciais. O NEN numa perspectiva gramsciana – não assim compreendida àquela
época – assume também esta característica de intelectuais militantes, discutindo
com o movimento negro a trajetória de seus membros, bem como os desafios por
ultrapassar, as tão conhecidas barreiras do sistema de ensino.
O programa de Educação foi instalado desde a inauguração do NEN, sua
defesa radical centrou-se na defesa da escola pública e oficial, em que pese o apoio
que deu ao trabalho com as comunidades, ao trabalho no morro, como se defendia
na época, o NEN atua na perspectiva de exigir que o sistema educacional se
democratize, de forma que nele seja possível e visível a participação dos afrocatarinenses.
O projeto piloto do programa foi desenvolvido junto à Secretaria de
Educação do município de Rio do Sul, no ano de 1993. O projeto surgiu de uma das
ações de apoio do NEN as ações do movimento negro, onde em um seminário de
formação política, acompanhado pelo poder executivo local, uma das demandas
apontadas foi a de incluir o estudo da história e da cultura de matriz africana no
calendário oficial daquela secretaria. Esta ação referendou um dos propósitos
delineadores do programa, transformar a escola num espaço igualitário e de
combate ao racismo.
A análise parcial dos resultados permite avaliar que o acesso do professor a
estas ações formativas promovem efetivamente uma transformação, não só no seu
olhar sobre o negro, como também sobre sua prática pedagógica. Declarações dos
professores que participaram desta prática pedagógica (sem que fossem
24
identificados), dão a dimensão do impacto provocado em sua formação e prática
pedagógica no que se refere ao entendimento sobre os afro-brasileiros (ROMÃO,
2002, p.49-50).
A discriminação está tão enraizada em nós que precisamos ler
muito e manter-nos informados sobre a verdadeira história.
A discriminação está fortemente incluída nas pessoas, pois o
negro significa, para elas, algo que surgiu por acaso para servir e de nada
usufruir.
Introduzimos na nossa cabeça, pela nossa educação, trazida da
escola, da família e da sociedade que sempre diz: negro não presta.
Em 1994, com a eleição de um dos membros do NEN à Câmara Municipal
de Florianópolis, foi elaborado o Projeto de Lei que incluía conteúdos afro-brasileiros
nos currículos escolares da rede municipal, antes da aprovação, no entanto foi
enfrentado um grande debate sobre a constitucionalidade e necessidade da lei, com
argumentos clássicos, costumeiramente ouvidos como: “Não seria racismo ás
avessas?”, “E se daqui a pouco os outros grupos étnicos também fizerem o
mesmo?”.
Estas questões apontam a necessidade não só de formação, mas da
democratização, para alunos e professores, pois, o que herdamos de nossa
formação colonial foi a cultura da discriminação, da violência, da desigualdade, da
invisibilidade do negro e do racismo, e enquanto não rompermos com este “Estatuto
Colonial”, não teremos uma sociedade verdadeiramente democrática.
ESCOLA ALTERNATIVA KA-NAOMBO
A ACNAP, Associação Cultural de Negritude e Ação Popular, sediada na
cidade de Curitiba/PR, foi fundada em 26 de abril de 1987, tendo como objetivo
organizar e unir a população negra em defesa dos seus direitos e o pleno exercício
da cidadania, numa luta constante contra toda forma de alienação, opressão e
marginalidade do povo negro. Uma das principais ferramentas da ACNAP é o grupo
artístico e cultural KA-NAOMBO, que no idioma kimbundu da área Angola-
25
Conguense-África, formado do prefixo “KA” e “NAOMBO” (negro), indicando que
trata-se de “coisa de negro”.
O grupo KA-NAOMBO realiza seus encontros em associações de
moradores, seu projeto de Escola Alternativa surge da necessidade não só de
espaço para realizar reuniões de formação e conscientização para resgate da autoestima e ensaios, mas também de acompanhar estas crianças e adolescentes
pedagogicamente, uma vez que a maioria é negra, pobre e vive em regiões
periféricas de Curitiba, onde são vítimas da marginalização que sofre o povo negro:
miséria, analfabetismo, evasão escolar e/ou repetência, uso ou tráfico de drogas,
prostituição, gravidez na adolescência, violência, etc.
O projeto pedagógico tem por objetivo de através dos movimentos
organizados de Curitiba, especificamente o negro, trabalhar por meio da dinâmica de
reforço escolar extracurricular e auto-estima dos educandos, especialmente as
crianças negras por serem as mais excluídas racial e socialmente, em função da
formação cultural eurocêntrica da nossa sociedade. O objetivo é que através de um
trabalho qualitativo, desenvolver no educando, durante o processo, a auto-estima e
a conscientização da cidadania; e, com a criança não negra, a possibilidade de
conhecer uma cultura diferente da apresentada na escola formal, ou seja, a
conscientização de que estamos num universo de culturas diferentes que devem ser
respeitadas nas suas individualidades. A escola alternativa, além de fazer um
reforço escolar, objetiva resgatar a história e a cultura do povo negro.
A ACNAP entende que a escola alternativa, executada pelo KA-NAOMBO, é
uma possível saída para acriança negra, já que, através de pesquisas, foi
constatado que esta tem uma auto-estima baixa porque vive num país de grande
diversidade cultural, e sua cultura afro-brasileira é quase sempre abafada e
desprezada. O objetivo é trabalhar com educandos que habitam a região sul de
Curitiba, especificamente a “Comunidade Nossa Luta” no bairro Sítio Cercado.
O projeto consiste ainda em atividades que recuperem a cultura e os valores
das populações afro-descendentes como: Oficina de dança afro, oficina de esporte e
capoeira, música e teatro, e outras.
26
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Concluo este trabalho com a certeza de que, este servirá de acúmulo teórico
sobre o tema da educação e sua influência na realidade da vida das pessoas,
principalmente em relação a discriminação dos afro-brasileiros. Com a mesma
certeza posso afirmar que serviu este TCC para que, pessoalmente eu aprimorasse
meus conhecimentos, principalmente sobre as experiências de educação praticadas
por organizações do movimento negro, fica ainda a satisfação de ter vencido, com
todas as dificuldades surgidas, mais uma etapa de formação, que contribuiu em
muito, não apenas para que eu acumulasse conhecimento teórico, mas,
principalmente, acumulasse vivência com outros seres humanos e crescesse em
minha capacidade de conviver na diversidade, e de respeitar e valorizar as
particularidades de cada pessoa.
Este trabalho de conclusão de Curso – TCC que teve como tema: “A
educação formal e a educação popular na construção da identidade dos afrobrasileiros”, apresentou para mim um grande desafio, vencer idéias pré-concebidas
em meu íntimo, fruto de minha militância em movimentos sociais de luta contra o
racismo, ao mesmo tempo em que desafiou minha capacidade de pesquisar e
formular idéias.
Este trabalho teve como objetivo principal identificar as formas como o nosso
sistema educacional formal atuou para reproduzir e perpetuar, o sistema de
subjugação do povo negro herdado da escravização e de nosso sistema colonial, da
mesma forma identificar experiências de educação popular desenvolvidas no Brasil.
O que acredito ter alcançado de forma plena. Assim iniciei buscando trazer um
conhecimento do território africano, onde foi possível constatar, em minha opinião,
27
que o discurso propalado por nossa sociedade racista, fruto de nossa herança
colonialista e de opressão, e de uma sociedade baseada no sistema capitalista, de
valorização da mais-valia e fundada na exploração do trabalho de uns pelos outros,
não se sustenta.
Esta conclusão refere-se ao fato de que após analise dos três primeiros itens
do TCC, percebo que, para sobreviver em um território africano, que embora rico, é
extremamente diversificado, íngreme e inóspito, os negros precisaram ter uma
capacidade para o trabalho árduo muito grande, além de terem que desenvolver
conhecimentos avançados pra sua época, como por exemplo, o domínio do uso dos
metais para confeccionar armas e ferramentas e o domínio do uso do fogo. Desta
forma, concluo que a única explicação para a construção deste estereótipo, foi a
necessidade do branco, colonizador, justificar a escravização do negro. Para isso
necessitando ocultar sua história, sua cultura, seus conhecimentos e destruindo sua
auto-estima.
Pude concluir ainda o papel estratégico que teve a igreja na afirmação,
legitimação e reprodução desta cultura opressora, no momento em que afirmava que
o negro era um ser que não tinha alma, e que a partir de sua escravização e de sua
inserção na cultura desenvolvida e superior, branca, eurocêntrica, o escravizador
estaria contribuindo com o seu desenvolvimento e com sua salvação.
Em relação ao estudo sobre o papel da escola na construção da identidade
dos indivíduos, foi possível identificar o papel que esta exerce, através de suas
práticas pedagógicas, de seus conteúdos e valores, através seus instrumentos,
entre eles o livro didático, concluindo que nosso universo escolar é um espaço
privilegiado de legitimação dos conhecimentos, sendo utilizada, pelos dominadores,
pelas minorias privilegiadas de nossa sociedade, para reproduzir e legitimar seu
sistema de domínio, entre outros, serve este sistema para, através de teorias
cientificistas justificar a opressão dos afro-brasileiros.
A escola, como espaço de legitimação de conhecimentos, em seu universo
estabelece o que deve ser ensinado e de que forma o será, contribuindo assim, com
as minorias dominantes para estabelecer um processo de negação da cultura
africana, promovendo a invisibilidade dos afro-brasileiros.
28
Por
fim,
apresento
algumas
experiências
de
educação
popular
desenvolvidas por organizações do movimento negro, como o Teatro Experimental
do Negro, experiências estas que considero estratégicas para a superação do
“apartheid brasileiro”, pois a única maneira de reinstalar uma outra identidade dos
afro-brasileiros é destruir a que hoje esta no senso comum da sociedade de sua
inferioridade, e isto se dará apenas a partir do resgate daquilo que lhe foi imposto
pelo opressor
como primitivo, é preciso construir uma visão positiva das
particularidades históricas do negro, resgatar a beleza da língua, da sexualidade, da
religião, de sua maneira de falar, e a beleza do próprio negro.
29
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
CURSO REALIDADE BRASILEIRA
ESTUDO DE PENSADORES BRASILEIROS
LUIZ FELIPE DE OLIVEIRA TEIXEIRA
EDUCAÇÃO FORMAL E EDUCAÇÃO POPULAR NA CONSTRUÇÃO DA
IDENTIDADE DOS AFRO-BRASILEIROS
Porto Alegre
2009
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Luiz Felipe Teixeira – PDF