LUIZ FELIPE DE OLIVEIRA TEIXEIRA EDUCAÇÃO FORMAL E EDUCAÇÃO POPULAR NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DOS AFRO-BRASILEIROS Trabalho de Conclusão de Curso apresentada a coordenação do curso Realidade Brasileira. Orientador: Prof. Mário Augusto Sanssegundo Porto Alegre 2009 “Aprendemos até hoje em salas de aulas e livros que existiram negros ociosos, conformados e covardes; que poucos foram os que resistiram e ousaram contra o sistema. E a esses foram dados títulos que lembram mais Desordeiros do que heróis”. (PODE CRÊ, n.0, p. 15). 3 RESUMO O trabalho de conclusão de Curso – TCC ora apresentado tem como tema: “A educação formal e a educação popular na construção da identidade dos afro-brasileiros”. O desenvolvimento deste estudo, tornou-se necessário, primeiramente pela realidade atual por que passam os afro-brasileiros, pois, no momento em que buscam resgatar a dívida da sociedade para com eles, pelo jugo do sistema escravagista, surge na sociedade uma grande reação, principalmente de oposição a política de ações afirmativas, como as cotas nas universidades. Ainda relevante na construção do trabalho, o reflexo que tem qualquer ação que envolva os afro-brasileiros, tendo em vista a sua participação em percentuais na população brasileira, que já chega a quase cinquenta por cento, segundo o censo do IBGE. O objetivo principal foi identificar as formas como o nosso sistema educacional formal atuou para reproduzir e perpetuar, o sistema de subjugação do povo negro herdado da escravização e de nosso sistema colonial, da mesma forma identificar experiências de educação popular desenvolvidas no Brasil. Nos três primeiros itens deste trabalho trato de analisar as peculiaridades do negro ainda no território africano, e buscar apresentar uma visão das características deste território, com o objetivo de demonstrar a contrariedade que existe no discurso racista de que o negro é indolente e avesso ao trabalho, pois constata-se analisando estes itens de que o negro precisou, para viver e desenvolver neste território inóspito, embora rico, desenvolver habilidades e conhecimentos evoluídos para seu tempo, bem como ser portador de grande capacidade de trabalho e perseverança. Após o trabalho procura demonstrar que a construção da inferiorização do negro, deveu-se a necessidade do branco, europeu, justificar sua escravização. Processo que se deu a partir da mudança de relação entre brancos e negros, onde passou de uma relação de trocas, para um sistema de exploração de um pelo outro, expõe ainda, que a igreja teve papel preponderante em difundir e sustentar a visão de inferioridade do negro, entre outros por afirmar que o negro não possuía alma. Mostra também o contexto de construção de nosso sistema escolar, baseado na reprodução e perpetuação das mesmas relações de poder estabelecidas nesta sociedade, e sua cultura discriminatória, que nossas escolas são um espaço privilegiado de legitimação do discurso racista e discriminatório. Por fim, apresenta experiências de processos de educação popular, especialmente educação popular com especificidade afrobrasileira. Palavras chaves: Educação – Racismo – Libertação. SUMÁRIO RESUMO..................................................................................................................3 SUMÁRIO.................................................................................................................5 INTRODUÇÃO.........................................................................................................6 1 O PORQUE DE CONHECER A VIDA DO NEGRO NA ÀFRICA..........................9 1.1 O CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO AFRICANO.......................................10 O TERRITÓRIO AFRICANO ÍNGRIME E A CONTRADIÇÃO DO DISCURSO DA AVERSÃO DO NEGRO AO TRABALHO.......................................................11 2 O PROCESSO HISTÓRICO DE INFERIORIZAÇÃO DO NEGRO.....................13 2.1 A ESCOLA NO CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO-POLÍTICO......................14 2.2 A INFLUÊNCIA DO LIVRO DIDÁTICO NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DOS INDIVÍDUOS............................................................16 3 NOSSA TAREFA: CONSTRUIR UMA NOVA EDUCAÇÃO – REALMENTE DEMOCRÁTICA E IGUALITÁRIA...........................................................................18 AS EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO AFRO-BRASILEIRA.................................20 TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO (TEN)...........................................................21 NÚCLEO DE ESTUDOS NEGROS - NEN............................................................23 ESCOLA ALTERNATIVA KA-NAOMBO................................................................24 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................26 REFERÊNCIAS......................................................................................................29 6 INTRODUÇÃO O presente trabalho de Conclusão de Curso – TCC tem como tema: Educação Formal e Educação Popular. O objetivo principal deste estudo foi, através de consulta bibliográfica e outros meios didáticos, identificar a forma pela qual a educação formal brasileira contribuiu no processo de negação da cultura do povo africano, na construção da sua baixa auto-estima e no processo de implementação de sua invisibilidade na sociedade brasileira, mesmo tendo os africanos trazido sua cultura junto, nos porões dos navios negreiros. Apesar disso, os afro-brasileiros foram ainda estereotipados como “indolentes”, “preguiçosos” e “inferiores”. Este trabalho busca identificar o processo pelo qual a educação massificou a idéia de inferioridade cultural, biológica e social dos negros, como propagou o senso comum de que os negros têm uma tendência natural á violência e de que sua personalidade é dotada de uma natural animalidade. Encontrar nesta consulta didática, a relação entre a visão eurocêntrica de mundo e o estereótipo da inferioridade dos negros, disseminada através das idéias de intelectuais, cientistas e filósofos brancos. Estabelecer os meios didáticos e pedagógicos, que estabeleceram o senso comum de que os afro-brasileiros são apenas descendentes de escravos ou ex-escravos. Identificar como esta educação tutelada pelo nosso colonizador e escravizador, ocultou em nossa história os diversos heróis negros e os que lutaram contra a escravidão. Outro objetivo deste trabalho é, após identificar este processo de exclusão a partir do sistema educacional formal, buscar encontrar experiências de educação 7 popular realizadas no Brasil, especialmente educação popular para afro-brasileiros, para entendermos como a educação popular pode ser um instrumento de democratização da escola, favorecendo assim o resgate da história e da cultura africana e a recuperação da auto-estima dos afro-brasileiros. Pois como nos ensinava Paulo Freire (1994), a educação tem de ser “libertadora e conscientizadora”, pois “A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa-se acomodar-se, organiza-se para mudar o mundo” (FREIRE, 1994, s/n). Este tema apresenta-se de grande relevância social, em virtude do que representa o total de negros na população brasileira, conforme podemos observar a seguir, em matéria divulgada pelo site g1 da Rede Globo baseada em pesquisa do IPEA: Levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, em 2008, a população negra será maioria no Brasil [...] Em 1976, os brancos representavam 57,2% da população; os negros e pardos, 40,1% e os amarelos e índios, menos de 3%. Trinta anos depois, o número de brancos caiu para 49,7%. O de negros passou para 49,5%. O de amarelos e índios caiu para menos de 1%. As projeções demográficas indicam que, até o fim de 2008, os negros e pardos serão maioria entre a população[...] (REDE GLOBO,13/05/2008). Assim, podemos entender facilmente, as consequências para o desenvolvimento do Brasil, de qualquer ação realizada em referência a população afro-brasileira. O interesse em estudar este tema, surgiu através da realidade vivenciada como militante do movimento de luta contra a discriminação racial, especialmente, durante o processo de discussão e implementação das resoluções da conferência de Durban (África do Sul, 2001), por ocasião do debate sobre as formas de implementação das ações afirmativas, como por exemplo, a política de cotas, principalmente nas universidades públicas, ocasião em que surgiram diversos grupos, inclusive de intelectuais, num grande movimento de articulação em contrariedade a estas políticas. Exemplo disto, a discussão da implementação de cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde grupos contrários, pixaram nos prédios em 8 torno do Campus Central da UFRGS e em manifestações colocadas no Orkut com frases racistas, segundo o colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, Paulo Sant’ana “As pixações são de uma violência verbal revoltante”, entre outras constavam as seguintes frases: “Negro, só se for na cozinha do restaurante universitário”, Voltem pra senzala” e no orkut “Eu não tenho culpa de ter nascido com a cor certa” (Sant’ana, Jornal ZH, 2007). Outro fator de interesse neste tema surgiu a partir da observação da resistência de grandes grupos em relação à identificação de comunidades quilombolas e da titulação das terras de quilombos, bem como, pela dificuldade da implementação da lei 10.639/03 ( de 09 de janeiro de 2003) que introduz no ensino básico o estudo da história da África, da cultura afro-brasileira e dos africanos no Brasil. Analisando estes fatos, esse trabalho de conclusão analisa o surgimento destes movimentos de resistência a estes processos, que visam dar visibilidade aos afro-brasileiros, reconhecer sua contribuição à construção desta nação e recuperar uma divida com estas comunidades pela exclusão impingida pela política de desenvolvimento adotada nestas terras, baseada no colonialismo, na exploração e no escravismo. Assim o referencial teórico exposto neste TCC, visa buscar um maior conhecimento e esclarecimento sobre a questão do “Racismo X Educação Formal X Educação Popular”, tendo como enfoque a invisibilidade, a exclusão e a discriminação do negro no contexto escolar. 9 1 O PORQUE DE CONHECER A VIDA DO NEGRO NA ÀFRICA Embora os afro-brasileiros representem 45% da população brasileira, (IBGE, Censo Demográfico, 2000), portanto tendo grande influência e participação no desenvolvimento do País, mesmo com a grande influência que tiveram na formação étnico-cultural, social e econômica do Brasil e ainda que consideremos o fato de que a África é o continente mais próximo do Brasil, das muitas semelhanças humanas e naturais existentes, e de que a própria história da humanidade surgiu na África, o desconhecimento em relação ao continente africano ainda é muito grande, este conhecimento se faz necessário no sentido de reconhecer a contradição contida em afirmações, estigmas e mitos, os quais o sistema colonial impingiu a respeito dos negros, que estes são “indolentes”, “preguiçosos”, que “não gostam de trabalhar”. Somente com o conhecimento da realidade do negro na África, compreenderemos a vida do negro no Brasil e no mundo, pois é inegável que a história da África se confunde com a própria história humana, isto já comprovado por estudos arqueológicos, antropológicos e científicos, foi lá que surgiu o Homo sapiens, cerca de 160 mil anos atrás, na África nos defrontamos com o nosso passado, como afirma Analúcia Danilevicz Pereira: [...] podemos afirmar, portanto, que a história começa com a evolução da espécie humana na África Oriental e Meridional, ponto de partida para a colonização do restante do continente e do mundo [...] posteriormente, o conhecimento da produção de alimentos e dos metais daria origem à lenta concentração de população, pois as rochas antigas, os solos pobres, as chuvas escassas, a profusão de insetos e as doenças geraram um ambiente hostíl às comunidades agrícolas, exceto no Egito e em outras regiões privilegiadas (PEREIRA: 2007, p.11). Este conhecimento nos faz compreender o quanto os habitantes do continente africano tiveram de aprender a desenvolver seus conhecimentos nas técnicas da agricultura, de produzir e trabalhar com instrumentos de metais, e o conhecimento de técnicas que lhe propiciaram viver em um ambiente na maioria das vezes hostil, como as regiões desérticas do Saara ou do Kalahari . Conhecendo esta história de superação, poderemos apontar as contradições das afirmativas sobre a indolência e a preguiça dos negros, ainda mais se 10 considerarmos que mesmo no senso comum, quando uma pessoa realiza um trabalho penoso, difícil ou trabalha muito, diz-se que “trabalhou como um negro”, por isso apenas o conhecimento histórico pode reescrever a história do negro, resgatar sua auto-estima e forjar sua identidade de homem livre. 1.1 O CONHECIMENTO DO TERRITÓRIO AFRICANO Considerando que o objetivo deste TCC é identificar a forma pela qual a educação formal contribuiu para a invisibilidade dos afro-brasileiros e para a sua exclusão na sociedade, e os processos de educação popular desenvolvidos no Brasil, não vou aprofundar a análise sobre a geografia do continente africano, mas, se faz necessário apontar alguns aspectos que considero, podem ajudar a construir a visão do conhecimento que possuíam os negros e do desenvolvimento de sua vida e sociedade no continente africano antes da diáspora a que foi submetido este povo. Se considerarmos a grande extensão do território africano, este possui poucos rios e lagos, com destaque para as bacias do rio Nilo, Congo e Níger, os rios Zambeze e Limpopo que deságuam no oceano Índico, ao sul, e o Orange que deságua no oceano Atlântico, merece destaque ainda a bacia do lago Chade. O rio Nilo é o segundo maior do mundo em extensão, o rio Congo é o segundo maior do mundo em volume de água. Em consequência do relevo (Planalto) do território africano, os rios formam uma série de cachoeiras, onde as cataratas de Stanley, no rio Congo, são as maiores do mundo em volume de água. O continente possui diversas zonas climáticas, por isso, diversas e diferentes características de vegetação caracterizam suas diferentes regiões. No centro e oeste da faixa equatorial, ocorre o clima equatorial, com temperaturas médias de 25º C, chuvas abundantes e bem distribuídas, no interior do continente ocorre o clima tropical semi-úmido, com temperaturas médias entre 18ºC e 25ºC e duas estações bem definidas, apresenta um verão bem acentuado e chuvoso, inverno moderado e relativamente seco. Assim, estas variações climáticas fazem com que exista uma grande variedade de características na vegetação e no solo africano, desde uma floresta com árvores de até 50m de altura e matas 11 impenetráveis até florestas tropicais, semelhantes as equatoriais, porém menos ricas, com árvores de porte menor. As savanas com vegetação formada por campos com árvores e arbustos esparsos. Na faixa litorânea da Líbia e do Egito, o ambiente torna-se semi-árido, com plantas arbustivas e espinhosas, vegetação esta conhecida como Garrigue. Nas regiões áridas, surgem os desertos que apresentam plantas com espinhos em lugar de folhas, com caules cobertos por uma cera, com o objetivo de impedir a evaporação. Nas regiões semi-áridas, surgem os grandes desertos, o Saara ao norte, que é o segundo maior deserto do mundo, fazendo fronteira com o oceano Atlântico ao oeste, ao norte com a cadeia do Atlas e o mar mediterrâneo ao leste, o mar Vermelho e o vale do rio Níger ao sul. Ao sul do Saara, há a faixa do Sahel, o Sahel situa-se entre o deserto do Saara e as terras mais férteis ao sul, o Sahel coincide também com a fronteira entre o mundo muçulmano, ao norte, e o mundo cristão ao sul. Ao sul do continente, há o deserto do Kalahari, com cerca de 900 mil Km², com formação de solo pedregoso e de difícil aproveitamento agrícola, porém com um subsolo riquíssimo em recursos minerais, com urânio, chumbo e diamantes. A África é riquíssima em recursos minerais, possuindo a maioria dos minerais conhecidos e muitos em quantidades notáveis, como grandes jazidas de carvão, reservas de petróleo e de gás natural, bem como as maiores reservas do mundo de ouro, diamantes, cobre, bauxita, manganês, níquel, rádio, germânio, lítio, titânio e fosfato. O TERRITÓRIO AFRICANO ÍNGRIME E A CONTRADIÇÃO DO DISCURSO DA AVERSÃO DO NEGRO AO TRABALHO Porque abordar, em um trabalho que tem como tema a educação e sua influência na exclusão do negro, o resgate sobre o território, o clima e o sub-solo africano e suas riquezas? Este questionamento é satisfeito quando fazemos a relação entre as dificuldades oferecidas pelo território, a sobrevivência de seu povo, e a capacidade deste povo em vencer estes obstáculos da natureza. Como 12 observamos no item anterior, a África, devido ás características geográficas, composta por regiões com grande altitudes, planaltos e desertos, por possuir em torno de sete regiões climáticas, com grandes diferenças entre si, o que proporciona igual diversidade de vegetação, oferece aos seus habitantes uma enorme dificuldade de fixação á uma determinada região, torna difícil a prática da agricultura, pecuária e outras atividades que lhes possibilitem não necessitar viver peregrinando. Por esta razão os negros africanos precisaram para sobreviver neste ambiente hostil, de muita perseverança e capacidade para o trabalho “bruto”, além de ser imprescindível desenvolver técnicas e conhecimentos apurados e avançados (para seu tempo) para produzir instrumentos e ferramentas que lhes possibilitassem dominar o ambiente, trabalhar a agricultura, tornar o terreno íngreme menos hostil e assim prover suas necessidades de alimentos, moradia e produtos os quais pudessem negociar, por escambo ou outras formas de comércio, por aquilo que não produziam. Este é sem dúvida o caso dos negros africanos, que começaram com a produção de instrumentos e armas rudes de pedra ou osso, passando pelo domínio do uso do fogo e o domínio dos metais, entre outras coisas para produzir ferramentas para trabalhar a terra e armas, para a caça ou defesa e ataque a outras tribos. Estes fatos com certeza desfazem a idéia errônea, disseminada propositalmente pelo invasor, colonizador, opressor, discriminador da inferioridade e incapacidade do negro. 13 2 O PROCESSO HISTÓRICO DE INFERIORIZAÇÃO DO NEGRO A condição em que o segmento negro da população encontra-se hoje, ou seja, numa condição de discriminação e marginalização, deve-se muito ás raízes históricas da constituição desta sociedade, que via no negro não um sujeito, um igual, mas um objeto por meio do qual se poderia obter lucros, fosse por meio do seu trabalho, fosse pela sua comercialização. Nem sempre o negro foi subjugado e considerado inferior, quando as relações econômicas entre brancos e negros eram de troca e não de exploração, antes da colonização européia, o ser negro era diferença que não se traduzia em inferioridade, devido ao escravismo é que o europeu necessitou, para justificar o sistema, destruir a cultura, a história e a autoestima dos africanos, que passaram a ser considerados seres sem alma, sem humanidade, instintivo e desprovido de razão, em fim, um ser inferior, para os quais a escravização seria uma oportunidade de humanização e salvação, através de sua inserção no processo civilizatório “superior” europeu. A igreja contribuiu para a sustentação desta justificativa, já que foi uma grande aliada do regime escravocrata, exemplo desta relação foi a bula que autorizava o mercado escravo de africanos a “Romanus Pontifex” emitida pelo Papa Nicolau V em janeiro de 1454, argumentando que assim o negro seria salvo para a eternidade, sendo esclarecedor o que diz Joaquim Nabuco, em o Abolicionismo: Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à igreja do Estado: pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religioso dos senhores de escravo. No sacerdote, estes não viam senão um homem que os podia comprar e, aqueles, a última pessoa que se lembraria de causá-los. A deserção pelo nosso clero, do posto que o evangelho lhe marcou foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro e para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou nunca impedir um leilão de escravos, nem condenar o regime religioso das senzalas [...] (CHIAVENATTO, apud SILVA 2002, p.16 ). Já no século XIX, são produzidas diversas teorias raciais, supostamente cientificas, sustentando a inferioridade da raça negra, este processo nada mais é do que uma ideologia utilizada para manter as situações de exploração do grupo dominante sobre os dominados. Os reflexos da ideologia desta sociedade que só 14 pensa em lucros e sem escrúpulos em relação à exploração do ser humano, incidem diretamente sobre a população negra, privando-a de oportunidades iguais e limitando seus horizontes no meio social. É necessário lembrarmos que vivemos em uma sociedade capitalista, em que seus alicerces foram estabelecidos com base na exploração do trabalho escravo, com as relações de produção baseada na mais-valia e na exploração do trabalho do outro, estas bases, determinaram também o rumo das relações sociais e estabeleceram uma enorme distância entre os que detinham o poder de comandar e os que eram apenas comandados, originando uma sociedade composta por classes sociais bem distintas, realidade que se perpetua até hoje, elevando ao topo da pirâmide social brasileira, aqueles que se beneficiam da mão-de-obra barata dos milhões de indivíduos que permanecem na base do sistema, lugar onde esta a maioria da população negra, este é um sistema que explora, discrimina, marginaliza e restringe, á uma minoria as oportunidades de mobilidade social. 2.1 A ESCOLA NO CONTEXTO SÓCIO-ECONÔMICO-POLÍTICO Para entender as relações que se estabelecem dentro da escola e a forma como estas relações afetam o universo escolar, e como no Brasil isto dificulta uma educação democrática e igualitária, é preciso que tenhamos consciência de que a escola é parte de um contexto social, econômico e político, que reproduz as relações estabelecidas pelos mesmos princípios que serviram de base a nossa sociedade, este aspecto foi muito bem abordado por Paulo Freire: [...] na medida em que uma estrutura social se denota como rígida, de feição dominadora, as instituições formadoras que nela se constituem estarão, necessariamente, marcadas por seu clima, veiculando seus mitos e orientando sua ação no estilo próprio da estrutura. Os lares e as escolas, primárias, médias, universitárias, que não existem no ar, mas no tempo e no espaço, não podem escapar as influências das condições objetivas estruturais (FREIRE, 1999, p. 151). Paulo Freire nos mostra que engana-se quem acredita que as escolas e seus posicionamentos sejam neutros, é preciso entender que, da mesma forma que ocorre na sociedade, os mecanismos que regem as atividades de nossas escolas, 15 estão relacionados a relações de poder, ou seja, a escola reproduz em seus conteúdos e práticas os interesses dos mesmos grupos dominantes de nossa sociedade, isto fica claro na seguinte colocação: [...] as instituições educacionais são um dos lugares mais importantes de legitimação dos conhecimentos, destrezas e ideais de uma sociedade, ou ao menos, das classes e grupos sociais que possuem parcelas decisivas de poder, todos aqueles conteúdos e formas culturais que são considerados como relevantes por tais grupos são facilmente encontrados como parte de alguma disciplina ou tema de estudo nas salas de aula. Basta observar as disciplinas dos distintos cursos e níveis do sistema educacional e seus correspondentes temários para logo nos darmos conta do tipo de cultura que a escola valoriza e contribui para reforçar, ao mesmo tempo que também podemos observar as ausências, ou seja, tudo aquilo que esta mesma instituição não considera merecedor de ocupar sua atenção. (SANTOMÉ, apud CERSTANI, 2003, p. 38). Entendemos então, que assim como na sociedade, todo sistema escolar é determinado por relação de poder, as práticas pedagógicas, valores, conteúdos, e conhecimentos, sendo assim determinado o que deve ser ensinado e de que forma deve ser ensinado, neste ambiente só os grupos que detém o poder na sociedade, tem o poder de se fazer representar através destes mecanismos e através destes mantém e legitimam sua posição, evidentemente que nesta sociedade, que como afirmamos antes, é regida por um sistema capitalista, de mais-valia e de exploração do trabalho do outro, em que pelo processo histórico e o evento do escravismo do povo negro, os negros ocupam o lugar mais baixo na pirâmide social brasileira, também na escola este fato irá se repetir, reproduzindo, legitimando e perpetuando o discurso da inferioridade do negro e da negação de sua cultura, conforme discorre Nilma Lino Gomes: Enquanto pode ser alardeada como o lado exótico, sensual, cultural, que faz do Brasil um país festivo, alegre, sempre ligado ao som e a música (explorando ao máximo o mito da democracia racial), a herança cultural negra aparece muito bem explorada pela mídia, pelo governo e pela escola, porém quando se trata de analisar a atual situação dos descendentes de africanos, o racismo, a invisibilidade do negro na política e nos cargos de poder, as diferentes formas de discriminação na escola e na sociedade, essa mesma herança não é levada em consideração (GOMES, apud CRESTANI, 2003, p.38 ). 16 2.2 A INFLUÊNCIA DO LIVRO DIDÁTICO NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DOS INDIVÍDUOS Que fatores despertam um interesse tão grande dos grupos dominantes e hegemônicos em impor seus conhecimentos e valores através dos currículos, como sendo os únicos corretos? Certamente porque os mecanismos construídos por estes mesmos grupos para comporem o currículo escolar (pois foi estes grupos hegemônicos que construíram a escola como é até hoje), conteúdos, conhecimentos, práticas pedagógicas, instrumentos pedagógicos e outros, agem diretamente sobre a subjetividade dos indivíduos que estiverem submetidos a eles, ou seja todos aqueles que estão inseridos na escola são influenciados por este sistema, assim as práticas pedagógicas e os discursos impostos pela escola vão construir cada um de nós como sujeitos particulares, específicos, o que vai nos posicionar a cada um dentro das divisões sociais, portanto, o currículo vai determinar aquilo em que iremos nos transformar como sujeitos sociais. O currículo passa a ter importância estratégica, e influência nesta formação dos sujeitos, porque é através de seus mecanismos que são instituídos e transmitidos aos sujeitos, como sendo únicas e corretas, noções particulares sobre conhecimento, forma de organização da sociedade e sobre os diversos grupos sociais. Paulo Freire afirma em relação aos discursos produzidos e disseminados pelos dominadores, “opressores”, entre eles os discursos (re)produzidos na escola que (FREIRE, 1999, p. 150). É importante, na invasão cultural, que os invadidos vejam sua realidade com a ótica dos invasores e não com a sua. Quanto mais mimetizados fiquem os invadidos, melhor para a estabilidade dos invasores. Uma condição básica ao êxito da invasão cultural é o conhecimento por parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca. Como não há nada que não tenha seu contrário, na medida em que os invadidos vão reconhecendose “inferiores” necessariamente irão reconhecendo a “superioridade” dos invasores. Com o que analisamos até aqui, concluímos que os discursos escolares são uma das mais eficientes formas de ação cultural a serviço dos interesses dos grupos hegemônicos, porque, ao legitimar e veicular uma determinada visão de mundo e 17 excluir outras, estes discursos além de direcionarem a construção da subjetividade, contribuem para estabelecer diferenciações que permitem inferir uma relação de superioridade, inferioridade, entre os diferentes sujeitos e grupos a que pertencem, o que da margem ao surgimento de preconceitos e discriminações, por isso é necessário dar muita atenção, especialmente aos discursos veiculados através das práticas de sala de aula e em particular os veiculados pelo livro didático, pois não podemos esquecer que os conhecimentos e visões de mundo transmitidas pelo livro didático são determinadas por relações de poder, como afirma Davies: [...] o livro didático é um produto cultural – com suas especificidades, é claro – e, portanto, conformado segundo a lógica da escola e da sociedade onde está inserido. O LD não poderia fugir à lógica que rege esta sociedade, em que as classes dominantes procuram não só garantir e ampliar a acumulação de capital ( e o LD deve ser visto como atividade econômica que possibilita isso) como também veicular as visões que lhes interessam e neutralizar possíveis oposições (DAVIES, 1996, p. 24). Percebemos então que os indivíduos negros têm uma representação nos materiais didáticos que não contribui em nada para á construção de uma identidade positiva, ao contrário, as representações do negro, principalmente no livro didático vem carregada de estereótipos e concepções negativas, estando a serviço de uma ideologia que pretende manter o negro na mesma posição que ele encontra-se desde a sua chegada a terras brasileiras, numa posição marginalizada e inferiorizada em relação aos indivíduos brancos. Este papel do livro didático fica bem claro na seguinte afirmação de Ana Célia da Silva (1995, p. 47-48): O livro didático, de modo geral, omite o processo histórico e cultural, o cotidiano e as experiências dos seguimentos subalternos da sociedade, como o índio, o negro e a mulher, entre outros. Em relação ao seguimento negro, sua quase total ausência nos livros e sua rara presença de forma estereotipada concorrem em grande parte para a fragmentação da sua identidade e auto-estima. Não é apenas o livro o transmissor de estereótipos. Contudo é ele que, pelo seu caráter de “verdadeiro”, pela importância que lhe é atribuída, pela exigência social de seu uso, de forma constante e sistemática logra introjectar na mente de crianças, jovens e adultos, visões distorcidas e cristalizadas da realidade humana e social. A identificação da criança com a mensagem dos textos concorre para a dissociação de sua identidade individual e social. Deste modo se estabelece uma discriminação em via dupla: o negro vê o branco como superior ao mesmo tempo em que vê a si próprio como marginalizado, enquanto o branco se vê como superior e passa a discriminar o negro. 18 3 NOSSA TAREFA: CONSTRUIR UMA NOVA EDUCAÇÃO – REALMENTE DEMOCRÁTICA E IGUALITÁRIA Certamente esta não é uma tarefa fácil, tampouco se daria pela modificação natural e automática do quadro que limita as possibilidades de ascensão dos negros, tendo em vista o ambiente escolar em que vivem, percebendo-se desta realidade, os negros reagem a esta perspectiva de sociedade e escola pensada pelos brancos, passam a identificar seus antepassados não apenas como escravos, mas como trabalhadores, ensinam seus jovens sobre a verdadeira história dos negros, de como e para quê foram trazidos ao Brasil, com o objetivo de romper com os mitos que o sistema colonial colocou sobre eles, então os negros começam a reescrever sua história. Matéria de Ricardo Andrade, publicado no Jornal Folha Popular: O Segredo de Oxum revela um aspecto muito interessante, peculiar, verdadeiro e revelador da cultura africana. O nascimento de um rio não acontece quando a água brota do solo e segue pela superfície da terra. Antes disso, uma seqüência de fatos desencadearam e influenciaram esse processo. Existe por traz do nascimento de um rio um enorme fundamento. Primeiro Olorum através do sol aquece a água dos lagos e oceanos, Oxumarê com seu arco-íris, leva a água em forma de vapor para as nuvens que ficam carregadas, Xangô anuncia com seu trovão, que Iansã está juntando ás nuvens com o vento mágico que surge quando ela balança suas saias, quando as nuvens estão todas arrumadas, Xangô lança o Edun-Ará (pedra de raio) sobre a terra avisando a Odudúa que prepare seu ventre, pois a chuva irá cair, Ossãe pendura suas cabaças em Iroko para conter o líquido maravilhoso da vida. O momento sublime acontece, numa sintonia perfeita de toda a natureza, a chuva cai, trazendo consigo toda força do céu e alimentando toda a terra, Odudúa absorve todo o líquido e cria um enorme lago no interior da terra, seu ventre, quando a água acumulada se enche de força mineral (axé), Odudúa abre seu ventre e dá 19 vida à majestosa Oxum, que brotará do solo e deslizará sobre seu leito levando vida por toda a superfície da terra, mais a frente água se acumulará de novo e tudo começará novamente. Assim como a vida de Oxum tem o seu segredo, nós negros e negras também temos o nosso. A nossa história não começa em 1500 com a chegada dos portugueses no Brasil, antes disso, uma seqüência de fatos marcaram e até hoje influenciam nossas vidas, existe por traz do aparecimento do povo negro no Brasil um enorme fundamento. Não somos descendentes de escravos, como dizem os livros escolares, somos descendentes de civilizações africanas, de reinados fortes e poderosos, somos descendentes de reis, rainhas, príncipes e princesas, somos parentes de homens e mulheres que desenvolveram a escrita, a astrologia, a numerologia, às ciências e as pirâmides. Somos fruto de um povo que desenvolveu as técnicas agrícolas e que domina a medicina alternativa, somos fruto de um povo que conhece as folhas e como despertar o poder delas, nosso povo sabe estar no Aiyê(Terra)sem perder a essência do Orum (Céu). (Jornal Folha Popular, Ed. nº.11, Nov de 2006). Apesar deste “despertar dos negros”, a transformação do ambiente escolar e de seus instrumentos pedagógicos não é uma tarefa fácil, porém como refere Paulo Freire: Não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera, na espera pura, que vira, assim, espera vã. Sem o mínimo de esperança não podemos sequer começar o embate, mas sem o embate, a esperança, como necessidade ontológica, se desarvora, se desinteressa e se torna desesperança, que ás vezes, se alonga em trágico desespero. Daí a precisão de uma certa educação da esperança (FREIRE, apud, SANTOS, 2002, p.73 ). Paulo Freire, na citação acima, nos fala da importância da esperança ligada a uma ação concreta, e a luta mais importante daqueles comprometidos com a justiça, a liberdade, a dignidade e a construção de um mundo melhor, é a luta contra o racismo e a discriminação racial, dificultada em nossa realidade brasileira pelo mito da democracia racial, a ideologia do branqueamento, os meios de comunicação e o sistema educacional. Sabemos ainda que a utilização bem articulada destes 20 instrumentos e de uma política sócio-econômica excludente são os meios pelos quais o racismo procura manter o apartheid brasileiro, daí a necessidade de uma alternativa, que em meu entendimento, passa certamente pela educação popular. AS EXPERIÊNCIAS DE EDUCAÇÃO AFRO-BRASILEIRA Diante do desconhecimento de experiências de processos diferenciados de educação para afro-brasileiros, faz-se necessário apresentar algumas experiências construídas por grupos e entidades do movimento negro brasileiro, que demonstraram serem eficientes na conscientização, não só dos afro-brasileiros, mas também de uma parcela da população branca também excluída. Muito tem se falado e pesquisado sobre movimentos populares e educação no Brasil, entretanto, verifica-se a ausência de estudo das expressões afrobrasileiras em educação, e educação popular, isto nos leva a crer, num primeiro momento que as práticas educativas do movimento negro não existiram e/ou não existem. Porém ao estudarmos a história do movimento social negro no Brasil, encontramos uma rica trajetória política que se espraia por diversas áreas de atuação e entre estas a educação popular. Estudando os movimentos sociais negros, constatamos o surgimento de inúmeras experiências de perfil educativo e pedagógico e o interesse permanente pela questão da educação. Já nos anos 20 com o surgimento da imprensa negra, estas questões passam a serem colocadas em pauta, num apelo insistente para que as crianças e os jovens negros sejam educados e para que os pais assumam esta responsabilidade. A Frente Negra Brasileira, uma das mais importantes organizações negras do Brasil, fundada na década de 30, criou uma escola primária, com a finalidade de dar conta da tarefa que a escola oficial não dava. No entanto é na década de 40, que surge um projeto político pedagógico mais articulado, o TEN – Teatro Experimental do Negro. 21 TEATRO EXPERIMENTAL NEGRO (TEN) O TEN vem articular o pensamento político com o educacional, evidencia a exclusão do negro pelo racismo e reivindica o reconhecimento da matriz africana na construção da sociedade brasileira, apontando uma nova abordagem na luta antiracista, tendo como um de seus aspectos pioneiros, a luta pela educação não só para os negros, mas, também para os brancos e pobres, particularidade apontada por Gonçalves & Silva: [...] como todos os movimentos artísticos de vanguarda dos anos 50, o TEN não abandonava as questões centrais da sociedade para se dedicar exclusivamente ao tema da particularidade negra. Ao contrário, ele seguia as orientações culturais ditadas pelos imperativos de sua época, uma época em que o Brasil vivia, por intermédio de seus intelectuais, uma extraordinária (por vezes dolorosa) experiência de busca de si mesmo. E pela intervenção do TEN, o Brasil era obrigado a reconhecer que era um país culturalmente moldado pela influência africana (GONÇALVES & SILVA, apud ROMÃO, 2002, p. 43). Abdias do Nascimento tem a idéia de fundar o TEN quando assiste à apresentação da peça Imperador Jones, no Chile, na qual o personagem negro é representado por um ator branco pintado de preto, como esta prática não era comum só no Chile, Abdias reivindica espaço para os artistas negros no Teatro Brasileiro. O TEN (Teatro Experimental do Negro) em maio de 1995, viu a estréia de sua primeira montagem original –O Imperador Jones, de Eugene O’neill, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Articulam-se então as várias políticas que poderiam ressignificar a presença negra no Brasil. apesar das críticas ao suposto “elitismo” do TEN, este não estava alheio à natureza dos conflitos e das desigualdades raciais no Brasil dos anos 40, tanto que um de seus objetivos era, reeducar os brancos e descomplexificar os negros. O TEN implementa pioneiramente uma proposta pedagógica para os negros e todos os interessados em seu projeto, articulando arte e educação. Instalado primeiramente em uma sala na União Nacional dos Estudantes/UNE, organizou cursos de alfabetização de adultos, tendo o teatro como meio principal de sensibilizar o público tanto negro como branco. A alfabetização atacava a realidade da vida do negro adulto que era a falta de acesso a educação, o teatro era usado como gerador de toda essa mobilização, visto que as pessoas precisavam saber ler 22 para decorar e encenar as peças. Os cursos contavam com a participação crescente no número de pessoas, tendo a frente dos cursos Ironides Rodrigues, que era muito considerado por seus companheiros e que fez a seguinte afirmação: O Teatro Experimental do Negro tinha por base o teatro como veículo poderoso de educação popular [...] aportavam dos subúrbios e de vários pontos da cidade operários, domésticas, negros e brancos de várias procedências humildes. Ali [...] ministrei cursos por anos a fio, um extenso curso de alfabetização em que, além dos rudimentos de Português, História, Aritmética e Educação Moral e Cívica, ensinei noções da História e Evolução do Teatro Universal, tudo entremeado com lições sobre folclore afro-brasileiro e as façanhas dos maiores vultos de nossa raça. Uma vez por semana, um valor de nossas letras ali ia fazer conferência educativa e acessível àqueles alunos operários que, até altas horas da noite, vencendo cansaço físico, iam ali aprendendo tudo o que uma pessoa recebe num curso de cultura teórica e, ao mesmo tempo, prática. Com o aprendizado das matérias mais prementes para um alfabetizado, havia a leitura, os ensaios e os debates de peças [...] (RODRIGUES, apud ROMÃO, 2002, p. 44). Entre outros apoiadores, na década de 40, o ator e jornalista Haroldo Costa, que participou da minissérie de TV Chiquinha Gonzaga, participou do TEN, um outro depoimento nos esclarece bem o que foi esta experiência de alfabetização: [...] todo aquele movimento de crioulos – meus amigos – era interessante [...] além do teatro, o grupo tinha a proposta de alfabetizar as pessoas que apareciam por lá. E abriram curso para ensinar a ler. Ironides Rodrigues, um negro extremamente brilhante e inteligente, ensinava as primeiras letras ás pessoas [...] havia gente que trabalhava até mesmo de lixeiro. Era comovente o interesse deles no projeto [...] (MEDEIROS, apud Romão, 2002, p.45). A imprensa da época deu relativa repercussão às atividades, ressaltando o curso de alfabetização para adultos e o fato de que não era restrito aos negros. Na realidade o TEN assumiu o compromisso de construir um modelo democrático de sociedade e o exercitou. A atriz Rute de Souza revela em seu depoimento, o que representou em termos de intensidade as atividades do TEN: A UNE já não poderia ceder seus espaços, pois o TEN começou a crescer: de repente havia lá umas 300 pessoas – aulas de alfabetização, conferências – um movimento incríve [...] vinha gente aprender a ler. O curso de alfabetização fazia parte do projeto do TEN. Acho que foi o primeiro mobral no Brasil (SOUZA, apud Romão, 2002, p. 45). 23 Esta atividade de alfabetização de adultos foi interrompida dois anos após a fundação do TEN. A UNE, segundo Abdias do Nascimento, recebeu orientações políticas para que não mais cedesse seus espaços para aquelas atividades. NÚCLEO DE ESTUDOS NEGROS - NEN O NEN foi fundado em 1986 em Florianópolis, Santa Catarina, é formado por universitários e pessoas com terceiro grau concluído que, objetivam contribuir a partir de suas áreas de formação para a compreensão e a mudança das relações raciais. O NEN numa perspectiva gramsciana – não assim compreendida àquela época – assume também esta característica de intelectuais militantes, discutindo com o movimento negro a trajetória de seus membros, bem como os desafios por ultrapassar, as tão conhecidas barreiras do sistema de ensino. O programa de Educação foi instalado desde a inauguração do NEN, sua defesa radical centrou-se na defesa da escola pública e oficial, em que pese o apoio que deu ao trabalho com as comunidades, ao trabalho no morro, como se defendia na época, o NEN atua na perspectiva de exigir que o sistema educacional se democratize, de forma que nele seja possível e visível a participação dos afrocatarinenses. O projeto piloto do programa foi desenvolvido junto à Secretaria de Educação do município de Rio do Sul, no ano de 1993. O projeto surgiu de uma das ações de apoio do NEN as ações do movimento negro, onde em um seminário de formação política, acompanhado pelo poder executivo local, uma das demandas apontadas foi a de incluir o estudo da história e da cultura de matriz africana no calendário oficial daquela secretaria. Esta ação referendou um dos propósitos delineadores do programa, transformar a escola num espaço igualitário e de combate ao racismo. A análise parcial dos resultados permite avaliar que o acesso do professor a estas ações formativas promovem efetivamente uma transformação, não só no seu olhar sobre o negro, como também sobre sua prática pedagógica. Declarações dos professores que participaram desta prática pedagógica (sem que fossem 24 identificados), dão a dimensão do impacto provocado em sua formação e prática pedagógica no que se refere ao entendimento sobre os afro-brasileiros (ROMÃO, 2002, p.49-50). A discriminação está tão enraizada em nós que precisamos ler muito e manter-nos informados sobre a verdadeira história. A discriminação está fortemente incluída nas pessoas, pois o negro significa, para elas, algo que surgiu por acaso para servir e de nada usufruir. Introduzimos na nossa cabeça, pela nossa educação, trazida da escola, da família e da sociedade que sempre diz: negro não presta. Em 1994, com a eleição de um dos membros do NEN à Câmara Municipal de Florianópolis, foi elaborado o Projeto de Lei que incluía conteúdos afro-brasileiros nos currículos escolares da rede municipal, antes da aprovação, no entanto foi enfrentado um grande debate sobre a constitucionalidade e necessidade da lei, com argumentos clássicos, costumeiramente ouvidos como: “Não seria racismo ás avessas?”, “E se daqui a pouco os outros grupos étnicos também fizerem o mesmo?”. Estas questões apontam a necessidade não só de formação, mas da democratização, para alunos e professores, pois, o que herdamos de nossa formação colonial foi a cultura da discriminação, da violência, da desigualdade, da invisibilidade do negro e do racismo, e enquanto não rompermos com este “Estatuto Colonial”, não teremos uma sociedade verdadeiramente democrática. ESCOLA ALTERNATIVA KA-NAOMBO A ACNAP, Associação Cultural de Negritude e Ação Popular, sediada na cidade de Curitiba/PR, foi fundada em 26 de abril de 1987, tendo como objetivo organizar e unir a população negra em defesa dos seus direitos e o pleno exercício da cidadania, numa luta constante contra toda forma de alienação, opressão e marginalidade do povo negro. Uma das principais ferramentas da ACNAP é o grupo artístico e cultural KA-NAOMBO, que no idioma kimbundu da área Angola- 25 Conguense-África, formado do prefixo “KA” e “NAOMBO” (negro), indicando que trata-se de “coisa de negro”. O grupo KA-NAOMBO realiza seus encontros em associações de moradores, seu projeto de Escola Alternativa surge da necessidade não só de espaço para realizar reuniões de formação e conscientização para resgate da autoestima e ensaios, mas também de acompanhar estas crianças e adolescentes pedagogicamente, uma vez que a maioria é negra, pobre e vive em regiões periféricas de Curitiba, onde são vítimas da marginalização que sofre o povo negro: miséria, analfabetismo, evasão escolar e/ou repetência, uso ou tráfico de drogas, prostituição, gravidez na adolescência, violência, etc. O projeto pedagógico tem por objetivo de através dos movimentos organizados de Curitiba, especificamente o negro, trabalhar por meio da dinâmica de reforço escolar extracurricular e auto-estima dos educandos, especialmente as crianças negras por serem as mais excluídas racial e socialmente, em função da formação cultural eurocêntrica da nossa sociedade. O objetivo é que através de um trabalho qualitativo, desenvolver no educando, durante o processo, a auto-estima e a conscientização da cidadania; e, com a criança não negra, a possibilidade de conhecer uma cultura diferente da apresentada na escola formal, ou seja, a conscientização de que estamos num universo de culturas diferentes que devem ser respeitadas nas suas individualidades. A escola alternativa, além de fazer um reforço escolar, objetiva resgatar a história e a cultura do povo negro. A ACNAP entende que a escola alternativa, executada pelo KA-NAOMBO, é uma possível saída para acriança negra, já que, através de pesquisas, foi constatado que esta tem uma auto-estima baixa porque vive num país de grande diversidade cultural, e sua cultura afro-brasileira é quase sempre abafada e desprezada. O objetivo é trabalhar com educandos que habitam a região sul de Curitiba, especificamente a “Comunidade Nossa Luta” no bairro Sítio Cercado. O projeto consiste ainda em atividades que recuperem a cultura e os valores das populações afro-descendentes como: Oficina de dança afro, oficina de esporte e capoeira, música e teatro, e outras. 26 CONSIDERAÇÕES FINAIS Concluo este trabalho com a certeza de que, este servirá de acúmulo teórico sobre o tema da educação e sua influência na realidade da vida das pessoas, principalmente em relação a discriminação dos afro-brasileiros. Com a mesma certeza posso afirmar que serviu este TCC para que, pessoalmente eu aprimorasse meus conhecimentos, principalmente sobre as experiências de educação praticadas por organizações do movimento negro, fica ainda a satisfação de ter vencido, com todas as dificuldades surgidas, mais uma etapa de formação, que contribuiu em muito, não apenas para que eu acumulasse conhecimento teórico, mas, principalmente, acumulasse vivência com outros seres humanos e crescesse em minha capacidade de conviver na diversidade, e de respeitar e valorizar as particularidades de cada pessoa. Este trabalho de conclusão de Curso – TCC que teve como tema: “A educação formal e a educação popular na construção da identidade dos afrobrasileiros”, apresentou para mim um grande desafio, vencer idéias pré-concebidas em meu íntimo, fruto de minha militância em movimentos sociais de luta contra o racismo, ao mesmo tempo em que desafiou minha capacidade de pesquisar e formular idéias. Este trabalho teve como objetivo principal identificar as formas como o nosso sistema educacional formal atuou para reproduzir e perpetuar, o sistema de subjugação do povo negro herdado da escravização e de nosso sistema colonial, da mesma forma identificar experiências de educação popular desenvolvidas no Brasil. O que acredito ter alcançado de forma plena. Assim iniciei buscando trazer um conhecimento do território africano, onde foi possível constatar, em minha opinião, 27 que o discurso propalado por nossa sociedade racista, fruto de nossa herança colonialista e de opressão, e de uma sociedade baseada no sistema capitalista, de valorização da mais-valia e fundada na exploração do trabalho de uns pelos outros, não se sustenta. Esta conclusão refere-se ao fato de que após analise dos três primeiros itens do TCC, percebo que, para sobreviver em um território africano, que embora rico, é extremamente diversificado, íngreme e inóspito, os negros precisaram ter uma capacidade para o trabalho árduo muito grande, além de terem que desenvolver conhecimentos avançados pra sua época, como por exemplo, o domínio do uso dos metais para confeccionar armas e ferramentas e o domínio do uso do fogo. Desta forma, concluo que a única explicação para a construção deste estereótipo, foi a necessidade do branco, colonizador, justificar a escravização do negro. Para isso necessitando ocultar sua história, sua cultura, seus conhecimentos e destruindo sua auto-estima. Pude concluir ainda o papel estratégico que teve a igreja na afirmação, legitimação e reprodução desta cultura opressora, no momento em que afirmava que o negro era um ser que não tinha alma, e que a partir de sua escravização e de sua inserção na cultura desenvolvida e superior, branca, eurocêntrica, o escravizador estaria contribuindo com o seu desenvolvimento e com sua salvação. Em relação ao estudo sobre o papel da escola na construção da identidade dos indivíduos, foi possível identificar o papel que esta exerce, através de suas práticas pedagógicas, de seus conteúdos e valores, através seus instrumentos, entre eles o livro didático, concluindo que nosso universo escolar é um espaço privilegiado de legitimação dos conhecimentos, sendo utilizada, pelos dominadores, pelas minorias privilegiadas de nossa sociedade, para reproduzir e legitimar seu sistema de domínio, entre outros, serve este sistema para, através de teorias cientificistas justificar a opressão dos afro-brasileiros. A escola, como espaço de legitimação de conhecimentos, em seu universo estabelece o que deve ser ensinado e de que forma o será, contribuindo assim, com as minorias dominantes para estabelecer um processo de negação da cultura africana, promovendo a invisibilidade dos afro-brasileiros. 28 Por fim, apresento algumas experiências de educação popular desenvolvidas por organizações do movimento negro, como o Teatro Experimental do Negro, experiências estas que considero estratégicas para a superação do “apartheid brasileiro”, pois a única maneira de reinstalar uma outra identidade dos afro-brasileiros é destruir a que hoje esta no senso comum da sociedade de sua inferioridade, e isto se dará apenas a partir do resgate daquilo que lhe foi imposto pelo opressor como primitivo, é preciso construir uma visão positiva das particularidades históricas do negro, resgatar a beleza da língua, da sexualidade, da religião, de sua maneira de falar, e a beleza do próprio negro. 29 REFERÊNCIAS ANDRADE, Ricardo. 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