Universidade Federal da Bahia Faculdade de Comunicação GUSTAVO GOMES BEZERRA FILHOS DE ADÃO O UNIVERSO MASCULINO NUMA SÉRIE TELEVISIVA SALVADOR – BAHIA 2007 GUSTAVO GOMES BEZERRA FILHOS DE ADÃO: O UNIVERSO MASCULINO NUMA SÉRIE TELEVISIVA Memória descritiva do produto técnicoartístico apresentado como requisito para obtenção do Bacharelado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia – UFBa. Orientação: Maria Carmem Jacob de Souza Co-orientação: Amanda Auoad SALVADOR – BAHIA 2007 Agradecimentos A Carmem por ter me mostrado uma possibilidade que antes eu não enxergava e ter me ajudado a dar o passo inicial, além de vários outros, nesta caminhada; A Amanda, co-orientadora e roteirista que me ajudou na lapidação do produto final com importantes orientações; A Roberto Duarte, com quem afinal eu aprendi muito sobre roteiro; Aos meus amigos e também leitores por todas as opiniões, fundamentais durante todo o processo criativo e que sempre me incentivaram, Alex Paixão, Alex Rodolfo e Ana Camila; À Dayse Porto, pelas leituras e opiniões durante este trabalho; Aos amigos Tanara Régis, João Barreto e todas as “batatinhas”, pela companhia durante esses quatro anos de faculdade; Ao GRTV, Fórum de Roteiristas, que muito tem contribuído através dos debates e informações a respeito do universo que é a produção televisiva; À minha família, que, mesmo à distância, têm sido meu porto seguro. Durante muitos anos eu imaginava que a mulher era o mistério absoluto. Hoje, sou eu, na condição de homem, que acho difícil compreender... Acho que posso compreender para que serve uma mulher, mas um homem, para que serve exatamente? Que significa: sou um homem Philippe Djian Ao contrário do que diz a velha história sobre a danação de Eva, Deus tornou-se seu cúmplice. Não só tirou o poder procriador de Adão para dá-lo à sua companheira, mas com o mesmo ato conferiu às mulheres o privilégio de nascer de um ventre do mesmo sexo. Elizabeth Badinter Sumário 1 – Introdução 7 2 – O roteiro e o roteirista 13 3 – O seriado e a televisão 18 4 – A abordagem do masculino 22 5 – Influências de público e mercado 26 6 – Considerações finais 28 Referências 31 Apêndice 34 A – Descrição dos Personagens 35 B – Ambientação 41 C - Story Line do Piloto 43 D - Sinopse do Piloto 44 E - Sinopse da 1ª temporada 46 F - Roteiro do Piloto 48 Resumo A presente memória pretende expor alguns passos na elaboração do roteiro do episódio piloto de uma série televisiva, chamada Filhos de Adão, que trata da masculinidade e da posição do homem contemporâneo diante de questões afetivas, sexuais, familiares e profissionais, desenvolvendo sua sinopse, traçando os perfis dos personagens e descrevendo as ações nas quais eles irão se envolver, cena a cena, buscando construir, através dos elementos próprios da história, uma unidade para a série. São expostos aqui alguns dos elementos que tiveram que ser levados em consideração durante o processo criativo, tais como o roteiro, seu formato e os elementos que o compõem, aspectos referentes à estrutura de um seriado e à produção televisiva e aspectos relativos ao tema da série. Essa experiência prática mostrou que para se criar um roteiro de seriado é necessário seguir um longo percurso com idas e vindas em torno do material que se quer criar, desde a premissa dramática, estrutura do seriado e do episódio e definição dos perfis dos personagens, no qual todos esses elementos estão interligados e influenciando um no outro. A criação de tal roteiro mostrou-se uma ferramenta fundamental no processo de formação profissional e na busca de uma carreira como roteirista. Palavras-chave: roteiro – seriado – masculino 1 Introdução A produção de determinadas obras para a televisão sempre foi um campo interessante, seja pela forma como esses produtos atingem aos mais variados públicos, seja pelo número de elementos que envolvem a sua criação. Para se entender como se desenvolve uma produção televisiva é necessária uma análise que dê conta de diversas áreas de conhecimento, desde a criação de produtos televisivos, a composição dos seus roteiros, até os elementos que irão compor cenário e figurinos, estudos técnicos e de audiência ou das relações entre as empresas produtoras de conteúdo e os campos econômico e político. Não é a pretensão deste trabalho explorar minuciosamente cada uma dessas áreas de conhecimento. Entre as diferentes áreas presentes nas experiências de produção, se deu um interesse maior no que diz respeito à criação de um roteiro de seriado. Interesse que surgiu com a disciplina de Temas Especiais em Televisão, ministrada pela professora Maria Carmem Jacob de Souza, cursada em 2006.1 e que tinha como enfoque principal a análise de seriados televisivos a partir de alguns de seus elementos, como a produção, realização, elementos cênicos, audiovisuais, roteiro, entre outros e procurava dar conta do que envolvia a macroestrutura de uma temporada e a estrutura de um episódio isoladamente, observando as curvas dramáticas, focos narrativos, organização temporal, tema tratado, personagens. A forma como se construíam as histórias em si, os diálogos, as ações dos personagens, a forma de se compor uma narrativa para uma determinada ação foi o que despertou o interesse para um maior estudo acerca dos universos ficcionais audiovisuais. No semestre seguinte a participação numa Oficina de Roteiro, ministrada por Roberto Duarte aprofundou o interesse nessa área específica da produção televisiva que é a criação do roteiro. A oficina envolvia a criação coletiva de um roteiro e trazia os diversos elementos constitutivos nos procedimentos de um roteirista, tais como criação de personagem, escaleta, estrutura e forma de um roteiro, de maneira que os elementos teóricos fossem utilizados já numa experiência prática inicial enriquecedora. 8 Identificar o que existe em produtos televisivos como os seriados, o que desperta e mantêm o interesse do telespectador, percebendo a forma como a caracterização dos personagens, tipo de ações e situações dramáticas contribuem para a construção de um produto que possa despertar esse interesse, gerou um empenho maior no conhecimento desses produtos e na possibilidade de criar um roteiro de um seriado. Propôs-se aplicar e ampliar estes conhecimentos adquiridos para elaborar um roteiro para série televisiva num projeto prático de Trabalho de Conclusão de Curso. Essa experiência prática demandou, além das bases teóricas necessárias para o seu planejamento, para o conhecimento do que é um roteiro, como ele se constitui e quais os seus elementos, a própria experiência de vivenciar a sua escritura. A primeira preocupação foi com a própria estrutura do roteiro. Os elementos que um roteiro deve conter, de que maneira ele é escrito, a sua função em um produto televisivo como guia para toda a equipe técnica, elenco e diretor. Ele terá de fazer com que uma idéia ganhe a melhor representação possível para que a equipe possa executar aquela obra da melhor maneira. Para isso, o roteirista precisa conhecer os elementos que compõem uma história, as formas de ordenálos de modo a ter uma unidade, as possibilidades disponíveis para a composição de sua obra. Foi necessário ainda compreender os diferentes tipos de produtos televisivos de acordo com a forma de contar histórias. Há diversas classificações possíveis e é necessário compreender em quais delas o seu produto irá se adequar, como as classificações de gênero: épico, lírico e dramático e as diferentes formas da expressão dramática: tragédia, melodrama, comédia e farsa. É necessário entender, no entanto, as possíveis invasões de um gênero em outro, percebendo que não há classificações absolutas, mas que é necessário definir um tom predominante para o produto de teledramaturgia a ser criado. O próximo passo seria a definição de um tema central a ser abordado no seriado. A série elaborada busca representar o universo masculino associando o homem moderno e sua posição no mundo atual aos acontecimentos na sua vida cotidiana seja no plano amoroso, profissional ou familiar; simbolizados pelos personagens que compõem o trio de protagonistas. Esses 9 personagens representam nas suas ações os problemas e o dia-a-dia de homens formados numa geração pós efeitos do movimento feminista, preocupados com questões como relacionamento familiar e vida amorosa e no meio de conflitos que envolvem seus sentimentos, angústias e paixões. A série mostrará os problemas masculinos sob o ponto de vista dos homens. No caso do seriado aqui proposto buscou-se desenvolver uma estrutura que se daria em dois planos. Um deles seguindo uma estrutura interna, com um ou mais conflitos que se iniciam e se resolvem no mesmo episódio. O outro segue a macroestrutura da série, com acontecimentos associados a conflitos que têm explicação em episódios anteriores e implicações em tramas futuras tendendo a desfechos no final da série. Pode-se dessa maneira formular estratégias que estimulam a série ser assistida em episódios e ser acompanhada do início ao fim de uma temporada. Filhos de Adão irá mostrar o dia-a-dia de três homens diferentes um do outro, mas que revelam, cada um a seu modo, as inseguranças, os medos, as angústias e as buscas de um homem moderno, que ainda não sabe como agir diante de determinadas situações, que não sabem quais são seus limites. A partir de um tom melodramático, os personagens irão se deparar com situações nas quais se sentirão sozinhos e incapazes de resolver seus problemas. Compartilharão seus sofrimentos com o telespectador e sua busca por uma solução para seus problemas. São situações aparentemente simples, que terão complicações durante a trama a fim de dificultar que cada personagem atinja seu objetivo. A série será ambientada em Salvador, muito embora pudesse se passar em qualquer grande cidade, tendo em vista que o enfoque regionalista não é o principal objetivo da série e, por esse motivo, não serão discutidas com profundidade temáticas regionais. Essas temáticas poderão pontuar a série, deixando algumas indicações espaciais e culturais, mas não serão fundamentais no que diz respeito à estrutura geral da série. Foi fundamental também entender como se constitui o mercado brasileiro de televisão. Saber que num produto televisivo existem, em maior ou menor escala, as influências do capital, representado pelo mercado publicitário, do Estado e do público nas redes de televisão. Como 10 esses fatores são pensados no momento em que se definem as linhas do programa específico de ficção seriada a ser pensado? Como a concorrência e a competitividade entre as diferentes redes de televisão no Brasil influenciam nas suas políticas internas e na sua grade de programação? E, sobretudo, qual o papel da teledramaturgia nessas redes e a importância dada a esse setor, que envolve uma série de variáveis, como audiência, custos de produção, horários de exibição, patrocinadores, políticas internas da empresa para que se possa pensar num produto televisivo que seja alvo de interesse das redes de televisão? Enfim, como localizar a série aqui proposta neste contexto? Não se pretende, contudo, invadir os espaços das equipes envolvidas num trabalho coletivo como é a produção de uma obra audiovisual, mas tão somente entender os elementos que podem influenciar na decisão de uma emissora optar por exibir esta ou aquela série. Entender como posicionar um produto específico entre tantos outros colabora, então, na composição de um roteiro de seriado, delimitando o seu fio condutor, os seus personagens, que situações aqueles personagens irão vivenciar e de que maneira irão agir. Tudo isso sem perder de vista os outros elementos que poderão influenciar na obra audiovisual. Um produto voltado para a televisão terá que contar com elementos que sejam importantes para esse veículo, como é o caso dos ganchos entre os blocos e entre um episódio e outro. Da mesma maneira, o veículo exige que este produto tenha elementos que atraiam o interesse do público durante toda a sua temporada, elementos esses que devem surgir desde o episódio piloto. Em um projeto profissional espera-se que esta experiência possa encontrar uma maneira de penetrar no mercado que tem suas exigências particulares, sem desrespeitar também às exigências internas da obra, ou seja, como utilizar os conhecimentos das mais diversas áreas que envolvem uma produção voltada para a televisão para criar um produto que seja capaz de despertar o interesse do público e atender os interesses comerciais das redes de televisão. Como criar esse produto e quais as peculiaridades que envolvem a produção de um roteiro de seriado televisivo? Desde já é necessário ao roteirista ter o conhecimento de que a obra não será unicamente sua, mas de um conjunto de criadores que terão maior ou menor influência nas decisões durante a produção do seriado. 11 A necessidade de desenvolver um roteiro de seriado como um projeto prático de conclusão de curso é justamente para entender o processo de criação, absorvendo elementos teóricos e uma iniciação prática que possibilitem projetos futuros nessa mesma área. Entender como transpor idéias expressas através de personagens e de ações para um produto de ficção audiovisual de televisão. Para absorver os elementos teóricos e práticos e dispor dos recursos que ajudem a compor a própria história foi necessário conhecer os procedimentos que ajudam o roteirista a guiar o seu processo. Para que se chegasse à criação do roteiro propriamente dito, a pesquisa se deu em alguns planos diferentes. Foram identificadas três vertentes básicas a partir das quais se estruturou essa pesquisa: o roteiro e seus elementos constitutivos que serão tratados no capítulo 2 (O roteiro e o roteirista); aspectos referentes à estrutura de um seriado e à produção televisiva em geral, vistos aqui no capítulo 3 (O seriado e a televisão), onde serão feitas considerações a respeito do posicionamento de um produto audiovisual para televisão, especificidades de um seriado e a importância do episódio piloto; e o tema central que a série aborda, no capítulo 4 (a abordagem do masculino). Apesar de estarem aqui seqüenciadas, estas vertentes tiveram que ser analisadas paralelamente, pois se voltava a uma e a outra a todo o momento. Alguns elementos importantes tais como a influência do campo econômico e do público serão ainda levantados no capítulo 5 (Influências de público e mercado). Todo o procedimento de pesquisa se deu aliado ao processo de escritura do roteiro e dos elementos necessários à sua composição: story line, escaleta, sinopse da temporada e do episódio. Nesse sentido foi de fundamental importância a colaboração de Amanda Auoad, com observações importantes a respeito da estrutura da história, da sua verossimilhança e de erros comuns a roteiristas iniciantes, como diálogos muito explicativos. Dessa forma se chegou ao produto final proposto, o roteiro do episódio piloto de um seriado. Paralelamente à pesquisa bibliográfica também foram visualizadas séries dos mais diversos gêneros a fim de perceber algumas de suas estratégias e elementos utilizados para definir uma narrativa e o tom predominante dessas séries, percebendo também a forma como são construídos os personagens, como suas características principais são realçadas e como são delineados os 12 enredos dessas séries. Uma atenção maior foi dada aos episódios pilotos dessas séries e à forma como esse episódio se relaciona com toda a temporada. Entre os seriados analisados estão Desperate Housewives1, Sex and the City2, Prison Break3, e Queer As Folk4. A criação desse roteiro e de toda a estrutura que o antecedeu mostrou-se de fundamental importância para a formação profissional de alguém com o interesse em especializar-se em tal área de conhecimento. Pretende-se continuar expandindo os conhecimentos que envolvem a área da televisão e da criação de roteiros e continuar produzindo roteiros e projetos numa perspectiva de crescimento profissional e de acesso ao mercado dessa área. 1 Série criada por Marc Cherry, trasmitida nos EUA pela ABC desde 2004 e pela Sony e RedeTV, no Brasil, cujo tema é a vida de donas de casa do subúrbio americano fictício de Westeria Lane enfocando seus problemas domésticos em um clima de mistério que envolve a série a partir do suicídio de uma das donas de casa, Mary Alice Young (Brenda Strong). 2 Série criada por Darren Star, originalmente transmitida pela HBO de 1998 a 2003, focada nas relações íntimas e acerca de questões referentes à sexualidade, amor e vida profissional de quatro amigas a partir do ponto de vista da colunista e moradora de Nova Iorque, Carrie Bradshaw (Sarah Jéssica Parker). 3 Séria criada por Paul Scheuring, transmitida pela Fox Television desde 2005, que retrata o suspense e ação envolvidos na tentativa de fuga dos irmãos Michael Scofield (Wentworth Miller) e Lincoln Burrows (Dominic Purcell) da Penitenciária de Fox River após a prisão injusta de Burrows associada a uma misteriosa companhia e à vice-presidente dos EUA. 4 Série criada por Russel T Davies e adaptada para a versão americana por Ron Cowen e Daniel Lipman, transmitida pela Showtime Networks nos EUA a partir de 2000. A série americana retratava os conflitos e relacionamentos amorosos de gays e lésbicas que viviam em Pittsburg. 13 2 O Roteiro e o roteirista Inicialmente, os manuais de roteiro forneceram alguns dos elementos básicos para a composição da estrutura de um roteiro. Nesta etapa foram utilizados como referência os Manuais de Roteiro de Syd Field (2001), de Cannito e Saraiva (2004), Roberto Duarte (2006), além de O Poder do Clímax, de Luiz Carlos Maciel (2003). Nessa fase foram identificados a maneira como os manuais caracterizam um roteiro para televisão e cinema, quais os elementos fundamentais e algumas técnicas utilizadas, como eles abordam as questões referentes à composição de uma história, os personagens, a curva dramática, a composição das cenas, as relações entre os elementos de uma história (ponto de partida, clímax e desenlace) para que se possa ter uma noção das formas como construir uma história que permita sua implementação no plano audiovisual. Para compreender como se dá o processo de criação de roteiro é possível encontrarmos diversas indicações e orientações sugeridas nos mais diferentes livros que tratam do assunto. Entre os mais comuns estão os “manuais de roteiro” que por vezes se apresentam como um “passo-a-passo” na hora de criar um roteiro. O Manual do Roteiro, de Syd Field, é um dos mais divulgados. Criticado ou elogiado, ele é lido por muitos dos que aspiram à carreira de roteirista. O fato é que os manuais, por si só, não são capazes de dar todas as ferramentas necessárias para que qualquer um se torne um bom roteirista. Há muito mais coisas em jogo. E a promessa de alguns manuais é fugir da “receita de bolo” referindo-se às técnicas indicadas por Syd Field, oferecendo outras ferramentas para o escritor iniciante, que deverá buscar o que cada manual tem de melhor e aplicar aquilo que for necessário para a estrutura interna de sua história. O roteirista deverá aliar os conceitos trazidos pelos manuais ao processo de desenvolvimento da sua história tornando-os ferramentas úteis em todo o procedimento de escrita. Tenta-se apenas recolher, de vários manuais de roteiro cinematográfico existentes, o conjunto mínimo de noções e procedimentos que podem ajudar a expandir uma idéia inicial, até que se configure um roteiro de filme, levando ao máximo o seu potencial interno, ou seja, as possibilidades de desenvolvimento de uma determinada idéia (DUARTE, 2006, p. 9). Os manuais não são fontes para se analisar a qualidade de uma obra cinematográfica ou televisiva, ao estilo: “este filme seguiu tais e tais regras, então ele é bom”. Servem, antes de tudo, “para que o roteirista tenha um procedimento de trabalho diante da tarefa de criar uma obra nova, 14 que ainda não existe” (MACIEL, 2003, p. 18). Ou seja, os manuais devem ser lidos, mas deve ser dada uma atenção especial a diversas outras questões presentes na hora de escrever um roteiro. Os manuais fornecem os indicativos dos procedimentos que devem ser adotados pelo roteirista, que têm papel fundamental na cadeia produtiva de uma obra audiovisual, afinal, um roteiro serve para estruturar uma obra, servirá de base para diversos profissionais, do diretor à equipe de cenografia, do elenco ao figurinista. Syd Field (2001) nos apresenta o “paradigma”, que viria a ser um esquema conceitual no qual a história está composta de três partes: apresentação, confrontação e resolução. A apresentação define quem e o que a história aborda estabelecendo as relações entre os personagens e suas necessidades. A confrontação mostra os obstáculos que o protagonista enfrenta na busca pela sua necessidade. A resolução é a maneira como o personagem soluciona seu problema. Tudo acaba se interligando no roteiro: os personagens, suas ações, o enredo, a estrutura da trama. Cada ação ajudará a compor o personagem que, por sua vez, agirá de uma ou de outra maneira, de acordo com as atitudes que já são associadas a ele. A história é também um todo, formado por partes específicas: os personagens, ações, atos I, II e III, cenas, seqüências, locações, músicas, efeitos especiais etc. É a relação entre essas partes que confere ao roteiro força e integridade. (FIELD, 2002, p. 37) Um dos pontos levantados em boa parte dos manuais é que a história deve ser contada em imagens, mais do que em palavras. “O roteirista tem de indicar o que vai acontecer naquela cena, seu conteúdo, o que vai ser visto, mais do que como vai ser visto” (MACIEL, 2003, p. 15). O roteiro para cinema e televisão deve revelar através das ações dos seus personagens a sua maneira de encarar o mundo, o seu ponto de vista, a sua situação sócio-econômica e mais uma infinidade de características que devem ser transpostas para o formato audiovisual. “Um roteiro é uma história contada por meio de imagens, diálogos e descrições, colocada no contexto da estrutura dramática” (FIELD, 2002, p. 37). O profissional deve se preocupar em registrar no seu objeto de trabalho o que há de importante para o enredo ou para a caracterização de um personagem durante a história, seja através de um olhar, um toque de mãos ou até mesmo do silêncio. No processo de escritura de Filhos de Adão foram utilizadas algumas dessas técnicas de acordo com o que era pensado para a obra. Pode-se dizer que o roteiro surgiu a partir do tema (a atual identidade masculina) e dos seus personagens, que até então não tinham nome, mas já se sabia 15 que tipos se queria representar. A intenção era representar o universo masculino através de um grupo de três amigos, cujos conflitos seriam a porta de entrada para as discussões a respeito dos conflitos dos homens modernos. Tendo em vista que o foco central do seriado seriam os personagens, os seus perfis foram desenvolvidos antes de se pensar em qualquer linha de escaleta ou de sinopse. Após uma definição dos temas a serem tratados e dos personagens, seria importante pensar no formato da obra como fator fundamental da composição das histórias. Ou seja, as peculiaridades que um seriado exige enquanto formato televisivo. Unindo-se um campo a outro é que pôde ser pensada a composição da estrutura da série como um todo e do episódio piloto, que serve como uma apresentação dos principais conflitos que ocorrerão durante a primeira temporada. O episódio piloto teria que apresentar os personagens, que a esta altura já estavam com nomes e características definidos. Foi criada então uma linha de ação para cada um, um conflito para cada um deles que resultaria na união dos protagonistas. Cada um deles já teria que ser apresentado com o conflito que resultaria em tramas para toda a primeira temporada. Nesse sentido a curva dramática foi pensada para o seriado como um todo e o primeiro episódio apresentaria o ponto de partida de cada um deles e o surgimento dos seus primeiros conflitos. As histórias dos protagonistas se unem e o episódio piloto se encerra no momento em que os três saem de suas casas, da normalidade do dia-a-dia e se vêem conectados, decidindo morar juntos. A sinopse dava linhas gerais do que ocorreria no primeiro episódio. Antes de ser escrita, já se sabia o que deveria ocorrer com os personagens durante o seriado. Alguns acontecimentos já estavam postos como um ponto de chegada, ou seja, o destino dos personagens, em relação a determinados aspectos, já estava previamente configurado. Dionísio, por exemplo, teria complicações com uma “namorada” justamente por nenhum dos dois assumir o romance. Para sentirem que havia algum sentimento entre eles, surgiu a idéia de distanciá-los. Somente para dar mais peso dramático, Helen, a namorada de Dionísio, deveria ser uma das responsáveis pelo seu distanciamento. Da mesma maneira, o que acontece com Átila e com Davi é apenas um passo inicial para complicações futuras destes personagens durante a série. Tudo o que acontece no 16 episódio piloto está conectado com uma rede de tramas que se pensa para os demais episódios do seriado. Juntamente com uma descrição detalhada dos perfis de cada um dos personagens a sinopse do episódio piloto já diria muita coisa a respeito do que se pensava para o episódio e da maneira como eles agiriam. Mas somente no momento que aquilo se transformou em ação, cena a cena, é que o roteiro ganharia vida própria. A escaleta seria o alicerce fundamental para se ter uma visão geral da obra que se iniciaria. Algumas cenas entraram e outras saíram no momento em que o roteiro seria escrito, mas o alicerce estava lá e serviu para definir o que poderia ser retirado e o que poderia ser adicionado sem que a história fosse prejudicada. Cada cena de um roteiro deve estar lá por um propósito maior na trama. “Uma cena ou leva a história adiante ou revela informações a respeito do personagem principal (ou dos personagens principais)” (FIELD, 2002, p. 92). Em Filhos de Adão as cenas foram escritas de maneira a incorporar ações que caracterizassem os personagens. Buscou-se através de cada atitude, cada ação e cada fala demonstrar a maneira como aquele personagem vê o mundo. Dessa forma, se a pretensão era mostrar que Dionísio, apesar de demonstrar ser desapegado aos sentimentos, na verdade se preocupa com Helen, foi inserida uma pequena ação na qual, no momento de paquerar a secretária, ele dá uma olhada para o final da sala se certificando de que Helen não está observando nada. Personagem, enredo, seqüência, estrutura, cenas, são diversos os fatores com que o roteirista deve se preocupar. Se o objetivo fosse esmiuçar cada um desses fatores, seria criado um novo manual de roteiro, o que não é a intenção deste trabalho. A intenção é perceber a maneira como cada um desses fatores tornou-se parte das preocupações relevantes no processo criativo, no processo prático. Nesse caso, após criar toda a estrutura geral da série, pensar num enredo para episódio piloto e definir os perfis dos personagens – a escritura em si, cena a cena, tornou-se a parte mais prazerosa do processo criativo. Os personagens pediam determinadas ações por si sós. Alguns problemas surgiram, é claro. Uma maneira convincente de apresentar determinada situação, como 17 por exemplo, a mãe de Davi descobrindo que ele é gay, ainda não estavam totalmente definidas na sinopse inicial. Somente durante a redação do roteiro é que alguns elementos foram surgindo. O importante é perceber que o processo criativo deve ser constante e que todos os elementos estão relacionados. Uma decisão poderá refletir no futuro de um personagem ou de uma situação. A configuração da história deverá ser pensada levando-se em consideração toda a sua estrutura, sabendo-se que uma ação de um personagem poderá interferir num outro momento da história. Sabendo-se também que pode soar de forma estranha que um personagem tenha uma atitude contraditória à maneira como ele foi apresentado ao público. No caso do seriado aqui proposto, buscou-se atentar para uma configuração geral da série. A determinação do roteiro do episódio piloto seria dada por uma cadeia de fatores. A maneira como a história de cada personagem será mostrada e a maneira como essas histórias se cruzarão, a apresentação dos personagens e da forma como eles vêem o mundo e como convivem com os seus problemas, o tom que se pretende passar para a série, as premissas dramáticas, tudo isso irá interferir no modo como o seriado será apresentado no episódio piloto. 18 3 O seriado e a televisão Um passo importante a ser dado pelo roteirista é posicionar a sua obra diante daquilo que existe, a partir da maneira como sua história será contada. Os gêneros literários são a primeira vertente de uma classificação, traçada por Aristóteles, diferenciando os gêneros épico, lírico e dramático. A narrativa épica é apresentada por um narrador que relata episódios completos, acontecidos no passado, aplicando-se assim a alguns romances e novelas. Os poemas de maneira geral serão caracterizados como obras líricas que extravasam uma “interioridade subjetiva” do autor. O gênero dramático pode ser aplicado ao teatro contemporâneo, ao cinema e outras obras audiovisuais, onde a história é contada no presente, e a ação está acontecendo no momento em que o telespectador vê os personagens agindo (DUARTE, 2003, p. 83). [o gênero dramático] aproximar-se-á do épico ao nos fazer assistir ao desenrolar dos acontecimentos, descritos nas rubricas, e do lírico ao nos fazer presenciar manifestações da interioridade individual, nas falas de cada personagem (Hegel, 1980: 121 apud DUARTE, 2003, p. 83). Outra idéia bastante explorada nos manuais de roteiro é a de que a expressão dramática tem quatro maneiras fundamentais de manifestação: a tragédia, o melodrama, a comédia e a farsa. Na tragédia, o conflito do herói se dá com um poder que ultrapassa os seus limites, estando condenado à destruição. No melodrama o conflito se dá com obstáculos de medida humana, com conflitos que envolvem o comportamento da sociedade em que o espectador compartilha a sensação de sofrimento do protagonista. A comédia e a farsa são duas expressões que levam ao riso, diferenciadas pela composição interna da história e dos personagens, onde a comédia é mais sutil e a farsa mais caricatural. Esses modos se misturam cada vez mais, permitindo melodramas com núcleos cômicos ou comédias com situações trágicas (MACIEL, 2003, p. 27-28). As classificações não são absolutas. Elas servem, sobretudo, como uma base, uma forma que ajuda a escolher o foco narrativo da história que será construída, mas esse foco está aberto a intervenções, ajustes, “variações tonais”5. É importante ter uma noção dessas distinções ao 5 O termo é aplicado fazendo a analogia de uma história com uma música, que segue um ritmo e que tem um tom predominante, podendo ter variações até determinado limite, desde que não destoem do conjunto (CANNITO E SARAIVA, 2004, p. 126). 19 escrever um roteiro para que se possa tomar as decisões necessárias ao situá-lo num determinado “lugar”, sendo coerente a uma estrutura determinada para aquela história. Você deve introduzir o espectador ao universo específico de sua trama logo na primeira cena de seu roteiro. Em princípio, o espectador quer saber se aquela história é para rir ou para chorar, por exemplo. Claro que você pode levá-lo a fazer as duas coisas (numa comédia dramática, numa farsa trágica etc.), mas, de início, ele precisa de um chão para poder acompanhar a trama (MACIEL, 2003, p. 29). Filhos de Adão foi pensada como um melodrama, também chamado de drama moderno, no qual os conflitos envolvem o que se passa ao redor dos personagens com obstáculos que eles poderão superar ao descobrirem alternativas aos seus problemas. Mesmo quando alguns desses obstáculos não podem ser superados, suas conseqüências serão tristes, mas não serão de todo trágicas. São situações simples, na quais os elementos da trama estão em oposição aos desejos dos protagonistas, suscitando a compaixão do público. Davi quer ter um namorado, mas sua família não sabe que ele é gay, então ele deve esconder isso. Dionísio, embora não demonstre, gosta de Helen, mas é obrigado a ir para outra cidade. Átila não suporta ficar longe da filha, mas será obrigado a se distanciar dela quando se separa da mulher. Tons trágicos e cômicos poderão estar presentes a depender dos próprios acontecimentos com os personagens e da maneira como eles irão encarar os seus problemas. No que diz respeito aos elementos que envolvem especificidades do produto a ser criado, um roteiro de seriado televisivo, buscou-se verificar quais as peculiaridades de um seriado em relação a outros gêneros e como se dá a produção de uma obra voltada para a televisão. Escribir para Television, de Madeline DiMaggio (1992), Dramaturgia de Televisão, de Renata Pallottini (1998), Discurso Ficcional na TV, de Ana Maria Ballogh (2002), foram algumas das referências para essa fase da pesquisa além de outros artigos referentes à produção e ao mercado de televisão. O foco foi a forma como se classificam e como se constituem os formatos televisivos, como se dá o processo produtivo e que elementos devem ser levados em consideração na criação de produto para a TV. Ballogh (2002, p. 103), apesar de ressaltar a visão negativa que se tem dos modos de produção para a televisão, uma produção em série exigida pelo ritmo intenso e que permita rentabilidade, adverte que uma série envolve um amplo leque de aspectos a serem considerados, como é o caso 20 do episódio piloto e dos elementos que ela deve trazer, tais como uma descrição detalhada dos personagens principais, premissas dramáticas que a regem e elementos temáticos condutores. A importância do episódio piloto também é ressaltada por Pallottini: O primeiro episódio de um seriado é, portanto, capital; nele se deve apresentar clara e eficientemente todos os personagens principais, identificá-los, dizer o que são e como são; mostrar suas relações com os demais, seu modo de ser, suas crenças, seus desejos, seus objetivos de vida, o estágio em que estão. Deve-se dar a situação básica da comunidade ou do grupo que se quer tratar e, provavelmente, o problema inicial que deu origem ao estado atual de vida de todos (PALLOTTINI, 1998, p. 49 a 50). Nos seriados, especificamente, há algo de interessante na sua estrutura que merece uma atenção maior. Normalmente sua narrativa se dá em dois planos distintos e simultâneos. Um deles segue uma estrutura interna do episódio, com um conflito que normalmente se inicia e se resolve no mesmo episódio. O outro segue a macroestrutura da série, com acontecimentos que têm explicação em episódios anteriores e implicações em tramas futuras. Dessa forma ele pode ser assistido em episódios ou ser acompanhado do início ao fim de uma temporada. Uma série televisiva pode apresentar uma história que se inicia no episódio piloto e só se resolve no último episódio da temporada amarrando todos os episódios numa única trama. Essa unidade pode ser dada ainda por outros fatores. A unidade do seriado pode ser dada pelo protagonista, pelo tema, ou pela época, ligada, às vezes, ao local da ação; mas fundamentalmente a unidade se dá pelo propósito do autor, por um objetivo autoral, uma visão de mundo que ele pretende transmitir. (...) Um episódio deve contar sua história, inserir-se no conjunto e respeitar as características lançadas pelo programa no seu total.(...) A base da unidade se consubstanciará em personagens fixos, no tratamento de uma época, de um problema, de um tema (a feminilidade, a desigualdade social, o poder do dinheiro, o heroísmo dos motoristas de caminhão, o dia-a-dia de uma delegacia de polícia, etc.). É esse objetivo único que, realmente, unifica o seriado. Seus episódios serão, portanto, uma conseqüência desse objetivo básico, dessa cosmovisão, e terão como característica a relativa unidade de cada episódio e a unidade total de todo seriado, dada por um sentido de convergência (PALLOTTINI, 1998, p. 30 a 32). Em Filhos de Adão a unidade pretende ser dada através da temática, do ponto de vista masculino sobre os acontecimentos com um grupo de amigos homens. Durante toda a série serão recorrentes problemas comuns ao universo masculino sob seus pontos de vista, como a paternidade, as relações de trabalho, relações amorosas, homossexualidade e problemas sexuais, como a impotência. Como já mencionado antes, o episódio piloto de Filhos de Adão, foi pensado de acordo com a macroestrutura da série e sua função é apresentar ao público a temática da série, os 21 personagens que a conduzirão e forma como será realizada. A série, que traz a história de três personagens, tem três tramas que se entrelaçam o tempo todo. Os problemas e conflitos surgem a partir da experiência de vida de cada personagem e da sua relação com os demais. Os enredos criados futuramente para a série deverão apenas obedecer a uma visão geral já pensada para ela. “Os episódios precisam apenas ser interessantes e não colidir com o que ficou estabelecido como básico e fundamental no caráter dos personagens, na sua vontade, nos seus objetivos” (PALLOTTINI, 1998, p. 48). Tendo as bases necessárias para compreender os elementos essenciais para escrever um roteiro e para situar o roteiro de uma série televisiva conforme suas semelhanças e diferenças em relação a outros produtos audiovisuais, compreendendo a sua estrutura interna e seu tom predominante, foi necessário um aprofundamento no tema do seriado. 22 4 A abordagem do masculino Com a proposta de abordar o novo lugar do homem na sociedade contemporânea, um homem que se formou nas gerações após o movimento feminista dos anos 60, a idéia era colocar em foco as questões que dizem respeito a um novo padrão de masculinidade e que se colocam ao lado de questões sobre como o homem é e como vem sendo visto ao longo dos últimos anos. Essas questões serão trazidas através dos três personagens centrais da história: Átila, Davi e Dionísio, cujas descrições detalhadas encontram-se no apêndice deste material. Pensou-se em personagens que pudessem concatenar algumas das características que deveriam ser abordadas num seriado com uma temática voltada para o homem contemporâneo. Questões como a paternidade, as relações familiares, a homossexualidade, a amizade entre homens, o amor, o consumismo e a vaidade masculinas foram distribuídas entre os personagens. Dessa maneira surgiram cada um deles: Dionísio, o homem metrossexual, extremamente preocupado com a aparência, consumista e mal resolvido em questões amorosas, e que acaba, por isso mesmo, buscando resolver seus problemas através de uma vida sexual intensa; Átila, o pai carinhoso, decepcionado com a separação de sua esposa e, conseqüentemente, com o afastamento da filha. Átila representa um homem amoroso e atencioso no casamento, porém mal sucedido profissionalmente; Davi é um homossexual na fase “saindo do armário”, que busca aceitação da família (embora tenha uma relação conflituosa com o pai) e dos amigos, e busca encontrar um relacionamento amoroso ideal. Os conflitos desses personagens foram pensados como guias para uma temporada. Outros conflitos fazem parte de uma microestrutura compondo os episódios e ajudando a compor o quadro geral da série. Átila, por exemplo, terá de descobrir uma maneira de estar próximo da filha, mesmo estando separado da sua esposa, Karen. Durante seu percurso ele irá conhecer outras mulheres que irão influenciar a relação com a filha, irá interferir nas relações amorosas da sua ex-mulher e irá colocar em discussão a questão da guarda da filha. Todos esses conflitos, que se darão em episódios distintos ajudarão a compor a continuidade da série. 23 No caso de Davi, seus problemas serão a sua homossexualidade e a relação com a família e amigos e sua busca de um romance ideal. Compondo esse quadro teremos episódios nos quais ele irá ter problemas com a mãe, com os amigos e principalmente com o pai em dizer que é gay. Enquanto resolve esses problemas ele terá que lidar com um namorado que esconde de todos que é gay e que ainda sai com mulheres. E à medida que um conflito se resolve surgem outros. Já Dionísio terá que se adaptar com a sua vinda repentina para Salvador, que na verdade funciona como gatilho para a percepção de seu problema amoroso com Helen. O casal, que acredita ter um relacionamento aberto e moderno, sem complicações amorosas, só se percebe apaixonado depois da distância. No entanto, o orgulho de ambos os impede de viver esse relacionamento. Dionísio, enquanto um homem orgulhoso e vaidoso, não admitirá fraquezas no campo sentimental e buscará o sexo fácil como válvula de escape. Esses conflitos só se resolverão no final da temporada, quando surgirão novos conflitos que engatilharão uma segunda temporada para a série. A masculinidade e questões referentes a comportamentos e transformações do homem contemporâneo, apesar de já terem sido traçadas como parâmetros para uma temática da série, foram observadas a partir de alguns referenciais teóricos importantes para a definição de algumas das premissas dramáticas abordadas pelo seriado. Tentou-se buscar elementos que pudessem servir de base na composição dos personagens e dos conflitos em algumas obras que tratam do universo masculino, como XY – Sobre a Identidade Masculina, de Elizabeth Badinter (1993) e O Primeiro Sexo e Outras Mentiras Sobre o Segundo, de Sócrates Nolasco (2006). Uma investigação mais aprofundada destes temas permitiu uma melhor caracterização dos personagens, levando em conta aspectos históricos, sociais e psicológicos como elementos formadores de uma personalidade. Elizabeth Badinter (1993) traz justamente uma visão panorâmica sobre a identidade masculina que forma o pensamento ocidental interessante para a abordagem do tema da série. Após o movimento feminista dos anos 60 e com a força que o movimento gay teve a partir dos anos 80, houve uma desmistificação da superioridade do homem sobre a mulher e as fraquezas masculinas vieram à tona. Perdendo o seu papel de “sexo forte” e com o fim do “patriarcado” o homem se vê 24 perdido, buscando novos referenciais. Elizabeth traz conceitos como o “homem mutilado”, que seria o homem que perdeu parte de si e busca se encontrar, seja voltando ao ideal de masculinidade anterior, baseado na agressividade, na independência e na superioridade, seja buscando ser exatamente o contrário desse ideal, aquele que faz de tudo para agradar às mulheres, mostrando-se, por vezes, fraco e apático. Sugere então um novo tipo de homem, um homem cada vez mais comum, o “homem reconciliado”, aquele que encontrou seus referenciais, encontrou seu pai e reencontrou sua mãe e traz uma dualidade dentro de si capaz de conciliar o feminino e o masculino “alternando a expressão desses dois comportamentos segundo as exigências do momento” (BADINTER, 1993, 170). Em estudos das teorias da masculinidade Adriano de Leon (2004) afirma ser necessário ter uma visão geral das tendências da crise na ordem do gênero, segundo as três estruturas das relações do gênero definidas por Connell (Masculinities, 1995, citado por León, 2004). As relações de poder, as relações de produção e as relações sexuais e afetivas teriam entrado em crise com o colapso da legitimidade patriarcal, com as mudanças institucionais e com a estabilização da sexualidade de gays e lésbicas. Nesse cenário o homem (gay ou heterossexual) teve que se redefinir e adotar estratégias que legitimassem diferentes masculinidades. Filhos de Adão buscará contrapor esses diversos tipos de homem, mostrando nos seus personagens as mais diversas características e contradições, que “brigam” entre si, na tentativa de “formar” esses novos homens. “Hoje, os homens jovens não se reconhecem nem na virilidade caricatural do passado, nem no repúdio à masculinidade. Eles já são herdeiros de uma primeira geração de mutantes” (BADINTER, 1993, p. 187). As questões que envolvem as diferentes maneiras de ver a masculinidade entrarão na composição das tramas presentes na série. Esse conflito entre os diversos tipos de masculinidade será retratado através da maneira como os personagens vêem seu posicionamento diante da sociedade. A amizade entre eles será representada através da forma como um ajuda o outro, como eles se apóiam nas situações de crise e como, após uma divergência, eles se entendem e resolvem as diferenças. A intenção é mostrar a amizade entre eles como algo que vá além dos típicos parceiros de futebol e do churrasco de domingo. 25 A sexualidade será um dos pontos de vista através dos quais os personagens serão representados. Davi, homossexual, irá viver essa sexualidade de maneira segura, embora tenha problemas iniciais com a família. O contraponto a essa segurança será feito através de um de seus namorados (Eduardo), que será mais reprimido e terá mais conflitos morais. Átila faz um tipo romântico e sua sexualidade não será muito latente. Recém-separado de Karen, ele terá alguma dificuldade até se relacionar novamente com outra mulher. Além do mais, passa por um momento no qual suas atenções estão mais voltadas para a filha. Dionísio terá uma vida sexual intensa. Não querer demonstrar o amor por uma única mulher e o medo de ser rejeitado o fará buscar o prazer de todas as formas, sem se apegar a nenhuma mulher. A extrema vaidade de Dionísio será uma máscara para sua verdadeira insegurança, o medo de rejeição. Suas relações superficiais com as mulheres serão dessa maneira para que ele jamais se aproxime a ponto de ficar apaixonado. Ele cria uma barreira que não permite a aproximação de ninguém. A relação familiar passará por prismas distintos. O primeiro será o amor incondicional de Átila pela filha. Ele é capaz de tudo por ela. Ao separar-se de Karen, ele se sentirá privado de exercer esse amor e sofrerá muito. Um outro prisma será a relação conflituosa entre Davi e o pai. Um pai ausente que nunca deu a menor atenção ao filho. A mãe sempre foi carinhosa e protetora, mas sempre foi submissa ao pai. O pai não aceita o fato de que seu único filho seja gay e o rejeita ainda mais por isso. A mãe até tenta proteger o filho, mas é tão submissa que acaba cedendo ao marido. 26 5 Influências de público e mercado Seria necessário fazer uma breve análise sobre a maneira como o mercado publicitário e o público poderiam reagir ao produto aqui proposto. Uma pesquisa de público e de mercado poderiam dar conta de prever a aceitação por parte desses setores. O recorte deste trabalho, no entanto, não pretendeu se aprofundar nestas áreas, fazendo tão somente um levantamento de algumas questões referentes ao tema abordado pela série proposta. A intenção é simplesmente entender que alguns elementos podem influenciar na exibição de determinado programa em virtude de suas premissas e conceitos implícitos e explícitos a depender da maneira como determinada rede de televisão encara as questões relativas à sua política interna e ao seu público consumidor. Fatores como a política interna de uma emissora, sua grade de programação e a competitividade entre as emissoras influenciam na decisão de implementar ou não novos programas. Audiência, custos de produção, horários de exibição foram alguns dos dados que, em virtude do tempo e da atenção dedicada a outros elementos considerados mais importantes para um estágio inicial ficaram para ser aprofundadas num outro momento. Levando-se em consideração a importância e a influência que o campo econômico pode exercer no campo da produção televisiva foi interessante notar o espaço que o mercado publicitário vem dando a uma nova representação do masculino, mostrando outros aspectos antes negados à masculinidade, como a vaidade, a sensibilidade e a participação em tarefas domésticas. Um programa televisivo que aborda esses novos comportamentos poderá trazer possibilidades de veiculação e associação das mais diversas marcas ao universo ficcional o qual ele representa, tendo amplas possibilidades de atrair um mercado publicitário preocupado com novas tendências de comportamento. Depois de 1995, tanto na televisão como na revista, a representação paterna incorporou uma nova forma, mais participativa na educação e no acompanhamento dos filhos assim como colaborador da mulher nas funções do lar (...) Algumas empresas, principalmente multinacionais, como a Johnson e Johnson, Nestlé, Unilever mostrando o caso específico do dentifrício Gessy-Cristal (analisado por GARBOGGINI, 1999), estão realizando, no Brasil, campanhas publicitárias de produtos como fraldas, cremes dentais e alimentos, nas quais os homens, como pais, aparecem orientando ou cuidando do filho. Muitas vezes, o 27 enfoque mostra esse novo homem como um pai ativo e conhecedor das coisas da vida. (GARBOGGINI, 2005, p. 106) Quanto à influência do público, que, segundo Bolaño (2005), é quem determina, em última instância, as decisões das redes de televisão, parece claro que esse tipo de representação do masculino não incomoda mais o público brasileiro tanto quanto antigamente, ou não mais que outros povos latino-americanos. O público parece mais aberto a questões que coloquem o homem em posição de conflitos internos, questionamentos, fraquezas e não somente à imagem do homem forte e fonte de solução dos problemas. Conforme Lima, em pesquisa publicada na revista Época (30/05/2005, p. 86), “as premissas ‘homem não chora’ e ‘lugar de mulher é em casa’ são rejeitadas pela maioria dos brasileiros do sexo masculino. Os mexicanos são os que mais concordam com essas afirmações. Os brasileiros são também os que mais aceitam realizar trabalhos domésticos, enquanto os argentinos são os que menos encaram esse tipo de tarefa. Aqui, 76% acreditam que a mulher deve trabalhar fora”. Ainda nos parece cedo dizer que o brasileiro não é machista, mas alguns sinais estão aparecendo para mostrar que algumas coisas estão mudando. (GARBOGINNI, 2005, p. 101) Pesquisas de opinião6 revelam tendências nas quais tanto homens quanto mulheres identificam-se nos casos em que são representados fazendo as mesmas coisas, dividindo tarefas, sem uma divisão por gênero. É preferida uma visão na qual um único modelo dá lugar à pluralidade e na qual os homens sentem-se livres por não ter que corresponder a modelos pré-estabelecidos. O universo ficcional que se pretende representar em Filhos de Adão é a vida de três homens que têm uma grande relação com o que Badinter chama de “homem reconciliado”. Nossos personagens, no entanto, estarão numa busca pela descoberta de si próprios, vivida através dos conflitos nos quais eles têm suas decisões guiadas pelos mais variados pontos de vista. 6 Pesquisa realizada pelo IBOPE A presença masculina na propaganda: que modelo é esse?, apresentado no Congresso Brasileiro de Pesquisa de Mercado, Opinião e Mídia (organizado pela Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa - ABEP) por Lúcia Costa e Laure Castelnau, diretoras de atendimento e planejamento do IBOPE Solution. 28 6 Considerações Finais O que se pôde perceber durante a prática da escritura de um roteiro foi a gama de elementos que estão por trás do seu processo e a importância deles para uma coerência do material final a ser apresentado. Muitos dos elementos pensados talvez nem entrem diretamente nas histórias a serem exibidas ao público, mas servem como elementos constitutivos dos perfis dos personagens, fundamentais para traçar os seus conflitos e a maneira de encará-los. Os trabalhos de pesquisa e de elaboração do roteiro traziam novas informações e novos questionamentos a cada dia que só contribuíam para enriquecer o produto final. As dúvidas presentes em diversas fases do processo criativo permitiram a busca de melhores saídas para alguns dos problemas de roteiro. É evidente que ainda há muito trabalho a se realizar para que se alcance um outro patamar de criação. Há que se aprofundar em novos questionamentos, buscar informações no que diz respeito a uma possível produção desta série ou mesmo sobre como ingressar nessa carreira profissional. Existe, por exemplo, uma maneira de apresentar uma proposta de série televisiva chamada “Bíblia”7. A Bíblia é um instrumento de trabalho que contribui com os roteiristas na hora de apresentar seu trabalho a uma rede de televisão, necessária também ao trabalho do diretor, produtor e demais envolvidos numa criação deste porte. A Bíblia fornece dados como os perfis dos personagens, as relações existentes entre eles, seus antecedentes e seu papel na estrutura geral da série. Define também o tom, o estilo e a estrutura formal dos roteiros, sendo necessário que, a cada episódio da série, haja coerência com o que estava definido na Bíblia. Apesar de termos alguns dos elementos presentes na Bíblia, não foi nossa proposta elencar todas as informações de que este instrumento dispõe. A Bíblia nos serviu como base para algumas das informações necessárias para se apresentar uma proposta de série televisiva, como a sua proposta 7 A Bíblia é um material composto por sinopse, descrição dos personagens, ambientação e elementos de produção que serve como um material comercial de divulgação da obra que se pretende produzir. Sua utilização é bastante difundida na Espanha, nos cursos de roteiro. Durante este trabalho teve-se acesso à Bíblia de Miranda, material utilizado para divulgação comercial da série Terras de Miranda (2001), exibida na televisão galega. 29 geral, possíveis interesses comerciais associados, público alvo, definições de cenários, núcleos de personagens, etc. Foi inserido aqui o que há de mais importante para a compreensão da história em si: os perfis dos personagens, a sinopse e o roteiro do episódio piloto e uma visão geral da primeira temporada, com desdobramentos e possibilidades acerca das tramas. Outra ferramenta disponível para os roteiristas atualmente são os softwares que podem contribuir na escritura do roteiro. Importante conhecê-los. Utilizá-los pode ser considerada uma questão de método. Não se considerou necessário o uso de nenhum destes softwares para o atual projeto. Grupos de discussão, fóruns e comunidades na Internet também se mostraram importantes ferramentas para quem deseja seguir a carreira de roteirista. Informações de todos os tipos, roteiros de séries, telenovelas e dos mais diversos gêneros existentes, assim como a possibilidade de participação em cursos e concursos estão sempre disponíveis nesses fóruns. Além do contato com pessoas que já trabalham nesta área e discussões a respeito de temas atuais, tais como a maneira que determinadas produções estão sendo realizadas, seus pontos fortes e fracos, informações extras, amplas possibilidades de conhecimento. As diferentes etapas no processo de criação, as longas horas de análise, as reuniões de orientação, as revisões na estrutura, as mudanças no roteiro, todo o processo que começa com uma pequena idéia e um papel em branco e ainda não termina com o roteiro finalizado (é preciso a transformação do roteiro numa obra audiovisual) foram importantes para que o processo seja realizado, daqui a diante, de uma maneira mais consciente. Pôde-se perceber que escrever um roteiro é mais do que se sentar na frente do computador e escrever uma história do começo ao fim, em ordem cronológica. É um trabalho que necessita ser estruturado, escrito e reescrito. É necessário voltar ao material depois de pronto e rever detalhes, incluir ou excluir cenas a fim de que o roteiro contenha o que aquela história necessita. O resultado de uma experiência como esta é que a técnica que envolve a criação de um roteiro, os procedimentos adotados, as estruturas a partir das quais se pensa numa história são gradualmente naturalizadas e o processo de criação passa a fluir de uma maneira mais espontânea. É evidente 30 que para se chegar a um aperfeiçoamento maior é necessária a prática incessante desta atividade e o relacionamento com o mercado e com todas as suas pressões. No entanto este trabalho cumpriu o objetivo de dar um passo inicial, entendendo a maneira como se dá o processo de criação de um roteiro e suscitando a vontade de continuar a exercitar esta prática e continuar com a busca de conhecimentos acerca deste assunto. 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. Arte Poética. São Paulo: Martin Claret, 2005. 150 p. Tradução de: Pietro Nasseti. BADINTER, Elizabeth. XY – Sobre a Identidade Masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. 266 p. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. BALLOGH, Ana Maria. Discurso Ficcional na TV. São Paulo: Edusp, 2002 BORELLI, Sílvia H. S. Telenovelas: padrão de produção e matrizes populares. In: Brittos, Valério Cruz & Bolaño, César Ricardo Siqueira (orgs.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005. BOLAÑO, César. Mercado Brasileiro, 40 anos depois. In: Brittos, Valério Cruz & Bolaño, César Ricardo Siqueira (orgs.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005. 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São Paulo, Editora Moderna, 1998. 33 SÉRIES TELEVISIVAS ARONSOHN, Lee; LORRE, Chuck. Two and a Half Man (Episódio Piloto). EUA. Warner Bros Television. 2003 BALL, Alan. Six Feet Under (Episódio Piloto). EUA. Home Box Office (HBO). 2001 BRAGA, Felipe; BELLOTTO, Tony. Mandrake (Episódio Piloto). Brasil. Conspiração Filmes; HBO Latin American Group. 2005 CRANE, David; KAUFFMAN, Marta. Friends (1ª Temporada). EUA. Warner Bros Television. 2004 CHERRY, Marc. Desperate Housewives (1ª, 2ª e 3ª Temporadas). EUA. Touchstone Television; American Broadcasting Company (ABC). 2004-2006. DAVIES, Russell. Queer as Folk (1ª e 2ª Temporadas). EUA. Cowlip Productions; Showtime Networks. 2000-2001 KNAUF, Daniel. Carnivàle (1ª Temporada). EUA. Home Box Office (HBO). 2003 MCDOUGALL, Charles. Queer as Folk (1ª Temporada). Reino Unido. Real Production Company. 1999 MARIANA, Maria; MARINHO, Euclydes. Confissões de Adolescente (Episódio Piloto). 15-30 Productions; TV Cultura. Brasil. 1994 RHIMES, Shonda. Grey’s Anatomy (Episódio Piloto). EUA. Touchstony Television; Buena Vista Television. 2005 SCHEURING, Paul. Prison Break (1ª e 2ª Temporadas). EUA. Fox Television. 2005-2006 STAR, Derren. Sex and the City (1ª e 6ª Temporadas) EUA. Darren Star Productions; Home Box Office (HBO). 1998; 2003 WILLIAMSON, Kevin. Dawson’s Creek (1ª Temporada). EUA. Columbia Tristar Television. Sony Pictures Television. 1998. 34 APÊNDICE 35 APÊNDICE A - Descrição dos Personagens Átila Ferreira 26 anos Administrador Mulato, alto e forte, usa óculos, estilo de roupa casual e esportivo. Freqüentador assíduo da academia de musculação. Átila é formado em administração e é funcionário de uma loja de roupas masculinas. Trabalha com Karen, sua esposa no primeiro capítulo, recém-formada em moda. Átila e Karen casaram-se após ela ter engravidado de Luíza, hoje com sete anos de idade. Karen cresceu profissionalmente muito mais que Átila e após tanto tempo, numa relação que ela achava morna, decidiu se separar, por ter também se cansado de ser “o homem da casa”, que assume as responsabilidades financeiras. O maior desejo de Átila é estar perto de sua filha. Com a separação ele fica inseguro. Inicialmente tenta convencer Karen a voltar, mas, quando enxerga que não há mais volta, irá pedir a guarda da filha, não por vingança, mas por querer muito a sua companhia. Átila evitará se aproximar de outras mulheres justamente por acreditar que ainda tem chances com Karen. Isso só ocorrerá numa daquelas situações em que os amigos acabam empurrando alguém em suas mãos. Ainda assim ele, apesar de ser cordial, poderá até se envolver, mas não deixará nenhuma delas chegar muito perto. Sua relação com essas mulheres é de respeito. Ele conhece, ficam juntos, mas quando começam a se envolver mais, algo acontece e ele desiste em nome da esperança de voltar para Karen. Não quer apresentar nenhuma delas à sua filha, com medo que a garota não aceite e não compreenda. Sua vontade de ficar com a filha é maior do que tudo e sua obstinação nisso o faz esquecer de cuidar de suas próprias relações, deixando as mulheres que eventualmente aparecem no seu caminho em segundo plano. É otimista e extrovertido, bem humorado mesmo quando a situação não é das melhores. Seu maior medo é desapontar a pequena Luíza. É um tanto quanto avesso a 36 grandes mudanças, prefere sempre deixar as coisas como estão, sendo um pouco acomodado em determinadas situações. Dionísio Novaes 26 anos Publicitário Carioca, um pouco alto, cabelos pretos, lisos, atraente, tem um estilo mais fashion, na moda. Dionísio acaba vindo morar em Salvador para trabalhar numa filial da agência de publicidade em que trabalhava no Rio de Janeiro. Ambicioso e com espírito de liderança, ele foi designado para exercer uma função importante na filial baiana de sua agência. Dionísio não gosta da idéia, mas acaba acatando às decisões de sua chefia. No Rio de Janeiro, tinha uma relação peculiar com Helen. Eles sempre tiveram curtos envolvimentos e forte ligação sexual, mas jamais assumiram os sentimentos um para o outro. Os dois são orgulhosos e não querem assumir que se amam. Somente depois que estão longe um do outro é que se dão conta dos seus sentimentos. A esta altura Dionísio já estará magoado com Helen e buscando esquecê-la das mais diferentes maneiras. Dionísio aparenta ser alguém que não se importa muito com o que os outros pensam a respeito de si. Busca sexo fácil com as mulheres, evita ao máximo contatos mais íntimos. Seus relacionamentos fortuitos serão apenas na busca de prazer, mas também serão tão superficiais por Dionísio não achar características que superem as daquela mulher que ficou para trás. Consumista e vaidoso ao extremo, Dionísio é o típico metrossexual. Espelhos, produtos de beleza, dietas e academia de ginástica fazem parte do seu dia-a-dia. Seus finais de semana se resumem a praia durante o dia e baladas durante a noite. Acredita que cada minuto perdido não volta jamais e, portanto, tenta aproveitar ao máximo todo o seu tempo com diversão. Deseja mais do que tudo reconhecimento. Não sabe lidar muito bem com as críticas, mas não admite esse seu lado. É dependente da atenção e da admiração dos outros, gosta de estar no 37 centro de tudo. Isso, no fundo, demonstrará uma grande carência afetiva e insegurança. Teme ser rejeitado e, por vezes, se antecipará a isso (rejeitar para não ser rejeitado). Davi Albuquerque 23 anos Arquiteto Altura mediana, peso proporcional, branco, um estilo bem discreto, mas na moda. Recémformado, Davi morou no Rio de Janeiro e agora, em Salvador, ainda mora com os pais num grande apartamento na Barra e trabalha num pequeno escritório de arquitetura e decoração nas proximidades de casa. Davi é homossexual e está na fase “saindo do armário”, na qual seus pais descobrem que ele é gay. Tem um ideal romântico de amor, mas não encontrou até agora, ninguém que se encaixasse no seu ideal. Encara sua homossexualidade com tranqüilidade, mas não suporta a idéia de não poder demonstrar carinho em público. Sabe dos problemas que pode enfrentar por causa do preconceito, mas prefere lutar contra isso. Tem um relacionamento complicado com a família. Um pai ausente e uma mãe carinhosa e protetora, mas submissa ao pai. Não sente confiança o suficiente para se abrir sobre questões íntimas. Isso fará com que a descoberta sobre sua sexualidade seja ainda mais constrangedora. Um de seus maiores conflitos será tentar se desligar mais da família e buscar os seus próprios caminhos. Relacionar-se-á com alguém que conhecerá durante o seriado, Eduardo (um amigo de Átila). Mas Eduardo, por ser completamente inseguro quanto à sua sexualidade, não assumirá uma relação com Davi nos moldes que ele gostaria. Terão encontros fortuitos, longe dos amigos em comum, esconderão sua relação e Davi terá que se submeter a certos caprichos do parceiro. 38 Personagens secundários Karen, 28 – mulher/ ex-mulher de Átila. Cabelos pretos, bonita. Dominadora, gosta de se impor. Recém-formada numa faculdade de moda, ela trabalha na mesma loja que Átila. Decidida e inteligente, ela é gerente da loja. Almeja crescer ainda mais e não permite que nada da sua vida pessoal atrapalhe sua carreira. Casou-se com Átila quando estava grávida de Luíza, mas passou a vida toda se lamentando de um casamento frustrado. Tem uma relação de competitividade com o marido. Com a separação terá uma relação inicialmente amigável, mas deixará sempre Átila numa posição inferior cada vez que ele tentar uma reaproximação. Terá um curto envolvimento com Dionísio que abalará um pouco a amizade entre ele e Átila. Luíza, 7 – Filha de Karen e Átila. Carinhosa e inteligente. Terá uma boa relação tanto com o pai como com a mãe, o que será uma complicação na hora de decidir a respeito da sua guarda. Ela se apegará muito a Davi, e implicará um pouco com Dionísio. Edmundo, 53 - Chefe de Átila e Karen. Dono da rede de lojas, paulista e com muitos negócios por lá. Só vem a Salvador uma vez por semana e deixa a loja nas mãos da gerente geral. Quer sempre expandir os negócios, seja aumentando o faturamento, criando novas lojas, cortando gastos. Não admite que os problemas pessoais dos funcionários interfiram no trabalho. Eugênio, 39 - Chefe de Davi. Um arquiteto boa praça, não gosta de ser tratado como chefe. Prefere ser visto como um colega de profissão. Tenta manter uma relação de amizade entre os arquitetos do escritório. Mas seu escritório não é dos mais famosos e por vezes passará por algumas crises, sobretudo financeiras, em virtude de Eugênio não ter grandes contatos, fundamentais para sua área, resultando em problemas para os demais arquitetos. Numas das crises cogitará em vender o escritório. Tatiana, 28 – Secretária e recepcionista do escritório de arquitetura onde Davi trabalha. Muito simpática, meio espalhafatosa, gosta de falar alto e falar de sexo e intimidades. Faz amizade fácil com quem é receptivo ao seu jeito expansivo de ser. Também não tem meias palavras quando não 39 gosta de alguém. Muito amiga de Davi, faz de tudo para não vê-lo triste, por ver no amigo uma pessoa de bom coração, diferente das outras com quem é acostumada a lidar. Estará sempre dando conselhos ao amigo, o ajudando nos seus relacionamentos amorosos. Área na qual ela mesma não se dá muito bem. Embora seja atraente e exuberante, seus relacionamentos não vão muito a fundo. Alguns dos homens com quem ela encontra estão afim apenas de sexo. E por uma mistura de ingenuidade e carência, ela acaba se entregando a esses relacionamentos que depois acabam deixando-a frustrada. Afonso, 50 - Pai de Davi. Homem sério e comedido. É um dos sócios minoritários de uma rede de hotéis em Salvador e na Costa do Sauípe e por isso nunca está muito presente em casa. Vive para os negócios e deixa os assuntos da casa e da família em segundo plano. Embora seja sócio minoritário, gosta de ter o status de “dono” de uma rede de hotéis. Quer que a sua vontade seja seguida à risca e gostaria que Davi se interessasse pelos negócios a fim de que ampliassem sua participação na empresa. Justamente por Davi não se interessar nem pelos negócios nem por quase nada que o pai gostaria, a relação dos dois é bastante conflituosa. Marta, 45 - Mãe de Davi. Casou-se cedo e sempre teve sua vida nas mãos do marido. Submissa, ela sempre faz as suas vontades. Tenta proteger o filho, mas jamais ultrapassa os limites impostos por Afonso. Tem uma visão um pouco temerosa e preconceituosa a respeito da sexualidade do filho, achando que de alguma forma poderá mudá-lo. Teme as reações de Afonso ao descobrir que Davi é gay. Como vive em função do marido, sua própria vida é relegada a segundo plano, o que acaba fazendo com que ela não conheça as próprias vontades, desejos e medos. Aos poucos vai tentando entender a vida do filho, buscando informações e tentando se aproximar. Essa aproximação será bem difícil no começo, em virtude da maneira como ela encara a sua homossexualidade. Helen, 25 – Ex-namorada de Dionísio. Publicitária, mulher atraente e misteriosa. Uma mulher sem preconceitos, culta, moderna. Não é do tipo mau-caráter, mas não acredita mais no amor, na fidelidade, na felicidade a dois, em cara-metade, alma gêmea, nada disso. Gosta de Dionísio, mas por não acreditar num amor duradouro, prefere manter um relacionamento aberto. Será a responsável por Dionísio sair do Rio de Janeiro e ir morar em Salvador. Depois de algum tempo 40 dessa mudança ela sentirá falta de Dionísio e saberá o que realmente sente por ele, decidindo vir ao seu encontro em Salvador. A esta altura Dionísio tomará uma postura defensiva e orgulhosa, mantendo-a distante. Helen, também orgulhosa não ficará correndo atrás dele. Haverá então um joguinho de ciúmes entre os dois, ficando com outras pessoas. Eduardo, 28 - Amigo de Átila. Policial, tem um estilo extrovertido. É bissexual, mas tem problemas com a sexualidade, não consegue assumir nem pra si mesmo. Irá se envolver com Davi. A relação dos dois se dará de uma maneira completamente diferente da que Davi gostaria. Davi se apaixonará por Eduardo, mas este não quer abrir mão de uma postura “heterossexual”. Por isso continuará saindo com mulheres. Por outro lado, não quer abrir mão da companhia de Davi. Ele vai descobrindo aos poucos o quanto gosta de Davi e que pode ficar feliz somente ao lado dele. Outros Artur Pedro Torres Secretária Rapaz Recepcionista 1 Recepcionista 2 41 APÊNDICE B - Ambientação A série se passará em Salvador, na Barra, mostrando um clima urbano com shoppings, faculdades, teatros, restaurantes, praias, fugindo do estereótipo “Pelourinho, baiana de acarajé, capoeira” e tendo como principais cenários: Praia do Porto da Barra Praia de Salvador, freqüentada por pessoas de todos os tipos, muitos jovens, turistas, vendedores ambulantes, gays, patricinhas. Academia de Musculação Sem nome definido ainda (talvez nem precise, tendo em vista que as cenas se passarão sempre no interior da academia). Uma academia grande, freqüentada por pessoas de classe média que moram na Barra. Boates e bares A principal casa noturna freqüentada pelos personagens será a Boate Éden. Ampla, colorida, freqüentada por muita gente bonita, com um grande bar localizado no centro da boate. Na frente da boate há outros bares que ficam sempre lotados, onde os personagens poderão passar um tempo antes de entrar na boate. Loja de roupas onde Átila e Karen trabalham (localizada num Shopping Center) É uma grande rede de lojas de roupas masculinas que possui lojas espalhadas em vários locais da cidade. Átila trabalha especificamente numa das lojas localizadas num Shopping Center na Barra. A loja, como qualquer outra de tamanho médio, com vitrine, balcões, provadores. Bem próximo à loja, do lado de fora há um pequeno Café, num quiosque do shopping. Agência de Publicidade onde Dionísio trabalha Ambiente requintado, com equipamentos e móveis aparentemente caros, tudo de última tecnologia. Recepção, sala de reuniões, departamento de criação, edição de textos e imagens, mídia, produção, financeiro, atendimento. Teremos duas agências parecidas que podem utilizar os 42 mesmo cenários, com pequenas modificações: a do Rio de Janeiro (1º episódio) e a filial de Salvador (demais episódios). Escritório de Arquitetura onde Davi trabalha Escritório pequeno, mas bem decorado. Recepção onde trabalha Tatiana, a amiga de Davi. Sala do arquiteto que é dono do escritório, e mais duas salas grandes, com mesas, computadores e impressoras. Há ainda uma sala de reuniões e uma pequena copa onde o pessoal se reúne para tomar café e bater papo. Apartamento de Karen Pequeno, mas bem arrumado e confortável. Quarto de Átila e Karen e quarto de Luíza com muitos brinquedos. Apartamento dos pais de Davi Apartamento amplo e espaçoso, típico de uma família de classe média alta. Requintado, com objetos de decoração, cores frias, do tipo onde ninguém fica a vontade, com medo de sujar o tapete ou quebrar algum objeto caro. Apartamento dos três amigos Apartamento médio, alugado, com 3 quartos. Um de cada um. Cada um com seu estilo. Quarto de Átila, confortável e com espaço pra ele praticar exercícios físicos. O de Dionísio com espelhos, fotos dele, muitas roupas e acessórios (cintos, correntes, chapéus). O quarto de Davi bem organizado, cada coisa no seu lugar, muitos livros, CD’s e DVD’s. As áreas comuns, como sala e cozinha, estarão sempre desarrumadas. 43 APÊNDICE C - STORY LINE DO PILOTO - “Expulsos do Paraíso” Três jovens estão tendo grandes mudanças em suas vidas. Dionísio sai do Rio de Janeiro para trabalhar numa filial de sua agência de publicidade em Salvador, ficando longe da mulher que ama, mas que tem dificuldade em admitir. Átila se separa da mulher e terá que sair de casa e ficar longe da filha que tanto ama. Davi revela para a mãe que é homossexual, o que provoca um malestar entre eles e ele prefere sair de casa. Ao fim do dia os três se encontram, desabafando seus problemas e acabam decidindo morar juntos. 44 APÊNDICE D - SINOPSE DO PILOTO - “Expulsos do Paraíso” Início de manhã. Os três personagens estão cada um na sua casa, fazendo tarefas do cotidiano. Dionísio toma banho, faz a barba e passa cremes no rosto. Davi arruma suas coisas pra trabalhar enquanto ouve música eletrônica no quarto, depois desce as escadas de sua casa para tomar café da manhã. Átila acorda, faz alguns exercícios físicos em casa, brinca com a filha e se prepara para trabalhar. (Até aqui nenhum diálogo. Só imagens e trilha sonora). Importante mostrar que Átila e Davi estão em Salvador e Dionísio está no Rio de Janeiro. Dionísio faz uma apresentação para um grupo de clientes na sua agência de publicidade que coincide com uma apresentação do tema da série Filhos de Adão (a identidade masculina). Quando Átila chega para a mesa do café da manhã, Karen o recebe com uma cara de poucos amigos e fala que ele está atrasado para levar Luíza à escola, “mais uma vez”. Pergunta se ele pagou a conta do celular. Átila “mais uma vez” esqueceu. Ele demonstra estar pouco preocupado com as conseqüências de suas pequenas falhas e, com muito carinho, conduz a filha para levá-la à escola. Karen demonstra muita irritação. Dionísio chega na agência bastante feliz, tranqüilo, cumprimentando a todos. Numa reunião com a diretoria é decidido que Dionísio deverá vir a Salvador pra assumir um papel importante numa campanha. Embora venha exercer um cargo importante, ele não gosta da idéia. Ele se decepciona ao perceber que Helen teve grande participação na decisão. Durante o café da manhã, Davi tem uma discussão com o pai. Depois ele pega suas coisas e sai pra trabalhar. No escritório, conversa com sua amiga, Tatiana, e percebe que continua perdendo projetos importantes. Átila deixa Luíza na escola e segue com Karen rumo ao trabalho. Chegam atrasados e Karen, que tem um cargo acima do marido é chamada à atenção pelo chefe. Karen diz que não irá mais permitir que Átila “atrase” sua vida. Eles têm uma grande discussão, em plena loja. Até que Karen diz que não quer mais continuar seu casamento com Átila. 45 Davi chega em casa acompanhado de um rapaz e, por uma coincidência, sua mãe, que estava próximo à porta do apartamento, os vê num abraço mais íntimo. Marta e Davi têm uma conversa difícil na qual Davi tenta dizer que realmente é gay, enquanto a mãe tenta rejeitar essa hipótese. Átila volta com Karen e Luíza para casa. Após uma conversa decisiva, quando vêem que a única coisa a fazer é se afastarem, Átila pega uma mochila, põe algumas roupas, enquanto Karen o observa. Luíza faz algumas perguntas e Átila tenta diminuir o impacto de sua saída. Depois de uma semana, os três se encontram no hotel do pai de Davi, no dia em que Dionísio chega a Salvador. Davi reconhece Dionísio e se surpreende por reencontrar o amigo. Davi o apresenta a Átila. Os três vão a um barzinho e conversam sobre o que se passou com eles. Acabam decidindo morar juntos. O episódio termina com os três amigos entrando na boate. 46 APÊNDICE E – Sinopse resumida da Primeira Temporada No episódio piloto são apresentados os protagonistas e seus conflitos principais: Dionísio, sua relação conflituosa com Helen e sua vinda a contragosto para Salvador; Átila, sua separação e a distância da filha; Davi e seus conflitos com a família, principalmente por conta da sua sexualidade. Depois disso os três amigos decidem morar juntos, dividindo um pequeno apartamento. A convivência a três será um primeiro ponto de conflito, no qual irão se acentuar a diferença de estilo de vida entre os três. Sobretudo entre Átila e Dionísio, o primeiro mais simples e o segundo mais extravagante. Átila não se conformará com a postura individualista de Dionísio, que não parece se importar com a coletividade, desde que com ele esteja tudo bem. Davi tentará apaziguar as brigas. Depois será a vez de Átila e Davi entrarem em conflito quando Átila descobre que o amigo é gay. Davi toma uma postura diferente em relação a Dionísio e Átila. Por Dionísio já saber que Davi é gay, Davi parece mais próximo a ele, ficando um pouco mais reticente em relação a Átila. O problema aqui será Átila achar que Davi não confiava nele o suficiente para se abrir. Ainda amargurado e sentindo falta de Helen, embora não admita, Dionísio irá se entregar ao sexo fácil, casual e sem envolvimento emocional. Álcool e drogas também serão usados como instrumentos de fuga da realidade. Quando os amigos o vêem caindo no exagero tentam alertá-lo, mas ele acaba brigando com eles por achar que estão tentando limitá-lo. Dionísio só cai na real depois de quase ser preso por uma de suas loucuras. Átila continuará por algum tempo ainda ligado a Karen e não conseguirá se envolver com outras mulheres. Porém terão alguns atritos na loja, onde Karen fará uso do seu poder como gerente. Um dos pontos fortes será a competitividade, quando Átila tentará ocupar o cargo exercido por Karen. A relação do casal separado passará por conflitos quando Átila perceber que Karen está começando a se relacionar com outros homens. Outro ponto de conflito é a guarda de Luíza. 47 Sobretudo quando Karen decide sair da cidade e Átila fica com medo de perder o contato com a filha. Nesse momento ele entra numa batalha judicial para reaver a guarda da filha. Em determinado momento da trama Davi passa por problemas financeiros e profissionais. Não consegue bons projetos e, conseqüentemente, não consegue dinheiro. Marta, sabendo que Davi passa por problemas financeiros, pressiona para que ele volte para casa. Ele se revolta com a mãe, que chega a ir ao apartamento dos amigos. A essa altura Davi também terá algumas dificuldades por sempre aproximar-se de algumas pessoas, tentar investir numa relação e não ter sucesso. Se sente um incompetente no plano amoroso. É quando Davi conhece Eduardo, um amigo de Átila, policial. A aproximação dos dois será lenta, mas acontecerão muitas coisas ao longo de toda a temporada. Eduardo, embora sinta atração por homens, não consegue admitir isso nem para si mesmo. Ele sai com os amigos e se envolve com mulheres. Num determinado momento ele ficará com Davi. Mas no dia seguinte, Eduardo tenta fugir de Davi quando estão junto com os outros amigos, sentindo-se até incomodado e deixando Davi numa situação constrangedora. Só depois de algum tempo, quando Eduardo se sentir realmente apaixonado por Davi, assumirá uma relação perante os amigos. Depois de algum tempo, Helen encontra um pretexto e vem a Salvador tentando se aproximar de Dionísio que a princípio assume uma postura defensiva. Ao mesmo tempo Dionísio não consegue esconder dos amigos a sua paixão por Helen. Ele continua saindo com outras mulheres à procura de sexo fácil. Até o final da temporada os problemas dos três se resolvem, no entanto outras complicações acontecem na vida de cada um deles. Quando Dionísio resolve se aproximar de Helen, descobre que contraiu o HIV. Quando Davi e Eduardo ficam juntos eles descobrem que Eduardo engravidou uma mulher. Quando Átila consegue a guarda de Luíza, ele acaba perdendo o emprego. 48 APÊNDICE F - Roteiro “FILHOS DE ADÃO” 2007 Episódio Piloto: “Expulsos do Paraíso” Roteiro de Gustavo Bezerra PRIMEIRO BLOCO FADE IN: CENA 01 - MONTAGEM DE IMAGENS Imagens antigas, em preto e branco, de multidões de homens, entrando em fábricas, exercendo trabalhos pesados e nos campos, trabalhando em colheitas. Imagens de um homem à mesa com sua família, sendo servido pela esposa (caracterizados com roupas do início do século XX). Imagens de homens de paletó em um bonde e nas ruas com jornais. Homens andando a cavalo. Um jogo de futebol. Imagens de guerra. DIONÍSIO (V.O) A palavra “Homem” costumou, durante séculos, designar o ser humano de maneira geral. Ele sempre foi o representante maior da espécie. Servia como referência, aparecendo sempre em primeiro lugar. Da costela de Adão que nasceu Eva... Deus fez “o homem” à sua imagem e semelhança... Essa, talvez, tenha sido a mesma prerrogativa que o forçou também a ser o sexo 49 forte. Com muitos deveres e obrigações que, com o passar do tempo, o deixaram cada vez mais perdido. Sem saber que lugar ocupar, sem saber quem realmente ele deveria ser. Ele só sabia que tinha que ser um homem, forte e viril. CENA 02 - RIO DE JANEIRO – EXT – DIA Imagens aéreas do Rio de Janeiro, mostrando pontos turísticos: Cristo Redentor, Pão de Açúcar, Copacabana. CENA 03 - APARTAMENTO DE DIONÍSIO – BANHEIRO – INT – DIA Um banheiro espaçoso, com espelho grande e repleto de produtos de beleza. Dionísio, 26 anos, muito bonito, branco, cabelos pretos, levemente bagunçados e molhados, corpo definido e sem pelos, está com uma toalha em volta da cintura e faz a barba em frente ao espelho com um BARBEADOR ELÉTRICO. CENA 04 - SALVADOR – EXT – DIA Imagens de Salvador (também pontos turísticos – Abaeté, orla marítima, Pelourinho), terminando no Farol da Barra. CENA 05 - APARTAMENTO DE ÁTILA – QUARTO – INT – DIA Um quarto espaçoso com uma cama de casal desarrumada e um guarda-roupa grande. Na cama, uma toalha de banho jogada. Ao lado dela, Átila, um mulato, musculoso, 26 anos, usando uma bermuda estilo surfista, faz alguns abdominais, respirando ofegante. CENA 06 - APARTAMENTO DE DAVI – QUARTO – INT – DIA Quarto amplo, bem decorado, predominantemente preto e branco, com computador, TV de tela plana, tudo de última geração, estante com muitos livros, CD’s e DVD’s, um quadro grande na parede por trás da cama. Davi, 23 anos, branco, altura mediana, magro, cabelos claros, bonito, barba por fazer, ouve MÚSICA ELETRÔNICA dançando pelo quarto enquanto abre as portas do guarda-roupa. CENA 07 - APARTAMENTO DE DIONÍSIO – BANHEIRO – INT – DIA Dionísio passa um creme no rosto. Arruma cuidadosamente o cabelo com uma pasta. 50 DIONÍSIO (V.O) Que virilidade é essa, que obrigou esses homens a esquecerem de si mesmos? Esquecerem de se preocupar com sua aparência, com o corpo, com a beleza... Que os impede de reconhecer o que é a beleza masculina? CENA 08 - APARTAMENTO DE ÁTILA – QUARTO DE LUÍZA – INT – DIA Quarto cheio de brinquedos e com decoração infantil. Átila usa calça e sapatos e tem uma camisa nas mãos, brinca com a filha, Luíza, 7 anos, morena, cabelos escuros e cacheados, fazendo cócegas na sua barriga. Karen, 28 anos, morena, cabelos pretos, longos, aparece na porta mostrando o relógio para Átila exprimindo impaciência. Átila, indiferente, continua brincando com Luíza. DIONÍSIO (V.O) Que homem é esse, que tem que estar distante dos filhos? Passar anos e anos de sua vida, sendo considerado o pai ausente? Responsável somente pelos castigos e desobrigado de qualquer demonstração de carinho? CENA 09 - APARTAMENTO DE DAVI – QUARTO – INT – DIA Davi tem duas camisas à sua mão. Uma gola pólo e outra colorida com listras. Olha-se no espelho, põe uma camisa na frente do corpo, depois a outra. Joga a gola pólo na cama e veste a colorida. Pega uma mochila e um tubo (desses usados por arquitetos) e sai do quarto. DIONÍSIO (V.O.) Esse é o mesmo filho, que tinha que provar sua macheza aos pais, parentes e amigos. Porque pra ser um homem de verdade deveria ser insensível e bruto. CENA 10 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – SALA DE REUNIÕES – INT – DIA Dionísio aparece falando numa apresentação para seis pessoas numa mesa na sala de 51 reuniões da agência. São exibidas algumas imagens antigas no telão (continuação das imagens da CENA 01). Dionísio fala apontando para o telão, olhando nos olhos e observando a expressão de cada um dos presentes. DIONÍSIO Aqueles, definitivamente, não são os nossos homens, senhoras e senhores. Não são os homens que queremos para representar a nossa marca. O telão se desliga e a luminosidade da sala aumenta. Dionísio exibe quatro cartazes espalhados pela sala. Imagens nos cartazes: um homem com um bebê nos braços, um outro correndo num parque, outro cozinhando e sujando o nariz de uma mulher com molho de tomate e um outro homem dançando com uma mulher, caracterizados como numa dança de salão. DIONÍSIO Os nossos são homens mais seguros de si, homens que aprenderam a não desprezar, nem temer às mulheres à sua volta. Os homens em volta da mesa passam a observar mais atentamente, com olhar de curiosidade. DIONÍSIO Homens que aprenderam a demonstrar seu amor, seja a quem for: seus pais, seus filhos, seus amigos. Homens que trazem dentro de si a masculinidade e a feminilidade em harmonia, sem perda de identidade, nem máscaras os impedindo de ser quem realmente são. Os nossos homens... Eles sofrem de amor... Eles choram. Eles não mentem para si mesmos. Esses são os verdadeiros “Filhos de Adão”. Dionísio exibe um banner com uma logomarca e o nome “Filhos de Adão”. As pessoas em volta da mesa acenam a cabeça em tom de aprovação. Helen, 25 anos, morena, cabelos 52 curtos, pretos, atraente e sedutora é uma das pessoas que está na mesa. Ela sorri para Dionísio. CENA 11 - APARTAMENTO DE ÁTILA – SALA DE JANTAR – INT – DIA Mesa de café da manhã na sala de jantar que é continuação da sala de estar de um apartamento médio. Na mesa, Átila se serve enquanto Karen vai arrumando e tirando algumas coisas. Ele pega uma fatia de queijo e Karen tira a bandeja, quase impedindo-o de pegar o queijo. Átila vai estendendo suas mãos na tentativa de pegar as coisas que Karen vai tirando. Luíza, vestida com uniforme escolar, toma um copo de leite com chocolate. KAREN Já são quase oito horas e você mal começou a tomar café, Átila. ÁTILA Nem sei se vou terminar, Karen. Com você aqui dando uma de “vigilante do peso”. KAREN Eu tô adiantando as coisas pra ver se dá tempo de levar a Luíza à escola. Átila coloca um pouco de café em sua xícara. ÁTILA Ih, dá tempo sim. Relaxa. KAREN Essa não vai ser a primeira vez que a gente vai chegar atrasado no trabalho por sua causa. E você sabe que só quem se ferra sou eu. O Edmundo nem repara quando você chega atrasado, mas eu... Átila dá um sorriso irônico ÁTILA 53 Quem tem cargo importante é assim mesmo. Imprescindível. Karen tira a xícara de café de suas mãos no momento em que Átila fazia menção de dar mais um gole, levando-a em direção à cozinha. CENA 12 - APARTAMENTO DE DAVI – SALA DE JANTAR – INT – DIA Mesa de café da manhã bem farta (suco, leite, café, pães, bolo, frios, frutas). Estão sentados à mesa Afonso, 50, magro, grisalho, sério e Marta, 45, bonita, de gestos contidos. Afonso lê um jornal sem olhar à sua volta. Marta serve sua xícara de café cuidadosamente. Davi chega à mesa pega a jarra de suco e um copo. MARTA Davi, senta pra comer, meu filho. Davi, ainda de pé, se serve de suco. DAVI Tô com pressa, mãe. Marquei com um cliente no primeiro horário. MARTA Come pelo menos um pedacinho desse bolo que a Regina fez. Davi corta um pedaço do bolo olhando por cima do jornal para o pai. DAVI E dessa vez acho que é um projeto bom. Não é só pra reformar um banheiro ou fazer uma área de serviço. É coisa grande. Afonso toma o café, olha por cima do jornal, depois o dobra com impaciência e se levanta da mesa. AFONSO 54 Tá nesse sufoco porque quer. Correndo atrás de cliente. DAVI Pai, me esquece! AFONSO Já esqueci há muito tempo. MARTA Afonso! Não se fala isso. AFONSO Você não se meta, Marta. Se não fosse você ficar apoiando tudo que ele faz pra bater de frente comigo, talvez ele estivesse me ajudando com o hotel. Afonso sai da mesa. Davi se senta. DAVI (Irônico) Agora eu posso me sentar um pouco. MARTA Meu filho, o Afonso só quer seu bem. DAVI Ele queria que eu fosse empregado daqueles sócios dele, cada um mais explorador que o outro. MARTA É o hotel dele também, meu filho. DAVI 55 Ele acha que é dele, né? Aquele pessoal faz o que quer... Talvez até desviem dinheiro e ele nem sabe. Mas deixa pra lá... Uma hora ele larga do meu pé. CENA 13 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – INT – DIA Uma agência grande. Divisórias de vidro pelas quais dá pra ver várias estações de trabalho e corredores direcionando para mais salas. No início há uma bancada de recepção próxima à saída de um elevador. As pessoas se movimentam freneticamente. Abre-se a porta do elevador e Dionísio sai enquanto ajeita sua gravata. Sai sorridente e dá um beijo no pescoço da secretária, 27 anos, mulher bonita, bronzeada, cabelos pretos. DIONÍSIO Quero saber até quando você vai ficar fazendo jogo duro comigo, filhinha. A secretária dá um sorriso cínico. SECRETÁRIA Ai, deixa de ser safado, Dionísio! Olha... a Helen tá bem ali, viu. Dionísio olha em direção ao fundo da sala, vê Helen ao longe, que olha para outra direção. Helen está de pé prestando atenção em um funcionário que está mostrando alguns papéis a ela. DIONÍSIO Helen? Que “mané” conversa de Helen? Quem foi que falou nela aqui? A secretária começa a lixar as unhas, olhando para elas. SECRETÁRIA “Que conversa de Helen”! Não pode ter uma festa que vocês ficam se agarrando. A secretária volta o olhar para Dionísio, gesticulando com a lixa de unhas. 56 SECRETÁRIA Pra cima de mim! DIONÍSIO Você tá viajando. SECRETÁRIA Tá tá! Mas ela tá ali, ó. Te esperando pra reunião com o Artur e o senhor Torres! DIONÍSIO Putz. Se eu fosse ele nem perdia tempo fazendo essas reuniões. Só pra informar o que ele decide, pô! CENA 14 - ESTACIONAMENTO DO EDIFÍCIO DE ÁTILA – INT – DIA No estacionamento do edifício, Karen, Átila e Luíza caminham em direção ao CARRO. Átila coloca a filha no banco de trás enquanto Karen senta no carona. Àtila entra no carro e fecha a porta enquanto Karen tenta fazer uma ligação no celular. Luíza se inclina para a frente, se aproximando do pai. LUÍZA Pai, quando você vai comprar meu celular? ÁTILA Calma, filhota. Você ainda não tem idade pra ter um. Karen, sem sucesso na sua ligação, guarda o celular na bolsa. KAREN Droga! O miserável do Edmundo não atende. LUÍZA Mas a Flavinha tem a mesma idade que eu e já ganhou o dela. ÁTILA 57 Mas eu não sou o pai da Flavinha. Sou o seu pai. Átila brinca com o nariz da filha enquanto termina de falar. Luíza amarra a cara e encosta no banco de trás do carro. Karen mexe no porta-luvas e tira um envelope branco fechado. KAREN Se ele pelo menos pagasse a nossa própria conta, Luíza... Karen se volta para Átila com um olhar de cobrança. KAREN Por acaso isso aqui é a conta de telefone que você ficou de pagar desde a semana passada, Átila? ÁTILA Ops! Átila olha para Luíza pelo retrovisor do carro e os dois arregalam os olhos um para o outro e colocam as mãos na boca. KAREN Pra você é tudo uma grande brincadeira, Átila. Todo mês esquece de pagar uma conta. Karen joga o envelope no porta-luvas. Átila dá partida e arranca o carro. ÁTILA Pô. Eu passo ali na farmácia, pago a conta e fica tudo resolvido. Pronto. Simples. KAREN Tá! Tudo muito simples. Karen se vira para a janela, evitando olhar para Átila. CENA 15 - ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA – RECEPÇÃO – INT – DIA Davi entra no escritório, passa pelo corredor principal e encontra Tatiana, 28, loira, de 58 sorriso largo, sexy, coxas grossas, com um vestido curto de cores fortes. Tatiana está sentada, ao telefone. TATIANA Pois não, senhor. Pode deixar que eu dou o recado. (...) Tenha um bom dia. Tatiana desliga o telefone e se levanta. Davi se aproxima e abre um sorriso pra ela. Os dois se abraçam. Davi coloca uma mochila e um tubo de projetos na bancada da recepção. DAVI Me conta, Tati. Quero saber tudo o que aconteceu. Como foi esse final de semana com o coroa? TATIANA Ai, Davi. Não fala assim. Fica parecendo até que eu sou uma daquelas prostitutas de luxo, acompanhante. Além do mais, o Denis nem é tão coroa assim. DAVI Ah. Tá bom, virgem imaculada! Quero só saber. Foi bom ou não? TATIANA Ah! Foi ótimo! Tratamento completo! DAVI Ah! Piriguete! TATIANA Mas acho que eu, como sempre, coloquei muitas expectativas, sabe, amigo. Acho que ele realmente não tava a fim de nada sério. Enfim, cansei dos quarentões. DAVI 59 Tenho até medo do que isso pode significar. Vou falar pro estagiário tomar cuidado com você. TATIANA Até que ele não é de se jogar fora. Quantos anos ele tem? Dezenove? Os dois dão uma gargalhada. Eugênio, 39, magro, branco, com óculos de grau, se aproxima da recepção com um copo d’água. Davi e Tatiana riem um pouco menos. EUGÊNIO O quê que vocês já estão planejando, hein, crianças? DAVI Nada não, Eugênio. A Tatiana que tá na dúvida entre os coroas e os bebês. Tatiana dá umas batidas nas costas de Davi. TATIANA Menino! É não! É brincadeira dele, chefinho. EUGÊNIO Relaxa! Eugênio segue em direção ao corredor enquanto bebe um pouco de água. DAVI “É brincadeira dele, chefinho” Os dois riem. TATIANA Mas voltando pro mundo real, seu bobo... Sabe o cara do Shopping? Davi olha assustado para o corredor do escritório. 60 DAVI Ai meu Deus. Ele já tá aí? TATIANA Não... Não. Ele ligou cancelando a reunião. Disse que ainda tem que analisar exatamente o que quer fazer... e que depois entra em contato. DAVI Analisar? Ele deve ter encontrado um arquiteto que tá fazendo o projeto quase de graça pra ele. Isso sim. Assim eu me quebro. Davi pega sua mochila e o tubo de projetos e segue em direção ao corredor. DAVI (Falando alto) Tem nada não. Vou terminar aquele projeto maravilhoso de uma casa com piscina. Esse foi um dos melhores do mês. CENA 16 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – SALA DE REUNIÕES – INT – DIA Estão sentados à mesa de reuniões Helen, Artur, 38 anos, cavanhaque, um pouco rechonchudo e o presidente da agência, Pedro Torres, 50, cabelos grisalhos, magro. Dionísio chega sorridente e despojado. DIONÍSIO Bom dia... Bom dia. HELEN Bom dia. 61 ARTUR Oi, Dionísio. Estávamos só esperando por você. DIONÍSIO Jura, Artur? Se eu soubesse tinha mandado servir uns biscoitinhos pra você comer enquanto esperava. Artur faz cara de desprezo. PEDRO TORRES Vamos logo ao que interessa, pessoal. Acho que todos estão cientes da situação da nossa filial em Salvador. Eles conseguiram fechar uma ótima conta e vão precisar da nossa ajuda. Helen entrega alguns prospectos a Dionísio. PEDRO TORRES Um grupo de blocos do carnaval baiano! E vamos precisar de alguém pra fazer essa ligação entre o pessoal de lá e a campanha nacional desses blocos. DIONÍSIO Ué? Por que simplesmente não colocamos um da agência de lá mesmo pra fazer isso? PEDRO TORRES Eles querem alguém de fora mesmo. Pra que a campanha tenha um apelo nacional mais forte, que não esteja ligado unicamente à cultura baiana, voltada principalmente ao eixo Rio - São Paulo. ARTUR 62 A idéia é que alguém aqui da agência passe todo esse período lá, até o carnaval, pra ficar fazendo todos esses ajustes entre nós e a nossa filial em Salvador. DIONÍSIO Mas estamos em junho. São quase nove meses! Isso é um parto! HELEN Pelas informações que nós temos, as sedes dos blocos já começaram as vendas desde a quarta-feira de cinzas. Muitas festas e eventos já são vinculados diretamente ao carnaval. Além do mais, existem os carnavais fora de época pelo país, que já estão a todo vapor. PEDRO TORRES Vamos precisar implementar algumas mudanças em Salvador e ganhar abrangência nacional através das micaretas, agregando valor a estes blocos. Pedro bebe um pouco de água e abre uma pasta. PEDRO TORRES O fato, Dionísio, é que o seu nome foi o único cogitado pra cumprir esta missão. Seu perfil caiu como uma luva no projeto. Seu papel será desenvolver, juntamente com a equipe baiana, estratégias em diversos campos, desde a política de preços até a divulgação do produto, ou seja, dos abadás e atrações desses blocos. Enquanto Pedro fala, Dionísio olha em volta da mesa tentando folgar a gravata. SEGUNDO BLOCO 63 CENA 17 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – SALA DE REUNIÕES – INT – DIA (CONT.) Dionísio olha para todos em volta. Mexe com os dedos, olha para os prospectos em suas mãos. DIONÍSIO Tá bom. Entendi que a agência precisa de alguém em Salvador. Mas dizer que é meu perfil? Isso é coisa tua, né, Artur? ARTUR Você tá se dando muita importância, meu querido. Eu apenas fiz a análise financeira do projeto. As decisões couberam ao Presidente e à diretora do Planejamento: Helen. Pedro Torres arruma suas pastas e olha para o relógio. Levanta-se da cadeira. PEDRO TORRES Ah. Você viaja semana que vem, Dionísio. Depois você acerta o horário do seu vôo com a secretária e me informa. DIONÍSIO Fazer o quê, né? Vou começar a arrumar minhas coisas. Dionísio olha decepcionado para Helen e sai da sala de reuniões. CENA 18 - CARRO DE ÁTILA – INT/EXT – DIA Átila e Karen estão no carro num engarrafamento. Os dois estão sérios, calados. Alguns segundos de silêncio. ÁTILA Só espero que você não diga que o engarrafamento é culpa minha também. 64 KAREN (irritada) O engarrafamento não. Mas a gente estar nele é. Se a gente tivesse saído de casa antes e não tivesse que parar pra pagar aquela maldita conta... A Luíza já chegou atrasada na escola, agora nós é que vamos chegar atrasados. Mas você não se importa. ÁTILA Calma, Karen. Você hoje está exaltada além do normal. KAREN Exaltada não, Átila. Tô cansada, cansada dessa sua irresponsabilidade. Átila tenta pegar nas mãos de Karen, que larga imediatamente. KAREN Me deixe! Hoje eu não tô bem. ÁTILA Pô! Deu pra perceber. Átila põe as duas mãos no volante. Silêncio. Atila volta o olhar pra Karen. ÁTILA Ô, Karenzinha. Fica assim não! KAREN Então não me perturbe. Dirija, vá! Átila volta a olhar para a frente. CENA 19 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – SALA DE DIONÍSIO – INT – DIA Dionísio arruma coisas na sua mesa, abrindo e fechando gavetas. Helen entra. 65 HELEN Dionísio, você sabe que nós não tínhamos outra alternativa. DIONÍSIO Pô, Helen... Você! Tudo bem que a gente nunca se levou a sério. Mas... putz! Eu achava que pelo menos da minha companhia você gostava. HELEN Ah. Fala sério. Você agora vai levar pro lado pessoal? DIONÍSIO (exaltado) Quem levou pro lado pessoal foi você, quando usou do seu cargo, da sua autoridade, pra tomar uma decisão que me colocasse longe daqui. HELEN Pô! Eu não sabia que você ia ficar tão puto assim! DIONÍSIO Nem eu! Na verdade nem sei porque eu tô ouvindo isso. Você não tem que me explicar nada, Helen. Tomou uma decisão e pronto. Fez o que tinha que fazer. HELEN Mas não é você que gosta de não ter raízes, de estar solto no mundo? DIONÍSIO Quando sou eu que tomo minhas próprias decisões. Você sabe mais do que ninguém, que eu tava querendo investir nas campanhas daquelas multinacionais. Coisa 66 que eu não vou poder fazer lá na Bahia. E depois você vem me dizer que sou eu que levo pro lado pessoal? HELEN Você não vai passar tanto tempo assim, cara. Tenta relaxar, olhar o lado bom. DIONÍSIO O lado bom é que agora eu te conheço melhor. Agora eu não vou me surpreender mais. Sei exatamente do que você é capaz. HELEN Pense como quiser, Dionísio. A decisão foi tomada. Vai ser melhor pra você e vai ser melhor pra agência. DIONÍSIO Tá bom, Helen. Você sabe o que é melhor pra mim. Agora dá licença que eu preciso terminar de arrumar minhas coisas. Dionísio fica na porta enquanto Helen sai e ele a fecha bruscamente. CENA 20 – AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – CORREDOR – INT – DIA Algumas pessoas olham para Helen saindo da sala. Ela passa calada, introspectiva. CENA 21 – AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – SALA DE DIONÍSIO – INT – DIA Dentro da sala, Dionísio arruma suas coisas impacientemente, jogando objetos numa caixa. CENA 22 - LOJA DE ROUPAS – INT – DIA É uma loja de roupas masculinas de tamanho médio num shopping center. Cinco vendedores estão na loja. Apenas dois deles estão com clientes. Um outro arruma um manequim e os outros dois conversam encostados num balcão. Karen entra na frente apressada sem falar com ninguém, seguindo para uma escada no final da loja. Átila entra em seguida cumprimentando os demais colegas e fazendo sinal de forma bem humorada de 67 que Karen está irritada. CENA 23 - LOJA DE ROUPAS – ESCRITÓRIO – INT – DIA Edmundo, 53, homem alto, branco, vestido formalmente anda de um lado pro outro do escritório. Karen dá uma batidinha, coloca a cabeça na porta e em seguida entra no escritório. EDMUNDO Até que enfim, Karen. Daqui a quinze minutos eu tenho que sair pro aeroporto. Espero não perder meu encontro com os fornecedores lá em São Paulo por sua causa. KAREN Desculpa, seu Edmundo. Tivemos um problema no trânsito. EDMUNDO Karen, eu nomeei você como gerente regional das minhas lojas porque eu não tenho muito tempo pra ficar aqui em Salvador. Mas se você também não tiver muito tempo vou ter que procurar outra pessoa pra assumir essa função. KAREN Isso não vai mais se repetir. Eu prometo. EDMUNDO Tudo bem. Trouxe os arquivos que eu te pedi com o planejamento da nossa próxima coleção? Preciso chegar lá com isso em mãos. KAREN Está tudo aqui. Eu preciso só imprimir. É rapidinho. Karen senta diante do computador e conecta um pen-drive. Edmundo observa. 68 KAREN Gente! Eu tenho certeza que eu salvei o arquivo. Karen olha para o pen-drive e olha para a tela. Edmundo pega uma pasta de couro em cima da mesa. EDMUNDO Não tenho todo o tempo do mundo, Karen. Quando você conseguir achar o arquivo você manda pro meu email. Quando eu voltar a gente conversa melhor. Edmundo sai do escritório. Karen fecha os olhos e coloca umas das mãos à cabeça, massageando. CENA 24 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – INT – DIA Em um dos computadores no interior da agência, Helen está sentada com o olhar perdido. Artur se aproxima, mas ela não percebe sua presença, continua distraída. ARTUR Helen... Tudo bem com você? HELEN É... Hein...? Tá... Tá tudo bem sim. ARTUR Alguém tinha que ir pra lá. Ele vai entender. Você não se arrependeu da decisão não, né? HELEN Arrependimento é uma palavra que não combina comigo. Você deveria saber disso. ARTUR Sei lá, vocês parecem tão ligados. Eu mesmo nunca me aproximei de você por causa disso. 69 HELEN Ah, Artur. Por favor... Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não é porque eu não tenho nada com o Dionísio que eu vou sair com qualquer um. Eu hein! Artur se afasta, constrangido. Helen continua distraída. Dionísio passa num dos corredores à sua frente e ela o acompanha com o olhar. CENA 25 - LOJA DE ROUPAS – INT – DIA Átila está arrumando roupas numa prateleira. Karen desce as escadas e se aproxima. KAREN Muito bem, Átila. Você tinha a semana inteira pra me fazer chegar atrasada. Mas decidiu fazer isso no pior dia possível. ÁTILA O que houve? KAREN O de sempre, né, Átila? O cara tá pirado comigo. Mas eu não vou perder meu cargo por sua causa. Não vou mesmo! ÁTILA Poxa! Desculpa, Karen. Eu não queria que isso acontecesse. KAREN Claro que não queria. Afinal quem praticamente sustenta aquela casa sou eu. Mas aconteceu. Sabe do que mais Átila? (falando mais alto) 70 Eu cansei. Cansei de viver essa mentira com você, esse casamento. Não dá mais. As pessoas na loja olham para o casal. ÁTILA Calma, Karen. A gente conversa melhor em casa e se entende. KAREN (irritada) Eu não quero ficar mais um minuto me sentindo como eu estou, Átila. Fica o mais afastado de mim que você puder, tá?. ÁTILA A gente conversa em casa, Karen. Por favor. Você está de cabeça quente. Karen sai da loja e algumas pessoas continuam olhando. Átila olha em volta constrangido. As pessoas retomam suas atividades e olham disfarçadamente para Átila. CENA 26 - ESCRITÓRIO DE DAVI – INT – INÍCIO DE NOITE Davi desliga o computador do escritório enquanto fala ao celular. DAVI Ah, que é isso... A gente faz assim: Eu te pego aí, a gente passa lá na minha casa só pra eu tomar um banho rapidinho e depois a gente pega aquele cineminha. (...) Vamos lá! Não se preocupa que eu não sou louco de te apresentar formalmente pros meus pais. (...) 71 Tá... Combinado, então. Tô saindo do escritório em cinco minutos. Beijo. Tchau. CENA 27 - ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA – RECEPÇÃO – INT – NOITE Davi passa apressadamente pela recepção com uma mochila nas costas. TATIANA Menino! Com uma pressa dessas, eu não vou nem perguntar se a noite promete. DAVI Ah! Eu também sou filho de Deus! Além do mais, ainda não desisti de encontrar a tampa da minha panela. TATIANA (irônica) Hum! Tá! Amanhã eu quero saber de todos os detalhes sórdidos, filhote. DAVI Tá bom, pervertida. TATIANA Beijinhos. Se cuida, viu? DAVI Tá. Até amanhã. Davi sai pela porta principal do escritório. CENA 28 - QUARTO DE MOTEL – INT – NOITE Na cama do motel está a Secretária da agência de publicidade, sentada, usando uma lingerie preta. Dionísio se aproxima usando uma cueca e se senta ao seu lado. Ela começa a massageá-lo. SECRETÁRIA 72 Nossa! Você tá tenso mesmo. Olha só como estão suas costas. DIONÍSIO É claro que eu tô tenso. É por isso que eu tô aqui. SECRETÁRIA (irônica) Pô! Um poço de sinceridade. DIONÍSIO Ah! Você entendeu. SECRETÁRIA Mas o que foi que houve? DIONÍSIO Fui apunhalado pelas costas. No momento em que menos esperava, a Helen veio e enfiou a faca. A secretária para de massagear e se levanta da cama, andando pelo quarto. SECRETÁRIA Sabia que pra você ficar assim ela tinha que estar no meio da história. Pra mim você devia resolver esse seu problema com ela. DIONÍSIO Se liga não! O que é dela tá guardado. Dionísio se levanta impaciente e a secretária se senta. SECRETÁRIA (sexy) Relaxa. Deita aqui. Vamos esquecer os problemas. 73 Dionísio começa a se vestir. DIONÍSIO Não. “Vambora”. Eu ainda tenho que resolver um monte de coisas. A secretária faz uma cara de decepção e começa a pegar suas roupas. CENA 29 - CARRO DE ÁTILA – INT – NOITE Karen dirige o carro. Átila está no carona e Luíza no banco de trás. Silêncio. Luíza começa a cantarolar com uma boneca nas mãos. CENA 30 - APARTAMENTO DE ÁTILA – INT – NOITE Karen entra seguida de Átila e Luíza de mãos dadas. Karen segue em direção ao seu quarto e Átila leva Luíza em direção ao dela. ÁTILA Vai pro seu quarto, filhinha. Daqui a pouco o papai te ajuda na lição de casa. CENA 31 - QUARTO DE ÁTILA E KAREN – INT – NOITE Átila entra no quarto e fecha a porta lentamente. Karen está de costas olhando pela janela. Ele passa as mãos na cabeça com preocupação. ÁTILA Karen. Karen se vira de frente para Átila e o encara com seriedade. ÁTILA Agora você tá mais calma, né? Poxa. Você sabe que eu não tenho culpa do que aconteceu. Karen agora está com uma expressão mais serena e fala com mais calma. KAREN 74 Eu sei, Átila. A questão não é essa. Não foi hoje. É o nosso casamento. Não tá dando certo. Você sabe disso. ÁTILA A gente passa por problemas como qualquer casal, Karen. Mas é só você me falar, a gente conversar, ver o que a gente pode fazer pra mudar essa situação. Karen olha para Átila por alguns segundos e balança a cabeça exprimindo decepção. KAREN Não há o que fazer, Átila. Infelizmente. Eu estou infeliz e estou descontando tudo em você. Eu me enganei quando casei com você só porque tava grávida. ÁTILA Você sabe que eu não me casei com você só por causa da gravidez. Eu te amo, Karen. KAREN Às vezes só isso não basta, Átila. ÁTILA Eu sempre me dediquei. Eu sempre quis que a gente ficasse bem. E... Embora não tenha sido só flores, a gente teve muitos momentos bons. Você sabe. KAREN Eu sei. Mas as coisas estão piorando. Eu tô me afastando cada vez mais de você. Me irritando cada vez mais com cada atitude sua. Sua irresponsabilidade, sua imaturidade. Não dá mais. ÁTILA Não toma uma decisão precipitada. 75 KAREN O melhor a fazer é a gente se afastar... Eu tô precisando viver a minha vida sozinha por um tempo. Átila se aproxima da janela e olha para o horizonte por algum tempo em silêncio. ÁTILA E quanto à Luíza? KAREN Como assim, quanto à Luíza? Ela vai estranhar no início, mas depois se acostuma. ÁTILA Mas ela vai ficar comigo ou com você? KAREN Claro que comigo né, Átila!? Átila sai da janela, se vira e volta a olhar para Karen. ÁTILA Peraí. Eu não vou ficar longe da minha filha. Karen passa a mão na cabeça. KAREN (sussurrando) Ai meu Deus. (Falando mais alto) Átila, você vai continuar vendo sua filha. Eu não vou fugir pro Iraque. Eu vou continuar aqui nessa mesma casa. Depois a gente combina um esquema pra você ver a Luíza. 76 ÁTILA Karen, você tá cometendo um engano. Pensa melhor. KAREN Desculpa, mas eu não vou conseguir pensar em nada com você aqui, Átila. Sobre a Luíza a gente conversa depois. Agora arruma suas coisas e, por favor, vai pra um hotel, pra casa de um amigo... qualquer lugar. Karen sai do quarto. Átila, a passos lentos, sai em seguida. CENA 32 - HALL DO EDIFÍCIO DE DAVI – INT – NOITE Davi sai do elevador junto com um RAPAZ, 22, moreno claro, cabelos curtos, um pouco forte. Caminha até a porta de casa e coloca as chaves na fechadura. CENA 33 - APARTAMENTO DE DAVI – INT – NOITE Marta está arrumando um arranjo de flores próximo à porta e ouve o barulho das chaves. CENA 34 - HALL DO EDIFÍCIO DE DAVI – INT – NOITE Davi tenta, mas não consegue abrir a porta. DAVI Pô. Acho que vou ter que mandar fazer outra cópia. CENA 35 - APARTAMENTO DE DAVI – INT – NOITE Marta se aproxima da porta e olha no “olho mágico”. Vê somente Davi. CENA 36 - HALL DO EDIFÍCIO DE DAVI – INT – NOITE Davi se vira pra o rapaz e aponta para a fechadura. DAVI Me ajuda aqui. Vê se você consegue. O rapaz se aproxima, dá um abraço por trás de Davi e tenta girar as chaves. DAVI 77 Não se aproxima muito, senão desisto de entrar em casa. Davi se vira para o rapaz, os dois riem e dão um abraço mais forte. CENA 37 - APARTAMENTO DE DAVI – INT – NOITE Marta abre a porta. Vê os dois abraçados do outro lado. TERCEIRO BLOCO CENA 38 - HALL DO EDIFÍCIO DE DAVI – INT – NOITE O rapaz se solta de Davi apressadamente, olha pro chão. Passa as mãos na cabeça. Olha para os lados. Davi e Marta se olham estáticos. DAVI Mãe!? MARTA Entra, Davi. Marta olha para o rapaz de cima a baixo. MARTA Você espera aí, por favor. CENA 39 - QUARTO DE DAVI – INT – NOITE Davi entra no quarto seguido pela mãe. Os dois calados e tensos. Sentam-se na cama. MARTA (voz trêmula) Meu filho, quem é esse rapaz? DAVI 78 Eu acho que não há mais o que dizer, mãe. Você viu tudo. MARTA Eu nunca vi esse seu amigo. Só quero saber quem é. DAVI Amigo? Mãe, por favor, não dificulta as coisas. Isso já é muito difícil pra mim. Davi tenta olhar Marta nos olhos, mas ela foge com o olhar. Ele pega na mão dela. DAVI Não quero mais adiar essa conversa com você. MARTA Que conversa, meu filho? DAVI Mãe, todo esse tempo. Não acredito que você não tenha percebido, sequer desconfiado. Quantas namoradas eu trouxe em casa nos últimos... quatro anos? Marta se levanta lentamente. Vai até a janela. Volta. Olha atentamente para todo o quarto. Davi fecha os olhos e leva as duas mãos a cabeça. CENA 40 – HALL DO EDIFÍCIO – INT – NOITE Davi chega na porta, mas quando abre não há ninguém. CENA 41 - QUARTO DE LUÍZA – INT – NOITE Átila está na cama abraçado com a filha, beijando sua cabeça. LUÍZA Mas quanto tempo você vai ficar fora, pai? Vai demorar? 79 ÁTILA Não sei, minha filha. Espero que não. LUÍZA Você e a minha mãe brigaram? ÁTILA O papai e a mamãe decidiram ficar morando em lugares diferentes, por enquanto. Mas eu vou continuar vindo te ver sempre. LUÍZA Não dá pra entender. Se você vai morar em outro lugar e ficar vindo aqui é a mesma coisa que estar aqui. Então fica logo. ÁTILA Eu bem queria, minha filha. Bem queria. Átila dá um beijo na testa da filha e pega uma mochila que está na cama. Karen está de pé junto à porta. ÁTILA Depois eu volto pra pegar mais coisas. Mas tenta pensar com mais calma em nós dois. KAREN Átila, na frente da Luíza não. Depois a gente fala. Átila sai cabisbaixo até a porta. MONTAGEM DE IMAGENS Uma breve montagem das imagens da cena 42 à 46 CENA 42 – AGÊNCIA DE PUBLICIDADE – INT – DIA 80 Dionísio sério passando por todos na agência. Ele para no meio do corredor diante de um grupo de colegas com quem conversa. CENA 43 – APARTAMENTO DE DAVI – QUARTO – INT – NOITE Davi, deitado na cama, vê televisão enquanto sua mãe está na porta do quarto falando com ele. Ele faz cara de impaciência, desliga a TV e sai do quarto. CENA 44 – PONTO DE ÔNIBUS – EXT – NOITE Átila pega um ônibus. CENA 45 – SHOPPING CENTER – INT – DIA Num quiosque do shopping, Dionísio experimenta óculos escuros. CENA 46 – PORTO DA BARRA – EXT – DIA Davi caminha com roupas esportivas. CENA 47 – ACADEMIA DE MUSCULAÇÃO – INT – DIA Davi corre na esteira. Diminui o ritmo até parar e sai da esteira. Átila faz barra num equipamento próximo. Davi senta no banco. Átila senta em seguida. ÁTILA Velho, se for ruim pra você, deixa pra lá. Não quero te incomodar. DAVI Que é isso, rapaz. Se preocupe não. Mesmo a gente não se batendo muito, meu pai não me nega um desconto não. Ainda mais que o hotel nem tá tão cheio. ÁTILA Pô! Não tenho nem como te agradecer, cara. DAVI 81 Tamo aí pra isso, rapaz. Eu ia te deixar na mão? E é melhor do que você ficar num daqueles hotéis vagabundos da rodoviária. ÁTILA Nem fale! Valeu mesmo, Davi. Você sempre dando uma força pra esse seu amigo enrolado. Átila se levanta bate nas costas de Davi e vai para a esteira. Davi caminha em direção a outra sala da academia. MONTAGEM DE IMAGENS Montagem das cenas 48 a 52 intercaladas por imagens de anoitecer e amanhecer. CENA 48 - HOTEL – INT – NOITE Átila entra no hotel com uma mochila. CENA 49 - ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA – INT – DIA Davi diante do computador. Respira fundo, demonstrando cansaço. CENA 50 - CALÇADÃO DE COPACABANA – EXT – DIA Dionísio correndo no calçadão. CENA 51 - APARTAMENTO DE DAVI – SALA DE JANTAR – INT – NOITE Davi levanta da mesa bruscamente. Marta olha de canto de olho para Afonso, ainda sentado. CENA 52 – APARTAMENTO DE DIONÍSIO – QUARTO – INT – DIA Dionísio arruma uma mala, colocando algumas peças de roupas cuidadosamente. CENA 53 - ESCRITÓRIO DE ARQUITETURA – COPA – INT – DIA – UMA SEMANA DEPOIS Davi e Tatiana tomam um café na copa do escritório. DAVI 82 Eu prometo que vai ser pouco tempo, Tati. É só até eu decidir o que eu faço da minha vida. TATIANA Relaxa, filhote. Você pode ficar o tempo que quiser lá no meu cafofo. O problema é você sair de lá colocando os pulmões pra fora. Ultimamente tô tendo que dividir espaço com os ácaros. DAVI Eu é que não quero ficar te incomodando. Minha mãe não quer que eu saia de casa, mas do jeito que tá não dá. Ela fica toda hora me perturbando. E agora fica me observando, olhando o que eu faço, perguntando tudo. Tá um saco. TATIANA Menino! É assim mesmo. Mas depois ela vai começar a acostumar. Vai até pedir pra você levar seus namorados pra ela conhecer. Você vai ver. DAVI E o pior é como ela fica perto do meu pai. Ela tá com mais medo que ele descubra do que eu. Hoje mesmo eu vou lá no hotel pra resolver algumas coisas. Qualquer coisa, eu falo tudo pro velho. TATIANA Fica calmo, amigo. Dá um tempo, relaxa. CENA 54 - AEROPORTO – EXT – NOITE Dionísio sai do Aeroporto de Salvador. Faz sinal para um táxi. 83 CENA 55 - RECEPÇÃO DO HOTEL – INT – NOITE Final de tarde. Dionísio entra na recepção do hotel com duas malas e uma mochila nas costas. Átila está num dos sofás da recepção, circulando os classificados dos jornais na seção de imóveis. Há dois recepcionistas no balcão de atendimento. DIONÍSIO Boa noite. Eu tenho uma reserva aqui em nome de Dionísio Novaes. RECEPCIONISTA 1 Boa noite. Só um minuto, senhor. Átila levanta-se, segue em direção ao balcão e fala com um outro recepcionista. ÁTILA Venha cá! Por acaso o Davi ligou dizendo se ia demorar? RECEPCIONISTA 2 Ligou não, senhor. Mas ele deve estar chegando junto com o pai, o Sr. Afonso. ÁTILA Ah tá! Dionísio olha para o lado, curioso, mas volta logo a atenção para o recepcionista novamente. RECEPCIONISTA 1 A reserva está registrada. Preciso apenas dos documentos do senhor. Dionísio abre um bolso da mochila. Átila olha em volta do saguão do hotel. RECEPCIONISTA 2 84 Se o senhor quiser esperar no seu quarto, quando ele chegar, eu aviso. ÁTILA Não. Pode deixar... Eu espero aqui mesmo. Átila se dirige ao sofá. Antes de chegar, Afonso entra no hotel apressadamente e segue em direção ao elevador. Davi entra em seguida e se dirige a Átila. DAVI E aí, rapaz. Esperou muito? ÁTILA Não. Desci agora há pouco. Neste momento, Dionísio se volta para Davi, surpreso. Deixa as malas junto à recepção e se dirige para Davi. DIONÍSIO Davi? Não acredito que é você? Achei que era muita coincidência. Davi. Filho do Sr. Afonso. DAVI Pô. Dionísio! Você aqui! Quanto tempo, cara. Você tá diferente pra porra! DIONÍSIO Caraca! Me hospedei logo no seu hotel! Átila olha para Dionísio, curioso. DAVI Nada a ver comigo não, rapaz. É do meu pai. Só vim pra falar com meu amigo aqui, Átila. Os dois se cumprimentam estendendo as mãos. DAVI 85 Átila, esse aqui é Dionísio. Um grande amigo que fiz no Rio de Janeiro, naquele período que estive por lá. O cara mais louco que já conheci. DIONÍSIO Que nada! Eu só gosto de curtir a vida. Falando nisso... Minha primeira noite em Salvador... Você sabe né? Temos que sair pra encher a cara. Ou como vocês dizem aqui, “comer água”. Os três sorriem. ÁTILA Já tá por dentro de tudo, hein? DIONÍSIO É. Deixa eu só terminar de me registrar aqui, guardar minhas coisas e mais tarde a gente dá uma saidinha. Dionísio se vira para Átila DIONÍSIO Vai lá também, cara! ÁTILA Vamos ver. Tô precisando descontrair um pouco mesmo. Eu tinha até combinado com o Davi de ir num barzinho aqui perto. DIONÍSIO Mas eu não vou me contentar com o barzinho não. Tem que ter noitada. Balada. ÁTILA Não tava muito nos meus planos não, mas... pode ser. 86 DAVI A gente pode se encontrar aqui mesmo. Vai lá arrumar tuas coisas que a gente fica aqui em baixo mesmo batendo um papo. Vou te mostrar o melhor da noite de Salvador. DIONÍSIO Quero ver. Dionísio volta para a recepção. Davi continua conversando com Átila. CENA 56 - BARZINHO – INT – NOITE Uma rua cheia de bares, muita gente, sons e ruído de conversa vindo de todos os lugares. Do outro lado da rua vemos a fachada de uma boate, chamada Éden. Davi, Dionísio e Átila estão sentados numa mesa do bar em frente à boate. O bar é um local bem despojado, com uma varanda, as pessoas estão bem à vontade. DAVI Pô, eu me lembro desse dia, velho. Você tava tão mal, que dormiu na praia. A sorte é que a aquela menina, como é o nome dela? É... DIONÍSIO Helen. DAVI Isso! A sorte é que ela levou a gente pra casa. Porque ninguém tava em condições de dirigir. DIONÍSIO Nem me fale daquela mulher. Eu vou ter que passar um tempão trabalhando aqui por causa dela. Ela arrumou uma desculpa qualquer e tratou de me mandar pra longe. 87 ÁTILA Isso tá me cheirando a paixão mal resolvida. Átila e Davi riem um pro outro. DIONÍSIO Que nada, cara! A gente se pegava de vez em quando, mas nada demais. DAVI Vai ver ela tava se apaixonando por você. DIONÍSIO Helen, apaixonada? Me conte uma piada! ÁTILA Não sei o que é isso que tá acontecendo com essas mulheres. Minha esposa resolveu dar um chilique e terminar tudo de uma hora pra outra. O pior é que eu gosto da desgraçada. DAVI A mulher que me dá problemas é uma que convivo há vinte e três anos: minha mãe. Ela tá pegando muito no meu pé. Tô tendo que aturar um monte de baboseira. Preferi sair de casa. Tô morando com uma amiga do trabalho até encontrar um outro lugar. DIONÍSIO Por que você não fica no hotel do seu pai, maluco? DAVI 88 Sair de uma enrascada pra entrar em outra? Você tá louco! Embaixo da ponte acho que tá melhor. ÁTILA Eu também tenho que encontrar um apartamento baratinho pra morar. Se depender da Karen, não volto tão cedo pra casa. Um garçom se aproxima e entrega a conta a Dionísio. DIONÍSIO É... acho que nove meses é muito tempo pra ficar num hotel. Uma casa é melhor pra receber minhas visitinhas femininas. Os três riem. Dionísio tira o cartão de crédito da carteira. DIONÍSIO Essa aqui deixa por minha conta, pessoal. DAVI Que deixa por minha conta, nada. Quanto deu? DIONÍSIO Eu pago essa aqui. Vocês pagam as próximas. Ainda teremos muitas mesas de bar pela frente. Dionísio coloca o cartão de crédito na conta e entrega ao garçom. DAVI Por que a gente não aluga um Ap, nós três? Acho que ia ser legal. ÁTILA Até que não é má idéia. DIONÍSIO 89 Por mim tudo beleza. Agora só tem uma coisa: tem que ter festa toda semana. Os três riem mais uma vez. DAVI Festa? Por mim tá fechado. Por falar nisso, vamos entrar ali na Éden pra gente começar a se inspirar. Você vai ver Dionísio, é uma das melhores boates aqui de Salvador. DIONÍSIO Ih! Demorô! ÁTILA Tô vendo que meu tempo de sono vai diminuir muito. O garçom volta e entrega o cartão de volta a Dionísio, que assina o recibo. DIONÍSIO Que nada! Você vai começar a aprender o que é curtição de verdade. ÁTILA Rapaz... pra mim, por enquanto vai ser só pra distrair mesmo. Se a Karen sabe que eu tô de graça por aí é que eu não tenho mais chance mesmo. Mas pra vocês... A mulherada que aguarde. Né não, Davizão? Átila bate nas costas de Davi. Davi e Dionísio se entreolham. Davi fica sem jeito e disfarça um sorriso. DIONÍSIO Rapaz, a festa tá fervendo lá e a gente tá perdendo tempo aqui. Vambora logo. Eles juntam os copos num brinde, sorrindo muito. Eles se levantam e caminham em direção 90 à boate. Temos uma visão geral da entrada da boate com as pessoas chegando e formando fila. Muitas pessoas passando por lá e se movimentando em toda a rua. FADE OUT