APOLLO: Quando o Amor está em Jogo
Capítulo 1
Só dessa vez
– Bom dia, Jane. Como vai seu bebê fofo? Está melhorzinho da gripe?
– Está melhorando, Kim. Obrigada por perguntar.
Estou iniciando o meu turno como jornalista investigativa na emissora RNC, onde geralmente chego às
nove, e a manhã já começou a todo o vapor com gente andando de um lado para o outro, jornalistas
convocando sua equipe e olhos vidrados em computadores em busca de notícias recém saídas do forno.
– Fico feliz que aquela coisa linda está melhor. Vou visitá-lo quando puder.
Jane sorriu.
– Já viu Sr. Olavo? Ele está louquinho para falar com você.
– Olavo? O que ele teria para falar comigo? Será que tem algo a ver com o caso daquele político que
estava recebendo propina?
– Você ainda está mexendo com essa casa de abelhas, Kim? Aquele deputado é perigoso. Não tem
medo dele tentar calar sua boca? Esse povo não tem escrúpulos.
– Não. Eu não tenho medo. Se eu tivesse medo teria que mudar de profissão, não acha?
– De certa forma... talvez tenha razão, mas cuidado. Esses caras fazem de tudo para se manter no
poder.
– Sei disso melhor que ninguém. Deixe-me ir. Vou ver o que meu chefe quer dessa vez.
Continuo caminhando em direção à minha mesa. Antes de saber o que estava acontecendo, preciso
guardar a bolsa e checar a minha caixa de entrada. Estou esperando a confirmação de uma informação
quentíssima que pode ser um divisor de águas na minha carreira de jornalista.
– Bom dia, Silvio. Bom dia, Ana. – Cumprimento meus colegas que trabalham nas mesas ao lado.
– Já foi até a sala do chefe, Kimberly? Ele pediu para que o procurasse assim que você chegasse. –
Silvio pergunta.
Putz. Eu já tenho que começar o dia com Olavo tentando me podar, me dizendo que eu não vá tão
fundo em minhas investigações, que não ponha minha vida em risco?
Que raio de emissora pede que um jornalista não faça seu trabalho direito? Isso só deve existir aqui.
– Ainda não. Daqui a pouco estarei lá.
Alcanço a minha mesa e sento, ligando o meu computador. Aperto o play para que a minha playlist
comece a tocar e dou um suspiro quando ouço as primeiras melodias saírem do alto-falante. Eu tenho uma
seleção para cada dia da semana e como hoje é quinta, a sequência inicia com a canção “Beautiful Day” da
banda Irlandesa U2.
É tudo o que desejo. Espero que hoje seja um dia bonito. Cantarolo o refrão enquanto guardo meus
objetos pessoais no armário adjacente. “Está um lindo dia, não o deixe escapar”. A música tem o poder de
elevar a minha alma, fazer do meu dia mais leve, mais esperançoso.
Tiro da gaveta algumas fotos e as coloco em cima da mesa. Elas são a minha inspiração diária. Meu
pai, Eduardo Nóbrega, está em uma delas dando um sorriso que pouco se vê em seu rosto quando está diante
de outras pessoas.
Para mim, ele sempre sorri.
Eros, meu irmãozinho, está ao seu lado, dando um grande abraço. Eu amo meu irmão e, embora eu
tenha usado diminutivo, ele é apenas um ano mais novo que eu. Tem vinte e cinco anos. Só não gostei da
profissão que escolheu, mas isso é papo para mais tarde.
Em outra foto está meu lindo noivo Rafael. Rafe, como costumo chamar. Ele é a melhor coisa que já me
aconteceu. Nós temos três anos juntos e um de noivado. Estamos planejando nos casar daqui a no máximo
um ano. Eu já tenho vinte e seis e ele trinta. Acho que já está na hora de construirmos uma família, não?
Os três homens da minha vida. Juntos, em cima da minha mesa, me dão inspiração e razão para
prosseguir. Se existem mulheres em torno de mim? Ah, sim, elas existem, mas falo melhor sobre elas em
outro momento.
Quanto ao meu trabalho? Todas as energias positivas são importantes para que eu não surte. É muita
sujeira que encontro debaixo do tapete e preciso ter muito autocontrole para não levar os problemas para a
minha vida pessoal.
– Kim, Sr. Olavo disse que quer falar com você assim que chegar. – Outro funcionário passa por mim,
deixando a tão repetida mensagem.
Uau! Será que tem alguém desesperado por aqui? Esse cara deixou recado por todos os funcionários
da emissora? Ele não vai me dar o direito sequer a respirar?
Levanto da cadeira respirando fundo e estralo meus dedos antes de dar os primeiros passos a
caminho do escritório do meu chefe. Estralar os dedos é como um mantra para mim. Parece que meu corpo
ganha vida quando faço isso. Às vezes me acho meio estranha por conta dessa mania, mas depois penso:
quem não as têm?
– Bom dia, Tânia. Sr. Olavo pode me receber agora? – Pergunto à sua secretária que levanta com a
prontidão e eficiência de um soldado inglês. Seus cabelos devidamente presos em um coque e sua roupa
cliché de secretária destoa completamente da loucura que é trabalhar em uma emissora de TV.
– Ele só está te aguardando, Srta. Nóbrega.
É sério isso? Alguém neste país ainda usa essa coisa de senhorita? Tânia deve ser um anjo do século
passado enviado especialmente para lidar com Olavo. Eu não aguentaria ser sua secretária por um dia.
– Obrigada, Tânia.
Dou duas batidas na porta e a empurro para ter acesso à sala do meu chefe. Ele está falando ao
telefone e nem percebe a minha entrada.
– Eu quero isso resolvido ainda hoje. Se não conseguir essa entrevista, você está demitido. Demitido!
– Grita, fazendo caras e bocas como se a pessoa do outro lado da linha pudesse lhe ver.
Limpo a garganta e finalmente tenho sua atenção. Seus olhos se arregalam demonstrando algo que
identifico como alegria, como se eu fosse sua tábua de salvação no meio de um maremoto. Ufa! Pelo menos
dá a entender que aí não vem bomba.
– Quer falar comigo, Olavo?
Ele larga o telefone sobre a mesa, interrompendo a conversa sem a menor cerimônia e dá alguns passos
em minha direção, parando mais perto de mim do que eu gostaria.
Não precisa estar tão próximo para que eu sinta o fedor de cigarro que já havia se tornado seu perfume
natural. Para completar, ele tenta escondê-lo com balas de menta, fazendo uma mistura infernal. Espero
que a conversa seja curta. Não aguento ficar aqui por muito tempo.
– Kimberly, que bom que você chegou. Sente-se. Precisamos ter uma conversa séria.
Oh, oh! Talvez eu tenha sido precipitada em achar que não viria bomba por aí.
Puxo a cadeira e me sento, enquanto ele dá a volta em torno da mesa para ficar do outro lado. Senta-se
diante de mim e inclina sua cabeça para frente, me encarando de um modo que me deixa constrangida.
Desvio meu olhar, passando a observar os objetos e mobiliários à minha volta. As madeiras dos móveis
são escuras e a sala é pintada em um tom gelo que dá um ar pesado ao ambiente. Eu não teria escolhido
essas cores se a sala fosse minha, penso rapidamente.
Réplicas de pinturas famosas quebram a monotonia do lugar e conseguem trazer uma atmosfera um
pouco mais leve em contraponto aos mobiliários de aparência pesada e rústica. Ao menos um pouco de vida
em uma sala tão obscura.
– Do que se trata, Olavo? Desde que cheguei à emissora, todos estão me dando recados e mais
recados. O que aconteceu agora? Tem alguma coisa a ver com aquele deputado?
– Não. Dessa vez não tem nada a ver com suas investigações. A questão é que a emissora está
precisando de você como nunca precisou tanto de alguém. Você sabe que nunca tivemos interesse em usar
suas influências, mas dessa vez não temos escolha. Tenho um pedido muito sério a te fazer, Kim.
Me chamou pelo apelido? Mal sinal. Com certeza vai me pedir algo realmente muito importante.
Quase impossível. Ele não baixaria a guarda se não tivesse um bom motivo para isso.
– Desembucha de uma vez, homem. Já está me deixando preocupada.
Estralo meus dedos das mãos mais uma vez e fico me perguntando se eu pareceria louca se
começasse a estralar os dedos dos pés também. Resolvo não arriscar.
– Calma, Kim, não vou te pedir o impossível ou qualquer coisa absurda. Aliás, o impossível você faz
todos os dias em seu brilhante trabalho. O que vou te pedir está completamente dentro das suas
possibilidades.
Hum... me enchendo de elogios à toa? Isso não é próprio do meu chefe. Deve ser algo que vai mover o
mundo. Nunca o vi tão bonzinho.
Estralo o último dedo e volto minha atenção para ele que franze a testa ao ouvir o último estralo. Será
que sou tão estranha assim?
– Continua com essa mania, hein, Kim? Estralar os dedos atrofia as juntas, sabia disso?
Sempre achei que essa conversa era só invenção das pessoas mais velhas. Tenho essa mania desde
criança e meus dedos são completamente normais. Eu poderia ser um caso a ser estudado pela ciência?
– Você não me chamou aqui para falar dos meus dedos, Olavo. Só faço isso quando estou nervosa e é
como você está me deixando. Fale logo o que está acontecendo? Não tenho paciência para adivinhas.
Como eu falo assim com meu chefe? Eu sou boa no que faço. Se ele me demitir, tem um punhado de
emissoras que vão querer o meu trabalho e ele sabe disso. Esporadicamente recebo uma proposta, mas
ainda não encontrei motivos para mudar de casa.
– Você quer que eu vá direto ao assunto, é o que farei. Bem, como todos sabem, seu pai é dono de um
dos maiores clubes de futebol deste país e, por isso, você cresceu no meio de celebridades, jogadores e
artistas famosos.
– Já não estou gostando do rumo dessa conversa, mas continue.
– A emissora está perdendo contratos de propaganda de marcas expressivas porque não estamos
apresentando um diferencial na área que sempre foi o nosso carro chefe, que é o esporte.
– Talvez seja o momento de investir em outra área?
– Talvez. Pode ser que você tenha razão, mas investir em outra área demanda tempo e dinheiro. No
momento não temos nenhum dos dois.
Penetro meus olhos verdes nos seus enormes e negros totalmente proporcionais ao seu rosto
rechonchudo em busca de mais alguma informação que negue ou confirme o que eu estou pensando. Minha
atenção agora está cem por cento voltada a essa conversa.
– Está querendo dizer que a emissora pode fechar as portas? Ela tem chances de falir?
Ele respira fundo e se recosta em sua cadeira olhando para o teto como se lá fosse encontrar a melhor
resposta para me dar.
– É exatamente o que estou dizendo, Kimberly. Se algo não for feito com extrema urgência, os dez mil
trabalhadores da RNC correm o risco de ficar desempregados da noite para o dia.
Caramba, pensei que estava trabalhando em uma empresa sólida, que não corresse esse risco. Dez
mil pessoas sem emprego. Dez mil famílias sem seu sustento. Não, algo tem que ser feito. Isso não pode
acontecer.
– O que eu posso fazer para ajudar?
Ele solta a respiração que parece estar presa em seus pulmões. Suas feições aliviam como se eu
fosse a super heroína que está prestes a salvar a emissora dessa situação. De que forma eu faria isso?
– Você pode fazer muito, Kim, não tem ideia do quanto. Você pode contribuir para que a emissora
permaneça forte, mas para isso terá que trabalhar na área que sempre tentou fugir.
Não, não e um sonoro não.
A área esportiva não me atrai, não é o que quero e representa tudo o que mais odeio. Lembro de minha
mãe dizendo: “você foi criada para casar com um jogador de futebol rico e famoso. Linda como é e com os
contatos certos, não terá qualquer dificuldade”.
A insistência de minha mãe me fez nadar contra a maré. Um acontecimento da infância também
colaborou para isso. Eu não quero qualquer relação com qualquer tipo de esporte, mesmo tendo um pai dono
de clube e um irmão jogador de futebol. Essa definitivamente não é a minha praia.
– Eu não vou trabalhar no setor de esportes, Olavo. Se essa é a sua ideia, então desista. Tente buscar
outro meio de salvar a emissora.
Traços de cansaço voltaram a tomar seu rosto. Percebo duas bolsas de gordura sob seus olhos,
mostrando que não tem dormido direito. Olhando bem, seu rosto parece bem mais envelhecido do que me
lembro.
– Kimberly, entenda uma coisa. Se eu pudesse mandar qualquer pessoa fazer esse trabalho em seu
lugar, não tenha dúvidas de que faria, mas você é a única com conhecimentos suficientes para conseguir
essa entrevista. Eu te peço que faça apenas dessa vez e depois não falamos mais no assunto.
– Entrevista? Você não tinha comentado sobre qualquer entrevista. Do que está falando exatamente?
– Vou te explicar. Você conhece o jogador Apollo Assunção, não é?
– Sim, já ouvi falar. Ele não é o jogador mais disputado pelos clubes de futebol?
– Ele mesmo. Há rumores de que recebeu uma proposta para jogar em um dos maiores times da liga
europeia, mas ainda não divulgou a notícia para a imprensa. Parece que está tentando manter em segredo
pelo máximo de tempo possível.
– Certo. E onde eu entro nisso? Ainda não consegui entender, Olavo.
– Vai entender agora. Você, Kimberly, é a única nessa emissora com influência suficiente para entrar no
estádio e se aproximar de Apollo. O clube dele estará jogando contra os Avantes hoje, e como seu pai é
dono do clube, eu pensei...
Nem o deixei continuar. Me levantei da cadeira como se brasa estivesse queimando minha bunda. Inclinei
meu corpo para frente e apontei um dedo na cara do meu chefe. Eu não estou nem aí se essa atitude vai
ter consequências.
– Não, entendeu? Vou soletrar: N-A-O-til. Não! Você acha que estudei tanto e lutei para vencer às minhas
próprias custas para, na primeira oportunidade, usar a influência do papai? Não, Olavo. Eu detesto
jogadores de futebol, são todos arrogantes, senhores de si e pretendo manter o máximo de distância
possível.
– Kim, pense bem. Eu preciso que leve em consideração as pessoas que podem sair perdendo por sua
recusa. Uma entrevista em primeira mão com Apollo é tudo o que precisamos para que as abelhas
corram para o mel. As marcas só vão voltar a investir se pudermos provar que somos bons. Eu preciso de
você.
Eu quase consigo ver lágrimas caindo dos olhos de Olavo. Sei o quanto a emissora é importante para
ele e para milhares de outras pessoas, porém desta vez ele foi fundo na minha lista de proibições.
Sim, eu tenho uma lista dessas, de verdade. E no seu topo está escrito que jamais devo ter qualquer
contato mais próximo com um jogador de futebol, mas como todas as regras têm exceção, meu irmão é a
única.
Por quê? Quem sabe eu conto a qualquer momento. O fato é que preciso tirar essa ideia da mente do
meu chefe a todo custo.
– Olavo, se tiver alguma coisa, qualquer coisa mesmo que não seja me envolver no departamento de
esportes, me avise que estarei mais que disposta a ajudar. Se a única opção for essa, lamento, mas está
acima das minhas possibilidades.
Ele balança a cabeça em negação a cada palavra que sai da minha boca.
– Sabe que eu nunca entendi essa sua teimosia para fugir de um universo que está no seu sangue,
entranhado em sua família? Meu Deus, é como se um peixe estivesse fugindo do mar. Você seria tão bem
sucedida se resolvesse voltar atrás, mudar de ideia, investir na carreira de jornalista esportiva.
Cristo, será que eu vou ter que desenhar? Ele ainda vai insistir nisso?
– Eu não quero voltar atrás. Eu não quero mudar de ideia. Posso te garantir que tenho meus motivos.
Minha resposta é definitivamente não.
Olavo fecha os olhos e parece juntar todo o fio de paciência que ainda lhe resta. Suga todo oxigênio
que consegue e levanta as pálpebras, exibindo um ar de vencido.
– Vamos fazer dessa forma. Você não me dá a resposta agora. Pese todas as consequências boas e
ruins caso aceite fazer a entrevista e pense nas pessoas que podem depender da sua escolha. Eu estou
literalmente em suas mãos.
Continuo balançando minha cabeça em negação enquanto ele fala.
– Ha ha, você fala como se tivesse certeza de que Apollo Assunção aceitaria me dar uma informação tão
importante apenas ao olhar para os meus lindos olhos verdes. Cai na real, Olavo, o cara deve ter mil
seguranças impedindo qualquer reles mortal de chegar perto dele.
– Apenas pense, Kim, é só o que te peço. Apenas pense.
Pensar, pensar... é tudo o que eu menos quero fazer agora. Meu desejo íntimo é de apenas bloquear
qualquer pensamento e me manter firme na decisão de permanecer o mais distante possível de qualquer
jogador.
E daí que eu tenho grandes chances de conseguir essa entrevista caso use o nome e a influência do
meu pai? E daí que milhares de pessoas podem ficar desempregadas em um país passando por uma crise
financeira? E daí que uma das maiores emissoras de televisão pode fechar suas portas?
Droga, essa não é você, Kimberly.
Me levanto da cadeira e caminho em direção à porta da sala do meu chefe sem dizer mais nenhuma
palavra. Paro no batente e olho para trás apenas para ver Olavo me fitando com cara de cachorro pidão.
Por um segundo, sinto pena dele, um desejo de voltar atrás em minhas próprias convicções e lhe dizer
sim.
Mas não posso. Eu simplesmente não posso. Talvez em algum momento todos entendam que está acima
das minhas forças.
Caminho em busca do banheiro como um zumbi que não sabe para onde vai e que apenas deixa suas
pernas lhe guiar. Não vejo nada nem ninguém diante de mim, apenas um turbilhão de pensamentos que trava
uma guerra entre a razão e a emoção.
– Kim, está tudo bem com você?
Tânia me para no caminho e por uma fração de segundo não a reconheço. Será que meus pensamentos
chegaram ao ponto de nublar minha visão?
Seu rosto perfeitamente maquiado sobre a pele lisa e sem rugas dá sinais de que aguarda uma
resposta. Eu não gosto de fingir apenas por convenção.
– Não, Tânia. Nada está bem. Sabe quando você se sente encurralada, pressionada contra a parede,
sem encontrar uma saída? Estou me sentindo exatamente assim neste momento.
– Aconteceu alguma coisa? Você foi demitida? Era isso que o chefe queria te dizer?
Dou um sorriso tranquilizador a ela e rio internamente da sua inocência. Demissão seria uma
possibilidade bastante improvável uma vez que meu trabalho rende muito na emissora.
– Antes fosse isso. Antes fosse. Eu estaria mais feliz porque o problema seria apenas comigo.
– Ah, que bom, então. Você faria muita falta aqui, Kim.
Sim, eu sei que ela está sendo sincera, pois aqui na emissora sou daquele tipo que se envolve no
trabalho dos outros, que ajuda no que pode, que põe uma música e dá vida ao ambiente e que programa as
confraternizações.
Só não me envolvo com o departamento de esportes.
– Obrigada, Tânia. Você é sempre uma fofa. – Falo enquanto aperto sua bochecha rosada pelo blush e
percebo que ela fica ainda mais rosada. Tânia enrubesce com minha atitude. Me despeço com um beijo em
seu rosto e volto a dar passos largos em direção ao banheiro.
Quando alcanço a pia, me encosto nela e encho as mãos de água jogando sobre o meu rosto como se
pudesse lavar minha alma. Olho para a imagem no espelho me encarando com seus olhos verdes, cabelos
castanhos e pele morena.
A mulher diante de mim nunca fugiu de um desafio, sempre foi forte e ultrapassou barreiras para se
tornar a pessoa que é. A mulher diante de mim foi criada para ser a boneca do papai ou a prostituta da mamãe,
mas decidiu trilhar seu próprio caminho.
Até hoje. Hoje a vida lhe deu um desafio que ela tem medo de não conseguir vencer e não quer nem ao
menos tentar.
É isso. Chega dessa história. Tenho muito trabalho a fazer e enquanto a emissora está de pé tenho que
continuar dando o melhor de mim. Não me julgue, por favor, ninguém sabe os meus motivos.
Aliás, apenas minha prima Nina sabe. Somente ela, mais ninguém.
Volto para a minha mesa tentando desesperadamente me concentrar em escrever um artigo de
opinião que deverá estar pronto para o outro dia no site da RNC.
Eu já contei o que significa essa sigla? Rede Nacional de Comunicação. Isso mesmo. A emissora é
grande e transmitida para todo o país. Imagine a catástrofe de uma empresa desse porte fechar suas portas?
As frases estão começando a se formar em minha mente, enlouquecidas para tomar forma, quando o
mouse clica sem querer em um site de propagandas e adivinha quem aparece na tela? Ele mesmo. Apollo
Assunção em carne, osso e músculos.
E que músculos!
Ele parece estar me olhando com duas piscinas azuis cristalinas brilhando em minha direção, cabelos
loiros bagunçados propositalmente e uma boca... Uau! Esse cara, antes de nascer, passou na fila das
bocas perfeitas e sensuais pelo menos umas dez vezes.
Não é a toa que há tanto furor em torno dele. Além de ser o homem da vez quando se trata de futebol, é
lindo de morrer. Quem não sonha fisgar um homem rico e bonito?
Acho que eu sou a única a levantar o dedo. Descobri há algum tempo que dinheiro não é tudo. Quanto à
beleza... ah, vai, qualquer pessoa há de concordar que beleza é fundamental, como dizia o poeta.
Apollo deve ter entre vinte e sete ou vinte oito anos de idade, o que lhe dá um ar de garoto, reforçado por
seu jeito extrovertido, e de homem ao mesmo tempo. Homem com H maiúsculo. Uh, que calor!
Mas é claro que um homem desses tinha que ter um defeito, não? Ele tinha que ser a porcaria de um
jogador de futebol? Não. Definitivamente, ele nunca entraria em minha lista. Além de tudo, Kimberly, lembrese que você é noiva. Noi-va!
– Kim, eu posso conversar com você? – Meus pensamentos são interrompidos por Tânia.
O jeito tímido dela faz brotar em mim uma mistura de simpatia e piedade ao mesmo tempo. Parece
sempre tão carinhosa, mas, por outro lado, sempre tão carente.
– Claro, Tânia. Acho que agora é a minha vez de perguntar se há algo acontecendo.
– Tem, sim. E se eu não desabafar, acho que vou acabar tendo um troço.
– Fala de uma vez, então, mulher. Posso te ajudar em alguma coisa?
– Você sabe que tenho um filho de cinco anos que é a coisa mais valiosa que tenho no mundo, não é?
– Claro, seu filho Guga. Já faz um tempo que não o vejo. Deve estar enorme. O que tem ele?
– Ah, Kim, eu não contei a ninguém, mas preciso falar com alguém. Guga... meu pequeno Gustavo
estava cansando e tendo vômitos com alguma frequência e a princípio os médicos pensaram que era uma
virose, fiz o tratamento indicado, contudo os sintomas se prolongavam. Depois que fizemos alguns
exames... – Lágrimas descem pelo rosto dela agora.
– Oh, querida. Espero que não tenha más notícias. Ele sempre foi um garoto tão saudável e vejo seu
esforço para ser uma boa mãe. Beba um pouco de água e sente-se. Tente manter a calma.
Enquanto eu encho um copo com água, ela puxa uma cadeira para sentar. Entrego-lhe o copo e ela
bebe o conteúdo, dando alguns goles e parando para recuperar o fôlego esporadicamente.
– Está mais calma agora, Tânia? Só continue falando quando quiser. Eu tenho o dia todo para te escutar.
– Falo a última frase sorrindo na tentativa de animá-la um pouco.
Parece que funcionou.
– Acho que estou mais calma, obrigada. Como eu estava dizendo, meu pequeno não ficava bom com
nenhum medicamento, mesmo depois de passar por vários médicos de especialidades diferentes.
– Você nunca me contou isso. Estávamos todos aqui na emissora achando que sua vida era perfeita.
Eu podia tentar ajudar, não sei, talvez falar com um médico que é amigo da minha família ou quem sabe...
Ela abre a mão em minha direção interrompendo a minha fala. Ela queria continuar desabafando e eu
a impedi. Que mania essa minha de falar pelos cotovelos.
– Não precisa, Kim, eu te agradeço muito. O que está fazendo agora já é mais do que suficiente. Você
confiou em mim quando disse que estava com problemas e isso me deu forças para te procurar e
desabafar. Eu sou assim mesmo. Costumo guardar os problemas comigo. Acontece que já estava
sufocada.
Dessa vez eu não digo mais nada. Apenas balanço a cabeça assentindo e respeito o seu tempo para
continuar falando. Sua maquiagem perfeita agora está borrada e o delineador mancha debaixo de seus
olhos castanhos. Passo o polegar e tiro o excesso do lápis preto de seu rosto.
– Meu filho... meu pequeno Guga foi diagnosticado com Lupus em estágio 1. Você sabe o que é isso?
Meu bebê de apenas cinco aninhos tem uma doença autoimune e requer cuidados de perto, já que coloca a
vida dele em risco.
Tapo minha boca em surpresa. Não conheço muito sobre o assunto, mas é algo que vou começar a
pesquisar. Eu preciso conhecer melhor sobre a doença e saber se posso ajudar Tânia de alguma forma.
– É muito sério? Quer dizer, você disse que está em estágio 1, então é sinal de que pode avançar para
outros estágios?
– Sim. Graças a Deus, esse é o mais leve, porém isso não quer dizer que seja mais fácil de lidar.
Gustavo vai ter que tomar medicamentos e ter cuidados especiais provavelmente por toda a vida.
– Puxa vida, imagino o impacto que você e seu marido sofreram quando tiveram essa notícia.
Seu choro aumenta ainda mais e tenho vontade de socar o meu próprio rosto por algo que eu disse e
despertou suas lágrimas novamente. O que foi que eu falei mesmo para fazê-la chorar assim?
– Tânia, o que foi? Eu disse alguma besteira? Me desculpe.
Puxando todo o ar possível para encher seus pulmões, ela suspira, tentando controlar seus soluços.
– O meu marido... o pai do meu filho foi embora há seis meses e até hoje não deu mais notícias. Só
ouvi o boato de que está com outra família e não tive mais nenhuma informação.
Dou a volta em minha mesa e sento-me ao lado dela, puxando sua cabeça para se recostar em meu
ombro. Aliso seus cabelos e deposito ali um curto beijo para mostrar que ela não está sozinha, que pode
contar com os amigos.
– Por que tudo de uma vez? O que eu fiz para merecer tanto tormento? Será que os céus estão me
castigando por algo que eu fiz e não lembro?
Cristo, se tem alguém que quase não deve ter pecados deve ser essa criatura. É a mãe mais dedicada
que já vi, excelente funcionária e era ótima esposa. Levantei sua cabeça do meu ombro e segurei seu rosto
para que ela olhasse no fundo dos meus olhos. Preciso de sua total atenção.
– Tânia, vou falar apenas uma vez e espero que me ouça. Você não tem culpa alguma de tudo o que
está acontecendo. Se seu marido a abandonou, ele é um verme e totalmente irresponsável. Eu esmagaria o
pescoço dele se aparecesse em minha frente. Na verdade, acho que só ele saiu perdendo.
– Você sempre dizendo as coisas certas no momento certo, kim.
– E tem mais. Se o lindinho do Guga está doente é porque você é uma pessoa especial, escolhida por
um ser superior, com amor suficiente para lidar com essa situação. Já imaginou se Guga fosse filho de uma
irresponsável também?
– Deus me livre. De irresponsável já basta o pai dele.
– Então. Eu sei que é difícil ver um lado bom nessas circunstâncias, mas pelo menos tenha em mente
que você não tem culpa de nada. Às vezes a gente só sabe perguntar 'por que eu?' e nos esquecemos de
perguntar 'por que não eu?'. Já pensou nisso?
– É tão bom conversar com você. Eu me sinto mais leve, mais esperançosa. Obrigada por me dar
ouvidos. Pelo menos uma coisa boa eu sei que tenho. Meu emprego que me dá condições de sustentar meu
filho e comprar seus remédios. E amigos. Sei que aqui na emissora eu tenho bons amigos como você que
farão o possível e impossível para me ajudar se eu precisar.
Não!
Eu deixo de ouvir o que ela fala a partir do momento que usou as palavras emprego, sustento e remédios
na mesma frase. Estralo os cinco dedos de uma mão de uma só vez e mais os cinco dedos da outra,
fazendo um barulho tão alto que chega a assustar Tânia.
Ela me considera uma amiga? Ela acha que faria qualquer coisa para ajudá-la caso precisasse?
Se ela soubesse que não faz uma hora que me neguei a ajudá-la, não estaria fazendo esse discurso.
Ela não pode perder o seu emprego. Não pode deixar de cuidar de seu filho.
Deus, eu sou um monstro. Penso apenas nos meus problemas, apenas em meu próprio umbigo,
enquanto as pessoas têm problemas maiores que os meus e dependem da minha tentativa, apenas uma
tentativa de salvar seus empregos.
– Kim, você está me ouvindo?
Dou um sorriso reconfortante a ela e começo a me levantar para tomar uma atitude. Não tem jeito. Vou
ter que quebrar a regra número um da minha lista de proibições.
– Estou, querida, você está certa. Eu farei qualquer coisa para te ajudar. Me deixe saber o que preciso
fazer e lá estará. Agora tenho que voltar à sala de Olavo. Acho que ele vai gostar da notícia que tenho para lhe
contar. Você ainda não sabe, Tânia, mas aprendi uma grande lição com sua história hoje.
– Verdade? Que tipo de lição?
– Às vezes damos uma dimensão maior aos nossos problemas do que eles realmente têm. O que são
meus problemas diante das dificuldades que você está passando agora, por exemplo? Tire o dia de folga. Vá
ficar com seu filho.
– O quê? Não posso. Sr. Olavo pode precisar de mim.
– Eu não sou seu chefe, mas pode confiar em minha palavra. Ele não vai precisar. Pode deixar que eu
assumo. Vá para casa e encha seu filhote de beijos. Ele deve estar precisando de muito carinho.
Tânia me surpreende quando pula em meu pescoço de um jeito intempestivo e me dá um beijo forte na
bochecha, provando sua gratidão.
– Obrigada, obrigada, eu não sei como te agradecer. Quero que saiba que estou a sua disposição caso
precise de mim também.
Eu a acompanho até sua mesa e a vejo pegar sua bolsa para sair. Dessa vez bato na porta e aguardo
um convite para entrar na sala. Olavo pode estar ocupado com um dos funcionários ou representantes.
Sua voz grossa me convida para entrar e dou um passo para dentro, tomando todo o fôlego necessário
pra me dar forças a fim de tomar a decisão certa.
Só dessa vez, Kimberly, repito para mim mesma. Quebre a regra só dessa vez. É por uma boa causa.
Depois você pode voltar para a sua redoma de vidro.
Sim, é isso o que vou fazer. Só dessa vez.
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Sem título-2 - Lucy Berhends Romances