O Ensino de Métodos Quantitativos nos Cursos de Mestrado em Ciências Contábeis no
Brasil
Autoria: Marcelo Alvaro da Silva Macedo, Helida Delgado Ribeiro Macedo
Apesar do avanço relativamente recente, a área de métodos quantitativos vem, ao longo do
tempo, ganhando importância nas Ciências Contábeis, principalmente, a partir da década de
1960, com a disseminação da Teoria Positiva. Além disso, as mudanças ocorridas na profissão
de contador trouxeram uma maior necessidade de capacidade analítica por parte dos
profissionais da contabilidade. Em termos de Brasil, tem-se como marco inicial da discussão
sobre a utilização de métodos quantitativos na contabilidade o artigo de Iudícibus (1982), que
cria o termo Contabilometria (em clara referência a Econometria das Ciências Econômicas) e
o define como uma nova área das Ciências Contábeis, onde busca-se o desenvolvimento de
raciocínio matemático para solução de problemas contábeis. Neste contexto, este artigo tem
como objetivo analisar a oferta do conteúdo da área de métodos quantitativos nos cursos de
mestrado em ciências contábeis no Brasil. Para tanto, é feito uma análise do conteúdo
programático e ementa das disciplinas referentes a esta área nos cursos de mestrado em
ciências contábeis no Brasil, bem como da carga horária e da situação como obrigatória ou
optativa. Os resultados mostram que o oferecimento do conteúdo de métodos quantitativos,
em termos de obrigatoriedade e carga horária, parece homogêneo. Além disso, percebe-se que
a maioria dos cursos oferece o conteúdo básico de estatística nas disciplinas de métodos
quantitativos, que alguns cursos oferecem conteúdo de análise estatística de dados em suas
disciplinas de métodos quantitativos e que pouquíssimos cursos oferecem conteúdos além da
estatística, tais como programação matemática e cálculo diferencial e integral. Observa-se,
porém, na análise das disciplinas ofertadas, que apesar de haver certa homogeneidade de
carga horária, conforme destacado anteriormente, não há homogeneidade de conteúdo. Isso é
observável na comparação entre os cursos, pois percebe-se cursos que oferecem mais
conteúdo em menos carga horária e outros que oferecem o mesmo conteúdo em cargas
horárias muito diferentes. Isto mostra no mínimo uma diferença relevante de aprofundamento
dos conteúdos ministrados, pois não é possível admitir que o mesmo conteúdo com a mesma
profundidade densidade seja oferecido em cargas horárias tão dispares. Por fim, constatou-se
a questão de oferecimento de conteúdos avançados sem se preocupar com a base teórica para
sustentação dos mesmos. Isso pode trazer certa superficialidade no processo ensinoaprendizagem, além de problemas na aplicação destas ferramentas.
Métodos Quantitativos. Mestrado em Ciências Contábeis. Ensino.
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1. Introdução
Ao longo dos anos, a contabilidade vem sendo influenciada por conhecimentos das
mais diversas naturezas, o que faz com que as Ciências Contábeis possam evoluir e responder
às demandas e desafios postos.
A partir da década de 1960, a disseminação da Teoria Positiva, de base quantitativa e
econômica, trouxe a necessidade de maior ênfase quantitativa na formação de profissionais
para o mercado e para a academia (IUDÍCIBUS e LOPES, 2004). Neste sentido, Duarte,
Lamounier e Colauto (2008), afirmam que esse incremento de estudos com abordagem
positiva favoreceu a utilização de métodos quantitativos nos estudos da área de contabilidade.
Este argumento de maior utilização de métodos quantitativos nas Ciências Contábeis é
reforçado por Cardozo et al. (2006), que enfatizam que em uma sociedade onde as
informações são cada vez mais requeridas ao profissional da contabilidade, faz-se necessário
que o conteúdo da área de métodos quantitativos seja visto como uma ferramenta para
geração e análise dessas informações.
Apesar disso, cabe ressaltar que há sempre uma relação de custo e benefício a negociar
em cada situação de análise de dados em ciências humanas e sociais, e isso é válido tanto para
as abordagens ditas qualitativas quanto quantitativas. Tal negociação implica considerar
cuidadosamente o objeto em estudo, os modelos teóricos que balizarão tal abordagem, as
categorias oriundas da análise de tal objeto a partir de tal modelo e as ferramentas disponíveis
para processar a informação gerada (FALCÃO e RÉGNIER, 2000).
Estes aspectos são reforçados pelos argumentos de Gatti (2004), que destaca que no
emprego dos métodos quantitativos é necessário considerar dois aspectos: primeiro, que os
dados têm algumas propriedades que delimitam as operações que se podem fazer com eles, e
que deixam claro seu alcance; segundo, que as boas análises dependem de boas perguntas que
o pesquisador venha fazer, ou seja, da qualidade teórica e da perspectiva epistêmica na
abordagem do problema, as quais guiam as análises e as interpretações. Sem considerar estas
condições corre-se o risco de usar certos tratamentos estatísticos indevidamente e com isso
não se obter interpretações adequadas a partir das análises conduzidas. Somente assim, os
métodos de análise de dados com base quantitativa podem ser úteis na compreensão dos
problemas.
Neste sentido, este trabalho apresenta o seguinte problema de pesquisa: como se
encontra o oferecimento do conteúdo da área de métodos quantitativos nos cursos de mestrado
em ciências contábeis no Brasil?
Sendo assim, o presente estudo tem como objetivo analisar a oferta do conteúdo da
área de métodos quantitativos nos cursos de mestrado em ciências contábeis no Brasil. Para
tanto, é feito uma análise do conteúdo programático e ementa das disciplinas referentes a esta
área nos cursos de mestrado em ciências contábeis no Brasil, bem como da carga horária e da
situação como obrigatória ou optativa.
2. O Ensino de Métodos Quantitativos na Área de Ciências Contábeis
Pode-se dizer que o marco inicial da discussão sobre a utilização de métodos
quantitativos na contabilidade no Brasil foi o artigo de Iudícibus (1982), que cria o termo
Contabilometria (em clara referência a Econometria das Ciências Econômicas) e o define
como uma nova área das Ciências Contábeis, onde busca-se o desenvolvimento de raciocínio
matemático para solução de problemas contábeis.
Segundo Matsumoto, Pereira e Nascimento (2006) a Contabilometria pode ser vista
como a área do conhecimento contábil, que busca a aplicação de métodos quantitativos na
solução de problemas contábeis na tentativa de auxiliar o processo de gestão das empresas,
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permitindo ao profissional contábil oferecer informações relevantes e oportunas para seus
usuários.
De acordo com Nossa e Garcia (2002), em termos acadêmicos, na Contabilometria, o
aluno precisa compreender o objetivo dos métodos quantitativos, conhecendo a definição dos
principais termos, bem como ter uma visão geral da operacionalização dos mesmos,
verificando como podem ser resolvidos por meio de alguma ferramenta computacional e
como podem ser interpretados seus resultados.
A discussão sobre a aplicação de métodos quantitativos nas pesquisas em ciência
sociais não é de hoje. Bertero (1984) relata que a dicotomia que separa o quantitativo do
qualitativo, desde a precoce e indevida bifurcação entre exatas e humanas, resulta sempre em
precária formação quantitativa para os cursos de ciência sociais aplicadas. Isto, associado a
uma rejeição mais preconceituosa do que propriamente crítica, do tratamento estatístico dos
dados de pesquisa de campo, acabam por explicar a fraqueza das pesquisas em ciências
sociais aplicadas no Brasil em termos quantitativos.
O autor reforça que equivocadamente associa-se o tratamento estatístico e quantitativo
com funcionalismo estrutural e positivismo lógico. Assim a rejeição de tais posições, em
teoria e epistemologia, justificaria descartar a aplicação de métodos quantitativos na busca por
maior rigor metodológico nas pesquisas empíricas. Como conseqüência, a deficiência no
manejo de técnicas quantitativas, freqüentemente acompanhada de uma atitude
preconceituosa contra elas, nos leva (no Brasil) a permanecer à margem da pesquisa de
vanguarda em ciências sociais aplicadas, que se realiza no mundo.
Existem alguns estudos feitos no Brasil sobre a área de métodos quantitativos no
ensino e pesquisa em contabilidade. Em seu estudo, Clemente et al. (2010) analisaram o
processo de evolução da utilização de métodos quantitativos na produção científica veiculada
ao Congresso Brasileiro de Custos, no período 1994-2008, especialmente no que diz respeito
ao grau de tal uso. Trata-se de um estudo. Os resultados indicaram que pouco mais de 12% da
população estudada utilizou técnicas estatísticas para subsidiar suas manifestações, sendo que
as maiores freqüências desse uso mostraram-se concentradas nos últimos anos do evento.
Quanto à intensidade, verificou-se que a utilização de métodos quantitativos teve início de
forma tênue e passou a ser gradualmente incrementada.
Dallabona, Nascimento e Hein (2010) mostram em seu estudo que a evolução da
utilização de ferramentas de análise quantitativa (especialmente de análise estatística de
dados) nas dissertações em ciências contábeis nos últimos anos tem como intuito o incentivo
às pesquisas quantitativas, pois os métodos estatísticos ajudam no desenvolvimento das
pesquisas realizadas e contribuem para a interpretação dos fenômenos sociais investigados a
fim de proporcionar uma evolução científica para a área de contabilidade no Brasil.
Segundo Dallabona, Nascimento e Hein (2010), a utilização de métodos quantitativos
no tratamento de problemas relacionados a pesquisas em contabilidade no Brasil é
relativamente recente. Porém, a utilização de modelos baseados em métodos quantitativos tem
se tornado cada vez mais freqüente decorrente do rápido desenvolvimento da tecnologia da
informação e da utilização mais acessível de pacotes computacionais de análise de dados.
O interesse de alunos de graduação em contabilidade pelas disciplinas da área de
Métodos Quantitativos foi o foco do estudo de Costa et al. (2009). Os autores concluíram que
os estudantes de Contabilidade não demonstraram uma atitude entusiasmada em relação às
disciplinas de métodos quantitativos. Além disso, os autores verificaram que o interesse dos
estudantes é positivamente influenciado pela percepção de importância e por sua
autoconfiança em métodos quantitativos, e negativamente influenciado pela percepção de
dificuldade da área.
Ainda em relação à graduação em Ciências Contábeis, Cardozo, Demuner e Batista
(2006) e Cardozo et al. (2006), afirmam que no ensino de disciplinas relacionadas aos
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métodos quantitativos existe uma tendência para o uso de metodologia tradicionalista quanto
aos recursos didáticos, cujo foco do ensino se encontra no professor e onde o aluno assume
uma posição passiva na construção dos conceitos e das idéias, e uma tendência para o uso de
metodologias tecnicista quanto às abordagens de ensino, onde o papel do aluno é apenas o de
memorizar.
Numa análise dos programas de doutorado em Ciências Contábeis nos EUA, Múrcia,
Borba e Ambrósio (2007) verificaram um número relativamente alto de disciplinas
envolvendo métodos quantitativos, o que segundo os autores mostra o foco em pesquisa
(research) na formação dos alunos dos referidos programas.
3. Metodologia
Esta pesquisa é de natureza exploratória e descritiva, pois pretende-se apresentar e
discutir a situação de oferecimento de disciplinas da área de métodos quantitativos em cursos
de mestrado de ciências contábeis no Brasil. Isso porque segundo Gil (2010), o estudo
exploratório visa proporcionar maior familiaridade com o problema, de modo a torná-lo mais
explícito e de acordo com Vergara (2009), o estudo descritivo procura expor características de
determinada população ou fenômeno.
O universo da pesquisa é formado pelos cursos de mestrado, profissional e acadêmico,
reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES,
no triênio 2007-2009. Sendo assim, a população do estudo é formada pelos programas de pósgraduação das seguintes instituições: UFRJ, UERJ, USP, USP/RP, UniFECAP, UPM,
PUC/SP, UNISINOS, UFBA, UnB/UFPB/UFRN, FUCAPE, UFES, UFPR, UFAM, UFC,
UFPE, UFSC, FURB e UFMG. Estes 19 programas oferecem 21 cursos, quatro de mestrado
profissional e 17 acadêmicos, sendo que apenas dois programas oferecem ambas as
modalidades. O quadro 01 mostra algumas características da população do estudo.
Quadro 01 – População do Estudo
UF
CE
CE
ES
ES
ES
MG
PE
RJ
RJ
RS
SC
SP
SP
SP
BA
PR
SC
DF
AM
SP
SP
IES
UFC
UFC
UFES
FUCAPE
FUCAPE
UFMG
UFPE
UERJ
UFRJ
UNISINOS
FURB
UniFECAP
UPM
PUC/SP
UFBA
UFPR
UFSC
UnB/UFPB/UFRN
UFAM
USP
USP/RP
Modalidade
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Nota CAPES 2007-2009
3
3
3
5
4
4
3
3
4
4
4
4
4
3
3
3
4
4
3
6
4
4
Para formação da base de dados das disciplinas da área de métodos quantitativos
destes 21 cursos de mestrado em ciências contábeis, foram consultadas suas páginas de
internet. Porém, verificou-se que 15 cursos de 14 programas tinham informações disponíveis.
Assim, o processo de amostragem ocorreu de forma não probabilística por acessibilidade.
Ficaram de fora desta análise, então, por falta de informação disponível os cursos dos
programas da UFC, FURB, UFSC, UniFECAP e PUC/SP.
Cabe ressaltar que a fonte dos dados é uma importante limitação às conclusões deste
estudo, pois isto pode ter impedido uma maior abrangência da pesquisa, além de eventuais
problemas de conformidade dos dados, visto que, apesar de serem informações oficiais, as
mesmas podem estar desatualizadas.
Com base nas informações destes 15 cursos de mestrado em ciências contábeis, fez-se
a análise do conteúdo das disciplinas da área de métodos quantitativos, no que diz respeito ao
conteúdo programático e ementa, à carga horária e à situação quanto a sua obrigatoriedade.
Cabe ressaltar, que o estudo foi conduzido com base unicamente na análise documental das
informações disponibilizadas nas páginas de internet dos programas de pós-graduação em
Ciências Contábeis.
Para análise dos dados obtidos utilizou-se basicamente a análise de frequência. Neste
sentido, Mattar (1998) ressalta que existem dois tipos básicos de análises que podem ser
feitos: a descritiva e a inferencial. A primeira tem a finalidade de proporcionar informações
sumarizadas dos dados da pesquisa, normalmente se usa medidas de posição, de dispersão e
de associação. A segunda envolve uma variedade de testes que servem para julgar a validade
de hipóteses estatísticas a respeito de uma população, realizada com a análise dos dados de
uma amostra dessa população. Para Mattar (1998) a escolha do método de análise dependerá
do tipo de análise necessária e desejada.
Quando se opta pelo método de análises descritivas, como a que foi feito neste
trabalho, pode–se utilizar a análise de frequência, que considera uma variável (pergunta) de
cada vez. Segundo Malhotra (2001) a finalidade é conseguir uma contagem das respostas
associadas a diferentes “valores” da variável. A frequência relativa, de diferentes “valores” da
variável, é expressa em percentuais. Uma distribuição de freqüência para uma variável
constrói um Quadro para todos os “valores” associados àquela variável, composta de
contagens e percentagens de freqüência.
Aaker et al (2004) declaram que a análise da distribuição de freqüência reporta o
número de respostas que cada item/classe de cada questão recebeu, e é a maneira mais
simples de entender a distribuição empírica da variável. Além disso, também detecta a
presença de valores extremos ou atípicos. Em síntese, uma distribuição de frequência é uma
forma conveniente de analisar os diferentes “valores ou possibilidades” de uma variável ou
pergunta.
4. Apresentação e Análise dos Resultados
Com base na análise dos documentos obtidos junto aos sites dos programas de pósgraduação em Ciências Contábeis, fez uma análise primeiramente da condição de
obrigatoriedade e da carga horária das disciplinas da área de métodos quantitativos oferecidas
aos alunos.
Em relação à obrigatoriedade percebe-se, pela análise do quadro 02, que 13 dos 15
cursos de mestrado analisados possuem pelo menos uma disciplina obrigatória na área de
métodos quantitativos. Isso mostra a importância que o ferramental desta área tem para os
cursos, pois seu conteúdo está listado dentre as poucas disciplinas obrigatórias que cada curso
normalmente exige de seus alunos. Cabe salientar os casos da UFES e da FUCAPE
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(modalidade acadêmico), que oferecem 2 disciplinas de métodos quantitativos no rol de
disciplinas obrigatórias.
Os únicos cursos que não oferecem o conteúdo de métodos quantitativos como
obrigatórios são os pertencentes aos programas de pós-graduação da UFPE e UFBA.
Quadro 02 – Informações sobre Obrigatoriedade e Carga Horária
UF
ES
ES
ES
MG
PE
RJ
RJ
RS
SP
BA
PR
DF
AM
SP
SP
IES
UFES
FUCAPE
FUCAPE
UFMG
UFPE
UERJ
UFRJ
UNISINOS
UPM
UFBA
UFPR
UnB/UFPB/UFRN
UFAM
USP
USP/RP
Modalidade
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Acadêmico
Profissional
Acadêmico
Acadêmico
Nota CAPES 2007-2009
3
5
4
4
3
3
4
4
4
3
3
4
3
6
4
Obrigatoriedade
Obrigatória
Obrigatória
Obrigatória
Obrigatória
Eletiva/Optativa
Obrigatóra
Obrigatória
Obrigatóra
Obrigatóra
Eletiva/Optativa
Obrigatóra
Obrigatória
Obrigatória
Obrigatória
Obrigatória
Carga Horária
120 hs
54 hs
126 hs
60 hs
60 hs
45 hs
30 hs
45 hs
48 hs
51 hs
45 hs
60 hs
60 hs
60 hs
60 hs
Com relação a carga horária percebe-se que a mediana é 60 horas e que praticamente
todos os cursos oferecem disciplinas com carga horária superior a 45 horas. A única exceção a
esta regra é a UFRJ, que tem uma disciplina com apenas 30 horas de carga horária. Também
destaca-se os cursos da UFES e da FUCAPE (modalidade acadêmico), ambos com carga
horária bem superior aos dos demais cursos. Isso é justificado pelo fato destes cursos terem
duas disciplinas de 60 horas cada uma (aproximadamente).
Uma questão importante em relação tanto a obrigatoriedade quanto a carga horária é
que não se observa diferenças em função da modalidade ou da nota CAPES ou da região do
programa. Ou seja, o oferecimento do conteúdo de métodos quantitativos, em termos de
obrigatoriedade e carga horária, parece homogêneo e independente pelo menos destas
variáveis. Isso indica mais uma vez a importância deste conteúdo para os programas, pois
nem mesmo a modalidade e a nota CAPES influenciam o oferecimento do mesmo.
Na análise do conteúdo das disciplinas oferecidas, analisando basicamente a ementa e
o conteúdo programático, percebe-se que:
 A maioria dos cursos oferece o conteúdo básico de estatística nas disciplinas de
métodos quantitativos;
 Alguns cursos oferecem conteúdo de análise estatística de dados em suas
disciplinas de métodos quantitativos;
 Pouquíssimos cursos oferecem conteúdos além da estatística, tais como
programação matemática e cálculo diferencial e integral.
Os programas de pós-graduação em Ciências Contábeis da UFRJ, da UFBA e da
UFAM oferecem em suas disciplinas de métodos quantitativos apenas o conteúdo básico de
estatística (até regressão), que envolve basicamente estatística descritiva; distribuição de
probabilidade; amostragem, estimação e inferência, testes de hipóteses e análises de regressão
e correlação. O curso do programa da USP oferece este mesmo conteúdo básico adicionado de
uma técnica de análise estatística de dados, que é a análise de dados em painel. Já o curso do
programa da UFPE acrescenta ao conteúdo básico de estatística, outro ferramental de análise
estatística de dados, que é a análise de séries temporais. Cabe ressaltar que em ambos os casos
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as ferramentas adicionais ao conteúdo básico de estatística têm como base a análise de
regressão, sendo consideradas extensões naturais da mesma.
Os cursos dos programas da UFMG e da UnB/UFPB/UFRN também oferecem o
conteúdo básico de estatístico, porém adicionados de elementos não estatísticos. O curso da
UFMG oferece o conteúdo de cálculo diferencial e integral, enquanto o curso da
UnB/UFPB/UFRN oferece programação linear.
Os cursos dos programas da UERJ, UFES e FUCAPE possuem características
similares, porém com a ressalva de que a carga horária na UFES e na FUCAPE (modalidade
acadêmico) é mais que o dobro da carga horária da UERJ. Em todos estes casos são
oferecidos o conteúdo básico de contabilidade adicionado de um conjunto de ferramentas de
análise estatística de dados. No caso da UERJ, em uma única disciplina de 45 horas tem-se,
além do conteúdo básico de estatística, o estudo de análise de séries temporais, de regressão
logística, de análise fatorial e de equações estruturais. Cabe ressaltar que o curso do programa
da UERJ é o único a oferecer o conteúdo de equações estruturais.
No caso do curso do programa da UFES tem-se em uma disciplina de 60 horas o
oferecimento do conteúdo básico de estatística e na outra disciplina de 60 horas o
oferecimento de conteúdo contemplando uma série de ferramentas de análise estatística de
dados, tais como análise discriminante, regressão logística, análise fatorial, análise de
clusters, análise de dados em painel, análise de séries temporais e escalonamento
multidimensional.
Já nos cursos do programa da FUCAPE tem-se a seguinte situação: na modalidade
acadêmico existe o oferecimento de uma disciplina de 63 horas com o conteúdo básico de
estatística outra disciplina de 63 horas com o oferecimento de duas ferramentas de análise
estatística de dados, que são a análise de dados em painel e análise de séries temporais; na
modalidade profissional a disciplina oferecida contempla todo o conteúdo básico de
estatística, mais duas ferramentas de análise de dados (análise discriminante e análise de
séries temporais), adicionado de programação linear mono e multiobjetivo.
Por fim, os casos dos cursos dos programas da UNISINOS, UPM, UFPR e USP/RP
são similares, pois em todos estes cursos a disciplina de métodos quantitativos contempla
apenas conteúdo referente à análise estatística de dados. No caso da UFPR tem-se como
conteúdo único da a análise de regressão. O curso da UNISINOS apresenta além da análise de
regressão, as análises de dados em painel e de séries temporais. A UPM em seu curso oferece
uma série de ferramentas de análise estatística de dados, tais como análise de regressão,
análise de séries temporais, análise fatorial, análise discriminante e análise de clusters. Por
fim, o curso do programa da USP/RP oferece um conteúdo parecido com a UPM, com
abordagem das seguintes ferramentas de análise estatística de dados: análise de regressão,
análise de regressão logística, correlação canônica, MANOVA, análise fatorial, análise
discriminante e análise de clusters. Ressalta-se que a USP/RP é a única a oferecer os
conteúdos de correlação canônica e MANOVA na disciplina de métodos quantitativos.
Pela análise do que foi descrito acima percebe-se que existe um questão que chama
atenção, pois apesar de haver certa homogeneidade de carga horária, conforme destacado
anteriormente, não há homogeneidade de conteúdo. Ou seja, parece que os cursos são capazes
de oferecer numa mesma carga horária conteúdos de tamanhos diferentes. Ressalta-se que
aqui não se está discutindo o foco da disciplina, ou seja, a escolha do conteúdo, mas faz-se
uma comparação de conteúdos similares abordados em cargas horárias diferentes.
Isso pode ser visto pela comparação entre vários cursos. Por exemplo, a comparação
entre os cursos dos programas da UERJ e da UFAM mostra esta heterogeneidade. Enquanto a
UERJ consegue cobrir em sua disciplina de 45 horas todo o conteúdo básico de estatística
mais uma série de ferramentas de análise estatística de dados, a UFAM, por outro lado, só
aborda em sua disciplina de 60 horas o conteúdo básico de estatística. Essa mesma
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comparação é válida entre os cursos da UFAM e da FUCAPE (modalidade profissional).
Apesar de ambos serem ofertados na modalidade profissional, que poderia trazer alguma
homogeneidade no conteúdo de métodos quantitativos, a FUCAPE oferece em menor carga
horária todo o conteúdo oferecido pela UFAM adicionado de duas ferramentas de análise
estatística de dados e mais programação linear mono e multiobjetivo. É realmente uma
diferença considerável.
Outra comparação interessante é entre os cursos da UFAM, UFBA e UFRJ, pois todas
oferecem praticamente o mesmo conteúdo (básico em estatística), porém cada uma com uma
carga horária diferente, que varia de 30 horas a 60 horas.
Isto mostra no mínimo uma diferença relevante de aprofundamento dos conteúdos
ministrados, pois não é possível admitir que o mesmo conteúdo com a mesma profundidade
densidade seja oferecido em cargas horárias tão dispares, que possuem diferenças de mais de
100%.
Uma última análise que cabe ser feita aqui é a questão de abordar conteúdos
avançados sem se preocupar com a base teórica para sustentação dos mesmos. Isso acontece
claramente nos cursos dos programas da UNISINOS, UPM, UFPR e USP/RP. Em todos estes
casos tem-se o estudo avançado de ferramentas de análise estatística de dados, sem a
preocupação de alicerçar o conhecimento básico de estatística. Este procedimento assume que
os alunos já possuem conhecimentos básicos de estatísticos suficientes para entrar direto no
estudo avançado de ferramentas de análise estatística de dados. Isso pode ser um erro sério,
pois pode levar ao aprendizado superficial destas ferramentas, com foco meramente operativo,
ou seja, o aluno sabe apenas operar a ferramenta em algum pacote computacional específico
de análise estatística de dados. Com isso, tem-se a possibilidade de equívocos relevantes
como apontado por Gatti (2004) na introdução deste trabalho. Um reforço para este
sentimento de necessidade de alicerce está nas próprias provas empíricas produzidas por esta
pesquisa, que mostra a maciça abordagem do conteúdo básico de estatística nos cursos de
mestrado em Ciências Contábeis pesquisados. A menos que se admita que a maioria esteja
errada, pode-se supor que este tipo de abordagem do conteúdo de métodos quantitativos traria
conseqüências não desejáveis ao processo ensino-aprendizagem.
Neste sentido, parece bem equilibrado o enfoque dado pela UFES e pela FUCAPE
(modalidade acadêmico). Nos dois casos tem-se uma disciplina com o básico de estatística e
outra com outras ferramentas. Mesmo assim, no caso do conteúdo além do básico de
estatística, percebe-se que existe uma grande diferença, pois a UFES consegue numa mesma
carga horária cobrir todo o conteúdo da disciplina similar da FUCAPE e ainda abordar outras
cinco ferramentas de análise estatística de dados.
5. Conclusão e Considerações Finais
Este trabalho teve como objetivo analisar a situação do oferecimento do conteúdo da
área de métodos quantitativos nos cursos de mestrado dos programas de pós-graduação em
Ciências Contábeis no Brasil.
O estudo teve como base as análises da ementa, do conteúdo programático, da carga
horária e da situação de obrigatoriedade das disciplinas desta área. Assim sendo, o estudo foi
capaz de revelar que o oferecimento do conteúdo de métodos quantitativos, em termos de
obrigatoriedade e carga horária, parece homogêneo.
Além disso, percebe-se que a maioria dos cursos oferece o conteúdo básico de
estatística nas disciplinas de métodos quantitativos, que alguns cursos oferecem conteúdo de
análise estatística de dados em suas disciplinas de métodos quantitativos e que pouquíssimos
cursos oferecem conteúdos além da estatística, tais como programação matemática e cálculo
diferencial e integral.
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Observa-se, porém, na análise das disciplinas ofertadas, que apesar de haver certa
homogeneidade de carga horária, conforme destacado anteriormente, não há homogeneidade
de conteúdo. Isso é observável na comparação entre os cursos, pois percebe-se cursos que
oferecem mais conteúdo em menos carga horária e outros que oferecem o mesmo conteúdo
em cargas horárias muito diferentes. Isto mostra no mínimo uma diferença relevante de
aprofundamento dos conteúdos ministrados, pois não é possível admitir que o mesmo
conteúdo com a mesma profundidade densidade seja oferecido em cargas horárias tão
dispares.
Por fim, constatou-se a questão de oferecimento de conteúdos avançados sem se
preocupar com a base teórica para sustentação dos mesmos. Isso pode trazer certa
superficialidade no processo ensino-aprendizagem, além de problemas na aplicação destas
ferramentas. Este tipo de abordagem no oferecimento do conteúdo de métodos quantitativos
nos cursos de mestrado dos programas de pós-graduação em Ciências Contábeis analisados
confirma a tendência do uso de metodologia tradicionalista quanto aos recursos didáticos e de
metodologias tecnicista quanto às abordagens de ensino, conforme apontado nas pesquisas de
Cardozo, Demuner e Batista (2006) e Cardozo et al. (2006). Isso porque o foco pode estar
deixando de ser a construção do conhecimento na área de métodos quantitativos, para o
treinamento no uso de pacotes computacionais de análise estatística de dados com a finalidade
de uso de certas ferramentas.
É importante ressaltar que, de maneira geral, os resultados apontam para uma
realidade (mais de 25 anos depois) completamente diferente daquela relatada por Bertero
(1984), pois percebe-se preocupação dos cursos dos programas de pós-graduação em
contabilidade em prover aos seus alunos conhecimentos de métodos quantitativos, como
forma de subsidiar o avanço das pesquisas brasileiras, pelo menos no que diz respeito á
aplicação destas ferramentas.
Mesmo assim, talvez não se possa afirmar que já se chegou ao nível dos programas de
pós-graduação em Ciências Contábeis de outros países (como os EUA), que possuem,
conforme mostrado no estudo de Múrcia, Borba e Ambrósio (2007), uma carga horária e, por
conseguinte, uma profundidade e uma densidade de conteúdo muito maiores.
Como proposta para futuros estudos, em continuidade ao abordado na presente
pesquisa, pode-se apontar para o aprofundamento das análises conduzidas com a obtenção de
dados de outras fontes, que incluam os professores destas disciplinas, os coordenadores dos
cursos e os alunos. Além disso, poderia ser interessante uma comparação com cursos de
programas de pós-graduação de outras áreas, tais como Administração, ou de outros países,
tais como os BRICs ou os da América Latina.
Referências
AAKER, D. A., KUMAR, V., DAY, G. S., Pesquisa de Marketing. 2 ed. São Paulo, Atlas,
2004.
BERTERO, C. O. O Ensino de Metodologia de Pesquisa em Administração. Revista de
Administração de Empresas - RAE, v. 24, n. 4, p. 137-140, 1984.
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