Editorial
“É claro que meus filhos
terão computadores,
mas antes terão livros.” (Bill Gates)
n
ão importa quanto tempo passe, a evolução da tecnologia, a interatividade da
internet... Livro será sempre livro. Na verdade, o que queremos dizer é que, nada
melhor que a sensação de tocar, sentir a textura, folhear, voltar uma página, duas,
três, quantas vezes quisermos, elas estarão lá, disponíveis, em tempo real. O livro é companheiro, é
companhia, ele é fiel. Certamente Bill Gates, criador da Microsoft e autor do título deste editorial
também pensa assim. Mas ele não é o único, nessa direção estão milhares de pessoas que defendem a
importância da leitura para o crescimento e desenvolvimento pessoal e da sociedade. Algumas dessas
pessoas, mais que apaixonadas por livros, transformaram-se em verdadeiros missionários, percorrendo o
Brasil e desafiando as estatísticas na constante busca pela disseminação da leitura por prazer. José Luiz
Goldfarb, missionário desta edição, nos fala um pouco de seu trabalho e declara seu amor aos livros,
enfatizando a importância da leitura nos primeiros anos de vida de uma pessoa. Quem também levanta
essa bandeira é o cantor Jair Oliveira que junto com sua filha Isabela, de apenas dois anos, faz uma
viagem ao mundo mágico e imaginário das historinhas dos livros infantis. O cantor acredita que o livro
tem o poder de influenciar e transformar vidas. Ele tem razão. Quem confirma é o auxiliar de áudio
Ricardo Gomes, o Kcal, morador da palafita do Bode, em Recife, que criou a “Livroteca Guardiã”,
transformando sua casa num espaço de leitura para as crianças do bairro. Lá, Machado de Assis, Cecília
Meireles e outros grandes nomes da nossa literatura dividem harmoniosamente o mesmo espaço e a
atenção dos leitores mirins. Orgulhoso dos resultados do seu trabalho, Kcal, em uma frase se define:
“Minha irmã vende crack aqui. Eu sou traficante de livros”.
E, se este foi um exemplo de vida, nesta edição trazemos também a história de Marco Antonio Queirós,
escritor do livro “Sopro no corpo”, que relata fatos que marcaram sua vida após ter perdido a visão
quando ainda tinha 21 anos. Hoje, ele luta por melhores condições de vida para os deficientes físicos,
provando que para um país melhor, acessibilidade para todos é fundamental.
De igual importância estão os direitos da mulher, defendidos com firmeza por Luiza Nagib Eluf,
procuradora do Estado de São Paulo e autora do livro “Matar ou morrer, o caso Euclides da Cunha”.
Nele, a autora defende Anna de Assis, viúva do escritor, que teve sua trágica história reproduzida em
livros e documentários. Do livro impresso para as telonas, best sellers como “Marley & eu”,
“Crepúsculo”, “O código Da Vinci” e muitos outros que levam milhares de leitores para os cinemas e,
ao contrário do que se imagina, muitos filmes servem de estímulo a uma boa leitura. Para finalizar esta
edição, damos as boas-vindas à França, um país que nos emprestou um pouco da sua cultura, nos
influenciou na literatura e que, neste ano de 2009, temos a oportunidade de prestar uma homenagem,
comemorando o “Ano da França no Brasil”.
Enfim, esta é mais uma edição do Chamois Notícias,
Boa leitura e até a próxima edição.
CHAMOIS & NOTÍCIAS 3
Perfil
O
li
ro
faz parte de mim
José Luiz Goldfarb
f
oi por um acaso que o professor da PUC-SP José Luiz
Goldfarb, entrou no mercado editorial, mas não por acaso conquistou o respeito deste mesmo mercado. Sua vida
foi planejada para a carreira acadêmica, é formado em física e filosofia. Estudou no Canadá e, quando voltou ao Brasil tinha muito
claro que nas Universidades trilharia sua trajetória profissional.
Aqui conheceu o intelectual Mario Schenberg, que mais tarde se
tornaria uma de suas principais referências, “viajei para o Canadá,
conhecí grandes homens, alguns até Prêmios Nobel e, para minha
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CHAMOIS & NOTÍCIAS
surpresa, foi aqui, no meu país, que tive a oportunidade de conhecer este ‘poço’ de sabedoria, uma das mais ilustres personalidades
que o Brasil já teve”. Do contato com Schenberg, percebeu que
embora o pensador tivesse uma rica literatura sobre física, relatividade e mecânica quântica, ainda não tinha escrito nada sobre
arte, filosofia, reflexões sobre o mundo, atualidade e cultura. A
partir desse momento, Goldfarb passou a acompanhar Schenberg
em suas palestras, encontros, cursos e começou a gravar todos os
seus pensamentos. Sem que percebesse, já estava envolvido na
edição de livros. Da edição, seguiu para a livraria, foi proprietário
por quase duas décadas da Livraria Belas Artes, que exerceu grande importância na história cultural da cidade, tornando-se um importante ponto de encontro de intelectuais e boêmios paulistanos.
Seu envolvimento com a Câmara Brasileira do Livro deu-se naturalmente, bem como o convite para ser o curador do Prêmio Jabuti. A partir daí, sua atuação no mercado editorial ficou ainda mais
intensa, assim como a preocupação com a cultura, o conhecimento e a leitura da sociedade brasileira. Em
2003, recebeu um convite da então Secretária da
Cultura do Estado de São Paulo, Claudia Costin,
para ingressar no projeto “São Paulo, um estado
de leitores”. O programa tinha como objetivo incentivar a leitura por prazer, abrindo bibliotecas,
capacitando bibliotecários, professores e lideranças comunitárias. “Este foi um período muito fértil,
onde, conseguimos zerar o número de municípios
paulistas sem bibliotecas, pois, aonde sabíamos que havia
a necessidade de uma, lá estávamos nós”, diz Goldfarb, coordenador do projeto. Mas a atuação de Goldfarb não para por aí.
Juntamente com Claudia Costin, após sua saída da Secretaria da
Cultura, lançaram o projeto “Letras de luz”, da Fundação Victor
Civita, da Editora Abril. O grande diferencial deste projeto está na
criação de grupos de teatro, que recebem formação para atuação
local e nas cidades do entorno. O grupo apresenta adaptações de
textos literários de autores como Machado de Assis, Manuel Bandeira, entre outros. “É bom saber que podemos levar o teatro para
comunidades que muitas vezes nunca viram uma peça e, ao mesmo tempo, motivá-la a apreciar a leitura”, diz ele.
Diante dos resultados dos projetos implantados, Claudia Costin
recebeu, desta vez, convite da Prefeitura do Rio de Janeiro e, na
Secretaria da Educação, mais uma vez, contou com o apoio e a
parceria de Goldfarb em mais um desafio. No Rio, implantaram
“Rio de Janeiro, uma cidade de leitores” e, novamente, começaram a capacitar e a comprar acervos, “Vamos canalizar para a leitura por prazer e estimular os professores a montar suas próprias
bibliotecas”. Para o professor, mais que um compromisso profissional, o trabalho que desenvolve é uma missão de vida“ este é
um trabalho de gerações, onde o Brasil vai, gradativamente, enraizando o gosto pela leitura”, diz ele, enfatizando a importância da leitura para a evolução do brasileiro. “A nossa sociedade tem um grande problema, acho que
por falta de leitura, de imaginação, fica pessimista,
acreditando que o Brasil é assim, nunca vai mudar.
Acaba se tornando uma sociedade que não sonha, não tem imaginação. O livro é muito rico, ele
transporta, leva o leitor a lugares onde nunca esteve. Ele é a chave que abre as portas para um outro
mundo. Com um livro nas mãos, você sozinho vai
construindo uma loucura de riquezas” diz Goldfarb. Como
se vê, embora não planejada, na trajetória de José Luiz Goldfarb,
os livros ocupam lugar de destaque, direcionando sua vida pessoal
e profissional. A maior parte de sua vida é
dedicada a eles, o que justifica, não por
acaso, a sua grande paixão pela leitura,
além da dedicação em disseminar a leitura por prazer a todo cidadão brasileiro. “O livro me faz, eu sou eu e
meus livros. Ele entrou muito cedo na
minha vida e grande parte dela é de livros. Eu vivo com eles. Se eu tivesse que
ficar preso em um lugar que tivesse livros, eu estaria solto”, completa
Goldfarb. n
“O livro me faz,
eu sou eu e
meus livros”
Leitura que transforma
Entre a miséria
e a lição
dos livros
a
olhar as figuras. Joana, 8 anos, estava com um Manuel Bandeira
na mão. “Não sei ler.” O que importa é criança tocando nos livros. “Não tenho nada, mas faço tudo. Minha irmã vende crack
na comunidade. Eu sou traficante de livros”, se autodefine Kcal. A história dele é um livro. Cheia de frases de
efeito. “Sou um louco responsável. Eu sou apenas
mais um brasileiro. Dividido entre a escola, o sonho e o emprego. Se eu estudar serei um sábio
com fome. Se eu trabalhar, mais um cidadão sem
nome”, apresenta-se em forma de poema. Nascido na palafita, já viu de tudo. Perdeu uns 15 amigos assassinados no Bode. Por muitos anos, usou
drogas e colocou um pé na criminalidade. “Já usei
drogas. Agora, só uso livro”, diverte-se.
Aos 11 anos, leu o primeiro. Eram poemas de Cecília Meireles.
Apaixonou-se e não parou mais. Conheceu Lispector e ficou ainda mais viciado nas letras. Um leitor compulsivo. “Ele fica lendo
esperança de uma comunidade inteira mora,
apertada, numa palafita do Bode, no bairro do
Pina, Zona Sul do Recife. Lá, bem na beira do
rio, lugar onde a miséria insiste em se equilibrar para
sempre, repousam em poucas prateleiras e, também
no chão, Machado de Assis, Cecília Meireles, Lima
Barreto, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, entre
outros tesouros da literatura. Difícil de acreditar.
A pobreza com um Augusto dos Anjos nas mãos.
Quem não tem nada, agora já conhece Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes.
E foi assim, sem nada ao redor, só com livros, que o
auxiliar de áudio Ricardo Gomes Ferraz, o Kcal Gomes, 34 anos, morador de palafita do Bode, ergueu há
um ano o que apelidou de sonho comunitário. É a Livroteca Guardiã, refúgio das crianças pouco lembradas. Muitas não sabem
nem ler. Pegam livros por curiosidade. Passam as páginas para
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CHAMOIS & NOTÍCIAS
Foto: Clemilson Campos
Foto: Clemilson Campos
“Minha irmã
vende crack na
comunidade. Eu
sou traficante
de livros”
Foto: Clemilson Campos
de ler. Aluguei uma por R$ 200 aqui no Bode. Um poeta italiano, amigo meu, manda R$ 100 para ajudar. Trabalho num estúdio no Pina e a situação é muito complicada. Mas não sou coitado, sou um guerreiro.” Mais de 20 crianças passam por lá todos
os dias. Adriana Almeida, 12, já leu mais de 20 livros. “A gente
sempre vem para cá. Eu até já sonhei com a história que tinha
lido”, conta.
Para onde se olha, as letras estão lá. Os recados, que saem dos
livros são pintados nas paredes forradas de jornal. “Não somos
pobres, somos roubados” é uma das mensagens. Ao lado, está
escrito na janela “Todos nós estamos sentados na lama, mas alguns de nós estão olhando estrelas.” n
oito horas seguidas. Dorme às 5h”, comenta a mulher, Valquíria
de Carvalho, 31. Não sabe precisar quantos livros já leu. “Mais de
cem”, chuta. Acolhido por uma instituição chamada Criança Urgente, que atende adolescentes no bairro do Pina, enfrentou dificuldades por causa das drogas. “Sofreu muito, mas virou exemplo”, conta a irmã da Igreja do Pina Anatílica de Souza Viana,
responsável pela entidade.
Kcal continuou lendo tudo o que via pela frente e passou a frequentar os sebos do recife. Juntava alguns trocados e seguia
para o centro da cidade. Algumas vezes teve que voltar caminhando do centro até o Bode. O dinheiro da passagem se transformou em um livro de Machado de Assis. “Comprei na ponte
de ferro. Só tinha o dinheiro do ônibus. Demorei muito para
chegar em casa e minha mulher brigou comigo. Mas tudo vale a
pena, não é?”, pergunta.
A palafita, onde morava com a mulher e dois filhos, ficou pequena por causa dos livros. “Transformei minha casa, numa casa
João Valadares
Foto: Clemilson Campos
Foto: Clemilson Campos
Jornal do Commercio
CHAMOIS & NOTÍCIAS 7
Acessibilidade
Acessibilidade
para
d
iz o velho ditado que alguém só estará plenamente
realizado se “tiver um filho,
plantar uma árvore e escrever um livro“.
Marco Antonio Queiroz pode nos dizer se
é por aí. Aos 26 anos, escreveu seu livro
“Sopro no corpo”, reeditado em 2003, 20
anos depois. Além de escritor, MAQ, como
costuma ser chamado, também é pai e, se
ainda não plantou uma árvore,
não está muito longe disso,
mas já pode se sentir realizado com os frutos do trabalho que realiza, onde,
após 23 anos de experiência como programador,
especializou-se em acessibilidade na web. Hoje, mantém o site Bengala Legal (que
contém informações sobre cegueira, acessibilidade e inclusão), é consultor, dá cursos sobre acessibilidade na
web, viaja o Brasil realizando palestras sobre o tema e frequenta um grupo universitário na UNIRIO, que é a primeira universidade que tem mestrado em acessibilidade
web no Rio de Janeiro. E, como acessibili-
todos
dade é uma de suas prioridades, ele ainda
é um forte militante pelos direitos das pessoas com deficiência.
Quem conhece MAQ, seja através do seu
livro, do site ou de suas entrevistas, sabe
que sobre do tema “acessibilidade” ele
entende bem. Até os 21 anos, era um jovem, da classe média do Rio de Janeiro
como outro qualquer. Fazia faculdade de
História, tinha amigos, levava uma
vida normal, até que, de repente, devido a uma complicação da diabetes, perdeu
a visão. Sem um dos sentidos considerados por muitos como o mais importante, teve que reescrever
sua história. “Nunca me fechei para o mundo. A cegueira
repentina é, a princípio, como
qualquer outra deficiência que aconteça
de uma hora para outra, sem que a esperemos, um choque. É o desconhecido batendo à sua porta e entrando, sem pedir
licença, violentamente, invadindo, agredindo... Uma parte de você, no caso da
perda da visão, vai-se com a cegueira. Fi-
“A literatura,
para uma pessoa
com a minha
deficiência, vai
de mal a pior”
www.bengalalegal.com
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CHAMOIS & NOTÍCIAS
quei ansioso por saber quais eram meus
reais limites na nova realidade e fui testando as coisas aos poucos, aprendendo, conhecendo e tudo isso só conseguimos a
partir do momento que aceitamos e assumimos nossa deficiência como uma característica do nosso todo como pessoa, mas
não como o todo em si mesmo. Três me-
ses depois de ter perdido a visão estava continuando minha faculdade e dando de cara com meus novos obstáculos. Acho que minha família sentiu mais do que eu. Minha família e meus amigos,
a maioria dos quais sumiram desde então. Daquela época
guardo a amizade apenas de dois, hoje padrinhos de
meu casamento e de batismo de meu filho. Tiveram
uma cabeça além, não tiveram a cegueira como
obstáculo e perceberam que eu continuava a ser
o Marco, um Marco diferente, mas o Marco”,
diz ele.
O escritor diz que o tema “acessibilidade”,
hoje amplamente discutido, evoluiu bastante,
mas ainda é muito pouco diante das necessidades das pessoas com deficiência. Para ele, no momento em que escolas e crianças, começarem a conviver com crianças com deficiência em escolas inclusivas,
é que vão aprender a reconhecer a humanidade em qualquer diversidade e, assim, na prática, estarão mudando a mentalidade do
mundo. Quanto aos governos, ao Federal especificamente, criou
leis protecionistas, algumas até paternalistas, que se fossem empregadas como deveriam, estariam mais próximas de todos.
Em relação à literatura, MAQ nos mostra que acessibilidade ainda
é um grande obstáculo. “A literatura, para uma pessoa com a
minha deficiência, vai de mal a pior. Todas as editoras pensam que
a solução para pessoas com deficiência lerem é doarem seus livros
e fazerem convênios com a fundação Dorina Nowill, de São Paulo.
Imagina se todos os livros da literatura brasileira, acadêmicos, técnicos e de todos os tipos tivessem uma só editora no Brasil para
seus quase 200 milhões de habitantes? Pois existem 26 milhões
de pessoas com deficiência no Brasil, dessas somos 16 milhões
com deficiência visual, entre cegos, baixa visão e problemas visuais que não conseguem ser corrigidas com qualquer tipo de tecnologia ótica. Esses livros têm de ter o formato universal, ou seja,
dar acesso ao texto e, ao mesmo tempo, serem sonoros. Existe
tecnologia para isso, porém, não é empregada. Ficarmos dependentes de uma instituição é o mesmo que nos relegar a cidadãos
de segunda categoria. Já pensou se todos os brasileiros tivessem
de ir a uma instituição para ler, pedir emprestado, ou reservar um
livro? Queremos ir numa livraria, encomendar, comprar como
qualquer pessoa e recebê-los. Não acreditam que somos consumidores de educação, cultura, diversão, que somos simplesmente
consumidores e que queremos pagar por isso. E que os livros que
não podemos pagar que fiquem em bibliotecas comuns, como a
que todos vão, para podermos pedir emprestado. Se somos iguais
para as pessoas, que incoerência social é essa de colocarem uma
instituição tutelando tudo o que podemos ou não ler por seus limites editoriais? Que cada editora que edita para todo mundo,
edite também para nós. O monopólio do livro para pessoas com
deficiência visual no Brasil é uma carga muito pesada para nossa
cultura e educação”, desabafa o escritor.
A busca pela acessibilidade seja na literatura, na educação, nos
transportes ou na tecnologia é uma luta diária. MAQ tem se dedicado a isso e assim vem escrevendo sua história. Essa é uma militância que não tem fim, afinal, vai além do acreditar. É a vida, a
sua vida.
“Nós, pessoas com deficiência, não somos sofredores
porque temos uma deficiência. Fiquei cego aos 21
anos de uma hora para outra, se eu estivesse sofrendo até hoje, aos 52 anos, ... caramba! Que
carga eu não seria? Nosso dia a dia faz-nos esquecer de nossa deficiência. Quem nos lembra
são as pessoas, os que não nos querem dar
oportunidade, mesmo sem nos conhecer e verificar se somos capazes ou não, pessoas que cruzam com cegos, cadeirantes, pessoas com síndromes das mais diversas e se afastam angustiadas com
as diferenças. Em cada um de nós existe um de vocês.
Vocês perceberiam que choque teriam ao constatarem que se
afastam, têm medo, que são problemas e que sentem pena de
vocês. Ler o que escrevo de longe é normal, mas se imaginam
convivendo?
Eu e 26 milhões de brasileiros, 850 milhões de pessoas no mundo
estão nessa pele. Sou esposo, pai, aposentado, alto, magro, diabético, consultor em acessibilidade web. Sou homem e cego. E
você? Espero conhecê-lo um dia!,” finaliza o escritor. n
“A busca pela
acessibilidade seja na
literatura, na educação,
nos transportes ou
na tecnologia é uma
luta diária”
“Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão
àqueles que vêem: usem seus olhos como
se amanhã fossem perder a visão. Usem ao
máximo todos os sentidos; goze de todas as
facetas do prazer e da beleza que o mundo
lhes revela pelos vários meios de contato
fornecidos pela natureza. Mas, de todos os
sentidos, estou certa de que a visão deve ser o
mais delicioso.”
Helen Keller - (1880-1968)
Cega, surda e muda, foi educadora,
escritora e advogada de cegos.
É considerada, até os dias atuais, uma
das grandes heroínas do mundo.
Encantando leitores
pela leitura,
de pai para filha
o
Jairzinho cresceu – quem não se lembra dele na
“Turma do Balão Mágico”, início dos anos 80?”.
Agora ele é o Jair Oliveira, cantor, casado com a
atriz Tânia Khalill e pai da pequena Isabela, uma garotinha de
apenas dois anos, que, assim como o pai, fica encantada com a
magia presente nos livros. Neles, aliás, estão suas principais
referências. Muitas de suas músicas são influências de autores
como João Cabral de Melo Neto, Machado de Assis e
Guimarães Rosa. “O livro tem uma importância
muito grande na minha vida pessoal e profissional,
porque, muitas vezes, embora as pessoas nem
sempre percebam, praticamente todos os
compositores, todos os músicos recebem uma
influência muito grande da literatura. Eu acabo
viajando muito nesse mundo imaginário dos
escritores e, certamente, essa magia está presente
na minha vida“.
E, é essa magia que ele procura passar para sua
filha, que ainda não lê, mas está sempre com os pais,
vendo imagens. “Eu procuro dar uma importância grande
para os livros, a gente percebe que ela gosta muito disso, gosta de
ver as imagens, folhear páginas, mesmo não sabendo ler, ela pede
pra gente ler as histórias, ela vai acompanhando. Desde bem
pequena nós fazemos isso com ela, desde que nasceu damos livros
de presente, quase toda semana pegamos um livro novo pra ler”,
diz o cantor.
Ele também destaca o importante papel da escola da filha, que
estimula a leitura e o intercâmbio de livros, onde toda terça-feira as
crianças levam um livro para compartilhar com os coleguinhas. Na
opinião de Jair Oliveira, a literatura quando faz parte da vida da
criança, a envolve num mundo de magia. Hoje em dia sua filha vê
um livro e já começa a inventar suas historinhas, “é muito lúdico,
acho que a literatura tem o poder de exercer esse fascínio pelo
resto da vida”, afirma.
Em homenagem à filha Jair lançou, em conjunto com
Tânia Khalill, o projeto “Grandes pequeninos”,
que nasceu naturalmente, ainda quando a esposa
estava grávida. Cada momento vivido pelo casal
ia se transformando em música, e assim foi até
os primeiros meses de Isabela. Para compartilhar
o momento, convidaram amigos que também
estavam vivendo as mesmas experiências, como
Max de Castro, Pedro Mariano, Seu Jorge, o avô
Jair Rodrigues, a tia Luciana, entre outros. Com o CD
quase pronto, mostrou para a escritora Mariana
Caltabiano que, encantada com o projeto,
juntou-se a ele escrevendo um livro. “Este foi um
projeto feito com carinho e dedicação. Hoje,
o projeto não é mais da Isabela mas, sim, de
todos os pais que queiram cantar as suas
músicas, ler as histórias para os seus
filhos”, finaliza o cantor. n
Jair Oliveira
Em homenagem à filha, Jair lançou, em
conjunto com Tânia Khalill, o projeto “Grandes
pequeninos”, que nasceu naturalmente, ainda
quando a esposa estava grávida.
10 CHAMOIS & NOTÍCIAS
Foto: Ike Levy
“Todos os
músicos recebem
uma influência
muito grande
da literatura”
Cinema
Do papel, para as
a
telo as
daptar uma obra literária para o cinema não é
tarefa das mais simples, assim como também
não é garantia de sucesso de público. A cada
nova adaptação, surge a polêmica da fidelidade da obra. Assumir
esse compromisso também não é regra entre os diretores, afinal,
a linguagem na literatura e no cinema são diferentes e os recursos
disponíveis para despertar o interesse do seu público são distintos,
o que os obriga ao inevitável: alterar trechos e, em muitos casos,
omitir situações e informações.
Best Sellers como “Marley & eu”, “Crepúsculo” e “O caçador de
pipas” tiveram suas versões transportadas para as telonas e repetiram o sucesso obtido nos livros. Harry Potter também ganhou
vida e bateu recordes de bilheteria, atraindo ainda mais admiradores para a versão impressa. Já o misterioso e polêmico “O código
Da Vinci” não conseguiu superar as expectativas dos seus leitores
quando adaptado para o cinema, pelo contrário, decepcionou pelos cortes excessivos e por não conseguir reproduzir o
mistério da versão impressa, chegando a ser citado como uma das piores adaptações da
atualidade, ainda assim, apesar das
críticas, o filme foi recorde de bilheteria logo nas primeiras semanas. Não é de hoje que os diretores de cinema buscam nos livros
inspiração para suas obras. Entre 1926 e 1929 a escritora Margareth Mitchell escreveu o livro “E o vento levou” e, após apenas um
mês de seu lançamento, teve seus direitos de adaptação vendidos
para o cinema por US$ 50 mil, na época, considerada a mais alta
quantia paga pela adaptação do primeiro livro de um autor. Durante décadas, foi considerado o filme de maior bilheteria de todos os tempos e, até hoje é um dos únicos filmes que ainda geram
lucro quando reprisados.
Porém, embora ainda não estejam definidos os limites entre a literatura e o cinema, observamos que, na prática, quando existe um
cuidado na adaptação, proporcional à importância da obra literária,
o público leitor e espectador tem sua percepção aguçada e daí nasce uma feliz combinação. E mais, se um diretor reproduz uma obra
com a sensibilidade de um leitor, ele contribui para que o inverso
também aconteça: o espectador
se transforma em leitor e, da telona, vai direto para a livraria,
em busca do livro impresso. n
CHAMOIS & NOTÍCIAS 11
Entrevista
A
absolvição moral de
nna de Assis
l
vista exclusiva, onde fala de seu livro “Matar ou morrer – o caso Euclides da Cunha”,
que relata um dos mais polêmicos casos de
crime passional da história do Brasil. Como
personagens principais, o “Imortal”, Euclides da Cunha, sua esposa Anna de Assis e
o amante, Dilermando de Assis.
A senhora ficou conhecida entre outras ações, pela marcante atuação em
defesa dos direitos da mulher. O que a
levou nessa direção?
Luiza Nagib Eluf: Vivemos em uma sociedade desigual, as pretensões das mulheres encontram barreiras que os homens
não têm. É uma situação extremamente
injusta. Como sempre ambicionei ter uma
carreira importante e prover integralmente meu próprio sustento, sofri muito mais
do que seria necessário só por ser mulher.
Por isso, comecei a militar no movimento
feminista desde os tempos da faculdade.
Em 1988, ano da nova Constituição, fui
muito a Brasília lutar para que os direitos
Foto: divulgação
uiza Nagib Eluf é escritora e membro
do Ministério Público Estadual desde
1983, é também conhecida pela sua
luta em defesa dos direitos da mulher. Respeitada por sua trajetória pessoal e profissional, conquistou em 2000, o prêmio Mulher do Ano na Área Jurídica, concedido
pelo Conselho Nacional da Mulher. Autora
dos livros: “Crimes contra os costumes”,
”Assédio sexual”, “A paixão no banco dos
réus”, entre outros sobre crimes passionais, a escritora nos concedeu uma entre-
Vivemos em uma sociedade
desigual, as pretensões das
mulheres encontram barreiras
que os homens não têm.
É uma situação
extremamente injusta
Luiza Nagib Eluf
12 CHAMOIS & NOTÍCIAS
da mulher constassem da “Carta Magna”. Toda mulher tem que
ser feminista e saber lutar pelos seus direitos. É preciso continuar
nossa luta, pois ainda não alcançamos a igualdade plena.
Sobre o livro “Matar ou morrer – o caso Euclides da Cunha”,
como nasceu a idéia de escrevê-lo sob outra ótica, que não
a de defesa do escritor?
LNE: Primeiro, porque me especializei em crimes passionais e Euclides morreu em um duelo com seu rival, Dilermando de
Assis, amante de sua mulher. Segundo, porque é
uma história muito interessante e os brasileiros
precisam conhecê-la melhor. Todos os livros
anteriormente publicados sobre Euclides
priorizam sua obra, que é magnífica, mas eu
quis abordar sua vida pessoal e também defender os direitos da mulher dele, Anna, de
trocar de marido e ser feliz no amor.
Euclides da Cunha, ao procurar Dilermando de Assis, foi com o
propósito de matar ou morrer. Como a senhora avalia essa postura e, na sua opinião, como era a personalidade do escritor?
LNE: Euclides era muito preocupado com sua imagem social e
achava intolerável ser rejeitado pela mulher. No entanto, há momentos em que me convenço de que ele amava Anna, tanto que
atirou no rival, não na esposa. Em muitas ocasiões, Anna tentou
convencê-lo a aceitar a separação e Euclides não quis, mesmo
sabendo que ela estava grávida do amante. Trata-se de
uma história tocante, impressionante. Quanto mais
a estudo, mais fascinada eu fico. Esse já é meu
segundo livro que trata da vida de Euclides da
Cunha. O primeiro foi “A paixão no banco
dos réus”, no qual narro 14 casos de crimes
passionais e um deles é o caso de Euclides.
“Os crimes
passionais continuam
acontecendo, mas, os
maiores problemas são
o espancamento e
o estupro”
Na sua opinião, Anna de Assis, viúva do
escritor foi uma mulher à frente do seu
tempo? Trazendo sua história para a atualidade, a senhora acredita que a opinião pública teria
um comportamento diferente do que teve na época?
LNE: Não diria que ela estava “à frente de seu tempo” porque
nunca lutou pelos direitos da mulher, ela não tinha uma visão social
de seu próprios problemas. Mas entendo que foi uma mulher corajosa e forte. Acredito que ela não tinha escolha, ela não poderia ter
feito diferente do que fez, pois estava muito apaixonada por Dilermando de Assis. Ela contou isso ao marido e pediu a separação,
porém Euclides não concordou e tentou matar seu rival. Acredito
que se os fatos fossem hoje, Anna seria melhor compreendida e
amparada; na época, ela sofreu demais. No entanto, as mulheres
ainda sofrem demais para tudo em decorrência do patriarcalismo,
ainda não completamente estirpado.
Em relação aos direitos da mulher, o que
mudou daquela época para os dias de
hoje? A nossa sociedade continua tão machista quanto? Na sua opinião, o homem
ainda se considera “dono” de sua mulher?
LNE: Mudou muita coisa. As mulheres, hoje, têm posição muito melhor do que no começo do século passado, não
há dúvida. Mas ainda há homens que se consideram donos de
suas mulheres e usam de violência física para fazer valer sua vontade. Os crimes passionais continuam acontecendo, mas, os maiores problemas são o espancamento e o estupro, crimes que acontecem com frequência dentro de casa, envolvendo membros da
mesma família. n
A senhora poderia nos traçar um perfil de Anna de Assis e
de como era sua personalidade?
LNE: Era uma mulher de ação, amorosa, mãe dedicada e lutadora. Vejo muitas qualidades em Anna, considero-a uma mulher admirável. Lamento que quase toda a sua vida tenha sido de sofrimento, como retratado em meu livro. Quem ler a narrativa,
totalmente baseada em fatos reais, vai compreender o que eu
estou falando, e perceber o absurdo do crime passional.
Em uma entrevista dada ao Diário do Comércio (SP), a senhora disse que, como procuradora, pediria a absolvição
moral de Anna de Assis e a condenação moral de Euclides da
Cunha. Por favor, nos explique o por quê.
LNE: Entendo que Anna estava em seu direito de escolher o parceiro que preferisse. Por sua vez, Euclides não tinha o direito de
tentar matar alguém por ter sido rejeitado, trocado por outro.
CHAMOIS & NOTÍCIAS 13
Atualidade
Bem-vind
e
Fr
m 2005, a França abriu suas portas para o Brasil,
recebendo artistas das mais variadas áreas.
Eventos ligados à música, às artes plásticas,
literatura, dramaturgia, culinária, entre tantos outros, permitiram
que o povo francês conhecesse um pouco mais sobre a história de
nós, brasileiros. Na época, mais de dois milhões de franceses se
mobilizaram e, além de uma ampla divulgação nos meios de
comunicação, o evento contribuiu para que mais de 450 milhões
de dólares em produtos brasileiros fossem exportados para a
França. Enfim, o Ano do Brasil na França foi um grande
sucesso. Agora, o Brasil retribui e, ao longo de 2009,
comemora o Ano da França no Brasil. “Os laços de
amizade entre a França e o Brasil são muito fortes.
Embora o Brasil tenha uma boa relação com
todos os países do mundo, com a França é
especial, principalmente pela influência cultural,
das idéias, das propostas. Para ambos os
países, os conceitos de igualdade e liberdade
fazem parte de suas essências”, diz o diretor
Geral do SESC/SP, Danilo Miranda.
Neste ano, comemoramos o Ano da França no
Brasil, mas a nossa ligação com eles já vem de uma
longa data. Entre os anos 1555 e 1567, a França disputou
com Portugal trechos do litoral brasileiro. Na disputa, a França saiu
enfraquecida e foi expulsa pelos portugueses. Mais tarde, em
1612, os franceses fundam a França Equinocial, em São Luiz, no
Maranhão. Novamente são expulsos pelos portugueses, perdendo
a luta na batalha territorial, mas vencendo uma outra, de maior
importância e relevância para as futuras relações com o Brasil: a
batalha cultural.
Na trajetória do Brasil, nenhum outro país exerceu maior influência
que a França. Artes plásticas, literatura, fotografia, filosofia, idéias
políticas, arquitetura e cinema. Não há, nos campos da arte,
ciência ou do conhecimento, um ponto que não tenha sido
influenciado pela cultura francesa. A Academia Brasileira de Letras,
fundada em 1897, foi inspirada na Academia Francesa de Letras e,
em seu discurso inaugural, Machado de Assis, fundador e primeiro
presidente, fez uma justa homenagem aos franceses: “Como a
nossa ambição, nestes meses de início, é moderada e simples,
nça
convém que as promessas não sejam largas. Tudo irá devagar e
com tempo. Não faltaram simpatias às nossas estréias. A língua
francesa, que vai a toda parte, já deu as boas-vindas a esta
instituição. Primeiro sorriu, era natural, a dois passos da Academia
Francesa; depois louvou e, a dois passos da Academia Francesa,
um louvor vale por dois. Há, justamente, cem anos o maior homem
de ação dos nossos tempos (Napoleão Bonaparte), agradecendo a
eleição de membro do Instituto de França, respondia que, antes de
ser igual aos seus colegas, seria por muito tempo seu discípulo.
Não era ainda uma faceirice de grande capitão, posto que esse
rapaz de vinte e oito anos meditasse já sair à conquista
do mundo. A Academia Brasileira de Letras não pede
tanto aos homens públicos deste país; não inculca
ser igual nem mestra deles. Contenta-se em
fazer, na medida de suas forças individuais e
coletivas, aquilo que esse mesmo acadêmico de
1797 disse então ser a ocupação mais honrosa
e útil dos homens: trabalhar pela extensão das
idéias humanas”. Agora, a história se repete e, o
mercado editorial, em comemoração ao Ano da
França
no
Brasil,
presta
homenagem
à literatura francesa. O Jabuti,
mais tradicional prêmio do livro no
Brasil, terá, excepcionalmente, uma nova
categoria em 2009. Em sua 51ª edição, vai
premiar as melhores traduções de obras de
ficção do francês para o português, publicadas
no ano passado. “A França e a literatura
francesa deixaram um legado enorme para a
humanidade, com grandes escritores e
pensadores, como Victor Hugo, Balzac,
Apollinaire, Flaubert, Sartre, Simone de
Beauvoir, entre tantos outros.
Homenagearemos uma das línguas
mais importantes da literatura mundial
com o prêmio mais tradicional do livro
no Brasil”, completa Rosely Boschini,
presidente da Câmara Brasileira do
Livro. n
Na trajetória
do Brasil, nenhum
outro país exerceu
maior influência que
a França
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Helen Keller - (1880