CapaOK.indd 1 17/1/2008 17:12:59 Expediente 04 Entrevista O Engenheiro nasceu para resolver problemas 21 Cultura Publicação Oficial do Instituto de Engenharia Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 - Vila Mariana São Paulo - SP - 04012-180 - www.ie.org.br Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura Presidente Edemar de Souza Amorim Vice-presidente de Administração e Finanças Camil Eid Vice-presidente de Atividades Técnicas Paulo Ferreira Vice-presidente de Relações Externas Ozires Silva Vice-presidente de Assuntos Internos e Associativos Dario Rais Lopes Vice-presidente de Administração da Sede de Campo Permínio Alves Maia de Amorim Neto Conselho Editorial Presidente: Edemar de Souza Amorim Francisco Christovam João Ernesto Figueiredo Roberto Kochen Victor Brecheret Filho 16 Engenharia Jornalista Responsável Viviane Nunes - MTb: 41.631 Redação Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 - Vila Mariana São Paulo - SP - 04012-180 Tel.: (11) 5574-7766 - Ramal: 210 / 209 E-mail: [email protected] Publicidade (11) 5574-7766 Diagramação / Projeto Alexandre Mazega (Just Layout) João Vitor V. M. Reis (Just Layout) Rodrigo Araujo (Just Layout) Textos: Viviane Nunes e Fernanda Nagatomi Cresce o mercado de polipropileno no Brasil EDITORIAL 03 DIGITAL 08 É permitido o uso de reportagens do Jornal do Instituto de Engenharia, desde que citada a fonte e comunicado à redação. Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. Indice40.indd 2 ARBITRAGEM 09 14 DIREITO 15 ECONOMIA 20 CURSOS OPINIÃO 10 22 ACONTECE TÉCNICO 12 23 CRÔNICA 18/1/2008 11:09:55 Palavras do Presidente Sobre interesses Foto: Ricardo Reis particulares e públicos Engº. Edemar de Souza Amorim Presidente do Instituto de Engenharia C omo sempre é feito no Congresso Nacional, ao apagar das luzes, enquanto esfriam-se os debates à espera das festas de fim de ano, projetos de extrema relevância, porém com fins pouco elogiáveis, são apresentados na esperança de passarem despercebidos pela imprensa e tramitarem longe dos interesses dos cidadãos. Pois nem bem terminado o ano em que as mais representativas associações de engenheiros defendiam a união da classe em defesa da Engenharia nacional, encerrando assim um ciclo de fragmentação que prejudica o país e a população, um senador, legítimo representante da política coronelista, retrógrada e totalitária, propõe a separação dos engenheiros, num passo para criar o primeiro Apartheid profissional da história. O Senador Cesar Borges quer criar uma excrescência denominada Obenc (Ordem Brasileira de Engenheiros Civis) para regulamentar a Engenharia Civil uma vez que o modelo de regulamentação de 1933 mostra-se atrasado para as necessidades de hoje. Não é segredo que o modelo é inadequado, também não é segredo que todos os associados do sistema Confea-Crea estão insatisfeitos. O primeiro passo para isso seria dado com a criação do conselho dos arquitetos e urbanistas, o segundo deveria ser o desmembramento dos agrônomos e todas as outras categorias, deixando assim o conselho só para a Engenharia. Mas não, frutos do autoritarismo do Brasil não caem longe da árvore. O projeto que inicia o trâmite no Senado já nasce cheio de vícios, com o propósito único de fornecer ao senador seu curralzinho eleitoral para garantir-lhe em caso de futuros infortúnios eleitorais. Pois não prevê eleição direta democrática para seus gestores, instituindo assim um sistema de eleições indiretas digna dos grandes clubes de futebol, cujos dirigentes perpetuam-se no poder e nas manchetes policiais. Alegando demandas em encontros inexpressivos ocorridos há mais de seis anos, o senador completa as justificativas do projeto apontando que todas as profissões na área de humanas têm seus conselhos exclusivos e a profissão regulamentada por lei. Os problemas que a Engenharia Brasileira enfrenta não são segredo; nem é segredo que o Crea hoje reúne uma gama muito diversa de profissionais, não podendo assim representar ou regulamentar com eficiência e satisfatoriamente todas elas. Como também não é segredo que a solução passa pela unificação da engenharia e o desmembramento do Crea em conselhos específicos para os técnicos, geógrafos, meteorologistas e assim por diante. Mas é muito estranho que um parlamentar que se diz defensor da Engenharia, proponha seu desmembramento, criando um intrincado sistema eleitoral em que os votos não têm o mesmo valor, e a representatividade se dá pelo número de entidades e não de associados. Enfim, O Instituto de Engenharia vem a público manifestar sua posição contrária ao projeto de criação da Obenc e tudo que ela representa: atraso, custos, ineficiência e autoritarismo. Adjetivos que não constam da qualificação de um engenheiro de verdade. IE Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Presidente.indd 3 3 18/1/2008 11:09:01 Entrevista O Engenheiro nasceu para resolver problemas Paulo Egydio Martins, engenheiro civil, que foi governador de São Paulo entre 1975 e 1979, concedeu entrevista ao Jornal do Instituto de Engenharia. Durante a conversa ele falou sobre a escolha pela profissão de engenheiro, sua atuação no governo e seu livro “Paulo Egydio Conta”. do Instituto de Engenha? Jornal ria – O senhor é engenheiro e foi governador na década de 70. O que o senhor acha de engenheiros ocuparem cargos no Executivo? Paulo Egydio Martins – Eu acho que a Engenharia foi feita para se construir coisas, para desenvolver projetos, pois tem uma visão muito ampla. A própria formação, basicamente cartesiana do engenheiro, lhe dá uma capacidade de raciocínio, de saber encarar problemas e oferecer soluções que é praticamente única. Por exemplo, hoje eu faço parte do Conselho Superior do Grupo Itaú, o segundo grande grupo brasileiro. A maioria dos executivos do Banco Itaú é de engenheiros. Talvez haja uma influência grande do Dr. Olavo Egydio, engenheiro, e que tem a mesma mentalidade de racionalizar e enfrentar problemas para dar soluções. Eu costumo dizer que o engenheiro nasceu para resolver problemas. Certas pessoas são incapazes disto. Nós, engenheiros, por nossa formação, os resolvemos. Por isto somos normalmente bons executivos. ? do Instituto de Engenharia ? Jornal – O senhor foi um grande governador e desenvolveu ótimos trabalhos relacionados ao saneamento. O senhor pode comentar as obras realizadas no seu governo, em especial as da Sabesp? Paulo Egydio Martins – Eu venho de uma família de engenheiros. Por uma 4 série de coincidências, eu que sou paulista, acabei formado em Engenharia na antiga Politécnica do Rio. Naquela época, quase não havia especialização. O engenheiro civil era o que fazia tudo. Para se ter uma idéia, a Escola Politécnica do Rio é a antiga Escola Militar. Foi lá que se deu a República, por causa de Benjamin Constant, professor da Escola Militar. Com a República, a Escola Militar virou Politécnica. Até a minha formatura, em 1951, a formação em Economia não era em escola separada, pois se estudava na Escola de Engenharia. Na época do Getúlio, a Politécnica foi transformada na Escola Nacional de Engenharia, quando criaram a Universidade do Brasil. Eu me formei na Nacional de Engenharia, que hoje voltou a chamarse Politécnica, mantendo-se a tradição que vem desde o início da República e segue a mesma de São Paulo. Na minha família, meu avô e meu pai se dedicaram muito à parte de Engenharia Sanitária, meu avô foi contemporâneo de Saturnino de Brito, o maior sanitarista do Brasil, e trabalhou com ele na Baixada Santista, num período em que a Baixada era dificílima e realizou várias obras de saneamento. Depois foi diretor geral do Departamento de Saneamento do Estado de São Paulo, antiga Secretaria de Viação e Obras Públicas. Minha família era de engenheiros especializados justamente na área de saneamento básico, que é o tratamento da água e do esgoto. Dizem que o início da saúde começa pela água, pois é o elemento fundamental para a saúde. O índice de mortalidade infantil é fundamentalmente baseado na condição de potabilidade da água. Depois eu trabalhei em uma firma chamada Byington & Cia., que tinha um grande departamento de Engenharia, um dos maiores do Brasil. Na época, eu representava uma firma que fabricava equipamentos para estações de tratamento de água, chamada Infilco, que era a maior do Mundo. Como engenheiro, eu continuei a trabalhar na área de Engenharia Sanitária. Nas décadas de 50 e 60, na região da Grande São Paulo, 90% das estações de tratamento de águas era feita pela Byington & Cia., um volume enorme. Além disto, a empresa construía estradas e tinha grandes obras na área de refrigeração industrial, frigorífico do cais do porto, abordava vários ramos da Engenharia. Não construía prédios. Quando eu estava na escola, era um dos alunos que estava entre os 10% primeiros da classe. Na parte de hidráulica, por causa da tradição familiar, talvez eu tenha sido o melhor aluno da minha turma. Quando assumi o Governo do Estado, por dez meses eu estudei todos os problemas de São Paulo. E constatei que na Grande São Paulo, pela falta de saneamento básico, havia o maior índice de mortalidade infantil do Brasil, superior ao de Recife. Não me lembro de números, mas media-se quantas crianças morriam em mil. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Entrevista_3pg.indd 4 18/1/2008 11:16:06 Entrevista Foto: Viviane Nunes do Instituto de Engenha? Jornal ria – O maior índice era mesmo de São Paulo? Paulo Egydio Martins – Era o maior índice de mortalidade infantil do Brasil, na década de 70, quando eu assumi como governador. Estou falando da metade de década de 70. Na primeira reunião com os governadores e o presidente Geisel, cada um fazia uma exposição de seus problemas. Quando eu disse isto, virou manchete nacional, porque São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, e da América do Sul, tinha o maior índice de mortalidade infantil. Todo mundo achou que falei com o objetivo demagógico de criar condições para receber ajuda do Governo Federal. Ninguém acreditou que era verdade. Depois, é claro que a poeira assentou, foi constatado que nós tínhamos o maior índice de mortalidade do Brasil, o que era inconcebível. do Instituto de Enge? Jornal nharia – Quais as razões que levaram a isto? Paulo Egydio Martins – São diversas. Permeabilidade de solo, esgoto in natura, através das bacias dos rios Tietê e Tamanduateí. Nosso lençol freático é relativamente alto, inclusive por causa destas duas bacias hidrográficas, há penetração deste esgoto em lençol freático. Como a população se abastecia de poços de baixa profundidade, chegava ao lençol freático. Bebia-se uma água altamente contaminada pelo esgoto in natura. A explicação não é tão complexa assim... O problema é que não tinha solução. Quando assumi o Governo do Estado, 40% da população da Grande São Paulo tinha água tratada. 60% bebia água do poço, que era de esgoto. Eram poços feitos manualmente. Eu dediquei uma grande prioridade a este setor, não apenas pela necessidade humana, mas pela minha formação e pela herança genética. Eu tive também capacidade para escolher como presidente da Sabesp, um engenheiro excepcional Klaus Reinach, um diretor da Camargo Corrêa, cedido a meu pedido. Sebastião Camargo foi extremamente compreensivo e gentil em concedê-lo. Estou ficando velho, já trabalhei em várias atividades, cobri uma área extensa de atividades, trabalhei com grandes empresas internacionais. Fui o primeiro presidente da Alcoa no Brasil, naquela Paulo Egydio Martins Engenheiro Civil época era a maior empresa de alumínio do Mundo. Então, o que estou dizendo está baseado em uma experiência de uma longa estrada percorrida. O Klaus foi um dos melhores executivos que eu já encontrei na minha vida. E foi devido ao Klaus, a quem eu rendo as maiores homenagens, que foi possível no fim de quatro anos, deixar a grande São Paulo, com 93% de água tratada para seus habitantes. O Governo do Estado recebeu, no fim do meu mandato, uma carta da ONU, cumprimentando por ter realizado a maior obra de saneamento básico já feita em qualquer época em qualquer país. do Instituto de Engenharia ? Jornal – Qual a extensão dessa obra? Paulo Egydio Martins – Na parte de tratamento de água, tive que fazer, por exemplo, todo o serviço da Cantareira, fornecedor de águas para São Paulo. Isto implicava além de construção de represas, de reservatórios. Talvez seja o maior túnel cravado feito até o momento para a condição de água. É o que chamamos o conjunto de Cantareira. Antes, o grande conjunto fornecedor de São Paulo, construído pelo meu avô, era Cotia. Até hoje, acredito, a Cantareira é o maior centro abastecedor de água tratada na Grande São Paulo. Outro trabalho grande foi no Baixo Tietê, construindo as represas de Paraitinga e Paraibuna, os dois rios formadores do Tietê, para deixar justamente preparado um outro serviço de abastecimento de água, que já está em uso. Embora pareça incrível, não existe mais água disponível para o crescimento da Grande São Paulo, da maneira como está acontecendo. Temos um problema muito sério, nesta região, que é obter fonte de abastecimento de água para servir nossa população. Quando o secretariado soube da carta da ONU, queria a divulgação e eu neguei terminantemente. Não dei a menor divulgação, pois eu achava uma vergonha, São Paulo na década Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Entrevista_3pg.indd 5 5 18/1/2008 11:16:07 Entrevista de 70, ter que realizar um serviço de tratamento de águas daquele tamanho. Não era razão de orgulho. Mais um fato importante: houve uma grande onda dos políticos, de pessoas associadas a mim que queriam que eu fizesse do saneamento básico a maior bandeira do meu governo, pois diziam que eu estava fazendo uma obra enterrada. E uma obra enterrada não fica a vista para a posteridade. Isto é absolutamente verdade, porque até hoje, muitas pessoas que me reconhecem na rua e vêm falar comigo, me cumprimentam pela Rodovia dos Bandeirantes, achando que foi a maior obra do Governo. A Rodovia dos Bandeirantes é um pingo d’água perto do que eu fiz na área de abastecimento. As pessoas não acreditam. As pessoas diziam: ‘não enterre canos Governador, pois ninguém vai ver e lhe elogiar amanhã’. É uma obra invisível. Eu disse: ‘Eu prefiro enterrar canos a continuar enterrando criancinhas. Porque era o que acontecia. Realmente as estatísticas se inverteram, está tudo isto comprovado com dados oficiais. A Sabesp hoje é uma empresa enorme. Os outros governos continuaram a dar esta atenção. Comparando com o Brasil inteiro, São Paulo está em melhor situação nesta parte de água e esgoto. Mas esgoto é outro capítulo, pois eu encontrei uma dificuldade brutal. Jornal do Instituto de Engenharia – Qual foi a dificuldade? Paulo Egydio Martins – Naquela época eu era um grande freqüentador do Instituto de Engenharia, a cúpula dos engenheiros. Eu trabalhava no Largo da Misericórdia, muito próximo à antiga sede, no Palácio Mauá. Tinha um restaurante onde se comia bem e barato. Depois tinha um papo, sempre polêmico, com debates. Tinha um engenheiro famoso, na época, o Falcão Bauer, que agitava muito e por quem eu tinha grande admiração. Vivia trazendo os grandes problemas da Engenharia, não apenas de São Paulo, mas do Brasil. Então, era um ambiente maravilhoso, para um jovem engenheiro como eu, que estava trabalhando em engenharia. Da parte de esgotos, existiam dois grupos: um defendia o processo tradicional do tratamento de esgoto, que é uma estação; ? 6 o outro afirmava que o esgoto de São Paulo deveria ser feito através de lagoas de decantação, um processo novo, no qual o esgoto ia para grandes lagoas de oxigenação, destruía o material orgânico e acabava purificando. Estes dois grupos viviam se digladiando há vários anos e não havia solução para o problema; continuava o esgoto in natura, enquanto na parte técnica havia este grande debate. Quem viveu esta época e neste setor, deve estar se lembrando do que eu estou dizendo. Como trabalhava com a empresa que era a maior do Mundo, em fornecimento de equipamento, embora pela forma tradicional, tinha vários estudos sobre as formas, inclusive sobre as lagoas de decantação, que não era uma novidade brasileira, estava sendo estudado em vários países. Para pequenos núcleos, pequenas vilas, pequenas cidades, pode até ser uma solução. Mas para São Paulo, seria uma coisa altamente discutível. E este debate houve dentro do meu governo. do Instituto de Engenha? Jornal ria – E como o senhor resolveu? Paulo Egydio Martins – Depois de estudar, pensar, ver, eu senti que o mais importante era ter uma solução e não tentar chegar a uma solução perfeita, porque existiam vantagens em ambos. Havia problemas que se projetariam com o tempo. Apareceriam alguns anos para frente. Levei este projeto comigo para Campos do Jordão, passei um longo fim de semana estudando exclusivamente todos os assuntos, todos os relatórios e tenho a impressão de que este foi o único despacho que eu dei de próprio punho, onde eu optei pelo tratamento básico e determinei que se fizesse o Sanegran a grande obra do início do tratamento de esgoto de São Paulo e a adiantei muito no meu governo. É óbvio que não é uma obra para um governo e sim para vários governos. Está aí e diminuímos brutalmente o despejo do esgoto in natura. Poucos sabem quantos milhares de quilômetros de córregos há na área da Grande São Paulo. Estes desembocam em duas grandes bacias: Tietê e Tamanduateí. Imagine com a densidade populacional de São Paulo, este esgoto sendo lançado nestes córregos. Isto com mais um fator agravante do problema: o aumento do asfalto desta área, impedindo a infiltração da água das chuvas e provocando o outro grande fenômeno de São Paulo: as enchentes. Estes córregos não tinham capacidade de escoar esta água toda. Quando havia uma enchente enorme, eu voltava a percorrer toda esta região metropolitana de helicóptero e quando a enchente era muito grave, havia talvez uns 80 a 100 repórteres me esperando, no heliporto do Palácio dos Bandeirantes. E me perguntavam quando eu iria dar solução a este problema e eu dizia: ‘Eu? Nunca!’ Isto foi um escândalo! Outra manchete! Expliquei por uma razão: se eu aplicasse o total do orçamento do Estado, exclusivamente no problema das enchentes, eu resolveria este assunto, em cinco, seis dez anos. Acontece que existe o problema de saúde, educação, transporte entre tantos outros. Só da área de educação, eu me lembro um número de comparação. Nós tínhamos alunos na rede escolar do Estado, equivalente à população do Uruguay. Este é um número que eu me lembro. Eu estou fora do governo, desde 1975, ou seja, há 33 anos. Continuamos, apesar dos piscinões a enfrentar problemas todo santo ano. do Instituto de Enge? Jornal nharia – E há solução para isto, governador? Paulo Egydio Martins – Sim. O que não há é orçamento. Hoje, há uma urgência, a meu ver muito maior. O transporte coletivo, o problema do metrô. A questão da área metropolitana está se tornando altamente crítico. Algo tem que ser feito, semelhante ao que eu fiz no saneamento básico. Dar uma solução que resolva este problema, caso contrário, em pouco tempo esta cidade vai ser paralisada. Hoje é comum medir o engarrafamento em quilômetros, já se fala em 150 km de engarrafamento. Daqui a pouco vamos chegar a oito mil quilômetros. do Instituto de Engenharia ? Jornal – E qual a saída para isto? Paulo Egydio Martins – Mais metrô. Na minha época, nós tínhamos dez mil ônibus. Hoje deve ser muito mais do que isto. O ônibus está ocupando a Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Entrevista_3pg.indd 6 18/1/2008 11:16:08 Entrevista mesma via de táxi, carros, caminhões. O Rodoanel é uma resolução parcial de um problema. Tem que haver uma visão mais global do transporte coletivo da Grande São Paulo. do Instituto de Enge? Jornal nharia – O que o senhor acha da construção de novas pontes e viadutos? Paulo Egydio Martins – Não resolverá absolutamente nada. Isto é um ponto crítico. E tem mais: hoje com os financiamento de automóveis a 60 meses, então o número de automóveis que vai entrar diariamente é absurdo. Não há a menor hipótese de resolver o problema do transporte individual efetivo para os habitantes da grande São Paulo. A única solução é ter na área metropolitana da Grande São Paulo uma rede de metrô. E não são apenas grandes linhas mestras. É cobrir a superfície onde o indivíduo possa andar três ou quatro quarteirões de sua residência e possa encontrar uma estação de metrô, como é em Nova Iorque, em Londres, em Paris e em Moscou. O metrô de Moscou é um dos mais perfeitos que eu já vi dos construídos em qualquer país do Mundo. Eu fui ver a questão do Metrô em Leningrado, hoje São Petersburgo. Na época, era o mais profundo do mundo. Estava sendo construído a 70 metros de profundidade. Este problema existe e é mundial. E a tecnologia está disponível. O que nós não temos é o dinheiro. O crítico é resolver a questão de investimento, remuneração de investimentos que se chama tarifa. Isto é o crítico na obtenção de recursos de poupança externa. Outro detalhe interessante é que todo investimento feito foi muito grande, pois na época o financiamento era do BNH, mas tinham que ser pagos e havia juros e tinha que incluir na tarifa. Por outro lado, o orçamento do Estado é também gerenciar escassez. Eu dei uma solução na época, acredito que até hoje única. Eu inverti uma fórmula clássica daquele que mais consome ter o menor preço. Mudei esta forma e o maior consumidor de água tinha a maior tarifa, para ele financiar o menor consumidor de água. Isto não afetou o tesouro do Estado e permitiu que, quem tivesse uma piscina pagasse uma tarifa maior, para usar sua piscina e usar mais água. E quem morasse na periferia, ganhando um salário mínimo, tivesse uma tarifa que pudesse pagar dentro do seu soldo. O que mais podia, financiou o que menos podia. Isto teve um resultado excepcional. do Instituto de Engenharia ? Jornal – A Bandeirantes foi uma obra importante do seu Governo? Paulo Egydio Martins – Existem alguns pontos que situam a minha intervenção como governador e engenheiro. Quando eu assumi o Governo do Estado, o que é normal, eu encontrei vários projetos na prateleira, de várias repartições. Havia um chamado Via Norte (atual Bandeirantes) o outro para o famoso Cebolão, que resolveria um problema brutal de estrangulamento de tráfego, para aqueles que viviam naquela época em São Paulo. E examinando estes projetos, Tomás Pompeu Borges de Magalhães e eu, verificamos que estavam muito defasados. Para se ter uma idéia, os viadutos propostos lembram um pouco o Minhocão. Eram vários Minhocões, estruturas pesadíssimas de concreto, até sob o ponto de vista de cálculo de estrutura de concreto armado leve. Este projeto foi totalmente revisto e temos esta estrutura que serve São Paulo há mais de 30 anos. Uma estrutura, a meu ver, linda, pois é leve. Somando o conjunto de pontes, em quilômetros, ele é maior do que a ponte Rio-Niterói. A Bandeirantes era um projeto antigo com raios de curva inadequados, com grade (inclinação da estrada) inadequado. É extremamente importante saber que fundo de vale, entre São Paulo e Campinas, só existem dois: o da Velha Anhanguera e da Bandeirantes. Não há outro, portanto qualquer outra obra que venha a ser feita, será caríssima. Na Bandeirantes eu mandei rever todo o projeto, que comportasse um trem de alta velocidade em superfície, ou até uma ligação de metrô de São Paulo a Campinas. A Bandeirantes tem condições técnicas de raio e de curvas, de grades, para suportar um trem de alta velocidade, no meio, no canteiro central. Sobre aquele canteiro central, eu fui questionado pelo presidente da República, informado pelo serviço de informação que eu estava construindo o gramado mais caro do mundo. E eu respondi que era verdade. Que eu estava construindo o canteiro central, cujo tamanho era estranhado por todo mundo. E eu expliquei que eu estava construindo, porque sou engenheiro, fui empreiteiro e raciocino. O que se fazia no Brasil? Construía-se uma estrada com um canteiro central pequeno, que ia ligar pólos que se desenvolveriam; as pistas seriam duplicadas e teria que desapropriar terrenos valorizados pela construção da estrada. Eu inverti e fórmula. Desapropriei uma área muito maior, criei um canteiro central, para que quando duplicada, o canteiro central pudesse ser usado sem ter que pagar o preço da valorização que a própria estrada fez. O presidente da República disse: Por que não é feito assim no Brasil todo? Porque talvez no Brasil todo não tenha o número suficiente de engenheiros para enxergar este problema desta maneira. do Instituto de Enge? Jornal nharia – O que o senhor tem a dizer sobre seu livro? Paulo Egydio Martins – Eu sou suspeito. Meu livro é um depoimento, eu respondo perguntas feitas pelo CPDOC (Centro de Pesquisa de Documentação, História Contemporânea do Brasil - GV). Abordo aspectos de interesse do período que eu atuei. Cobre meus antecedentes, minha formação, minha atuação como ministro de Indústria e Comércio, do governo Castello Branco. Na época eu era o ministro mais novo, estava com 37 anos. Cobre o período onde eu atuei no planejamento do Vale do Paraíba, o Codevap, junto com uma equipe excepcional, fui juiz arbitral de uma contenda comercial, foi a primeira entre Brasil e EUA, sobre o café solúvel. Foi em um tribunal que se estabeleceu na Organização Internacional do Café, em Londres. E tem a história de 31 de março. Logo no início do governo tive um rompimento sério com o Comando do Segundo Exército de São Paulo, mas conseguimos terminar com as torturas. Há um período de história, onde há fatos sérios, graves, algumas recomendações políticas que eu faço, talvez a maior delas seja criar a responsabilidade política no eleitor da escolha dos IE dirigentes futuros do Brasil. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Entrevista_3pg.indd 7 7 18/1/2008 11:16:08 Digital Instituto de Engenharia na Era Digital diretoria está implantando o projeto “Inclusão do Instituto de Engenharia na Era Digital”, com apoio do Banco Itaú. O objetivo é ampliar a abrangência de atuação do Instituto, ultrapassando os limites geográficos e temporais e utilizando os mais modernos recursos que a tecnologia, e em especial a internet, hoje oferece. Para tanto, a entidade tem efetuado diversas melhorias nas instalações. Novos aparelhos de informática foram adquiri- A dos: computadores, notebooks, impressoras, softwares, servidor de aplicativos e dados, sistema de backup, no-breaks, switch, rack para rede com patch-panel, access point para transmissão sem fio e TVs LCD. Para suportar tais aquisições, as instalações elétricas foram atualizadas e redimensionadas. O quadro de entrada foi substituído por um de maior capacidade com a finalidade de atender o novo consumo. Na parte superior do prédio, houve redimensionamento dos quadros de iluminação, de alimentação geral e do ar-condicionado. Foram instalados dois novos quadros: um para o CPD e outro para suprir as necessidades do auditório (iluminação e som). Com a necessidade de reformular e ampliar o sistema de comunicação, um projeto de cabeamento foi executado. Foram lançados aproximadamente 5 mil metros de cabos, totalizando 140 pontos de dados e voz, em novas canaletas e dutos suspensos com destino ao novo rack do CPD. Isso com o intuito de trazer mais abrangência, flexibilidade e facilidade nas atividades. Para o auditório, o mini-auditório e a sala do conselho, foram adquiridos caixas de som, mesas de áudio, microfones com e sem fio, gravadores digitais de áudio, DVD e CD players, racks, computador para streaming de vídeo, processadora de áudio, gravadores de vídeo, ilha de corte, câmeras, tripés, comunicadores, placas encoder de vídeo, monitores de TV, kit iluminação e projetores de vídeo, permitindo mais qualidade nas transmissões ao vivo pela internet dos encontros promovidos pela entidade, através de uma linha privativa (LP) exclusiva para essa finalidade, independente do sistema de acesso à internet para a operação do Instituto. Os interessados podem Quadro de força assistir os eventos ao vivo ou acessar os vídeos já gravados, que ficam na área TV Engenharia do website. Um novo website foi desenvolvido com nova estrutura de informação e layout moderno. Um sistema de gestão de conteúdo foi criado, permitindo atualizá-lo e ampliá-lo com rapidez e autonomia. Foram disponibilizados meios de pagamento online para inscrições em cursos, palestras e eventos, trazendo comodidade aos interessados. Uma nova central de telefonia digital foi instalada, e o novo número do Instituto de Engenharia é + 55 11 3466 9200. IE Fernanda Nagatomi Rack CPD 8 Digital.indd 8 Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 18/1/2008 11:17:19 Arbitragem Arbitragem um meio rápido e Foto: Arquivo pessoal eficaz de soluções de controvérsias C omo é do amplo conhecimento, tramita em nossos tribunais um significativo número de ações, por isso é premente que seja revista, por toda a sociedade, uma nova cultura no enfrentamento das questões jurídicas. O número de processos novos que chegam à Justiça se manteve estável em 2005 em relação ao ano anterior em 18,5 milhões de ações -, mas o estoque de ações aumentou, passando de 57,3 milhões para 60,4 milhões. Ou seja, mesmo com a demanda estabilizada, a Justiça não consegue dar conta do estoque de ações. Na primeira instância da Justiça estadual, em que estão 57% dos processos brasileiros, a taxa de congestionamento foi de 75%1. A tramitação dos processos é lenta, sendo que boa parte do tempo gasto se prende em discutir sobre formalidades processuais, que depois de discutidas incorre que em muitos casos o direito lesado não é reparado, frustrando desta forma a parte que buscou, como último recurso, a tutela jurisdicional. A Lei 9.307/96 (Lei de Arbitragem)2 inovou a resolução de litígios, ao estabelecer que o procedimento arbitral, uma vez adotado, impede que as ações sejam apreciadas pelo judiciário, conforme preceitua o art. 267, VII do Código de Processo Civil. Entretanto esse instituto deveria ser mais bem explorado e divulgado, pois colaboraria sobremaneira para o desafogamento do Judiciário, por ser dinâmico, rápido e eficaz. A Lei rege a arbitragem privada brasileira no plano interno e externo, e dispõe: Generalidades (arts. 1º- 2º), Convenção de arbitragem (arts. 3º18), sendo a Cláusula Compromissória (arts. 4º - 8º), o Compromisso Arbitral (arts. 9º - 12), Árbitros (arts. 13 -18), 1 Teixeira, Fernando. Reforma do Judiciário ainda não reduziu o número de ações na Justiça. Disponível em :http://lawyerbhz.livejournal. com/2007/02/16/. Acesso em: 10.01.2007. 2 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9307.htm> Suely Camargo “Mesmo com a demanda estabilizada, a Justiça não consegue dar conta do estoque de ações” Procedimento Arbitral (arts. 19- 22), Sentença Arbitral (arts. 23 – 33), Reconhecimento e a Homologação da sentença arbitral estrangeira pelo Judiciário brasileiro (arts. 34 – 40). A adoção do procedimento arbitral nasce de um acordo de vontades, que permite a sua ampla utilização em contratos comerciais continuados ou não, e pode ser estabelecido de duas formas: adoção de cláusula compromissória ou por compromisso arbitral. Na cláusula compromissória as partes prevêem no próprio contrato comercial, que em caso de litígio, o conflito será resolvido por um ou mais árbitros (número impar) e não pelo Ju- diciário. O compromisso arbitral difere da cláusula compromissória, pois é firmado pelas partes após o surgimento do conflito e pode ser extra ou judicialmente estabelecido, conforme preceitua o art. 851 do Código Civil e art. 9º da Lei de arbitragem. A competência de julgar do(s) árbitro(s) é de origem eminentemente contratual e fundamenta no princípio basilar da autonomia das vontades. As partes prevêem a Câmara de Arbitragem, que disciplinará os procedimentos que serão adotados, o modo no qual será constituída e as pessoas que exercerão a função de árbitros, podendo ainda, conferir-lhes poderes para julgar em matéria de direito ou em eqüidade. As partes têm a faculdade de escolher as regras, desde que, não violem os bons costumes e a ordem pública. Podem optar pelo regulamento instituído por uma Câmara de Arbitragem ou delegar aos árbitros poderes para regular o procedimento, fixar a sede da Câmara Arbitral e determinar o prazo de prolação da sentença de seis meses ou estipulado pelas partes. Nas arbitragens internacionais as partes podem eleger: o direito ou as regras aplicáveis ao mérito do litígio, aderir a regras de direito nacional ou estrangeiro, os usos e costumes do comércio internacional, devendo a sentença proferida no exterior ser homologada do STJ. O árbitro decide o litígio do mesmo modo que o juiz estatal, de cuja sentença tem força de coisa julgada formal e material, dispensa homologação no judiciário e tem valor de título executivo extrajudicial. Por isso a adoção do procedimento arbitral traria grandes benefícios para os contratos de Engenharia. IE Suely Camargo Coordenadora de Comissão do Meio Ambiente Artificial Industrial – OAB/SP Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Arbitragem.indd 9 9 18/1/2008 11:19:07 Opinião Conhecimento e trabalho: dois mundos inter-relacionados “Somente entre 1750 e 1850, surgem as primeiras escolas superiores de formação profissional. - em 1747 , a primeira Escola de Engenharia, em Paris; - em1770, a primeira Escola de Agricultura, na Alemanha; - em 1776, a primeira Escola de Mineração, também na Alemanha; - em 1794, a École Polytechnique, uma espécie de universidade técnica, na França; - entre1820 e 1850, as primeiras Escolas de Medicina. Note-se aqui, o fato de as Escolas de Medicina surgirem em ultimo lugar: a formação do médico manteve-se o quanto pôde similar à formação do artesão. Foto: Viviane Nunes E m todas as políticas, sejam brasileiras ou mundiais, a grande preocupação do homem tem sido o binômio “conhecer e trabalhar.” A educação é tema de todos os candidatos a cargos diretivos e assunto prioritário em todos os programas para o desenvolvimento. O trabalho foi e continua sendo, em toda a humanidade, em qualquer cultura e em todos os credos, o foco principal para o bem estar e sobrevivência humana. E a educação e conhecimento geram o trabalho produtivo e eficiente. Nós, engenheiros, vivemos e sentimos essa realidade em cada projeto, em cada obra, em tudo que fazemos. Toda a humanidade tem ou deveria ter a consciência disso. A propósito, transcrevo parte da dissertação de mestrado da engenheira Nadir Ramos de Almeida Hallgren, mestre de Engenharia de Produção pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de S. Carlos (SP) em 2003, a quem é devido o mérito desse trabalho: Eng. Paulo Alcides Andrade a Revolução Industrial e meados do século XX, (a organização social e econômica que convencionou-se chamar de Sociedade Industrial), o capitalismo mercantil dos séculos XV , XVI e XVII, transmuta-se paulatinamente no capitalismo industrial que irá predominar nos séculos XIX e na primeira metade do século XX. A pretensão maior é a de colocar o conhecimento a serviço do trabalho no sentido industrial e inúmeros desvios podem ser registrados. Entre eles, deve situar-se uma fragmentação excessiva das tarefas, tendo em vista uma organização supostamente científica das tarefas, visando uma organização supostamente cientifica das ações, mas que conduz freqüentemente a uma alienação insuportável. Ressalte-se ainda que, nesse período, os fatores de produção realmente significativos eram a matéria-prima, a terra, a mão de obra e, apenas subsidiariamente, o conhecimento. Por volta de 1950, com a invenção dos computadores eletrônicos, um novo período começou a delinear-se, no que se refere às relações entre o mundo do conhecimento e o mundo do trabalho. Com a emergência de novas tecnologias informacionais, o conhecimento passou a ocupar o centro das atenções, tornando-se o principal fator de produção. Não se trata mais de aplicar o conhecimento ao trabalho, mas de uma quase total identificação entre o mundo do conhecimento e o mundo do trabalho. Na verdade, o conhecimento passa a ser aplicado ao conhecimento; aprender é o que importa, e as novas ciências que ocupam cada vez mais espaço são: a Neurociência, a Psicologia Cognitiva, a Inteligência Artificial, englobadas muitas vezes, no rótulo de Ciências Cognitivas. Esse novo momento tem sido chamado de Pós-Industrial. Muitas transformações estruturais encontram-se em curso, tanto na economia como na sociedade, em grande parte associadas à utilização crescente de novas tecnologias nos setores produtivos, com o crescimento relativo do setor de serviços e a diminuição progressiva dos setores agrícola e industrial. A transformação mais marcante, sem duvida, é a emergência do conhecimento como principal fator de produção.” Não resta duvida que num mundo em vertiginosa transformação, somente com a educação e o conhecimento resultante, teremos eficiências no trabalho e os seus necessários corolários. É conhecendo que fazemos as boas obras. É conhecendo que fazemos outros conhecerem. Essa continua a ser a grande missão do engenheiro, mas não pode deixar de ser a missão de todo ser humano. IE Eng. Paulo Alcides Andrade No período compreendido entre 10 Opniao40.indd 10 Engenheiro e associado do Instituto de Engenharia Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 18/1/2008 11:21:55 Opinião O engenho inovação Foto: Arquivo Pessoal e a usina progresso U m longo período recessivo, em nome do combate à inflação, combinando baixas taxas de crescimento com instabilidade macroeconômica, fez o Brasil perder profissionais de Engenharia para outras áreas como o mercado financeiro, fiscalização tributária e outras. Segundo dados da Fisenge - Federação Interestadual de Sindicados de Engenheiros, o número de engenheiros formados entre l995-2005 superou em 66% o número de empregados. Era o preço caro da recessão. Entre 1996 a 2005 a economia global se expandiu a uma taxa de 45,6% e o PIB brasileiro cresceu somente 22,4%. Assim, o PIB per capita mundial dobraria em 30 anos e o nosso em um século. Isso não poderia continuar. O Governo Federal, ao lançar o Programa de Aceleração do Crescimento - PAC, faz a Engenharia assumir o seu papel de indutor do desenvolvimento e imã do progresso. Tal fato, no entanto, começa a mostrar uma situação preocupante. A falta de engenheiros é generalizada. Existe um déficit de profissionais principalmente nos setores de petroquímica, agricultura e mineração. Em São Paulo é notória a falta de engenheiros civis, o que já começa a ocorrer, também, na Bahia com o aquecimento do mercado imobiliário. Verifica-se, também, a carência de engenheiros especializados na técnica rodoviária, sendo que no setor ferroviário a situação é mais grave. Como fato mais novo e empolgante, a Copa do Mundo de 2014 nos coloca mais um desafio. O difícil não será adequar ou construir estádios, mas, sim, implantar a infra-estrutura necessária para as cidades candidatas às sedes dos jogos. Precisamos Eng. Paulo Cesar Bastos “A falta de engenheiros é generalizada” investir nas engenharias. O investimento nas Engenharias, através do fortalecimento das instituições científicas e tecnológicas, é o caminho para o desenvolvimento. Torna-se fundamental um processo de cooperação e compartilhamento do conhecimento técnico entre a academia e a empresa para o avanço científico do país produzir resultados práticos. Não significa dizer que as universidades percam a sua identidade, mas que passem a ser, também, ambientes de inovação tecnológica com visão sustentável. O processo de formação dos novos engenheiros deverá passar por essa nova visão. Além de uma sólida formação científica, o chamado modelo politécnico, as Escolas de Engenharia devem incluir a inovação como determinante na graduação. A responsabilidade social e ambiental, o compromisso com a ética e o empreendedorismo devem ser incluídos, também, nesse processo. A boa formação universitária deve ser acompanhada, também, de uma mudança de mentalidade e conceito. O engenheiro deve ser compreendido como o elemento-chave para a condução das inovações tecnológicas aos setores econômicos da sociedade. Precisamos valorizar as ações, os produtos e processos e não somente as palavras. Existe, ainda, uma baixa percepção e valorização pela sociedade brasileira dos profissionais das áreas tecnológicas. Quando aparece um conflito, uma guerra, em diversos cantos do mundo, nós assistimos aos aviões indo buscar os engenheiros brasileiros que estavam construindo estradas, pontes, aeroportos, hidroelétricas ou explorando petróleo. Aí a mídia mostra a capacidade da Engenharia Brasileira ser competitiva neste mundo global. Essa capacidade precisa ser melhor utilizada e valorizada aqui no Brasil. Precisamos encontrar os nossos próprios caminhos, sem esquecer que a dependência tecnológica é a forma contemporânea de subserviência à dominação. Dessa maneira, precisamos que o engenho da inovação processe o conhecimento para produzir os bons resultados que permitirão construir a usina do progresso que será um Brasil democrático, economicamente desenvolvido, socialmente justo e ambientalIE mente sustentável. Eng. Paulo Cesar Bastos Engenheiro civil Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Opniao40.indd 11 11 18/1/2008 11:21:56 Técnico Riscos em obras Foto: Viviane Nunes subterrâneas de Engenharia D ecorrido um ano após o acidente na construção da Estação Pinheiros, na Linha 4 do Metrô de São Paulo, é oportuno abordar o tema dos Riscos em Obras Subterrâneas de Engenharia. Os riscos na construção de obras subterrâneas existem (embora a Sociedade só tome consciência deles após ocorrerem acidentes), não podem ser totalmente eliminados, e são responsáveis por inúmeros sinistros no Mundo a cada ano. Levantamentos recentes mostram a ocorrências de mais de 40 acidentes envolvendo obras subterrâneas no mundo (excluindo – se os ocorridos no Brasil), apenas no período de 1973 a 2005 (ou seja, cerca de 2 acidentes de grande magnitude por ano no mundo, envolvendo obras subterrâneas). Risco, de uma forma simplificada, é o evento ou condição incerta, que pode afetar negativamente a obra de engenharia. O risco engloba a probabilidade de ocorrência, a escolha de medidas de redução ou mitigação, e as conseqüências do evento, caso ele efetivamente ocorra. Ao contrario do que muitos leigos e mesmo engenheiros acreditam, nem sempre a ocorrência do fato negativo tem uma causa puramente objetiva, que possa ser identificada de forma cristalina. Riscos complexos envolvem vários fatores, freqüentemente com baixa probabilidade de ocorrência simultânea, mas que se ocorrerem ao mesmo tempo, de forma muitas vezes imprevisível e inevitável, podem gerar acidentes e sinistros de grande impacto. A imprevisibilidade decorre da impossibilidade de identificar todos os fatores de risco que podem ocorrer concomitantemente em uma situação real, e se isto acontecer em um evento com tempo de resposta muito curto para uma reação apropriada e eficaz, gera – se o sinistro. Assim, é necessário gerenciar a construção de 12 Tecnico.indd 12 Eng. Roberto Kochen obras de engenharia, principalmente as subterrâneas (onde o risco é maior pela variabilidade natural intrínseca na geologia de cada local), justamente para evitar que eles se materializem em incidentes, acidentes e sinistros. A Engenharia Brasileira sempre se destacou pelos seus empreendimentos de grande porte, na área de barragens e energia, na área de transportes, saneamento e outras. Esta capacitação está comprovada pelo sucesso das empresas brasileiras no Exterior, em projetos e obras na America, África, Europa, e até mesmo na Ásia e Oriente Médio. O que podemos fazer no momento atual da engenharia brasileira, para aprimorar suas praticas e processos? É necessário programar a prática corrente em outros países da Análise Crítica – Revisão e Validação de Projetos (forma comprovada de aprimorar a qualidade dos projetos realizados). É necessário realizar análise de riscos do projeto e da construção de Obras Subterrâneas. É necessário que a contratação seja feita pelo melhor preço (menor preço final para o conjunto projeto – obra – operação – manutenção), e não pelo menor preço. É necessária a continuidade nos investimentos em obras de infra estrutura. É necessário enfatizar a Segurança nos projetos de obras subterrâneas, pois é o projeto que identifica e define os riscos geológicos, geotécnicos, de construção e outros, e que não podem ser eliminados pela variabilidade natural inerente a maciços de rocha e solo. É necessário o acompanhamento independente de projetos e obras. É necessário buscar aexcelência no projeto e na pratica da engenharia de obras subterrâneas, pois a engenharia brasileira tem condições de se destacar pela excelência dos seus projetos (nos empreendimentos de metrô, rodovias, ferrovias, barragens), inclusive no exterior, com participação destacada em diversos países. É necessário fiscalizar o exercício profissional, pois a engenharia envolve riscos ao patrimônio, à Sociedade e a seres humanos, motivo pelo qual não pode ser praticada por qualquer pessoa. Com isto, os riscos em obras subterrâneas de engenharia serão menores, e os acidentes menos freqüentes, permitindo à sociedade brasileira desfrutar do espaço subterrâneo nas grandes metrópoles, tão necessário para aumento de nossa infra-estrutura IE de transportes. Eng. Roberto Kochen Diretor do Instituto de Engenharia, Diretor da GeoCompany – Tecnologia, Engenharia e Meio Ambiente (www.geocompany.com.br), e Prof. Dr. da Escola Politécnica da USP. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 18/1/2008 11:22:36 Técnico Vai se iniciar uma obra nas Foto: Ricardo Martins proximidades de minha casa! L á vem problema, tudo pode acontecer desde o início da implantação do canteiro até o final da obra. Algo em torno de dois anos. Qual a empresa de construção civil que, ao iniciar uma obra, solicita uma vistoria cautelar para os imóveis lindeiros? Qual o proprietário de imóvel lindeiro a uma obra, que irá se iniciar, solicita uma vistoria cautelar? As vistorias cautelares podem ser usadas tanto como para precaução como para prevenção. Além dos vários problemas causados para essa vizinhança, a construtora é muitas vezes acusada de todo o tipo de anomalias que ocorrerem nos imóveis próximos, chegando ao âmbito judicial, que é demorado, dispendioso e pode levar a atrasos na entrega da obra. A vistoria cautelar tem como objetivo constatar o estado geral dos imóveis lindeiros à obra a ser executada e demonstrar se eventuais danos foram originários de anomalias anteriormente existentes ou provocados pela obra. Isso para resguardar interesses e para fornecer prova futura em eventual desencontro de opiniões quanto ao estado do bem na data da vistoria, mostrando assim respeito e consideração que o construtor tem com os moradores dos imóveis lindeiros à sua obra. Serão apontadas todas as anomalias já existentes, como umidade, manchas de bolor, fissuras, trincas, abatimento de pisos, descolamento de argamassa entre outros, além de sinalizar eventuais riscos de instabilidade por ocasião dos serviços de terraplenagem ou fundações. Deve-se observar também o entorno. Podem existir outras características (presença de lençol freático, córregos ou mesmo o tipo de solo) Miriana Pereira Marques “A vistoria cautelar tem como objetivo constatar o estado geral dos imóveis lindeiros à obra a ser executada” que podem interferir na estabilidade dos imóveis lindeiros. Nada impede que o proprietário do imóvel contrate um profissional para a realização da vistoria cautelar. As vistorias cautelares devem ser feitas preferencialmente em comum acordo entre as partes e emitidos laudos em duas vias: uma para o proprietário e outra para a construtora. A vistoria cautelar não faz parte da nossa cultura. A maioria dos construtores e a sociedade igno- ram a existência da norma ABNT NBR12722:1992, que torna obrigatória a vistoria prévia da vizinhança de prédios a construir. No item 4.1.10–Vistoria preliminar da NBR 12722:1992, temos: “4.1.10.1 Toda vez que for necessário resguardar interesses às propriedades vizinhas à obra (ou ao logradouro público) a ser executada, seja em virtude do tipo das fundações a executar, das escavações, aterros, sistemas de escoramento e estabilização, rebaixamento de lençol d’água, serviços provisórios ou definitivos a realizar, deve ser feita por profissional especializado habilitado uma vistoria” Norma técnica é lei! Código de Defesa do Consumidor Lei 8078 de 11 de setembro de 1990 Capítulo V-Das práticas comerciais Seção IV-Das práticas abusivas Art 39-É vedado ao fornecedor de produtos e serviços Item VIII - Colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço, em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – Conmetro. As conseqüências desse desencontro são demonstradas nos infindáveis processos judiciais, em que todos querem ter razão. Nesse sentido, a contratação de um profissional especializado torna-se fundamental e é um grande diferencial para uma empresa séria IE e responsável. Miriana Pereira Marques Diretora-secretária do Instituto de Engenharia e secretária da divisão Técnica de Avaliações e Perícias. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Tecnico.indd 13 13 18/1/2008 11:22:37 Direito Brasil: entre desenvolver a Foto: Arquivo Pessoal economia e preservar o meio ambiente O Brasil está em estado de alerta. Precisa urgentemente de obras de infra-estrutura de grande porte e já não é de hoje. É necessário, por exemplo, investir no setor de energia para afastar o risco de apagão e incrementar rodovias e portos para não comprometer a circulação de bens e mercadorias. O alto custo no transporte de bens aumenta o valor dos produtos nacionais, que perdem a competitividade no mercado internacional. Caso as mudanças não sejam rápidas e eficientes, o setor produtivo tende a se estagnar, com o aumento exponencial do Custo Brasil e a perda de competitividade da economia brasileira, tanto internacionamente quanto dentro do Brasil perante aos importados e concorrentes estrangeiros. No entanto, deve-se verificar que obras desse calibre sempre se refletem no meio ambiente. O que deve ser feito é procurar minimizar ao máximo o impacto ambiental. Com o objetivo de “compensar” o meio ambiente das intervenções causadas por obras de grande porte e igual impacto sobre a natureza, vige a Lei 9985/2000, que estabelecem que o empreendedor desse tipo de projeto é obrigado a apoiar e manter unidades de conservação ambiental, contribuindo com um patamar mínimo de 0,5% sobre os custos totais previstos para a implantação do empreendimento. Embora a intenção da lei seja socialmente louvável, não estipula nem limita o percentual a ser pago a título de compensação. O montante, criticado severamente por todos os setores, acabou conhecido como “imposto verde”, mas poderia facilmente ser tratado como fator verde 14 Direito.indd 14 Lucas Pessôa Pedreira Lapa de alta do Custo Brasil. A não-definição do valor desse “imposto” gerou grande insegurança para os empreendedores, que não têm como fazer uma projeção razoavelmente aproximada do valor final de seus projetos, o que cada vez mais inibe investimentos nacionais e estrangeiros no Brasil. Em face ao elevado número de críticas à legislação, o Ministério do Meio Ambiente, através do Conselho Nacional do Meio Ambiente, editou a Resolução 371, para estabelecer diretrizes para o cálculo, cobrança, aplicação e controle de gastos de recursos advindos da compensação ambiental. Com isso, os órgãos ambientais estaduais e municipais, assim como Ibama ficaram encarregados de definir uma metodologia de impacto ambiental e fixar os valores da compensação ambiental. Dentre diversas diretrizes, esta re- solução determinou que o valor da compensação ambiental ficará fixado em 0,5% dos custos previstos para a implantação do empreendimento até que o órgão ambiental estabeleça e publique metodologia para definição do grau de impacto ambiental. A questão ambiental é sem dúvida de extrema relevância e o país deve priorizar o desenvolvimento sustentável. A sistemática legal atual, porém, emperra projetos importantes e sequer contribui de maneira eficiente com a preservação do meio ambiente. Na análise da questão do desenvolvimento do país, é fundamental que se considere o meio ambiente. Todavia, o método adotado pelo Brasil desagrada diversos setores. O setor produtivo, porque, como não há limite para os valores de compensação, padece com a insegurança para se investir em projetos de grande porte, que podem alcançar valores muito elevados. Os ambientalistas, por que, até os dias de hoje, não se observa uma efetiva medida governamental de aplicação desses recursos na manutenção do meio ambiente. Fica a impressão de que a compensação ambiental está sendo utilizada apenas com o intuito arrecadatório no país de maior carga tributária no mundo. A sociedade e o governo precisam se conscientizar de que é preciso desenvolver as áreas de energia, portos e rodovias, mas com uma efetiva política de proteção ao meio ambiente. Caso contrário, estamos fadados a afugentar investidores ao aumento do Custo Brasil e à estagnação econômica. IE Lucas Pessôa Pedreira Lapa Advogado do setor de Engenharia, Construção, Infra-estrutura e Projetos de Emerenciano, Baggio e Associados Advogados Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 18/1/2008 11:23:10 Economia Foto: Arquivo Pessoal Desoneração da folha como ponto de partida N o processo de negociação para aprovação da prorrogação da CPMF, o governo assumiu o compromisso de apresentar uma proposta de desoneração da folha de pagamentos das empresas. Essa é uma necessidade urgente para o país, uma vez que a carga tributária cobrada sobre essa base de incidência compromete a competitividade da produção brasileira e estimula a informalidade. Um empregado com carteira assinada custa para uma empresa no Brasil cerca de 36% de seu salário nominal por conta dos encargos sobre a folha de pagamentos. Quando se acrescenta a esses gastos o tempo não-trabalhado (férias, 13º salário, aviso prévio etc), o custo de contratação ultrapassa 100%. Essa situação compromete dramaticamente a capacidade de competir das empresas na medida em que em outras economias emergentes como os tigres asiáticos a despesa trabalhista e tributária com um funcionário é da ordem de 11% de sua remuneração. O elevado custo de contratação e manutenção de um empregado compromete também as contas públicas brasileira, principalmente a da Previdência Social porque muitas firmas não formalizam a contratação de funcionários. Cerca de metade dos trabalhadores no Brasil não têm carteira assinada. O ministro da Previdência Social, Luiz Marinho, em encontro com dirigentes da ADVB, citou a utilização da CPMF como base para a desoneração da folha de salários. Essa alternativa foi analisada em um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) e mostra que a medida teria efeito Marcos Cintra “A reforma tributária vai voltar a ser discutida em 2008, e essa diretriz dever ser o ponto de partida de debate” redutor no custo das empresas e impacto altamente positivo nos indicadores macroeconômicos. Segundo o estudo da FGV, com base na nova metodologia das Contas Nacionais promovida pelo IBGE, a substituição do INSS patronal por uma contribuição sobre movimentação financeira (CMF) com alíquota de 0,5% reduziria o custo de produção das empresas. O PIB teria um crescimento adicional de 1,1% em termos reais, o nível de emprego aumentaria 1% e a demanda global cresceria 1,2%. Ou seja, a redução de mais da metade dos encargos sociais arrecadados sobre a folha de salários e a sua substituição por uma CMF teria impacto positivo sobre o mercado de trabalho, o consumo e a atividade empresarial. Gradualmente essa proposta tem sido aceita como a mais indicada para reduzir os custos empresariais e como forma de combater a informalidade. Membros do governo, parte do empresariado e representantes dos trabalhadores estão convencidos de que é preciso reduzir o ônus tributário sobre os salários e defendem como base alternativa a movimentação financeira. A Federação das Empresas de Serviços (Fesesp), a Confederação Nacional dos Serviços (CNS), a União Geral dos Trabalhadores (UGT) e o Sindicato dos Comerciários já se manifestaram favoravelmente à proposta. O projeto de desoneração da folha de salários mediante o uso de um tributo sobre movimentação financeira é a única forma eficaz para atender a demanda por menor carga de impostos para as empresas e a formalização e criação de empregos. A reforma tributária vai voltar a ser discutida em 2008, e essa diretriz dever ser o ponto de partida de debate. Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque Doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. Internet: www.marcoscintra.org / E-mail - [email protected] Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Economia.indd 15 15 18/1/2008 11:23:27 Especial Cresce o mercado Foto: Divulgação de polipropileno no Brasil as - 29/05 Vista Geral Polimerização 16 Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Engenharia.indd 16 18/1/2008 11:24:13 Engenharia Brasileira vive um momento ímpar. São diversos investimentos no setor petrolífero para acompanhar o crescimento do país. As empresas públicas e privadas estão aplicando fortemente na expansão de suas linhas de produção. Exemplo disto é a Petroquímica de Paulínia (SP) que está sendo construída através de uma joint venture Braskem (60%) e Petrobras (40%). O terreno, onde está a planta, é de 425 mil m², e 150 mil m² são de área construída. É a maior fábrica deste material no Brasil. A primeira idéia do projeto surgiu em 1997, quando as empresas se uniram, mas ficou muito tempo parado, pois o investimento era grande e o mercado ainda não era competitivo. A decisão de levá-lo adiante foi tomada em setembro de 2005 e a construção iniciada em outubro de 2006, quando saiu a licença ambiental e foi iniciado o estaqueamento. O término está previsto para final de março de 2008. O rápido levantamento da estrutura deve-se ao fato de que todos os envolvidos detêm o conhecimento da nova tecnologia, a mais avançada em polipropileno. O principal objetivo é a produção de resina de polipropileno, presente praticamente em todos os segmentos industriais, pois é o plástico de maior versatilidade, utilizado especialmente em embalagens para alimentos, garrafas plásticas, utilidades domésticas (entre elas cortinas, tapetes, eletrodomésticos), produtos farmacêuticos (como seringas), frascos para produtos de higiene pessoal e limpeza, peças automotivas, filmes, brinquedos, produtos eletrônicos, ferramentas, entre outros. Serão produzidas mais de 60 tipos de resinas diferentes, já com seus clientes definidos. Por sua capacidade de aplicação, pode ser utilizada no lugar da madeira, do alumínio, do vidro, do ferro e do aço. Para se ter uma idéia, a Braskem lançou um produto derivado do polipropileno, ultra transparente, para substituir o acrílico. A escolha da cidade de Paulínia, para a instalação da petroquímica, não foi apenas por causa de sua lo- Foto: Divulgação Especial A Elétrica Pipe-Rack VIII calização estratégica – atrás da refinaria da Petrobras, a quarta maior do Brasil e que será a fornecedora de matéria prima (nafta, extraída “ O investimento na obra é de aproximadamente 730 milhões de reais e a capacidade de produção da fabrica é de 350 mil toneladas por ano, do petróleo), mas também porque 65% de toda a embalagem usada na América Latina sai daquela região. Atualmente São Paulo é importador de polipropileno de outros Estados, portanto a construção da fábrica vai colaborar na balança comercial do Estado. O investimento na obra é de aproximadamente 730 milhões de reais e a capacidade de produção da fabrica é de 350 mil toneladas por ano, podendo chegar a 450 mil, representado quase 40% da produção total do Brasil, atualmente em 1,350 milhão de tonelada/ano. No primeiro ano produzirá 160 mil toneladas de polipropileno, por causa da oferta de matéria-prima (propeno, extraído da nafta), inicialmente suprido pela Braskem, através de sua Unidade de Insumos Básicos em Camaçari (BA) e pela Petrobras, através da Revap (Refinaria Henrique Lages – São José dos Campos). Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Engenharia.indd 17 17 18/1/2008 11:24:14 Foto: Divulgação Especial Equipamentos Buffer Silos - Filtros Para a construção da fábrica, trabalham diariamente 1,7 mil pessoas, dos quais aproximadamente 110 são engenheiros. Quando estiver em amplo funcionamento, terá 120 funcionários diretos, sendo 10% engenheiros mecânicos, químicos, eletricistas e 180 indiretos. Há um laboratório para atestar a qualidade e o tipo de resina que sai da fábrica, para atender às normas do Inmetro e da ABNT. De todo o material produzido pela Petroquímica Paulínia e comercializado pela Braskem, 70% irá para o mercado interno e 30% para exportação. “No terceiro ano de funcionamento da petroquímica, tudo o que for produzido ficará no Brasil para atender à crescente demanda do mercado interno”, explicou Gui- 18 lherme Guaranha, superintendente da petroquímica. A previsão é que a partir de 2010 seja necessário um investimento em outras plantas, pois a tendência é de crescimento do consumo de polipropileno. Tecnologia - A tecnologia, fornecida pela Braskem, chamada Spheripol, é reconhecida mundialmente como tecnologia limpa, pela pouca emissão de resíduos na atmosfera, tendo baixíssimo impacto ambiental. Outros fatores destacam-se para classificar a petroquímica como empresa que visa a sustentabilidade da região. O consumo de água da planta será de 1,6m3/ton de PP, abaixo dos 5m3 de plantas que utilizam outras tecnologias; o consumo de ener- gia é de dois gigajoules/ton de PP (1GJ=277.8kWh de eletricidade) contra 12 GJ da petroquímica em geral. Foi constatado através de estudos de dispersão atmosférica, durante o período de licenciamento, que as emissões residuais da produção de polipropileno não apresentam potencial que possam caracterizar impacto significativo na qualidade do ar da região. Como processos de preservação do meio ambiente e compensação ambiental, a empresa investirá R$ 6,7 milhões na contrução de um parque, comprará equipamentos para monitoramento da qualidade da água, ar e solo na região, além de ter um projeto de plantio de 2257 mudas de mata ciliar. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Engenharia.indd 18 18/1/2008 11:24:15 Foto: Divulgação Especial Como funciona a produção de polipropileno Nonononononononononononononononono Operários trabalhando na construção da planta primas são eteno e propeno. Na segunda geração, o propeno é recebido na forma liquida e estocado de maneira a iniciar seu processo de transformação; o produto depois é purificado através da retenção de contaminantes, em equipamentos específicos. Na etapa de catalisaFoto: Divulgação A cadeia produtiva do polipropileno passa por gerações que englobam diferentes empresas e processos tecnológicos. A primeira geração compreende a extração e o refinamento do petróleo; na segunda etapa esta matéria prima é convertida em polipropileno e na terceira ocorre o processo de transformação de polipropileno em diversos bens de consumo. Na primeira geração, a extração e o refinamento do petróleo abrem todo o processo de obtenção do polipropileno. O petróleo é acondicionado em tambores ou transportado em navios, caminhões ou através de ductos do ponto de exploração até a refinaria, onde ocorre a conversão do óleo em diversos produtos tais como: nafta, GLP, gasolina e óleo diesel. A nafta é encaminhada para as centrais de matérias-primas - Braskem, em Camaçari (BA); Copesul, em Triunfo (RS), e PQU, em Mauá (SP). Nestas centrais, a nafta é transformada em hidrocarbonetos, que são as matérias-primas utilizadas na segunda fase da cadeia petroquímica. No caso do polipropileno, as matérias- Esferas, onde fica armazenada a matéria prima ção, é feito o preparo do catalisador a ser dosado nos reatores. O próximo processo é o de polimerização, que se dá pela formação de esferas de polipropileno, em condições de temperatura e pressão controladas. No reciclo de propeno, estas esferas de polipropileno são separadas do propeno em fase gás. O propeno retoma o processo para reutilização. Neste momento, encerra-se a vida útil do catalisador pela injeção de vapor ao equipamento. O propeno residual das esferas de polipropileno é retirado e retorna ao processo para reutilização. Depois há a secagem, em que se retira toda a umidade presente nas esferas de polipropileno, com a injeção de nitrogênio aquecido. Na fase de aditivação, há um mixer, pois são inseridos os aditivos às esferas de polipropileno, de acordo com a aplicação final do produto. No momento da fusão e granulação, as esferas de polipropileno passam por uma fase de extrusão. Todas são fundidas, resfriadas e granuladas em pequenas partículas. Os grãos de polipropileno são armazenados em silos, sendo posteriormente ensacados para chegar ao mercado, disponibilizados aos clientes, que os IE transformarão em artigos finais. Viviane Nunes Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Engenharia.indd 19 19 18/1/2008 11:24:16 Informe-se Cursos PERÍCIA O engenheiro e advogado José Fiker, doutor em Semiótica e Lingüística Geral, perito judicial e pós-graduado em Perícias e Administração dará três cursos: AVALIAÇÃO E PERÍCIA DE IMÓVEIS URBANOS Dias 11,13, 18, 20 e 25 de fevereiro, das 19h às 23h - tem por finalidades promover o desenvolvimento da apreensão das técnicas de avaliação e desenvolver técnicas de argumentação, bem como ensinar utilizar os conceitos normativos. R$ 300 para associados e R$ 440 para não-associados; LAUDOS PERICIAIS Dias 10, 12, 17 e 19 de março, das 19h às 23h. O propósito é preparar profissionais com conhecimentos básicos de técnica de redação e elaboração de laudos. R$ 300 para associados e R$ 440,00 para não-associados; DIREITO E PERÍCIA JUDICIAL Curso básico – dias 24, 26, 31 de março e 2 de abril, das 19h às 22h. O foco é a legislação referente às atuações do engenheiro avaliador, situá-lo no campo forense, ensinando como se desenvolve um processo judicial. R$ 260 para associados e R$ 380 para não-associados. A NOVA NB1 E A TECNOLOGIA DO CONCRETO Dia 20 de março, das 8h às 18h. Objetivo é atualizar o profissional para o atendimento das normas de controle no emprego de suas obras. O professor, eng. Egydio Hervé Neto, tem formação em Auditoria e Sistemas da Qualidade pelo Inmetro, é espe- 20 Cursos40.indd 20 cialista e consultor em Qualidade e Tecnologia do Concreto. R$ 180 para associados e R$ 240 para não-associados GESTÃO DA QUALIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL De 26 a 28 de fevereiro, das 18h30 às 22h30. Com a finalidade de oferecer conhecimentos de Engenharia de Qualidade aos profissionais envolvidos com a gestão e controle da qualidade, em obras de construção civil e industrial, públicas e privadas. O curso será ministrado pelo eng. civil Carlos Williams Carrion, professor de Planejamento e Gerenciamento das Construções, com 28 anos de experiência em obras de construção civil nacional e internacional. R$ 270 pra associados e R$ 360 para não-associados. Visitas Técnicas VINÍCOLA SALTON, EM BENTO GONÇALVES, NO RIO GRANDE DO SUL De 21 a 24 de fevereiro. No dia 21, saída de São Paulo, passeio em Porto Alegre e deslocamento a Bento Gonçalves; no dia 22, visita à vinícola; dia 23, passeio em Gramado, Canela e região; e volta dia 24. O preço estimado é de R$ 880 por pessoa, incluindo passagem aérea, duas noites no hotel e traslado. A taxa de inscrição na Fazenda Salton será é de R$ 100 por pessoa, com jantar e degustação e harmonização de vinhos. Inscrições limitadas Mais informações pelo telefone (11) 5574-7766 r. 220 ou pelo e-mail [email protected]. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 18/1/2008 11:25:07 Cultura Fotos: Divulgação Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura P ara comemorar o aniversário da cidade de São Paulo – dia 25 de janeiro, a Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura está organizando a 3ª edição da Sampoemas - um dia de apresentações poéticas e musicais com a participação de algumas das mais importantes vozes poéticas de São Paulo, que se realizará a partir das 14h. Além da homenagem à cidade, a Casa das Rosas promoverá, nos meses de janeiro e fevereiro, o curso Geração Poesia – de terça a sextafeira, das 19h às 21h, que faz parte da IV Verão de Poesia. Para isso, a Casa das Rosas convidou cinco especialistas para falar sobre a poesia produzida em cada década e mais cinco autores representantes das gerações para debater com os alunos. O curso se iniciará dia 22 de janeiro. Veja a programação e as informações no site www.casadasrosas.sp.gov.br. Casa das Rosas - Localizada na avenida Paulista, foi projetada na década de 1930 pelo arquiteto Ramos de Azevedo – primeiro presidente do Instituto de Engenharia – para ser a residência de sua filha Lúcia, recémcasada com o engenheiro Ernesto Dias de Castro. Com estilo arquitetônico francês, seus 30 cômodos foram construídos e mobiliados com material de primeira qualidade, sendo a maioria deles importado da Europa. A entrada é de mármore e pedras italianas, os vidros e cristais belgas, assim como as ferragens inglesas e escocesas. Um enorme vitral colorido, assinado por Conrado Sorgenicht, decora o hall. Seus pavimentos se dividem em térreo, mansarda, primeiro andar e porão. O jardim, inspirado no Palácio de Versalles, abriga o famoso roseiral, origem do nome da casa e uma de suas atrações. Habitada até 1986, a mansão foi Casa das Rosas desapropriada pelo governo do Estado. O Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, com o intuito de proteger e valorizar o patrimônio cultural paulista, tombou o local no dia 22 de outubro de 1985. A Casa foi fechada para reformas em duas ocasiões: de 1986 a 1991 e de 2003 a 2004. Em 9 de dezembro de 2004, a Casa das Rosas foi reinaugurada com nova vocação e com a designação do Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, abrigando o acervo de 30 mil volumes da biblioteca do poeta, tradutor e ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003). IE Solventes Industriais – seleção, formulação e aplicação Coordenador Paulo Garbelotto Editora Edgard Blucher – 2007 420 páginas R$ 88,50 QFD – desdobramento da função qualidade na gestão de desenvolvimento de produtos Lin C. Cheng / Leonel D. R. de M. Filho Editora Edgar Blucher - 2007 568 páginas R$ 119,00 Esta obra, resultado de um trabalho de quatorze membros de diferentes áreas da Rhodia, oferece atualização dos conhecimentos sobre o tema, resgata sua história e aplicações ao longo do tempo, traz as novidades em tecnologias e desenvolvimento. Por fim, indica o caminho a ser traçado para o crescimento desse segmento de produtos no mercado industrial. Esta obra mostra com profundidade o método de ouvir com eficácia a voz do cliente, traduzi-la com precisão para especificações de engenharia e transmiti-la para produção com o propósito da garantia de qualidade do produto. É apresentado também a aplicação de casos reais em variados setores industriais como exemplos que facilitam o entendimento e a utilização do método. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Cultura.indd 21 21 18/1/2008 11:25:39 Acontece 01 02 03 04 06 Fotos: Elisa Bacchi Picoli, Fernando Siqueira, Ricardo Reis, Viviane Nunes e Arquivo do Instituto de Engenharia. Eminente Engenheiro do Ano de 2007 05 08 07 Aconteceu há 20 anos 22 1 – Roberto Kochen, diretor do Departamento de Engenharia Civil, e Paulo Ferreira, vicepresidente de Atividades Técnicas. 4 – Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, recebe o troféu Eminente Engenheiro do Ano de Edemar de Souza Amorim. 2 – Edemar de Souza Amorim, presidente do Instituto de Engenharia, e o dermatologista Pedro Salomão Kassab, pai de Gilberto Kassab. 5 – Apresentação da orquestra do Projeto Cultural “Criar e Tocar” de jovens da AEB (Associação Evangélica Beneficente), sob a coordenação do maestro João Girau. 3 – Público no coquetel da cerimônia. 6 – Camil Eid, Marli e Paulo Ferreira e Marcos Moliterno, sua filha Luiza e sua esposa Rosa. 7 – Pedro Paulikevis, Edemar de Souza Amorim, Denise Amorim, Marcio Paulikevis. 8 – José Serra, João Osvaldo Leiva, deputado estadual e secretário de obras no governo de Orestes Quércia e Décio Leal de Zagottis, diretor da escola politécnica da USP. Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Acontece40.indd 22 18/1/2008 11:26:49 Crônica Tênis é uma piada inglesa que o resto do mundo levou a sério “Os ingleses ocuparam a Bretanha por muito tempo; quando nós os expulsamos, eles voltaram para a ilha e a chamaram de Grande Bretanha”. T ênis é um dos jogos que incluo na categoria dos de “tédio infinito”. Sei que hão de me xingar muito, mas o que fazer? O tédio continuará infinito. Tenho por mim que o jogo foi uma das muitas piadas históricas dos ingleses. E, bem o sabemos, o humor inglês é – e continua sendo – imbatível. Considerem a frase no subtítulo desta página. Ao ouvir de meu coordenador de estágio na SNCF, aparentemente, um inventivo desmerecer da ocupação inglesa no território francês. Na verdade, a piada é inglesa: Grande Bretanha é nome que ficou no mapa da Europa; a Bretanha, coitada, é apenas um nome secundário dos folhetos turísticos; até como pays francês perde para a vizinha Normandia, que ostenta com orgulho o Mont Saint Michel, o inacreditável mouton pré-salée, e a manteiga, atriz figurante, em memorável participação n’O Ultimo Tango em Paris. Fleuma e sutileza, ingredientes do humor inglês são as chaves para explicar o título desta crônica. Tivesse eu maior interesse por jogos “sociais” diria que os ingleses inventaram o tênis para criar um jogo em que a nobreza pudesse se entediar, além dos limites do convívio social, nas conhecidas condições ambientais da Ilha, só encontráveis em planetas visitados pelo capitão Kirk, em sua Enterprise. Para melhor infernizar a família real, além de muito dificultar o desenrolar da contagem, era importante concebê-lo de forma que pudesse ter duração infinita. Isso, conseguiram, mas a piada se perdeu. O jogo virou moda em meio ao fog e à umidade da Ilha. Assim o imagino: a excessiva sisudez da realeza britânica não permitiu que nobres e seus acólitos percebessem as malévolas intenções dos que criaram o jogo. Como é proverbial a infinita capacidade inglesa de suportar o tédio, suas elites adoraram o jogo. O resto do mundo, acreditando que alguma coisa o jogo deveria ter que justificasse o entusiasmado interesse dos que comandavam o império, onde o “sol nunca se punha”, fingiu (e ainda finge) “adorar” o jogo. O jogo, acredite quem ousar acreditar, é assim: dois jogadores (ou duas duplas) jogam. Quem começa sacando, saca duas vezes; o primeiro saque vai direto para a rede e serve para experimentar se a rede está bem firme. Todo mundo finge que nada aconteceu e o jogo recomeça. Os jogadores continuam rebatendo interminavelmente a bola de um lado para o outro. Quanto mais tempo durar esta agonia melhor porque a intenção é deixar todos os que assistem com torcicolo. De repente alguém não consegue devolver a bola e o jogo pára. Acabou o jogo? Não, começou! Para que tentem entender como é a contagem de pontos, tentarei resumir. Não tem lógica, é um absurdo, mas é como convém. Há quem diga que um dos prêmios Nobel de Física foi atribuído a um matemático inglês que apresentou uma explicação lógica para a pontuação do tênis. A primeira rodada vale 15 pontos; a segunda 30; a terceira 40 (a tripulação da Enterprise garante que é assim que os habitantes da Ursa Maior contam). Para ganhar a quarta rodada, diriam os mineiros “é conforme”: é preciso uma diferença de duas rodadas. Tento explicar: se a contagem estiver 40 a 40, o jogo continua até que um jogador ganhe duas rodadas seguidas, fechando um game. Acabou o jogo? Não, começou: quem ganhou, ganhou apenas um game; o jogo dura seis intermináveis games. Segundo momento do tédio infinito: quem ganha seis games, fechando um set, ganha o jogo? Não, – de novo os mineiros – é conforme! Para ganhar o set um dos contendores (jogador ou dupla) deve ter também dois games de diferença (lembro que um game é composto por quatro rodadas, com um fecho de duas rodadas de diferença). Quem tenta entender o tênis descobre de que forma a Inglaterra gera humoristas da estirpe de Peter Sellers, Hitchcock e Mr. Bean, só para citar os mais conhecidos. IE Reginaldo Assis de Paiva Instituto de Engenharia U janeiro 2008 U nº 40 Cronica1.indd 23 23 18/1/2008 11:27:33 Untitled-1 24 17/1/2008 17:29:13