ENDURECIMENTO POR SOLUÇÃO SÓLIDA DE LIGAS DE COBRE. MAGNABOSCO, R.1 LIBERTO, R. C. N.2 WALLNER, C.2 RESUMO Latões α (ligas cobre-zinco) e alpacas (ligas cobre-níquel) tem grande utilização em peças fabricadas por estampagem, e sua resistência mecânica é conferida pela presença de átomos de soluto substitucionais, que por provocarem deformação do reticulado cristalino assumem posições particulares ao redor de discordâncias, dificultando seu movimento. Assim, o presente trabalho teve por objetivo avaliar a influência do tamanho e fração de átomos de soluto substitucionais na resistência mecânica de ligas monofásicas cobre-zinco-níquel, estabelecendo a relação matemática entre a quantidade destes solutos e a resistência mecânica destes materiais, avaliada através de ensaios de dureza. Deste modo, compreendendo a influência da fração em peso e dos raios atômicos destes solutos na resistência mecânica, pode-se descrever o modelo matemático de endurecimento por solução sólida, obtendo exemplos e modelos didáticos para a discussão deste mecanismo de endurecimento. ABSTRACT Copper-zinc and copper-nickel alloys are widely used in deep-drawing components. Their mechanical resistance came from the forces against dislocation movement imposed by crystal lattice deformation, caused by substitutional foreign atoms zinc and nickel in the copper matrix. This work studied the influence of size and mass fraction of substitutional atoms on the mechanical resistance of single-phase copper-zinc-nickel alloys, describing the mathematical models of solid-solution hardening, and giving didactical examples that could be used in the discussion of this hardening mechanism. PALAVRAS-CHAVE: ligas de cobre; endurecimento por solução sólida; metalurgia física. 1 Mestre em engenharia, EPUSP/1996 – Doutorando em engenharia, EPUSP/2000, Professor do Departamento de mecânica da FEI – LabMat/FEI - São Bernardo do Campo - SP – BRASIL - [email protected]. 2 Aluno de graduação do curso de engenharia mecânica da FEI – Bolsista PBIC/FCA. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32901 INTRODUÇÃO Ao se analisar os fatores que afetam a resistência mecânica de uma liga metálica, devem ser considerados dois fatores[1]: 1. A tensão calculada como necessária para mover uma discordância no seu plano de escorregamento de um metal perfeito é muito menor que o menor limite de escoamento observado nos sistemas reais. 2. A resistência mecânica está intimamente relacionada a estrutura do metal em questão. Extensamente relatada na literatura é a influência de contornos de grão[2], precipitados finamente dispersos[3,4] e átomos de soluto na resistência mecânica de ligas metálicas. A influência de átomos de soluto se dá na introdução de deformação no reticulado cristalino devido a diferença de diâmetros atômicos; para a redução da energia total do sistema, associada a presença das discordâncias, há o posicionamento correto dos átomos de soluto: soluto de diâmetro menor que os de solvente colocam-se em regiões de compressão, e os de diâmetro maior que os de solvente nas regiões de tração. O posicionamento preferencial destes átomos de soluto em regiões de tração e compressão associadas às discordâncias é um obstáculo a movimentação destas, obtendo-se então o aumento de resistência mecânica anteriormente citado[1,5]. Exemplos de campos de tensão associados a discordâncias em cunha podem ser vistos na Figura 1, calculados segundo[6]: (eq. 1) (eq. 2) onde (eq. 3) e G é o módulo de rigidez transversal, ν o coeficiente de Poisson e b o vetor de Burgers associado a discordância em cunha. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32902 (a) (b) Figura 1: Campo de tensão em torno de uma discordância em cunha: (a) paralelo ao plano de escorregamento, calculado segundo a eq. 1; (b) normal ao plano de escorregamento, calculado segundo a eq. 2. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32903 Pode-se entender o aumento de resistência mecânica associado a solução sólida como o aumento da tensão de cisalhamento τ necessária para mover a discordância; assim, supondo que cada átomo de soluto produz uma força F de restrição sobre a discordância, e que os átomos de soluto estão espaçados por uma distância média d, tem-se que o incremento de tensão necessário para a movimentação da discordância por unidade de comprimento desta será[5]: (eq. 4) O espaçamento médio entre átomos de soluto d pode ser calculado considerando-se sua fração atômica xf, seu diâmetro (relacionado ao vetor de Burgers) e distribuição espacial; deste modo pode-se aproximar a expressão anterior por: (eq. 5) Já a força F pode ser entendida como gerada da diferença entre a força de ligação química entre os átomos de soluto e solvente (que pode ser traduzida pela diferença de valores nos módulos de rigidez transversal das espécies atômicas envolvidas) e da deformação sofrida pelo reticulado do solvente devido a presença do soluto (ε). Considerando átomos de soluto substitucionais que provocam deformação simétrica do reticulado cristalino, o aumento de resistência mecânica representado pelo acréscimo a tensão de cisalhamento pode enfim ser definido como: (eq. 6) Além do endurecimento propriamente dito, soluções sólidas podem levar a envelhecimento dinâmico, caracterizado no ensaio de tração como aumentos abruptos de tensão durante a deformação plástica, levando a curvas tensão-deformação com aspecto serrilhado. Fenômeno comum em ligas de alumínio, também conhecido como “jerky flow” foi estudado em detalhe por Portevin e LeChatelier, recebendo o efeito nas curvas de tração o nome destes autores. Sem dúvida, é resultado da possibilidade de movimentação dos átomos de soluto na temperatura de deformação, em determinadas taxas de deformação, restabelecendo a interação CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32904 entre discordâncias e soluto: os aumentos de tensão que geram o serrilhado são, portanto, necessários para vencer a interação soluto-discordância anteriormente discutida[7]. Todo o conhecimento de endurecimento por solução sólida está sedimentado no trabalho de KOCKS[8], que trata os sistemas sofrendo endurecimento por solução sólida através dos “modelos de calha”, onde os átomos de soluto, devidamente posicionados nas discordâncias, criam “calhas” onde a energia do sistema é menor que a resultante do posicionamento das discordâncias longe do campo de interação do soluto. Além disso, o modelo proposto no trabalho em questão explica também como forças repulsivas entre soluto e discordância podem levar ao endurecimento, e como a redução na energia de defeito de empilhamento imposta por alguns solutos pode contribuir no fenômeno de aumento de resistência mecânica. Muitos sistemas binários apresentam grande solubilidade de soluto, e portanto o endurecimento por solução sólida nestes sistemas deve ser estudado em detalhe. Casos típicos são os sistemas cobre-níquel e cobre-zinco, que resultam nas ligas denominadas alpacas e latões α, respectivamente. Vale lembrar a significativa diferença de tamanho destes elementos (o raio atômico do cobre é 0,128 nm, enquanto o do níquel é 0,125 nm e o do zinco 0,133 nm), que leva a distorções do reticulado cristalino do cobre, uma das causas do endurecimento por solução sólida observado nestas ligas. Exemplo de endurecimento por solução sólida em ligas binárias de cobre pode ser observado na Figura 2, criada a partir dos dados da referência 9 deste trabalho. Figura 2: Limite de escoamento de ligas cobre-zinco e cobre-níquel recozidas, em função da fração em massa do soluto[9]. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32905 Assim, o presente trabalho tem por objetivo avaliar a influência do tamanho e fração de átomos de soluto substitucionais na resistência mecânica de ligas binárias monofásicas cobrezinco e cobre-níquel e ternárias monofásicas cobre-níquel-zinco, estabelecendo a relação matemática entre a quantidade destes solutos e a resistência mecânica destes materiais. MATERIAIS E MÉTODOS Foram fundidas 22 amostras, utilizando cobre, zinco e níquel de grau analítico. Utilizou-se para este procedimento forno tubular Lindberg, em temperaturas entre 1070°C e 1200°C (impondo assim temperatura de fusão aproximadamente 120°C acima da temperatura liquidus das ligas em questão), e a introdução das cargas a fundir no forno só se deu após formação de vácuo e posterior introdução de 1 atm de pressão de nitrogênio (99,99 N2). As matérias primas foram fundidas em cadinhos de alumina com aproximadamente 20 g de capacidade. Após a fundição, as amostras foram prensadas, obtendo-se redução de altura de aproximadamente 60%, e então recozidas entre 900°C e 1000°C por até 2 horas, buscando amostras de tamanho de grão equivalente e homogêneas no que tange a composição química, eliminando segregações de soluto que fatalmente ocorreram no processo de fundição. A seguir, parte das amostras foi enviada a análise química (obtendo-se a composição química das ligas indicadas na Tabela I), enquanto que o restante das amostras foi embutido em resina termofixa de cura a quente (“baquelite”) para posterior preparação metalográfica e verificação da microestrutura. As amostras, aprovadas no que tange a homogeneidade estrutural, foram novamente polidas e submetidas a pelo menos 20 medidas de microdureza Vickers, com carga de 9,8 N (1 kgf). RESULTADOS EXPERIMENTAIS E DISCUSSÃO Os valores de dureza em função da composição química das ligas binárias são mostrados nas Figuras 3 e 4. Nas mesmas Figuras, tem-se as equações que regem o fenômeno de endurecimento por solução sólida substitucional das ligas em questão. Nota-se que o efeito endurecedor do níquel é inferior ao efeito causado pelo zinco, fato comprovado pela taxa de endurecimento (acréscimo de dureza causado pela adição de soluto), taxa esta que pode ser entendida como o coeficiente pré-composição das equações mostradas nas Figuras 3 e 4 (cujo valor é 0,22 HV para o zinco e 0,03HV para o zinco). Tal fato está relacionado à maior CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32906 diferença entre raios atômicos de soluto e solvente no sistema cobre-zinco (0,128 nm para 0,133 nm respectivamente) que no sistema cobre-níquel (0,128 nm para 0, 125nm respectivamente), o que confere às ligas cobre-zinco maior distorção do reticulado cristalino, garantindo maior interação soluto-discordâncias. Nota-se ainda que a relação entre dureza e fração de soluto assume parcelas linear e quadrática, de acordo com o já observado na literatura (Figura 2). Tabela I. Composição química das amostras em estudo. Liga % Cu % Ni % Zn Cu 100.0 0.0 0.0 B1 97.2 2.8 0.0 B2 94.9 5.1 0.0 B3 90.2 9.8 0.0 B4 84.5 15.6 0.0 B5 96.7 0.0 3.3 B6 95.2 0.0 4.8 B7 92.1 0.0 7.9 B8 87.9 0.0 12.1 B9 86.7 0.0 13.4 B10 82.7 0.0 17.3 T1 91.8 3.0 5.2 T2 85.5 9.2 5.3 T3 79.5 15.0 5.5 T4 89.8 3.5 6.7 T5 85.4 6.1 8.5 T6 75.8 13.5 10.7 T7 65.9 22.2 11.9 T8 75.3 10.9 13.8 T9 73.2 9.8 17.0 T10 63.1 17.2 19.7 T11 61.5 15.9 22.6 CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32907 Na Figura 5 a dureza das amostras ternárias Cu-Ni-Zn é mostrada em função da somatória de frações de massa dos solutos, zinco e níquel. Nota-se que a relação entre dureza e fração de soluto também tem parcelas linear e quadrática, mas o acréscimo de dureza obtido com teores crescentes de soluto não é tão significativo como nos sistemas binários cobre-zinco e cobreníquel, o que mostra o não sinergismo entre as adições de elementos que causam compressão (zinco) e tração (níquel) no reticulado cristalino (o coeficiente pré-composição da equação mostrada na Figura 5 é 0,01 HV). Esta ocorrência pode ser explicada pelo aniquilamento dos campos de tração e compressão causados pelos átomos de níquel e zinco simplesmente devido a seu arranjo no reticulado, independentemente se próximos ou não das discordâncias. Nota-se no entanto que o coeficiente da fração linear é o dobro dos anteriormente descritos, o que deve ser motivo de novas pesquisas. Figura 3: Microdureza Vickers, carga de 1 kgf, de ligas cobre-zinco recozidas, em função da fração em massa de zinco, e equação relacionando dureza em função da fração de massa do soluto. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32908 Figura 4: Microdureza Vickers, carga de 1 kgf, de ligas cobre-níquel recozidas, em função da fração em massa de níquel, e equação relacionando dureza em função da fração de massa do soluto. Figura 5: Microdureza Vickers, carga de 1 kgf, de ligas cobre-níquel-zinco recozidas, em função da somatória das frações em massa de níquel e zinco, e equação relacionando dureza em função da fração de massa dos solutos. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32909 CONCLUSÕES Do presente trabalho pode se extrair as seguintes conclusões: ¬ A presença de zinco e níquel como solutos substitucionais no cobre gera endurecimento por solução sólida, de acordo com as seguintes expressões: Para ligas binárias: HVCuNi = 66 + 0,03.[(%Ni)2 + 10.(%Ni)] HVCuZn = 66 + 0,22.[(%Zn)2 - 10.(%Zn)] Para ligas ternárias: HVCuNiZn = 66 + 0,01.(x2 + 20.x) sendo x a somatória dos teores em massa de zinco e níquel. ¬ O efeito do zinco como endurecedor é superior ao do níquel, provavelmente devido a maior diferença entre o raio atômico de soluto e solvente no sistema cobre-zinco que no sistema cobre-níquel, o que confere às ligas cobre-zinco maior distorção do reticulado cristalino, garantindo maior interação soluto-discordâncias. ¬ O acréscimo de dureza obtido com teores crescentes de soluto nas ligas ternárias não é tão significativo como nos sistemas binários cobre-zinco e cobre-níquel, o que mostra o não sinergismo entre as adições de elementos que causam compressão (zinco) e tração (níquel) no reticulado cristalino. Esta ocorrência pode ser explicada pelo aniquilamento dos campos de tração e compressão causados pelos átomos de níquel e zinco simplesmente devido a seu arranjo no reticulado, independentemente se próximos ou não das discordâncias, havendo menor fração volumétrica distorcida no reticulado capaz de interagir com os campos de tensão associados às discordâncias em cunha. AGRADECIMENTOS A Fundação de Ciências Aplicadas, pelo suporte financeiro a este trabalho, e à equipe de técnicos do LabMat/FEI, Antonio M. Miron, Hamilton O. Silva, Marcos O. Gentil, Romildo de Freitas e Sandro A. A. Gimenez, pelo apoio nas atividades experimentais realizadas. BIBLIOGRAFIA 1. COTTRELL, A. H. Theoretical structural metallurgy Edward Arnold : London 1959 p. 241-4. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 32910 2. DIETER, G. E. Mechanical metallurgy. McGraw-Hill : London 3. ed . 1988 p.188- 91. 3. REED-HILL, R. E. Physical metallurgy principles. 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