Enquanto isso, no Brasil e no Mundo Os anos 60 são um marco na História do Brasil e do Mundo. Grandes transformações de valores e costumes propunham mudanças comportamentais que foram sendo adotadas pela juventude contestadora. O Maio de 68 na França com o slogan “É proibido proibir” e, nos EUA, o movimento hippie do “Faça amor, não faça a Guerra” foram expressivos, pois na Bahia REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 64 BENEVIDES, Maria Vitória de Mesquita. O governo Kubitscheck. 3.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1979. BORGES, Sebastião Wenceslau. Memoriando. Passos: 3.ed. Editora São Paulo, 2003. BORIS, Fausto. História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Edusp, 1995. BRANDÃO, Atila. A linha de transmissão. Juiz de Fora: Esdeva Empresa Gráfica, 1978. COTRIM, John R. A história de Furnas. 2. ed. Rio de Janeiro: Furnas, 2004. FREIRE, Lázaro Lemos. Lembranças. São Paulo: Editora Renover, 2006. LEMOS, Gustavo José. Nos Passos da Saudade. Passos, Editora São Paulo, 1999. MAIA, Marcio Lemos Soares. Álbum de Passos, 1984: monografia da cidade de Passos. São Paulo: Cigel, 1984. MELLO, João Manuel Cardoso, NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In História da vida privada no Brasil. INSCHWARCS, L.M. (org). São Paulo: Cia das Letras, 1998. NEGRÃO, Helio Soares, Registros I, Histórias e memórias-1764-1986. Flexopress, Papéis Ltda, 1991. OLIVEIRA, Edgar Rodrigues, Política, técnica e sociabilidade na construção da Usina de Furnas – 1957-1963 Dissertação Strictu Senso em História apresentada à UNESP –Franca, 2002. Acervo fotográfico Leda Lemos Maia Silva. Acervo do Prof. Eurípedes Gaspar de Almeida. EXPEDIENTE Especial editado pelo Jornal Folha da Manhã e Fundação de Ensino Superior de Passos - FESP JORNAL FOLHA DA MANHÃ Carlos Antônio Alonso Parreira - Diretor Jornalístico Maria das Graças Lemos - Diretora Comercial FESP/UEMG Prof. Fábio Pimenta Esper Kallas - Presidente do Conselho Curador Moeda de Cuproníquel de 1967. Ela valia 20 centavos e foi cunhada em homenagem à indústria petrolífera. EDIÇÃO: Carlos Antônio Alonso Parreira/ Profª. Selma Tomé PESQUISA E REDAÇÃO: Profª. Leila Maria Suhadolnik Oliveira Pádua Andrade REVISÃO: Prof. José dos Reis Santos IMAGENS E FOTOGRAFIA: Prof. Diego Vasconcelos DESIGN GRÁFICO, CAPA E MOLDURA: Profª. Heliza Faria Fascículo 08/10 - Novembro de 2008 pressionaram os governos e instituições a se modificarem, acabarem com a Guerra do Vietnã e com desdobramentos da guerra fria. Os jovens passaram a ter um comportamento livre de amarras morais familiares e políticas. Nos EUA, o Festival de Woodstock foi um momento importante dessa liberalização. O Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II propondo mudanças nos ritos para que a Igreja acompanhasse os novos tempos. Na moda, a grande vedete dos anos 60 foi, sem dúvida, a minissaia. A inglesa Mary Quant divide com o francês André Courrèges sua criação. Entretanto, nas palavras da própria Mary Quant: “A idéia da minissaia não é minha, nem de Courrèges. Foi a rua que a inventou”. Fazia um enorme sucesso os concursos de Miss Brasil e Miss Universo com personalidades como Marta Rocha, Adalgisa Colombo, Terezinha Morango e Yeda Vargas. Em 1961, Jânio Quadros foi eleito presidente do Brasil e renunciou após 9 meses de governo possibilitou a tomada do poder pela burguesia industrial apoiada pelos Estados Unidos e pelas igrejas, temerosos com o avanço comunista. O exército, apoiado pela direita assustada instalou a ditadura militar por mais de 20 anos: de 1964 a1985. No inicio dos anos 60, com a instalação do regime socialista em Cuba, um pavor tomou conta da América. Os EUA adotaram uma política de estímulo a repressão das idéias marxistas. Assim, Estados Unidos, as classes burguesas, a elite agrária, as igrejas, especialmente a católica, associaram-se para impedir a qualquer custo a propagação desses ideais. Em 1964 alegando o perigo socialista no governo João Goulart foi instalada a Ditadura no Brasil para “normalizar” a economia e a política, em crise desde a renúncia de Jânio. A normalização não veio e sim um endurecimento cada vez maior por parte dos governos militares. Em 1968, quando se falou em abertura política com a Frente Ampla e a Passeata dos 100 mil o governo aplicou “um golpe dentro do golpe” através da imposição do AI 5. A partir daí foram os “anos de chumbo” dos governos de Costa e Silva e Médici: o auge da repressão, do uso de tortura, cassações e exílio. Os festivais da Canção representavam o crescimento da expressão musical brasileira com o advento da bossa nova, da MPB, do rock brasileiro e da Jovem Guarda com as produções de grandes compositores e cantores brasileiros como Ivan Lins, Chico Buarque, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Elis Regina, Caetano Veloso, Roberto e Erasmo Carlos, Gilberto Gil e outros que representam uma maneira muito própria do brasileiro de protestar com música. Por outro lado houve um crescimento econômico gigantesco de 12% do PIB. A riqueza gerada ficou concentrada nas classes altas. O governo dizia que era preciso fazer “o bolo crescer para depois dividir” o que nunca aconteceu. A enorme concentração de renda deixada pelo período militar é uma característica de nossa sociedade atual. Grandes obras foram executadas no período como Transamazônica, Ponte Rio- Niterói e Hidrelétrica de Itaipu. A influência da Usina de Furnas no crescimento da cidade: o progresso econômico e social. O avanço cultural: a criação da FESP. A UPES e a ação dos estudantes secundários passenses. O governo de Dr. José Pereira dos Reis: últimas disputas entre PSD, UDN e PTB Criação de Furnas provoca profundas repercussões em Passos Em fins dos anos 1950 e início dos anos 1960, a política do presidente Juscelino Kubitschek era modernizar o Brasil. Seu slogan “50 anos em 5” fazia coro com a necessidade de geração de energia elétrica. Na bacia do Rio Grande, muito próxima ao eixo Rio/São Paulo, havia um cannion natural que facilitou a construção da Hidrelétrica de Furnas. Através do decreto n.º3/187 de 10 de fevereiro de 1957, o governo determinou que os terrenos destinados à execução do projeto de Furnas e os da área 58 Enormes caminhões de fabricação nacional os “Fê Nê Mê” (FNM produzidos pela Fábrica Nacional de Motores) passaram a fazer parte da paisagem da cidade transportando tudo, inclusive os operários. Para isso, os caminhões eram adaptados com toldos de lona e quatro bancos de madeira onde se acomodavam as pessoas. do reservatório fossem transformados em áreas de utilidade pública e deveriam ser desapropriados. Nascia uma hidrelétrica. Definidos o projeto e os orçamentos básicos, em outubro de 1957, importantes firmas nacionais e internacionais se qualificaram para participar da construção. As estrangeiras tiveram que se associar a uma nacional e o vencedor da concorrência foi o grupo consorciado pelas firmas George Wimpey, da Inglaterra, e Companhia Construtora Nacional, do Brasil. Os trabalhos começaram em meados de 1958. A sede da Empresa foi instalada em Passos e havia uma expectativa muito grande da população quanto aos resultados do empreendimento. Arthur Amâncio da Silveira afirmou isso no jornal “O Sudoeste”: “Estamos certos de que Passos emergida da bacia lacustre do Rio Grande foi predestinada a ser uma deusa nestas paragens e se assentará no trono das suas montanhas, com o cetro de Rainha, sob a coroa de suas riquezas naturais”. A obra criou um aumento imediato na demanda de empregos. Muitos operários foram chegando de toda parte do Brasil e eram chamados de “candangos”, a mesma denominação dos trabalhadores das obras de Brasília. Passos, por ser a maior cidade do entorno da construção, tornou-se o ponto mais importante de lazer e comércio. Houve um inegável impacto social, econômico, político e cultural sobre a cidade e região após o início das obras da barragem. Passos é capital de Minas por um dia Em outubro de 1959, o presidente Juscelino Kubitscheck visitou as obras e declarou para a imprensa presente: “é uma das obras que estão colocando o Brasil do outro lado da fronteira do desenvolvimento”. Em março de 1960, o presidente voltou a Furnas para a inauguração do túnel de desvio das águas do Rio Grande. O PSD de Passos, fazendo pressão política, compareceu maciçamente ao ato. JK assinou, nesse dia, a criação de um grupo de trabalho destinado a dar andamento aos estudos sobre a situação econômica da zona do reservatório de Furnas, pois muitos donos de terra estavam descontentes com os trabalhos de indenização. Em 21 de maio de 1961, o governador Magalhães Pinto visitou Passos transformada em capital do Estado por um dia. As elites políticas apresentaram, na ocasião, 70 reivindicações e o governador fez várias determinações imediatas com o objetivo lógico de deixar a classe política e a população satisfeita e abrandar os transtornos causados pelas desapropriações e pela construção da barragem. As principais reivindicações foram: criação de infra-estrutura para defesa da fauna (especialmente a pesca), conclusão em seis meses do prédio do Grupo Escolar Abraão Lincoln, melhoria das instalações do Centro de Saúde (Posto de Higiene e Puericultura), construção da residência da presidência do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) em Passos, pavimentação da estrada Passos/ Paraíso - divisa de MG/SP - estudo para fornecimento de energia a todos os municípios com terras inundadas por Furnas e financiamentos para a agricultura. A carta reivindicatória terminava assim: “Por mais estranho que pareça por encontrar-se Passos entre duas grandes geradoras como a de Peixotos e Furnas, vivemos à míngua de energia”. O prefeito Dr. José Pereira dos Reis Dr. José Pereira dos Reis foi eleito prefeito de Passos em 7 de outubro de 1962 pela coligação UDN, PR, PDC, tendo como vice-prefeito Manoel Bruno da Silveira. Derrotou Chiquito Maia e José Figueiredo do PSD, e Dr. Breno Soares Maia e Dr. Antonio Mendes Peixoto do PTB. Essa foi a última eleição com esses partidos, pois foram extintos pela Ditadura Militar. Dr. José Reis fez um governo tranqüilo, promoveu desapropriações para a sos com a chefia de Dr. Breno Soares abertura, melhorias Maia, que exercia uma liderança humanie calçamento das tária e carismática representando as masruas Brandões, Gonsas operárias concentradas na Liga Opeçalves Dias, Barão do rária que foi restabelecida no ano de Rio Branco, Tereza 1954. Dr. Breno era médico, mas deiCristina, Anibale de xou a medicina para se dedicar à educaFrancia, Cássia, Bonção, política, sociedade e cultura. Amava sucesso, Cel. João de Passos e Barros. usava o Concluiu a nome da ciEstação de dade para Tratamenseus empreto de Água e, na zona rural, endimensubstituiu a madeira dos matatos: O Coléburrros por trilhos. gio de PasO PTB, partido herdeiro sos e a Rádo Varguismo, teve uma repredio Passos. sentação importante em Pas- Dr. Breno, Tancredo Neves e Israel Pinheiro UPES, bailes e pontos de encontro No ano de 1961 foi fundada a União Passense dos Estudantes Secundários (UPES). A primeira diretoria foi formada por Ivan Caetano, Afrânio Alves de Andrade, Samir Hadad, Marta Serafim, Maria Lúcia Bordezan, Dalva Peres, Imaculada Soares, Eduardo Ferreira da Silva e Paulo Bougleux de Andrade. A sede da união ficava na Praça da Matriz e era um ponto de encontro dos estudantes, local onde se discutiam ações sociais e eram providenciadas as carteirinhas, pois as dos colégios eram restritas ao controle interno. Para pagar meio ingresso no cinema só valia a carteirinha da UPES. Os estudantes chegaram a promover a primeira greve estudantil em Passos, reivindicando a diminuição das mensalidades estudantis dos colégios particulares. Os alunos do Colégio de Passos e Estadual faziam piquetes na esquina do CIC, impedindo as alunas de freqüentarem as aulas. No ano de 1966, a UPES liderou o XXIII Congresso Estudantil Secundarista de Minas Gerais. O presidente era Reinaldo Fonseca. Estudantes de 80 cidades mineiras lotaram a cidade. Foram feitas reuniões, competições e um baile de encerramento com escolha da rainha dos Estudantes. Um problema surgiu nos dias do congresso: havia estudantes negros e sua entrada era dificultada no Passos Clube. Foi uma luta vitoriosa para os estudantes os negros serem aceitos no baile. Os bailes da UPES tinham sempre público recorde, onde os jovens dançavam ao som das músicas de Ray Connif, da Jovem Guarda e dos Beatles, mas sempre vigiados pelos diretores que proibiam qualquer avanço, especialmente dançar de rosto colado. O ponto de encontro da juventude era na Praça da Matriz, onde era realizado o footing ou rela. Na passarela central do jardim, em duas filas, as pessoas passeavam movendo-se cada uma para um lado, de modo que sempre se encontravam. Aconteciam os olhares, o flerte e o início dos namoros. Quando o relógio da Matriz batia 9 horas da noite as filas começavam a diminuir e quando dava 10 horas, não havia mais ninguém na Praça. O mais curioso é que em dias de missa na Matriz, quando o sino badalava lembrando a benção do Santíssimo, todas as pessoas paravam enquanto o sino tocava, faziam o sinal da cruz e, só voltavam a andar, quando o sino parava de tocar. Os homens vestiam calças jeans, camisas de ban-lon ou camisetas e as moças minisaia e havaianas para espanto dos mais velhos. Martinha fazia sucesso com sua mini saia. Carnaval, bailes de debutantes e teatro O carnaval de rua em Passos era muito prestigiado pela população. O ponto alto era o desfile dos blocos de fantasia que desciam a rua Antonio Carlos e contornava a praça da Matriz. A prefeitura oferecia um prêmio aos ganhadores e turmas de amigos reuniam-se para formarem blocos. A Turma da Barrinha destacava-se com as suas apresentações como Saudação aos Pampas ou Os Gaúchos e Soberanos do Mar. Os bailes de debutantes, no Passos Clube, eram preparados com muito rigor e beleza. Havia uma tradição que as jovens colocavam o primeiro sapato de salto e a primeira jóia durante o baile. Os vestidos eram verdadeiras obras de arte de costureiras famosas como Eva Maia, Argenisia Tozzi Fonseca, Mariquinha Mandatti e Zuia. Em 1966, fez muito sucesso a montagem da peça Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque de Holanda. Foi uma sementeira da arte passense. Vários universitários participavam da peça e do Teatro Universitário Passense (TUPA). Silas Figueiredo, Luciano de Cápua, Reinaldo Barbosa da Fonseca, Guatabi Bernardes, Eurípedes Gaspar de Almeida, Helio Negrão, Jefferson Parenti, Ivani Almeida, Clélia eram alguns dos nomes encenando no palco do Cine Alvorada com recorde de público. Em 1969, nascia o Centro de Aprendizagem Pró-Menor de Passos (CAAP), idealizado pelo irmão Natal Cesare Lisi com ajuda da comunidade. O primeiro presidente de 1969 até 1973 foi Dr. Breno Soares Maia. 63 O nascimento da FESP 62 A primeira idéia da criação de uma Faculdade em Passos surgiu através da Associação dos Professores de Passos, em 1962. Os integrantes sonharam com uma faculdade de filosofia para formar devidamente os professores. Para isso, começaram a se mobilizar estabelecendo contatos com o Rio de Janeiro, Belo Horizonte e com as lideranças políticas de Passos e região. Em 1963, um movimento amplo e envolvente tomou conta da comunidade passense. Os colégios tradicionais de Passos e seus estudantes fizeram abaixo-assinados, campanha de telegramas para as autoridades, passeatas e outras ações de mobilização. Destacaram-se, nesse momento, as ações do Prof. Armando Righetto, Dr. Nilton Santos de A cidade foi tomada por faixas com slogans que demonstram a importância e a força do movimento. “A Faculdade será uma dádiva para nós” “Sê Passense de verdade apoiando a Faculdade” “Faculdade de Filosofia de Passos é nossa máxima inspiração” “Com esta faculdade serão longos os nossos passos” “Uma faculdade engrandece uma cidade” “Ajude Passos ajudando a Faculdade” Brito e Madre Presentação Gonzáles, disadas. Em protesto, os professores deretora do Colégio Imaculada Conceição. mitiram-se da diretoria da associação. Associações como Maçonaria, Rotary Club, Em princípio de 1965, por via políUPES e o comércio local também se envoltica, retomaram-se os trabalhos ainda sob veram na campanha colhendo assinaturas, a liderança de Mauro Ferreira da Silva. manifestos, ajuda financeira, colocando Em 11 de março de 1965, o “Minas palavras de ordem nas ruas e ações nos Gerais” publicou a constituição do priescritórios, nas lojas, nas famílias. Colocameiro Conselho Curador da Instituição: ram-se faixas alusiDr. José Francisco de vas por toda a cidaOliveira Filho, Cônede e conseguiram o go José Timóteo da apoio da imprensa faSilva e Dr. Oto Lopes lada e escrita, envide Figueiredo. A parando palestrantes às tir daí, começou a fase cidades vizinhas. Foi da efetivação das auum incansável trabalas. A comissão formalho de grupo no qual da por Oto de Assis se destacavam os Zebral, Ângelo JabaLançamento da Pedra Fundamental do professores Armance, Antonio Ferreira primeiro prédio da FESP do Righetto, Ruy de Maia e Helio Pimenta Bittencourt, Mauro Ferreira da Silva, Frande Vasconcelos resolveu abrir um livro cisco Soares de Melo, Sr. Leodor Marques, de ouro, a fim de recolher assinaturas Dr. Breno Soares Maia e muitos outros. com donativos. Na Assembléia Legislativa, trabaNo dia 21 de abril de 1965, no salhavam para ajudar a conseguir a criação lão nobre do Colégio Imaculada Conceida Faculdade os deputados Joaquim de ção, foi proferida a aula inaugural pelo Melo Freire e Delson Scarano, autor do professor Orlando de Carvalho, membro projeto que foi sancionado através da Lei do Conselho Estadual de Educação, com 2933, assinada pelo governador Magaa presença das autoridades municipais, lhães Pinto. regionais e dos curadores. Imediatamente, formou-se uma coAs aulas iniciaram-se no dia seguinte, missão para tratar da implementação práno prédio cedido pelo Colégio Estadual Jutica da Faculdade composta por Armanlia Kubitschek. Foram transferidas, mais do Riguetto, Francisco Soares de Melo, tarde, para o Grupo Escolar Wenceslau Brás Nilton Santos de Brito, Ruy de Bittene depois, em 1966, para a Escola Estadual court e Mauro Ferreira da Silva. Lourenço de Andrade, onde permaneceEm março de 1964, com a imposiram até 1970, quando houve a mudança ção da Ditadura Militar, arrefeceu-se o definitiva para o prédio próprio. A turma ânimo das lideranças da Associação dos pioneira marcou a história da Faculdade de Professores, pois alguns deles tiveram Filosofia de Passos (FAFIPA), que foi resuas vozes caladas e suas palavras casconhecida em 1970 A invasão das águas intriga o povo Em 9 de janeiro de 1963, as comportas dos túneis de desvio do Rio Grande foram fechadas. As águas começaram a subir invadindo as terras ribeirinhas. Cidades como Guapé e São José da Barra desapareceram com a subida das águas, sendo necessária a construção da Nova Guapé e da Nova Barra. Suas populações foram deslocadas para novas cidades planejadas. A Empresa de Furnas registra que, oficialmente, 35 mil pessoas foram afetadas pelo enchimento do reservatório e tiveram que ser removidas dos seus lugares de origem. Obras de Furnas Os barrageiros que moravam em outras Existem relatos dizendo que “a água cidades, principalmente Passos, levavam escoou de forma rápida não dando tempo sacas cheias de peixes para casa. para os peixes acompanharem a correnEm pouco tempo a teza do leito normal notícia se espalhou e do rio, antes que caminhões que passaeste secasse”. Mivam pela rodovia MGlhares de toneladas 050 paravam para tamde todas as espécies bém serem cheios com ficaram presas em os maiores peixes. Respanelas de água e taurantes de Passos, eram capturadas faMissa em Furnas Ribeirão Preto e até cilmente por quem Belo Horizonte enviaquisesse. Dourados de todos os tamaram caminhões baús repletos de gelo para nhos, jaús, curimbatás e mandis flutuatransporte dos peixes, que eram capturavam mortos ou estavam presos pela vedos com as mãos e de forma fácil. getação e pelas pedras de beira do rio. Causos que marcaram a história Casos pitorescos aconteceram durante a construção da barragem e da Usina. Os engenheiros visitavam a zona rural demarcando onde a água, depois de represada, ia chegar. Os moradores além de não acreditar chamavam os engenheiros de “bobos”. Um morador da zona rural teimava em permanecer na pequena casa que possuía, às margens do rio, e que já havia sido comprada e paga pela Companhia sendo alertado de que viria um mundão d’água e que ele precisava se retirar o quanto antes, ao que ele respondeu: “Se nem a enchente de 1930 trouxe água do Rio Grande até aqui, como é que a barragem de Furnas, a léguas de distância vai trazer água até minha roça? Mundão d’água? Olhem, a água que vier aqui, eu bebo ela todinha...” Sr. Joaquim Bueno era casado com D. Noêmia. Eles moravam numa grande fazenda à beira do Rio Grande, chamada Varjão. Ele não aceitou o acordo com Furnas e não quis sair da fazenda, pois não acreditava que as águas iam subir. No ano do fechamento da barragem ele plantou arroz, milho e feijão, engordou porcos e galinhas, normalmente, como costumava fazer. Quando as águas começaram a subir, eles ficaram em estado de choque. Os vizinhos se arriscavam tentando retirar, às pressas, tudo o que podiam. Os porcos, as galinhas e as plantações ficaram debaixo 59 Obras de Furnas d’água. Os vizinhos conseguiram retirar, de qualquer jeito, os móveis, roupas e mantimentos que foram colocados em um barracão em Alpinópolis. Numa noite de bebedeira, uns rapazes de Passos resolveram passar um trote em algumas pessoas importantes da cidade, dizendo que a represa de Furnas havia estourado e a água estava chegando. O boato tomou uma grande proporção: as pessoas apavoradas saíram às ruas. Monsenhor Messias mandou bater o sino e muita gente se reuniu na porta da igreja, sem saber o que fazer, até que a notícia foi desmentida. Os rapazes, apavorados com a dimensão do fato, fizeram um pacto de silêncio. Furnas influenciou crescimento De acordo com a Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade de Passos aumentou sua população entre 1950 e 1960 em 40,74%, indo de 33.811 para 47.587 habitantes. Esse aumento populacional gerou conseqüências imediatas: as pensões e hotéis viviam abarrotados de barrageiros solteiros ou que ainda não haviam trazido a família para a cidade, que não estava preparada para atender a necessidade de moradia imediata. Começaram a surgir vários loteamentos com recordes de venda, como o Jardim Centenário, Jardim Bela Vista, Jardim N. S. das Graças e outros. A propaganda do empreendimento do Sr. Leodor Marques dizia: “Intensificada a construção da gigantesca represa de Furnas, será enorme o movimento rodoviário Itaú-Furnas. O Jardim N.S. das Graças, no alto da cidade, próximo à rodovia, é o loteamento de maior futuro em Passos”. Outros lançamentos foram surgindo, como o Jardim América ao longo do Educandário e o bairro Coréia (Jardim Progresso). Em conseqüência desse desenvolvimento, a Prefeitura Municipal sancionou a Lei n.º 398 que criou o Código de Obras do Município, regularizando posturas relativas às edificações e a lei nº. 439 que criou e regulamentou o Serviço de Água e Esgoto. Festa de inauguração do edifício Abrão Jabur A onda de progresso que envolveu o Brasil nos anos 50 e 60 avançou em Passos durante a construção da barragem. Muitos empreendimentos foram iniciados nesse período como, em 1956, a inauguração do Passos Clube, promovendo um baile de gala, ao som da orquestra de Silvio Mazzuca. Homens de smoking e mulheres de longo ostentando suas jóias embelezaram a festa. Em 1957, a fundação do Rotary Club de Passos que, na década de 60, teve uma intensa participação em ações que ajudaram na criação da Faculdade de Filosofia e nas melhorias do Clube Passense de Natação. O Rotary é clube de serviços internacional que tem como máxima: “Dar de si sem pensar em si”. Alguns dos fundadores foram: Dr. Breno Soares Maia, José Kallas, José Gonçalves Mendonça, Dr. Ito Salles, José Calixto, Prof. Armando Righeto, Otto Lopes de Figueiredo e Nilton Santos de Brito. Em 1959, a construção do Grande Hotel. O primeiro de luxo no centro da cidade. A partir de 1960 já se pode observar o avanço provocado por Furnas em várias áreas como: - a instalação da Agência da Caixa Econômica Estadual; início do funcionamento de ônibus circulares; a inauguração do Cine Teatro Alvorada, construído pelo empresário José Figueiredo com inspiração na arquitetura do Palácio do Planalto em Brasília. Para freqüentar o cinema, os homens tinham que vestir paletó e as mulheres se esmeravam nas roupas de passeio. A música que foi tema do filme “Amores Clandestinos” introduzia as seções. As pessoas ficavam em silêncio admirando o jogo de luzes coloridas que refletiam, nas paredes laterais, os símbolos do Palácio Alvorada. Eram exibidos os noticiários da Atlântida, os “trailers” e filmes clássicos do cinema como “Os dez mandamentos”, “Ben Hur”, “Imitação da vida”. 1966 - Foi inaugurado o Hospital São José por iniciativa de Dr. José Francisco de Oliveira Filho que Em 1965, foi inaugurado o formou com 18 médicos um grupo empresarial que bancou a construção do hospital e seus equipamentos. primeiro “arranha-céu” da cida1969- Fundação do Lions Clube de Passos por iniciativa de Sebastião Geraldo Getúlio de Vasconcelos – de, com nove pavimentos, na o Noivinho. É um clube de serviço que atende instituições de cunho social da cidade como, por exemplo, o Gapop, Creches Camp e Naim Simão. O praça da Matriz. Construído peLions participou da construção do prédio da Apae de Passos e da creche los irmãos Jorge, Neif, Daude e Múcio de Alencar Viana, no Bairro Aclimação. Um fato inédito aconteceu José Jabur o projeto foi elaborano Lions Clube de Passos: Sebastião Geraldo Getúlio de Vasconcelos e do por Daude Jabur, arquiteto seu filho Sebastião Pimentel de Vasconcelos foram os únicos pai e filho que, com suas idéias avançadas, que ocuparam o cargo de governadores de distrito lionino. introduziu a moderna arquiteMarço de 1969– Pastura na cidade. É de sua autoria sos participou do programa Cidade contra cia residência de linhas bauhaudade do Programa Silvio Santos, da TV Tupi, enfrentando a sianas, na rua Formosa, pertencidade de Garça. Apesar da união que suscitou a cidade de cente ao Dr. Jorge Jabur. Em Passos foi derrotada. O que tínhamos de melhor era um boi março do mesmo ano, o sinal de raça nelore que perdeu para o boi de Garça gerando de TV chega a Passos. Uma iniuma brincadeira na cidade. Quando alguém era enganaciativa dos irmãos Gibron e Wido, vinha a crítica: “Ô boi de garça!” Ferreira Dias, o locutor da Rádio Passos ficou nervoso, quando teve que responder o llian Farah, Hitler Teixeira e Faque o macaco mais gostava. O povo não perdoou e apelirid Esper Kallas que construíPassenses no Programa Cidade X Cidade dou-o de “Ferreira banana”. ram um canal repetidor no alto dos Coimbras. 60 Os “candangos” causam insegurança A cidade, acostumada com a vida pacata, foi invadida por gente de toda parte. Cresceu e progrediu, porém aumentaram os casos de violência. Os jornais “O Sudoeste” e “A Gazeta” publicavam diariamente, desde 1960, o espanto quanto ao fenômeno do aumento da insegurança: “Onda de assaltos, furtos e arrombamentos está pondo em sobressalto a população e desafiando a nossa polícia. Residências, grupos escolares e estabelecimentos comerciais são assaltados. Que o prefeito saia de seu comodismo e convoque homens de boa vontade para a criação de uma eficiente guarda noturna (...) ainda agora que as obras de Furnas despejam na cidade centenas de homens de todas as raízes. Passos já tem ares de capital. À medida que o progresso avança em nossa cidade também aqui vem apontando indivíduos marginais”. Durante o ano de 1962, atendendo a reivindicação da população por mais segurança, várias ações foram criadas como na delegacia de polícia, uma guarda civil, polícia técnica, inOs trabalhadores de Furnas, também conhecidos como “candangos” vestigadores, fiscais de trânsito, pronto-socorro e medicina legiões do Estado se encontraram entre as gal, três delegados e três escrivães. grandes hidrelétricas de Furnas e PeixoEm 1963, o Governo instalou na citos. O fato gerou grandes polêmicas e dade o 12º Batalhão de Polícia Militar de discussões, umas favoráveis, outras desMinas Gerais, justificando que Passos tifavoráveis. A Câmara Municipal posicionha razões de ordem econômica, social e nou-se contra ao que chamou de “preestratégica e era ponto chave de três resente de grego”. O avanço do comércio A educação progride O centro de Passos, especialmente as ruas Dr. João Bráulio, Expedicionários e Antônio Carlos transformaram-se no centro do comércio passense. Vendia-se, principalmente os produtos em moda, na época como relógios “Seiko” e “Orient”, calças “Lee”, camisas “volta ao mundo”, blusas “Ban lon”, tênis “Conga”, alpargatas “Roda”, etc. Famílias de libaneses, italianos e outras nacionalidades tornaram-se especialistas no comércio central da cidade: Bacil, Esper Kallas, Jabur, Simão, Krakauer, Mohalem, Farjalla, Mattar, Calixto, Alux, Guerra, Ajeje, Abdulmassyh, Salun, Aoun. A estação rodoviária, no centro da cidade, tornou-se pequena para o intenso tráfego. De hora em hora saíam ônibus para Furnas carregando os barrageiros. Beirando o centro, a rua três de Maio passou a ser exclusiva de bares, boates e prostituição. Havia shows semanais de música e de striptease nos cabarés. A “Terceira”, como ficou conhecida viveu tempos áureos. Ficaram famosos o Restaurante do Bidú e do Regozino, onde eram encontrados os melhores escaldados da cidade: um caldo de frango com farinha de milho e muito tempero. Após os bailes do Passos Clube, a moçada dirigia-se para a Terceira e regalava-se. Só os rapazes, porque nesse tempo, “moça direita” nem dobrava a esquina da referida rua. 61 O avanço considerável da economia forçou a renovação das escolas com melhorias nas instalações, funcionamento do curso clássico no Colégio Estadual, acabamento dos prédios dos grupos escolares Abraão Lincoln e Starling Soares e a criação da primeira faculdade. Os colégios mais tradicionais de Passos eram o Colégio Imaculada Conceição, o Colégio Estadual (que passou a chamar-se Julia Kubitscheck, nome da mãe do presidente da República), e o Colégio de Passos que era de propriedade de Dr. Breno Soares Maia. Nos desfiles cívicos havia muita competição entre as escolas. Os alunos desfilavam, cada um querendo fazer o carro alegório mais bonito e apresentar-se de maneira impecável. A maior disputa era entre o Colégio de Passos e o Estadual, que tinham fanfarras fortíssimas com gente competente nas suas direções, como professores Armando Righeto, Nilton Santos de Brito e Toniquinho, e alunos como Samir, Celito, Magela, Godô, Mark Piassi, Jair Fernandes, Beto Krauss, Zau, Zé do Diu. O Colégio de Passos tinha uma tradição: um carneirinho que era a mascote e vinha, sempre, na linha de frente. As professoras Edna Pimentel de Vasconcelos, Maria Aparecida Andrade Rosa, Joana Batista da Silveira Moraes e Zeli Bueno lideraram uma comissão para construir uma sede para o Grupo Escolar São Francisco, que havia sido despejado da casa onde funcionava devido ao atraso de aluguéis pelo Estado. Foi assim que começou a surgir a Escola Starling Soares: uma luta de mulheres.