Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(William Okubo, CRB-8/6331, SP, Brasil)
INSTITUTO ARTE NA ESCOLA
Museu, educação e o lúdico / Instituto Arte na Escola ; autoria de Silvia Sell
Duarte Pillotto ; coordenação de Mirian Celeste Martins e Gisa Picosque. –
São Paulo : Instituto Arte na Escola, 2006.
(DVDteca Arte na Escola – Material educativo para professor-propositor ; 123)
Foco: FE-A-4/2006 Formação: Processos de Ensinar e Aprender
Contém: 1 DVD ; Glossário ; Bibliografia
ISBN 85-98009-93-8
1. Artes - Estudo e ensino 2. Museus 3. Educação do olhar I. Pillotto,
Silvia Sell Duarte II. Martins, Mirian Celeste III. Picosque, Gisa IV. Título
V. Série
CDD-700.7
Créditos
MATERIAIS EDUCATIVOS DVDTECA ARTE NA ESCOLA
Organização: Instituto Arte na Escola
Coordenação: Mirian Celeste Martins
Gisa Picosque
Projeto gráfico e direção de arte: Oliva Teles Comunicação
MAPA RIZOMÁTICO
Copyright: Instituto Arte na Escola
Concepção: Mirian Celeste Martins
Gisa Picosque
Concepção gráfica: Bia Fioretti
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
Copyright: Instituto Arte na Escola
Autor deste material: Silvia Sell Duarte Pillotto
Revisão de textos: Soletra Assessoria em Língua Portuguesa
Diagramação e arte final: Jorge Monge
Autorização de imagens: Ludmilla Picosque Baltazar
Fotolito, impressão e acabamento: Indusplan Express
Tiragem: 200 exemplares
DVD
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
Ficha técnica
Gênero: Documentário com depoimentos da arte-educadora
Maria Angela Serri Francoio, responsável pelo projeto.
Palavras-chave: Educação do olhar; concepção de ensino de
arte; processo lúdico e participativo; jogos; atitude lúdica; ativar sentidos; museus; experiência estética e estésica; ação
educativa em espaços culturais.
Foco: Formação: Processos de Ensinar e Aprender.
Tema: A experiência no espaço lúdico interativo, especialmente criado no Museu de Arte Contemporânea - MAC/USP.
Artistas abordados: Alfredo Volpi, Picasso, Guignard, Anita
Malfatti, entre outros.
Indicação: Formação de educadores e programas de educação continuada.
Direção: Andréa Marques Barbosa.
Realização/Produção: Universidade de São Paulo e Museu
de Arte Contemporânea, São Paulo.
Ano de produção: 1997.
Duração: 12’.
Sinopse
O documentário apresenta o projeto Museu, educação e o
lúdico, desenvolvido por Maria Angela Serri Francoio, da Divisão de Educação do Museu de Arte Contemporânea - MAC/
USP em São Paulo. A proposta de uma metodologia lúdica
destinada ao público infantil enfatiza ações educativas como a
criação e construção de jogos que facilitam o processo de ensino e aprendizagem no museu. Considerando o aprendizado
uma grande aventura para a criança, a arte-educadora articula
a abordagem lúdica e a metodologia triangular fundamentada
por Ana Mae Barbosa.
Trama inventiva
Vida tão cheia de encontros! Vida de educador. Encontros com
a arte, encontros com aprendizes de arte. Às vezes, o encontro é na sala de aula; outras, no mundo do lado de fora. O que
representa para o educador o seu trabalho? Paixão? Diversão? Meio ou fim? Para alguns, domina sua vida; para outros,
confunde-se com ela. Seja deste ou daquele modo, todo educador tem uma curiosa sensibilidade para o outro. Outro-obra,
outro-gente. Assim, de forma muito pessoal, o educador vai
renovando saberes, experiências, fazeres educativos em arte.
Na cartografia, mirar este documentário no território Formação: Processos de Ensinar e Aprender oferece ao olhar
paisagens educativas pintadas com cores vivas por aqueles
que, atuando como professor, mediador ou artista-educador,
educam com arte para a arte.
O passeio da câmera
As crianças chegam ao Museu de Arte Contemporânea - MAC/
USP em São Paulo como se chegassem a uma festa e são recebidas pela arte-educadora Maria Angela Serri Francoio. A
câmera se aproxima, mostrando a profissional em ação e também as produções, expressões e ações das crianças. No espaço lúdico interativo, observamos os jogos especialmente criados e articulados às propostas das diversas exposições, fundamentados pela arte-educadora.
Alocado em Formação: Processos de Ensinar e Aprender,
este documentário evidencia a importância do caráter lúdico e
participativo no ensino de arte. Entretanto, outros territórios
podem ser visualizados no mapa potencial.
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material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
Sobre o projeto Museu,
educação e o lúdico
(São Paulo, desde 1995)
A Divisão de Educação do MAC/USP atende diariamente crianças
de escolas da rede pública e particular de ensino. Nessa vivência diária, nesse atendimento, nós sentimos a necessidade de estar criando atividades lúdicas, jogos, que facilitassem o processo de ensino e
aprendizagem da arte no museu, daí o nascimento deste projeto.
Maria Angela Serri Francoio
Em 1992, surge a idéia de utilizar jogos junto a uma exposição
com obras de Picasso, pois Ana Mae Barbosa1 , a então diretora do Museu de Arte Contemporânea - MAC/USP, propõe uma
inter-relação entre curadoria, pesquisa e arte-educação. Porém,
o projeto Museu, educação e o lúdico se consolida apenas em
1995, tornando-se inclusive objeto da dissertação de mestrado
de Maria Angela Serri Francoio2 .
Junto à exposição O toque revelador: Alfredo Volpi, preparada
cuidadosamente para público especial e organizada por Amanda
Tojal3 , são criados: o jogo da memória – que focaliza as diferenças sutis entre os casarios de Volpi; e o jogo de dominó – com
sete obras e o desafio de juntar pontas iguais de cada peça, com
duas variações: dominó de dois, o modo mais conhecido, e o
dominó comprado, no qual o jogador vai tirando do monte até
encontrar a combinação correta. Na escolha das sete peças, a
curadoria educativa enfatiza a passagem, que marcou a trajetória de Volpi, das fachadas à síntese das formas das bandeiras.
A exposição Retratos e auto-retratos: jogos, brinquedos e brincadeiras, presente no documentário, atende, também, ao público com necessidades especiais (é possível ver as pranchas com
relevo expostas abaixo das obras). Para o espaço lúdico, é criado um desenho museográfico específico que inclui mesas para
os jogos, além de espelho, moldura vazada, baús e mancebos
com acessórios para as crianças comporem seus personagens.
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Entre os jogos, merecem destaque o quebra-cabeça tridimensional com vinte sete peças, que também pode ser montado com apenas nove peças para crianças menores; o jogo do
mico, no qual os pares das peças apresentam reproduções de
auto-retratos e imagens fotográficas dos artistas. Outro jogo
bastante interessante é o retrato-a-retrato (releitura do jogo
comercializado cara-a-cara) que desafia a observação e a
verbalização das características das obras.
Na medida em que as crianças entram em contato com a arte
através do jogo, desenvolvem um olhar operativo, pois ele age
como elemento facilitador da apreciação e reelaboração na
construção poética. No documentário, Francoio afirma que,
após a leitura, ao vir para esse espaço jogar, elas, muitas vezes, trazem perguntas que mostram uma absorção do discurso feito por nós.
As características das obras são verbalizadas, muitas com aspectos
da linguagem plástica. (...) Eles dizem: “o jogo é interessante, é legal, porque faz pensar.”
O desejo da arte-educadora é a conquista e permanência de
um espaço lúdico nos museus, à disposição do público, oferecendo possibilidades de jogos e brincadeiras, coerentes com a
proposta das exposições. O seu desejo é de também criar uma
jogoteca, aberta às crianças e seus pais, para o contato mediado com o mundo imagético da arte, do jogo e da fantasia.
Outros projetos, como a Ciranda das formas: bichos – jogos,
brinquedos e brincadeiras4 , evidenciam a importância da ação
educativa em museus e do envolvimento de pessoas tão apaixonadas como Maria Angela Serri Francoio.
Os olhos da arte
Os museus são espaços privilegiados do processo educativo, pois
abrigam elementos da cultura que serão suportes didáticos aos conteúdos trabalhados pelo professor em sala de aula. No caso específico do museu de arte, a obra de arte original é imprescindível para
o ensino da arte.
Maria Angela Serri Francoio5
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O Conselho Internacional de Museus/Icom juntamente com a
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e
material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
Fachada da exposição - Ciranda de formas: bichos – jogos, brinquedos e brincadeiras
Cultura/Unesco desenvolvem ações pela consciência do papel educativo nos museus, com o objetivo de possibilitar o direito de todos os cidadãos à educação continuada, em todas as
dimensões culturais, inclusive nos espaços do museu, compreendendo-o como objeto de construção de conhecimento.
Em 1852, é criada a função de educador de museu no Victoria and
Albert Museum, na Inglaterra. A partir disso, essa função vem se
afirmando. No Brasil, seu surgimento ocorre por volta de 1950, no
Rio de Janeiro, e na então recente Bienal Internacional de São
Paulo. Entretanto, somente duas décadas depois, no final dos anos
70 e início dos 80, tal função se consolida, inclusive de acordo com
os princípios da interação na arte contemporânea.
Os fundamentos conceituais que norteiam esse trabalho são relacionados à pedagogia histórico-crítica, a qual concebe que a escola e a sociedade mantêm relações de reciprocidade. O método
apropriado por essa pedagogia parte da experiência do aluno
agregada ao saber socialmente acumulado ao longo da história.
O foco principal do trabalho educativo nos museus é o de mediar
o encontro da criança com a arte, de forma lúdica e significativa,
levando em conta os aspectos sócio-culturais e a história de vida
de cada uma delas, atrelada à história da humanidade.
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A partir de estudos e pesquisas realizadas no exterior e no Brasil,
alguns museus se abrem ao público infantil, a exemplo do projeto Museu, educação e o lúdico, que agrega a possibilidade da
criação de um espaço lúdico em suas ações.
O educador de museus, portanto, tem uma responsabilidade imensa em suas mãos e não pode esquecer que tem o bem cultural como
instrumento de trabalho e alimento para suas práticas educativas.
Santos6 defende a idéia de que a educação deve estar
[...] comprometida com o homem e a sociedade da qual faz parte, a
partir de uma escola e um museu que não sejam sacralizadores de
valores herdados, sobretudo do passado e de valores capazes de manter um certo sistema de direitos e deveres, mas uma escola e um museu que sejam um fórum, um espaço de encontro, um espaço de debate – um espaço em que as coisas se produzem e não apenas o
produzido é comunicado.
Nessa perspectiva, os museus e centros culturais devem oferecer espaços especiais para o atendimento de públicos variados, sejam os portadores de necessidades especiais, grupos
de terceira idade, ONGs ou as diversas faixas etárias atendidas pela escola, envolvendo, inclusive, a Educação de Jovens
e Adultos/EJA. Os arte-educadores esperam que haja visitas
preparadas por mediadores, espaços lúdicos, ateliê das várias
linguagens artísticas, banco de imagens e de textos, espaços e
materiais específicos para professores. Eles concordam com
Ott 7 : “ativar o conhecimento e entusiasmo que a arte pode
oferecer aos alunos de hoje é uma tarefa que exige um enorme
esforço dos educadores”.
Os jogos criados por Maria Angela Serri Francoio no espaço do
museu, construídos a partir do universo de cada exposição,
levam em conta as obras presentes e as referências pessoais
e culturais de cada grupo que a visita. Eles podem ser recriados na escola, como um modo especial de encontro com a arte.
Encontros nos quais as experiências estética e estésica possam enriquecer a vida e as relações humanas.
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material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
O passeio dos olhos do professor
Como formador de educadores, ou como professor ciente da
necessidade de continuar sua formação, sugerimos que você
assista ao documentário e inicie um diário de bordo com suas
primeiras anotações, escritas, desenhadas ou registradas com
qualquer outra linguagem com a qual você se identifica. Uma
pauta do olhar poderá ajudá-lo:
Quais os aspectos mais significativos deste documentário
para você?
Você realizou alguma visita em museus com atendimento da
ação educativa? O documentário amplia seu conhecimento
a respeito desse trabalho?
O que é possível perceber como desafio em cada um dos jogos
e ações desenvolvidas?
O que você imagina que os alunos-professores gostariam de
ver no documentário?
Qual o foco que você daria ao trabalho, em suas reuniões
com os professores ou em sala de aula com professores em
formação, a partir deste documentário? O que poderia ser
priorizado?
A partir dessas reflexões, como você organizaria um plano de
ação utilizando o documentário?
Percursos com desafios estéticos
Os percursos sugeridos não seguem nenhuma ordem préestabelecida e se apresentam como possibilidade de caminhos
a serem trilhados e reinventados por você como formador de
educadores.
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criação de materiais de apoio: jogos,
sistematização do ensino-aprendizagem
percursos educativos
educação do olhar, roda de conversa, concepção de
ensino de arte, ampliação de vocabulário, processo lúdico
e participativo, proposta triangular
interatividade obra/público,
desenho museográfico
público crianças, produtor,
leitor, aprender com os mestres
aprendiz de arte
pintura, desenho, gravura
ambiência da aula
o ato de expor
meios
tradicionais
ensino de arte
organização,
visita ao museu
pesquisa sobre o ensinar arte
curadoria educativa
professor-propositor
escolha, seleção, fio condutor,
ativação cultural de obras e artistas
mediador, arte-educador,
coordenador de ação educativa
curadoriadeeducativa
componentes
ação cultural
agentes
acervo, coleção, ação educativa em espaços culturais
espaços sociais do saber
museus e centros culturais, Museu de Arte Contemporânea/USP
artes
visuais
meios
novos
Formação:
Processos de
Ensinar e
Aprender
Mediação
Cultural
fotografia
relações entre elementos
da visualidade
Linguagens
Artísticas
elementos da
visualidade
formação de público
relação público e obra, leitura comparativa, metodologias de
mediação, provocar o diálogo, experiência estética e estésica
forma expressiva, cor, linha, espaço
Forma - Conteúdo
Patrimônio
Cultural
Saberes
Estéticos e
Culturais
educação
patrimonial
história da arte
acesso, exercício de cidadania
e responsabilidade social
elementos da visualidade através do tempo,
retratos através do tempo, arte moderna
política cultural
programas especiais, leis de benefício à cultura
sistema simbólico
qual FOCO?
Processo de
Criação
qual CONTEÚDO?
o que PESQUISAR?
composição,
relação figura/fundo
Zarpando
ação criadora
ampliação de vocabulário, códigos
problematização, percurso de experimentação,
arte como experiência de vida
potências criadoras
atitude lúdica, observação sensível, imaginação
criadora, ativar sentidos, fruição, leitura de mundo
ambiência de trabalho
museu, oficina, coleções, referências de artistas, espaço para
vivências sensoriais, pólo de aprendizagem
O passeio dos olhos dos alunos
Algumas possibilidades:
Quais brincadeiras e jogos fizeram parte do contexto de seus
alunos-professores? Quais experiências e conhecimentos
eram impulsionados por meio deles? Essas questões podem
preparar para a exibição do documentário. Eles gostariam
de criar projetos e jogos? Para quem?
Uma visita a um museu ou espaço cultural poderia iniciar um
projeto. O primeiro passo seria levantar uma pauta para essa
visita, preparando-os para perceberem detalhes, tanto das
legendas das obras, quanto das demais ações mediadoras
oferecidas. A conversa sobre a visita poderia ser ampliada
com o documentário. De que modo eles organizariam uma
visita para crianças? Projetos poderiam ser, então, iniciados.
Diz Eisner8 : “Existem quatro coisas principais que as pessoas
fazem com a arte. Elas vêem arte. Elas entendem o lugar da
arte na cultura, através dos tempos. Elas fazem julgamentos
sobre suas qualidades. Elas fazem arte”. A problematização
deste pensamento e suas ressonâncias na ação pedagógica
podem preparar para assistir ao documentário.
A percepção deste primeiro momento do trabalho, quando se
busca encontrar caminhos para prosseguir num projeto, é um
ponto importante. Idéias são aqui sugeridas para a continuidade, mas a observação e escuta dos que dela participam podem
gerar invenções e transformações.
Ampliando o olhar
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As teorias que fundamentam o trabalho no ensino de arte são
parte integrante da formação do educador. No documentário,
Maria Angela Serri Francoio fala da abordagem triangular
proposta por Ana Mae Barbosa. Se o trabalho com o
documentário for feito em programas de formação de educadores, você pode propor a discussão dessa abordagem. Para
isso, traga livros, reportagens de revistas ou materiais didáticos produzidos por museus para a sala de aula.
material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
O conceito de leitura, num viés contemporâneo, parte da idéia
de interação, apropriação, ressignificação. Como os alunosprofessores lidam com esse conceito? É muito comum vermos professores que imaginam que cada obra tem uma mensagem específica a ser revelada. Entretanto, cada obra de
arte permite múltiplas leituras. Como as manifestações expressivas (corporal, plástica, sonora...) podem ampliar essa
diversidade? Como incentivar a comunicação oral das crianças no momento da leitura? A invenção de títulos pode ser
uma chave de acesso para a verbalização das possíveis interpretações? Confrontar os títulos inventados com os títulos da obras, criar histórias a partir delas, representá-las,
construir histórias faladas, desenhadas, dramatizadas, enfim,
essas são algumas das idéias a serem discutidas e recriadas.
Quais jogos poderiam ser inventados com fragmentos de
obras? Um exemplo: os pedacinhos poderiam estar numa
caixa interessante e serem sorteados pelos alunos. Quais lembranças e relações contextuais – filmes, objetos, pessoas, situações, etc., poderiam ser feitas? A criação de um novo contexto para aquele fragmento seria um desafio interessante.
Ao término da produção, a montagem de um mural coletivo
com as produções das crianças e as obras de arte das quais
foram retirados os fragmentos pode gerar boas leituras.
No documentário, vemos um jogo familiar: o jogo do mico.
Francoio, como vimos no documentário, cria um fio condutor para o jogo (retratos e fotos). Quais poderiam ser as
cartas de um novo jogo do mico, tendo a arte como mote?
Que ações poderiam ser planejadas para gerar apreciações
durante uma visita com as crianças no espaço do museu, ou
mesmo em praças e outros patrimônios culturais? No
documentário, vemos que algumas crianças escolhem uma obra
para falar dela e os outros tentam, depois, descobrir qual é
essa obra. Outras idéias podem ser criadas, como: detalhes
recortados de obras são distribuídos e cada criança tentará
achá-la, convidando, depois, os outros para conhecê-la. Outra
possibilidade é que cada criança escolha uma obra e, guardan-
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do-a na memória, volte ao círculo inicial para falar sobre ela. O
grupo tentará descobri-la, concordando, discordando e/ou
complementando as características definidas pelo colega.
No documentário, vemos que os quebra-cabeças têm cortes
definidos por uma fundamentação que se pauta na própria obra,
assim como cores de fundo que mantêm relações com ela. A
escolha das obras e dos cortes não é aleatória. Os alunos-professores podem criar quebra-cabeças justificando as escolhas
feitas. Há também quebra-cabeças que são oferecidos em
alguns sites, como o do artista Iberê Camargo, disponível em:
<http://iberecamargo.uol.com.br> (acesso em 29 jan. 2006).
Jogos de memória e dominó também podem ser inventados,
com reproduções de obras de arte ou mesmo desenhos das
crianças, permitindo perceber poéticas, linguagens, procedimentos, temáticas, tendências diversas. O importante é justificar as escolhas com fundamentação conceitual, percebendo a curadoria educativa que está sendo proposta.
Conhecendo pela pesquisa
Como os alunos-professores podem provocar a curiosidade
das crianças sobre coleção, acervo, reserva técnica, obras e
artistas? O museu como patrimônio cultural e a necessidade
da educação patrimonial podem levar a uma boa pesquisa.
Johan Huizinga, pensador holandês do início do século 20,
encontra vestígios da ludicidade na origem dos tempos,
supondo a existência do Homo ludens. Para ele, como função da vida, o jogo sempre apresenta as mesmas características: “ordem, tensão, movimento, mudança, solenidade,
ritmo, entusiasmo” 9 . Como aprofundar o conceito da
ludicidade na ação didática?
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Para uma maior reflexão sobre a educação patrimonial e o
espaço do museu como patrimônio cultural e espaço de pesquisa, estudo e produção de conhecimento, alguns textos
indicados na bibliografia podem ser sugeridos aos alunosprofessores para seus estudos.
material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
A questão da mediação, entendida como um “estar entre”,
como é citada no glossário deste material, pode gerar uma
investigação sobre a monitoria ou mediação nos serviços
educativos de museus e centros culturais. O que fundamenta
esse trabalho? Como vêem a questão da mediação e as visitas guiadas? O que podem investigar sobre “guias digitais”?
O conceito de curadoria merece também investigação e
pesquisa. Se for possível, é interessante comparar duas exposições que têm retratos como tema e são exemplos de
duas curadorias muito diversas, registradas nos documentários: Auto-retrato e Retratos e auto-retratos na coleção Gilberto Chateaubriand.
Vale a pena investigar e relacionar outros documentários da
DVDteca Arte na Escola que contribuam nos processos de
aprendizagem. A busca pode ser por meio das palavraschave ou dos territórios da Mediação Cultural, do Patrimônio
Cultural, além do território de Formação: Processos de
Ensinar e Aprender, no qual este documentário está alocado.
A partir de investigações e leituras, seus alunos-professores podem construir um texto crítico e reflexivo com suas
considerações acerca do espaço do museu e da importância do trabalho educativo.
Desvelando a poética pessoal
A poética pessoal de um professor se revela pelos projetos e jogos
que inventa. A sua socialização e análise podem aprofundar as
questões do ensino de arte. Será importante brincar com os jogos para perceber a sua dinâmica e o que se aprende com eles.
Amarrações de sentidos: portfólio
As produções, as pesquisas e estudos, os registros das reflexões realizadas podem compor um portfólio iniciado por uma
apresentação e um sumário de suas partes. Os jogos criados
devem ser fundamentados.
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É interessante que, ao longo de todo esse processo, os alunosprofessores possam socializar suas experiências com o grande
grupo. Dessa forma, todos podem ampliar os seus saberes sobre
as questões tratadas.
Valorizando a processualidade
A avaliação de todo o processo vivido com a leitura dos portfólios
pode ser ampliada com alguns questionamentos que você dirigirá ao grupo de alunos-professores e, depois, para si mesmo:
o que estudaram a partir da experiência vivida? O que desejariam repetir e/ou ampliar sobre as questões tratadas na proposição educativa? O que fariam de modo diferente? Por quê?
Houve transformações relativas aos conceitos de educação em
museus, o lúdico e o jogo no ensino de arte?
A partir desta experiência, você pode buscar outros caminhos
possíveis, afinal essa é a função básica de todo professorpropositor: trilhar novos caminhos, ousar, desistir jamais...
Glossário
Educação patrimonial – “Formas de mediação que propiciam aos diversos
públicos a possibilidade de interpretar objetos de coleções de museus, do
ambiente natural ou edificado, atribuindo-lhes os mais diversos sentidos,
estimulando-os a exercer a cidadania e a responsabilidade social de compartilhar, preservar e valorizar patrimônios com excelência e igualdade”.
Fonte: GRINSPUM, Denise. Educação para o patrimônio: museu de arte e
escola - responsabilidade compartilhada na formação de públicos. Tese
(Doutorado). Faculdade de Educação - USP, São Paulo, 2000, p. 27.
Experiência estética e estesia – ao contrário da anestesia – a impossibilidade ou a incapacidade de sentir, a estesia é, assim como a palavra
estética, originada do grego aisthesis, que significa basicamente a capacidade sensível do ser humano para perceber e organizar os estímulos que
lhe alcançam o corpo. Para Dewey, a experiência é estética quando todo
o sujeito se envolve, com sua cognição, sua emoção e a sua vida. Fontes:
DUARTE JR., João Francisco. O sentido dos sentidos: a educação (do)
sensível. Curitiba: Criar Edições, 2001, p. 136-137. DEWEY, John. Tendo
uma experiência. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Os pensadores).
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Mediação – “Ultrapassando a idéia de mediação como ponte, compreendêlo como um estar entre implica em uma ação fundamentada e que se aperfei-
material educativo para o professor-propositor
MUSEU, EDUCAÇÃO E O LÚDICO
çoa na consciente percepção da atuação do mediador que está entre muitos:
as obras e as conexões com as outras obras apresentadas, o museu ou a instituição cultural, o artista, o curador, o museógrafo, o desenho museográfico
da exposição e os textos de parede que acolhem ou afastam, a mídia e o
mercado de arte que valorizam certas obras e descartam outras, o historiador
e o crítico que a interpretam e a contextualizam, os materiais educativos e os
mediadores (monitores ou professores) que privilegiam obras em suas
curadorias educativas, a qualidade das reproduções fotográficas que mostramos (xerox, transparências, slides ou apresentações em power point) com
qualidade, dimensões e informações diversas, o patrimônio cultural de nossa
comunidade, a expectativa da escola e dos demais professores, além de todos os que estão conosco como fruidores, assim como nós mediadores, também repletos de outros dentro de nós, como vozes internas que fazem parte
de nosso repertório pessoal e cultural. O estar entre da mediação cultural não
pode desconhecer cada um desses interlocutores e o seu desafio maior: provocar uma experiência estética e estésica”. Fonte: GRUPO de Pesquisa Mediação Arte/Cultura/Público. Revista Mediação: Provocações Estéticas.
São Paulo, v.1, d.1, out. 2005, p. 55.
Proposta triangular – “Deriva de uma dupla triangulação. A primeira é
de natureza epistemológica, ao designar os componentes do ensino/aprendizagem por três ações mentalmente e sensorialmente básicas, quais
sejam: criação (fazer artístico), leitura da obra de arte e contextualização.
A segunda triangulação está na gênese da própria sistematização, originada em uma tríplice influência, na deglutição de três outras abordagens
epistemológicas: as Escuelas al aire libre, mexicanas, o Critical studies,
inglês, e o Movimento de Apreciação Estética aliado ao DBAE (Discipline
Based Art Education) americano”. Fonte: BARBOSA, Ana Mae. Tópicos
utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998, p. 33-34.
Bibliografia
BARBOSA, Ana Mae (org.). Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997.
FRANCOIO, Maria Angela Serri. Museu de arte e ação educativa: proposta de uma metodologia lúdica. Dissertação (Mestrado). Escola de
Comunicações e Artes - USP, São Paulo, 2000.
FRANZ, Teresinha S. Educação para a compreensão da arte: Museu Victor
Meirelles. Florianópolis: Insular, 2001.
FUSARI, Maria F. de R; FERRAZ, Maria Heloísa C. de T. Arte na educação
escolar. São Paulo: Cortez, 1993.
GRINSPUM, Denise. Educação para o patrimônio: museu de arte e escola –
responsabilidade compartilhada na formação de públicos. Tese (Doutorado). Faculdade de Educação - USP, São Paulo, 2000.
15
LEITE, Maria Isabel; OSTETTO, Luciana E. (org.). Museu, educação e
cultura. Campinas: Papirus, 2005.
PEIXOTO, Maria Inês Hamann. Arte e grande público: a distância a ser
extinta. Campinas: Autores Associados, 2003.
SOARES, André Luis Ramos (org.). Educação patrimonial: relatos e experiências. Santa Maria: Ed. UFSM, 2003.
Bibliografia de arte para crianças
BUCHMANN, Luciano. Entendendo museus: preparando a visita de crianças a museus. Curitiba: Due Design, 2000.
GUTMAN, Anne; HALLENSLEBEN, Georg. Gaspar e Lisa no museu. São
Paulo: Cosac & Naify, 2003.
SANT’ANNA, Renata et al. De dois em dois: um passeio pelas bienais.
São Paulo: Martins Fontes, 1996.
Seleção de endereços sobre arte na rede internet
Os sites abaixo foram acessados em 05 nov. 2005.
ARTE E MUSEU. Disponível em: <www.artenaescola.org.br>.
MUSEU EDUCAÇÃO E O LÚDICO. Disponível em: <www.mac.usp.br/projetos/mel/>.
PÚBLICO COM NECESSIDADES ESPECIAIS. Disponível em: <www.
educabrasil.com.br/eb/exe/texto.asp?id=327>.
Notas
1
BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino de arte: anos oitenta e novos
tempos. São Paulo: Perspectiva, 1994.
2
O desenvolvimento do projeto entre os anos de 1995 e 2000 pode ser
consultado na dissertação de mestrado de Maria Angela Serri FRANCOIO.
3
Na DVDteca Arte na Escola, há um documentário sobre o trabalho de
Amanda Tojal, O toque revelador.
5
Maria Angela Serri FRANCOIO, Museu de arte e ação educativa: proposta de uma metodologia lúdica, p. 35-36.
6
SANTOS, Magaly de Oliveira Cabral. Lições das coisas (ou canteiro de obras)
– através de uma metodologia baseada na educação patrimonial. Dissertação
(Mestrado). Departamento de Educação - PUC, Rio de Janeiro, 1997, p. 24.
7
OTT, Robert William. Ensinando crítica nos museus. In: Ana Mae BARBOSA, Arte-Educação: leitura no subsolo, p. 112.
8
EISNER, Elliot. Estrutura e mágica no ensino da arte. In: Ana Mae BARBOSA, Arte-Educação: leitura no subsolo, p. 82.
16
9
HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São
Paulo: Perspectiva, 1990, p. 21.
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