ARTIGO DE REVISÃO Comunicação entre profissionais de saúde e pessoas em tratamento de câncer Márcia Aparecida Padovan Otani e Nelson Filice de Barros rEsUMO Introdução. O câncer causa importantes mudanças na vida das pessoas e essas precisam de mais cuidados e comunicação adequada para lidar com as dificuldades impostas pela doença. Objetivo. Esta revisão da literatura tem como objetivo identificar e analisar os estudos que avaliam a eficácia das estratégias utilizadas para melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes com câncer. Método. Foi realizada a busca nas bases PubMed e Lilacs (Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Resultados. Foram analisados dezoito artigos que preencheram os critérios estabelecidos para essa revisão. Dentre os nove estudos que avaliam treinamentos para profissionais de saúde, a maioria (88%) constata que a intervenção é eficaz. Somente dois estudos não constatam resultados positivos em relação à diminuição da ansiedade dos pacientes e ao aumento da satisfação das enfermeiras. As intervenções com pacientes são avaliadas em seis estudos, sendo a maioria (66%) efetiva e as demais consideradas positivas na medida em que contribuíram para melhorar a comunicação dos pacientes em algum aspecto. Conclusão. Esta revisão revela a importância da comunicação como um aspecto essencial no cuidado às pessoas com câncer e os autores destacam a necessidade de implementar estratégias que favoreçam melhoria da qualidade da comunicação. Além disso, recomendam a aplicação prática das evidências disponíveis e o desenvolvimento de pesquisas que possam trazer novos dados e perspectivas no processo de comunicação com pacientes com câncer. 258 • Brasília Med 2012;49(4):258-266 Márcia Aparecida Padovan Otani – enfermeira, mestre, professora da Faculdade de Medicina de Marília (Famema), doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, São Paulo, Brasil Nelson Filice de Barros – cientista social, doutor, professor do Departamento de Saúde Coletiva, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, São Paulo, Brasil Correspondência. Márcia Aparecida Padovan Otani. Rua Luiz Padilha de Oliveira n.º 285, Bairro Flândria, CEP 17.580-000, Pompeia, São Paulo. internet: [email protected] Recebido em 4-11-2012. Aceito em 10-12-2012. Os autores declaram não haver potencial conflito de interesses. Palavras-chave. Câncer; comunicação; relação profissional-paciente; oncologia. ABSTRACT Communication between healthcare professionals and individuals undergoing cancer treatment Introduction. Cancer brings important changes to the lives of patients; therefore, they need more care and attention. In addition, there should be clear communication between healthcare professionals and patients for them to deal with the difficulties imposed by the disease. Objective. This literature review aims at identifying and analyzing the studies that evaluate the effectiveness of the strategies used to improve the communication between healthcare professionals and cancer patients. Márcia Aparecida Padovan Otani e col. • Comunicação em câncer Methods. We searched the databases PubMed and Lilacs (Latin American and Caribbean Literature on Health Sciences). funções, o intervencionismo exagerado, a iatrogenia e a desatenção com os aspectos psicossociais da pessoa que adoece.1 Results. Eighteen articles that met the criteria for this review were analyzed. Among the nine studies that evaluated communication skills training for health professionals, 88% showed that the intervention is effective. Only two studies do not yield positive results in relation to patients’ stress reduction and increase of nurses’ satisfaction. Patient interventions are evaluated in six studies; most of them (66%) were effective. The others were considered positive to the extent that they contributed to improve patients’ communication in some aspect. Com as recentes mudanças demográficas e epidemiológicas da população brasileira, caracterizadas pelo envelhecimento e pelo aumento das doenças crônico-degenerativas, como o câncer, a população passa a demandar cuidados de longa duração e, consequentemente, a necessidade de contato mais duradouro com os profissionais de saúde. Conclusions. This review shows the importance of communication as an essential aspect in the care of cancer patients. The authors highlight the need to implement strategies that improve the quality of communication. In addition, they recommend the application of evidencebased practices and the development of research that may reveal new data and perspectives about the communication process between healthcare professionals and cancer patients. Key words. Cancer; communication; professional-patient relationship; oncology. iNTrOdUÇÃO Os profissionais da saúde têm como base do seu trabalho as relações interpessoais, e a maneira como desenvolvem o cuidado está diretamente relacionada à sua habilidade de comunicação. Atualmente, embora exista vasta produção bibliográfica sobre a comunicação profissional de saúde-paciente, a discussão e a reflexão crítica sobre o tema é, ainda, pouco oportunizada e enfatizada tanto nos cursos de formação profissional, quanto na prática dos serviços de saúde. As transformações que ocorreram na medicina nas últimas décadas trouxeram importantes avanços para o diagnóstico e a terapêutica, mas, trouxeram também, o uso excessivo dos exames complementares, a segmentação do paciente em órgãos e No contexto do cuidado em saúde, entende-se que o processo de comunicação deve ser terapêutico e eficaz. A comunicação terapêutica é conceituada como a habilidade do profissional de saúde em utilizar seu conhecimento sobre comunicação para ajudar a pessoa a enfrentar seus problemas, conviver com os outros, ajustar-se ao que não pode ser modificado e superar dificuldades para sua autorrealização.2 Por meio da comunicação eficaz, os profissionais de saúde podem possibilitar ao doente e à sua família o entendimento e o enfrentamento dos problemas, assim como a percepção de seu papel como sujeito ativo no processo do cuidado.3 Segundo relatório da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC) e a Organização Mundial da Saúde, o impacto global do câncer mais que dobrou em trinta anos.4 No Brasil, as estimativas para o ano 2012, válidas também para o ano 2013, são de 518.510 casos novos de câncer, inclusos os casos de pele não melanoma, o tipo mais incidente em ambos os sexos com 134 mil casos novos, seguido de câncer de próstata com 60 mil, de mama feminina com 53 mil, de cólon e reto com 30 mil, de pulmão com 27 mil, de estômago com 20 mil e de colo do útero com 18 mil.5 Os números mostram o impacto do câncer em todo o mundo e a necessidade de refletir sobre os diversos aspectos e buscar estratégias para melhorar o atendimento às pessoas que dele necessitam. O câncer causa importantes mudanças na vida das pessoas. Em decorrência disso, precisam de mais cuidados e informações adequadas para entender e lidar com as mudanças impostas pela doença. Nesse contexto, Brasília Med 2012;49(4):258-266 • 259 ARTIGO DE REVISÃO o papel da comunicação é fundamental, e o cuidado não é eficaz se não houver comunicação adequada. A comunicação profissional de saúde-paciente na área de oncologia é complexa e exige que os profissionais sejam preparados por meio de formação contínua desde a graduação,6 além do uso de estratégias junto aos pacientes e familiares com a finalidade de facilitar o processo de comunicação. O objetivo desta revisão é identificar e avaliar a eficácia das estratégias aplicadas para melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes com câncer. rEsUlTAdOs Os estudos foram realizados por enfermeiros e médicos de sete diferentes países, com maior concentração da discussão nos Estados Unidos (55%), seguida do Japão (11%). Os demais países em que os estudos foram realizados foram Bélgica, Canadá, Dinamarca, Holanda, Reino Unido e Brasil. MéTOdO As publicações ocorreram em doze diferentes periódicos que não se restringem à área de oncologia ou de comunicação. Os dois periódicos com maior número de publicações foram o Patient Education and Counseling, com cinco artigos publicados (28%), e o Psycho-Oncology com a publicação de três artigos (17%). Foi realizada a busca nas bases de dados PubMed e Lilacs (Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), com uso dos seguintes descritores: physician-patient relations, professional-patient relations, patient, neoplasms, cancer e communication. Quanto ao delineamento dos estudos, a maioria (72%) consiste em estudo randomizado controlado, e os instrumentos mais empregados para a coleta de dados foram entrevista (61%), seguida de questionário (11%), observação (17%) e grupo focal (11%). Os critérios para inclusão dos artigos foram: a) a utilização de alguma estratégia ou algum instrumento para melhorar a comunicação, incluindo-se as intervenções com pacientes, treinamentos para profissionais de saúde e estratégias relacionadas ao processo de trabalho; b) artigos publicados em periódicos no período de janeiro de 2008 a dezembro de 2012, nos idiomas português, inglês e espanhol. Para a análise, os estudos foram agrupados de acordo com seus objetivos, sendo identificados nove artigos em que se avaliaram treinamentos em habilidades de comunicação para profissionais de saúde,7-15 seis artigos nos quais se avaliaram a eficácia das intervenções com enfermos,16-21 dois com análise da eficácia do material informativo22,23 e, em um dos artigos, foi avaliado o uso de roteiro para identificação de problemas psicossociais.24 Foram encontrados 165 estudos, sendo 69 estudos empíricos. Após a leitura dos títulos e resumos, foram selecionados para análise dezoito artigos que preencheram os critérios estabelecidos para esta revisão. O acesso aos artigos deu-se por meio do Centro Latino Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde/Bireme, do Portal Capes, do Programa de Comutação Bibliográfica (Comut) e da internet. A partir da segunda leitura, buscou-se caracterizar cada estudo, com identificação do país em que foi realizado, a profissão do primeiro autor, os objetivos, o tipo de estudo e os principais resultados, bem como as tendências e as questões trazidas pelos autores no conjunto dos estudos. 260 • Brasília Med 2012;49(4):258-266 Estudos sobre treinamentos em habilidades de comunicação para profissionais de saúde no cuidado aos pacientes com câncer Dos nove artigos que tratam sobre treinamentos em habilidades de comunicação para profissionais de saúde, sete são estudos randomizados controlados7-11,13,14 e dois são estudos de campo, em que os sujeitos participantes foram avaliados antes e depois do treinamento.12,15 Quanto aos sujeitos dessas pesquisas, duas foram realizadas com médicos,11,14 duas, com profissionais de saúde,12,15 uma, com enfermeiras,7 uma, com pacientes8 e três durante a interação profissional de saúde e paciente, seja na Márcia Aparecida Padovan Otani e col. • Comunicação em câncer consulta de enfermagem,9,10 seja na consulta médica e de enfermagem.13 Os treinamentos para profissionais de saúde tiveram como objetivos principais: melhorar a habilidade de comunicação em cuidados paliativos e pacientes com câncer,7 melhorar a habilidade para lidar com o estresse dos pacientes8-10 e com a ansiedade dos pacientes e familiares,11 melhorar a participação na interação com os pacientes12,13,15 e avaliar o impacto de um programa de internet sobre comunicação clinicamente relevante.14 Foram usadas várias estratégias na condução dos treinamentos, como abordagem teórica sobre o tema, prática, dramatização e discussão sobre a prática profissional. Para avaliação dos treinamentos, os autores usaram diversos instrumentos, alguns validados anteriormente em outras pesquisas. Fukui e colaboradores8,9 realizaram o treinamento com base no modelo proposto por Baile e colaboradores.25 Depois, as enfermeiras dos grupos de intervenção e de controle realizaram consultas aos pacientes em três momentos diferentes – no dia em que receberam o diagnóstico, uma semana e um mês depois. Um dos estudos8 foi avaliado mediante a aplicação de escalas – Scale Analog Visual e Hospital Anxiety and Depression Scale – e os resultados não evidenciaram diferença estatisticamente significativa. Entretanto, os autores concluíram que o treinamento favoreceu a melhora na comunicação das enfermeiras ao demonstrarem maior iniciativa para detectar estresse nos pacientes. No outro estudo,9 os autores utilizaram a Mental Adjustment to Cancer e a Hospital Anxiety and Depression Scale. Obteve-se o resultado de diminuição de estresse psicológico nos pacientes que receberam apoio das enfermeiras que completaram o programa de treinamento. Rask e colaboradores10 desenvolveram um programa de treinamento de 33 horas, avaliado por enfermeiras e pacientes por meio de seis instrumentos: Nurse-Patient-Relationship Inventory, Brief Mood Scale, Cancer Behavior Inventory, Hospital Anxiety and Depression Scale, EORTC QLQ-C30 e entrevista com variáveis demográficas e questões abertas. O programa é fornecido pela Danish Medical Association e baseado no modelo do Psychological Medicine Group. Os resultados mostram que o treinamento não está associado à melhora dos resultados das enfermeiras e dos pacientes. Wilkinson e colaboradores7 encontraram evidências de mudanças no comportamento das enfermeiras, avaliando-as antes e depois do programa de treinamento oferecido pelo Programme for Senior Health Care Professionals in Cancer Care, acreditado pelo Royal College of Nursing. A habilidade de comunicação foi aprimorada e mostrou melhora nos níveis de confidência das enfermeiras. Houve maior satisfação dos enfermos e esses mostraram um estado emocional geral mais positivo. Todavia, não houve evidência de que o programa de treinamento tenha impacto nos níveis de ansiedade dos doentes. Do mesmo modo, os resultados do estudo de Lienard e colaboradores11 mostraram que os programas avaliados não tiveram impacto na diminuição da ansiedade dos assistidos e seus parentes. Esses autores avaliaram um programa de treinamento básico e um programa consolidado com momentos de prática para lidar com a ansiedade de pacientes e parentes durante a consulta médica, utilizando-se como instrumento a Hospital Anxiety and Depression Scale e o Satate Trait Anxiet Inventory-State. Outros estudos12-15 também apontam resultados positivos do treinamento com profissionais de assistência aos doentes. Jones e colaboradores12 afirmam que o curso melhora a participação dos profissionais de oncologia na interação com os pacientes. A intervenção descrita por Heyn e colaboradores13 se mostrou eficaz para os pacientes expressarem mais suas dúvidas e preocupações, embora os autores admitam que ela deveria ser acompanhada do treinamento em habilidades de comunicação para os médicos, a fim de melhorar as respostas centradas nos pacientes, visto que, nas consultas de enfermagem, surgiram mais dúvidas e preocupações, e o tipo de respostas foram significativamente diferentes entre enfermeiros e médicos. De modo semelhante, o estudo de Roter e colaboradores14 mostrou que o programa educacional favorece a atuação dos médicos na elaboração da história clínica com mais detalhes. No entanto, Brasília Med 2012;49(4):258-266 • 261 ARTIGO DE REVISÃO aplicaram menos o estilo de comunicação e intervenção centrado no paciente, necessitando-se de maior atenção para esse fato. Sargeant e colaboradores15 realizaram workshops com profissionais de saúde e, embora a maioria dos participantes não tenha se sentido confortável com a dramatização de suas habilidades perante os outros, os testes pré e pós-intervenção mostraram significativa melhora da habilidade de comunicação. A avaliação feita três meses depois mostrou que a grande maioria dos participantes teve participação ativa e maior discussão interativa com outros profissionais, reflexão pessoal sobre comunicação no local de trabalho (92%) e mudanças positivas na comunicação com os doentes (87%). Estudos de avaliação de intervenções com pacientes Smith e colaboradores17 indicam que os conceitos errôneos sobre a dor e a comunicação entre profissional e paciente são dois fatores que influenciam a qualidade que um paciente recebe no cuidado da dor. A intervenção descrita neste estudo consiste em acompanhamento de doze semanas, em que foram empregados vários instrumentos validados para avaliar aspectos como dor, seu controle e suas barreiras, participação do doente nas consultas, estresse, satisfação com o cuidado e a qualidade de vida. Os resultados evidenciam que o estilo de comunicação, caracterizado pela sinceridade e pela responsabilidade, pode melhorar os resultados obtidos com os pacientes. O estudo de Sheppard e colaboradores18 é parte de uma pesquisa mais abrangente. Nesta, os autores descrevem uma intervenção com entrevistas em profundidade, com abordagem da história pessoal, treinamento em habilidade de comunicação e apoio nas decisões. Os resultados positivos relatados pelas pacientes serão novamente testados por meio de estudo randomizado. Cabe destacar aqui que, dos seis artigos sobre intervenções com pacientes, apenas este não se caracteriza como estudo randomizado controlado. 262 • Brasília Med 2012;49(4):258-266 Mishel e colaboradores16 descrevem a intervenção em que discutem as habilidades de comunicação, utilizando-se de anotações de questões seguidas de informações atuais, um DVD (disco digital versátil) e quatro telefonemas para demonstrar as habilidades de comunicação e estratégias a utilizar. Concluem que a experiência foi eficaz, na medida em que melhorou o conhecimento, desenvolveu habilidades para resolver problemas e de comunicação. No estudo de Street e colaboradores, 19 os pacientes do grupo de intervenção receberam uma cópia do guia de orientação e educação personalizada para controle de dor, e o grupo de controle recebeu o guia de cuidado usual. A participação geral em ambos os grupos não foi diferente, mas os doentes do grupo de intervenção fizeram mais perguntas, foram mais assertivos e expressaram mais as preocupações com a dor. Os autores concluem que a intervenção fornece fundamentos conceituais sobre o tema e desenvolve competência em comunicação para os pacientes, mas destacam que a comunicação no encontro com o médico é influenciada por fatores diversos, que operam independentemente do enfermo ou da intervenção. Utilizando-se a entrevista por telefone e um instrumento validado para avaliar as preocupações dos pacientes e estimulá-los a falar com seu oncologista, Shields e colaboradores20 concluem que esse tipo de intervenção é eficaz para melhorar a habilidade de gerenciar as consequências da doença e seu tratamento. A intervenção descrita por Rowland e colaboradores21 trata de problemas comuns nas mulheres com câncer de mama, como imagem corporal, função sexual e comunicação com o parceiro, e foi desenvolvida durante seis semanas, com duas horas de reuniões semanais, por meio de grupo focal. A intervenção não mostrou diferença estatisticamente significativa em relação ao grupo de controle, embora tenha evidenciado melhora no relacionamento e comunicação com o parceiro, bem como na satisfação sexual das mulheres. Márcia Aparecida Padovan Otani e col. • Comunicação em câncer Estudos de avaliação de instrumentos para melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes com câncer Os estudos incluídos nesta revisão, com a finalidade de avaliar instrumentos para melhorar a comunicação entre profissionais de saúde e pacientes com câncer foram três e obtiveram resultados positivos. O Sistema de Relatório Clínico, descrito por DuBenske e colaboradores22 e implantado para auxiliar na troca de informações e melhorar a comunicação entre médicos, pacientes e familiares, obteve como resultados a melhora da visita clínica e maior envolvimento dos cuidadores. Diante do desejo de maior informação e necessidade de privacidade, o uso desse instrumento limita-se a um determinado número de pacientes. O estudo randomizado para avaliar a eficácia do uso do Screening Inventory of Psychosocial Problems em pacientes com câncer em tratamento radioterápico, realizado por Braeken e colaboradores24 mostrou-se eficaz no reconhecimento e tratamento precoce de problemas psicossociais, melhor comunicação entre profissionais e destes com pacientes e cuidadores. Também o estudo de Salles e colaboradores,23 para validação de material informativo, destinados a familiares de crianças em tratamento quimioterápico teve sua avaliação positiva e informações esclarecedoras para maioria dos entrevistados. Além disso, sugestões foram acrescentadas no material pelos participantes. discutir sobre o tratamento. Compreendendo que a qualidade do tratamento de indivíduos com câncer depende da interação e boa comunicação entre profissionais de saúde e pacientes, as intervenções com pacientes que visam a aprimorar o processo de comunicação são essenciais no sentido de auxiliá-los nesse momento de fragilidade e prepará-los para melhor comunicação e enfrentamento da doença. A maioria dos estudos nos quais se avaliaram as intervenções com pacientes teve resultados positivos, e mesmo aquelas que não apresentaram diferença estatisticamente significativa na análise dos dados,19,21 foram consideradas pelos autores como eficazes na medida em que contribuíram para gerenciar as dúvidas, melhorar o conhecimento e habilidades dos pacientes em resolver problemas,16,17 melhorar a interação com os profissionais, com maior participação nas decisões, melhorar a habilidade de comunicação18 e maior controle da dor,19 gerenciar as consequências da doença e do tratamento e favorecer mudanças nos estados de ansiedade, depressão e medos,20 além de melhorar a comunicação e o relacionamento com o parceiro.21 A compreensão das necessidades de informações das pessoas com câncer e a capacidade de comunicar-se efetivamente deve ser preocupação dos profissionais que assistem doentes. No entanto, a literatura aponta que, nem sempre a comunicação profissional de saúde-paciente resulta em satisfação e resultados positivos para os pacientes e, em geral, os autores destacam a necessidade de implementar estratégias que favoreçam melhoria da qualidade da comunicação. Os estudos que abordam os programas de treinamento para profissionais apresentam várias modalidades que variam em relação à duração e ao conteúdo. Destacam-se aqui dois estudos8,9 em que foi aplicado o modelo desenvolvido por Baile e colaboradores,25 um modelo também incentivado pelo Ministério da Saúde do Brasil, por meio do Instituto Nacional do Câncer, em parceria com a Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein no desenvolvimento do “Projeto de Atenção ao Vínculo e Qualificação da Comunicação em situações difíceis da Atenção Oncológica”. O propósito deste projeto é auxiliar os profissionais de saúde envolvidos no cuidado de pessoas com câncer. Inclui a formação de grupos para discussão sobre experiências em situações difíceis enfrentadas pelos profissionais na comunicação com os pacientes, o incentivo à utilização do protocolo Spikes e o enfoque interdisciplinar no cuidado em saúde.26 De acordo com Sheppard e colaboradores18 a maioria dos doentes tem problemas de comunicação com os profissionais e se sentem despreparados para De acordo com Baile e colaboradores,25 o significado da sigla Spikes representa os seis passos a serem seguidos na comunicação com pacientes: 1) disCUssÃO Brasília Med 2012;49(4):258-266 • 263 ARTIGO DE REVISÃO S – setting up the interview (estabelecer preparação para a entrevista); 2) P – perception: assessing the patient’s perception of the illness (percepção da doença); 3) I – invitation: obtaining an invitation by the patient to disclose information (convite para revelar a informação); 4) K – knowledge: giving knowledge and information to the patient (conhecimento); 5) E – emotions; addressing the patient’s emotions with empathic responses (emoções com respostas empáticas); 6) S – strategy and summary (esclarecer estratégias). A preocupação com os programas de treinamento para profissionais de saúde que lidam com pacientes com câncer é justificada pelos dados de morbimortalidade e grau de comprometimento físico, psicológico e social causados pela doença e, em decorrência disso, esses também precisam de cuidados para manter sua integridade e suas estratégias para minimizar o sofrimento diante das situações enfrentadas no dia-a-dia com pacientes. Parker e colaboradores27 reforçam essa ideia e destacam como essencial o treinamento de estudantes de medicina e profissionais sobre fundamentos éticos da prática e a relação médico-paciente, com ênfase no desenvolvimento do relacionamento empático e consciência das dificuldades dos doentes para compreenderem as informações após o trauma do diagnóstico de câncer. A metodologia empregada nos estudos é adequada, porém, tornam-se evidentes as limitações das pesquisas, principalmente em relação ao tamanho da amostra nos estudos com pacientes. Os autores relatam dificuldade de captar pacientes,21 o fato de que a pequena amostra pode não ser representativa18-20 e que a forma de seleção dos pacientes pode limitar a generalização dos resultados.19 Embora o período de publicações para esta revisão seja curto, é significativo o número de estudos internacionais que apresentam propostas de intervenção com pacientes, programas de treinamento aos profissionais de saúde, além de protocolos com a finalidade de melhorar a comunicação com os pacientes com câncer. Esse dado revela a preocupação dos profissionais de saúde e a busca pela melhor qualidade do cuidado 264 • Brasília Med 2012;49(4):258-266 e da comunicação com pessoas em tratamento do câncer. Observa-se que houve somente um estudo dessa natureza realizado no Brasil, dado esse que é reforçado na revisão de literatura feita por Cristo e Araújo6 ao afirmarem que há escassez de estudos com propostas de intervenção para reduzir as dificuldades de comunicação. Além das intervenções e treinamentos discutidos nos estudos desta revisão, Diefenbach e colaboradores28 descrevem intervenções multidisciplinares direcionadas aos pacientes, profissionais e intervenção multimídia. Fornecem exemplos de outras intervenções direcionadas aos pacientes, como: a) o PACE (apresentar, perguntar, checar e expressar), cuja finalidade é melhorar a adesão dos pacientes ao tratamento e comunicação com médicos; b) intervenções direcionadas aos profissionais como o programa de treinamento Oncotalk; c) intervenções multimídia, como o Sistema de Educação Interativa sobre Próstata, criado para facilitar o entendimento dos pacientes sobre as opções de tratamento após o diagnóstico de câncer de próstata. Observa-se que dentre os estudos analisados há vários em que os sujeitos participantes são mulheres com câncer de mama. Tal fato justifica-se pela alta incidência da doença, as alterações físicas e psicológicas e sociais que causa na vida das mulheres e por permanecer, ainda, com elevada taxa de letalidade.5 Chama à atenção o grande número de estudos realizados por enfermeiros, o que revela a ascensão dessa profissão e seu envolvimento no mundo da pesquisa e do trabalho. Esta revisão revela a importância da comunicação como um aspecto essencial no cuidado às pessoas com câncer e constata efetividade na maioria dos estudos analisados. Em concordância com a afirmação de Walling e colaboradores29 de que muitas comprovações não são ainda incorporadas na prática oncológica, recomenda-se a aplicação prática das evidências disponíveis pelos profissionais que atuam na área de oncologia, assim como o desenvolvimento de pesquisas e instrumentos de avaliação que possam trazer novos dados e novas Márcia Aparecida Padovan Otani e col. • Comunicação em câncer perspectivas no processo de comunicação com pacientes com câncer. Em reforço ao exposto, a necessidade de pesquisas sobre comunicação e câncer foi identificada pelos diretores dos centros de câncer do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos como foco de pesquisas futuras, para aumentar o conhecimento da população sobre o câncer. Os tópicos para agenda dos pesquisadores são: pesquisas para conscientização da prevenção e detecção precoce, melhora da precisão e uso da ciência com divulgação na mídia nacional e criação de base de evidências para programas e instrumentos que possam fortalecer a comunicação em saúde.28 CONsidErAÇÕEs FiNAis Os resultados desta revisão revelam que os estudos analisados são convergentes no que diz respeito à complexidade do tema, necessidade de preparo dos profissionais de saúde e intervenções com pacientes e familiares para desenvolver a habilidade de comunicação. As divergências identificadas referem-se, principalmente, à eficácia dos instrumentos aplicados nas intervenções com pacientes e nos treinamentos realizados com profissionais de saúde. Apesar de alguns estudos apresentarem resultados negativos em relação à eficácia da intervenção, os autores não questionam a relevância dos programas de treinamento em habilidades de comunicação para profissionais de saúde no cuidado ao paciente com câncer. Um aspecto não discutido na literatura analisada refere-se ao treinamento das habilidades de comunicação durante os cursos de formação dos profissionais da área da saúde. O processo de comunicação entre profissional de saúde e paciente está diretamente relacionado à sensibilidade do profissional e é no período de formação que deve ser iniciado o treinamento desse tema. O processo de comunicação é crucial no tratamento do câncer, embora na prática se observe que, nem sempre, os profissionais de assistência a doentes estão atentos à importância da comunicação e aos aspectos que interferem negativamente na interação com os pacientes e famílias. A literatura mostra que o modo como esses profissionais se comunicam pode resultar em maior sofrimento e levar a resultados negativos aos assistidos. Nesse sentido, torna-se relevante o conhecimento e a divulgação das evidências existentes, além de investimento em novas pesquisas com diferentes abordagens metodológicas, sejam elas com pacientes e familiares, seja com profissionais de saúde, que possam contribuir para melhorar a comunicação na área de oncologia. rEFErÊNCiAs 1. Ayres JRCM. Cuidado e reconstrução das práticas de Saúde. Interface (Botucatu). 2004,8(14) [acesso 25 set 2012]. Disponível em: http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832004000100005&ln g=en&nrm=iso. 2. Araújo MMT, Silva MJP, Puggina ACG. A comunicação não-verbal enquanto fator iatrogênico. Rev Esc Enferm USP. 2007;41(3):419-25. 3. Silva MJP. A comunicação tem remédio: a comunicação nas relações interpessoais em saúde. 4ª ed. São Paulo: Loyola; 2006. 4. Boyle P, Levin B. 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