Universidade Federal da Bahia Faculdade de Comunicação Projeto de Conclusão de Curso 2002.1 Orientação: Prof. André Setaro Aluno: Antonio Nykiel Memorial Analítico Dever de Classe Estilo de Cachorro Vídeo-documentário Salvador Outubro de 2002 Índice 1. Resumo ______________________________________________04 2. Processo até o Projeto Experimental ______________________05 3. Apresentação _________________________________________07 3.1. Movimento Punk _______________________________ 07 3.2. Dever de Classe _________________________________07 3.4. Projeto Experimental ____________________________19 4. Metodologia __________________________________________11 4.1. Pesquisa _______________________________________11 4.2. Pré-Produção ___________________________________13 4.3. Execução _______________________________________13 4.4. Pós-Produção ___________________________________15 5. Dificuldades Encontradas _______________________________16 6. Considerações Finais ___________________________________18 7. Referências Bibliográficas _______________________________19 8. Anexos ______________________________________________ 21 8.1. Roteiro 1_______________________________________21 8.2 Roteiro 2 _______________________________________24 8.3 Músicas ________________________________________28 2 “Não se incomode com o que eles dizem Dane-se para o que eles fazem Nós temos uma atitude mental Positiva! Positiva! Positiva!” (Dever de Classe) 3 1. Resumo Dever de Classe - Estilo de Cachorro, trata-se de um vídeo-documentário, com aproximadamente quinze minutos de duração, sobre a banda de punk hard core, Dever de Classe, de Salvador. Procura mostrar principalmente a estética visual e musical de uma das principais bandas baianas inserida dentro de um dos mais fortes movimentos da contracultura: o Punk. Enfoca também a força da presença da banda no palco, revelando o poder das suas mensagens. É o resultado de uma pesquisa sobre um movimento forte, porém, pouco divulgado em Salvador. 4 2. Percurso até o Projeto Experimental Meu ingresso no curso de Produção em Comunicação e Cultura da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia aconteceu no primeiro semestre de 1997. Naquela época já possuía o hábito de contemplar filmes e estender-me em discussões sobre o que tinha visto nas salas de projeção. Ainda no meu primeiro semestre na Facom cursei a disciplina COM023 - Oficina de Comunicação Escrita, e passei a escrever críticas sobre os filmes que via. Eram, em média, dois por semana. Quando comecei a cursar a disciplina COM024 - Oficina de Comunicação Audiovisual, passei a escrever também sobre filmes representativos dos diversos gêneros cinematográficos. Aí tive contato mais profundo com os grandes diretores do cinema internacional: Jean-Luc Godard, François Truffaut, Federico Fellini, Alfred Hithcoock, Stanley Kubrick, Luis Buñuel, Wim Wenderes, além de Einsenstein, que na época me foi apresentado com uma das personalidades mais inovadoras da linguagem cinematográfica, principalmente pelas suas contribuições para o processo de montagem. Ainda na mesma COM024 conheci a obra dos grandes críticos e teóricos da linguagem cinematográfica. Aprendi muito com Marcel Martin, André Bazin, Walter da Silveira, Gerard Bretton, Syd Field. Foi nesse mesmo semestre que participei também, pela primeira vez, da produção de um vídeo: Leitor Digital, realizado na Facom, com colegas de turma. Daí, cursei mais algumas disciplinas relacionadas a cinema. Continuei vendo muitos filmes e comentando processos de montagem, roteiro, ritmo e narrativa em COM290 - Linguagem Cinematográfica, COM046 - Temas Especiais em Cinema e COM354 - Cinema Internacional. 5 No primeiro semestre de 2000, cursando a disciplina COM075 - Oficina de Produção em Comunicação, participei da realização de um festival de bandas dos anos oitenta como trabalho de fim de semestre. Para participar do festival, chamado Setembro Negro, foram convidadas as bandas Utopia, Via Sacra e Dever de Classe. Todas estavam há algum tempo sem tocar. Durante o evento, percebi a força das letras e expressões utilizadas nas composições da Dever de Classe. A partir daí, passei a manter contatos com os integrantes da banda, que não mais parou de tocar. Freqüentava várias apresentações da banda e participava das viagens para o interior do estado. O que me permitiu conhecer bastante sobre a história da primeira banda de punk rock da Bahia. No começo de 2002, durante o Panorama Internacional Coisa de Cinema, realizado em Salvador, assisti ao documentário O Lixo e a Fúria, de Julien Temple. Obra que registra a história da banda inglesa Sex Pistols, considerada por muitos a principal expressão do punk mundial. Na segunda vez em que fui ver o filme, associei a história dos Sex Pistols ao que tinha assimilado da história da Dever de Classe. Daí a decidir-me pelo que fazer como Projeto de Conclusão de Curso foi um caminho natural: um vídeo documentário sobre a linguagem musical e conceitual da primeira banda punk da Bahia. Extracurricularmente, realizei estágios em assessorias de comunicação, onde participei da realização de vídeos institucionais, além de acompanhar mostras e festivais de vídeo que aconteciam em Salvador. Mais recentemente, participei também da realização do videoclipe da música “Desarmar o Mundo para Alimentar os Povos”, da Dever de Classe. 6 3. Apresentação Antes de apresentar o vídeo documentário realizado como projeto experimental, fazse necessário apresentar, anteriormente, o movimento punk, a própria banda, elemento de pesquisa, juntamente com algumas letras, para então se chegar ao produto propriamente dito. 3.1. O Movimento PUNK Em meados da década de 70 jovens da Inglaterra passam a revelar sua indignação com o estado de coisas e o caos social que se espalha por todo o mundo. A contestação vem através do visual fugindo dos padrões que a sociedade impõe através do modismo, mostrando sua revolta pelo corte de cabelo à moicano coloridos, roupas velhas surradas (em oposição ao consumismo), jaquetas arrebitadas com frases de indignação às injustiças do Estado repressor e a atitude subversiva. O movimento que pregava a liberdade de expressão e de comportamento passou a ser chamado de PUNK. Esse movimento não fica calado, acomodado, como a maioria dos jovens e o povo em geral. Faz manifestações, panfletagens, boicotes, passeatas: mostrando sua cultura e seu repúdio a todas as formas de fascismo, nazismo e racismo, autoritarismo, sexismo e comando; vendo como solução a autogestão (ou seja anarquia) para a libertação dos povos, raças, homens e mulheres. 3.2. A Dever de Classe O cenário foi o PABX – espaço cultural existente no prédio da antiga Faculdade de Comunicação da UFBA, onde hoje funciona o Instituto de Ciências da Informação. Nesse ambiente, as tardes de Domingo costumavam ser de intenso agito cultural com espaço para mostra de vídeos, recitais, troca de demo-tapes, fanzines, cartas, materiais que chegavam do mundo todo. Aos poucos uma turma diferente que acreditava no ideal do “faça você mesmo!” 7 começou a demarcar o território que se transformou no principal reduto do movimento Punk em Salvador. Foi nesse contexto, no ano de 1984, que quatro jovens resolveram montar a primeira banda de Punk rock da Bahia. Influenciados pela quantidade e aceitabilidade de materiais de bandas do gênero que chegavam de todos os lugares, surgiu a Dever de Classe. Até 1989, quando aconteceu a última e uma das mais antológicas gigs da primeira formação da banda no Teatro Nazaré, a Dever de Classe percorreu um caminho que contribuiu para a formação de uma cena Punk na cidade. Dentre os vários convidados que a banda recebeu em Salvador, destacam-se o Cólera, Inocentes, Não Religião, além de ter tocado em São Paulo com a Excomungados. Um dos principais fanzines da época – o ESPUNK (Estado Social do Punk), era também editado pelos integrantes da banda que chegou a ter algumas das suas composições executadas em rádios de São Francisco (EUA), São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre, além de ter sido matéria no FLIP SIDE, importante fanzine da Califórnia, EUA. Em 2000 a Dever de Classe foi convidada para participar de um tributo ao rock baiano dos anos 80 – Festival Setembro Negro, e resolveu dar seqüência a um trabalho que havia sido interrompido prematuramente. Formada atualmente por Lili Martins (voz / primeira formação), Nêio Mustafá (baixo / primeira formação), Iure Aziz (guitarra), Tony Santo Amaro (bateria) e Pedrinho Semanovschi (trumpete), a Dever de Classe não abandonou a sua marca mais forte: a batida rápida e de mensagens contundentes. O atual trabalho do grupo corre em direção a uma proposta musical contemporânea que aborda a realidade recente, desenvolvendo a harmonia através de uma música crassa e que ressalta temas sociais brasileiros. 8 O Hard Core da Dever de Classe mistura em suas letras diálogos, dor, alegria, mostrando uma mensagem urgente e uma crítica à violência urbana. É na vivência e na reflexão do meio cultural em que estão inseridos que os músicos da Dever de Classe extraem a essência das suas provocações sonoras. Em seus shows, as performances vêm incutidas de inconformismo com o atual sistema socio-econômico-cultural do país e também com preocupações que ultrapassam fronteiras como a guerra nuclear, o racismo, a intolerância, a fome, a miséria etc. 3.3. O Projeto Experimental Durante as duas últimas décadas a Bahia passou pelo processo de fortalecimento de uma cultura do entretenimento que inviabilizou o reconhecimento de qualquer forma de expressão que escapasse aos padrões do que a chamada cultura do Axé Music desejasse. Com isso, a imagem que se criou da cidade foi a de um lugar onde estava se produzindo apenas músicas de axé, pagode e outras do mesmo segmento. Porém, mesmo passando despercebido pela grande mídia, existiam guetos alternativos de onde saía material de qualidade que poderia ter transformado a cidade num dos grandes pólos de produção musical no país. Bandas como Dever de Classe, Via Sacra, Utopia, Ramal 12, todas reconhecidas hoje como bandas de forte valor criativo, surgiram e desapareceram repentinamente, mesmo mostrando que tinham potencial para se fixar no cenário nacional. De volta à cena local em 2000, a Dever de Classe, composta inicialmente em 1984, representa perfeitamente a trajetória dos últimos 20 anos do rock alternativo de Salvador. Principalmente de uma das suas vertentes mais radicais – o punk hard core, sobretudo por estar diretamente ligada a um movimento social que mostrou força em todo o mundo: o PUNK. 9 Dessa forma, a realização de um documentário sobre a trajetória da Dever de Classe é ao mesmo tempo mostrar as dificuldades para se produzir e trabalhar com música alternativa em Salvador; revelar a existência de uma cena punk na cidade; mostrar para um público mais abrangente uma nova vertente da musicalidade de Salvador, além de apresentar a musicalidade, a poesia e o jornalismo social de uma banda punk. O vídeo independente, como forma de expressão experimental, é um importante agente impulsionador de todo um potencial, criativo por parte dos realizadores, produtivo, na medida em que há um incremento de novos negócios e da distribuição em qualquer canal em que seja válida sua exibição, seja em festivais, salas de projeção em centros culturais, ou mesmo em universidades. O vídeo independente e experimental é fundamental para o estabelecimento da identidade cultural, pela visão das realidades cotidianas da sociedade e dos caminhos da criação audiovisual. Valendo-se da versatilidade proporcionada pela linguagem do vídeo, que tem a possibilidade de alcançar um número significativo de espectadores ao mesmo tempo, o trabalho poderá transformar-se em um instrumento de aproximação entre o público em geral e as inquietações da Dever de Classe, com suas diferentes formas de expressão. 4. Metodologia Antes de se chegar ao final da montagem de um vídeo-documentário capaz de ser amostragem da trajetória de uma banda inserida dentro de um forte movimento da 10 contracultura, o punk, foi necessário direcionar o trabalho por uma via que me permitisse conhecer de perto não apenas a história da banda, mas também as suas composições, sua ideologia e seu comportamento. Portanto, acredito que a intensa pesquisa que realizei não apenas sobre o punk mundial, mas principalmente sobre a Dever de Classe tenha sido o principal elemento para a veracidade do meu trabalho. Porém, além da pesquisa, detalharei também a pré-produção, a execução e a pós-produção do trabalho. 4.1. Pesquisa O processo de criação de Dever de Classe - Estilo de Cachorro, exigiu pesquisa não apenas sobre a banda em estudo, mas também sobre o movimento punk e o formato escolhido para a amostra dos resultados, ou seja, o vídeo-documentário. Das três etapas da pesquisa, duas foram realizadas juntamente com o vocalista da Dever de Classe e professor da Escola de Belas Artes da Ufba, Williams Martins, que me indicou material, relatou acontecimentos, apresentou pessoas e demais materiais. Durante quase seis meses tive contato intenso com fanzines, recortes de jornais, fotografias, além de muita conversa com pessoas que presenciaram o surgimento e divulgação dos ideais do “faça você mesmo” em Salvador. Espunk - Estado Social do Punk, editado em Salvador, Maximumrocknroll e Flip Side, editados na Califórnia, foram alguns dos fanzines que orientaram minha pesquisa e revelaram a “alternatividade” do estilo de vida que aqueles jovens pregavam. Recortes de jornais vinham das mais diversas partes: jornais locais e revistas especializadas, dentre outros. O material em vídeo ao qual tive acesso incluía entrevistas e apresentações em televisão, além de gravações de shows. Das conversas com pessoas que presenciaram a cena punk soteropolitana na sua gênese consegui extrair o verdadeiro sentido da Dever de Classe, o que ela representava para aqueles jovens, em sua maioria do subúrbio, que acompanhavam a banda. Apesar da grande quantidade de material alternativo que consegui reunir sobre o movimento punk tanto em 11 Salvador como no mundo, percebi que tratava-se de um forte movimento da contracultura que, no entanto, continua ignorado. Isso tornou-se evidente quando fui procurar livros que abordassem o tema e encontrei apenas duas obras representativas: O que é Punk, de Antonio Bivar, e Mate-me por favor - a história sem censura do punk, de Legs McNeil e Gillian McGain. Após a conclusão da pesquisa sobre a banda e sobre o movimento punk, senti-me apto a escrever um roteiro que orientasse o documentário (Roteiro 1 - Anexos). Roteiro pronto, apresentei à banda que sugeriu algumas modificações que julguei pertinentes. A partir daí, passei então a orientar meu estudo na busca de conhecimentos sobre técnicas de roteiro e montagem de vídeo. Percebi então a escassez de bibliografia sobre o tema e, principalmente a defasagem de muitas obras. Então, tive que me ater apenas ao que encontrava. Arlindo Machado foi certamente um dos teóricos que mais me passou conhecimentos sobre a técnica de vídeo, principalmente com Cinema e Montagem, além de O Vídeo e sua Linguagem, a partir de onde pude aprofundar conhecimentos sobre a existência de uma linguagem particular do vídeo. “A recente polêmica sobre a possibilidade de uma linguagem do vídeo pode ser indicador de um certo estágio de maturidade da comunidade dos videomakers. Ao herdar da televisão o seu aparato tecnológico, o vídeo acabou por herdar também uma certa postura parasitária em relação aos outros meios, uma certa facilidade em se deixar reduzir a simples veículo de outros processos de significação” (Machado, 1989:07) Compensando a carência de bibliografia sobre linguagem e técnicas de montagem de vídeo, encontrei na internet o suporte que precisava para a minha pesquisa sobre o assunto. Em todas as páginas de busca, são muitas as indicações de endereços onde encontramos material sobre formatação de roteiro, direção, montagem, distribuição, câmeras, ilhas de edição e muitas outras coisas. Nestas páginas percebi que além de demonstrar inevitável 12 domínio narrativo e técnico, há também a necessidade de saber contar uma história que cative o público, receptor de sua mensagem. 4.2. Pré-produção Antes do início da realização do vídeo, realizei um intenso trabalho de pré-produção de uma obra audiovisual. Recolhimento de fitas antigas, agendamento de entrevistas e ilha de edição, empréstimo de câmeras, fitas, microfones e outras providências normais. Além das atividades citadas, surgiu o imprevisto de fitas mofadas, fotografias rasgadas, fanzines ilegíveis. Problemas solucionados, parti então para a realização da obra. 4.3. Execução A realização de Dever de Classe - Estilo de Cachorro começou com a decupagem de material antigo de shows, seleção de recortes, agendamento de entrevistas. Com as deficiências e limitações da ilha de edição da Facom, deparei-me com a ne3cessidade de elaborar um outro roteiro, que pudesse ser montado na LTV - FACOM (Roteiro 2 - Anexos). Para as filmagens das entrevistas foi utilizada uma camera super VHS, da marca JVC. Todas as tomadas foram realizadas com a camera na mão, a fim de permitir maior “orgânicidade” às cenas. Com todas as entrevistas sendo realizadas à noite e em ambientes internos foi necessário recorrer a um refletor. As filmagens das entrevistas foram todas feitas por mim. As imagens do cachorro foram feitas pela manhã, com a mesma camera na mão. Após todas as filmagens realizadas recolhi imagens de outras obras audiovisuais para serem coladas no trabalho a ser feito. De posse de todo o material a ser utilizado no filme, passei então à decupagem de todos os elementos, para a posterior elaboração de um roteiro de edição. Um roteiro que permitisse ao público conhecer a banda de perto, se familiarizar com as performances dos 13 shows e com as mensagens da banda. Assim, procurei fazer com que os depoimentos fossem apenas complemento ao que se estava mostrando diretamente do palco. Foram acrescentadas imagens extras dos filmes Choque, de Carlos Rocha, Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick e Apocalipse Now, de Francis Ford Copolla, para servir de parâmetro, constatação, afirmação do que a banda estava dizendo em sua provocações. Já a inserção das imagens de um cachorro vagando pelas ruas é uma representação da autodefinição da banda: estilo de cachorro. Utilizando desses elementos, pude então partir para uma montagem que permite perceber o estilo, o sentido e as mensagens do elemento de análise: a banda Dever de Classe. Após as etapas acima chegou o momento da edição. A montagem propriamente dita. A realização foi toda feita com sistema analógico, no Laboratório de TV e Vídeo da Facom. Sem muitas opções de efeitos, a montagem foi toda feita em cima de cortes, fade (in e out) e fusões. Após duas manhãs e duas tardes chegamos ao final da montagem das imagens. Como possuía o áudio de muitos trechos do filme captados ao vivo em mesa de som, optei por utilizá-los, o que certamente confere muito mais qualidade ao produto final, já prejudicado pelas precárias imagens de arquivo. Após a inserção do áudio e dos créditos finais, chegou-se ao material que apresento aqui. 4.4. Pós-produção Acredito no papel que o vídeo pode desempenhar na divulgação de idéias e difusão da pesquisa. Voltado para um público geral, que tenha interesse na criação audiovisual, e mais especificamente para estudantes de comunicação, cinema e áreas afins, o produto atua também como difusor de informações técnicas, artísticas e cultural. Desta forma, após a produção do vídeo, pretendo divulgá-lo amplamente, e não apenas na exibição pública de fim de curso. 14 Assim, a pós-produção requer todo um trabalho de divulgação do produto em mostras, festivais e eventos afins. 5. Dificuldades Encontradas A realização de um produto técnico-artístico, principalmente, vídeo, como projeto experimental de fim de curso mostrou-se uma atividade cercada de dificuldades a serem superadas a cada momento, em todas as etapas do processo. Mesmo optando por temas prazerosos de serem desenvolvidos, o desestímulo torna-se elemento constante nos momentos em que nos sentimos limitados perante a falta de recursos técnicos para a realização das etapas como haviam sido planejadas. No caso do vídeo, a desatualização do acervo das bibliotecas da 15 Ufba é um problema menor, quando comparado com laboratórios atrasados, equipamentos quebrados e agendas lotadas, por exemplo. Porém, com muita força de vontade e colaborações vindas das mais diversas partes, o resultado do trabalho foi fiel ao que tinha sido planejado. As dificuldades foram muitas, mas o trabalho foi concluído a tempo. Enumero agora algumas dificuldades: 1. Material histórico da banda em péssimo estado de conservação. Fitas mofadas, fotografias rasgadas, e textos ilegíveis tornaram árdua a tarefa de documentar o passado da banda. Como resultado, o vídeo programado para ser completamente colorido acabou sendo finalizado com cenas em preto e branco. 2. Dificuldade para resgatar material antigo da banda também foi intenso. Foram quase dois meses de espera por fitas de vídeo, que ao chegarem estavam todas mofadas. 3. Com o Laboratório de TV e Vídeo da Facom sempre lotado por professores e alunos, a espera para o início da edição foi grande e atrasou o andamento do trabalho. Peças quebradas e sem reposição também fizeram com que a finalização desviasse do planejado. Acredito, no entanto, que a existência de áudio original captado ao vivo em mesa de som, a precisão da operadora da ilha de edição e o trabalho de pesquisa tenham tido papel fundamental para a realização e finalização de uma obra agradável, verídica e representativa. 16 6. Considerações Finais Ao final da montagem de Dever de Classe - Estilo de Cachorro, acredito ter realizado uma obra capaz de representar o processo criativo, a performance e as mensagens de uma das bandas alternativas mais representativa da cena local. Partindo dos conceitos de Eisenstein, que acreditava na montagem como pensamento e na cultura como o resultado de um processo de montagem onde o passado não desaparece mas se reincorpora, reinterpretado, no presente, sinto que o processo de montagem da narrativa de Estilo de Cachorro foi coerente, no sentido em que foi fiel a história da banda, tornando-se documento legítimo. O desenvolvimento da narrativa, como se fosse um show, possibilita a percepção da organicidade, elemento mais forte da Dever de Classe. A inserção de depoimentos apenas complementa a narrativa, procurando não competir em momento algum com a presença e a 17 força da banda no palco. Dessa forma, acredito ter possibilitado ao público a idéia do conceito da Dever de Classe e do que seja o Estilo de Cachorro. 7. Bibliografia AGEL, Henri. Estética do cinema. Cultrix, 1982, São Paulo. ANDREW, Dudley. Teorias do cinema. Jorge Zahar, 1989, Rio de Janeiro. ARNHEIM, Rudolf. A arte do cinema. Ed. Aster, 1960, Lisboa. BALÁZS, Béla. Estética do cinema. Verbum, sem data, Rio de Janeiro. BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. Civilização, 1967, Rio de Janeiro. __________. O autor do cinema. Brasiliense? Edusp, 1974, São Paulo. BIVAR, Antonio. O que é Punk?. Brasiliense. sem data. São Paulo. BRETTON, Gérard. Estética do cinema. Martins Fontes, 1990, São Paulo. DELEUZE, Gilles. Cinema – a imagem-movimento. Brasiliense, 1983, São Paulo. EISENSTEIN, Serguei. A forma do filme. Jorge Zahar, 1990, Rio de Janeiro. 18 __________. O sentido do filme. Jorge Zahar, 1990, Rio de Janeiro. LAWSON, John Howard. O processo de criação no cinema. Civilização Brasileira, 1967, Rio de Janeiro. MACHADO, Arlindo. Cinema e Montagem. Ática, , São Paulo. ___________________. O vídeo e sua linguagem. Revista da USP. Sem data, São Paulo. MCNEIL, Legs, Gillian McGain. Mate-me por favor. Uma história sem censura o punk. L&PM. 1997. Porto Alegre. MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Brasiliense, 1990, São Paulo. METZ, Christian. A significação do cinema. Perspectiva/USP, 1973, São Paulo. REISZ, Karel. A técnica da montagem. Embrafilme, 1978, Rio de Janeiro. ROCHA, Glauber. Revolução no cinema novo. Alhambra/Embrafilme, 1981, Rio de Janeiro. SETARO, André. Breve introdução ao cinema baiano. Texto de comunicação do NICOM do Departamento de Comunicação da Escola de Comunicação – UFBA, 1986, Salvador. ___________ Introdução ao Cinema. Anedota Búlgara, 2002, Salvador. www.anedotabulgara.com.br SILVEIRA, Walter da. Fronteiras do cinema. Tempo Brasileiro, 1966, Rio de Janeiro. XAVIER, Ismail. A experiência no cinema. Alhambra/Graal/Embrafilme, Rio de Janeiro. __________ . O discurso cinematográfico. Paz e Terra, 1967. 19 8. Anexos 8.1. Roteiro 1 Seqüência 1: Table Top – Arquivo de Imagens Abre o video. Muro pichado com o símbolo do anarquismo, seguido de sobreposição de imagens: presidente Fernando Henrique Cardoso acenando; faixas com palavras de ordem; cenas dos Sex Pistols; reaparece o muro pichado com o símbolo do anarquismo; recortes de jornais com reportagens sobre o movimento punk; cenas de passeatas em Salvador; imagens de mendigos catando lixo; capas de vinis de bandas punk rock dos anos 70 e 80; muro pichado com a frase “punk is not dead”; cenas das manifestações do 16 de maio em Salvador... Sequência 2: Int / Ext Rua e Teatro Aparece um muro pichado onde encontra-se escrito a frase “Dever de Classe: Estilo de Cachorro, 1984”. A camera faz um trevelling lento no muro acompanhando a frase e em seguida aparecem pessoas andando na rua, onde um cachorro se levanta e sai caminhando. Agora com a imagem congelada aparece mais uma vez o muro escrito “Dever de Classe: Estilo de Cachorro, 1985”. Em seguida começam a aparecer os créditos inicias intercalados com imagens da banda em apresentação ao vivo. Sequência 3: Table Top / Int. Arquivo de Imagens / Casa de Ednilson 20 Aparece um cartaz de um show da banda com a data de 1984. Em seguida, Ednilson (promotor cultural da época) aparece falando sobre a importância da banda no cenário musical alternativo da cidade na década de 80. Enquanto ele fala ouve-se ao fundo a música Rússia x EUA. Ao terminar a fala de Ednilson aparece imagens da banda tocando a mesma música num show de 1986. Sequência 4: Table Top / Int. Arquivo de Imagens / Casa de Sérgio Aparece outro cartaz de 1989. Sérgio (produtor da banda na década de 80) começa a falar sobre o trabalho de produzir a banda, as dificuldades para se produzir punk rock em Salvador, etc. enquanto ele fala aparecem reportagens de jornais e cartazes do punk rock. Sérgio continua falando sobre outras bandas da época. Enquanto ele fala ouve-se ao fundo a música Opressão. Quando terminar a fala dele, aparece a imagem da banda tocando a mesma música ao vivo. Sequência 5: Int. / Ext. Cine Teatro Nazaré / Quilombo Cecília Aparece o cartaz do show “A Caminho do Vale”, último show da banda antes da separação, em 1989. Aparecem as cenas da movimentação em frente ao teatro. Flashes do show. Imagens de pessoas anônimas comentando sobre o fim da banda. Aparece agora Robson (promotor atual de punk rock de Salvador) falando sobre o show de 1989 e o que representou o fim da Dever de Classe. Flasshes do show intercalados com outros cartazes da banda e de reportagens de jornais, até aparecer a imagem na qual o vocalista da banda aparece com as costas escrita a frase “É o fim”. Corta e aparece a imagem do cachorro deitado. Sequência 6: Int. Casa de Nêio / Casa de Lili Aparece Nêio (baixista da banda) falando sobre o fim da banda, em 1989. Em seguida o vocalista da banda, Lili, também comenta sobre o fim. Seqüência 7: Int./ Ext. Off Club Imagens da frente do Off Clubr. Close no cartaz do Festival Setembro Negro, em 2000. Imagens da banda tocando nesse espaço. Corta para Messias Bandeira (coordenador do evento) falando sobre o por que de resgatar uma banda dos anos 80. Enquanto ele fala ouve-se a banda tocando ao fundo. Corta e a banda aparece continuando a mesma música. Seqüência 8: Int. Ext. Off Club Imagens da frente do Off Club, onde encontram-se os integrantes da banda com seus instrumentos. Eles começam a falar sobre a estética da banda, o que mudou após o retorno, o que mudou no movimento punk, se a banda ainda apresenta a mesma fúria...enquanto eles falam, aparecem flashes da banda tocando. Em seguida aparecem os músicos com seus instrumentos nas mãos saindo da frente do Off Club. Corta para um cachorro levantando-se. 21 Sequência 9: Ext. Quilombo Cecília Imagens da frente do Quilombo Cecília, no Pelourinho, onde muitas pessoas aguardam o show da banda. A camera faz close em algumas dessas pessoas falando sobre a cena punk atual em Salvador e o trabalho atual da Dever de Classe. Sequência 10: Ext. / Int. Quilombo Cecília Close em um cartaz do show colocado na frente do Quilombo. A camera sobe as escadas de entrada do espaço e encontra-se com a banda no camarim. Começa uma série de depoimentos sobre o movimento punk em Salvador atualmente e sobre o trabalho da Dever de Classe. Enquanto desenrolam-se os depoimentos, apareçem imagens do local, cartazes, livros... Sequência 11: Int. / Ext. Várias Locações Colagem de imagens da banda em apresentação ao vivo em Arembepe (2002), Facom (2002), Santo Amaro (2001), Santo Antonio de Jesus (2001), Concha Acústica (2001), Off Club (2000) e de ensaios. Enquanto são mostradas as imagens, vão aparecer os créditos do local e data. Sequência 12: Int. Escritório de Ruy Mascarenhas Aparecem imagens do show da Concha Acústica, em 2001. Em seguida aparece Ruy Mascarenhas, falando sobre as dificuldades de se produzir rock na Bahia e também sobre o trabalho da Dever de Classe e da participação da banda no 10 Garage Rock Festival. Corta para um cachorro andando atravessando uma rua. Sequência 13: Int. Quilombo Cecília Cenas de show no Quilombo Cecília. Cebas das pessoas presentes ao evento e das bandas que se apresentam. Aparece agora a Dever de Classe tocando. Sem mudar o som corta para a imagem do cachorro fuçando uma lata de lixo e saindo correndo em seguida. Na metade da tela o cachorro continua correndo pelas ruas, enquanto na outra metade aparecem os créditos finais. 22 8.2. Roteiro 2 Cena 01: Um cachorro aparece deitado. Ao começar a se levantar ouve-se os primeiros acordes da música As Mil e Uma Injúrias. O cachorro sai andando e a múscia continua. (10 seg.) Cena 02: Aparece um muro onde está pichado “1984: Dever de Classe”. (05 seg.) Cena 03: Aparece a banda tocando a música As Mil e Uma Injúrias no Teatro Nazaré. Continua com imagens da banda até o fim da primeira estrofe da música. (30 seg.) Cena 04: Aparece um integrante da banda falando sobre a origem em 1984. Ouve-se ao fundo a música Pivetes. (10 seg.) Cena 05: Quando termina a fala aparece a banda tocando a música Pivetes no teatro Nazaré. (15 seg.) Cena 06: Aparece outro integrante da banda falando sobre as letras e a atitude da banda na formação antiga. Ao fundo ouve-se a música Todos os Homens. (10 seg.) Cena 07: Em seguida aparecem imagens de Hitler, guerras e destruição. (10 Seg.) Cena 08: Aparece a banda tocando a continuação da música Todos os Homens. (10 seg.) Cena 09: 23 Aparece outro integrante da banda falando sobre os shows na fase antiga. Ouve-se ao fundo a música Escravos do Poder. (10 seg.) Cena 10: Em seguida aparece a banda tocando a mesma música no tetro Nazaré. (10 seg. ) Cena 11: Ao som da mesma música aparece um cachorro caminhando lentamente. (5 seg.) Cena 12: Aparece agora o jornalista Ricardo Líper falando sobre a banda na fase antiga. Ouve-se ao fundo a música Hippies Urbanos. (10 seg.) Cena 13: Quando termina a fala abre-se o som e aparecem cenas de pessoas abandonadas, fome, etc. (20 seg.). Cena 14: Aparece outro integrante da banda falando sobre outras bandas da época. Ouve-se ao fundo partes da música Americanos Horríveis. (5 seg.) Cena 15: Aparece a banda Via Sacra tocando no Berinjela. (20 seg.) Cena 16: Aparece agora cenas do show do Teatro Nazaré enquanto ouve-se integrante da banda falando sobre o fim em 1984. Ouve-se ao fundo a música Poluição Cristã. (15 seg.) Cena 17: Aparece agora a banda no show do Teatro Nazaré até aparcer o vocalista com as costas pintada “É o Fim”. (20 seg.) Cena 18: Aparece agora um cachorro deitando...(5 seg.) Cena 19: Aparece um integrante da banda falando sobre a volta da banda em 2000. Ouve-se ao fundo a música A Mulher e o Tênis. (10 Seg.) Cena 20: Aparece agora a banda tocando a mesma música no Off Club. (20 seg.) Cena 21: Agora aparece um cachorro levantando-se enquanto ouve-se os primeiros acordes da música A Invasão. ( 5 seg.) Cena 22: Aparece a banda tocando a mesma música no Idearium. (10 seg.) Cena 23: 24 Aparece um integrante falando sobre a banda atualmente. (10 seg.) Cena 24: Volta para a banda concluindo a música. (10 seg.) Cena 25: Aparecem agora cenas de show no Quilombo Cecília. Aparece Lili fazendo alguma manifestação durante o show. Continua com cenas do mesmo show. (20 seg.) Cena 26: Aparece Lili falando que o Quilombo é o CBGB da Bahia. Em seguida aparecem imagens do show. (10 seg.) Cena 27: Aparecem agora imagens de show na Facom. Mostra-se Lili fazendo alguma manifestação. Volta para a banda tocando no mesmo show. (20 seg.) Cena 28: Aparece agora outro integrante da banda falando sobre o trabalho atual da banda enquanto ouve-se ao fundo a música Pátria Armada. (10 seg.) Cena 29: Abre o som da mesma música e mostra-se imagens de guerras, violência etc...(20 seg.) Cena 30: Aparece agora um cachorro caminhando lentamente, enquanto ouve-se os primeiros acordes da música Atitude Mental Positiva. (5 seg.) Cena 31: Abre o som da música e continua com o show de Arembepe. (20 seg.) Cena 32: Aparece agora imagens do Quilombo, com Lili falando algum manifesto. (10 seg.) Cena 33: Continua com a mesma música. (10 seg.) Cena 34: Aparece agora uma rajada de metralhadora. (5 seg.) Cena 35: Fusão de imagens de vários shows. Quilombo, Facom, Arembepe, Off Club, Idearium, Berinjela, Concha Acústica. (60 seg.) Cena 36: O Jornalista Ricardo Líper fala agora o que ele espera da banda atual. Ao fundo ouve-se a música Miseráveis. (10 seg.) Cena 37: Abre o som e passa a banda tocando a mesma música na Berinjela. (15 seg.) 25 Cena 38: Aparece agora Mosca falando durante o show do Berinjela. (10 seg.) Cena 39: Continua tocando a música Miseráveis e fundem-se imagens da banda e imagens de arquivo. (20 seg.) Cena 40: Aparecem agora os integrantes da banda falando sobre o futuro do grupo. fundem-se as falas com imagens de shows. (60 seg.) Cena 41: aparece agora um cachorro caminhando lentamente enquanto ouve-se os primeiroa acordes de Desarmar o Mundo. (15 seg.) Cena 42: Começa a passar o clipe da mesma música. (120 seg.) Cena 43: Aparecem os créditos finais em um lado da tela, enquanto no outro, alternam-se imagens de cachorros e da banda, em slow motion. Ao fundo ouve-se a música Animais. 26 8.3. Letras de músicas Desarmar o mundo para alimentar os povos Desarmar o mundo para alimentar os povos / Acabar país para desarmar o mundo / nacionalismo não! / para acabar fronteiras / Sem passaporte de livre trânsito / Sem inimigos para matar / para desconfiar / para enganar / Sem corrida armamentista preventiva, preventiva preventiva.... Atitude mental positiva Não se incomode com o que eles dizem / dane-se para o que eles fazem / nos temos uma atitude mental positiva / positiva positiva positiva... Todos os Homens Vingança nos seus olhos / vingança em suas mãos / vingança em sua mente / louca de ambição / cegos são seus olhos / sujas são sua mãos / podre é sua mente / em autodestruição / visão do homem moderno / de valores e confusão / visão de ameaças guerras e traição / visão de política, violência e devastação / violência nas esquinas / sem manifestação.... Animais Eles guardam o seu sono / você dorme tão ingênuo / escopetas, 38, bomba e gás lacrimogêneo / Animais, animais, animais / todos eles irracionais / animais, animais, animais / todos eles irracionais / violência, atrocidade, pau de arara e muito mais / animais 27