XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA ESCOLAR E IMPLICAÇÕES PARA O CURRÍCULO Maria Auxiliadora Elias Pontifícia Universidade Católica - PUC/SP O presente artigo baseia-se na investigação, “Violência escolar e implicações para o currículo: Projeto Pela Vida, Não à Violência - tramas e traumas”, concluída em 2009, que estudou um projeto educativo de prevenção à violência nas escolas desenvolvido na Rede Municipal de Ensino da Prefeitura de Santo André, no período de 1998-2004. O foco da pesquisa foram as implicações do projeto para o currículo escolar. A prevenção implica em adequar a educação às necessidades e condições concretas dos alunos, para que as crianças em situação de vulnerabilidade possam usufruir do direito à educação de qualidade, sentindo-se acolhidas e felizes. A prevenção implica em adotar uma gestão baseada na democracia participativa e em identificar e corrigir as várias formas de violência produzidas pela própria escola. Implica em trabalhar um marco teórico da violência escolar que ajude a fazer uma leitura adequada da realidade, a orientar e avaliar as estratégias de prevenção e em implantar um amplo e permanente programa de formação dos professores, funcionários, conselheiros, alunos e famílias. As implicações de tipo ético e pedagógico correspondem às exigências da prevenção, pois foi comprovado que a escola dificilmente poderá educar nos valores da convivência, diálogo, tolerância, direitos humanos etc., se a própria escola não os praticar. A prevenção implica, também, em manter uma equipe permanente, especializada, para dar apoio e orientação. Implica em adotar formas de resolução de conflitos. Implica, inclusive, em se articular nas atividades de prevenção com outros atores sociais e institucionais externos à escola, que não deve ficar isolada nessa tarefa. Palavras-chave: violência escolar, projetos de prevenção à violência escolar, currículo. Introdução O presente artigo, com base na pesquisa realizada pela autora intitulada Violência escolar e implicações para o currículo: o projeto pela vida, não à violência tramas e traumas (2009), tem a intenção de abordar o tema da violência escolar, sua prevenção e as possíveis repercussões para o currículo. De uns tempos para cá a questão da violência vem ocupando a pauta de discussões de variadas reuniões pedagógicas em diversos níveis, mas frequentemente fica resumida às constatações de simples queixas das violências acontecidas, sejam provenientes dos alunos, dos professores, ou dos funcionários. Estas têm sido, muitas vezes, deixadas de lado pela educação, por serem consideradas questões estranhas ao currículo, ou mesmo por se tratar de assunto que parecia estar além do conjunto dos conteúdos e das disciplinas a serem ensinadas e aprendidas, enfim, sem a compreensão de que poderiam ser tratadas no âmbito pedagógico. Por esse motivo, o tratamento dos problemas da violência costumava, ou costuma ser remetido a agentes externos à escola. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006166 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 Dentro de uma perspectiva que integra a prevenção da violência e a educação da convivência, tentar-se-á, do ponto de vista teórico, recolher algumas contribuições que nos ajudem a compreender e conceituar algumas das faces da violência e seu tratamento no âmbito pedagógico. Esses conceitos possibilitam estabelecer ligações e reflexos diretos e às vezes indiretos ao trabalho educativo no âmbito da escola, repercutindo no currículo escolar. Espera-se que estas reflexões possam explicitar algumas questões que afligem a todos, suscitando a necessidade de problematizar a realidade, através de debates e estudos para a busca de pistas na direção da resolução de problemas que se manifestam no cotidiano escolar. Assim sendo, serão apresentados, em um primeiro momento, alguns conceitos esclarecedores sobre a violência que encaminham para a necessidade de um trabalho educativo na linha da prevenção. Em um segundo momento, para que possa haver a discussão articulada com o currículo, será sinalizada a perspectiva teórica adotada também deste conceito em particular. Por último, são elencados oito passos a serem considerados na elaboração de um plano de prevenção da violência, como parte integrante do Projeto Político Pedagógico da escola que certamente constituem implicações para o currículo. Do conceito de violência Dentre a literatura pertinente, selecionamos, quatro referenciais sobre o conceito de violência, de significativa aplicabilidade à prevenção da violência escolar. O primeiro conceito de violência que iremos destacar refere-se ao de Galtung: “Violência significa danar e/ou ferir (GALTUNG, 2003: 9). Essa breve definição de Johan Galtung, como ponto de vista inicial para começar uma (re) construção do conceito de violência, abre a porta de entrada para a compreensão de uma ação muito geral da violência a de “ferir”, que pode transitar em diversos fenômenos da violência com propriedades explicativas. Essa definição pode ser vista como um traço descritivo da ação da violência, daquilo que a violência faz, de algo intrínseco à sua natureza, em um grau muito amplo de generalidade. Ao mesmo tempo, pode retratar, também, os efeitos, os resultados, as consequências daquilo que acontece na maioria das manifestações de violência em meio escolar: alunos feridos de diversas formas, física, psíquica, moral, emocionalmente ou em suas posses, seus projetos, suas capacidades, seus direitos, sua dignidade. Um outro aspecto, apontado por este autor, do conceito de violência aponta para as ações de força que impedem aos seres humanos de realizarem seu projeto de vida. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006167 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 Nesse sentido, é especialmente significativo o destaque a um dos conceitos mais originais de Galtung a respeito da violência, aquele que caracteriza a violência como a diferença evitável entre o desenvolvimento potencial e o desenvolvimento atual ou real de um ser humano. Tomamos aqui como exemplo, uma criança ou um jovem. Segundo Galtung, há violência naquelas situações em que o desenvolvimento efetivo de uma pessoa, em termos físicos e espirituais, resulta inferior a seu potencial. Deste modo, a violência é definida como a causa da diferença entre a realidade e a potencialidade (GALTUNG, 1975, apud GARCIA MENDEZ, 1994: 80). Esse conceito fica exemplificado por Galtung da seguinte forma: Se uma pessoa morresse de tuberculose no século XVIII, dificilmente a isso poder-se-lhe-ia considerar violência, pelo fato de ter sido uma morte inevitável, mas se morre da mesma doença hoje, apesar dos recursos médicos que há contra essa doença no mundo, nesse caso a violência está acorde com nossa definição (…). Noutras palavras, quando o potencial é superior ao atual, a diferença é por definição evitável, e quando é evitável, então a violência está presente (Grifos do autor. GALTUNG, 1975, apud SOLS, 1994: 5) O entendimento da violência como a causa da diferença entre o desenvolvimento potencial e o desenvolvimento real possui fortíssima relação com a violência escolar e os projetos educativos da convivência. Essa relação se fundamenta em que uma das convicções mais arraigadas entre os grandes teóricos da educação consiste, precisamente, em entender o desenvolvimento das potencialidades da criança, do adolescente e do jovem como uma das finalidades mais relevantes da educação. Ademais, esse conceito de educação dialoga com a orientação proposta na Declaração Universal dos Direitos Humanos para a educação enquanto direito humano: Artigo XXVI. 1. Todo ser humano tem direito à instrução. (...) 2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. (ONU, 1948.) No Brasil, de forma semelhante, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei Nº 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, em seu artigo 2º trata das finalidades da educação como o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Dessa forma, em relação aos programas educativos de intervenção e prevenção da violência, destaca-se na definição de Galtung, a formulação de um conceito que sintoniza o problema com a educação e que se expressa em linguagem familiarmente educativa. Ideal, então, para ser utilizado como base teórica de referência no meio Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006168 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 escolar. Ao mesmo tempo, a introdução da característica de evitabilidade na concepção da violência permite imaginar a possibilidade da sua superação e o papel singularmente decisivo que corresponde à educação. Outro conceito, muito significativo, está compatível com a visão de educação como forma de prevenção, redução ou superação da violência, é a definição de violência adotada pela Organização Mundial da Saúde – OMS. No Relatório Mundial sobre a Violência e a Saúde descreve-se a seguinte definição de violência: O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”. (OMS, 2002, 5). Esse conceito da OMS é significativo porque situa a violência desde a perspectiva da sua redução e dentro do marco de ações ou políticas públicas, dentre elas a educação. Nesse sentido, aqui se defende, também, que as atividades educativas possuem alta potencialidade para prevenir a violência e educar na convivência. Um terceiro conceito de violência escolhido para a presente reflexão procede de Yves Michaud. Ele se propôs elaborar uma definição de violência suficientemente ampla para referir-se aos diferentes fenômenos de violência, concebendo-a da seguinte forma: Há violência quando, em uma situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou a mais pessoas em graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais. (MICHAUD, 1989: 11) No conceito de violência de Michaud encontramos diversos aspectos que ajudam a dar um significado ao que queremos aqui destacar. Mantendo o núcleo da natureza da violência (“causar danos”), a definição introduz o aspecto do contexto (situações de interação) dentro do conceito de violência, o que se revela de particular importância para as ações interventivas, preventivas da violência e educativas da convivência. Tratase do reconhecimento de que a violência resulta da interação em contextos diferentes, que vai desde o contexto do indivíduo e família, escola, bairro, até contextos nacionais e globais. Assume-se que as ações interventivas ou preventivas devem ser realizadas atuando nesses contextos, como recomendam as recentes orientações de prevenção da violência. Fundamenta-se aqui a estratégia de atuação integrada da escola com outros atores da sociedade nas ações de prevenção da violência. Desse conceito de Michaud pode ser destacada, também, a complexidade e interação das causas da violência: “um ou vários autores agem de maneira direta ou Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006169 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 indireta, maciça ou esparsa”, assim como as diferentes intensidades da mesma (“graus variáveis”). As implicações para os programas escolares de prevenção da violência, derivadas dessa realidade apontam para a conveniência de adoção de um conjunto de ações, propostas e atividades integradas. O conceito de Michaud inclui, também, a violência de tipo moral e cultural, o que não deve ser esquecido. Em relação à ação violenta, Michaud distingue dois tipos: violência em “ato” e violência em “estado”, que podem ser particularmente significativos para a prevenção da violência na escola. Nas situações em que é possível a identificação da origem física dos danos causados pela violência, como no caso de “matar”, nos encontramos diante de ato de violência. Mas, também é possível “deixar morrer de fome ou favorecer condições de subnutrição” (MICHAUD, 1989: 11). Quer dizer, há situações em que a violência atua, mas é muito difícil rastrear seus fluxos e indícios. Assim acontece em todas as variadas formas de atuação da violência originadas em conseqüência de relações sociais de dominação, de exclusão econômica ou de privação das necessidades básicas do ser humano, como alimentação, saneamento, moradia, acesso aos serviços de saúde e educação, etc. O conceito de violência escolar Mais do que uma categoria ou especificidade da violência em geral, é necessário ressaltar, de início, que a expressão “violência escolar” engloba uma multiplicidade de fenômenos diversos, que, frequentemente, se apresentam juntos, misturados, embaralhados. A violência escolar é uma constelação. Vejamos, por exemplo, a definição de violência escolar de Serrano e Iborra: qualquer tipo de violência que se dá em contextos escolares. Pode ir dirigida para alunos, professores ou propriedades. Esses atos acontecem nas instalações escolares (aula, pátio, banheiros, etc.), nos arredores do centro escolar e nas atividades extra-escolares. (SERRANO, 2007: 82) Desse conceito podemos destacar vários aspectos importantes. O primeiro refere-se à enorme variedade ou diversidade de fenômenos que abarca a violência escolar: “qualquer tipo de violência”. Em seguida faremos um esforço para ordenar e classificar essas mil caras da violência escolar, mas antes continuemos anotando outra questão muito relevante para caracterizar a violência escolar. Observemos que a definição acima teve todo o cuidado do mundo para não falar “qualquer tipo de violência que se dá” na escola, mas enfatizar que se trata de qualquer violência que acontece nos “contextos escolares”. A violência escolar pode ocorrer, então, dentro dos muros da escola, nos seus diversos espaços incluindo sala, banheiros, Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006170 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 corredores, pátios, etc., mas também pode haver violência escolar nos arredores da escola, no bairro, nas ruas, no centro comunitário, na quadra esportiva, no baile funk... Quanto às pessoas na condição de agentes ou de vítimas de violência vejamos que a violência escolar pode estar endereçada ou envolver qualquer pessoa que tenha vínculo direto ou indireto com a escola: alunos, professores, funcionários em geral, familiares de alunos, conselheiros, representantes da comunidade local... Essa concepção de violência escolar apresentado corresponde a um tipo de conceito que podemos chamar de demarcatório ou descritivo. Ele nos diz tudo o que deve entrar na categoria violência escolar, referindo-se, então, às classes ou tipos de violência escolar, aos lugares ou locais onde acontece e às pessoas ou instituições envolvidas. A enorme diversidade de violências que podem ser objeto de tratamento preventivo/educativo é susceptível de ser classificada conforme indicações a seguir: TIPOS DE VIOLÊNCIA QUE A ESCOLA PODE E DEVE PREVENIR (Elaboração própria a partir de autores vários): 1. As violências externas à escola, que deixam feridas nos alunos Homicídios Feridas não mortais: para cada homicídio há entre 20 e 40 vítimas não mortais que recebem tratamento nos hospitais. Maus-tratos ou abuso: físico (com lesões corporais), psicológico (rejeição, depreciação, etc.), social (prostituição infantil, trabalho infantil, tráfico de crianças, etc), abuso sexual, negligência (omissão, abandono). Agressões físicas de todo tipo e insultos, ameaças, preconceitos, etc. As feridas deixadas pela violência estrutural, econômica, social, institucional, urbana, como desnutrição e fome, pobreza, exclusão... As marcas deixadas pela cultura da violência na psique e comportamentos dos adolescentes. 2. A violência na escola: Massacres e chacinas Homicídios Suicídios. Bullying (o bullying pode incluir os seguintes tipos de violência) o Exclusão social – Ignorar, não deixar participar, insultar. o Agressão verbal - Colocar apelidos ofensivos, falar mal de outro nas suas costas. o Agressão física indireta – Esconder, roubar ou quebrar coisas da vítima. o Ameaças - Bater, ameaçar somente para causar medo, obrigar a fazer coisas com ameaças (chantagem), ameaçar com armas (faca, pau, etc.). o Acosso sexual - Acossar sexualmente com atos ou comentários (ESPAÑA. DEFENSOR DEL PUEBLO, 2007: 23) As violências acima, sem as características de bullying As violências perpetradas por gangs ou bandos, O comércio e tráfico de drogas Cyberbullying (vários tipos) e happy slapping Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006171 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 Indisciplina, Absenteísmo Disrupção das aulas. 3. A violência à escola Depredações, Quebras ao patrimônio da escola, Vandalismo, Qualquer tipo de violência de alunos/as aos professores e funcionários. 4. A violência da escola Autoritarismo da direção, do corpo docente, e dos funcionários Dominação institucional mediante elaboração e aplicação de normas Princípios pedagógicos que desrespeitam a cidadania e os direitos, Princípios pedagógicos que contrariam a condição dos alunos como sujeitos do aprendizado. Relação de dominação mediante currículo oculto Não atingir a universalidade de educação prevista naquela sociedade Não atingir o nível e a qualidade de educação estipulados Não cumprir a finalidade da formação do desenvolvimento pessoal e cidadão dos alunos. Não conseguir preparar adequadamente para inserção no mercado de trabalho 5. As violências que perpassam (ou podem perpassar) todas as outras Violência de gênero, sexismo, machismo, Racismo, Homofobia (preconceito e/ou ódio contra homosexuais), Violência, discriminação e preconceito contra alunos/as com deficiência As violências acima, sem as características de bullying As violências perpetradas por gangs ou bandos, O comércio e tráfico de drogas Violência, preconceito ou discriminação por motivos religiosos, pela aparência, pela condição econômica, pelo local de nascimento ou procedência, etc. Situando o conceito de currículo escolar. Dado que a discussão sobre o currículo é de grande amplitude, destacaremos alguns aspectos que nos parecem de especial importância para o tema que nos ocupa. O conceito de currículo, segundo Padilha (2004:117), não deve ser restringido à lista de conteúdos e disciplinas a serem ensinadas-aprendidas e deve se situar para além de seu caráter prescritivo. Assim, remetê-lo-emos a tudo que se passa na escola. Desta maneira será dispensado um possível olhar inocente sobre o currículo, já que ele deve ser tratado e visto em um grau intenso de complexidade. Dada essa amplitude de se olhar e apreender o currículo pode-se pontuar que: Currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forja nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade. (SILVA apud PADILHA, 2004: 124). Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006172 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 Nesse sentido, deve-se notar que as práticas violentas não somente podem como devem, ser, também, objeto de atenção e tratamento curricular. Durante algum tempo, esteve-se envolvido em uma cultura escolar/educacional em que eram (ou talvez ainda o são) os “especialistas” em currículo que deveriam fazer as escolhas curriculares a serem cumpridas pelas escolas (PADILHA, 2004). Frente a essas práticas, deve-se frisar que cabe aos protagonistas da relação de ensinoaprendizagem um papel ativo na elaboração do currículo a ser implementado na prática em cada escola. Este princípio possibilita que a necessidade de prevenção da violência em cada escola possa ter um tratamento curricular. Nessa perspectiva, tanto a Constituição Federal de 1988, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394/96, contemplam a necessidade de elaboração, pelas escolas, de sua proposta pedagógica. Por sua vez, também os Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio) indicam recomendações na direção de que sejam incluídos temas e problemas relativos à conflitividade e à violência. Para tanto, uma outra recomendação, de acordo com Flavia Schilling (2004), refere-se à necessidade de se re-ocupar os espaços das escolas, o espaço que é do professor, do diretor, do assistente pedagógico ou coordenador, dos alunos, das famílias, do funcionário, do supervisor... Há que se preencher, urgentemente esses vazios para se iniciar o diálogo em torno do Currículo, em torno dos temas, como o da violência, que tanto aflige o interior das escolas. A participação na elaboração e implementação do currículo torna-se, então, aspecto essencial. Mas a ela faltará um pé se não incluir diversas formas de participação efetiva dos alunos. Essa questão aponta para a necessidade de ouvirmos e reconhecermos quem são os nossos alunos e os seus verdadeiros dramas. Assim sendo, por mais que queiramos discutir um assunto por considerarmos de grande relevância para a formação, há que se garantir um espaço de escuta tanto para professores, quanto para alunos para que a escola possa resgatar de fato o autentico significado do processo educativo na direção do processo de humanização de todos. Implicações para o currículo A seguir serão apresentados oito aspectos, todos com apoio teórico, que se apresentam como concretizações das implicações da prevenção da violência escolar para o currículo. 1. Elaboração de um conceito de violência que oriente as ações de prevenção. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006173 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 Um projeto de prevenção deve ter um conceito de violência que sirva de referência. Devem ser feitas pesquisas-diagnóstico sobre as diferentes violências existentes, incluindo pesquisa sobre as apreciações subjetivas da violência por parte da comunidade escolar. Provavelmente haverá de ser necessário muito diálogo sobre possíveis conceitos de violência conflitantes, através do desenvolvimento de iniciativas variadas de reconhecimento de atitudes violentas no cotidiano escolar, realizando oficinas com os vários segmentos que compõem a comunidade escolar, elaborando pesquisas e atividades condizentes a propdução de diagnóstico da violência escolar e establecendo formas de reflexão e aprendizagem sobre os casos concretos de violêndcia acontecido. 2. Adoção de um modelo de gestão escolar baseado nos princípios da democracia participativa. A democracia supõe numa forma pacífica de resolver conflitos. Daí que seja necessário adotar na unidade escolar variadas formas de participação: Conselhos de Escola; Conselhos mirins, Grêmios estudantis, Comissões de trabalho, tendo em vista a elaboração coletiva (envolvendo os vários segmentos da escola) do Projeto Político Pedagógico, das normas de convivência, da constituição de formas não-violentas de resolução de conflitos, etc. Essa implicação para o currículo relativa à necessidade de participação democrática na escola reveste-se de uma importância singular, pois sem ela ficam comprometidas outras medidas típicas de prevenção da violência escolar como a mediação de conflitos entre alunos/as e a elaboração de normas a partir dos princípios pautados na Declaração Universal dos Direitos Humanos e a educação em valores. Estes valores que somente são assimilados e praticados se forem vivenciados. Dessa forma, é difícil e notoriamente incongruente uma escola pretender educar na convivência e continuar sendo autoritária e excludente. 3. Criação de uma estrutura para o Projeto Preventivo e elaboração das orientações gerais de prevenção e intervenção Manutenção de uma equipe permanente do projeto preventivo que sirva de apoio para a as escolas. Esse é, também, um fator que traz implicações para o currículo, na medida em que se apresenta como um instrumento de suporte representando uma equipe preparada para atuar quando necessário. Apontam-se desta forma: os plantões de serviços de atendimento à ocorrências de violência; a construção de um fluxo dos encaminhamentos diversos em relação aos diferentes fenômenos de violência; as Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006174 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 orientações em relação aos sinais e pistas de reconhecimento de crianças, adolescentes e jovens vítimas de violência, bem como aos procedimentos de cuidados para as vítimas de violência e a disponibilização de meios e recursos permanentes para atuação dos educadores (as) e da equipe do projeto. 4. Formação na perspectiva da prevenção da violência escolar Prevenir a violência escolar implica em desenvolver amplos programas de formação, da maior abrangência, profundidade e regularidade possível. Nesse sentido, aos Projetos de Prevenção recomenda-se a realização de atividades diversas. Incluindo o desenvolvimento de atividades extra-classe, obviamente com o envolvimento de todos os alunos, mediante campanhas várias, conseguindo espaços na mídia, e realizando atividades lúdico-pedagógicas na cidade. Percebe-se essas atividades significativas para o alargamento do espaço educativo da escola e do currículo, revelando inovações educativas interessantes. Um outro fator importante na prevenção, refere-se às atividades de formação com professore/as, funcionários/as, membros dos conselhos de escola e famílias. Os professores/as são extremamente importantes para que os projetos de prevenção da violência dêem certo. A formação deve ser permanente, não apenas porque os fenômenos da violência são complexos e dinâmicos, mas também, porque continuamente chegam novos professores, que, possivelmente, trazem concepções sobre a violência escolar pautadas pelo senso comum ou a mídia, que podem pôr em perigo os avanços realizados. De um modo geral pode-se sintetizar para a realização da formação, no âmbito do Projeto de Prevenção: ações de sensibilização e divulgação do Projeto; elaboração de campanhas, eventos e divulgação na mídia; a adoção de um programa de formação para a comunidade escolar nos temas inerentes à situações de violência escolar e da educação da convivência e da paz; e sobre formas cooperativas de aprendizagem. 5. Atividades culturais e de lazer As atividades culturais e de lazer constituem uma implicação bastante significativa para o currículo no trabalho da prevenção e aponta para a possibilidade da realização de atividades culturais e de lazer com vistas a propiciar a aproximação e interação das pessoas consigo mesmas e com os demais de forma lúdica, descontraída, em que o direito à diversão apareça. Oportunidades essas que possam contribuir para o fortalecimento da identidade cultural local e para o processo educativo. 6. Adequações do Espaço Físico e medidas de segurança Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006175 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 A arquitetura das escolas (o espaço físico, a forma com que são projetados e construídos os prédios, a distribuição dos espaços) é reveladora de formas de convivência e deve estar em sintonia com o propósito do trabalho de prevenção à violência escolar. Enquanto às necessárias adequações do espaço físico como implicações para o currículo, cabe mencionar também o desenvolvimento de uma concepção de apropriação comunitária do espaço da escola, que possa contrastar com a concepção de que muros altos, ou a instalação de grades no intuito de se garantir a sensação de segurança. 7. Articulação com agentes externos à escola A articulação com agentes externos à escola é considerada pela teoria como uma das principais medidas para a prevenção da violência escolar e deve fazer parte da raiz de qualquer projeto de prevenção, na perspectiva de um trabalho em rede envolvendo: famílias; representantes/promotores de políticas públicas (nas três esferas de governo); representantes da Vara da Infância e Conselho Tutelar; representantes das polícias (Guarda Municipal, Polícia Militar, Bombeiros); representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), representantes da Comunidade Local/Bairro/ONGs (Organização Não Governamental). 8. Adoção de formas de avaliação do Projeto A adoção de formas de avaliação é, também, uma atividade essencial aos projetos de prevenção da violência escolar, que podem, assim, ir monitorando suas atividades. Avaliar para possibilitar a aferição de resultados na prevenção da violência no âmbito educacional e ao mesmo tempo contribuindo para a orientação/reorientação das ações de prevenção. Conclusão De um modo geral, quando se olha para o conjunto das implicações para o currículo, conclui-se que assumir um tratamento da violência escolar desde a escola pressupõe uma forte mudança da concepção e das práticas educativas. Ou seja, acolher a prevenção da violência escolar e a educação da convivência no currículo exige uma nova escola que consiga, em primeiro lugar, fazer com que o grande número de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade no Brasil, possam ser tratados como sujeitos de direito e aceder a uma educação de qualidade que desenvolva suas potencialidades, os prepare para as condições de vida adversas que provavelmente terão e possam completar seus estudos. Sem dúvida, essa é Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006176 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 12 a melhor forma de preservar as vidas de crianças, adolescentes e jovens hoje no Brasil, uma vez que o perfil de homicídios nessa faixa etária corresponde ao de crianças que abandonaram a escola em idade escolar e dificultaram enormemente uma via convencional de sobrevivência. Pelo contrário, não acolher a prevenção da violência escolar no currículo, continuar entendendo que seja possível centrar-se unicamente nas disciplinas tradicionais de estudo, como se fosse possível fazê-lo ignorando as condições de vida das crianças, adolescentes e jovens significa contribuir com a reprodução da violência no Brasil, que destrói numerosas vidas e fere tantas outras, comprometendo sua existência futura. Referências bibliográficas: OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (2002) Relatório Mundial sobre Violência e Saúde. 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