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A violência nos meios de comunicação e sua influência nos adolescentes,
enquanto sujeitos sócio-históricos nos espaços de aprendizagem
Maria Adalgiza Albuquerque Succi , Professora de sociologia da Faculdade
Guararapes, psicopedagoga e mestra em Gestão de políticas públicas
Resumo
Este artigo consiste em discorrer sobra a mídia comunicacional, especificamente a televisiva e a internet,
e sua influência sobre os adolescentes, relevando à violência, numa perspectiva dialógica. Assim
questiona-se sobre, como esta mídia televisiva e virtual poderá ser processada por esses jovens enquanto
sujeitos sócios históricos, formadores e construtores de seus valores e linguagens, num processo de
relação compartilhado com outros jovens, influenciados pelas mensagens recebidas, olhadas e ouvidas.
Como agir e reagir frente à violência transmitida pelo vídeo, como irão interagir mediante os games
violentos da net e, agora, da televisão, qual serão as suas ações e reações posturais desta geração,
mediante essas experiências sócias culturais da contemporaneidade. O artigo pretende levar a uma
reflexão sobre a relação do adolescente com a violência, num trabalho que propicia a compreensão de
modo interativo de como o adolescente está decodificando as mensagens imagéticas televisivas. Esse
tema não se esgota em si mesmo, mas continua aberto a todos possam se interessar por ele.
Palavras-chaves: adolescentes, linguagem, valores, mídia, violência
Abstract
This article is to discuss the communication media, particularly television and the Internet, and its
influence on young people, relief to violence, in a dialogic. So wonders about, such as television and
virtual media can be prosecuted for these young people as partners historical subjects, trainers and
builders of their values and languages, in a process of relationship shared with other young people,
influenced by messages received, viewed and heard. How to act and react to violence ahead transmitted
by video, as will interact with the violent games on the net and, now, the television, which will be its
actions and reactions posture of this generation, through these experiences of contemporary cultural
partner. The article aims to take a reflection on the relationship of adolescents with violence, a job that
provides an understanding of interactive mode of how the adolescent is decodificando messages
television imagery. This issue does not end in itself but remains open to all may be interested in him.
Key-words : teenagers, language, values, media, violence.
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Introdução
Este artigo se propõe a falar sobre a violência nos meios de comunicação e sua influência
nos adolescentes, enquanto sujeitos sócio-históricos nos espaços de aprendizagem.
Assim, mediante leituras efetuadas, tem-se já evidenciado a televisão, como o mais
poderoso meio de comunicação de massas do século XX, quanto aos elementos que veicula e tendo-se em
vista o alvo coletivo virtual. Ela seria uma espécie de liquidificador cultural, capaz de diluir cinema,
teatro, música, literatura, tudo em um só espetáculo, fornecendo assim uma reforçada vitamina eletrônica
para o público.
A televisão ultrapassa a condição de um eletrodoméstico. O seu surgimento é uma conquista
e,ao mesmo tempo,uma revolução do meio eletrônico, porque associam recursos cinéticos (vídeo tape,
videocassete, gravadores, multimídia, reprodução eletrostática), recursos técnicos de comunicação e
contato (telefone, mp3); recursos audiovisuais, propiciando o contato entre regiões distantes, culturas
diversas, fazendo emergir formas comunicacionais que já se impunham diante da pressão dos
descobrimentos e expansões posteriores à Revolução Industrial.
Reproduzindo a sociedade, através da valorização do sofrimento e da confirmação de certas
práticas mais radicais, a TV legitima uma ação punitiva extralegal. Se o xerife liquida o contraventor,
descarregando nele as balas do seu revólver, a função exemplar da TV irá, da mesma forma, confirmar o
“pequeno xerife do bairro” em seu desejo de eliminar os assaltantes e estupradores. Tampouco aqui ela
está produzindo violência; está, na verdade, liberando a violência represada pelos mecanismos sociais.
Nessas duas reações esperadas e conhecidas dos telespectadores: naturalidade em ver a
prática da violência na TV como punição para “endireitar” sujeito e reforço de sua própria ação violenta
dentro de casa, na rua, no trabalho. E a TV não escondendo que a sociedade seja violenta, ela a reproduz
inteiramente. Em ambos os casos,trata-se de atos que se realizam na esfera individual preservando os
valores e normas do indivíduo, apesar de retratar a violência estrutural.
Há também a violência revolucionária, porém, rejeitada por grande parte das massas, pois
atinge um âmbito muito mais profundo que as outras formas de violência convencionais: ela questiona as
bases de legitimação, inclusive da violência cotidiana.
Enquanto a violência menor, a da TV, a do dia-a-dia, sempre restabelece a serenidade
através de suas formas indiretas - humor (violência figurada), esporte (descarga de agressividade),
telejornal, telenovela, shows - a violência maior, contra o sistema, atemoriza os telespectadores por retirar
deles o domínio do código: ao exigir uma reestruturação da sociedade, exigir também uma reciclagem
individual e, consequentemente, ameaça o cotidiano, local onde as pessoas encontram as bases da suas
confirmações enquanto sujeitos sociais. As massas aderem ao projeto revolucionário quando a situação
geral é tão caótica que não há mais esperanças de salvação das bases, sem apoio anterior. Só assim partem
para a mudança radical do sistema muitas vezes empurrada pela mídia.
Mesmo assim, a televisão é um entretenimento de sala de estar: já foi chamada de tudo,
desde pajem de crianças até esbanjadora de tempo, tem sido amaldiçoada por estragar a vista e corromper
a juventude, tem sido encarnada como o mal da segunda metade do século. Mas ninguém a acusou de ser
“entretenimento”, ainda que isso seja tudo o que a televisão é „per si‟.
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O tema de violência nos meios de comunicação não se limita à mídia ficcional e de
divertimento. Os efeitos potencialmente danosos à sociedade também não se esgotam nos filmes mais ou
menos sanguinários. A informação jornalística também contém forte carga de conteúdo de violência. Só
que, nesse caso, o componente ficcional está mascarado por uma aparência de objetividade e informação.
Os conceitos apresentados não se chocam, antes se completam. O conceito de Meyerson
(199-) pode até ser estendido:
“ a televisão é o maior entretenimento de sala de estar, no Brasil. Qualquer
casa brasileira de classe média tem o seu aparelho de TV localizado
justamente nesse recinto, quando não na sala de visitas ....”
Mesmo assim, sendo um mero entretenimento, o tema da apresentação da violência nos
meios de comunicação gera polêmica. Muitas vezes, com o pretexto ético de discutir ou, em alguns casos,
impor quais as “reais funções da mídia”, o debate é alimentado por atores sociais com interesses
específicos de diversas naturezas: econômica (empresários de comunicação, anunciantes, publicitários),
política (profissionais e não profissionais que se posicionam sobre o tema visando proveitos políticos),
acadêmica (pesquisadores interessados em descobrir os efeitos sociais próprios deste ou daquele „bem‟
informativo ou ficcional), de competição entre os profissionais da mídia, etc.
Os argumentos que acabam ocultando os interesses em jogo são variados, e, não raro, se
servem de interpretações deformadas de pesquisas científicas. A rigor, eles se resumem numa contradição
aparente: de um lado, os meios de comunicação, para alguns, devem ser um espelho da realidade e,
portanto, a violência apresentada é apenas um reflexo do meio social em que a mídia se encontra. Assim
se posicionam, muitos dos porta-vozes das empresas de comunicação.
Em sentido contrário, sustentam outros que a seleção de temas operada pelos produtores da
mídia informativa e ficcional, em muitos casos, “banaliza a violência”, ou seja, legitima a violência
física como forma de solução de conflitos e, portanto, produz uma sociedade ainda mais violenta.
Assim,fica uma verdadeira salada ideológica e quando se tenta achar o cerne de questão da
violência apresentada e assistida pela senhora televisão encontra-se essa gelatina envolvente das diversas
correntes de pensamento.
Pontos relevantes da questão em pauta
Falando de violência, o primeiro ponto que deve chamar atenção é o fato de que existem
diferentes noções de violência. Ou melhor, o que cada grupo entende como violência varia, mesmo
dentro do próprio grupo, de adolescentes.
O segundo é que a violência é sempre uma forma de poder. De fato, em nossa sociedade,
enquanto o Estado e as classes hegemônicas têm como recurso uma série de estratégias identificadas
como não violentas de poder, ao dominado ou aos grupos subalternos, o exercício da violência em sua
forma física - o roubo, o homicídio, o estupro - é possivelmente a única forma de poder dos grupos menos
favorecidos.
Em terceiro lugar, é necessário observar que existem ainda outras formas de violência e nem
sempre a violência explícita, a violência psíquica, é a forma mais perversa de violência. A sociedade,
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cultivara várias formas daquilo que os sociólogos, chamam de violência simbólica, que pode ser definida
como a internalização, por parte daquele que sofre a dominação, a necessidade desta dominação e o
reconhecimento de um papel necessariamente subalterno e passivo.
Para Bourdieu, é esta força propriamente simbólica que permite a força exercer-se
plenamente, fazendo-se desconhecer enquanto força e fazendo-se reconhecer, aprovar, aceitar, pelo fato
de se apresentar sob a aparência de universalidade - a da razão e da moral.
O jornalista e crítico de TV, Eugênio Bucci, chama a atenção para o fato de a violência no
vídeo estar muitas vezes invisível, para além dos socos e bofetões: "mesmo parecendo suave como um
anúncio de xampu, a televisão pode representar uma escola de violência por deixar em carne vivo os
abismos sociais que divorciam os homens. Os jovens que se vêem expulsos desse paraíso retratado pelas
cenas coloridas da programação segregados da „cidadania‟ que pode ser comprada, podem insurgirem-se
de forma violenta contra os privilegiados. Tomando à força o que o mercado não lhes permite adquirir".
Esta é uma questão real e atual, embora raramente contemplada.
Está claro que estas posições relativistas e relativizadoras, são parte constitutiva do fazer
sociológico, quando não se trata de simples exercícios acadêmicos, podem facilmente se tornar, no
mínimo, posições eticamente indefensáveis.
Então como compreender esta relação do adolescente, nesse estreito convívio com esse
objeto da modernidade, instrumento cultural, que está trazendo mudanças significativas em sua forma de
pensar ?
Poder-se-á cogitar que, segundo Vigotsky, as funções mentais superiores são uma
construção cultural, isto é, elas se constituem a partir das relações entre pessoas. O conhecimento se
realiza primeiro entre pessoas para depois se constituir internamente:
“O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de
outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de
desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história
individual e história social” (VIGOTSKY, 1991, p. 33)
As interações com o contexto social são importantes neste sentido. Daí à relevância do tema,
a urgência da reflexão sobre o mesmo.
O fenômeno da globalização na televisão, afeta o campo da comunicação e
consequentemente o cotidiano e suas relações. Essa mudança não pode deixar de ter sua influência sobre
a organização cognitiva do homem, e, sobre o seu pensamento. Na perspectiva da teoria
vigotskyana,pode-se reconhecer uma relação complexa entre história enquanto mudança e história
enquanto desenvolvimento humano.
Segundo Scribner, citada por Wertsch (1998), na história Vigotsky deu especial ênfase às
esferas simbólico-comunicativas da atividade na qual os humanos coletivamente produzem novos meios
para regular o comportamento.
Assim, percebe-se,nesse trabalho, que é possível se tentar compreender o contexto sóciocultural em que vivem os adolescentes, suas relações, desvendando suas práticas enquanto sujeito
aprendizes e construtores de suas histórias, influenciados pela mídia televisiva num sentido modificador
da atual e para a atual sociedade.
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Reflexões sobre essa violência
Então, ao se tomar individualmente, há pouco de aproveitável em cada um desses argumentos
propostos acima. Ver-se-á, num primeiro momento, que os meios de comunicação nunca são um espelho
da realidade e, na seqüência, os limites dos efeitos sociais produzidos pela violência na mídia, são na
verdade resultado de conflitos internos e camuflados de uma sociedade desigual. E, num terceiro
momento, tentar-se-á articular o discurso dos adolescentes enquanto sujeitos, sujeitados aos efeitos da
influência direta da mídia, através de suas falas dialógicas. Vê-se apenas uma reprodução de modelos das
visões imagéticas internalizadas.
Embora sabe-se que: a violência na mídia é sempre ficcional. Não há dúvida de que, quando se
pensa em violência nos meios de comunicação, imediatamente dois tipos de produto requerem análise
mais atenta: a ficção adulta e infantil, apresentada em telas grandes e pequenas (mídia de divertimento), e
a informação jornalística (mídia informativa), cada vez mais rica em ocorrências violentas sempre com a
desculpa de informar mais e melhor, nunca propondo soluções e ou questionamento mais palpáveis.
A violência na mídia de divertimento. A violência como espetáculo de divertimento não é uma
especificidade dos meios de comunicação. A antropologia nos ensina que, nas sociedades ditas primitivas,
os combates físicos entre homens e animais, e entre homens de grupos distintos, constituíam-se em rituais
em que o aspecto religioso e sagrado (instituição de poder, exorcização de todos os males, etc.) se
confundia com a dimensão da diversão propriamente profana.
A ficção no jornalismo informativo. O argumento de que os meios se limitam a retratar uma
realidade violenta e, portanto, atendem a uma demanda social informativa de conhecimento da realidade
faz parte de uma luta própria ao campo jornalístico de legitimação de um determinado tipo de produto (de
forte conteúdo policial) e da deslegitimação dos jornais televisivos tradicionais. Dessa forma, procura-se
impor como a “real função” do jornal televisivo a apresentação de um tipo de produto, supostamente
mais próximo “da realidade dos fatos.”
Ao reivindicar para si a prerrogativa de “ mostrar a vida como ela é”, de forma exclusiva,
procura-se imputar aos demais produtos concorrentes uma artificialidade, decorrente da falta de
coincidência com o real, com a vida, com o que realmente acontece.
Sendo assim, trabalhar com adolescentes, num ângulo da perspectiva sócio- histórica, a qual
os considera como sujeitos históricos, datados, concretos, marcados por uma cultura (Freitas, 1996) os
leva a pensar, agir e reagir mediante seus convicções fazendo sua própria história acontecer, onde a
violência passa a ser um componente forte dessa construção de vida permeada por conflitos, cobranças,
insatisfação ou simplesmente por carências ocultas descambadas em atos permissivos e aviltantes.
Considerar os adolescentes como sujeitos históricos significa a rejeição de uma concepção
de desenvolvimento abstrato, universal, linear, que implica essencialmente acumulação de mudanças
quantitativas, compreendendo a natureza e o lugar social dos sujeitos segundo estágios ou etapas
unidirecionais relacionadas à idade cronológica. Pensar o adolescente dessa forma faz com que a relação
com ele possa ser marcada por uma concepção adultocêntrica, inviabilizando o verdadeiro diálogo,
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impedindo que sejam mostrados os espaços sociais e culturais de onde emergem sua voz e o seu desejo. (
Jobim e Souza,1996).
Assim numa abordagem sócio-histórica compreende-se o desenvolvimento como um
complexo processo dialético, caracterizado por evoluções e involuções, transformações qualitativas de
umas formas em outras, inter relações de aspectos externos e internos, sempre como um produto das
interações sociais vivenciadas. Nesse processo interpessoal, os sujeitos vão se constituindo segundo
Vigotsky (1987) que vê na consciência individual um contato consigo mesmo a partir dos outros. O que
possibilita tornamo-nos nós mesmos através das outras pessoas. Para Bakhtin,(1992) o „eu‟ se constrói
em colaboração, os „eus‟ que são os autores uns dos outros, num contínuo construir.
Portanto, não será perquirir sobre os adolescentes considerando-os objetos de investigação,
mas, de fato, dar voz, propiciar a fala aos adolescentes, considerando-os como sujeitos ativos e entrando
em diálogo com eles. Pois apenas e tão somente assim poder-se-á entender como esses estarão
processando as informações vistas, ouvidas e assimiladas, pelas telas e vídeos num mundo de tão rápidos
e fortes apelos.
As ciências humanas não se referem a um objeto mudo mas ao homem em sua
especificidade: ser expressivo e falante.
Tentando entender os adolescentes
Assim, esse artigo, não será tentado a explicar a questão da violência na mídia em si, mas
sua influência sobre os adolescentes, numa tentativa de compreendê-los através da mídia.
Porém, há que se convir que a compreensão não é algo plano e linear, mas implica numa
relação de duas consciências, de dois sujeitos, portanto ela é sempre dialógica. Nessa perspectiva, ao
invés de compreender os adolescentes para conhecê-los melhor, o propósito será de entender-se com o
adolescente mediante suas experiências sociais e culturais, suas experiências de relação compartilhadas
com outras pessoas de seu ambiente, e sua construção enquanto sujeito sócio histórico, estabelecem
vínculos de ação e reação frente as situações.
Assim, observador e observado se constituirão como parceiros de uma experiência
dialógica. Nessa perspectiva, a linguagem ocupará um lugar central e, a partir dela, considera-se diálogo
como produção de linguagem, também, uma vez que esta se realiza pela interação verbal cuja realidade
fundamental é o seu caráter dialógico.
Para Bakhtin (1991) o enunciado é a unidade real da comunicação discursiva, estritamente
delimitada pela alternância dos sujeitos falantes. Realiza-se, com os sujeitos, falas não estruturadas,
“entre-falas”, onde os enunciados dos interlocutores se alternarão buscando a “compreensão”.
“A compreensão de uma fala viva, de um enunciado vivo é sempre
acompanhada de uma atitude responsiva ativa[...] toda compreensão é
prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o
ouvinte tornar-se-á o locutor” (BAKHTIN,1991).
Fica-se, ainda,atento para a especificidade de que poderá ser revestida a conversa com o
adolescente, lembrando que este e o adulto apresentam possibilidades distintas de compreensão das
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experiências que compartilham. Essas diferenças serão marcadas não apenas pelas naturais diferenças
cognitivas existentes entre adultos e adolescentes, mas se expressa, também, através das relações que se
estabelecem com os códigos da cultura, os quais são vividos e experimentados de formas distintas por
cada um deles. Devido até a própria cronologia.
De acordo com Castro e Souza (1996), o discurso do adolescente na situação de
verbalização precisa ser analisado dentro da rede de significações que o produz. Seu discurso constitui-se
em parte integrante do diálogo que ele estabelecerá com um possível ouvinte e, desta forma, ambos estão
conjunta e simultaneamente produzindo sentidos para a situação em que se encontram.
Nesta perspectiva,
“tomar o discurso do adolescente de “em si”, independente das condições
sócio-culturais que o determinará, é objetificá-lo como uma “coisa” e
destituí-lo de sua dimensão dialógica, isto é, da interação com um outro
através da linguagem” (CASTRO E SOUZA, 1996).
Essa compreensão conduz ao reconhecimento de que os sentidos que poderão ser revelados
ao longo de uma conversa poderá se remeter a práticas sociais que envolverão tanto o ouvinte quanto o
falante além de todo um contexto como pano de fundo.
Pois para compreender os interesses, as intenções, assim como as ações dos adolescentes
marcados pela contemporaneidade (violência da mídia) pertencentes a diferentes inserções sócio-culturais
faz-se necessário certo esforço no sentido de acompanhar-lhe o raciocínio e seus meandros.
Conhecer o que o contexto histórico-cultural televisivo está trazendo a esta nova geração,
que experiências vivenciam e nas quais estarão se constituindo enquanto sujeitos sócio-históricos, será
talvez, surpreendente. Quer-se, aprender com eles, despojando-se do que já se conhece para valorizar
outras possibilidades de leitura e escrita presentes na contemporaneidade (internet e toda a sua
diversidade cultural) e que estará sendo desvendadas por eles.
Não é fácil enfrentar o novo, pois o velho tende a interferir, a se sobrepor diante do que se
apresenta. Enquanto se procurará compreender o que os interlocutores trarão, a concepção de leitura de
mundo irá se impregnar de novidades.
Mediante tal contexto,como poderá o adolescente, enquanto sujeito sócio histórico nos
espaços de aprendizagem, vivenciar experiências sob influência de tão poderoso meio de comunicação?
Como ele processará as imagens presentes na tela do cinema ou da televisão, nos jogos
interativos, nas possibilidades abertas pelo computador de navegar via internet, numa comunicação
totalmente virtual ?
Como ele irá fazer a miscelânea necessária entre o novo, novíssimo e o velho, antigo ?
Frente a essas, questões o artigo pretenderá efetuar uma colocação interativa, revendo os
vários fatores da violência nos meios de comunicação, seus efeitos sociais e como poderão influenciar os
adolescentes enquanto sujeitos sócio-históricos em diversificados espaços de aprendizagens.
Considerações finais
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Os meios de comunicação, quando introduzem em suas pautas temas que envolvem
violência, agem sobre a sociedade em duas etapas. Primeiro, agendando o tema da violência como
assunto de discussão imediata (agenda setting) e, em segundo lugar, construindo, mediante uma recepção
ritualista, um universo simbólico que, a longo prazo, condiciona a ótica que o receptor terá da realidade
(aculturação).
Assim, pode-se conjeturar o quanto significativo é, a influência da presença de uma leitura
de imagem desencadeada pelo próprio ambiente icônico da cidade e principalmente encontrada nas telas
da TV, do cinema ou do computador, num referencial virtual.
O que essa leitura imagética tem oferecido, em matéria de programação, temas, propaganda
e marketing, para levar a um consumo que se reflete na procura do adolescente por algo que a sociedade
discute, com certa naturalidade, a violência, entre outros fatores, porque os agentes sociais são,
individualmente, partícipes diários de soluções não pacíficas de conflitos. A violência é tema de suas
agendas privadas. As experiências vividas, quase sempre traumatizantes, são alvo de repetidas narrações
em que os detalhes acabam compondo um monólogo no qual os agentes se apresentam como participantes
de um contexto coletivo comum televisivo.
Se apenas se enfocar o desenvolvimento individual como resultado da interação social, sem
uma preocupação com a atividade cultural na qual estas ações pessoais e interpessoais acontecem ficará
incompleto. Cada época, cada meio cultural com os seus instrumentos e produtos formam o pensamento
e a consciência do homem subsídios para serem elaborados.
Assim, pode-se dizer que, a mente humana é formada através dos meios culturais. O avanço
de novas tecnologias não poderá ser ignorado pelos profissionais, inclusive, da educação, que, ao
contrário, devem estar preparados para compreender seu impacto no trabalho escolar.
O uso do computador e, principalmente da Internet, já é uma realidade bastante impositiva
na atualidade, onde toda geração de jovens de várias idades e classes socioeconômicas, utilizam-se dos
diversos serviços oferecidos em rede, divertindo-se e instruindo-se com os jogos, (não raro, violentos)
com os programas de desenhos, de edição de textos e principalmente jogos de ação, as guerrilhas ou os
combates de guerras maiores. Buscam, aí, sites de acordo com os seus interesses: cinema, música, bandas,
esporte, blogs, pesquisas escolares, RPG, etc e participam de listas de discussão, de chats, fóruns, site de
relacionamentos. Via Internet vão descobrindo a possibilidade de satisfazer sua curiosidade sobre os
assuntos de seu interesse e de entrar em contato com pessoas dos mais distantes quadrantes do globo.
Os adolescentes, ao navegarem pela tela, isto é fato independente da pesquisa que será
efetuada, ficam horas a fio envolvidos em atividades variadas, com características próprias e específicas.
Realizam uma leitura vertical, passando seus olhos pela tela onde desfilam cores, imagens, sons e textos
que trazem até eles informações a que, até poucos anos atrás, não tinham acesso.
Deixando de lado o esforço do manuscrito, dos traços no papel com lápis ou caneta,
envolvem-se com uma escrita possibilitada pelo uso do computador, teclando, manuseando o mouse para
entrar em comunicação com pessoas, das mais diferentes culturas. Têm interlocutores reais, num tempo
também real mas num espaço virtual. Envolvem-se nestas novas formas de leitura e escrita com
entusiasmo ocupando nelas grande parte de seu tempo livre, produzindo um sentido pessoal para essas
atividades. É interessante saber que, aquelas pessoas que lêem e escrevem apenas na escola e para a
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escola, ou que ainda dizem detestar escrever, passam horas diante da tela lendo e escrevendo. São as
ambigüidades encontradas.
Então se pergunta, que tipo de nova história será construída por esses “internautas,” quais
serão seus valores sociais, quais suas reações frente ao imediatismo, a violência despejada na net, ao
descartável, a globalização? Como, diante da massa de informações, esses jovens irão elaborar
pensamentos? Como reagirão
diante do rápido, imediato? Do que „já era‟? Da pulverização de
informações veiculadas na net ? Da descartabilidade?
São hipóteses a serem repensadas, elucidadas, respondidas? ... se possível...
Assim, Dias (1998) faz a colocação que o desenvolvimento da microeletrônica, com seus
chips cada vez menores, mais poderosos e baratos exigem um novo modelo de trabalhador e, portanto, de
estudante. Estará recriando um novo conceito de aprendiz que não poderá ser mais pensado longe da
interação com as modernas tecnologias, o que não deixa de ser um desafio. Atualmente uma dessas
tecnologias, que está em plena expansão e difusão, como se sabe, a Internet, permitindo a comunicação
entre os indivíduos e o rápido acesso às informações, modificando o modo de pensar.
Mas, a que „pensar‟ se estará referindo?
Como compreender os adolescentes nesse estreito convívio com os novos objetos da
modernidade, instrumentos culturais, que estarão, ou já estão, trazendo mudanças significativas em sua
nova forma de pensar?
Assim, comentam-se questões envolventes e relevantes de uma construção e reconstrução de
aprendizagens, influenciadas pela modernidade e seus novos conceitos valorativos e atitudinais, numa
coxa de retalhos fabulosa, cheia de recortes de violência, imediatismo, globalização, virtualidade, etc...
numa mídia de novos valores socioculturais.
O fenômeno da globalização, o qual interfere nos campos das finanças, produção
econômica e comunicações e conseqüentemente no cotidiano. Essas mudanças não podem deixar de ter
sua influência sobre a organização cognitiva do homem, e, sobre o seu pensamento. Na perspectiva da
teoria de Vigotsky
podem-se reconhecer uma relação complexa entre história enquanto mudança e
história enquanto desenvolvimento humano.
Segundo Scribner, citada por Wertsch (1998), na história Vigotsky deu especial ênfase às
esferas simbólico-comunicativas da atividade na qual os humanos coletivamente produzem novos meios
para regular o comportamento.
Mediante a linguagem corporal, a humanidade expressa valores culturais, histórias de vida
das pessoas, emoções, idéias. A formação de cidadãos autônomos passa pelo conhecimento do
funcionamento de seu corpo, de seus limites e potencialidades, do fato de que cada corpo é único e deve
ser respeitados como tal, e pela capacidade de julgamento crítico de padrões estéticos culturalmente
impostos.
Ainda, nas aulas de Educação Física, a compreensão de regras sociais, o exercício de
negociação de alteração das regras estabelecidas (jogos e competições), e a presença de elementos da
cultura brasileira por meio do trabalho com ritmos e danças contribuem para a formação de indivíduos
cultural e socialmente ativos. A música, as artes plásticas e audiovisuais, o teatro e a dança, apresentadas
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na mídia televisiva, como formas de manifestação de diferentes culturas, favorecem, por um lado, a
formação da identidade e, por outro, a compreensão do caráter pluricultural da nossa sociedade.
Na escola, as atividades em Arte devem ser sociais, para os estudantes se desenvolverem no
sentido de se capacitar o a produzir, individual e/ou coletivamente, bem como a analisar diferentes
linguagens de manifestações artísticas, originárias de diferentes culturas, compreendendo-as como
produções humanas que têm uma história no espaço e no tempo.
Quem sabe por esse viés, a expressão corporal através da arte, possa minimizar os efeitos
da mídia televisiva e seus massificantes programas, propiciando a criatividade como fator importante da
cultura vigente.
Quanto à informática, como linguagem, constitui-se como ferramenta de aprendizagem
que auxilia na construção do conhecimento das muitas áreas de ensino. O aluno deve se apropriar dessa
linguagem, conhecer os principais equipamentos de informática e seus princípios de funcionamento, mas
que possa utilizá-lo em benéfico do seu crescimento.
Ainda importa que ele conheça e saiba operar com as redes globais (Internet) e locais
(corporativas). Cabe lembrar que esta linguagem é fundamental para a inserção dos alunos no mundo
contemporâneo, apesar da violência sempre embutida.
Assim percebe-se, nesse artigo, que é possível tentar-se compreender o contexto sóciocultural em que vivem os adolescentes, desvendando suas práticas
enquanto sujeito aprendizes e
construtores de suas histórias, influenciados pela mídia num sentido mais abrangente (TV, computador,
Internet) através de diálogos que estimulem o processo de conscientização com a finalidade de tentar
desobstruir os canais que levam os jovens a rejeitarem as demonstrações dos vários tipos de violência
apresentada na mídia televisiva e da internet, para que,
com essas modificações de comportamento,
possa se pensar numa sociedade menos agressiva e mais cooperativa. Em poucas palavras,
mais
solidárias.
Esse artigo não pretende esgotar o tema visto sua vastidão e profundidade, foi proposto
apenas pontuar algumas questões de relevância... deixando em aberto a todos que tenham efetivo interesse
sobre o tema que posam disponibilizar seus saberes agregando valores.
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A violência nos meios de comunicação e sua influência nos