OS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO – PROBLEMÁTICA DA VIRTUALIDADE Frei Gustavo Wayand Medella, OFM Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil Esta reflexão tem como objetivo despertar questões diante dos problemas surgidos com a nova realidade comunicacional em que vivemos, fruto dos rápidos avanços tecnológicos que marcaram especialmente as últimas décadas. Num primeiro momento, lançaremos três pressupostos que vão nortear a nossa exposição. Em seguida, lançaremos breve olhar sobre a Comunicação de Cristo e de Francisco e, por último, algumas provocações em torno das potencialidades e riscos da rede, encerrando com algumas propostas práticas que perpassam nossa vida e missão. PRESSUPOSTOS • A Comunicação é um processo dinâmico e relativamente raro que marca e transforma aqueles e aquelas que dele participam. Este pressuposto nos faz percebê-la como algo que vai além da transmissão, da transferência, do deslocamento de dados ou informações de um emissor a um receptor. Esta linguagem esquemática entrou no estudo da Comunicação por conta da tentativa de se compreender o processo comunicacional a partir de categorias oferecidas pelas ciências físicas ou da natureza. Tais ciências pensam a comunicação a partir de sistemas não-humanos, como redes elétricas e hídricas, sistemas de transportes etc. No entanto, quando se refere à complexidade do ser humano, tais categorias se mostram insuficientes para compreender todo o dinamismo de tal processo, que perpassa a cultura, a fisiologia, a constituição emocional, os elementos íntimos e subjetivos de cada pessoa e do mistério que cada ser humano em si representa. Para melhor compreensão deste pressuposto, é útil que se faça distinção entre: sinalização, informação e comunicação; • sinalizar: as pessoas e as coisas sinalizam. Existir é sinalizar. No processo comunicacional (compreendido na maneira esquemática da cadeia EMISSOR-MENSAGEM-RECEPTOR), somos todos emissores dos quais os outros podem ou não se dar conta. Não dá para não sinalizar. Mas nem tudo que sinaliza nos interessa. O mundo é carregado de sinais externos, sensoriais. Mas nem a todos se dá importância. • informar: o interesse é o que separa a sinalização da informação. Quando algo chama a atenção de nossos sentidos, deixa de ser sinal para ser informação, que não existe por si mesma, mas se configura no sinal que chama minha atenção e do qual procuro saber mais. Além de olharmos por interesse, também somos atraídos pelo olhar, somos fisgados; neste caso, a sinalização se torna informação pela via da sedução. • comunicar: aqui entramos num âmbito mais profundo em relação às ações anteriores. Comunicação é um processo, um encontro transformador, que marca, muda, mobiliza, que leva à reflexão, expresso na particularidade de quem se comunica. O processo comunicacional é marcado por interesses, desejos, aspirações, paixões e estímulos diversos, daí a Internet no Brasil Internet no mundo sBrasil importância de situações particulares de afeto, abertura e dedicação, que influem decisivamente nele. • Muito mais do que instrumento para transmissão de mensagens (conteúdos, doutrinas, ensinamentos), a rede é um ambiente, um lugar, que precisa ser habitado pela mensagem do Evangelho (“Encher a Rede com o Evangelho de Cristo”). A rapidez com que a tecnologia se popularizou nos últimos tempos, e de forma astronômica na última década, além de dar origem a um conjunto de dados estatísticos que impressiona pelos números, tem suscitado inúmeras discussões que abrangem as diversas áreas do conhecimento – e também a Teologia –, provocando profunda revisão de conceitos e revolucionando as relações humanas. Tanto que, para muitos estudiosos do tema, dentre eles o teólogo jesuíta Padre Antonio Spadaro, a rede não se define como um instrumento, um emaranhado de fios e equipamentos, mas um novo ambiente onde as pessoas vivem, se relacionam, se divertem, aprendem, trocam informações e conteúdos, administram seus negócios, iniciam relacionamentos amorosos, vivem a própria fé etc. A internet, no seu início e nos primeiros anos de popularização, apresentavase como um grande apanhado de conteúdos das mais diversas áreas da vida e do saber, organizados em forma de sites e portais. A partir de 2004, com o advento da Web 2.0 e, consequentemente de tantas plataformas (twitter, facebook, linkedin, instagram, whatsapp) e equipamentos (smartphone, iphone, ipad, tablet, etc.), podese dizer seguramente que estamos imersos em um novo ambiente, denominado virtual ou digital, conceito que não se opõe ou se contradiz ao que se convencionou chamar de real ou realidade. Se, ainda no “tempo da internet”, o importante ou central era ter uma “presença” na rede, à qual as pessoas acessavam em busca de informações de próprio interesse (busca, procura, pesquisa), o mundo destas novas plataformas é o mundo da “conexão”, onde dados, informações, estatísticas, obras de arte e pessoas vêm ao encontro daquele que está conectado. Assim, a participação na rede, que antes se configurava basicamente como um exercício de busca, passa a ser um trabalho de seleção daquilo que convém ou não convém receber (baixar, aceitar etc.). É o mundo da velocidade, da proximidade, da “superação” das barreiras do espaço e do tempo. Neste universo, também merece destaque a quantidade de dados que são produzidos a cada instante, levando a um volume imenso de informações (números, mensagens, fotos, vídeo) que alcança quantidades astronômicas. Para se ter uma ideia da dimensão deste fato, segundo a pesquisadora brasileira Patricia Baeta, 90% dos dados produzidos e armazenados no mundo foram criados nos últimos dois anos. A cada minuto, em todo o planeta, são realizados 695 mil up dates de status no Facebook, 2 milhões de pesquisas no Google e 100 mil tweets são criados no Twitter. Empresas de diversas áreas estão se aprimorando cada vez mais em armazenar, decodificar e interpretar estes dados com o objetivo de aprimorar suas ações comunicativas e, consequentemente, alavancar os lucros. Como ilustração, procuremos observar, de modo geral, a relação entre o ser humano e Deus. De forma muito simplificada, poderíamos dizer que a busca teológica do homem medieval era orientada por uma bússola. O norte já estava dado e cabia ao ser humano caminhar nesta mesma direção, num exercício de fazer convergir os esforços e empenhos para alcançar o conhecimento acerca de Deus. Neste caso, virtuoso era acumular o máximo de conhecimentos em torno deste norte. Num salto de alguns séculos, passando pelo Renascimento, pelo Iluminismo, e chegando-se ao século XX, podemos considerar uma busca teológica orientada por um radar, ou seja, um equipamento que gira em 360º em busca de objetos que procura. A pergunta norteadora seria “Onde está Deus”? E, neste caso, mais do que acumular informações, cabe o exercício de especular filosoficamente as questões que norteiam tal procura. Por último, se pensarmos no ser humano pós-rede (aqui entendida como a web), temos a figura de um decodificador, que não mais trabalha em busca de sinais ou informações, mas as recebe num fluxo contínuo. E neste caso o discernimento passa a ser elemento indispensável para o exercício da busca de Deus. Nesta enxurrada de informações, dados, estímulos, como perceber a presença do divino, o que nos aproxima e nos distancia de Deus no mundo da rede? Para compreendermos melhor a abordagem do conceito de rede que vai nortear esta nossa apresentação, vamos recorrer à ajuda do Padre Antonio Spadaro, SJ: A internet é uma realidade que agora faz parte da vida diária de muita gente. Falando em termos gerais, não se poderia mais voltar a uma época “inocente” já que o próprio funcionamento de nosso mundo “primário”, dos transportes às comunicações de qualquer tipo, se baseia na existência deste mundo chamado virtual. Aliás, a rede hoje é um lugar a ser frequentado para ficar em contato com os amigos que moram longe, para ler as notícias, para comprar um livro ou marcar uma viagem, para compartilhar interesses, ideias. É um espaço de experiência que cada vez mais está se tornando parte integrante, de maneira fluida, da vida diária: um novo contexto existencial”. Portanto, a rede não é na verdade um simples “instrumento” de comunicação que se pode ou não usar, mas evoluiu num espaço, um “ambiente” cultural que determina um estilo de pensamento e cria novos territórios e novas formas de educação, contribuindo para definir também um novo modo de estimular as inteligências e de estreitar os relacionamentos; efetivamente é um modo de habitar o mundo e de organizá-lo. (SPADARO, 2012, p. 17) Neste ambiente, com suas potencialidades e limites, conforme veremos adiante, é que, como frades menores, somos chamados, em fraternidade, a sermos evangelizadores, testemunhas de Jesus Cristo (Cf. Papa Bento XVI, Mensagem para o 44º Dia Mundial das Comunicações Sociais). • A dicotomia entre real e virtual, quando se fala do universo da Rede, deve ser revista e repensada. Poderíamos imaginar, no que diz respeito às novas tecnologias e às relações que elas propiciam, que haja uma linha divisória entre o “mundo real” e o “mundo virtual” que coexistem paralelamente. No entanto, devido aos avanços e caminhos tomados pela humanidade a partir do avanço da técnica – algo que acompanha o ser humano desde a pré-história (o fogo, a roda, o alfabeto) –, torna-se cada vez mais questionável tal distinção, de maneira que estes dois mundos, se de fato podem mesmo serem considerados “dois”, estariam profundamente interrelacionados, com uma fortíssima conexão entre si. Tais limites são tênues, arriscaria dizer, quase inexistentes. E mais, conforme nos apresenta o Pe. Spadaro: Atuando no mundo vital, os processos midiáticos chegam a dar forma à própria realidade. Eles interferem incisivamente na experiência das pessoas e permitem uma ampliação das potencialidades humanas. Da influência mais ou menos consciente que exercem depende em grande parte a percepção de nós mesmos, dos outros e do mundo. (SPADARO, 2012, p. 23). Repensar esta dicotomia significa também levar em consideração um olhar crítico e reflexivo em torno das interpelações que ela apresenta. A migração das formas de relacionamento pessoal para formas mediadas por sistemas eletrônicos transpõe para a tela encontros, casamentos e até propostas de vida em comum que se dão, em grande parte, por meio da rede de computadores. Definindo a rede como um lugar “emocionalmente quente”, o Pe. Spadaro recorda: (...) a rede é também potencialmente muito confidencial, porque permite falar coisas de si mesmo que dificilmente uma pessoa diria sendo quem é na vida diária normal. Pode-se ter uma abertura completa e um nível alto de autenticidade, até decair na espontaneidade sem limites e sem pudores (SPADARO, 2012, p. 60). Mais adiante, ao refletirmos sobre os riscos oferecidos por este ambiente “virturreal”, seremos provocados a nos precaver com relação a uma possível euforia ou ingenuidade diante deste contexto que pode, verdadeiramente, nos lançar no precipício da alienação, do culto de si mesmo, da superficialidade e de outras posturas e atitudes que nos desumanizam. A COMUNICAÇÃO EM CRISTO E EM FRANCISCO Ainda para nortear nosso caminho, olhemos para Cristo e para Francisco e alguns acenos de como o tema da Comunicação perpassou a vida e a história do Filho de Deus e do Poverello. • A Comunicação de Cristo Além dos elementos comunicativos em torno da figura de Jesus, também chama atenção sua prática comunicativa, seus gestos e palavras. Neste aspecto destacam-se a sua pregação apaixonada do Reino de Deus, o tom dialogal e o recurso constante às parábolas para descreverem tal Reino, a atitude de acolhida e misericórdia com os pecadores e a prática das curas. Seu método de pregação é itinerante. Jesus e seus seguidores não se furtam, por onde passam, a partilhar da vida simples das pessoas do lugar. Este gesto de Jesus, de sair ao encontro das pessoas, é um dos elementos que diferencia sua pregação daquela praticada por João Batista. Enquanto João se refugia no deserto para pregar o batismo de conversão e espera as pessoas irem a seu encontro, Jesus opta em partir ele mesmo em busca do ser humano, em especial de quem se considerava excluído de toda e qualquer pregação religiosa. Age desta forma porque tem consciência de ser o pregador de uma alegre notícia. A conversão para Jesus não se resumia à mera condição de salvação, mas a uma postura grata e generosa diante da oferta anterior e gratuita de Deus. O grande eixo de sentido de toda vida e pregação de Jesus é o Reino de Deus. Sua preocupação não era com doutrinas ou normas morais, nem com o aprimoramento de costumes religiosos, mas desejava profundamente anunciar um novo tempo de paz e de justiça. Em seu anúncio itinerante, Jesus assume o tom dialogal, numa pregação “direta, pessoal, dialógica”. O diálogo é, às vezes, suave e fluido; outras, tenso e polêmico. São exemplares os diálogos com Nicodemos (Jo 3,1-21), com a samaritana (Jo 4,1-38), com as pessoas a partir da multiplicação dos pães (Jo 6,2266), com diferentes interlocutores depois da cura do cego de nascimento (Jo 9,1-41), com os discípulos, na última ceia e na despedida. Para além do uso de palavras, o diálogo com Jesus também poderia ser marcado por um profundo silêncio, como no encontro com a pecadora que lhe unge os pés. Conta o texto de Lc 6,36-37 que, ao entrar Jesus na casa de um fariseu e sentar-se à mesa para comer com ele, uma mulher pecadora se pôs atrás de Jesus com um vaso cheio de perfume. Lançou-se a seus pés e os banhou com lágrimas, enxugando-os com o cabelo e, em seguida, beijando-os e ungindo-os com perfume. Em pensamento, o fariseu questiona a atitude de Jesus em acolher aquele gesto da parte de uma pecadora. O silêncio eloquente da mulher e seu gesto de acolhida e carinho tocaram o coração de Jesus e foram capazes de construir um fecundo canal de comunicação entre ambos, ainda que sem palavras. Por meio dos relatos cativantes da parábola, Jesus pretendia remover os obstáculos e resistências, para levar seus ouvintes à experiência de um Deus que chega às suas vidas. Também adquiriram forte carga comunicativa as ações de Jesus, em especial os milagres e curas por ele empreendidos. Sua intenção era, também através destes atos (sinais), proclamar que o Reino de Deus já estava entre as pessoas. Chamam atenção, entre os milagres e curas realizados por Jesus, aqueles que se relacionam com o retorno do ser humano à comunicação plena: os cegos voltam a ver, os mudos voltam a falar, os surdos voltam a ouvir. Estas curas, no entanto, não podem ser interpretadas somente a partir do aspecto físico. Para além de devolver os sentidos à pessoa, é preciso acolhê-las e reconciliá-las com a comunidade e, neste caso, adquire especial destaque a prática do perdão dos pecados. • A comunicação de Francisco A partir do ocular da concepção mais ampla de comunicação aqui proposta, tentemos, rapidamente, identificar elementos da vida e dos Escritos de São Francisco que podem ir ao encontro de tal perspectiva, partindo do pressuposto de que o Poverello conseguiu comunicar-se intimamente com o Senhor e por isto até hoje comunica ao mundo as virtudes, os sonhos e a força de uma vida consagrada à Boa-Nova de Cristo. Comunicação deve ser compreendida como relação, como possibilidade de encontro. Em sua busca incansável, o Santo de Assis encontrou-se reiteradamente com o Senhor, e de formas variadas. Ouviu Cristo que lhe falou no Crucifixo de São Damião, percebeu o Senhor na figura abjeta do leproso e, ao abraçá-lo, o amargo se tornou doce (Test); tinha incondicional amor e reverência pela Eucaristia (Adm 1 e outros textos), à Palavra escrita ou lida, ao pobre, porque este lhe trazia presente a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo; conformou-se ao Cristo da Cruz, recebendo na própria carne os Estigmas do Crucificado. Em comunicação íntima com Deus, Francisco, já em vida, tornou-se capaz de comunicar, àqueles que com ele estavam, a presença viva do Senhor pois, conforme descreve Celano, “trazia Jesus no coração, na boca, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos, nos sentimentos e em todos os demais membros (cf. I Cel 9,115)”. Também chama atenção o espanto de Frei Leão ao perceber que, apesar de não possuir atrativos físicos ou intelectuais, Francisco era muito procurado pelas pessoas. Também foi levantado que comunicação é um acontecimento, um evento relativamente raro, marcado pelo encontro de múltiplas coordenadas em um momento que não se repete, possuidor de força expressiva particular. A partir desta compreensão, podemos perceber as muitas formas pelas quais o Santo de Assis hauriu os diferentes sinais enviados por Deus e os assimilou como comunicação efetiva do Pai. Conforme se lê no Testamento, o próprio Senhor o conduziu para o meio dos leprosos. Francisco não reteve tais experiências para si e, em sua pregação, o fogo do amor de Deus era despertado no coração de seus ouvintes: “A sua palavra era como um fogo ardente que atingia o íntimo dos corações e enchia as mentes de admiração” (LM 12,7). Francisco comunicava. São Boaventura denominava esta sintonia, esta comunicação entre Francisco e Deus, como “suma Filosofia” (LM 12,2), através da qual o santo penetrava os mistérios de Deus não tanto pela habilidade do intelecto, mas pela presença iluminadora da Sabedoria Divina. Para o Seráfico Pai, tornar-se realizado, pleno, era possível nas palavras e obras, na comunicação com o Senhor e na comunicação do Senhor e de seu Amor às pessoas (Cf. Adm 21,1-2). Na comunicação, além das pessoas envolvidas e da materialidade, existe algo de incorpóreo, que não é capturável pela pesquisa empírica ou convencional; tratam-se das sinalizações extralinguísticas carregadas de valor comunicacional. Para além do anúncio explícito por palavras, Francisco convidava à pregação com a vida, através do testemunho e das obras. Desejava que seus frades, pregadores itinerantes, estivessem livres de qualquer amarra material: a única riqueza deveria ser a Pobreza Evangélica. Com relação à difusão das palavras, o visionário Santo de Assis soube ir além da presença pessoal: serviu-se de cartas circulares, prometeu bênçãos aos que as transcrevessem (se fosse no Facebook, quem compartilhasse era abençoado...) e exortou os que soubessem ler que lessem o conteúdo aos que fossem iletrados. Também soube recorrer a marcas e, até hoje, o hábito, o tau, a bênção de São Francisco, a saudação de Paz e Bem comunicam a vida e o testemunho da fraternidade iniciada pelo Seráfico Pai. Mais do que a significação, a comunicação opera no campo do sentido, que se relaciona à maneira como cada um sente as coisas (experiência). Francisco viveu com intensidade este mergulho na vida de penitência contagiou os seguidores que não demoraram em se aproximar daquele modo de vida. Levando-se em conta que a Comunicação é um acontecimento que se pauta no encontro de diversas variáveis, há de se destacar a inspiração de Francisco ao propor o Presépio de Greccio. O texto de Celano revela o quanto todos os elementos conspiraram para que, naquela noite, o Mistério do Nascimento de Cristo mais uma vez fosse comunicado ao mundo com intensidade, ternura e paixão: “A noite ficou iluminada como o dia e estava deliciosa para os homens e para os animais. O povo foi chegando e se alegrou com o mistério renovado em sua alegria toda nova. O bosque ressoava com as vozes que ecoavam nos morros. Os frades cantavam, dando os devidos louvores ao Senhor e a noite inteira se rejubilava. O santo parou diante do presépio e suspirou, cheio de piedade e de alegria. A missa foi celebrada ali mesmo no presépio, e o sacerdote que a celebrou sentiu uma piedade que jamais experimentara até então” (1Cel 85). Conforme narra Celano, pode-se presumir que o tal sacerdote que presidiu a missa na ocasião experienciou com intensidade a comunicação expressa na cena do Nascimento do Senhor que viu diante dos olhos. Considerando a Comunicação como um encontro raro e transformador, não poderíamos deixar de levar em conta o episódio da Estigmatização do Seráfico Pai no alto do Monte Alverne. Francisco trazia em si um desejo tão profundo de comunhão (comunicação) com Cristo, de sentir no coração o quanto lhe fosse possível, o mesmo amor que o Mestre sentiu ao se entregar na cruz, e que experimentasse no próprio corpo as mesmas dores do Salvador. Suas preces atingiram o coração de Deus e eis que, no dia 17 de setembro de 1223, entre dois e três anos antes de sua morte, Francisco tem uma visão mística de um Serafim alado que lhe imprime no corpo as chagas do Crucificado (Cf. 1C 94; LM XIII; Lm VI 2; 3S 69; 3Csd) . POTENCIALIDADES E RISCOS DA REDE: A IMPORTÂNCIA DE NOS REMETERMOS AO EVANGELHO Na Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações, o Papa Francisco inicia o texto afirmando que: Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixamnos mais próximos, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. (Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações). Está cada vez mais fácil e barato nos comunicarmos com pessoas em diferentes partes do globo terrestre, todas elas ao alcance de um click, de maneira a configurar o ambiente virtual não como uma rede de fios e equipamentos (Cf. Papa Francisco, 48º Dia das Comunicações), mas rede de pessoas, e mais, uma rede de relações. No entanto, temos de deixar claro que, ao mesmo tempo que as plataformas de rede são um conjunto de ajuda potencial para as relações, representam também uma ameaça. O próprio Papa Bento XVI recorda que a relação mediada pela rede é sempre necessariamente incompleta, se não estiver de alguma forma atrelada ao contato presencial: Seria triste se o nosso desejo de sustentar e desenvolver as amizades on line se realizasse à custa da disponibilidade para a família, para os vizinhos e para aqueles que se encontram na realidade de todo dia no local de trabalho, na escola, no lazer. (Bento XVI, Mensagem para o 43º Dia Mundial das Comunicações). Na mesma mensagem, o Pontífice adverte para o risco de isolamento social que assola todos aqueles que fazem do desejo de conexão algo obsessivo. Importante notar que a rede, chamada para conectar, caso leve ao isolamento, está traindo a si mesma. O desafio aos cristãos é o de serem propagadores da lógica Evangélica (encontro, dom e cuidado) no ambiente da rede e, também aí, estão em vigor todos os valores próprios da identidade cristã: verdade, caridade, justiça, liberdade, misericórdia, serviço, gratuidade, todos eles profundamente amados e cultivados por Francisco de Assis. Para esta propagação (evangelização), permanece vivo e válido o binômio proposto pelo Papa Paulo VI em sua Exortação Apostólica Evangelium Nuntiandi: anúncio explícito e testemunho, também no mundo da rede. Sendo assim, mais do que presença através da produção e divulgação de conteúdos devocionais, doutrinários e catequéticos, a vida cristã na rede deve se configurar numa presença compromissada em “levar vida, e vida em abundância” (Cf. Jo 10,10), para todos os que circulam pelo mundo digital. Quando ainda arcebispo de Buenos Aires, em discurso aos comunicadores da arquidiocese, o Papa Francisco fez uma bela reflexão em torno da figura do “próximo” quando falamos de comunicação. Para nos ajudar em nosso percurso, apresentaremos, brevemente, o conteúdo desta mensagem, que parte da Parábola do Bom Samaritano. Quando comunicamos, nossa palavra chega longe e também chega profundo. Somos capazes de tocar o coração humano, de despertar sentimentos, motivar escolhas, induzir a pessoa a organizar a vida, a eleger valores. Em termos cristãos e humanos, o mandamento de amar é claro para todos. Mas, e na vida concreta, quem é aquele que tenho de amar? Como me aproximo daquele a quem devo amar? Como se ama na rede? Vamos à Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,30-37) e os diferentes modelos de aproximação (ou não aproximação) humana que ela apresenta. Um homem caído à beira da estrada, roubado e espancado por assaltantes: passa o sacerdote e atravessa a rua para não se comprometer com a cena; passa o levita e procede da mesma forma, talvez com a mesma motivação do anterior. Passa o samaritano e se interessa por aquela vida: cuida, ampara, compromete-se, carrega para um lugar seguro e garante àquela vida os cuidados devidos e necessários. A aproximação dos assaltantes, próxima em termos espaciais, mas distante em respeito, em alteridade, em interesse pelo outro: uma proximidade que violenta, machuca, agride, diminui e despreza, proximidade de quem se aproxima mal. É quando a comunicação se coloca a serviço do consumismo, da manipulação das pessoas em vista de interesses particulares e egoístas, quando serve à cultura do descartável, da exclusão, quando exalta e propaga valores de desagregação, discórdia, competição desleal e estéril. Só produz dor, abandono, feridas, perigo eminente de morte. Quantas são as vítimas que jazem à beira do caminho por conta de uma comunicação desta natureza. Quando falamos de riscos (crimes, acidentes, imprevistos), devemos considerar que, enquanto ambiente humano, a rede também oferece riscos e estes são muitas vezes potencializados por conta de um suposto anonimato. Sendo assim, a prudência, o discernimento, o diálogo, a conscientização e a educação são elementos fundamentais para a convivência na rede. Atenção também ao risco da superexposição e cuidado em se resguardar a privacidade também são atitudes necessárias e devem ser insistentemente tratadas, especialmente junto a jovens e adolescentes. Outro risco a ser destacado e que, à primeira vista pode parecer paradoxal, é o de que o ambiente da rede nos deixe privados de uma visão mais ampla em relação ao mundo, à vida e à realidade. Mas como um ambiente anunciado como a grande possibilidade de expansão de laços e relações pode nos levar a tal fechamento? Explico: à medida em que, através de suas interfaces e mecanismos próprios, as plataformas vão descobrindo nossos gostos, valores e prioridades, a tendência é que estes mesmos recursos direcionem imediatamente o nosso olhar para páginas, pessoas e expressões que, pelo menos em tese, estejam de acordo com o nosso perfil. Na plataforma de busca Google, por exemplo, a partir de nossas pesquisas anteriores e dos dados que digitamos com maior frequência, o próprio programa já se adianta a nós e, por si mesmo, “coloca palavras” em nosso box onde digitávamos a nossa busca. É um direcionamento prévio que pode, caso não cuidemos, limitar nosso horizonte de busca e de pesquisa. Outro exemplo podemos extrair do Facebook, rede social das mais conhecidas no mundo. De acordo com nossas amizades, postagens e publicações, nosso perfil vai se delineando e, aos poucos, estamos imersos num espaço “unilateral”, onde nossos gostos e convicções são cada vez mais reforçados e confirmados, privando-nos do confronto com o diferente, do contato com o outro e de questionamentos importantes que nos poderiam enriquecer como seres humanos, frades menores e evangelizadores. A não-aproximação do levita e do sacerdote. Eles até eram próximos em termos de cultura e nacionalidade, mas estavam muito distantes em termos de humanidade. É a comunicação da exclusão, que passa adiante dos dramas humanos e não se comove, comunicação de quem só enxerga o próprio umbigo, de quem se fecha em sua pequena rede de interesses. É a cultura da invisibilidade, onde só se enxerga aquilo que convém. A aproximação do samaritano. Esta é surpreendente e desconcertante. Aquele homem, mal visto pelos judeus, transcende a barreira de toda diferença e se faz próximo daquele que precisa. Aproxima-se sem interesse pessoal nenhum, dispõe de seu tempo, de sua força física, de sua montaria, de seus recursos econômicos. É o cultivo de uma comunicação que busca a proximidade, a promoção da vida, a prestação de serviços, a cura das feridas do outro, sua libertação integral, em todos os âmbitos da existência. Todo nosso aparelho comunicacional – nossos recursos técnicos e humanos – deve estar a serviço deste modelo comunicativo, marcado pela verdade, pela ética, pela transparência, pela promoção da pessoa, pela humanidade própria daquele que se propõe a evangelizar. O bom samaritano de hoje passa não só pelas estradas, ruas e vielas das cidades, mas também pelas vias da comunicação. E é na contramão de uma cultura de consumo, de exploração, de egoísmo de morte que devemos caminhar também na rede. O próprio Papa Francisco que, no início de sua mensagem chama a atenção para a proximidade propiciada pela rede, logo em seguida adverte para as contradições que o avanço tecnológico não deu conta de solucionar: Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas económicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas (Papa Francisco, Mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações). E, mais adiante, o Pontífice nos exorta: “Não basta circular pelas ‘estradas’ da comunicação, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos massmedia não pode caminhar alheio à solicitude pela humanidade, mas é chamado a exprimir ternura. A comunicação pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos mass media é só aparente: só pode constituir um ponto de referência quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais”. Ao “circularmos” pelo ambiente da rede, precisamos ser também “portadores do Dom do Evangelho” (conforma Documento Final do Capítulo de 2009), do “Evangelho da Alegria” (Cf. Evangelii Gaudium), promovendo a Epifania do Senhor, levando os “internautas” à transformação interior que advém de um encontro pessoal com o Senhor. ALGUMAS PROPOSTAS QUE PERPASSAM NOSSA VIDA E MISSÃO • Aprofundar-se na compreensão de que a Rede não é um instrumento para Evangelização, mas ambiente onde devemos viver e testemunhar o Evangelho. Importante ressaltar que esta compreensão não se adquire da noite para o dia, especialmente para aqueles que, na classificação do estudioso americano Marc Prensky, são chamados de “imigrantes digitais” (nascidos até 1980). Os nativos digitais (nascidos após 1980), ao contrário, já cresceram neste ambiente e, por isso, assimilam mais facilmente as particularidades do mundo digital. Só a título de ilustração e sem nenhum aprofundamento estatístico, em nossa Província (Imaculada Conceição do Brasil), somos ao todo 386 frades, sendo que, deste total, 85 têm 30 anos ou menos, ou seja, 22% são considerados nativos digitais e, obviamente, este percentual tende cada vez mais a aumentar. No caso da tecnologia, a diferença entre gerações é elemento central para a compreensão de todas as consequências que o mundo digital trouxe para a vida em seus mais diversos aspectos. É necessário então que, na Ordem, busquemos com frequência refletir em torno desta constatação e que procuremos sempre nos qualificar no exercício de Evangelizar o “mundo digital”. O primeiro passo nesta direção seria, então, um esforço comum para compreendermos este fenômeno e nos posicionarmos diante dele buscando interpretar as suas consequências para a formação e a constituição do ser humano. Este dado não deve ser jamais ignorado por nossas instâncias de Formação Inicial e Permanente. Abrir espaços em nossos centros de estudo para a reflexão desta temática seria salutar e útil, assim como buscarmos formação e informação em torno deste tema em outros ambientes de cultivo do saber. • Promover um constante discernimento em torno do que significa seguir Jesus Cristo ao modo de Francisco no ambiente digital. Conforme vimos, o ser humano de nosso tempo não sofre pela falta de dados, conteúdos, informações. O grande desafio é, em meio a este turbilhão, descobrirmos as perguntas fundamentais e partilharmos as nossas reflexões. Os valores intuídos por Francisco e que o levaram ao seguimento apaixonado do Senhor continuam vigentes, ainda no tempo da rede: minoridade, fraternidade, espírito de serviço, respeito pela criação, amor incondicional a Deus. Somos chamados a prestar atenção nestas epifanias que ocorrem no mundo digital e colocá-las à disposição de todos. Precisamos seguir o Mestre que também circula no ambiente da rede. Por onde Ele anda nestas complexas veredas virtuais? • Avançar cada vez mais no diálogo e na comunhão em torno de nossa presença e atuação no mundo da comunicação Compartilhamento e colaboração são termos que fazem parte do cotidiano da rede. Basta olharmos para obras como a Wikipedia, uma enciclopédia virtual montada a partir do trabalho coletivo de milhões de usuários que colocam os próprios conhecimentos em comum. Ou então a função compartilhar, presente no Facebook, na qual todos os integrantes da rede podem compartilhar fotos, textos e mensagem que julgarem interessante para tal. Neste âmbito, a rede nos estimula a apostar na lógica do dom, onde cada um coloca em comum o que tem, sem se preocupar com qualquer competição ou disputa. Partilhar o que temos em termos de estrutura material, estrutura de pessoal e possibilidades técnicas pode nos tornar mais fortes e eficientes no exercício de evangelização no ambiente digital. Embora aqui não sejam o centro de nossa reflexão, os meios convencionais de que dispomos (rádio, TV, jornal, editoras) também representam uma riqueza evangelizadora, em torno da qual devemos também procurar excelência e qualidade profissional. • Buscar com insistência uma postura profética e propositiva Uma vez apontados os riscos destes novos meios, a primeira ação é prezarmos por um olhar autocrítico, tanto no âmbito pessoal como no ambiente fraterno. “Temos tido maturidade e prudência em nossa ‘circulação’ por este ambiente?”, “A tecnologia tem me ajudado a ser mais efetivo em meu trabalho evangelizador?”, “Que riscos o ambiente virtual traz para minha vocação e para a vida da fraternidade?”, são algumas perguntas que não podem sair de nossos horizontes. Outro compromisso profético é combater toda postura e atitude de desrespeito à vida e ao ser humano que encontrarmos na rede, assim como nos envolvermos, o quanto nos for possível, na discussão política em torno do controle e da organização da rede por parte do estado e de empresas privadas, buscando garantir a liberdade e a possibilidade de acesso ao maior número possível de pessoas. Os temas da exclusão digital e da “morte em vida” daqueles que não têm acesso a este universo também devem estar permanentemente entre nossas principais preocupações. • Compreender a rede como indispensável plataforma de cultivo vocacional e irradiação do carisma É crescente o número de jovens que chegam até nós através dos meios digitais. E-mails, amizades no Facebook, mensagens no Twitter e outras chegam com muita frequência a nossas entidades. O rápido encaminhamento destas demandas, uma atenção personalizada através da rede e a disposição para atender a estas solicitações têm sido importantes meios para que possíveis candidatos à vida franciscana que venham até nós. A atenção adequada a este fenômeno deve ser parte integrante e indispensável de nosso Serviço de Animação Vocacional. Na imensa gama de conteúdos e possibilidades que a rede oferece, temos notado considerável interesse por materiais que apresentem a nossa espiritualidade. Aproveitar este espaço para difundirmos nosso carisma, de forma toda especial a conscientização em torno do respeito pela natureza, deve também ser prioridade em nossa prática evangelizadora. Diversas ações são realizadas por nossa Fraternidade, no Brasil e no mundo (webTV’s, webradios, fanpages, app’s etc.). No entanto, muito mais ainda pode ser feito. • Apostar na força das pequenas iniciativas A comunicação popular e participativa deve ser o “fermento na massa” de nossa prática enquanto Fraternidade Evangelizadora. Sem negar a influência do que uma vez se convencionou chamar de mass media, precisamos também romper com a tentação da megalomania para apostar na força do que é discreto, pobre, despojado, alternativo. Na direção deste modo comunicativo, tenho a impressão de que a nova ambiência gerada pela internet e pelas mídias sociais possa ser lugar propício para esta presença efetiva, através de blogs, vídeos, produções de WebTV e WebRadio, difusão de artigos, material formativo, mobilização de pessoas, sem jamais se contrapor à riqueza dos encontros presenciais ou buscar substituí-los. Neste sentido, adquire grande relevo a consideração contida na Instrução Pastoral Aetatis Novae, de 1992: “As comunicações têm a capacidade de pesar, não só os modos de pensar, mas também os conteúdos do pensamento. Para muitas pessoas, a realidade corresponde ao que os mass media definem como tal; o que os mass media não reconhecem explicitamente torna-se também insignificante. O silêncio pode assim ser imposto, de fato, a indivíduos ou grupos que os mass media ignoram; a voz do Evangelho pode, ela também, ser reduzida ao silêncio, sem ficar por isso completamente abafada. É importante, então, que os cristãos sejam capazes de fornecer uma informação que cria notícias, dando a palavra aos que dela são privados (AN, n. 6). • Rever o conceito de sucesso no que diz respeito à prática da comunicação No campo da comunicação, precisamos vencer toda tentação de triunfalismo. Também neste campo é preciso que se invista em uma Igreja do serviço, da defesa dos pobres, do combate à injustiça e à exploração, da construção de pontes que diminuam distâncias e de correntes que não aprisionem, mas aproximem, unam e comprometam as pessoas. Uma Igreja onde a estética caminhe de mãos dadas com a ética, na qual as belas liturgias, os toques de trombeta, os megatemplos, as grandes concentrações de fiéis não sejam apenas um espetáculo aos olhos e ao coração, mas expressão de um compromisso, de um elo vital que lance as pessoas à atenção e ao cuidado integral da vida do ser humano, pois cada pessoa, por sua dignidade, é “casa de toda humanidade” e habitação de Deus. Uma Igreja de escuta, de diálogo, de ouvidos atentos para distinguir a voz do Senhor que clama na vida, no mundo e nas pessoas. É claro que estas rápidas provocações são apenas um “ensaio” diante das múltiplas interrogações que este tema – espero eu –, desperta em nós. O mais importante é que não tenhamos medo ou desconfiança, mas que avancemos com firmeza e coragem, sem perder de vista a humildade, na direção de contribuirmos para que o ambiente virtual seja cada vez mais conforme o sonho de Deus: um lugar de paz, respeito, justiça e amor gratuito. Paz e Bem!