REFLEXÕES SOBRE A PEDAGOGIA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA DESTINADOS A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA KÁTIA CILENE BORGES NART (UNESP), MARCIA REAMI PECHULA (INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - UNESP - RIO CLARO). Resumo As tecnologias comunicacionais vêm afetando a forma como o conhecimento é transmitido. Isso indica que a escola não é mais o único espaço da transmissão do conhecimento. Os meios de comunicação, por serem transmissores de informação, possuem grande prestígio e desempenham, mesmo que não intencionalmente, papel significativo na formação intelectual da população, o que não pode mais ser ignorado pelas instituições formais de educação. Além disso, estudos mostram–nos que os meios de comunicação, por exercerem tamanha influência na maneira de pensar dos cidadãos, assumem uma função pedagógica de extrema importância, pois são capazes de transformar crenças, valores e comportamentos, pois possuem habilidade em “modificar” os significados que as pessoas atribuem às coisas (BORDENAVE, 1982). Como afirma Paulo Freire (2007), o cidadão comum “excluído da órbita das decisões, cada vez mais adstritas a pequenas minorias, é comandado pelos meios de publicidade, a tal ponto que em nada confia ou acredita, se não ouviu no rádio, na televisão ou se não leu nos jornais”. Isso quer dizer que os meios de comunicação tornam–se cada vez mais importantes na tarefa de informar a sociedade geral sobre a atuação da Ciência. O termo divulgação científica é comumente empregado para designar os conhecimentos científicos que vão a público, via meios de comunicação, com a finalidade de informar a sociedade geral sobre as descobertas e invenções científicas; e, ultimamente, tem adquirido proporções significativas junto ao público consumidor de mídias. Direcionado por essas questões, o texto visa à exposição de reflexões em torno da compreensão dos aspectos que sustentam, ou melhor, constroem a pedagogia dos meios de comunicação de massa destinados à divulgação científica. Palavras-chave: Mídia, Pedagogia, meios de comunicação. Introdução O texto visa a um estudo sobre a pedagogia dos meios de comunicação de massa destinados à divulgação científica, no intuito de verificar como essa pedagogia produz e comunica a informação. Para tanto, apresentaremos o contexto no qual se inserem estes meios de comunicação e mostraremos algumas aproximações entre eles e as instituições de ensino, a fim de demonstrar que se apropriam de ferramentas semelhantes àquelas utilizadas pela escola para a transmissão do conhecimento. Finalmente, falaremos sobre a pedagogia dos meios de comunicação a partir de considerações sobre os aspectos pelos quais esses meios produzem a informação e a forma como é atribuída importância ao tema, a partir de exemplificações extraídas da revista Superinteressante. A escolha desse veículo deve-se ao fato de ele ser popularmente considerado como um segmento de divulgação científica, de a revista possuir grande circulação no país (mais de 450 000 exemplares/mês), além do reconhecimento do mercado publicitário e de público fiel. Faz parte do acervo da maioria das bibliotecas escolares de ensino básico, justamente por dirigir-se ao público que frequenta essas instituições e por abordar muitos temas ligados às áreas de conhecimento estudadas nas escolas. Sem pretender esgotar a temática abordada, temos consciência de que este estudo apresenta bases introdutórias de um campo amplo e complexo que terá continuidade em estudos posteriores. 1. Divulgação científica: contexto Comumente, divulgação científica é o termo que caracteriza a informação das descobertas e invenções científicas para a sociedade geral. Atualmente, as mídias têm adquirido proporções significativas junto ao público consumidor, que considera os meios de comunicação cada vez mais importantes na tarefa de informação sobre ciência. Essa questão, entretanto, é controversa, pois a transmissão do conhecimento científico sempre esteve, majoritariamente, vinculada ao ensino básico oficial (KRASILCHIK, 1972, 1980, 1987; MEGID, 1990, 1999), o que confere aos meios de comunicação uma função complementar no ensino de ciências. Tal situação, no entanto, tem sofrido alterações significativas, tanto por meio de parcerias entre instituições de ensino e produtores de meios de comunicação, quanto pelo vasto número de produtos lançados no mercado pelos produtores de mídias. Dentre estes produtos, encontramos revistas, produções televisivas, museus e sites. Nesse sentido, é preciso considerar alguns problemas relacionados à divulgação científica, sobretudo aquela proposta pelos meios de comunicação de massa. O primeiro é o de que a ciência contemporânea está imediatamente vinculada ou à tecnociência ou à tecnologia. Isso significa que ela não produz conhecimento arbitrariamente, mas que está a serviço de uma sociedade, cuja base é o mercado. Nesse contexto, ciência e política econômica estão imbricadas culturalmente. Por isso, a divulgação científica fomenta imaginários sociais que, ou a concebe como detentora da solução para todos os problemas - visão "salvacionista" - (DIAZ, 1996, SIQUEIRA, 1999), ou a vê como fonte de problemas que promovem a falência da natureza (MORIN, 1997). Essa segunda visão não é veiculada nas mídias de massa, que têm contribuído na sustentação do imaginário "salvacionista". Dessa forma, a divulgação científica produzida sob esta ótica, assume direção oposta àquela proposta pelas instituições científicas, para as quais a ciência, embora sirva também para a solução dos problemas, não se restringe a essa função. Tal problema evidencia-se, por exemplo, quando se lê a seguinte chamada de capa: "Bebês geneticamente selecionados livres de doenças, mais fortes e inteligentes e com a cor dos olhos que os pais escolherem. Você teria um filho sob medida?" (GALILEU, n. 211, Fev/2009). Cremos que tal problemática justifica o estudo proposto, que visa à caracterização da pedagogia dos meios de comunicação de massa destinados à divulgação científica, a fim de melhor compreender o papel que esse tipo de mídia exerce sobre o público consumidor e, também, repensar a relação entre a escola institucional e a mídia. 2. Aproximações entre a Escola e os Meios de Comunicação Com a finalidade de produzir informação, a mídia serve-se, além dos atrativos comerciais e visuais, de vários recursos "emprestados" da educação formal. Nesse sentido, é possível traçar paralelos entre a instituição de ensino e as mídias de massa. Primeiramente, verificamos semelhanças quanto ao modo de organização da equipe de trabalho: assim como na escola, na redação de uma revista há uma hierarquia (diretor, editor-chefe, responsáveis por seções ou cadernos e jornalistas), que estabelece metas e diretrizes do grupo, cabendo a cada direção cunhar um aspecto específico a essa ou àquela equipe. Na escola básica, o conhecimento está dividido em diversas áreas ou disciplinas (Matemática, Física, Biologia, Línguas etc); e essa é também uma característica das mídias de massa, pois como o sistema educacional, essas se organizam em editoriais, seções, suplementos e cadernos que abordam diferentes campos (Economia, Tecnologia, Cultura) que, assim como os professores, aprimoram-se em áreas de conhecimento específicas. Essas divisões servem para direcionar o público, situando-o em uma determinada área de informação - ou conhecimento no caso da escola - com o objetivo de orientar a busca das notícias e aprofundamento nos diversos temas. As mídias eletrônicas influenciaram as impressas, e essas passaram a utilizar cada vez mais as imagens e menos as palavras. Nesse processo, inicialmente apareceram as cores nos jornais (as revistas já dispunham desse recurso); em seguida, ampliaram-se recursos tais como imagens, box explicativos, gráficos, infográficos, além de uma diagramação mais parecida com a das imagens veiculadas pelos aparelhos de televisão ou pelas telas dos computadores por meio da Internet. Cabe lembrar que esses recursos são empregados também nas instituições educacionais. Assim, tanto os meios de comunicação, quanto as escolas, com a finalidade de melhor apreensão das informações, ampliaram a utilização dos recursos visuais. Outro ponto a ser observado e, talvez, o mais importante, é o público ou clientela; cada veículo de comunicação destina-se a um público relativamente específico, caracterizado pela área de interesse, poder aquisitivo, distribuído pela faixa etária, sexo, crença e etc. Essa mesma característica aparece na escola, que além de se dividir em vários níveis (graus definidos pelas faixas etárias e pelo nível de desenvolvimento), pode, também, reunir indivíduos agrupados a partir de especificidades bem definidas, tais como nível social, econômico, credo religioso, entre outras. 3. A informação nos meios de comunicação A reflexão sobre a pedagogia dos meios de comunicação de massa não se restringe a pensar o uso pedagógico desses veículos na sala de aula, mas admitir que esses meios desempenham, mesmo que informalmente, uma função pedagógica ao exercerem o papel social de comunicadores da informação. E, nesse sentido, sua pedagogia distingue-se daquela proposta pela instituição oficial. É sabido que as tecnologias comunicacionais das últimas décadas afetam a forma como o conhecimento acadêmico é transmitido e indicam que a escola não é mais o único espaço de construção do conhecimento, haja vista que todos os demais segmentos da sociedade influenciam, de alguma forma, esse processo (SODRÉ, 2002). Além disso, estudos mostram que os meios de comunicação, por desempenharem tamanha influência na maneira de pensar das pessoas, assumem uma função pedagógica de extrema importância, pois são capazes de transformar crenças, valores e comportamentos, e "modificar" os significados que as pessoas atribuem às coisas (BORDENAVE, 1982). E como diz Sodré (2002, p. 113) "‘educar uma criança é tarefa de toda aldeia, como prega um ditado africano'. Convém notar, entretanto, que existe contemporaneamente um forte ‘pedagogismo' informal, realizado pela sociedade, por meio de suas organizações de mídia e mercado". (grifo nosso). Essa tese é reforçada por Paulo Freire (2007, p. 98 e 99), ao afirmar que o cidadão comum "excluído da órbita das decisões, cada vez mais adstritas a pequenas minorias, é comandado pelos meios de publicidade, a tal ponto que em nada confia ou acredita, se não ouviu no rádio, na televisão ou se não leu nos jornais" (grifo nosso). Consideramos que os meios de comunicação não cabem mais apenas como instrumentos pedagógicos; nesse sentido, desempenham, mesmo que não propositadamente, um papel pedagógico. E isso ocorre independente de esses meios pertencerem a empresas de comunicação, sendo seus colaboradores responsáveis pela circulação das informações e também detentores dos instrumentos de produção e difusão de informações e, através desses, do acesso ao chamado espaço público (BOURDIEU, 1997). Outro aspecto interessante, a título de contribuição, refere-se à teoria da informação. Segundo Coelho Netto (1999, p. 120), na investigação da teoria da informação, o que interessa não é tanto o significado da mensagem, mas, sim, a sua capacidade de eliminar dúvidas. "As mensagens existem para eliminar dúvidas, reduzir a incerteza em que se encontra um indivíduo - sendo dado como certo que, quanto maior for a eliminação de dúvidas por parte de uma mensagem, melhor ela será". A finalidade da mensagem de um texto, de um informador, segundo o autor, é a de "mudar o comportamento de seu receptor, e como não se pode contestar que a dúvida, em princípio, gera a imobilidade, a informação surge como agente dissipador de incertezas e cujo objetivo é provocar uma alteração no comportamento das pessoas" (Idem, p. 120). A teoria da informação oferece elementos para analisar as características do processo de comunicação estabelecido pela educação formal e, ao mesmo tempo, verificar como esse processo ocorre nos veículos midiáticos. Outro dado importante para se pensar a pedagogia dos meios de comunicação é o fato de que, apesar da ampliação da oferta de vagas para a população em idade escolar, muitos de nossos estudantes mal conseguem concluir a Educação Básica por razões nem sempre ligadas ao processo educacional, como trabalho, família, condição econômica, por exemplo - e quando conseguem, muito se questiona sobre a qualidade do ensino oferecido por essas instituições. Por outro lado, muitas dessas pessoas têm acesso fácil aos meios de comunicação, que os conectam aos acontecimentos globais, levando-os a sentirem-se menos excluídos do contexto social, pois ao tomarem conhecimento do que acontece no mundo ao seu redor, apoderam-se das informações e sentem-se participantes dos eventos que lhes chegam por meio das mídias: Outra função das notícias divulgadas em massa é conceder prestígio às pessoas que se esforçam por se manter informadas sobre os acontecimentos. Colocar notícias à disposição de todos não significa que todos estejam atualizados. Na medida em que ser informado é considerado importante pela sociedade, as pessoas que seguem essa norma aumentam seu prestígio dentro do grupo (WRIGHT, 1973, p. 22) (grifo nosso). As instituições de ensino, pela sua forma de organização, priorizando o conhecimento mais elaborado e sistematizado, utilizando materiais didáticos que reproduzem os valores e a forma de organização do sistema educacional, não conseguem - e, talvez, nem devam - acompanhar todas as novidades advindas das pesquisas realizadas no interior das academias ou dos laboratórios. Ao contrário, os veículos de comunicação dão outra direção à informação; como exemplo, citaremos um trecho do editorial da Superinteressante (edição 220, dezembro de 2005) escrito pelo então diretor de redação, Denis Russo Burgierman, o qual define a revista da seguinte forma: "Nós aqui acreditamos que uma revista com a missão de explicar o mundo não pode deixar de discutir os temas que realmente importam às pessoas. (...) Por isso, fazemos muita força para trabalhar com seriedade, com honestidade, para ouvir todas as opiniões e dar espaço a cada uma delas. Enfim, damos duro com a intenção de fazer jornalismo de qualidade. Espero que todo esse esforço valha a pena e que nossas reportagens, por mais complicadas que sejam, ajudem você a entender este mundo." (grifo nosso) Os veículos de comunicação assumem a postura de facilitadores do processo de informação, de aquisição do conhecimento, uma espécie de "ponte" entre o público comum e o saber sistematizado, como nos diz o diretor de redação da revista Superinteressante,na citação acima. Enquanto os meios formais adotam uma postura que pode ser interpretada como "distante" da população comum, pela forma como se organizam e pela linguagem que utilizam, a mídia de massa, valendo-se de imagens esclarecedoras, textos com vocabulário simples, gráficos, animações etc, faz crer que, por esses meios, qualquer pessoa pode adquirir conhecimento. Dessa forma, utilizando-se de uma linguagem cada vez mais próxima do sujeito comum, faz com que esse se identifique com o veículo comunicador, promovendo um aparente diálogo entre esses agentes, o que promove o entendimento de que a comunicação midiática é mais "competente" do que a educação formal. Outra questão que não podemos perder de vista é a de que os veículos de comunicação de massa pertencem a grandes corporações que se organizam como indústrias e, como tais, estão atreladas a regras político-econômicas, o que se reflete no trabalho de seus colaboradores, que acabam por submeterem-se a tais normas. Mesmo que esses acreditem fazer seu trabalho com isenção, sem perceberem que os grupos para o quais trabalham estão mais preocupados com concessões políticas e em atingir um grande público, do que com a contribuição para a construção de uma sociedade mais igualitária, em que as pessoas possam exercer seu potencial humano (BORDENAVE, 1982). Dessa forma, jornalistas e repórteres, ao exercerem seu trabalho, também são influenciados pelo meio ambiente físico, social, econômico, cultural e político (ARBEX Jr, 2001, p. 103). Ao escrever uma matéria, o repórter, mesmo que inconscientemente, reconstruirá a realidade. 3.1. A pedagogia dos meios de comunicação de massa destinados à divulgação científica: uma leitura da Superinteressante Conforme anunciado no início do texto, o estudo em pauta será exemplificado pela revista Superinteressante, que apesar de não ser reconhecida academicamente como um veículo de divulgação científica, é vista pelo público geral como tal. A fim de alcançar o objetivo proposto (de refletir a pedagogia dos meios de comunicação de massa destinados à divulgação cientifica), o estudo esteve voltado à leitura das treze edições da revista Superinteressante, publicadas no ano de 2005. Já na primeira edição desse ano encontramos um exemplo significativo. Adotando uma postura aparentemente mais "próxima" de seu público, através de interpretações e comparações "de fácil compreensão", pelo uso de uma linguagem coloquial e repleta de gírias, a Superinteressante, no sumário da edição 209 (janeiro/2005), se refere ao personagem histórico Alexandre, o conhecido rei da Macedônia, como "Xandão", dizendo que esse era "o cara", fazendo alusão às conquistas dessa personalidade. É nítida a intenção do periódico de se aproximar do público adolescente, utilizando uma linguagem juvenil, coloquial e descomprometida com as regras básicas da língua culta. Porém, acreditamos que o veículo deveria atentar para o público a que se direciona e, dessa forma, para a qualidade da informação e da linguagem utilizada, para não promover o empobrecimento cultural do leitor. Se para o leitor comum é difícil compreender a linguagem utilizada pelas instituições formais de ensino em razão do uso de termos técnicos, a valorização de um vocabulário empobrecido pela coloquialidade e pelas gírias, em nada contribui para que esse público enriqueça sua linguagem. Tomemos outro exemplo: a capa da edição 215 (jul/2005), que traz a matéria "Nazismo: como essa idéia surgiu? Como ela pôde convencer tanta gente a tomar parte de um massacre? (E onde se esconde hoje?)", Trata-se de uma matéria que aborda um período da história estudado no ensino médio, e remete a um tema polêmico, que costuma mexer com os sentimentos e com os valores morais e éticos das pessoas. Midiaticamente é uma boa receita para chamar a atenção e vender muitos exemplares. Percebemos, já na capa, certo tom tendencioso na pergunta "Como ela pôde convencer tanta gente a tomar parte de um massacre?" O termo embute um julgamento de valor, que vai ao encontro do que pensa a maioria das pessoas, mas que exclui a isenção que se deve ter quando se expõe os fatos. A pergunta da capa direciona para o entendimento de que as pessoas envolvidas com o Nazismo já previam todas as mortes, as experiências médicas e as demais "crueldades" cometidas e que tomaram parte desse "massacre" por pura "maldade" ou ingenuidade. Apesar de evidenciar-se, no sumário, uma tentativa de amenizar o julgamento feito na capa com a chamada "Como explicar que essa idéia - hoje sinônimo do mal tenha seduzido tanta gente?" (grifo nosso), o texto conota a intenção de demonstrar que, na atualidade, o pensamento vigente sobre o nazismo é comparálo a tudo o que é mau, perverso, cruel. Todo o texto da matéria demonstra uma tendência de levar o leitor a acreditar que as pessoas ligadas diretamente à administração nazista eram loucas, desequilibradas, insanas, perversas com o único propósito: de maldade e destruição. Por exemplo, quando o autor se refere aos cientistas utiliza palavras como "idéias esquisitas", "jeito meio torto", levando o leitor a entender que esses cientistas não eram sérios em suas pesquisas e não tinham um propósito científico; em outro momento, em um dos boxes explicativos (nos cantos das páginas 42 e 43), a palavra ciência aparece entre aspas, numa tentativa de dizer que as experiências nazistas não eram sérias e que, portanto, não podem ser consideradas científicas. E, mesmo ao tentar explicar as "idéias nazistas", como o repórter as chama na matéria, é possível perceber quão tendencioso é o discurso, com subtítulos como "ódio ancestral", "fria modernidade", "ilusão da beleza", nesse último item, o autor começa dizendo que "Esse último componente do nazismo é talvez o mais chocante." (grifo nosso) - oferecendo ao público uma classificação dos pensamentos nazistas, ou seja, ele avalia as informações e, ao veiculá-las, já o faz sustentado por julgamentos subjetivos. Porém, pode-se pensar, também, que, como a maioria das pessoas desaprova e condena as práticas nazistas e a idéia de associar essas atitudes com o mal seja recorrente, o jornalista resolveu manter o seu discurso nesse sentido para que o público pudesse se identificar com ele e, portanto, aceitá-lo, porque, ao apresentar os fatos de forma isenta, poderia correr o risco de o leitor não compreender a posição da revista em relação ao tema, e talvez acusá-la de defender a ideologia nazista. Podemos entender, também, que o jornalista, na intenção de apresentar as informações ao seu público, vai em busca dos dados - o texto não deixa claro se ele entra em contato direto com os estudiosos ou se usa como base de pesquisa as obras desses - e os interpreta para o leitor por acreditar que isso seja necessário, pois este último não carregaria uma bagagem cultural que lhe permitisse fazer suas próprias análises e avaliações. Entretanto, tradicionalmente, a tarefa de construção e produção de conhecimento pertence às instituições formais de educação. Por esse motivo, para que sejam reconhecidos como meios legítimos de transmissão do conhecimento, os veículos de comunicação de massa recorrem a pesquisadores e acadêmicos para dar respaldo às afirmações que fazem ao disseminar notícias, isto é, os jornalistas, que não são cientistas, emprestam o discurso das ciências, para validar as informações que veiculam. Nesse movimento de buscar nas academias novos estudos, fatos que possam se tornar "furos de reportagem" ou causar algum impacto na vida cotidiana das pessoas e provocar polêmica - e por conseqüências "vender" o veículo - apropriarse dos dizeres de pesquisadores, cientistas, estudiosos e "traduzi-los" para o leitor comum, o profissional da comunicação, por vezes, pode embutir em seu discurso mesmo não conscientemente - comentários e avaliações de maneira a esvaziar o significado do conhecimento elaborado pelas instituições educacionais. É nessa direção que apresentaremos o último exemplo, caracterizado pela matéria "Inteligência animal" (edição 209, jan/2005), que descreve a estratégia de caça de um grupo de macacos. A jornalista, talvez na tentativa de tornar o texto menos denso e a informação mais acessível ao leitor, compara a ação dos primatas ao esquema tático de um time de futebol, chegando inclusive a comparar um dos animais - aquele que finalizava a caçada com um "último ataque certeiro e fatal" - a Romário, pela conhecida capacidade desse jogador de, mesmo sem fazer muito esforço, finalizar a maioria de suas jogadas com um gol. Fazendo essa comparação, um tanto quanto "pobre", a jornalista parece acreditar que seu público além de não ter uma rica bagagem cultural, também tem poucos interesses além do popular futebol. Embora os meios de comunicação mantenham uma postura que leve o público a identificar-se com eles pela pretensa cumplicidade e lealdade, entendemos que a natureza do discurso de tais meios também não favorece totalmente o diálogo legítimo, pois subestima o público, ao mesmo tempo em que não lhe oferece bagagem cultural e linguística, a qual poderia contribuir para o desenvolvimento intelectual e senso crítico dos expectadores. Ao contrário, apenas lhe oferece informações com conteúdo já analisado, priorizando a disseminação de opiniões de forma vertical, e não permitindo a troca necessária ao processo comunicativo legítimo. Pelo estudo empreendido ao longo deste trabalho, podemos entender que, nos mais variados segmentos sociais, é possível encontrar uma grande diversidade de aspectos pedagógicos. No mundo conectado em tempo real à Internet, percebe-se claramente que a escola, considerada o meio mais tradicional de transmissão de conhecimento e de valores morais e éticos, não pode, sozinha, dar conta da difusão do conhecimento. Portanto, é tempo de admitirmos que, na atualidade, os meios de comunicação, nos seus variados segmentos, acabam se apropriando da "responsabilidade" de transmitir informações, apresentadas como conhecimento elaborado, para seu público consumidor. Dessa forma, a mídia não pode mais ser vista apenas como instrumento de apoio pedagógico utilizado em sala de aula. Pretendemos demonstrar neste trabalho que, exatamente pela forma como se organizam e se estabelecem socialmente, esses veículos, por si sós, exercem uma função pedagógica de extrema importância, embora, em certos aspectos distanciem-se demasiadamente da pedagogia da educação oficial. Nesse sentido, acreditamos que os educadores, para além da utilização dos veículos de comunicação como simples instrumentos para "ilustrar" aulas, poderiam buscar melhor entendimento a respeito desses veículos e utilizá-los como produtos pedagógicos a fim de estabelecerem uma relação mais estreita entre educadores e educandos, com a finalidade de promover uma leitura crítica das diferentes informações que lhes chegam através das mais diversas mídias, já que, ainda na atualidade, os meios de comunicação de massa, na maioria das vezes, oferecem ao seu público apenas "comunicados", que não promovem um diálogo legítimo. Referências Bibliográficas ARBEX Jr., J. Shownarlismo: a notícia como espetáculo. 2ª ed. São Paulo: Casa Amarela, 2001. BORDENAVE, J.E.D. O que é comunicação. São Paulo: Brasiliense, 1982. BOURDIEU, P. Sobre a televisão. Trad. Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. CALDAS. G. 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