Um caso de término
de análise com criança
"Falta um pouquinho..."
Beatriz Siqueira
Vera Vinheiro
"É a criança que é alimentada com mais amor
a que rechaça o alimento ejoga com sua recusa
como com um desejo".
(Lacan, no texto A Direção da Cura.)
'A passagem do psicanalisante a psicanalista
tem uma porta da qual esse resto, que faz a sua
divisão é a dobradiça, pois tal divisão não é
outra senão a do sujeito, do qual esse resto é a
causa "•
(Lacan, na Proposição de 9 de outubro de 1967)
Introdução
Quando pensamos em Psicanálise com uma criança, pensamos sempre na
Psicanálise com um sujeito que nos chega trazido por um outro. Nunca é a criança
que vem buscar a análise, e sim os familiares que vêm se queixar da criança para
um psicanalista, o que aponta para a dependência primeira que a criança tem do
Outro.
No entanto, num determinado momento transferenciai, esse sujeito, que inicialmente vem à análise pelas mãos de um outro, coloca-se em trabalho de análise
e passa a vir e a caminhar com seus próprios pés. É com o discurso da criança que
lidamos, e não com o discurso dos pais. Sendo assim, podemos considerar a criança
como sendo um analisante integral, uma vez que o sujeito de que se trata na
psicanálise é o sujeito do inconsciente.
A partir dessas premissas básicas de análise, e após todo um percurso de análise
com uma criança, resolvemos nos perguntar sobre o que estaria em jogo num final
de análise com crianças. Para tentar responder a essa pergunta, percorremos
inicialmente os Escritos de Lacan onde ele propõe, em três textos diferentes,
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formulações a respeito do final de uma análise: a primeira em "Função e campo
da palavra e da linguagem", a segunda na "Direção da Cura", e finalmente no texto
sobre o informe de Daniel Lagache. Nesses três textos, como nos diz Colette Soler,
o que há de comum é a postulação de Lacan sobre o trabalho de análise consistindo
na busca do neurótico de uma resposta à sua questão sobre "quem sou eu", sendo
que nessas três abordagens estaria presente um fim sobre o "tu és".
No primeiro texto, o "tu és" aparece sustentado pela palavra, enquanto articulação significante, sendo o lugar da palavra também o lugar da falta. No segundo
texto, o "tu és" aparece como "tu és barrado", ou melhor, "tu não és o falo"; Lacan
evoca aí a SPALTUNG do sujeito, articulando-a ao significante da falta na busca do
desejo. No terceiro texto, o "tu és" coloca o sujeito no lugar de "tu és objeto", pois
o sujeito vê figurar no seu fantasma aquilo diante do qual ele se vê abolir-se,
realizando-se como desejo.
Para Freud há um limite real que é a castração. A travessia do Édipo seria a
possibilidade de um final de análise, pois indicaria um percurso do sujeito em torno
do falo. Com a travessia do complexo de Édipo, o sujeito muda de posição frente
ao desejo do Outro, embora ainda continue identificado ao pai, como Freud nos
mostra no caso Hans.
Lacan considera o final de análise proposto no caso Hans como sendo insatisfatório, pois o final de análise teria que tocar as questões de sexo e da morte. Lacan
dá um passo a mais quando propõe um trabalho de análise que implique na travessia
do fantasma e na destituição subjetiva. Essa travessia propicia o confronto do
sujeito com o Real do sexo.
Um Caso Clínico
J., tem 12 anos e está em análise desde os 7 anos de idade. A família de J. é
constituída pelos pais, um irmão e uma irmã, sendo J. o mais velho. A queixa
principal trazida pelos pais era sua agitação. J. colocava-se um pouco fora do
modelo ideal que sua mãe tinha de um filho: sentia muito ciúme de sua irmã, e
apresentava uma falta de atenção que o prejudicava. Os pais relatam que J. estava
na escolinha de futebol no Flamengo e que tinha muito talento, segundo os técnicos
e entendidos no assunto. No entanto, J. está sempre brincando, sempre desatento,
o que faz com que perca o lugar no time e tenha que ficar no banco de reserva.
A demanda que chega o tempo todo dos pais é que ele seja o craque, o melhor,
o bom, o modelo, e que ganhe sempre. Isso também acontece na escola, onde sua
mãe é coordenadora.
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O pai é uma figura deprimida e enfraquecida, sempre em "câmera lenta". Ele é
enorme de gordo, "uma bola", como diz J.. Quando jovem foi atleta: jogava vôlei,
possuindo até medalhas.
A mãe é uma pessoa controladora, a ponto de dizer que a única creche que serviu
para colocar seus filhos foi a que ela podia entrar sem hora marcada. Talvez
possamos pensar esse pai, enquanto atleta, como sendo a opção que não deu certo,
e um desejo da mãe dirigido a J. de que seja a opção que tem que dar certo.
J. passa muito tempo brincando com bola, onde ganhar ou perder era a questão.
Ele repetia incessantemente esta questão. A analista intervém, com seu ato,
fazendo-o pagar simbolicamente as sessões com dinheiro de sua mesada. Se havia
algo a perder, que fosse perdido na análise: o ato funciona como corte, numa
tentativa de circunscrever essa repetição. J. se aborrece, diz que vai chamar a
polícia, mas vem e paga. É que o gozo, ao ser cortado, dá margem a que se possa
construir um saber, saber não sabido.
J. começa a falar e a trazer outras questões, tais como as brigas que tem com a
irmã (que é a 2* filha e que tem o nome do pai). Ele se pergunta, em análise, porque
ela teria o mesmo nome que seu pai (a irmã, no discurso dos pais, é tida como a
perfeita). Nessa época ele já tinha se "desligado" do futebol, passando a escolher
a natação como sendo o seu esporte.
Num outro momento, em que suas questões com a irmã se acirraram, ele tem
uma briga feia com ela por causa de um apontador, chegando até a machucá-la. Os
pais ligam para a analista pedindo uma entrevista. Esta comunica a J. que haverá
uma entrevista com seus pais, e ele diz: "eu também venho". Nessa entrevista, J.
chora reclamando com os pais que eles estão sempre do lado da irmã, e nunca do
lado dele, e pergunta aos pais o porquê de ser ela quem tem o nome do pai.
Reconhece que a briga não era por causa do apontador, e sim porque está com raiva
e inveja dela. E ainda, nessa entrevista, lembra-se de quando apanhou pela primeira
vez: foi quando bateu na irmã que era pequena e estava no carrinho. Os pais se
surpreendem nesse momento, se emocionam e a entrevista é cortada.
J. prossegue por mais um tempo falando sobre a rivalidade com a irmã, até que
a mãe telefona à analista para comunicar-lhe que o avô paterno de J. tinha falecido,
e que J. havia chorado muito, dando murros e chutes na parede, embora não tenha
falado nada sobre isso. J. chega à sessão e diz que tem uma coisa para contar à
analista, mas que não quer falar: propõe então que se faça a brincadeira da forca,
onde a analista teria que descobrir qual era a frase. A brincadeira acontece, e a frase
que se forma é: "meu avô paterno morreu". Diante do Real da morte, do qual não
se pode falar, J. só pode escrevê-la.
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J. faz um trabalho de análise, onde algo da operação alienação-separação
acontece, e no final do ano passado ele diz que quer acabar sua análise. A analista,
enganada, concorda, ao que ele responde com uma crise: os pais são chamados ao
colégio, pois J. foi suspenso e tem que ficar pela primeira vez em "recuperação".
A analista resgata a situação, já que há algo a "recuperar", e "recupera" o trabalho
de análise, discordando desse final colocado por ele.
A análise de J. continua durante mais um ano, no qual ele começa a trazer
questões de sexo, os namoros, as meninas, as festas, até que ele volta a afirmar que
quer terminar sua análise e diz: "quem tem que vir agora é o meu irmão e não eu.
Ele é que não está legal. Eu não preciso mais. Não é mais com você que eu tenho
que conversar — é com meu pai — ele é quem sabe". A analista pergunta sobre o
que ele tem que conversar com o pai, e ele responde: "Uma garota pediu para
namorar comigo, mas eu estou na dúvida, porque, se eu decidir namorar com ela,
sempre que eu for nas festas, eu não poderei dançar com outras garotas. E só o meu
pai poderá me ajudar agora". A analista corta aí a sessão. Na sessão seguinte ele,
irritado, diz novamente que é o irmão que tem que vir à análise, ao que a analista
responde dizendo que não se trata de uma simples questão de substituição, e
convida-o a vir outras vezes. J. relata a conversa que teve com o pai, e a resposta
que obteve dele sobre as garotas: "chega uma hora em que a gente tem que
escolher".
J. passa então a trazer novas questões sobre sexo: como se comportar diante das
meninas, como fazer no início desses encontros, quando ele não sabe nem onde
colocar a mão; traz questões sobre a homossexualidade, sobre os meninos que não
conseguem se aproximar das meninas, e fala do medo dos meninos de serem
chamados de "viado". Na sessão seguinte ele paga o que devia (não pagava há 4
meses), mas não paga tudo, e fica devendo duas sessões. Nesse momento ele diz
— "falta um pouquinho" — ao que a analista responde — "falta um pouquinho"
—e o convida a retornar na próxima sessão. J. volta na semana seguinte e comunica
à analista: "Vou ficar até a próxima festa que é no mês que vem". A festa acontece,
e J. conta: "na festa do meu amigo eu fui esperto, pois, assim que eu cheguei, fui
togo formando a roda do 'RAP', e aí ficou mais fácil".
Gostaríamos ainda de ressaltar que nessas últimas sessões aconteceu um esvaziamento do discurso de J., pois as questões abordadas por ele eram trazidas com
distanciamento, demonstrando haver menos embaraço e sofrimento.
Na última sessão, J. reafirma que havia terminado sua análise, agradece à
analista e, estendendo-lhe a mão, deseja-lhe "felicidades". A analista avaliza esta
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decisão de término de análise, após considerar os pontos de torção já ocorridos
anteriormente neste percurso de análise de J.:
— Saída do futebol e escolha da natação como sendo o seu esporte.
— Pagamento simbólico das sessões com dinheiro da sua mesada.
— Colocação em cena de sua rivalidade com a irmã em torno do nome do
pai.
— Jogo da forca onde o Real da morte do avô se escreve.
— Suspensão na escola como "acting-out" dirigido à analista no sentido de
uma demanda de recuperação do processo de análise.
— Retorno ao pai com uma questão sobre o que é ser homem e como abordar
o Outro sexo.
— Surgimento de uma questão obsessiva quando fala de sua dificuldade de
abrir mão das outras mulheres para ter uma só.
— Colocação significante do "Falta um pouquinho" onde, através de uma
amarração tempo-dinheiro, o sujeito aponta para algo que lhe falta.
— Roda do "RAP" como tentativa de produzir algo que "dê conta" de sua
confrontação com o Real da impossibilidade.
— Esvaziamento do discurso e furo no "todo saber".
Considerações Teóricas
Em função de sua não maturação, a criança está numa posição de espera no que
diz respeito ao ato sexual como tal. No entanto, a criança, com suas construções
em análise, suas teorias sexuais infantis, nos mostra que ela tenta simbolicamente
dar conta desse buraco cavado no real pela sexualidade, evidenciando, assim, já
estar marcada pela impossibilidade. O analista, portanto, não deve ficar enganado
numa posição de saber sobre o sexo, e a destituição do sujeito suposto saber tem
que poder acontecer.
No seminário do ato psicanalítico, Lacan refere-se à destituição do sujeito
suposto saber da seguinte maneira: "O término da análise consiste na queda do
sujeito suposto saber e sua redução ao surgimento desse objeto a como causa da
divisão do sujeito que vem em seu lugar. Aquele que fantasmaticamente, com o
psicanalisando, joga a partida enquanto sujeito suposto saber, a saber, o analista,
é este, o analista, que vem no término da análise a suportar não ser mais nada senão
este resto. Este resto da coisa sabida, que se chama objeto a. É em torno disto que
deve levar nossa questão".
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Neste mesmo seminário, o do Ato Psicanalítico, Lacan refere-se a término de
análise e a final de análise. Deveríamos aqui pensar, então, em dois tempos? Talvez
o melhor seria pensarmos no final da análise como sendo uma linha contínua, onde
o final estaria em algum lugar deste horizonte, como pontos de basta a partir do
particular de cada um.
No entanto, nos retorna a questão sobre o que estaria em jogo neste ponto de
basta, neste momento de concluir uma análise?
Sobre o final de uma análise, Lacan, ainda no Seminário do Ato Psicanalítico,
afirma que "o fim da psicanálise supõe uma certa realização da operação verdade,
a saber: que isso deve constituir de fato esta espécie de percurso que, do sujeito
instalado no seu falso ser, faz com que ele realize alguma coisa como um
pensamento que comporta o 'eu não sou'; isso não acontece sem reconhecer, como
convém sob uma forma cruzada e invertida, seu lugar do mais verdadeiro, seu lugar
sob a forma do 'Lá onde isso estava' ao nível do 'eu não sou', que se reconhece
neste objeto a que desde sempre se define como essência do homem, e que se chama
o desejo, mas que, no fim de uma análise, se traduz por essa coisa não apenas
formulada, mas encarnada, que se chama castração. É o que nós geralmente temos
etiquetado sob a letra do -<p."
O -q> é o lugar onde se inscreve a hiância própria ao ato sexual; é a perda fálica
a nível do signif icante. A falta tem que ir se inscrevendo em várias passagens: num
momento como -<p, e noutro como objeto a,
No final da análise tem que acontecer a desmontagem da pulsão. Fazer o
caminho do significante ao objeto a é desmontar a pulsão. A pulsão é a forma em
que o sujeito inscreve, no seu corpo, a demanda do Outro. A pulsão, no final de
análise, é o traçado do puro corte. É através da montagem da pulsão que a
sexualidade participa da vida psíquica. O que há de sexual no ser falante está
condenado a passar pela hiância do inconsciente, e essa passagem pela hiância é
denominada pulsão. O analista, funcionando como causa, e não respondendo à
demanda, reconduz a transferência à pulsão.
O que interessa à psicanálise é a subjetivação da questão do sexo, ou seja, é a
constatação de que não há realidade subjetiva possível do sujeito como elemento,
como "partenaire" sexuado no que ele imagina como unificação no ato sexual. O
ato sexual surge, então, como paradigma dessa conjunção impossível.
Não há relação sexual, não há dois. Trata-se aqui do Um da separação: Yad' V
Unéo Um, cujo suporte vem do campo do Real; é o Um do puro corte.
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O Um da separação está para representar a solidão, pois indica a não relação
com o outro sexo. É impossível fazer o Um da conjugação, isto é, fazer a
conjugação do macho-fêmea. O parceiro vai, então, ser procurado como aquilo que
está perdido.
O fantasma vai ser constituído na medida em que o objeto a faz o papel do que
vem no lugar do parceiro que falta. A conjunção desse $ e desse a não é outra coisa
se não fantasia: $()a.
O sujeito entra na alienação como objeto a—seria o momento do "não penso".
A passagem dele a sujeito desejante seria via simbolização desse a como -<p.
Portanto, haveria uma passagem de ser a ter: tê-lo, mas enquanto falo perdível.
Durante muito tempo em sua análise, J. deteve-se na questão do brincar com
bola, em ganhar e perder, ou melhor ter ou não ter, o que, na verdade, era um jogo
imaginário que apontava para o simbólico da castração.
A criança, em seu processo de análise, terá ainda que fazer uma separação desse
lugar de objeto a sobre o qual ele nada sabe. É, portanto, na destituição do sujeito
suposto saber que o sujeito retorna ao "não penso" constituinte, mas de uma outra
maneira, uma vez que terá cumprido um percurso de análise.
Quando J. diz à analista — "não é mais com você que tenho que falar, é com
meu pai porque é ele quem sabe" — talvez possamos falar aqui numa certa
dessuposição, ou, pelo menos, num furo no "todo saber".
Quando J. fica em dúvida sobre se abriria mão das outras mulheres para ficar
com uma só, não estaria se delineando aí á questão fantasmática do sujeito
obsessivo?
Levando-se em conta a equação dinheiro-fezes, quando J. resolve pagar o que
deve, não estaria ele deixando cair esse objeto, mesmo que ainda "falte um
pouquinho"? E quando a analista lhe reenvia o "falta um pouquinho" convidando-o
a retornar, não haveria aí uma certa equivalência entre J. e ai
No entanto, uma questão se coloca: J. faz um apelo ao pai, ou um retorno ao pai,
lançando-lhe uma pergunta sobre o outro sexo, mas evidenciando que houve uma
circularídade e uma alienação de uma outra ordem. Como poderíamos pensar esse
retorno ao pai? Acreditamos que um final de análise tem que passar pelo pai uma
vez que o campo do Outro é paterno em Freud.
Freud instala o pai no centro do complexo de Édipo: a entrada no Édipo é
desencadeada pelo pai, e a saída do Édipo implica na morte do pai, ou na entrada
em cena do "pai morto". O pai tem a função de abrir, para o sujeito, o acesso ao
desejo, reenviando o sujeito ao seu próprio enunciado.
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Um final de análise teria que passar pelo pai, pelo que resta do pai enquanto
pergunta sobre a existência do Outro. Não teria J. feito esse retorno ao pai ao lhe
lançar uma pergunta sobre o sexo, e passando a colocá-lo não mais à margem, não
mais em "câmera-lenta"?
Conclusão
Nas últimas sessões de sua análise, J. fala de uma festa que foi na casa de um
amigo onde, "para ficar mais fácil", ele propõe a Roda do "RAP". O que poderíamos pensar sobre essa Roda? Quando pensamos num final de análise pensamos
na produção de uma borda ao Real que lhe faça limite. "Há do Um" aponta para o
que não se pode dizer; ele. indica que a escritura está para além do que foi falado,
pois a escritura está sempre ligada a impossibilidade. O Um tem que ter lugar no
final da análise pois é o que permite que um resto se produza para escrever a
impossibilidade.
A impossibilidade se escreve ao lado de A mulher, barrando-se o artigo para
indicar a não existência de um universo de discurso. "A escrita que nos interessa
é a que visa produzir, a partir do impossível, uma borda" (Eduardo Vidal, em seu
texto Ya d' V Uri). J., quando fala de sua dificuldade nas festas, fala desse encontro
com A mulher, com o Outro sexo. É um mau encontro, pois é um encontro com o
Real que traz um mal estar. J. não faz essa borda ao Real enquanto escritura; no
entanto, talvez possamos ver a Roda do "RAP" como sendo uma tentativa de dar
conta desse mal estar, mostrando não estar mais numa posição de impotência, e
sim tocado pela impossibilidade.
Nossa hipótese é que, na Psicanálise com criança, teríamos que falar em término
de análise (a partir da diferença que Lacan faz no Seminário do Ato Psicanalítico
entre término e final de análise), um término de análise como ponto de basta a partir
do particular de cada um.
Na Proposição de 9 de outubro de 1967, Lacan afirma que "a terminação da
análise, é a passagem, com efeito, do psicanalisante a psicanalista, num a posteriori,
num aprés-coup característico do tempo lógico". Esta passagem seria confirmada
no dispositivo do passe, onde a psicanálise em intensão se enlaçaria no horizonte
da psicanálise em extensão.
Propomos que o final de uma análise deveria ser pensado, como nos diz Lacan,
sempre como um final num tempo lógico, e não cronológico, onde o passe estaria
apontado no horizonte, e onde o momento de concluir estaria num a posteriori,
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quando então os efeitos do percurso de análise viriam a se manifestar na sustentação
pelo sujeito de um discurso de analista.
Discussão
Algumas questões que nos ficaram a partir da discussão desse trabalho, após
apresentação numa jornada de psicanálise:
1. Em que acarretaria a não maturação genital da criança no trabalho clínico?
2. "... ele não sabe nem onde colocar a mão" —porque nos casos clínicos com
crianças se fala tão pouco em masturbação?
3. Levando-se em conta que o fantasma é estrutural, como ficaria a travessia do
fantasma na clínica com crianças?
4. "Falta um pouquinho" — um título ou uma questão na direção da cura com
crianças?
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