SABERES ADQUIRIDOS, GÊNERO E INCLUSÃO NO TRABALHO
DA CONSTRUÇÃO CIVIL.
Neusa Maria da Silva
Antônio de Pádua Nunes Tomasi
CEFET-MG – Programa de Pós Graduação em Educação Tecnológica
Bolsista CAPES
GT 09: Cultura, trabalho, relações étnico-raciais, gênero e diversidade na educação
profissional e tecnológica.
RESUMO: Este artigo é parte de uma pesquisa em andamento no PROGEST – Programa
em Engenharia, Sociedade e Tecnologia, Grupo de Pesquisa do Mestrado em Educação
Tecnológica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET – MG.
O PROGEST disponibiliza cursos de formação profissional em Gestão de Obras para
operários e operários da construção civil. É objeto de discussão a investigação dos saberes
adquiridos no curso pelas mulheres operárias da construção civil e as relações de gênero que
acontecem no ambiente de trabalho dessas mulheres. É objetivo de o estudo desvelar as
perspectivas dessas operárias em um ambiente historicamente masculino, que pode propiciar
a discriminação de gênero. Também, investigar os saberes que lhes dão autonomia no
trabalho para que possam construir suas carreiras profissionais e investigar como essas
mulheres lidam e combatem a discriminação no seu cotidiano laboral. A abordagem da
pesquisa é qualitativa, pois permite “identificar comportamentos não intencionais ou
inconscientes” Alves-Mazzotti; Gewandsznajder, (2004,p164). Também sobre pesquisa
informamos que será de caráter etnográfico, pois poderá proporcionar à pesquisadora uma
visão holística das relações de gênero na situação de trabalho que se estabelecem nos
canteiros de obras, e ao mesmo tempo demandará uma preocupação no momento da
pesquisa, com o significado que os sujeitos investigados, as operárias da construção civil,
dão a si e ao mundo em que vivem. A coleta dos dados será feita por meio de entrevistas
gravadas, semiestruturadas, pois segundo Quivy,(1995.p.69) “[...]elas têm como função
principal revelarem determinados aspectos do fenômeno estudado, em que o investigador
não teria pensado espontaneamente[...]”A pesquisa será realizada em três fazes e ainda se
encontra na primeira, que é composta por pesquisa bibliográfica exploratória e entrevistas
coletadas das alunas do curso de Gestão de Obras. A segunda fase será em um canteiro de
obras do setor de edificações. O canteiro de obras como lócus da pesquisa é importante,
posto que nele, ocorrem relações sociais, e entre elas, as relações de gênero. Conforme
Saffioti,( 1992, p.187) [...] o conceito de relações de gênero deve ser capaz de captar a
trama de relações sociais, bem como as transformações historicamente por elas sofridas
através dos mais distintos processos sociais,trama essa na qual as relações de gênero têm
lugar.” É neste sentido que nossa investigação se guiará. E a terceira e última será dedicada
ao tratamento dos dados e à escrita da dissertação. Como resultados iniciais, pode-se
afirmar que, as mulheres operárias, alunas dos cursos oferecidos pelo PROGEST, adquirem
novos saberes que lhes permitem a inclusão no canteiro de obras, de forma mais autônoma e
mais atenta aos mecanismos de discriminação presentes no seu local de trabalho. Com esses
instrumentos a pesquisadora pretende absorver o maior número de informações sobre o
objeto da investigação, as relações de gênero na situação de trabalho dos canteiros de obras
da construção civil. Espera-se que estes estudos ampliem os conhecimentos sobre os saberes
adquiridos para atividade do trabalho, sobre as ralações de gênero e as discriminações no
trabalho das operárias da construção civil.
Palavras Chave: Gênero; Trabalho na construção civil; Relações de Gênero.
Introdução:
Conforme resultados de pesquisas realizadas pelo DIEESE - Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos, em 2013, a construção civil foi responsável por
1,9% do PIB - Produto Interno Bruto, com referência a 2012 no Brasil, assim podemos
constatar que a construção civil exerce um papel de grande importância na economia do
país.Com a expansão do setor da construção civil muitas obras de variados portes surgiram e
estão surgindo na região metropolitana de Belo Horizonte, com esse fenômeno a demanda
por mão de obra é crescente, principalmente pela mão de obra qualificada, que não é
encontrada, pois até pouco tempo, a construção civil não tinha como hábito de investir na
formação e na qualificação da sua mão de obra, mas com a necessidade de mão de obra
especializada no mercado, passou a se preocupar com a qualificação de seus operários,
preparando-os, na maioria das vezes, no próprio canteiro de obras, conforme suas
necessidades. Essa escassez de mão de obra deu oportunidade para a inserção da mulher,
porém ela não tem experiência e muita das vezes procura pelos cursos de capacitação, na
esperança de garantir sua inserção e ou permanência no canteiro de obras. Essa busca pelos
canteiros de obras, local de predominância masculina, propício as discriminações, nos faz
refletir sobre como será o cotidiano laboral dessas mulheres, uma vez que, na sociedade o
papel da mulher é construído, contrário do sexo que é definido naturalmente, já que gênero é
um constructo social. Papeis definidos aos homens e as mulheres nem sempre levam as
diferenças de gênero, dado que, gênero é uma concepção social. Indagamos: quais são as
perspectivas delas com relação à carreira profissional? Como acontece a relação entre os
gêneros no ambiente de trabalho? Como elas adquirem a experiência do ofício da atividade
do trabalho no canteiro de obras? Sabendo-se ainda que, a divisão sexual do trabalho sempre
beneficiou o gênero masculino para as funções de caráter mais expressivo socialmente e à
mulher atividades menos importantes do ponto de vista social, ou seja, menos remunerada,
gerando a disparidade de gênero. Apesar dos avanços da lutas feministas, ainda existe esta
desigualdade, que gera a discriminação do trabalho feminino, principalmente no âmbito da
construção civil, território historicamente de maioria masculina. Mas que somente na região
metropolitana de Belo Horizonte, as mulheres ocuparam 1,3% das vagas que foram
oferecidas pela construção civil no ano de 2012. Portanto faz se necessário o estudo desta
mudança cultural que está acontecendo no mundo do trabalho da construção civil. Este
comportamento social nos leva a refletir por que as mulheres estão procurando por um ofício
que sempre foi ocupado por homens? Quais seriam as implicações sociais deste momento da
construção civil? É neste sentindo que nossa pesquisa se norteia, esperando respostas para
essas e outras questões. Nossa investigação se inicia no PROGEST, com as alunas do curso
de gestão de Obras, de onde colhemos as primeiras informações sobre capacitação e
qualificação profissional para o trabalho na construção civil.
PROGEST
O grupo de pesquisa PROGEST – Programa de Estudos em engenharia, sociologia e
tecnologia, agrega alunos do Mestrado em Educação Tecnológica, da graduação das áreas de
engenharia da produção civil, da engenharia elétrica e engenharia mecânica, ele oferece os
cursos de capacitação nas áreas de Instalações Elétricas prediais e Gestão de Obras para
operários da construção civil, sendo que o foco deste artigo é o curso de Gestão de Obras e
suas alunas. O PROGEST vem formando e proporcionando mobilidade profissional aos
operários e operárias da construção civil há mais de dez anos. Lá os cursos são
desenvolvidos utilizando uma matriz curricular básica que é formada pelas seguintes
disciplinas: matemática, legislação trabalhista, educação ambiental, leitura de projetos
arquitetônicos, hidráulicos, estruturais e elétricos, ergonomia e segurança do trabalho,
linguagens para fins profissionais, material de construção, gestão de pessoas, informática,
tecnologia das construções, qualidade e produtividade e logística, arranjos e fluxo. Todas
estas disciplinas proporcionam às alunas grande segurança para desempenharem a função de
Gestoras de Obras em qualquer canteiro de obras. As suas práticas educativas são
desenvolvidas apoiadas na Formação ao longo da vida – FLV. A formação ao longo da vida
é entendida como uma escolha feita pelo indivíduo, ele decide o que aprender e como
aprender. O indivíduo ao optar pela formação ao longo da vida, ele já traz uma bagagem de
saberes, portanto é uma nova aquisição de conhecimentos, ou melhorar os que têm, pois
como já foi dito, esta escolha é do sujeito. Para nos fundamentarmos nos apropriamos dos
escritos de (TOMASI, 2010) onde ele diz que a “apropriação de conhecimento e de
formação do espírito humano não se restringe ao período escolar ou universitário”, assim
podemos concluir que na formação ao longo da vida, o sujeito vai à busca de realizações
pessoais e ou em busca de um futuro profissional melhor. Para (MERLE, 2006) a formação
do adulto só acontece quando ele obtém a autonomia que lhe permite associar conceitos
de seu dia a dia aos conceitos científicos. Diferentemente, a educação ao longo da vida, que
para Meirieu,1998,o termo educação, atribui-se à aprendizagem do indivíduo que antecede a
formação, e ela é garantida pelo Estado na abrangência da escola obrigatória. Período em
que o indivíduo se encontra na fase infantil, sendo a sua educação escolhida por um adulto,
ou seja, a criança aprenderá de forma já estabelecida pelo adulto, conforme currículo pré
estabelecido pela secretaria de educação, com uma carga horária necessária para
a
continuidade de seus estudos. É na escola de base, que este saber em parte é adquirido,
sabe-se que a escola tem a missão insubstituível de garantir certo número de saberes e saber
fazer, ao indivíduo e que sejam adquiridos por todos de maneira sistemática e organizada.
Phelippe Meirieu, 1998 entende que a escola é o local onde a criança irá socializar-se,
conhecerá regras de boa convivência que são partes integrantes na formação infantil. Para
incentivar esta autonomia, o PROGEST estimula o exercício da cidadania, as ampliações de
seus conhecimentos pessoais e sociais, promove a consciência crítica, a autonomia e o
fortalecimento da autoestima com a finalidade de instigar a mulher à tornar-se protagonista
de sua história.
Práticas educativas da Formação ao Longo da vida.
As práticas educativas que são administradas por meio das disciplinas acima
mencionadas. E para as alunas se destacam as disciplinas de leituras de projetos, pois na
obra o operário que sabe ler os projetos, sabe exatamente qual a situação da obra. Este saber
implica em ter o controle do andamento da obra e conseguintemente, poder decidir quem
fará o que em que momento, ou seja, tem o poder para distribuir o trabalho. As disciplinas
são de formas organizativas globais e integradoras, que proporcionam a construção dos
saberes. Essa integração das disciplinas capacita as alunas ao raciocínio rápido e lógico que é
exigido do trabalhador que tem competência, pois no canteiro de obras a todo o momento, o
mestre toma decisões importantes, que sempre refletirão mais adiante. Todas essas
disciplinas são ministradas em dois módulos semestrais, sendo que os alunos freqüentam as
aulas aos sábados, perfazendo uma carga total de 220 horas. Na FLV as alunas passam a
refletir sobre seu papel na sociedade e sobre os saberes que lhes são outorgados, saberes que
as tornam autônomas de maneira que possam analisar criticamente todas as situações que
são por elas vividas. Adquirem condições de se “desenvolverem pessoalmente e
profissionalmente” (MERLE, 2006.p.4). As aulas alicerçadas na FLV têm seu conteúdo
organizado de forma integradora, para que as alunas entendam como é produzida a
aprendizagem, ou seja, “deve ser um aprendizado no qual todos aprendem e ensinam ao
mesmo tempo, dando sentido assim, a reconstrução do conhecimento por meio de suas
próprias práticas, alcançando os saberes de forma clara.” (FREIRE, 1996.p.23). Esta
interação entre as alunas e formadores é enriquecedora e só acontece por que os
conhecimentos prévios e as contribuições das alunas são respeitados, e esta relação entre
experiência e apropriação de conhecimentos valoriza a singularidade de cada uma e
contribuí para a possession de soi (MERLE,2006.p.5),ou seja, a posse de si mesma, em
outras palavras, a autonomia para a livre escolha, é empoderamento por meio do saber. Essa
condição proporciona às alunas do PROGEST, autoestima elevada, melhor compreensão das
tensões que existem no trabalho da operária na construção civil, dando a elas maior clareza
de sua situação em seu ambiente de trabalho e possibilitando-lhes consciência de seus
direitos em todas as estâncias, para assim compreenderem melhor o meio de sua atividade,
tornam-se mulheres em ação, inovando em suas práticas, mulheres dotadas de vida, e não
absolutamente automatizas, mas criando elas mesma o movimento da história.
(PERROT,1988. p,87)
Saberes adquiridos para as alunas do PROGEST
Conhecimentos, habilidades e competências, em sentido amplo, são conceitos que podemos
atribuir ao saber de uma pessoa. Segundo Marcelle Stroobants, socióloga francesa, o saber é
um verbo que necessita justaposição a uma ação ou verbo de ação para completar seu
sentindo (STROOBANTS,1994,p.141). Assim os saberes, savoir-faire são as “assimilações
de regras, que são desenvolvidas na situação de trabalho”(TOMASI,1999.p,57) e o saber-ser
são os saberes que englobam as qualidades de ordem pessoal,como agilidade,educação,
iniciativa e outras pertencentes às atitudes pessoais de cada pessoa, são os saberes inerentes a
pessoa e ou adquiridos ao longo da vida, é a competência do indivíduo,que na concepção de
Phelippe Zarifian, sociólogo francês que fez importantes estudos sobre competências, diz
que a competência profissional é:
é uma combinação de conhecimentos de saber-fazer, de experiências e
comportamentos que se exercem em um contexto preciso.Ela é constatada quando de
sua utilização em situação profissional.a partir da qual é possível de
validação.Compete então a empresa identificá-la,avaliá-la,validá-la e fazê-la
evoluir.(Zarifian,2001.p,66)
E para as alunas do PROGEST, segundo dados adquiridos por meio de entrevistas
semiestruturas realizadas durante o curso de Gestão de Obras, são os conhecimentos que se
deve adquirir para melhorar de vida, ter uma nova oportunidade de trabalho, ter uma
promoção ou simplesmente para aprender coisas novas para mudar de vida. No anseio de
encontrar estes saberes que são conceituados pelos estudiosos e expressos por elas de forma
simples, elas os buscam espontaneamente no PROGEST, na esperança de que se tornem
qualificadas e competentes para o exercício da função de Gestoras de Obras. E na posição
de quem já tem a competência profissional, os saberes para os homens, os alunos do
PROGEST, segundo (FERREIRA, 2012, p, 39), são os “saberes teóricos”, que podemos
entender, segundo a fala deles, é a explicação sistematizada para o que eles aprenderam com
a experiência de anos trabalhando nos canteiros de obras, pois sabemos que a maioria deles
tem o savoir–faire, aquele saber aprendido na situação de trabalho. São os conhecimentos
que foram adquiridos ao longo da vida, no exercício do ofício, sendo acompanhados no
princípio por colegas mais experientes, que lhes foram passando os saberes da atividade
enquanto a executavam (SILVA,2013.p,03). O objetivo do PROGEST é que os alunos
obtenham níveis de conhecimentos que lhes possibilitem a formação de seus próprios
julgamentos sob forma ética nas diferentes situações em que eles possam se encontrar, no
trabalho ou em suas vidas pessoais cotidianamente. Dessa maneira podem alcançar a
autonomia que, segundo (DADOY, 2004. p,130) “é a soma dos saberes teóricos aos saberes
práticos”, que vão adquirindo forma nas alunas e nos alunos, e esta concepção faz aumentar
a motivação deles para o aprendizado. Muitas das alunas têm o desejo de prosseguir na
construção civil, porém em outras funções como: técnicas de segurança do trabalho ou até
mesmo com engenheiras. A maioria vê no aprendizado do PROGEST uma maneira de saída
do privado para o público, como a fala de uma aluna que está na faixa etária de 40 a 50 anos
e sempre trabalhou em serviços domésticos em casa ou em casa de outras pessoas. Aliás,
serviço que ela considera degradante e sem possibilidades de melhorias pessoais ou
financeiras, ela diz o seguinte:
o curso aqui... representa uma oportunidade de eu sair de casa... com o que eu aprendo
aqui, posso encontrar serviço de carteira assinada... com hora de entrar e de sair. Em casa
de família a gente é escrava... a lei agora manda patroa assinar a carteira,mas elas não
querem... depois conseguirei outro trabalho em outro lugar, por que minha carteira não
estará mais branca. ( Aluna do PROGEST-2013/01)
Relações de Gênero e discriminação na construção civil.
As relações de gênero são procedimentos complexos e instáveis, formados de partes que são
diferentes entre si e implicam em ligações variadas simultaneamente entre homens e
mulheres, frente aos diferentes aspectos da vida social, entre eles o trabalho. Gênero,
segundo Joan Scott (1995) se enquadra em uma categoria útil à história em geral e não
somente na história das mulheres, que pode proporcionar um terreno rico para analisar as
desigualdades das hierarquias. Para esta autora, o gênero surgiu para opor-se ao
determinismo biológico das relações entre os sexos, que servia para justificar as
desigualdades que existem na aparência física entre homem e mulher. Essas desigualdades
dão origem à discriminação por gênero, que é proibida por lei. Segundo o princípio da
igualdade da Constituição Brasileira de 1988, que dispõe o seguinte: “Artigo 5º. Todos são
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade”, ou seja, não deve haver discriminação em hipótese alguma.
Discriminação é definida pela convenção 111 da OIT (Organização Internacional do
Trabalho) como: “toda a distinção, exclusão ou preferência fundada na raça, cor, sexo,
religião, opinião política, ascendência nacional ou origem social, que tenha por efeito
destruir ou alterar a igualdade de oportunidades ou de tratamento em matéria de emprego ou
profissão.” A discriminação pode ser direta e indireta, a primeira é mais facilmente
detectável, pois ela é notória, explícita e de fácil comprovação, mas a indireta é de difícil
comprovação não existindo muitas leis que fazem referências a discriminação indireta, e, as
existentes, são veiculadas em meios que nem toda população tem acesso, principalmente
para a população mais carente, como as mulheres operárias da construção civil. Problema
que é constatado por essa pesquisadora sempre ao administrar a disciplina “Legislação
Trabalhista” quando é observada a pouca ou quase nenhuma informação referentes às leis
que legislam o trabalho, conseguintemente, poucos sabem de seus direitos. Apesar de elas
serem mais escolarizadas que os homens, segundo dados do censo demográfico 2010,
pesquisa realizada pelo IBGE – Instituto Brasiliero de Geografia e Estatística, elas ainda não
conseguem interpretar exatamente o conteúdo das leis. Como indica a fala da aluna operária:
“As leis são complicadas, não consigo entender nada que está escrito, no serviço ninguém
sabe explicar direito, não tenho tempo de ir ao Ministério”. É neste sentindo e aliada à
necessidade da manutenção do trabalho que a discriminação contra a mulher no mundo do
trabalho vai proliferando.
3. 2 - Canteiro de Obras
O canteiro de obras, segundo a NR 18:2013, norma que regulamenta a ambientação de um
canteiro de obras, é a área de trabalho fixa e temporária onde se desenvolvem as operações
de apoio e execução de uma obra. É dividido, conforme a NBR 12284:1991, em áreas
operacionais, que são as áreas onde ocorrem as atividade de trabalho e as áreas
de
convivências, que são destinadas ao conforto e bem estar dos trabalhadores. Com relação à
cronologia, o canteiro é dividido em três fazes: a inicial é o momento onde acontece os
trabalhos de terraplenagens e fundações e há muita movimentação de terra. A intermediária é
o momento em que ocorre o maior volume de produção, que são estruturamento, alvenaria e
instalações, e a fase final estão concentradas as atividades de revestimento e acabamento.
Mas é no canteiro também que ocorrem várias relações sociais. No canteiro de obras, as
idéias se tornam realidade por meio da força executora do operariado, ali que os traçados e
cálculos que os engenheiros fizeram dentro dos escritórios, vão sendo construídos e se
tornando substanciais, é o subjetivo se edificando. Outrossim, o canteiro é palco do controle
da hierarquização, nele proliferam as tensões das classes, pois seu planejamento é na maioria
das vezes, pensado para que o trabalho flua mais facilmente e a produção seja mais rápida e
com custo sempre mais baixo, ou seja, há controle do trabalho e do trabalhador. Outras
interfaces são observadas, como a moradia para operários imigrantes e também como
espaço para aprendizagem, onde os operários inexperientes têm a chance de aprender o
ofício, como se sabe, por muito tempo, os saberes do trabalho na construção civil foram
passados aos iniciantes pelos operários mais antigos da obra, durante a execução do trabalho,
é o savoir-faire, amplamente estudado pela academia francesa do trabalho. Mas uma das
suas características mais marcantes é ser território majoritariamente masculino, onde as
relações, segundo Magda Neves, “entre homens e mulheres são vividas e pensadas enquanto
gênero masculino e feminino.” Forma de pensar que dá margem às discriminações de
gênero, pois a resistência ao trabalho da mulher é grande neste setor. Pode-se ver, ainda
nitidamente, a força do patriarcado neste
seguimento econômico, a divisão sexual do
trabalho é marcante e a dominação masculina é veladamente presente na descaracterização
da competência da mulher, configurando assim a discriminação.
Conclusões Iniciais
A pesquisa ainda tem muito a desenvolver, pois no estágio atual, se encontra no início da
exploração etnográfica dos estudos sobre os aspectos das relações de gênero, que
entremeiam o trabalho de homens e mulheres no canteiro de obras da construção civil. Mas
nos primeiros resultados de análise obtidos por meio das entrevistas realizadas com as
alunas, podemos inferir que, os cursos do PROGEST, com suas práticas educativas à luz da
FLV promovem a autonomia de suas alunas e na medida em que elas adquirem novos
saberes a inclusão e ou a reinserção no canteiro de obras acontece. Quando se tornam mais
esclarecidas elas passam a não permitir discriminações contra elas e contra seu trabalho. Mas
a despeito das dificuldades que o meio masculino apresenta, elas avançam lutando por
melhor qualificação e mais igualdade no trabalho. Os estudos sobre gênero que se iniciaram
com esta pesquisa poderão contribuir para a melhor compreensão das relações entre homens
e mulheres no mundo do trabalho, este entendimento poderá proporcionar um ambiente sem
preconceitos e que promova o reconhecimento das competências das mulheres.
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