1
TRABALHO E EDUCAÇÃO: APROPRIAÇÕES TEÓRICAS A
PARTIR DE MARX E SMITH
Débora Villetti Zuck 1
Resumo: Este artigo é resultado de reflexões sobre a relação entre trabalho e educação
na sociedade capitalista, a partir da visão liberal e materialista-histórica, propiciadas na
trajetória de formação e de atuação. O estudo aqui desenvolvido objetiva apontar e
analisar elementos interpretativos relacionados aos conceitos de trabalho e educação a
partir de um confronto entre Adam Smith (1723-1790) e Karl Marx (1818-1883). Para
tanto, assume como procedimento metodológico a análise comparada, que por meio da
diferenciação e da associação possibilita uma leitura aproximada do objeto de estudo.
Na perspectiva de realizar esse exercício de apropriação teórica dos referidos conceitos,
seus contornos e as decorrências concretas que adquirem, dependendo da compreensão
e orientação de cada um dos autores, lançou-se mão da leitura e estudo dos seguintes
textos base: “Sobre a Divisão do Trabalho”, “Sobre o princípio que deu origem à
divisão do trabalho” e “Como a divisão do trabalho é limitada pela extensão do
mercado”, de Smith, e “Divisão do Trabalho e Manufatura”, de Marx. Nesses capítulos,
ambos discutem uma mesma problemática, embora em épocas distintas, e se pode
verificar que um mesmo elemento analisado expressa pontos divergentes, tais como: a
concepção de trabalho e a explicação dos diferentes tipos de trabalho; sobre a divisão do
trabalho: causas e consequências; o aumento da produtividade do trabalhador; a noção
de ferramenta necessária ao trabalho; a riqueza social que resulta do trabalho humano; a
concepção de homem e de trabalhador; a concepção de sociedade e de Estado; o
entendimento acerca da história; e de educação. O processo de sistematização, sem
pretender esgotar os conceitos abordados e considerando a necessária vinculação destes
ao conjunto de escritos dos autores, teve por nexo a relação que estabelecem com a
realidade social. Smith, inserido na corrente teórica do Liberalismo Econômico, defende
que o trabalho humano gera riqueza e essa é naturalmente distribuída entre os homens.
Não há problema em alguns terem mais e outros menos, pois isso depende da aptidão e
do esforço de cada um. Justifica a sociedade capitalista, no sentido de conservá-la e a
educação responde a essa manutenção. Marx, na perspectiva do Materialismo Histórico
Dialético, revela no curso da história o funcionamento da sociedade capitalista,
objetivando sua crítica na perspectiva da superação, pois o capitalismo não pode ser
“arrumado”, “melhorado” ou “justo”. No capitalismo a riqueza é resultado da
exploração do trabalho, a riqueza é produzida coletivamente e apropriada privadamente.
A educação está atrelada a qualificação necessária ao trabalho, ao tempo de formação e
a remuneração díspar segundo trabalho manual ou intelectual. Em sua análise crítica da
Economia Política clássica, e diretamente a Smith, Marx dialeticamente incorpora o
velho entendimento, mas negando-o. Portanto, os autores têm visões diferentes de um
mesmo elemento analisado, cabendo apropriar-se teoricamente, consciente de que a
relação trabalho-educação é histórica, não é neutra nem descompromissada.
Palavras-chave: sociedade capitalista; trabalho; educação; Adam Smith; Karl Marx.
1
Pedagoga e Mestre em Educação; atuou entre 2011 e 2013 como professora na Rede Pública de Ensino
do Município de Cascavel; professora colaboradora da Universidade Estadual do Oeste Paraná
(UNIOESTE); integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas Sociais (GPPS). E-mail:
[email protected]
2
Se as circunstâncias em que este indivíduo evoluiu
só lhe permitem um desenvolvimento unilateral,
de uma qualidade em detrimento de outras,
se estas circunstâncias apenas lhe fornecem os elementos materiais
e o tempo propícios ao desenvolvimento desta única qualidade,
este indivíduo só conseguirá alcançar
um desenvolvimento unilateral e mutilado.
(MARX; ENGELS, 1992, p. 28)
1. Introdução
Este artigo é resultado de reflexões propiciadas na trajetória de formação e de
atuação na área da educação acerca: de como o modo de produção capitalista se
relaciona à educação, numa sociedade marcada por interesses diferentes; da
especificidade da educação, seu papel na sociedade contemporânea, marcada por
mudanças nos modelos de produção e de organização do trabalho; da especificidade da
divisão do trabalho no capitalismo de acordo com a visão liberal e materialista-histórica;
de uma leitura crítica da educação, em tempos de “recuo da teoria” e de “naturalização”
dos problemas sociais que não podem ser aceitos. Dada a abrangência das reflexões,
este estudo se centrou em apontar e analisar elementos interpretativos relacionados aos
conceitos de trabalho e educação a partir de um confronto entre Adam Smith (17231790) e Karl Marx
(1818-1883). Para tanto, assume-se como procedimento
metodológico a análise comparada, que por meio da diferenciação e da associação
possibilita uma leitura aproximada do objeto de estudo. Contudo, não se perde de vista a
análise sistêmica, no intuito de identificar questões mais significativas e relevantes.
Na perspectiva de realizar esse exercício de apropriação teórica dos referidos
conceitos, seus contornos e as decorrências concretas que adquirem, dependendo da
compreensão e orientação de cada um dos autores, lançou-se mão da leitura e estudo
dos seguintes textos base: “Sobre a Divisão do Trabalho”, “Sobre o princípio que deu
origem à divisão do trabalho” e “Como a divisão do trabalho é limitada pela extensão
do mercado”, de Smith, e “Divisão do Trabalho e Manufatura”, de Marx. Nesses
capítulos, os autores discutem uma mesma problemática, embora em épocas distintas, e
se pode verificar que um mesmo elemento analisado expressa pontos divergentes, tais
como: a concepção de trabalho e a explicação dos diferentes tipos de trabalho; sobre a
divisão do trabalho: causas e consequências; o aumento da produtividade do
trabalhador; a noção de ferramenta necessária ao trabalho; a riqueza social que resulta
do trabalho humano; a concepção de homem e de trabalhador; a concepção de sociedade
e de Estado; o entendimento acerca da história; e de educação. O processo de
3
sistematização, sem pretender esgotar os conceitos abordados e levando em conta a
necessária vinculação destes ao conjunto de escritos dos autores, portanto, parte de uma
totalidade, teve por nexo a relação que estabelecem com a realidade social.
A exposição do estudo segue o desencadeamento da especificidade da divisão do
trabalho no modo de produção capitalista, a partir da visão liberal de Smith e
materialista-histórica de Marx. É desenvolvida a análise de elementos afetos, já
mencionados, como é o caso da educação. Por fim, estão dispostas algumas
considerações provisórias e relativas às apropriações teóricas, consciente de que a
relação trabalho-educação é histórica, não é neutra nem descompromissada. É resultado
de determinadas circunstâncias que fazem o homem, ao mesmo tempo em que o homem
faz as circunstâncias, portanto, é possível de transformação.
2. A especificidade do trabalho e da educação no modo de produção capitalista:
entre Smith e Marx
O modo de produção é a forma como os homens produzem e reproduzem a vida,
em um determinado momento histórico, em dadas condições e circunstâncias. Os
elementos que compõem a vida humana não são naturais, mas sociais e os homens se
fazem homens a medida que se diferenciam da natureza e na relação que estabelecem
entre si, enquanto ser social. Para compreender suas ações o trabalho é uma categoria
central, pois atividade intencional que garante que os homens se mantenham vivos, se
humanizem e que precisa ser ensinado. Tanto o trabalho como a educação, enquanto
prática social que abrange a transmissão de conhecimentos que a humanidade
conquistou, tem, em sua relação, um caráter formativo estabelecido enquanto ação
humanizadora, que desenvolve as potencialidades humanas. Ocorre que determinadas
circunstâncias permitem um desenvolvimento que lhe é correspondente. Assim, por
exemplo, o processo histórico de transformação de um modo de produção a outro, do
feudalismo ao capitalismo, implicou especificidades ao trabalho e à educação.
Segundo Enguita (1989), até o início do capitalismo a educação não está
vinculada ao trabalho. As destrezas e os conhecimentos necessários para o trabalho
eram adquiridos no próprio local de trabalho, aprendia-se fazendo, sem a necessidade de
um mecanismo alheio para desempenhar essa função. Isso porque cada sociedade tem
suas formas de introduzir as pessoas nas relações sociais de produção: na sociedade
primitiva pelo rito de iniciação e jogos; na Roma arcaica pela família e doutrinamento
religioso; na Idade Média pela aprendizagem e intercâmbio em outras famílias; e com a
4
Revolução Industrial por meio da escola, instituição disciplinadora, que adéqua o
indivíduo à sociedade. O Estado irá pensar na mão-de-obra barata, em recolher as
crianças das ruas para não cair na marginalidade ou fazer desordem, em disciplinar os
corpos, na ordem, pontualidade e compostura (Foucalt apud Enguita, 1989).
A organização do trabalho sob a égide capitalista determinou a vinculação da
educação ao trabalho. Smith e Marx, em suas épocas, se debruçaram sobre as
especificidades do trabalho nesse modo de produção e, em algumas passagens,
deixaram entrever, também, considerações acerca da educação. Trata-se de clássicos
que precisam ser apreendidos teoricamente, pois fundamentam determinado
entendimento que, além de diametralmente oposto, tem, também, decorrências práticas,
influenciando profissionais de diversas áreas. Os postulados liberais e, particularmente,
o Liberalismo Econômico 2, são parte constitutiva do entendimento de Smith, que Marx
desmonta com sua perspectiva materialista-histórica3.
Sobre a concepção de trabalho e a explicação dos diferentes tipos de trabalho
Smith (1979, p. 11), entende-o como a base que fornece a nação tudo o que é necessário
e útil à sobrevivência do homem. O trabalho deve ocorrer com engenho, destreza e
discernimento, pois levará a abundância da produção, ou, de modo inverso, levará a
insuficiência da produção. Subdividido num grande número de tarefas particulares, cada
uma das quais atribuídas a um grupo ou classe, aumenta a destreza dos homens e
possibilita uma economia de tempo, “Cada indivíduo se torna mais sabedor na sua
tarefa particular, produzindo maior quantidade de trabalho, e as ciências e as artes são
assim consideravelmente aperfeiçoadas e aumentadas”. A grande variedade de trabalho
utilizada na fabricação de objetos, não seria possível “sem o esforço e a cooperação de
milhares de pessoas, o homem mais insignificante de um país civilizado não poderia ser
abastecido com aquilo de que necessita mesmo que sua vida se resuma à simplicidade
2
Esta corrente teórica emerge no processo de transição do Feudalismo para o Capitalismo, orientada por
uma mudança de modo de produção. Defende a noção de liberdade cuja base é a individualização,
associada ao mérito, a competitividade e a lógica da acumulação e do direito a propriedade (privada).
Conforme Marx (1844) o individualismo é a forma capitalista de ser homem e que sustenta a lógica da
propriedade privada, da concorrência, da degradação da natureza, etc. e que está relacionado ao homem
não se reconhecer no coletivo, em razão do trabalho alienado e da auto-alienação (MARX, 1844).
3
Enquanto método que orienta a olhar o mundo. Abrange um conjunto de ferramentas do pensamento que
permite construir uma teoria, um corpo explicativo articulado que explica um objeto da realidade, entende
seu funcionamento para além do meramente aparente. É tanto mais universal quanto mais objetos puder
dar conta. O método é pura abstração e parte de um pressuposto, no caso a matéria, o concreto, real, que
existe independente do pensamento, portanto, a base de todo entendimento, seu princípio explicativo, está
na matéria, mas só é possível entender um objeto se o situar na história, em seu processo de constituição e
desenvolvimento. A dialética nasce da própria materialidade, que está em constante movimento, é um
processo contraditório, de mútua negação.
5
que, aliás falsamente, se lhe atribui”, portanto, o trabalho é cooperado, pois “o homem
necessita permanentemente da cooperação e assistência de muitos outros homens”
(SMITH, 1979, p. 12-13). Em relação à diferença dos tipos de trabalho, é
[...] a certeza de poder trocar o excedente da sua produção, depois de
satisfeita as suas necessidades, pelo excedente da produção dos outros
que leva cada homem a dedicar-se a uma única tarefa e a desenvolver
e aperfeiçoar qualquer talento ou habilidade que possua para um dado
tipo de atividade. (SMITH, 1979, p. 14).
Por sua vez, Marx (1985, p. 269) explicita que a reprodução da vida humana
ocorre por meio do trabalho e a forma como se organiza o trabalho provoca uma forma
de produzir a própria sociedade. A base de todo trabalho é a natureza, pois proporciona
os meios de subsistência do trabalho: os objetos aos quais possa se aplicar e a
subsistência do trabalhador (MARX, 1844). O trabalho social produz mercadorias, o
parcial não visto que o trabalho parcelado perde a noção do todo, é função exclusiva de
uma pessoa, centra-se na repetição da ação, concentra a atenção para “atingir o efeito
útil desejado com o mínimo de gasto de força”. A produção e circulação de mercadorias
é o pressuposto geral do modo de produção capitalista. O capitalismo transforma o
trabalho em mercadoria, cria a possibilidade da venda da força de trabalho, de o
trabalhador receber um salário 4 que não contempla o resultado produzido, e é apartado
dele, uma vez que o tempo de trabalho excedente ao valor contratado é apropriado por
outro. Os diferentes trabalhos estão relacionados às diferentes formas de reproduzir a
força de trabalho, pois a manufatura5 desenvolve uma hierarquia das forças de trabalho
à qual corresponde uma escala de salários. A separação do trabalhador dos meios de
produção6 e a separação entre pensar e fazer, entre trabalho intelectual e manual, é parte
da produção manufatureira, nos albores do capitalismo que “se apodera da força
individual de trabalho em suas raízes [...] aleija o trabalhador convertendo-o numa
anomalia, ao fomentar artificialmente sua habilidade no pormenor mediante a repressão
de um mundo de impulsos e capacidades produtivas” (MARX, 1985, p. 283). Essa
fragmentação tem uma lógica interna de consumo no mercado, que determina o custo
social, do ramo que a sociedade comporta, de uma determinada quantia de algo que é
produzido e todas as etapas e elementos do processo influem no preço. Em síntese, o
4
Valor correspondente a força de trabalho, determinada pelos meios de vida necessários à subsistência do
trabalhador, que podem variar.
5
Forma clássica do capitalismo que dura do século XI ao último terço do XVIII.
6
Incluem as condições objetivas de trabalho, os instrumentos de produção (máquinas, ferramentas, terra),
as instalações físicas (edifícios, armazéns), as fontes de energia utilizadas e os meios de transporte.
6
trabalho, enquanto categoria exclusivamente humana, teleológica7, assume no
capitalismo uma forma que obstaculiza o pleno desenvolvimento dos homens, é
alienado, organizado para satisfazer necessidades criadas, para reproduzir o capital.
Em relação à divisão do trabalho Smith (1979, p. 8) considera que esta é, tão
somente, uma divisão técnica: o desenvolvimento técnico tende a dividir o trabalho,
enquanto para Marx (1985, p. 278) esta é uma divisão social e técnica: a relação entre a
divisão do trabalho na sociedade e no interior da manufatura constitui a base da
produção de mercadorias, pois “a divisão manufatureira do trabalho exige que a divisão
do trabalho tenha amadurecido até certo grau de desenvolvimento no interior da
sociedade” assim, “A base de toda divisão do trabalho desenvolvida e mediada pelo
intercâmbio de mercadorias é a separação entre a cidade e o campo [...] toda a história
econômica da sociedade resume-se no movimento dessa antítese”. É, portanto, a divisão
do trabalho de determinado jeito que cria o capitalismo 8, o trabalho é alienado sob os
aspectos da relação do trabalho com o produto do trabalho (que pertence a outrem) e do
próprio ato de produzir (está separado das condições necessárias de produzir e não vê
sua atividade como pertencente a ele). Isso porque, “A divisão manufatureira do
trabalho pressupõe a concentração dos meios de produção nas mãos de um capitalista, a
divisão social do trabalho, fracionamento dos meios de produção entre muitos
produtores de mercadorias independentes entre si” (MARX, 1985, p. 280). Na divisão
social do trabalho os trabalhadores, a grandeza da população, são pressupostos e a
compra e venda de sua força de trabalho ocorre sob a autoridade da concorrência e da
coerção. A divisão social do trabalho, mediada ou não pelo intercâmbio de mercadorias,
existe nas mais diferentes formações capitalistas, já a divisão manufatureira do trabalho
é uma especificidade do modo de produção capitalista:
A divisão manufatureira do trabalho desenvolve o crescimento do
número de trabalhadores empregados numa necessidade técnica. O
7
Além da perspectiva ontológica do trabalho, que constitui o homem enquanto ser social e o difere dos
animais, a perspectiva teleológica expressa a capacidade humana de realizar uma ação transformadora da
realidade dirigida por finalidades conscientes, enquanto o animal age por instintos (MARX, 1985).
8
Marx (1844) defende a tese de que é o trabalho alienado que cria a propriedade privada, base da lógica
capitalista e não o contrário como difunde a Economia Política. Isso porque a alienação ocorre por um
meio prático, é o trabalho alienado que cria o dominador, pois o trabalho alienado cria uma relação entre
o seu trabalho (do possuidor da força de trabalho, o trabalhador) com outro homem que está fora do
processo de trabalho (o detentor dos meios de produção). A propriedade privada é o resultado inevitável
do trabalho alienado: relação externa do trabalhador com a natureza e consigo mesmo. A gênese está no
trabalho alienado, mas posteriormente propriedade privada e trabalho alienado têm influência recíproca,
assim, de um lado, o produto do trabalho é alienado e, de outro, o meio pelo qual o trabalho ocorre é a
realização dessa alienação. Conclui que a Economia Política entende a tensão entre trabalho e propriedade
privada, mas não entende que esta contradição é própria do trabalho alienado.
7
mínimo de trabalhadores, que um capitalista individual tem de
empregar, é-lhe agora prescrito pela divisão do trabalho estabelecida.
[...] O incremento progressivo do volume mínimo de capital em mãos
de capitalistas individuais ou a transformação crescente dos meios
sociais de subsistência e dos meios de produção em capital é portanto
uma lei que decorre do caráter técnico da manufatura (MARX, 1985,
p. 282).
Em suma, a divisão social e técnica do trabalho é um “meio de produzir com o
mesmo quantum de trabalho mais mercadorias, portanto para baratear as mercadorias e
acelerar a acumulação do capital” (MARX, 1985, p. 286).
As causas da divisão do trabalho, para Smith (1979, p. 15), estão atreladas a
propensão humana para a troca, tendência da natureza humana, visando o interesse
pessoal. Pela troca os homens estabelecem relações de necessidade e tornam-se
dependentes uns dos outros. É a certeza da troca que gera o excedente, que leva um
homem a dedicar-se a uma única tarefa e a aperfeiçoar-se. Se não houvesse essa
tendência natural de troca cada um produziria “todas as coisas necessárias e úteis para a
sua vida. Todos teriam os mesmos deveres e realizariam o mesmo trabalho. Nessa
condição, nunca poderia existir a enorme diferença de ocupações que, por si só, dá
origem à diversidade das aptidões” (SMITH, 1979, p. 15). São as habilidades que fazem
com que produzam, se especializem e troquem e, ao passo que ampliam a produção,
podem buscar tudo o que necessitam. O contrato, a compra e a troca permitem isso. Para
Smith a extensão das trocas é limitada pela extensão do mercado e para haver
possibilidade de troca é preciso divisão do trabalho. O mercado é o limitador, é quem
regula e estabelece o valor de uma mercadoria.
Marx (1985) situa que as causas da divisão do trabalho estão ligadas ao início da
manufatura: naturalmente desenvolvida, mas à medida que ganha consistência e
amplitude torna-se consciente, planejada e sistemática do modo de produção capitalista
que busca manter tradicionalmente as formas adequadas, com alterações somente nas
transformações dos instrumentos de trabalho. O elemento externo é a fábrica por conta
da necessidade de maior produção de mercadorias, por isso ocorre a divisão do trabalho
e há pressão para que isso aconteça.
A organização corporativa excluía a divisão manufatureira do trabalho, pois “o
trabalhador e seus meios de produção permaneciam unidos [...] e faltava assim a base
principal da manufatura, a autonomização dos meios de produção como capital perante
o trabalhador” (MARX, 1985, p. 282). A cooperação baseada na divisão do trabalho
adquire, portanto, sua forma clássica na manufatura tendo dupla origem:
8
(1) [...] combinação de ofícios autônomos de diferentes espécies, que
são despidos de sua autonomia e tornados unilaterais até o ponto em
que constituem apenas operações parciais que se complementam
mutuamente no processo de produção de uma única e mesma
mercadoria. [...] (2) parte da cooperação de artífices da mesma
espécie, decompõe o mesmo ofício individual em suas diversas
operações particulares e as isola e as torna autônomas até o ponto em
que cada uma delas torna-se função exclusiva de um trabalhador
específico (MARX, 1985, p. 268).
Essas duas formas fundamentais da manufatura têm origem na natureza do
próprio produto: 1) Heterogênea: combinação mecânica de produtos parciais
autônomos, ou seja, o fracionamento da produção em vários processos heterogêneos;
não é a forma manufatureira completa e gera lucro sob condições excepcionais; 2)
Orgânica: sequência de processos e manipulações conexas; é a fase completa da
manufatura por meio da produção de artigos que percorrem fases interligadas de
desenvolvimento, uma sequência de processos gradativos, na qual o trabalho de um é o
ponto de partida para o trabalho do outro; pressupõe continuidade, regularidade,
uniformidade e ordenamento; há economia de tempo e hierarquia das forças de trabalho.
Sobre as consequências da divisão do trabalho Smith (1979) entende que a
principal é o aumento proporcional da produtividade. Logo, a base da produtividade é a
divisão do trabalho o que o leva a postular que quanto mais evoluída for a sociedade,
maior é a divisão do trabalho que nela há, assim, nação industrializada é mais rica, pois
na indústria há mais divisão que na agricultura. Segundo ele, o desenvolvimento da
destreza do trabalhador aumenta a quantidade do trabalho que realiza, economizando
tempo. Além disso, quanto mais simples for o trabalho, quando um só homem faz um
determinado movimento, modifica as ferramentas, encontra formas de aprimorar a
maneira de trabalhar e, quanto mais aprimora o trabalho, maior é a produção. Conclui
que a grande multiplicação da produção de diferentes atividades humanas, originada
pela divisão do trabalho fabril é “que cria, numa sociedade bem governada, a
possibilidade de estender o bem-estar até as camadas mais baixas do povo” e que o
desenvolvimento dessa forma de produzir abundância gera abundância geral, pois
“Cada trabalhador fornece às outras pessoas aquilo de que necessitam e estas pagam-lhe
do mesmo modo” (SMITH, 1979, p. 11).
Com esse entendimento, acaba por igualar trabalhadores e capitalistas. A história
desmontou a tese de Smith, pois a produção em abundância não produz abundância para
todos. De modo distinto, Marx (1985) identifica como consequência da divisão do
trabalho a reprodução da divisão social do trabalho que especifica os gestos e aumenta a
9
força produtiva9. A acumulação é a lei decorrente do caráter técnico da manufatura, ou
seja, produz lucro a custa da expropriação e exploração dos trabalhadores, mutila o
trabalhador, perde saberes, aleija-o.
Por sua vez, o aumento da produtividade do trabalhador é tomado por Smith
(1979) como próprio do desenvolvimento das forças produtivas e relacionado à divisão
do trabalho: ao aumento da destreza do trabalhador; a economia de tempo ao passar de
uma operação para outra; e ao uso e aprimoramento de máquinas, por meio das quais
um só homem faz o trabalho de muitos.
Para Marx (1985) o aumento da produtividade está vinculado à concorrência, a
necessidade de acumulação de capital, à demanda. Produz, mas a custa da exploração
humana. Os trabalhadores parciais do mecanismo vivo, a fábrica, só importam no
coletivo e a produtividade do seu trabalho depende, além da virtuosidade, da perfeição
das suas ferramentas.
Smith (1979) entende por ferramentas os instrumentos usados pelo trabalhador
na realização do seu trabalho, cuja construção precisa de conhecimento e envolvimento
de vários trabalhadores. A máquina, por exemplo, facilita o trabalho e dispensa
trabalhadores, ou seja, é adaptada à tarefa que se realiza e reduz o tempo de trabalho,
deixando o homem mais livre para fazer outras coisas. A origem das ferramentas está na
divisão do trabalho. Grande parte delas foram “inventadas pelos próprios trabalhadores
que, tendo sido empregados em tarefas muito simples, dirigiam naturalmente os seus
pensamentos para a tentativa de as simplificar e facilitar ainda mais”.
Porém, nem todo o desenvolvimento da maquinaria se deve àqueles
que tiveram ocasião de trabalhar com máquinas, pois muitas
modificações foram desenvolvidas pelo engenho dos fabricantes de
máquinas e outras foram pensadas por filósofos que sabem combinar
as potencialidades dos objetos mais díspares. (SMITH, 1979, p. 11).
Marx (1985) considera que a manufatura simplifica, melhora e diversifica os
instrumentos de trabalho, adaptando-os as funções exclusivas dos trabalhadores
parciais. Na divisão manufatureira do trabalho as ferramentas são particularizadas e
especializadas, e esta divisão pressupõe a concentração dos meios de produção nas
mãos de um capitalista. Logo, os meios necessários a produção não pertencem mais ao
trabalhador, são expropriados, assim como o excedente.
Marx e Smith convergem que a riqueza social resulta do trabalho humano,
contudo, com desdobramentos distintos em relação a esse elemento. Smith (1979)
9
Incluem o homem e os meios materiais e intelectuais que necessita para produzir.
10
defende que a riqueza social é resultado do trabalho naturalmente distribuído entre as
diferentes camadas sociais, cuja divisão permite que se produza muita riqueza. As
pessoas trocam os resultados de seus trabalhos e a necessidade de muitos pode ser
suprida pelo trabalho de poucos, sendo que até os mais pobres tem acesso à riqueza, se a
sociedade for bem governada. Não há problema em uns terem mais e outros menos, pois
isso é natural, conforme a capacidade desenvolvida, depende do seu atributo, daquilo
que faz, se desenvolveu o talento e, se for empreendedor, terá mais resultados. Os
hábitos, os costumes e a educação vão determinar isso. Segundo o autor, o trabalhador
sempre produz mais que aquilo que precisa e troca por igual quantidade de produto
(mercadoria) ou pelo preço do produto (dinheiro). Logo, iguala produto e capital. Smith
(1979) só não disse para quem o trabalho produz riqueza, visto que inúmeras pessoas
trabalham, arduamente, a vida inteira, e não saem da miséria, sem se referir a lógica
constitutiva de reprodução desigual e combinada do capital.
Marx, ao tratar desse mesmo elemento, deixa claro que na divisão manufatureira
do trabalho havia algum domínio do trabalhador sobre o trabalho, nesse momento a
máquina ainda não dominava o trabalho. Esse processo cessa com o trabalho industrial.
Na sociedade capitalista, a mais-valia 10 resulta do trabalho dos trabalhadores. A riqueza
social, produzida pelos trabalhadores, é resultado da exploração material, civilizada e
refinada, exercida pelo capital sobre o trabalho, que produz novas condições de
dominação. É a forma especificamente capitalista do processo de produção social, “é
apenas um método especial de produzir mais-valia relativa ou aumentar a autovalorização do capital [...] à custa dos trabalhadores” (MARX, 1985, p. 286)11.
Smith (1979) concebe que todos os homens nascem com capacidades
naturalmente iguais que se originam da tendência natural para troca e compra e faz com
que cada um tenha uma aptidão diferente do outro, dependendo dos talentos e do
esforço para melhorar. No entanto, todos têm as mesmas condições de disputar a
propriedade que é tão valiosa quanto a vida. O homem é um ser competitivo e somente
se aproxima do outro para a satisfação de alguma necessidade, movido por seu próprio
10
A mais valia se origina de um excedente quantitativo de trabalho, da duração prolongada do mesmo
processo de trabalho (MARX, 1985).
11
A mais-valia relativa decorre da redução do tempo de trabalho e da correspondente mudança da
proporção entre os dois componentes da jornada de trabalho: a compressão do salário do trabalhador
abaixo do valor da força de trabalho e a redução do tempo de trabalho necessário para produzir a força de
trabalho – impossível sem aumentar a força produtiva do trabalho, precisa ocorrer uma revolução nas
condições de produção de seu trabalho. A absoluta é produzida pelo prolongamento da jornada de
trabalho (MARX, 1985).
11
interesse. O que o difere dos animais é trocar, abarganhar, trabalhar cooperadamente,
enquanto aqueles não conhecem qualquer gênero de acordo.
Diferentemente, Marx (1985) entende que no modo de produção capitalista o
homem é divido e transformado em motor automático de um trabalho parcial, sendo
representado como um mero fragmento de seu próprio corpo. Realiza intercâmbios:
conscientes (pensa antes de executar); técnicos (calcula, projeta, testa) e sociais
(interage socialmente). É um ser social, porém, no capitalismo a grande parcela das
massas é segregada do potencial humano, isso lhe é negado e relegado a ínfima parcela
economicamente favorecida pela apropriação da riqueza produzida. O homem é cada
vez mais distanciado da condição de homem, pois o ser plenamente humanizado é
aquele que usufrui o máximo do desenvolvimento da sua época, ao passo que dispõe de
formas de trabalhar menos e a maior parte do dia está liberto para realizar outras
dimensões da vida humana. O desenvolvimento capitalista não potencializa a vida, pois
a indústria produz para o mercado, mas é preciso estar vivo para fazer história (MARX;
ENGELS, 2007).
Como desdobramento da concepção de homem está a de trabalhador. Para Smith
(1979, p. 3) o homem terá acesso aos bens materiais se “for sóbrio e trabalhador”, sendo
que este precisa estar habituado à indústria e às máquinas nela usadas, por meio da
técnica, para produzir em uma tarefa específica. Observou que mesmo os mais pobres,
numa pequena fábrica, que possuía a maquinaria estritamente útil, conseguiam quando
se esforçavam. Entendia que todos os trabalhadores estão nas mesmas condições e, por
isso, as trocas se dão igualitariamente.
Marx (1985, p. 279) entende por trabalhador quem vende sua força de trabalho,
é o produtor direto como evidencia ao mencionar que o trabalhador parcial não produz
mercadoria, somente o “produto comum dos trabalhadores parciais transforma-se em
mercadoria” e o resultado não pertence a nenhum deles, mas ao capitalista. A divisão
manufatureira do trabalho pressupõe a autoridade incondicional do capitalista que
concentra os meios de produção sobre os seres humanos, “submete ao comando e à
disciplina do capital o trabalhador antes autônomo” e “cria [...] uma graduação
hierárquica entre os próprios trabalhadores” - qualificados e não qualificados, assim, o
trabalhador é marcado como propriedade do capital”. Os trabalhadores são
transformados em simples membros de um mecanismo global ao qual pertence, estão
anexados por toda a vida a uma operação parcial e subordinados ao capital. Enquanto na
sociedade comunal o artesão realizava todas as operações pertinentes ao seu ofício, de
12
maneira tradicional, mas independente e sem reconhecer nenhuma autoridade em sua
oficina, na manufatura o trabalhador “Incapacitado em sua qualidade natural de fazer
algo autônomo [...] só desenvolve atividade produtiva como acessório da oficina
capitalista”. Não possui nem capacidade nem independência, sendo forçado a aceitar a
lei que se considere correta lhe impor (MARX, 1985, p. 283). Conforme Marx (1844)
no capitalismo quanto mais se trabalha, menos coisa e menos vida se tem. Nele,
primeiro o ser é trabalhador e depois é homem.
A limitação do capital está no fato de que todo o seu desenvolvimento
se efetua de maneira antagônica e a elaboração das forças produtivas,
a riqueza universal, a ciência, etc, aparecem como alienação do
trabalhador que se comporta frente às condições produzidas por ele
mesmo como frente a uma riqueza alheia e causadora de sua pobreza
(MARX; ENGELS, 1992, p. 39).
A concepção de homem e de trabalhador corresponde e só faz sentido inserida a
uma sociedade. Smith (1979, p. 11) se refere à sociedade enquanto algo progressivo “no
progresso da sociedade” e evolutivo: o trabalho de um único homem num estado
primitivo da sociedade passa a ser realizado por diversos numa sociedade mais
evoluída, que se estende, como de uma nação mais desenvolvida e central para as
demais regiões do interior. Embora reconheça a existência de diferenças sociais
considera-as naturais, pois ligadas aos mais diferentes talentos e as diversas profissões
úteis. Assim, o que faz um país ser mais ou menos rico é a técnica. Os países mais
desenvolvidos são os industriais, pois empregam mais técnicas. Se a nação é rica o povo
dela também o é, nesse sentido, compreende o Estado como uma necessidade natural
para preservar as relações sociais e o bem-comum, ele é para todos, de abundância
geral, que leva riqueza a todos.
Marx (1985) entende que a sociedade e suas relações são determinadas pelo
modo de produção e, na perspectiva de classe, distingue capitalistas, detentores dos
meios de produção, e trabalhadores, que vendem sua força de trabalho. Aqueles
precisam das mãos destes para produzir valor. Marx desmonta a tese de Smith, pois
evidencia que entre as classes antagônicas não há igualdade material. Também, nesse
sentido, o Estado não é para todos, mas de classe, da classe social que detêm o poder
econômico, logo temos no capitalismo o Estado burguês, expresso como violência
concentrada e organizada (MARX, 1985).
A partir dos elementos já analisados, é possível depreender que Smith
transparece um entendimento a-histórico, sua visão é homogênea, linear e naturaliza
13
toda a ação humana. Por outro lado, em Marx percebe-se a necessidade de
contextualização, pois todo processo de desenvolvimento social, só pode ocorrer num
curso histórico, que está em constante movimento e o que move a história é a luta de
classes. Os homens fazem a história, nas condições que tem. Na história
[...] em cada um dos seus estágios encontra-se um resultado material,
uma soma de forças de produção, uma relação historicamente
estabelecida com a natureza e que os indivíduos estabelecem uns com
os outros; relação que cada geração recebe da geração passada, uma
massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que, embora
sejam, por um lado, modificada pela nova geração, por outro lado
prescreve a esta última suas próprias condições de vida e lhe confere
um desenvolvimento determinado, um caráter especial – que,
portanto, as circunstâncias fazem os homens, assim como os homens
fazem as circunstancias (MARX; ENGELS, 2007, p. 43).
Se as circunstâncias mudam os homens, concomitantemente em que eles fazem
as circunstâncias, a educação tem uma função importante na formação, ou deformação,
desempenha. Ela não cria o conteúdo de si própria e deve ser orientada pela prática
revolucionária.
Em relação ao último elemento analisado, Smith (1979, p. 07) considera que o
trabalhador que não esteja habituado à indústria ou às máquinas, devido a sua falta de
conhecimentos,
dificilmente
poderá
fazer.
A educação
está
vinculada
aos
conhecimentos necessários ao trabalho e ao ter sido educado para um ramo particular da
produção o trabalhador produz mais, associado a boa divisão e a combinação das
diferentes operações. Ela também tem uma função primordial para o desenvolvimento,
porque se o povo for educado o país se desenvolve. Uma educação que cultive os
hábitos necessários para realizar o trabalho, a destreza: “Mais do que a natureza,
parecem ser os hábitos e a educação que explicam a diferença entre os caracteres mais
díspares”, pois “Muitas famílias de animais pertencentes a uma mesma espécie
apresentam por natureza uma maior diferença de aptidões do que a existente entre os
homens antes de estes adquirirem os seus hábitos e educação” (SMITH, 1979, p. 15).
Marx, indiretamente, também se remete à educação, como ao elucidar que
A desvalorização relativa da força de trabalho, que decorre da
eliminação ou da redução dos custos de aprendizagem, implica
diretamente uma valorização maior do capital, pois tudo que reduz o
tempo de trabalho necessário para reproduzir a força de trabalho
amplia os domínios do mais-trabalho (MARX, 1985, p. 276).
14
E esclarece que para os trabalhadores não qualificados os custos de
aprendizagem desaparecem inteiramente, para os qualificados se reduzem, comparados
com o artesão, pela função simplificada (MARX, 1985).
Como se sabe, Marx e Engels (1992) não escreveram algo específico sobre a
educação e o ensino dos trabalhadores, mas o eixo de suas colocações sobre o tema é a
divisão social e técnica do trabalho, por estabelecer uma divisão dos tipos de atividades
e de aprendizagem, que interfere no desenvolvimento do indivíduo. Com o
desenvolvimento da maquinaria a ciência e a tecnologia se configuram em propriedade
do capital e são incorporadas à máquina o que passou a exigir qualificação do
trabalhador, daí emerge a necessidade de um sistema escolar institucional. Por outro
lado, também, tal desenvolvimento incorpora habilidades à máquina que não afetam a
capacidade criadora do homem, mas somente a força de trabalho uma vez que a
repetição de operações simples, mais fáceis de aprender, não evolui gradativamente para
operações mais complexas. Isso, em certa medida, está relacionado ao custo de
produção da força de trabalho que corresponde ao custo necessário para conservar o
trabalhador nessa situação e educá-lo para este ofício. Assim, quanto menor o tempo de
formação profissional exigido por um trabalho, menor é o custo produtivo do
trabalhador e, portanto, menor o salário. Há ramos industriais que não exigem quase
nenhuma aprendizagem, por isso o custo da produção se limita a mercadorias para
manter o trabalhador vivo, conservando sua capacidade de trabalho.
O modo de produção capitalista é caracterizado pela exploração: o capital se
apropria da força de trabalho e a objetiva a fim de gerar mais-valia, dada por meio do
trabalho produtivo 12. Mas, essa força de trabalho, precisa estar em condições de fazê-la,
que é obtida pela qualificação com um ensino adequado. Ao realizar uma função
parcial, o trabalhador já não detém o conhecimento de todo o processo de trabalho,
apenas o que lhe cabe e seus pensamentos são direcionados e restritos, impedindo que
se ocupe com pensamentos não necessários ao trabalho ou se distraia. Isso gera um
aborrecimento, um efeito embrutecedor no organismo e nas faculdades mentais do
trabalhador. A deformação física e espiritual é, portanto, inseparável da divisão do
trabalho e, nessa condição, a revolta é o único sentimento que o trabalho permite. A
questão da educação e da formação do trabalhador está posta, então, na base do
enfrentamento de classe da exploração, de apropriação dos meios, da ciência e da
12
Trabalho que se transforma diretamente em capital, trabalho que produz mais-valia ou que é força que
permite ao capital criar mais-valia.
15
cultura que fundamentam a limitação do desenvolvimento do sujeito, o mutila e o
reprime13. Marx critica a intervenção do Estado, pois sendo um Estado de classe este
direciona a educação em prol dos interesses da classe que detém a hegemonia, para que
burguesia não conte com mais um aparato a seu serviço, no caso, o escolar.
Marx e Engels (1992, p. 95) elucidam acerca do trabalho feminino e infantil,
tendo em vista a situação das fábricas da Inglaterra e da legislação fabril, que o setor
mais culto da classe operária compreendia que o futuro da sua classe dependia da
formação que teria, e frisavam que as crianças e os adolescentes careciam ser
preservados dos efeitos destrutivos do sistema. Por um lado, era necessário modificar as
condições sociais para criar um novo sistema de ensino, por outro, faltava um sistema
de ensino novo para poder modificar as condições sociais. Partindo da situação atual, a
devida formação, articulando teoria e prática, combinaria educação intelectual, corporal
(exercícios de ginástica e militar) e tecnológica (princípios gerais e de caráter científico
de todo o processo de produção e que inicia as crianças e adolescentes no manejo de
ferramentas elementares aos diferentes ramos industriais). Logo, “a educação os
libertará do caráter unilateral que imprime a cada indivíduo a atual divisão do trabalho
[...] a sociedade organizada, segundo o modo comunista, dará a seus membros
oportunidade para desenvolverem tanto seus sentidos como suas aptidões”. Mas, no
capitalismo, as circunstâncias fornecem elementos materiais e tempo propício ao
desenvolvimento de uma qualidade em detrimento a outras, permitindo apenas um
desenvolvimento unilateral e mutilado. Em Marx e Engels (2008) está expressa a
questão do ensino público, gratuito e unido ao trabalho e à formação do homem
omnilateral aparece como proposição de superação da educação burguesa.
No capitalismo, a educação é um elemento que mantêm a hierarquia social: na
manufatura ocorre a separação entre trabalho manual e intelectual, sendo que o
“processo de dissociação simples começa na cooperação simples, em que o capitalista
representa em face dos trabalhadores individuais a unidade e a vontade do corpo social
de trabalho”. E completa-se “na grande indústria, que separa do trabalho a ciência como
potência autônoma de produção e a força a servir ao capital” (MARX, 1985, p. 283284). Com isso,
O homem do saber e o trabalhador produtivo estão amplamente
separados um do outro, e a ciência, em vez de nas mãos do
trabalhador aumentar suas próprias forças produtivas para ele mesmo,
colocou-se contra ele em que quase toda parte, [...] O conhecimento
13
London (2000) discorre sobre esse processo em que no capitalismo o trabalho desumaniza o homem.
16
torna-se um instrumento capaz de ser separado do trabalho e oposto a
ele. (THOMPSON apud MARX, 1985, p. 284).
E discorre com seu interlocutor que propõe “A fim de evitar a degradação
completa da massa do povo, originada pela divisão do trabalho, A. Smith recomenda o
ensino popular pelo estado, embora em doses prudentemente homeopáticas” (SMITH
apud MARX, 1985, p. 285). Nessa passagem em que Marx se remete a Smith, é
possível depreender deste último o entendimento de uma educação que conserve a
sociedade capitalista, de classes, a reprodução social.
Conforme Alves (2006) o foco da atenção do fundador da Economia Política na
Inglaterra não era a formação do cidadão, visto que a escola no século XVIII não era
uma instância importante para a produção social da riqueza, mas os efeitos danosos que
a divisão do trabalho impunha. Para Smith, a educação teria que impedir a quase total
corrupção e degeneração da maioria das pessoas. Por isso, a educação da “gente
comum” precisava da intervenção corretiva do Estado, face que as de posse e fortuna
têm mais tempo de estudo antes de se dedicar a uma profissão. A solução apontada por
ele é que a aquelas pessoas que se destinam às ocupações inferiores seja ensinado os
fundamentos da educação, ler escrever e contar, e os fundamentos geométricos e
necessários aos ofícios comuns, o que requer despesas reduzidas, que seriam
subsidiadas em parte pelo Estado e pela família, mas sem comprometer a produção da
riqueza social. É contra o custeio integral da educação pelo Estado, pois isso seria
improdutivo, um ônus e sacrifício para a nação, dilapidando sua riqueza com a
construção de escolas, aquisição de equipamentos, pagamento de professores ou compra
de materiais didáticos.
Marx (1985, p. 288) aponta a necessidade da educação e, propriamente do
ensino, pois “continua necessário para o trabalho de detalhe mais difícil um tempo mais
longo de aprendizagem e mesmo onde este se tornava supérfluo, os trabalhadores
procuravam zelosamente preservá-lo” (MARX, 1985, p. 288). A educação é um
fenômeno social e, como tal, expressa as contradições e limitações da sociedade em que
está inserida. Os trabalhadores a requerem como espaço formativo, como possibilidade
de humanização.
A sociedade capitalista proporcionou o aumento da capacidade intelectual
individual, mas assim como o resultado da produção social é apropriado privadamente
também a possibilidade de se apropriar intelectualmente a é: o enriquecimento do
capital se realiza à custa do empobrecimento do trabalhador. Marx e Engels (1992) não
17
propõem, com isso, o retorno a uma sociedade pré-capitalista. Mas, sim, superar o
capitalismo a partir dele mesmo, acentuando suas contradições, desenvolvendo as
possibilidades. É nessa perspectiva, também, que deve ser direcionada a crítica a
educação. Por conseguinte, a articulação entre divisão do trabalho, educação e ensino
explica os processos educativos e os pontos que se deve pressionar para haver
transformação, ou seja, para emancipação social e humana: “A superação da
propriedade privada é a emancipação plena de todos os sentidos e qualidades humanos
[...] sentidos e qualidades tornaram-se humanos, tanto nos sentido objetivo quanto
subjetivo” (MARX; ENGES, 1992, p. 34).
3 Considerações finais
Os elementos analisados em relação aos conceitos de trabalho e educação
permitem depreender que Smith e Marx têm entendimentos distintos do real e
conduzem formas divergentes de apropriação teórica e atuação na realidade: o liberal e
o idealismo de Smith, de um lado, em confronto com o materialismo de Marx, de outro.
Ao considerar que o trabalho humano gera riqueza, naturalmente distribuída
entre os homens, Smith (1979) não identifica nenhum antagonismo de classe ou
contradição, pois é natural, não há problemas em uns terem mais e outros menos
riquezas visto que isso é determinado pelos talentos, capacidades e pelo esforço de cada
um, depende do indivíduo. Seu entendimento é parte integrante da lógica de
funcionamento do capital, está limitado por seu contexto de produção. Sustenta a visão
de mundo liberal que tem como objetivo justificar a sociedade capitalista, no sentido de
sua conservação como sociedade ideal. Tal como pode ser observado em relação à
educação, pois defende que às massas a educação deve ser ministrada em doses
homeopáticas, portanto, à margem do legado cultural e científico produzido
socialmente, mas apropriado privadamente. O liberalismo é o ideário que sustenta o
modo de produção capitalista é, portanto, a expressão do pensamento burguês. O projeto
educacional vinculado a ele se submete a essa lógica.
Diametralmente oposto a essa posição, Marx em sua explicação capital do
concreto, revela o processo interno de funcionamento do modo de produção capitalista,
ao qual faz a crítica, na perspectiva da sua superação, pois o capitalismo é uma
sociedade “ideal” para poucos e não pode ser “arrumado”, “melhorado” nem pode ser
“justo”: se pagar para o trabalhador o que ele produziu acaba-se com a mais-valia e a
apropriação privada, acaba com o capitalismo. A riqueza social é resultado da
18
exploração do trabalho, ela é produzida coletivamente e apropriada privadamente. Nesse
sentido, a crítica à Economia Política, em particular a Smith, incorporando e negando-a,
não se conformando com as explicações já dadas, que estavam distantes da
compreensão do que o real de fato é. Seu entendimento não é passivo, mas
transformador e revolucionário. O trabalho e a educação, como ações formativas do
homem, no capitalismo, expressam limitações no desenvolvimento das qualidades
humanas. A relação entre elas não é natural, neutra ou descompromissada de interesses
de classe, mas histórica e pode ser possível de mudança.
Referências
ALVES, G. Luiz. A gênese da escola pública e os limites da universalização do ensino
até o século XIX. In: ______. A produção da escola pública contemporânea.
Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
LONDON, Jack. O Herege. In: ______. A paixão do socialismo: de vagões e
vagabundos e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2000.
MARX, Karl. Capítulo XII – Divisão do Trabalho e Manufatura. In: ______. O
Capital: crítica da Economia Política. São Paulo: Nova Cultural, 1985. Livro I, vol. I. p.
267-289.
______. O Capital: crítica da Economia Política. São Paulo: Nova Cultural, 1985,
Livro I, vol. I.
______. O Trabalho Alienado. In: ______. MANUSCRITOS ECONÔMICOFILOSÓFICOS,
1844.
Disponível
em:
<www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/index.htm> Acesso em 19 de
Set. 2008.
______. Introdução à contribuição à crítica da Economia Política. In: ______.
Contribuição à crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p.
235-270.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Textos sobre educação e ensino. 2. ed. São Paulo:
Editora Moraes, 1992.
______. A ideologia em geral, em especial a filosofia alemã. Feuerbach Fragmento 1 e
2. Feuerbach e história. In: ______. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia
alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do Socialismo alemão em
seus diferentes profetas (1845-1846). 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2007.
______. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
SMITH, Adam. Introdução e plano da obra; Capítulo I Sobre a Divisão do Trabalho;
Capítulo II Sobre o princípio que deu origem à divisão do trabalho; Capítulo III Como a
divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado. In: ______. Investigação
sobre a natureza e a causa da riqueza das nações. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural,
1979; Livro I. p. 3-20.
Download

trabalho e educação: apropriações teóricas a partir de