O caso brasileiro de TV Digital e a proposta de nova
plataforma de comunicação para os países emergentes
Dr. André Barbosa filho – [email protected] 1
Dra. Cosette Castro – [email protected] 2
Resumo:
Este artigo desenvolve-se a partir do levantamento de dados referentes às reuniões da
CITEL pondo em confronto de um lado a proposta de implantação de uma política
hegemônica para a América Latina através do projeto ATST e de outro, o desenvolvimento
de pesquisas no Brasil de um sistema para a TV digital sob a ótica da inclusão social com
programas mínimos de interatividade. Um projeto que pretende se tornar uma alternativa de
Sistema de Televisão Digital para os países emergentes da América Latina. As pesquisas
brasileiras
valorizam a inter-regionalização, o trabalho em conjunto de diferentes centros
de referência, assim como
o tráfego de conhecimento com a utilização prioritária de
programas em código aberto (open source) pensando as audiências como atores sociais
participantes deste processo. No decorrer do texto é debatida a proposta de convergência
digital a partir das inovações no modelo de negócios de televisão com a implantação de um
Sistema Brasileiro de TV Digital que leve
em consideração
a importância da inclusão
digital. Neste contexto, são debatidas questões como a digitalização, a convergência com a
informática e com as redes de comunicação, a integração dos meios, a multiplicação da
oferta de conteúdos e serviços on demand, os novos usos comerciais, etc. Tais questões são
analisadas desde o ponto de vista da Economia Política, abordando também o papel dos
Estados nacionais diante do poder crescente das grandes corporações transnaciona is e a
1
Doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Pesquisador Associado da UnB. Atualmente é Assessor
Especial da Casa Civil da Presidência da República. Autor dos livros “Gêneros Radiofônicos” (2003) e
“Rádio: Sintonia do Futuro” (2004). Co-autor do livro “Mídias Digitais, Convergência Tecnológica e Inclusão
Social” (2005).
2
Doutora em Comunicação e Jornalismo pela Universidade Autônoma de Barcelona – ES. É Coordenadora
de Estágio e Pesquisa da TV Unisinos/ Fundação Padre Urbano Thiesen. É professora de Comunicação na
Unisinos/RS. Co-autora do livro “Mídias Digitais, Convergência Tecnológica e Inclusão Social” (2005).
2
constante ameaça que os cidadãos sofrem
no que diz respeito a capacidade de
armazenamento e escolha de dados ofertados pelas novas tecnologias de comunicação.
Palavras-Chave:
Novas Tecnologias de Comunicação – TV digital – Economia Política da Comunicação
Resumen:
Ese artigo se desarrolla a partir del relevamiento de datos referentes a las reuniones de la
CITEL, poniendo en confronto, de un lado la propuesta de implantación de una política
hegemónica para Latinoamérica a través del proyecto ATST y, de otro, el desarrollo de
investigaciones en Brasil de un sistema para la TV digital dentro de la perspectiva de la
inclusión digital. Un proyecto que tiene la pretensión de tornarse una alternativa de Sistema
de Televisión Digital para los países emergentes de Latinoamérica. Las investigaciones
brasileñas valoran la inter-regionalización, el trabajo en conjunto de diferentes centros de
referencia, así como el tráfico de conocimientos con la utilización prioritaria de programas
en código abierto (open source), pues piensa las audiencias como actores sociales
participantes de eso proceso. Durante el texto, es debatida la propuesta de convergencia
digital a partir de la innovación de los modelos de negocios de televisión con la importancia
de un Sistema Brasileño de Televisión Digital que tenga como prioridad la inclusión social.
En eso contexto, son discutidas cuestiones como la digitalización, la convergencia con la
informática y con los medios de comunicación, la integración de los medios, la
multiplicación de la oferta de contenidos, los servicios on demand, y los nuevos usos
comerciales. Esas cuestiones son analizadas desde el punto de vista de la Economía
Política, sin olvidar el rol de los Estados nacionales delante del poder creciente de las
grandes corporaciones transnacionales y la constante amenaza que los ciudadanos sufren en
lo que respecta a la capacidad de almacenaje y elección de los datos ofertados por las
nuevas tecnologías de comunicación.
Palabras-Llave:
Nuevas Tecnologías de la Comunicación – TV Digital – Economía Política da
Comunicación
3
O caso brasileiro de TV Digital e a proposta de nova
plataforma de comunicação para os países emergentes
Dr. André Barbosa filho – [email protected]
Dra. Cosette Castro – [email protected]
Introdução
A televisão é, por certo, o meio de comunicação que apresenta o paradigma mais
nítido dentro do ajuste digital que está se concretizando em nosso tempo. As razões para
tal afirmação residem nos fatos observados através dos volumes de investimentos e,
conseqüentemente, das receitas advindas de suas operações, incluindo aí os contingentes
implícitos do que se convencionou chamar convergência, dentro do cenário globalizado.
Este processo é de fundamental importância para o Estado, tendo em vista sua dimensão
política, cultural e de negócio. Aliás, a aplicação de recursos financeiros privados voltados
para a produção de conteúdos para a TV digital no Brasil está sendo estimada em US$ 20
bilhões para os próximos 10 anos.
A discussão do novo modelo de televisão implica - conforme se especula nos centros
de produção audiovisuais, universidades e na sociedade civil - na identificação de conceitos
que vão servir como balizadores, entre eles a digitalização, a convergência com a
informática e com as redes de comunicação, a integração dos meios, a multiplicação da
oferta, conteúdos e serviços on demand. Ainda no campo da produção, é possível citar os
novos usos comerciais e as formas publicitárias até agora só sonhadas nas criações de
ficção científica. No campo da recepção, espera-se uma nova atitude das audiências que,
para além da participação via telefone, fax, por Internet ou nas visitas aos estúdios, passa a
ter um papel muito mais ativo, como verdadeiro protagonista deste processo. Isso porque ,
através do canal de retorno, sua comunicação com as emissoras mudará radicalmente.
Dentro do cenário em que se insere a nova televisão, o poder dos (e entre) meios de
comunicação pode ser observado de diversas maneiras, assim como a reação dos Estados e
4
da sociedade civil em buscar regulamentações que controlem esse poder. Essa disputa
aparece através da preocupação dos Estados nacionais diante do crescente poder das
grandes corporações transnacionais e aparece nas freqüentes
ameaças à intimidade dos
cidadãos relacionadas com a capacidade de armazenamento e escolha de dados oferecidos
pelas novas tecnologias de comunicação. Mas não pára por aí. Aparece tamb ém na
multiplicação do consumo alienante de conteúdos audiovisuais, assim como pela
preocupação em garantir o acesso universal democrático aos supostos benefícios sócio econômicos derivados das mudanças do modelo analógico para o digital.
Estas mudanças estão sendo produzidas com diferentes intensidades em função das
capacidades econômicas, tecnológicas e de consumo de cada região da América Latina e
mesmo no Brasil. A comparação entre o modelo analógico conhecido e o novo modelo
digital ainda por definir-se - incluindo-se aí aspectos como a viabilidade econômica de
alguns negócios essenciais - é inevitável como elemento racional, porque ambos vão
conviver ainda durante alguns anos. Projeta-se pelo menos 10 anos de convivência do
analógico com o digital, até que o modelo analógico deixe de ser usado definitivamente na
maioria dos mercados televisivos amadurecidos.
O negócio TV no cenário digital
Foi-se o tempo que se podia definir a televisão apenas como um sistema econômico
de produção audiovisual que se consome (geralmente) em casa através de um modelo
analógico com diferentes níveis de influência na vida social. Foi-se o tempo também em
que as novidades na TV se restringiam ao surgimento do controle remoto, a concorrência
dos videocassetes ou a televisão por assinatura e, mais recentemente, do DVD.
Com a
chegada do modelo digital, o conceito de TV torna-se muito mais amplo. Por televisão se
pode entender o transporte de qualquer conteúdo baseado em imagens para qualquer lugar
onde exista um aparelho receptor adequado para receber essas imagens. Ou seja, a televisão
a partir do novo modelo:
1) tem vida digital;
2) está sendo renovada constantemente;
5
3) já não será - necessariamente - o objeto eletrônico mais importante do lar;
4) coloca a disposição do público um amplo repertório de novos serviços em comunicação.
Os operadores de televisão analógica têm mostrado nos últimos anos uma forte
tendência frente à diversificação em suas fontes de ingresso. Entre elas é possível citar a
rentabilização das chamadas telefônicas e mensagens pelos celulares; a comercialização de
produtos externos associados aos programas 3 ; uma maior preocupação tática em direção a
exportação de títulos de programas e direitos fora de seu entorno natural, assim como a
atenção aos mercados regionais e locais no interior de seu marco nacional de atividade.
Algumas destas extensões do negócio original implicam, também, no público como
comprador direto de produtos e serviços de entretenimento doméstico. Estas ações são mais
amplas do que o simples movimento de mudar de canal, levantando-se ou mesmo apenas
apertando os botões do controle remoto, num certo intervalo de tempo. O critério de
audiência com indicador elementar de valor dos produtos televisivos pode, ademais,
determinar – mesmo que não exclusivamente – a comercialização de programas específicos
em outros circuitos de distribuição, assim como a exportação de mercadorias finalizadas ou
seus direitos de adaptação a outros mercados nacionais.
Se a tecnologia só se torna relevante quando se encaixa em modelos sensatos de
negócio que testam sua eficácia atuando nos mercados reais e se a inovação tecnológica
com possíveis aplicações no entorno da televisão seguir com ritmo acelerado, o futuro se
caracterizará por uma série contínua de propostas e oportunidades de serviços que podem
ter efeitos permanentemente desestabilizadores.
O que significa isso? Significa que se alguém pensava que a TV digital se esgotaria
em seus numerosos e diversos canais, na interatividade e na possibilidade de acesso a
Internet ou de enviar mensagens a celulares desde o televisor, se enganou profundamente.
As mudanças vão muito mais longe e incluem uma nova geração de decodificadores com
disco rígido, conexões em rede de alta velocidade e programas para detecção inteligente de
perfis de consumo. Há ainda uma sucessão de outras inovações técnicas futuras capazes de
se colocar como serviços de utilidade, tanto no interior dos processos de produção de valor
como frente à fascinação das audiências.
3
Vídeos ou DVDs, publicações, games e todo o tipo de mercadorias.
6
A TV digital integra usos e funções procedentes de outros meios ou ao menos possui
as possibilidades de comunicação presentes em outros meios. As plataformas digitais
ofertam - diante deste cenário de múltipla escolha, mas ainda repleto de incertezas
tecnológicas - a oportunidade de revisão dos institutos legais envelhecidos, a oportunidade
de reestruturação e adequação do mercado de produção de conteúdos e, por fim, a mudança
radical das condutas e relações sociais entre os sujeitos sociais4 .
Pensar um modelo de TVD requer uma mudança de paradigmas, como recorda o
pesquisador espanhol Carlos Arnanz (2002), principalmente no que diz respeito às questões
econômicas e empresariais dos meios de comunicação, como veremos a seguir. Significa
não apenas propor uma nova interface, mas pensar de um lado na viabilidade econômica onde aparecem novos negócios de valor para as emissoras – e também pensar, como já
dissemos antes,
novas formas de socialibidade, tema sobre o qual o pensador espanhol
Jesus Martín-Barbero tem dedicado especial atenção quando se trata do uso de novas
tecnologias.
A CITEL e os interesses norte-americanos
Em maio de 2001, na cidade de San Salvador (El Salvador), a Comissão
Interamericana de Telecomunicações (CITEL)
através de seu conselho consultivo
permanente II, recebeu um projeto, produzido pela delegação norte-americana, onde este
órgão regional da
União Internacional de Telecomunicações (UIT)
pedia aos estados
membros que adotassem e implementassem um standard de emissão de Televisão Digital
(TVD) para todo o hemisfério. Era o chamado sistema
ATSC 5. Os argumentos deste
pedido, prontamente apoiado pela delegação do Canadá, se baseavam na hipótese de que a
adoção de um só modelo permitira a criação de um mercado de 830 milhões de pessoas em
4
Este tema merece uma discussão especial não apenas sobre novas sociabilidades, mas também sobre as
mudanças nas noções de tempo e espaço, que não é o objeto deste artigo.
5
O CITEL é o órgão técnico assessor que responde pela coordenação e harmonização de normas
relacionadas com o uso do espectro radioelétrico. Estes dados constam dos informes oficias do CITEL – CCP
II - www.citel.oas.org/sp/publicaciones . Acessado em 13.06.2005.
7
todas as Américas. De acordo com o documento norte-americano 6 , isso estabeleceria
economias de escala que permitiriam oferecer mais produtos de TV digital a consumidores
de distintos provedores a preços menores. Entretanto, as discussões para a implementação
deste modelo hegemônico, produziram diferentes reações.
As reuniões seguintes, em Fortaleza (Brasil) em julho de 2002 demonstraram os
cuidados dos postulantes em definir mudanças no sistema, por causa da divulgação de
estudos produzidos pela Agência Reguladora de Telecomunicações do Brasil, a ANATEL,
em 2001. Em testes de campo e laboratoriais, com o auxilio de universidades e centros de
pesquisa nacionais foram observadas falhas quanto à escolha de aplicativos de modulação
e mobilidade com a recomendação de modificações em seu âmago. Estes testes, inclusive,
tiveram sua metodologia homologada pela União Internacional de Telecomunicações e
serviram, em seguida, para facilitar os estudos semelhantes de avaliação de sistemas em
outros países.
A demora na aceitação por unanimidade do uso de um modelo único de TV digital
para o hemisfério fez com que a delegação norte-americana modificasse sua estratégia. Foi
solicitado, dentro do Grupo de Radiodifusão, a realização de um questionário para mostrar
o interesse dos estados membros da CITEL no sistema ATSC. Apesar do apoio de países
como Colômbia e Costa Rica, um número significativo de países respondeu negativamente
a esta consulta, na reunião de abril de 2004, realizada em Orlando (EUA). Eles
consideravam prematura a adoção de resolução sobre o tema. A participação da delegação
brasileira, já com o Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD) em pelo
desenvolvimento, foi decisiva para essa resposta.
O Brasil levava para a reunião em Orlando novos componentes e informações. A
filosofia de adoção de um sistema internacional, através dos testes mencionados com a
análise de todos os sistemas em uso àquele tempo 7 , havia se modificado a partir da eleição
do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. O novo governo, estimulado pelas
6
Foram apresentados na ocasião, mais de 40 documentos comprobatórios da eficiência do sistema ATSC,
desenvolvido nos EUA por um consórcio de empresas.
7
Os sistemas em uso no mundo são o ATSC-T , norte-americano, o DVB-T, europeu e o ISDB-T, japonês.
8
universidades brasileiras, resolveu investir na criação de um sistema com escolha e
desenvolvimento de aplicativos próprios.
A partir desse momento, se instala uma verdadeira batalha de interesses. Muitos dos
atores envolvidos dentro do Brasil passam a definir o modelo brasileiro como “a invenção
da roda” ainda mais quando as autoridades brasileiras passam a avaliar a possibilidade de
adoção de um modelo menos sofisticado, o SDTV – de tecnologia mais simples e barata em
detrimento
do
HDTV, utilizado pelo modelo norte-americano, mais qualificado e
igualmente mais caro. As criticas não cessaram aí.
Acusada de não estar atribuindo nenhuma contribuição significativa ao processo de
adoção de um sistema de TVD para o hemisfério, a delegação brasileira que compareceu a
reunião
de outubro de 2004 em Buenos Aires (Argentina) foi instada a divulgar até a
reunião de abril de 2005, os documentos técnicos de desenvolvimento do SBTVD,
sob
pena de não ter reconhecido seus estudos. Caso isso ocorresse, o sistema ATSC norteamericano seria reconhecido como hegemônico.
Entretanto, a documentação brasileira do SBTVD foi prodigamente apresentada na
capital da Guatemala, em abril deste ano. Mais de 40 páginas de textos, incluindo as
evoluções nos aplicativos, estudos de canalização, normas de convivência espectral, cadeias
de valor e panorama comparativo global foram discutidos. Este debate resultou na
solicitação, por um grupo de países, para que fosse alterado o termo da resolução de San
Salvador, pronunciando-se o plenário pela aprovação de medida que garantisse a liberdade
soberana de cada pais quanto à escolha dos modelos e até, se o desejarem, de desenvolver o
seu próprio sistema de radiodifusão digital.
Esta resolução deve receber outras contribuições com a mostra de novos estudos pela
delegação brasileira, na reunião de San José (Costa Rica) em outubro de 2005. Ela serviu
de base para a construção do parágrafo referente a “Declaração do Rio de Janeiro” e do
“Plano de Ação da Reunião Preparatória da Sociedade da Informação”8 , marcada para
Tunis (Tunísia) em novembro de 2005 e diz respeito ao uso interativo da TV digital como
8
Estes documentos foram divulgados ao termino da reunião preparatória dos paises da América Latina e
Caribe para o encontro Mundial da Sociedade da Informação , realizada de 07 a 10 de junho de 2005, no Rio
de Janeiro, Brasil.
9
forma de inclusão digital, um dos aspectos da proposta brasileira, que inclui o
reconhecimento da livre escolha do sistema digital a ser utilizado em cada país, de acordo
com suas necessidades e interesses.
O Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD)
Instituído através do Decreto 4.901 9 , o Sistema Brasileiro de Televisão Digital
(SBTVD) tem como finalidade proporcionar interatividade e o desenvolvimento de novas
aplicações que ofereçam entretenimento à população, promova a educação, a cultura, e a
inclusão social. Segundo o Decreto, o SBTVD deve possuir atributos básicos de baixo
custo e de robustez na recepção para TVs, com antena interna e, talvez, mobilidade para
atender a maioria da população brasileira. Isso poderá garantir que, mesmo aqueles que
hoje dispõem de um receptor de TV a cores analógico modesto, não sejam privados dos
atributos básicos da TV digital através do uso de um Set Top Box (caixa conversora),
possibilitando a universalização da TV digital.
Outros pontos do projeto merecem destaque, como o fato de que pela primeira vez na
história brasileira, 73 universidades e empresas privadas e 1200 pesquisadores de todo país
estão envolvidos no desenvolvimento do SBTVD. Trata-se de uma possibilidade inédita de
apropriação coletiva do conhecimento e do reconhecimento da capacidade investigadora
nacional. Isso sem contar a redução de pagamento de direitos (royalties) pelo baixo uso de
componentes com direitos de propriedade com patente estrangeira e as políticas de apoio
econômico e técnico para a construção de plantas industriais que permitam a fabricação de
receptores, transmissores e periféricos digitais como suprimento para a implementação do
sistema. Vale recordar ainda o aproveitamento do parque de televisores analógicos
coloridos instalados e a oferta de caixas de conversão (set top box ) acessível às classes C, D
e E, que contenham embarcados - aplicativos digitais residentes mínimos - como mudanças
de ângulo de visão, e-governo, dados bancários, e-commerce , educação à distância, etc.
O projeto está em franca atividade e utiliza uma metodologia que consagra a interregionalidade. Isto é, permite que o acervo de conhecimento adquirido e desenvolvido
9
De 26.11.2003.
10
durante este processo seja disseminado de forma homogênea a todos os pontos do país, em
detrimento de uma concentração desequilibrada, situada em algumas regiões mais
desenvolvidas. Mas há outro ponto de crucial importância. A canalização deve permitir a
convivência do padrão HDTV, cuja transmissão ocupará toda a faixa de freqüência de 6
Mhz correspondente com o SBTVD, que permitirá a fragmentação desta faixa em até
quatro canais diferentes. No entanto, não haverá a possibilidade de carregar aplicativos
mais sofisticados e sem os recursos de transmissão no nível da imagem tri-dimensional, ou
mesmo, de sistemas digitais sonoros, além de instrumentos de interatividade mais
completos e abrangentes.
Haverá um sistema flexível onde as tecnologias de ponta estarão convivendo com
outras mais simples, mas igualmente modernas, atendendo ao público em geral com
serviços digitais básicos, de acordo com a possibilidade de compra de cada um.
Tudo
aliado a terminais simples e de baixo custo que ofereçam pouco nível de complexidade para
o público. O SBTVD permitirá ainda, por suas características, a discussão de um novo
marco regulatório para as comunicações no Brasil, propiciando a reorganização dos
ordenamentos legais para abrigar as demandas sem cobertura legal dos novos padrões
digitais e suas interfaces com as plataformas comunicacionais e de informação.
Para finalizar, a Cadeia de valor do SBTVD
O objetivo do projeto brasileiro de TV digital, em termos estruturantes, é permitir que
novos modelos de negócio possam aflorar, mas para isso é preciso responder questões
como:
1) de que forma a introdução da nova tecnologia digital pode interferir nos fatores de
negócios dos atores em atividade no mundo televisivo e audiovisual;
2) qual a possibilidade do surgimento e/ou o desaparecimento de atores sociais neste
circuito profissional;
3) qual capacidade de adaptação à nova tecnologia, refletida na alteração da participação no
mercado;
11
4) qual a capacidade de ampliação e conquista de novos mercados para exportação de seu
know-how ou de seus instrumentos10 ;
5) quais as conseqüências da mudança para a tecnologia digital;
6) qual o impacto dessa mudança no aspecto fiscal e na balança comercial da nação.
Para estudar essas questões, o Decreto 4.90111 instituiu uma instancia de consulta do
Comitê de Desenvolvimento, órgão decisório do SBTVD em nível de governo federal.
Trata-se do Comitê Consultivo formado por emissoras, fabricantes de equipamentos
(antenas, transmissores, receptores e conversores) , produtoras de conteúdo e produtoras de
publicidade. O Comitê de Desenvolvimento aproveitará as sugestões do Comitê Consultivo
na tentativa de construir, junto aos empresários e aos especialistas, o modelo mais
apropriado de TV digital para o Brasil, cuja definição deve acontecer entre dezembro e
fevereiro de 2006.
Além de responder as questões acima citadas, o Grupo deverá ainda fazer o
levantamento de aplicações de TV digital, a categorização de seus serviços, o estudo de
modelos de negócio associados aos serviços e o levantamento das formas de transição.
Também deverá realizar estudos comparativos, fazer o levantamento de tecnologias e
integração com o sistema multicanal, TV aberta, e TV por assinatura, mobilidade dentro
dos padrões 2.5 e 3G, armazenamento e time shifting. A proposta é a implementação de
uma política industrial que possa propor recomendações para a condução de ações de
ordem
produtiva, tecnológica e comercial especifica para o favorecimento da difusão da
TVD, que tenha como prioridade:
1) a inclusão social através dos atributos de usabilidade, interatividade e de universalidade e
da oferta de aplicativos residentes digitais básicos;
2) a expansão e desenvolvimento de programas em código aberto.
10
O modelo brasileiro vai permitir que os aplicativos de conexão e distribuição, de multiplexação e leitura
múltipla de tabelas de dados (middlewares) possam conviver juntos. Isto é, permitirá a convivência do
modelo standard com os de alta definição. O sucesso deste empreendimento híbrido terá ampla aplicação em
mercados como o chinês ou o indiano que estão prevendo a utilização dos dois sistemas convivendo de modo
separado para aplicá-los em diferentes regiões de seus territórios, com populações de diversos perfis
econômicos e culturais. Nos casos chinês e indiano, a escolha do sistema não é voluntária, mas compulsória,
pois a região que for atingida por um sistema não o será pela outra. A escolha brasileira poderá solucionar
esta dicotomia, oferecendo o uso das duas tecnologias simultaneamente a todos os nichos populacionais,
democratizando a escolha.
11
De 26.11.2004.
12
3) o aumento da eficiência da estrutura produtiva, com projetos integrados que permitam a
confecção de componentes em toda a cadeia de valor;
4) o aumento da capacidade de inovação das empresas brasileiras, incluindo-se aí a
estruturação de uma industria criativa, como vem ocorrendo na Irlanda e na Inglaterra;
5) a expansão das exportações com o aumento da competitividade internacional e sua
estruturação dentro das metas de integração regional.
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13
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www.citel.oas.org/sp/publicaciones . Acessado em 13.06.2005.
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