FACESI EM REVISTA Ano 4 – Volume 4, N.2 – 2012 - - ISSN 2177-6636 PROCEDIMENTOS PARA REGULARIZAÇÃO DE ATERRO SANITÁRIO: O CASO DA CIDADE DE LARANJEIRAS DO SUL, PARANÁ Sintia Trzcialkoski Graduada em Ciências Contábeis. UNICENTRO. e-mail: [email protected] Lírio Ferreira Vivan Júnior Graduado em Ciências Ambientais. Especialista em Gestão Ambiental. UNICENTRO. e-mail: lí[email protected]. João Francisco Morozini Mestre em Ciências Contábeis pela FURB e Doutor em Administração de Empresas pela Universidade MACKENZIE-SP. e-mail: [email protected] RESUMO O objetivo deste artigo é apresentar a situação do aterro sanitário de uma cidade de médio porte da região Centro-Oeste do Estado do Paraná. A questão ambiental tem alcançado grandes proporções em função da degradação do meio ambiente e dos recursos naturais. Ater-se à responsabilidade socioambiental consiste, à priori, em uma possibilidade de preservar as reservas naturais, e, além disso, contribuir para alavancar o sucesso governamental e empresarial, proporcionando maior oportunidade de crescimento e desenvolvimento. Para a efetivação deste estudo foi realizado um check-list para verificar as condições do aterro sanitário ante as normas do Instituto Ambiental do Paraná. Os resultados do estudo mostram que há inúmeros fatores que devem ser corrigidos. Palavras-chave: Auditoria ambiental. Responsabilidade socioambiental. Resíduos sólidos. 1 INTRODUÇÃO A questão ambiental tem tomado grandes proporções devido ao descuido generalizado, no decorrer das últimas décadas, com os recursos naturais. A Constituição Federal diz em seu artigo 225 que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, e que cabe ao poder público e aos cidadãos o dever de defendê-lo e preservá-lo. O meio ambiente não é público e nem particular, não se refere a uma pessoa individualmente considerada, mas atinge a todos difusamente. Por se tratar de um bem de uso comum, não significa que seja um bem público. (ANTUNES, 2005, APUD LOPES, 2008). Para tanto é obrigação de todos cooperarem para a preservação dos recursos naturais. E para que haja mudança é imprescindível que, além de empresas e órgãos públicos, cada cidadão desenvolva práticas de responsabilidade social e ambiental. O Instituto Ethos, diz que a Responsabilidade Social nas empresas consiste numa forma de gestão caracterizada pela ética e transparência que ela mantém com a sociedade 2 em geral e pelas suas metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, com o objetivo de preservar recursos ambientais e culturais para gerações futuras, além de respeitar a diversidade e promover a redução das desigualdades sociais. (ETHOS, 2010). Pode-se afirmar que essa responsabilidade consiste na utilização ciente dos recursos naturais, a partir do desenvolvimento sustentável, de forma a contribuir ou garantir a perenidade do meio ambiente e, assim, da raça humana. Quando não há utilização ciente dos recursos naturais e, segundo GUERRA & CUNHA (2004), quando as mudanças sociais e ecológicas são causadas por perturbações ou estimuladas pelos impulsos de relações entre forças internas e externas, tem-se um impacto ambiental. Os mesmos autores afirmam que para cada caso de impacto ambiental há necessidade de investigar as localizações, as distâncias, as condições ecológicas, entre outros fatores. O artigo em questão visa identificar os impactos ambientais do aterro sanitário de uma cidade localizada na região Centro-Oeste do Paraná. Segundo a NBR ISO 14010, auditoria ambiental consiste num processo de verificação que objetiva obter e avaliar evidências de auditoria para determinar se as atividades, eventos, sistema de gestão e condições ambientais especificados estão em conformidade com os critérios de auditoria. Diante do exposto, para efetivação desse estudo, foi realizado um estudo de caso, com a utilização de check-list para obter dados referentes à disposição do aterro sanitário perante as normas ambientais. Para atender o propósito do estudo, o artigo encontra-se organizado, primeiramente, com a apresentação do referencial teórico, em seguida, com os aspectos metodológicos, posteriormente, apresentação e análise dos resultados e as considerações finais. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Política Ambiental Urbana De acordo com FERREIRA (1998, p. 91) o enfoque do ambientalismo como movimento histórico surge da ideia de que a civilização atual é insustentável no médio e longo prazo e isto se deve ao crescimento populacional, depleção da base dos recursos naturais, sistemas que utilizam tecnologias poluentes e de baixa eficiência energética e sistema de valores que propiciam a expansão ilimitada do consumo material. Este último fator é facilmente confirmado em aterros de resíduos sólidos, perante a quantidade de materiais que poderiam ser reutilizados e que pela facilidade de oferta e demanda são descartados. Para GUERRA & CUNHA (2004, 26), a economia política ou ecologia política do meio ambiente examina as relações dinâmicas entre natureza e sociedade e as estruturas 3 socioespaciais temporalmente determinadas. É a partir da ecologia política do meio ambiente que é possível avaliar as condições ambientais e espaciais, indicando a gravidade dos problemas ambientais e os seus agravantes. A cidade é tradicionalmente vista como aglomeração urbana ou um espaço de assentamento urbano, de obras, de estruturação e funções específicas. A cidade é mais do que aglomeração urbana, ela é centro da vida social e política. (GUERRA & CUNHA, 2004, p. 34). Desta forma, entende-se que é um local onde há contínua transformação, produção e desenvolvimento. Quando o crescimento urbano não é acompanhado por aumento e distribuição equitativa dos investimentos em infra-estrutura e democratização do acesso aos serviços urbanos, as desigualdades socioespaciais são geradas ou acentuadas. Como é caso da maioria dos municípios brasileiros, onde o crescimento populacional acontece mais rápido do que o crescimento em infra-estrutura. Em conseqüência disso, produz grande demanda de lixo, resíduos, material descartado. Antigamente os lixões eram a solução para o destino desses resíduos, porém, nos dias atuais a sociedade não tem aceitado este ambiente, em conseqüência de causar passivos ambientais. Considerando este fato, é de grande importância o desenvolvimento de políticas que minimizem os impactos ambientais, que colaborem para a melhoria da qualidade ambiental. Um fator muito importante é a utilização e conservação de aterros sanitários, dando um correto destino final aos resíduos que são produzidos nas cidades. 2.1.2 Aterro Sanitário O aterro sanitário funciona como um depósito de resíduos, preferencialmente aqueles resíduos que não podem mais ser reaproveitamos, ou seja, aqueles que não podem ser reciclados, reutilizados ou recuperados. É para onde os resíduos devem ser destinados; um local que tenha garantias sanitárias e que esteja devidamente preparado para a captação dos efluentes líquidos e gasosos. Cada tipo de resíduo tem uma classificação específica, e também normas para sua correta destinação. Conforme a NBR 10.004, os resíduos sólidos são aqueles em estado sólido ou semi-sólido, que resultam de atividades da comunidade de origem: industrial, doméstica, hospitalar, comercial, agrícola, de serviços e de varrição. Também estão incluídos os lodos provenientes de sistemas de tratamento de água, os gerados em equipamentos e instalações de controle de poluição, além de líquidos que tornam inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos (ex.: medicamentos). Os resíduos estão divididos em três classes: 4 - Perigosos: cujas propriedades químicas, físicas ou infectocontagiosas pode apresentar riscos à saúde pública; ou aqueles que sejam inflamáveis, corrosivos, tóxicos ou patogênicos. - Não-inertes: aqueles que não podem ser classificados como perigosos ou inertes. - Inertes: resíduos que, quando submetidos a testes de normas técnicas, não tiveram nenhuma de suas propriedades solubilizadas a concentrações superiores aos padrões de potabilidade da água, como rochas e vidros. Neste artigo, abordaremos o aterro sanitário para resíduos sólidos. Conforme mencionado em parágrafos anteriores, o objetivo é que o aterro receba apenas aquele resíduo que não pode mais ser reaproveitado, entretanto, em municípios onde não há coleta seletiva é natural encontrar nos aterros sanitários, plásticos, vidros, metais e papeis, o que diminui consideravelmente o tempo de via útil dos aterros, sendo necessária nova área para construção de um novo aterro. Neste caso, a reciclagem é um importante fator para auxiliar na durabilidade do aterro na preservação dos recursos naturais. O aterro sanitário deve ser construído longe da cidade, de moradias (em função do mau cheiro) e, principalmente, longe de nascentes, além disso, deve haver monitoramento ambiental, para evitar a contaminação do solo e águas subterrâneas. Segundo Resolução Conjunta 01/2006 da SEMA/IAP/SUDERHSA, Aterro Sanitário consiste na técnica para a viabilização da disposição de resíduos sólidos urbanos, sem causar danos à saúde pública e a sua segurança, minimizando os impactos ambientais, técnica esta que utiliza princípios de engenharia para confinar os resíduos sólidos na menor área possível e reduzi-los ao menor volume permissível, cobrindo-os com uma camada de terra na conclusão de cada jornada de trabalho, ou intervalos menores, se necessário. Ainda, segundo a Resolução 01/2006, a forma dos aterros varia, dividindo-se em municípios com solo argiloso ou arenoso, além do número de habitantes. Para o caso específico de Laranjeiras do Sul, os requisitos são de acordo com o solo argiloso, com população urbana acima de 10.001 habitantes. Neste caso, o Aterro Sanitário deve ser impermeabilizado com geomembrana, e deve ser implantado em trincheiras de acordo com normas específicas do Manual de Implantação de Aterros Sanitários em Trincheiras, disponibilizado pela Secretaria. 2.2 Impacto Ambiental A Resolução do CONAMA nº 001/ 1986, define impacto ambiental como qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades 5 sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente e; a qualidade dos recursos ambientais. Segundo GUERRA & CUNHA (2004, 24), impacto ambiental é “o processo de mudanças sociais e ecológicas causado por perturbações (uma nova ocupação e/ou construção de um objeto novo: uma usina, uma estrada ou uma indústria) no ambiente.” Os mesmos autores dizem que a os impactos ambientais atingem, na maior parte, as classes menos favorecidas: “Os problemas ambientais não atingem igualmente todo o espaço urbano. Atingem muito mais os espaços físicos de ocupação das classes sociais menos favorecidas do que os das classes mais elevadas.” E complementam que esse fato está relacionado à desvalorização do espaço: “A distribuição espacial das primeiras está associada à desvalorização de espaço, quer pela proximidade dos leitos de inundação dos rios, das indústrias, quer pela insalubridade, tanto pelos riscos ambientais como desmoronamento e erosão [...]" Ainda, de acordo com os mesmo autores, (p. 28) a análise de impactos ambientais urbanos impõe para cada caso a necessidade de investigar as localizações, as distâncias, as condições ecológicas, o acesso diferencial à terra, as ações e formas de apropriação social dos espaços da cidade. Um lixão causa grandes impactos, não somente ambientais, como sociais. Torna-se um local de livre acesso, que não tem segurança. Referente a avaliação de um impacto ambiental, segundo GUERRA & CUNHA (2004), este é fundamentado em medições empíricas, estudos realizados em áreas geográficas específicas podem fornecer taxas de erosão ou índices de poluição que, não raramente, refletem uma visão limitada e fragmentada dos processos nelas atuantes. Um impacto ambiental pode ser mensurado monetariamente, transformando-se em um passivo ambiental, que é um dano causado ao meio ambiente. Uma empresa possui um passivo ambiental quando agride o meio ambiente e não tem nenhum projeto ou não realiza nada para a recuperação. Segundo PADILHA (2008), passivo ambiental consiste em obrigações financeiras do passado, presente e futuro, resultantes de um dano ambiental. O passivo ambiental é inserido no balanço patrimonial através de cálculos estimativos, como danos ambientais gerados e, em contrapartida, no ativo, são incluídas as aplicações de recursos para a recuperação do ambiente. (AMBIENTE BRASIL). 2.3 Auditoria Ambiental Conforme a NBR ISO 14010, auditoria ambiental é o processo sistemático e documentado de verificação, executado para obter e avaliar, de forma objetiva, evidências de auditoria para determinar se as atividades, eventos, sistema de gestão e condições ambientais especificados ou as informações relacionadas a estes estão em conformidade 6 com os critérios de auditoria, e para comunicar os resultados deste processo ao cliente. Em resumo, a auditoria consiste na verificação e avaliação de um processo, com o objetivo de verificar se está de acordo com as normas e se não, sugerir recomendações para melhorar. O Projeto de Lei Federal n.º 3.160/1992, conceitua auditoria ambiental como sendo o exame periódico e ordenado dos aspectos normativos, técnicos e administrativos relacionados às atividades da instituição capazes de provocar efeitos nocivos ao meio ambiente. (APUD FERREIRA JR). Segundo o Conselho Estadual do Meio Ambiente (CEMA), auditoria ambiental é o processo sistemático documentado de verificação, executado para obter e avaliar, de forma objetiva, evidências que determinem as a organização está em conformidade com os critérios de auditoria ambiental, estabelecidos e para comunicar os resultados deste processo à administração. (Res. 07/2001, APUD FERREIRA JR). Conforme LA ROVERE (2001) APUD FERREIRA JR., a auditoria ambiental não deve ser confundida com uma simples avaliação ou mesmo como fiscalização. A auditoria é caracterizada pela independência dos auditores em relação à unidade auditada e por requerer uma detalhada e rigorosa metodologia de aplicação, visando efetivamente avaliar o atendimento a critérios relevantes ao objetivo previsto. Referente ao objetivo da auditoria ambiental, ROVERE et al (2001) o definem através de sua classificação, sendo as categorias em destaque: auditoria de desempenho ambiental, auditoria de sistema de gestão ambiental (SGA), auditoria de certificação, auditoria de descomissionamento (descommissioning), auditoria de responsabilidade (due dilligence), auditoria pontual e, auditoria de conformidade legal (compliance) ou auditoria ambiental compulsória, conforme melhor estudada no item a seguir. 2.4 Auditoria Ambiental Compulsória Conforme a Lei Estadual nº 13.448/2002, Auditoria Ambiental Compulsória consiste na realização de avaliações e estudos destinados a verificar: I – o cumprimento das Normas Legais Ambientais em vigor; II – os níveis efetivos ou potenciais de poluição ou de degradação ambiental por atividades de pessoas físicas ou jurídicas; III – as condições de operação e de manutenção dos equipamentos e sistemas de controle de poluição; IV – as medidas necessárias para assegurar a proteção do meio ambiente, saúde humana e minimizar impactos negativos e recuperar o meio ambiente. Para ROVERE et al (2001), a auditoria ambiental compulsória é uma ferramenta utilizada para verificar a real situação da empresa mediante a legislação ambiental vigente no país. Entretanto, o cumprimento da legislação ambiental é um critério que deve ser considerado em qualquer tipo de auditoria ambiental. 7 Segundo WEBER (2006), a auditoria ambiental compulsória busca verificar o cumprimento da legislação ambiental, riscos de acidentes ambientais, passivos ambientais e impactos causados pela organização. A auditoria ambiental compulsória é uma forte ferramenta para a manutenção correta de um aterro sanitário, considerando que a Lei determina que seja feito avaliações e estudos periodicamente, para verificar se as normas ambientais estão sendo cumpridas. Além disso, para renovar a licença de operação é preciso ser feita uma auditoria a cada quatro anos. Com a realização desse tipo de auditoria é possível verificar em que aspectos ou áreas a legislação ambiental está sendo atendida e apura as oportunidades para corrigir as não conformidades. É importante conhecer os problemas para depois poder eliminá-los da melhor forma, para isso, é utilizada a auditoria ambiental compulsória. É desígnio da auditoria ater-se ao problema e solucioná-lo, evitando custos de curto e longo prazo, como multas ambientais de fiscalização, a saúde das pessoas provocados por efeitos tóxicos, ações judiciais movidas por partes interessadas que se julguem prejudicadas, entre outros. 2.5 Responsabilidade Social e Ambiental Conforme relatório da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades. (1998). Ainda, segundo o relatório, para que haja desenvolvimento sustentável, é necessário que todos tenham atendidas as suas necessidades básicas e tenham oportunidades de concretizar suas aspirações de uma vida melhor. Em resumo, a idéia de desenvolvimento sustentável requer uma integração entre o desenvolvimento econômico, a proteção ambiental e uma sociedade menos desigual. O envolvimento das empresas com as questões ambientais tende a aumentar à medida que aumenta o interesse da opinião pública sobre os problemas ambientais, bem como grupos interessados nesse tema: trabalhadores, consumidores, etc. (SOUSA, 2006) De acordo com uma pesquisa do Instituto Ethos/Jornal Valor sobre percepção dos consumidores, 57% dos brasileiros classificam uma empresa como boa ou ruim conforme a responsabilidade social (ETHOS/JORNAL VALOR, 2000). Esse dado confirma a importância que os consumidores, fornecedores, funcionários e a sociedade em geral atribuem ao fator ambiente ou à responsabilidade social e ambiental como meio de continuidade dos recursos naturais. A responsabilidade social e ambiental objetiva demonstrar que a empresa possui comprometimento com o meio ambiente e com a sociedade, sendo que as suas atividades 8 implicam em preservação, evitando gerar ônus para a sociedade; também é uma estratégia de sobrevivência. 3 ASPECTOS METODOLÓGICOS Este artigo foi feito com base em um estudo de caso, na cidade de Laranjeiras do Sul, sobre a situação do local onde são depositados os resíduos sólidos. Também foi utilizado pesquisa bibliográfica sobre o tema, em estudos feitos pela prefeitura, em artigos e livros que abordem o assunto e em sites especializados como Instituto Ethos e Ambiente Brasil. Realizou-se uma análise da situação dos aterros sanitários no estado do Paraná, posteriormente, comparou-se a realidade da maioria dos municípios com Laranjeiras do Sul. Por fim, apresentou-se uma solução para a recuperação da área onde, atualmente, são depositados os resíduos sólidos do município de Laranjeiras do Sul-PR. 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.1 Laranjeiras do Sul Laranjeiras do Sul é um município localizado na região centro-oeste do Paraná, a 841 metros de altitude. Possui área total de 601 km², sendo 19,3 km² de área urbana. Possui clima subtropical úmido mesotérmico, com invernos caracterizados por geadas frequentes e intensas. Não apresenta estação seca. A economia é baseada nas atividades agrícola e pecuária, estruturada em pequenas e médias propriedades rurais. A população estimada é de 31.641 habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Referente aos resíduos, até o ano de 1992, o lixo produzido na cidade era transportado e depositado a céu aberto em um lixão, próximo do centro. Naquela época, apenas 30% do lixo era coletado. No ano seguinte, 1993, o governo municipal adquiriu uma nova área para o depósito do lixo. Este local estava de acordo com o que as normas exigidas pelo IAP, como distância de moradias e de rios e nascentes. Neste ano, foi instalada uma trincheira - método em que é realizada uma escavação que tenha capacidade de receber resíduos em um prazo de 60 a 180 dias, ao final de cada o lixo depositado na trincheira deve ser coberto com lona de PVC, espessura de 4mm, evitando o contato com as águas da chuva, reduzindo a produção de chorume. Embora o método resolvesse temporariamente a disposição dos resíduos, não obteve êxito por muito tempo, uma vez que necessita de acompanhamento regular de máquinas e funcionários e, neste caso, depende muito da realidade econômica do município para viabilizar esse trabalho. 9 Em 1994 começou a ser desenvolvido, pelo governo municipal, um programa de educação ambiental nas escolas, bairros e associações, com o objetivo de preparar a população para a implantação de uma Usina de Compostagem e Reciclagem de Resíduos Sólidos Urbanos – a compostagem é um processo de decomposição biológica da matéria orgânica existente no lixo, por meio da ação de microorganismos existentes nos resíduos; o lixo é separado em plásticos, papeis, tecidos, vidros, metais, ferro e aço, o restante é fermentado, após, essa mistura é peneirada, onde os pedaços maiores são depositados em um aterro e o restante é composto orgânico que pode ser utilizado em hortas, jardins. Esse projeto previa a instalação da usina, depósitos e outras edificações necessárias, além de pátio de compostagem. A estimativa da produção de lixo, nesta época era de 24,07 toneladas/dia. No ano de 1999 foi realizado um novo projeto de Aterro Sanitário, baseado na adequação de instalações. Esse projeto previa a coleta de chorume - líquido escuro formado pelos resíduos orgânicos parcialmente degradados - através de drenos espinhas de peixe, confeccionados com pedra brita; a instalação de um poço para coleta de chorume com o objetivo de recircular esse líquido através de um sistema de bombeamento para as trincheiras; um sistema de drenagem de gases, além do isolamento e otimização da área, entre outros, visando menor impacto ambiental, dentro das características do terreno. Atualmente, o município não possui uma técnica de tratamento adequada para os resíduos sólidos. Laranjeiras do Sul faz parte da maioria dos municípios brasileiros que utilizam lixões para o depósito de resíduos. Conforme pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo IBGE, em 2000, a disposição de lixo nos municípios brasileiros se divide em: 63,6% em lixões, 32,2% em aterros, sendo 13,8% aterros sanitários e 18,4% em aterros controlados, o restante não informou o destino do lixo. A pesquisa demonstra uma grande evolução referente ao destino do lixo, pois em uma pesquisa no ano de 1989, 76% da disposição final do lixo era realizada em lixões. Segundo o IBGE, essa melhora na situação da disposição final do lixo deve-se a maior consciência da população referente à limpeza urbana, à atuação do Ministério Público, agindo na indução à assinatura, pelas prefeituras, dos Termos de Ajuste de Conduta para a recuperação dos lixões e na fiscalização do seu cumprimento e também devido a contribuição do governo federal para o setor. 4.2 Coleta de Lixo O serviço de coleta de lixo é realizado pela prefeitura, com coleta diária, na região central e, duas vezes por semana, nos bairros. São coletadas aproximadamente 20 toneladas de lixo/dia. 10 A coleta dos Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde (RSS) é diferenciada, onde cada entidade é responsável pelo lixo produzido. Os RSS devem ser depositados em locais de tratamento ou aterros de segurança. O município ainda não possui um sistema de coleta seletiva, o que colaboraria muito para a reciclagem. Há projetos do governo municipal para aquisição de veículos próprios para esta prática. É provável que dentro de algum tempo, a coleta seletiva seja uma realidade em Laranjeiras do Sul. Quanto à separação do lixo, algumas residências até realizam, porém, são os próprios agentes ecológicos ou catadores que coletam, ou quando isso não acontece, tudo é coletado pela prefeitura. 4.3 Aspectos Locacionais e Populacionais da Área O local onde atualmente é destinado o lixo está localizado a aproximadamente 3.000m da cidade. Próximo do local também funciona um depósito de vasilhames de agrotóxicos, de propriedade de uma empresa privada. O manancial de abastecimento fica a uma distância segura, sem que haja influência dos resíduos sólidos ou contaminação da água. Entretanto, há rios e nascentes num raio de 150m a 200m do perímetro da área, o que faz com que haja contaminação das águas superficiais, neste caso, se o chorume escoado não for tratado, poderá contaminar as águas com cargas orgânicas muito elevadas, alterando a sua qualidade e os ecossistemas aquáticos. Esta situação é de grande impacto ambiental e consequentemente de difícil recuperação. Devido à capacidade exaurida da área, os resíduos estão se aproximando do local de Reserva Legal – 20% do total do terreno – o que tem originado Termos de Responsabilidade de Compromisso de Restauração e Conservação de Área de Reserva Legal, emitidos pelo IAP com destino à prefeitura municipal, responsável pela área. Conforme a Resolução Conjunta 01/2006 da SEMA/IAP/SUDEHRSA, um aterro sanitário para uma cidade do porte de Laranjeiras do Sul deve ser impermeabilizado com geomembrana, devendo ser implantado em trincheiras de acordo com as normas específicas do Manual de Implantação de Aterros Sanitários em Trincheiras. De acordo com o Manual, o espaço mínimo recomendado entre o lençol freático e o fundo da trincheira escavada é de 3 metros. Este é um fator que deve ser verificado e confirmado por profissionais capacitados para essa atividade. Referente aos critérios para a escolha da área, o Manual apresenta os seguintes: - O mapa de localização da atividade e do seu entorno com raio de 1.500 metros, a partir do perímetro da área; - Fora da área de influência direta do manancial de abastecimento; 11 - 200 metros distantes de rios e nascentes do perímetro da área; - 1.500 metros de distância de núcleos populacionais, a partir do perímetro da área; - Considerar a profundidade do lençol freático e tipologia do solo; - 300 metros de distância do perímetro da área de residências isoladas. Conforme check-list realizado, foi possível verificar que o terreno onde são depositados os resíduos está distante o suficiente de mananciais, de núcleos populacionais, neste caso, a cidade e de rios e nascentes. Um dos fatores em não conformidade é a proximidade de moradias no local. Famílias de classes menos favorecidas se utilizam da área para residir e recolher materiais que podem ser reciclados. A reciclagem é uma forma muito importante de reduzir os impactos ambientais, desde que seja feita em segurança. Neste caso, as pessoas que realizam esta atividade sem proteção alguma correm riscos graves de adquirir doenças, problemas respiratórios e intestinais causados pelo ambiente poluído, ou através do contato com animais contaminados, que pode levar à morte. O município conta com uma Associação de Agentes Ecológicos, onde cerca de 25 famílias realizam o trabalho de reciclagem, com equipamentos de segurança. Elas dispõem de um local específico para a prática. Cerca de 130 pessoas são beneficiadas pela atividade. Entretanto, nem todas as pessoas que trabalham com essa atividade são credenciadas na Associação. Outro fator que não está de acordo com as normas, é que a área não é cercada, sendo que, desta forma, qualquer pessoa tem acesso livre ao local. 4.4 Aterramento do Lixo De acordo com a Resolução Conjunta 01/2006 da SEMA/IAP/SUDEHRSA, no aterro sanitário em trincheiras, o recomendado para municípios com o porte e solo de Laranjeiras do Sul, os resíduos sólidos devem ser depositados em trincheiras (espécie de câmara onde os resíduos ficam isolados do ambiente), de montante para jusante, em etapas consecutivas, com capacidade para receber volume de resíduos em um período de 60 a 180 dias. Diariamente, os resíduos devem ser depositados na trincheira pelo próprio veículo coletor. Uma pá carregadeira deve estar no local ao menos três vezes por semana para empilhar os resíduos e cobri-los (o material para a cobertura é o solo do próprio local). A cada 15 dias, um trator de esteiras deve rampear, compactar e nivelar os resíduos nas trincheiras. Ao final de cada dia, os resíduos que ainda não foram cobertos com terra, devem ser cobertos com lona de PVC, espessura de 4mm, para evitar o contato com as águas da chuva, reduzindo a produção de chorume. Ainda, para a recirculação do chorume, uma vez que este fica no fundo da trincheira, é necessário que um funcionário treinado faça inspeção visual no poço de coleta, especialmente em períodos chuvosos e, caso haja 12 necessidade de bombeamento, o mesmo fará a interligação do poço à trincheira, onde se pretende injetar o líquido. Quando o solo contaminado é lavado pela água da chuva pode atingir o lençol freático, poluir rios e tornar a água de várias localidades impróprias para o consumo. A regularidade desse processo depende da realidade econômico-financeira de cada município. No caso de Laranjeiras do Sul, em função da insuficiência de maquinários, a cobertura das valas não tem sido feitas regularmente, fazendo com que os resíduos fiquem expostos a luz e ao calor, favorecendo a proliferação de moscas, baratas, ratos e, como conseqüência pode atrair predadores. É um impacto negativo, entretanto de baixo risco. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O objetivo deste artigo foi identificar as não conformidades de um aterro sanitário, com o objetivo de contribuir para a sua correta adequação. As pesquisas do IBGE demonstram, através de dados, que o destino final do lixo em locais adequados é um problema da grande maioria dos municípios brasileiros e atinge, principalmente, as classes menos favorecidas, além de causar graves impactos ambientais. Laranjeiras do Sul, ainda faz parte desta realidade, entretanto vem há vários anos buscando soluções para a correta destinação do lixo urbano. Considerando a importância dos recursos naturais, é imprescindível a sua preservação, uma vez que o investimento para prevenir um impacto ambiental é bem menor que aquele para recuperar, ou seja, o passivo ambiental torna-se muito maior. Para contribuir com a preservação, é necessária a coleta seletiva de lixo, tanto por parte do governo municipal em disponibilizar veículos coletores apropriados para este fim, como por parte da população que deve se conscientizar com a importância da preservação dos recursos naturais, colaborando em não somente separar o lixo, mas também em refletir sobre o consumismo desenfreado. É importante a criação de mais associações ou cooperativas de reciclagem de lixo, pois além de contribuir para o desenvolvimento da economia local, gerando emprego e renda, a atividade da reciclagem diminui consideravelmente os impactos ambientais. O projeto do gerenciamento integrado de resíduos sólidos urbanos do município de Bituruna, localizado no sul do estado do Paraná, é um exemplo interessante que pode ser adotado para o tratamento do lixo. É realizado reciclagem e compostagem com aterro de rejeitos. Todos os materiais passíveis de aproveitamento recebem uma destinação, agregando valor aos resíduos que antes eram inutilizados, consequentemente, gerando desenvolvimento econômico a partir da comercialização de materiais recicláveis. O aterro sanitário recebe somente os materiais que não tem mais utilidade, reduzindo o impacto ambiental e aumentando a vida útil do aterro. 13 Os resultados mostrados por este estudo demonstraram que de qualquer forma é necessário realizar investimentos por parte do governo municipal para a adequação do aterro sanitário. A área precisa ser recuperada para evitar impactos ambientais maiores. Neste sentido, é primordial o desenvolvimento de uma política de gerenciamento de resíduos que garanta opções de destinação e tratamento corretos, além de acompanhamento periódico das atividades, para evitar desconformidades. Quanto às limitações do trabalho, destaca-se o fato de que a metodologia adotada trata-se de estudo de caso e o acompanhamento de profissionais especializados na área ambiental poderia trazer maiores elementos explicativos referente a estudos topográficos, geotécnicos, hidrológicos e anemológicos. Sugere-se para pesquisas futuras, o estudo da mensuração dos passivos ambientais de um aterro sanitário em não conformidade com as normas legais. REFERÊNCIAS Instituto Ethos Reflexão. Os Novos Desafios da Responsabilidade Social Empresarial. Ano 2, nº 5, julho 2001. INSTITUTO AMBIENTAL DO PARANÁ. Manual para Implantação de Aterros Sanitários em valas de pequenas dimensões, trincheiras e em células. Curitiba, PR, 46 p. 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