Observatório Social do Nordeste OBSERVANORDESTE
&
Seminário Permanente de Pesquisa e Atualização Científica
- SEPAC
O FIM DO CAPITALISMO,
COMO NÓS O CONHECEMOS.
Palestra do cientista político e professor
Elmar Altvater
(Universidade Livre de Berlim, Alemanha),
proferida na
Fundação Joaquim Nabuco – FUNDAJ
(Sala Calouste Gulbenkian),
Recife, Pernambuco, Brasil,
em 16/11/2006.
Debatedores:
Prof. Cesare Galvan
(Centro de Estudos Josué de Castro)
&
Economista Clóvis Cavalcanti
(FUNDAJ)
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PALESTRA
O SR. ELMAR ALTVATER (Universidade Livre de Berlim/Alemanha):
(A gravação inicia-se com a palestra já iniciada)
...O sistema futuro, o sistema econômico e social do futuro não é mais um
capitalismo, pode ser uma outra coisa: socialismo, não o socialismo real como no
Século XX, mas um socialismo, uma economia de sociedade solar baseada em cima
das energias solares, isso também pode ser. Por isso, digamos, que o futuro é aberto.
Isso foi a causa por que escrevi este livro. As experiências dos debates na esquerda,
mas não somente na esquerda na Europa, como na América Latina ou na África, os
debates no Fórum Social Mundial, aqui em Porto Alegre, no Brasil, ou em Caracas no
ano passado, em Bombay, na Índia; no ano que vem, em janeiro, Nairobi. Todos os
debates se desenvolviam sobre a questão “tem alternativas ao capitalismo?”. O slogan
do Fórum Social Mundial é bem conhecido como “Um outro mundo é possível”. Isto é
muito otimista, também muito idealista, mas um outro mundo é possível e por isso tem
alternativas em comparação ao sistema existente. Em vez do discurso depois do
fracasso do socialismo real, em 1989, foi um discurso muito diferente, um discurso que
diz mais ou menos que alternativas não existem mais. A famosa palavra de Margaret
Thatcher, da Inglaterra “There is no alternative”, não tem mais alternativas no mundo,
é muito conhecida em todos os movimentos sociais no mundo.
E também um pouco mais filosófico e teoricamente fundado é o discurso sobre
o fim da história. Também no fim dos anos 80, início dos anos 90, esse discurso sobre
o fim da história emergiu de uma pessoa, talvez a mais conhecida. Nesse discurso, o
japonês-americano Fukuyama que escrevia um livro com o título O Fim da História. O
que significa o fim da história? Ele disse: “O fim da história já aconteceu com as
guerras napoleônicas, no início do Século XIX, porque as guerras fizeram um fim ao
feudalismo e criaram um sistema de democracia no sentido moderno depois da
revolução francesa e uma economia de mercado funcionando, um mercado que é
dominante como meio de regulamentação econômica social”. E depois das tentativas
socialistas de mudar esse sistema e o fracasso dessas... Termos um fim da história,
significa um mercado mundial. Agora, hoje em dia mercado mundial como democracia
procedural, formal, como os sistemas, as propriedades de uma sociedade humana a
mais adequada e a mais humana possível. Por isso significa que alternativas não são
possíveis. E o fim da história também significa que o capitalismo com democracia com
um mercado funcionando é um sistema eterno da humanidade.
Mas esse capitalismo hoje em dia não é um sistema que se pode aceitar, sem
dúvida nenhuma, porque produz crises econômicas, o desemprego. Uma das
propriedades do capitalismo moderno os cambiamentos no mundo de trabalho não só
por causa do desemprego, mas por causa da informalização do trabalho e a
precarização do trabalho, não só nos países do chamado Terceiro Mundo (na África
ou América Latina, na Ásia), mas também na Europa ou América Setentrional, nos
Estados Unidos, como no Canadá, temos os sintomas de informalização muito
articuladamente. Então, esse capitalismo também conhece guerras sobre recursos
naturais, sobre energias fósseis; conhece grandes conflitos nos mercados mundiais e
subdesenvolvimento, uma crescente contraditoriedade entre riqueza de um lado e
pobreza do outro lado. Já miséria, indigência em todo o mundo, não somente nos
países pobres. Esta contradição entre pobreza e riqueza não é só um fenômeno nos
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países menos desenvolvidos, mas sempre mais também nos países altamente
desenvolvidos, como na Europa e nos Estados Unidos. Então, esse capitalismo não é
um sistema que se pode imaginar como um sistema eterno, um sistema pacífico,
estando sim nos grandes conflitos sociais. E se lembra um pouco essas palavras que
o filósofo alemão Leibniz do Século XVII, dizendo que o mundo é o melhor possível.
Como é isto? Por que está assim? Porque o mundo foi criado por Deus e Deus não faz
erros. E por isso o mundo como existe, com todas as doenças, os conflitos, a
violência, etc., é o mundo melhor que poderia existir. Isso foi uma tese muito
conhecida nessa época, o Século XVII, até a crítica de Voltaire antes da Revolução
Francesa, quando ridicularizava essa posição leibniziana. Eu acho que também hoje
isso é necessário, ridicularizar uma posição que diz que o capitalismo é o melhor
sistema existente, que chegamos ao fim da história, alternativas não são possíveis.
Nós temos que pensar em alternativas.
Então, isso foi a causa do livro e como o argumento se desenvolve. No livro há
também outras idéias, mas para uma palestra temos de cortá-las. Nesta palestra só
vou abordar rapidamente as causas por que o capitalismo é tão dinâmico e tem tanto
êxito e sucesso histórico em seu desenvolvimento. Mas, o sistema tem também
desvantagens, e essas desvantagens são desvantagens ecológicas, que vou abordar
rapidamente, mais outras desvantagens. Funcionamento dos mercados financeiros é
muito importante para compreender os conflitos dentro do sistema capitalista, não vou
abordar. Se vocês quiserem, nós podemos discutir no debate sobre isso. E também as
conseqüências do desenvolvimento capitalista para o mercado de trabalho, posso
refletir de forma bastante elaborada. Vocês vêm que essas transparências (exibe-as)
são mais ou menos em espanhol, porque dei esta palestra também em Buenos Aires,
em espanhol, e não consegui traduzir tudo em português. Mas eu acho que todos
vocês entendem, pelo menos o espanhol.
Então, a primeira parte da palestra é por que o capitalismo é tão dinâmico? Eu
diria que isso é devido a uma congruência, uma compatibilidade entre o capitalismo,
uma forma social, e o fossilismo – isso significa energias fósseis –, mais uma
tecnologia adaptada para transformar essas energias fósseis em energias de trabalho
para produzir os valores de uso, os produtos que são a base do bem-estar das nações
sobre a qual Adam Smith, no fim do Século XVIII, falou. Isso é uma grande
transformação. Ao fim do Século XVIII, o que aconteceu, sobretudo na Europa, depois
das outras grandes transformações do Século XIV, quando o capitalismo, nas
repúblicas urbanas italianas nasceu e alguns como André Gunder Frank, bem
conhecido aqui no Brasil, disse que já teve capitalismo no segundo milênio antes de
Cristo. Significa que há quatro mil anos atrás teve também já capitalismo na Ásia. Por
isso o seu famoso e importante livro, mais ou menos o último grande livro dele antes
do seu falecimento tem o título Ex Oriente. O progresso social como o tecnológico vem
do Oriente, da Ásia, não da Europa. Isso é um discurso, um raciocínio contra o
eurocentrismo. Mas se poderia dizer que o capitalismo surgiu, emergiu no Século XIV
na Europa, na Itália e depois as transformações do sistema mundial do capitalismo, as
grandes descobertas com Colombo no Novo Mundo, aqui na América, nas duas
Américas. Isso foi uma grande transformação histórica, mas outra transformação
histórica no desenvolvimento do capitalismo aconteceu ao fim do Século XVIII, quando
se começou a usar as energias fósseis para a produção de mercadorias, de produtos
produzidos pelos novos sistemas industriais, novas tecnologias, etc., etc. Isso foi uma
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revolução. E por isso se fala justamente da Revolução Industrial. Isso é um dos
ingredientes dessa congruência.
Outro é o cambiamento, a transformação do dinheiro, que existe desde 5, 6, 7,
10 mil anos em formas rudimentares, a transformação do dinheiro em capital. Isso
significa a produção da mais-valia que o dinheiro requer através da reorganização do
processo de produção devido às energias fósseis e as novas tecnologias. A forma
social do capitalismo cresceu, emergiu, e com ela também a contradição entre
trabalho e capital. Nós conhecemos bem a história da classe trabalhista desde essa
época na Inglaterra, como na Europa em geral e depois também noutras partes do
mundo. E o terceiro ingrediente dessa congruência é a racionalidade européia de
domínio do mundo, uma palavra do sociólogo Max Weber, que muito bem mostra que
é necessária uma determinada racionalidade. Um pensamento é necessário para a
criação das novas tecnologias com as quais se pode dominar o mundo, a natureza,
etc., etc. E depois se poderia também citar o grande historiador Karl Polanyi, quem
falou sobre o re-embedding do mercado da sociedade, depois disembedding, uma
força fora da sociedade que exerce falsas pressões sobre as sociedades que agora,
hoje em dia, são muito conhecidas quando nós falamos sobre a competição global e
as necessidades, as pressões sobre a competitividade nacional, local, regional para
encontrar as necessidades, as pressões globais. Essa congruência é responsável por
uma única dinâmica do capitalismo em comparação com todas as outras formas de
sociedade na história humana. Isso é uma dramatização, mas uma dramatização
justificada.
O capitalismo é o sistema mais dinâmico do mundo. Por quê? Porque é
independente dos recursos, é independente do espaço e independente do tempo, por
acelerar todos os processos e é um veículo de expansão em todos os espaços
mundiais, não somente expansão territorial em todos os continentes, mas também
expansão nas profundidades dos oceanos, dos mares; expansão no mundo dos
genes, um nano mundo que também está valorizado pelo capital. Isso é uma grande
vantagem do capitalismo. E isso significa também um cambiamento, uma mudança,
uma transformação da relação do homem com a natureza. Essa palavra de Karl Marx
em alemão (fala em alemão), relação social do homem com a natureza. Isso significa
que a ecologia, desde a Revolução Industrial, é incluída no capitalismo. Não é uma
coisa externa ao capitalismo. É incluída, é parte do desenvolvimento capitalista, como
o desenvolvimento dos conflitos entre o trabalho e o capital.
Então, as conseqüências dessa dinâmica capitalista se podem ver muito
claramente nesse diagrama que mostra os dados compilados por uma estatístico, (?),
patrocinado pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico. (Eu sempre conheço as abreviações no inglês, e depois eu tenho
dificuldades em traduzir para o português). Então, eles fizeram um estudo que é citado
no título da tabela O Milênio depois do Ano 2000, no qual se mostra o
desenvolvimento do PIB - Produto Interno Bruto per capita desde os tempos de Jesus
Cristo. Naturalmente esta estatística aqui é uma loucura. É um pouco louca, mas é
plausível o que ele elaborou. É plausível. A plausibilidade é muito clara nesse
diagrama. Até o fim do Século XVIII não tem crescimento no mundo. Um
desenvolvimento de 0 a 0,2% é o crescimento por ano, o desenvolvimento por ano do
PIB per capita. Mas começando com o fim do Século XVIII e início do Século XIX, a
taxa de crescimento foi mais de 2% em todos os países no mundo inteiro. E 2% ao
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ano. Isso significa que tem uma duplicação do PIB per capita em 35 anos, mais ou
menos. E 35 anos é o período de uma geração. Significa que a cada geração, desde o
fim do Século XVIII, a riqueza dela dobra em comparação com a geração anterior.
Nunca aconteceu alguma coisa assim na história humana. É incrível.
Mas se pôde ver também uma outra coisa, que é muito importante: sem
crescimento, teve igualdade no mundo. O PIB per capita foi mais ou menos o mesmo
na África, América Latina, Europa, etc. Mas essa explosão capitalista tem
desigualdades no mundo. Na África, por exemplo, em média, o PIB per capita é só um
décimo do PIB, ou menos de um décimo do PIB nos Estados europeus ou nos
Estados Unidos. Isso é uma novidade na história humana, devido a esse
desenvolvimento capitalista. Então, tem uma outra conseqüência já mencionada: o
crescimento no tempo significa aceleração; crescimento no espaço significa expansão;
e ambos, os dois aspectos são responsáveis para a criação de uma cadeia global de
valorização e de valores. Isso é bem conhecido na sociologia de trabalho, mas sem
essas energias fósseis juntamente com a forma capitalista, novas tecnologias, isso
não aconteceria. Mas, as cadeias de trabalho, as cadeias de produção de valor e
riqueza têm um início e tem um fim. O início tem os inputs, as fontes dos recursos
naturais, matérias-primas como energia fóssil, e ao fim tem as emissões; emissões em
termos líquidos, de gás carbônico, por exemplo, e também as emissões, o lixo que nós
encontramos nas praias, em todo o mundo. Então, essas cadeias são abertas e
sempre caminham na natureza. Por isso também mais uma vez bem claro que
analisar como, às vezes, os economistas e os sociólogos o fazem, cadeias de
valorização, sem ter em conta que tem a natureza ao fim de todos esses processos é
uma coisa que não dá, porque nós temos de ter em conta a natureza.
Bem, a terceira conseqüência dessa expansão é muito rapidamente
mencionada, é a expansão dos circuitos econômicos. Significa também a inclusão de
todas as formas do capital nesse circuito: o capital produtivo, como capital mercadoria,
como capital financeiro. Quando nós falamos sobre expansão capitalista, não se pode
restringir esse entendimento à dimensão espacial, geográfica, mas se tem de ter em
conta também as dimensões do capital. E uma das dimensões é a existência do
capital em forma financeira. E os mercados financeiros hoje em dia são os mais
globalizados mercados, os mais rápidos mercados, os mais fortes mercados, que
exercem uma pressão enorme em cima de todas as sociedades através... A pressão
financeira, através de altos juros, como aqui no Brasil, onde tem juros reais de 10% e
crescimento real de 2% ou menos. Isso não pode funcionar para sempre. É
impossível. Impossível. Temos um desenvolvimento em outros países, outras partes
do mundo muito similar e por isso se fala sobre financeirização do capitalismo
moderno como sobre um capitalismo que se transforma num Charolais, capitalismo
que funciona diferentemente do capitalismo produtivo. E a pressão se vê muito bem
dos mercados financeiros em cima dos mercados de mercadorias e depois sobre os
mercados de trabalho. E os mercados de trabalho se poderia dizer que são os últimos
nesta cadeia de hierarquia de mercados. E por isso eles experimentam as pressões
financeiras demais.
Mas, essa vantagem, essa dinâmica capitalista, que se pode bem analisar, tem
também desvantagens. Desvantagens, porque a relação social, a natureza mudou
completamente. O sistema capitalista baseado em cima das energias fósseis
transforma o sistema energético de um sistema aberto à radiação solar em um sistema
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fechado, isolado, porque as energias fósseis vêm do Planeta Terra mesmo, dos solos
do Planeta Terra. E o que acontece com as emissões? A mesma coisa. As emissões
da combustão e das energias fósseis permanecem na atmosfera, como o gás
carbônico, com os efeitos conhecidos, Efeito Estufa e todas as conseqüências do
Efeito Estufa, que hoje em dia já é uma fonte de preocupações em todas os órgãos
internacionais, como muitos governos e no mundo dos movimentos sociais e ONGs
também. Então, essas são desvantagens.
Em primeiro lugar, abordamos muito rapidamente o fim da oferta de energias
fósseis, porque elas são limitadas no Planeta Terra. A oferta do petróleo, peak oil, que
se chama, o clímax da expansão do petróleo. Isso é uma curva idealizada,
desenvolvida por um geólogo nos anos 50, Marion King Hubbert. Por isso essa curva
se chama Hubbert Curve ou Peak Oil. Tem um clímax da extração. Até o clímax da
extração de petróleo pode aumentar, mas depois o campo de petróleo é esgotado e a
produção ou a expansão cai até o ponto zero, então não tem mais. Tem muitos
campos de petróleo hoje em dia que estão secos, porque já chegaram ao fim dessa
curva. Ele desenvolvia essa curva para fazer prognósticos sobre a produção de
petróleo nos Estados Unidos. E nos anos 50, o Hubbert disse que no início dos anos
70 os Estados Unidos vão chegar ao peak oil e depois a produção é menos de que os
Estados Unidos vão consumir. Essa é a produção do petróleo nos Estados Unidos. E
se vê essa curva ser realizada...
(Intervalo sem gravação por motivo de troca de fita)
... Estados Unidos. E o mesmo pode acontecer no mundo inteiro. Isto é uma
avaliação do que se chama ASPO – Associação para o Estudo do Pico Petrolífero
(Association for the Study of Peak Oil). É uma aliança de sociólogos, e você acha
facilmente as publicações dela na Internet. ASPO, que se chama. E onde se
encontram também figuras como esta que estou mostrando aqui. Então, também no
mundo isso acontece, mas é muito difícil dizer onde nós estamos. Ficamos já no pico
ou antes do pico ou talvez depois do pico, mas é claro que o fim das energias fósseis
é muito perto e não muito longe. Isso é uma outra figura mostrando a mesma coisa.
Até agora temos consumido mais ou menos um bilhão de barris de petróleo. E tem
avaliações sobre as reservas ainda existentes. E o ASPO diz que são mais ou menos
750 bilhões de barris e BP Petroleum. Ela se chama hoje em dia Beyond Petroleum BP, avaliar 1.150 mais ou menos barris. Isso é uma avaliação que significa... Vamos
ver... Significa que a Chevron, no ano passado, em julho de 2005, publicou uma
propaganda no Financial Times, de duas páginas, com um muito breve texto
informando que foram necessários somente 125 anos para o consumo dos primeiros
mil bilhões de barris de petróleo e que nós vamos consumir os próximos mil bilhões de
barris em somente 30 anos. Não 125, mas 30 anos. Essa é a tragédia. Esse é o
problema que as grandes companhias de petróleo naturalmente conhecem. Eu
poderia falar sobre o outro lado depois de mostrar que tem limites da oferta de
petróleo e a oferta do futuro em declínio, mas a demanda cresce ainda.
Por que cresce? Porque cada nação que compete no mercado mundial tende a
aumentar a sua competitividade. Isso só é possível através de novas tecnologias com
energia fóssil. Também os mercados financeiros e a sua dinâmica exercem essas
pressões para aumentar a taxa de crescimento. Isso também significa mais consumo
que energia fóssil. Pois, têm novas economias como a chinesa, a da Índia, também
aqui na América Latina, que consomem mais energias fósseis por causa da dinâmica
dessas novas melting marketing. E uma quarta causa é também o padrão de
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consumo, o modelo americano de vida, que é muito intensivo, condicionante do
consumo de energias fósseis. Com isso a demanda cresce. Pode-se ver muito
claramente que a demanda cresce enquanto que a oferta diminui. Vê-se muito bem
que a China é uma das nações mais responsáveis pelo aumento da demanda. Bem,
se poderia, então, dizer que tem um gap (buraco) entre as descobertas novas de
petróleo e o consumo do petróleo que se expande sempre mais, a ampliação dessa
diferença. Então, isso mais uma vez mostra a mesma coisa. Quais são as
conseqüências para a sociedade no mundo? Poder-se-ia usar um esquema muito
simples aqui para mostrar o que acontece. Quando a oferta diminui e a demanda
cresce, bem claro, o preço aumenta. Essa é a experiência dos últimos meses, e eu
diria, não eu sozinho, mas a maioria dos analistas diz o mesmo, que esse aumento do
preço do petróleo é um aumento estrutural e não só conjuntural. Pode ser que
tenhamos períodos de diminuição, mas o nível do preço de petróleo será bastante alto
em comparação com o nível do preço de petróleo do passado.
O que acontece nesse caso? Em primeiro lugar, alta rentabilidade das grandes
companhias de petróleo. E o lucro delas é escandalosamente alto nos últimos dois
anos. Mas para os países produtores de petróleo, as receitas crescem também e por
isso eles têm a necessidade de reciclar os chamados petrodólares ou petroeuros
também. E a reciclagem pode resultar numa nova crise da dívida externa, como nos
anos 80, quando os países pagam a sua conta de petróleo com novos créditos. E os
novos créditos tendem a servir, e serviço da dívida externa não é possível. Então,
ocorrre uma nova crise da dívida externa. Isso é possível. Não é seguro, mas isso é
possível em alguns casos. Ou não se importa mais o petróleo. Isso é o caso, por
exemplo, do Zimbábue, de Moçambique, onde não tem petróleo para os ônibus, os
caminhões, etc. Isso é muito perigoso e danoso para a economia. Então, tem outras
formas de reciclagem pelas quais os países exportadores compram mercadorias,
produtos de luxo dos países industrializados na Europa ou desenvolvem a sua infraestrutura tanto em formas produtivas como em formas loucas. Como nós conhecemos
todos os exemplos em todas as outras partes do mundo. Eu li num estudo de uma
instituição internacional que o Kwait quer – eu acho que eles não realizam, não é
seguro, acho que é impossível - construir um edifício de 1001 andares. Contam-se
histórias. Mas 1001 andares, isso significaria um edifício de mais de 3 mil metros! Isso
é uma loucura. Eu acho impossível tecnicamente. Mas que a gente tenha idéias dessa
forma é uma coisa incrível.
Então, tem muitas outras conseqüências. Poder-se-ia falar sobre isso por muito
tempo. Mas, vamos ver alguns números só. Já em 2002, antes da grande crise do
preço de petróleo, alguns países, como o Paquistão, tinham de pagar 30% das
receitas das exportações só para importação do petróleo. E a Índia, 32, 4%. Os
Estados Unidos, quase 18%. O Brasil, 12% (não é muito). Mas o que acontece quando
o preço do petróleo não é mais 30 dólares, e sim 70 dólares por barril? Nesse caso, os
Estados Unidos, por exemplo, têm de pagar 36,2% das receitas de exportação para a
importação de petróleo. Os Estados Unidos estão numa situação muito favorável,
porque eles pagam em dólares, que eles mesmos podem imprimir. Todos os outros
países têm de ganhar os dólares com os quais se paga a conta de petróleo. Mas, a
situação para países importadores é mais clara que antes.
Bem, tem também os conflitos que emergem por causa do Efeito Estufa. E
também com o Efeito Estufa há o perigo de novos conflitos. Então, essa é uma curva
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que vocês todos vocês conhecem. O aumento da temperatura média em todo o
mundo nos últimos 150 anos mais ou menos. Sabe-se também que esse aumento das
emissões é devido aos chamados survive emissions, emissões para a sobrevivência.
Completamente natural. Não tem nenhum ser vivo que não produza emissões. Mas
tem também emissões por deficiências técnicas em muitos países, não só nos países
menos desenvolvidos, mas também nos estados altamente desenvolvidos, como nos
Estados Unidos ou na Austrália, os maiores poluidores per capita no mundo por causa
da deficiência técnica, mas também por causa do estilo de vida, o american life style,
que é muito importante. Para combater as emissões e o Efeito Estufa naturalmente é
necessário ter em conta os problemas técnicos, como o padrão de vida, e este último
é muito difícil trocar. Então, se poderia apresentar dados e mais dados, mas eu acho
que isso não é necessário. Eu deixo o arquivo aqui para que aqueles que estiverem
interessados nesses dados possam imprimi-lo.
Por isso tem-se que pensar sobre alternativas. Porque também ao lado das
emissões é muito claro que têm um potencial de conflitos sociais, políticos. O
Pentágono dos Estados Unidos, há dois anos, atrás desenvolveu um cenário de novos
conflitos com os vizinhos, não no Sul com os mexicanos, mas no Norte, no Canadá,
como também na Europa Setentrional. Porque o Efeito Estufa pode ter uma
conseqüência muito grave tanto para as regiões da América do Norte como na
Europa, porque a Corrente do Golfo que aquece esses territórios do Atlântico Norte
talvez mude seu rumo. Isso significaria paradoxalmente que, por causa do Efeito
Estufa, as temperaturas na Europa, como também no Canadá, no norte dos Estados
Unidos ficariam mais baixas. Isso significaria talvez o fim da agricultura e migrações
para o sul. E para proteger os Estados Unidos contra os novos migrantes, não do sul,
do Caribe e da América do Sul, mas da Europa e da América do Norte, por meio da
mesma coisa que se faz agora na fronteira com o México, através de uma nova
fronteira, um novo muro e novas ações militares contra os novos migrantes. Então,
isso significa que a classe política se prepara para as conseqüências do Efeito Estufa.
Mas a mesma classe política nos Estados Unidos não faz nada para impedir o Efeito
Estufa. Não assina o Protocolo de Kyoto, mas se prepara para defender o seu
território, o homeland, como se chama. Então, isso é também muito conflitivo.
Alternativas ao capitalismo, porque, de um lado, temos visto que tem um fim da
parte dos inputs energéticos como nos outputs emissões energéticas. Gás carbônico,
sobretudo. Há limites e não é seguro que o capitalismo possa funcionar no mesmo
tempo de uma congruência favorável entre energia e racionalidade técnica, forma
social como foi antes desde o fim do Século XVIII. Não se podem desenvolver dúvidas
sobre isso. E por isso eu falo sobre o fim do capitalismo como o conhecemos. Mas,
temos de desenvolver também alternativas dentro do capitalismo, porque uma nova
forma social não vem de si própria, não vem do desconhecido, mas vai ser realizada
por ações dos movimentos, classes sociais em todo o mundo. Isso também já
acontece. Em todo o mundo há movimentos, sindicatos, movimentos sociais,
movimentos socioterritoriais, como chamam alguns analistas aqui na América Latina,
porque tentam reapropriar espaços perdidos às grandes companhias multinacionais.
Reapropriar os recursos naturais, como na Bolívia; reapropriar fábricas que os donos
deixaram, como na crise Argentina depois de 2001; e a reapropriação das fábricas
recuperadas. Ou a reapropriação das terras pelo movimento sem-terra aqui no Brasil.
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Mas movimentos do mesmo tipo, com as particularidades locais e nacionais,
existem em todo o mundo. Isso é um movimento na direção de uma, digamos,
economia solidária, que está nascendo como uma alternativa. Uma alternativa muito
fraca, não devemos ter ilusões sobre esses movimentos, mas é bem claro que a frase
de Margaret Thatcher “There is no alternative”, é uma frase não justificada. Há
alternativas e há sempre movimentos que estão em busca de alternativas junto a
outros movimentos, também instituições às vezes apoiadas por Estados nacionais, por
governos para a introdução de energias renováveis. Energias renováveis têm outro
caráter que energias fósseis e provavelmente não funcionam como sistema social, não
somente como sistema técnico, sem reorganizar o sistema de produção em termos de
solidariedade. Então, tem essas alternativas e essas necessidades ao fim do
capitalismo como nós o conhecemos. E o que é o futuro? Não é imaginável, só tem de
realizá-lo. Mas a realização é uma tarefa não só de intelectuais que falam sobre isso,
mais de movimentos sociais, não somente aqui no Brasil ou na Alemanha, mas em
todo o mundo. E as diferenças, as diversidades são tão grandes que não é possível
falar sobre isso numa palestra só. Mas eu sou muito otimista que o fim do capitalismo
não é o fim da história, mas um futuro que é aberto, um futuro que nós esperamos que
seja melhor que o futuro do passado, com todos os conflitos políticos, militares e
também conflitos sociais não produtivos. Então, eu agradeço a atenção de vocês. E
peço mais uma vez desculpas pelos erros, pela minha incapacidade de falar o seu
bonito idioma tão bem como desejaria. Muito obrigado. (Palmas)
Joanildo Burity (FUNDAJ), coordenador da mesa:
Nós agradecemos a palavra do professor Altvater. Nós gostaríamos de
convidá-lo, então, juntamente com Galvan e Clóvis para comporem a mesa aqui para
que nós possamos passar ao segundo momento do nosso encontro, que seriam os
comentários dos debatedores.
Bom, então, nós vamos agora passar a palavra ao nosso colega Cesare
Galvan, que é do Centro Josué de Castro, que será o nosso primeiro debatedor. Nós
havíamos mais ou menos combinado que cada um dos debatedores teria quinze
minutos para os seus comentários. Se houver necessidade de um pouco mais, nós
poderemos acomodar isso. E, então, após a apresentação dos dois debatedores, nós
voltaríamos a palavra ao professor Altvater para que ele pudesse fazer uma primeira
reação e, em seguida, abriríamos para as perguntas do público.
O SR. CESARE GALVAN (Centro de Estudos Josué de Castro):
Eu acho que com essas palavras se introduz exatamente aquilo que estamos
querendo fazer: tentar debater aquilo que me parece indebatível. No começo da
exposição, o professor Altvater nos colocou diante da perspectiva para o futuro. E
falou, acenou ao futuro aberto. No material que vem depois, está uma série de
elementos que apresentam um futuro fechado. E eu queria qualificar o esforço do
Altvater, que é um esforço que já tive a sorte de conhecer desde alguns anos atrás
como de uma grande obstinação exatamente em abrir esse futuro fechado. O
fechamento desse futuro está acenado, apenas acenado, naquele título: O Fim do
Capitalismo. E a abertura está no subtítulo: Como Nós o Conhecemos. E na
explicação, a abertura se torna uma dupla abertura, no sentido de que abre em duas
direções, possibilidades eventuais de que o capitalismo como nós o conhecemos gere
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um outro capitalismo ou possibilidades de superar o capitalismo para entrar já num
outro sistema social. Realmente os elementos trazidos... E não são todos. Logo no
começo ele avisou que a lista seria incompleta. Mas os elementos trazidos são mais
do que suficientes para chegar a uma tese bem fechada. Nós estamos perto do fim.
Perto do fim em que sentido? E aí eu quero introduzir uma palavra que felizmente o
professor Altvater não pronunciou, é a palavra BAU. É a letra, a sigla usada no
Relatório Storm que saiu poucos dias atrás. BAU quer dizer, puramente na língua
imperial agora, Business As Usual. Ou seja, nós temos que fazer um exercício como
aquela comissão fez e como uma parte, felizmente não toda, a apresentação do
professor Altvater também fez. Se as coisas continuarem a acontecer como de
costume... As conseqüências estão lá. São tais e tais e tais. E realmente são
espantosas, simplesmente. O método... Melhor que o método, o procedimento prático
de exposição tem um nervo que me parece muito oportuno: primeiro, expor uma
congruência e depois passar a – aí vou inventar um neologismo – para a
descongruência. A congruência daqueles quatro elementos: energia fóssil, o dinheiro
transformado em capital gerando a sociedade, não a sociedade de classes, mas esta
sociedade dessas classes que compõe o capitalismo; a racionalidade típica de padrão
weberiano e a grande transformação de Polanyi, o desabrochar do mercado,
sobretudo, a partir do Século XIX, segundo Polanyi. Esta congruência foi superada.
Um dos pontos mais sublinhados na exposição foi o do fossilismo ou da energia fóssil.
(...)
Na palavra dele, a entopia. Vamos dizer um pouco mais genericamente, a ecologia
dentro do processo da economia foi em 1972, de Georgescu-Roegen, citado aqui. Até
lá, apesar de já desde os clássicos e, sobretudo, Marx chamarem atenção aos
problemas no relacionamento do homem com a natureza, não tinha sido
sistematizado. O primeiro que sistematizou foi um artigo – acho que foi em 1972 – e
pouco depois o livro de Georgescu-Roegen. De lá para cá, temos que reconhecer que
existe produção neste campo. Um dos que melhor produz neste campo, realmente é o
próprio professor Altvater. Então, eu diria que o esforço dele se concentra em abrir um
campo fechado. Existem forças que ainda são as forças dominantes na nossa
sociedade atual e que levam para essa catástrofe final, que é aquilo que – se o
capitalismo for realmente o sistema mundial e se o capitalismo continuar a ser este
capitalismo –, então aquilo vai nos levar ao fim do mundo, como conseqüência. Dado
muito simples desse relatório externo se prevê que por volta de 2050 não haverá mais
pesca. Um pequeno exemplo. Um outro dado: aumento da temperatura da terra desde
a última glaciação: cinco graus. Cinco graus! E hoje já se debate qual será o aumento
próximo futuro: de dois, três, quatro ou cinco, e ulteriores. Realmente vamos, em nível
de aquecimento global, com todas as conseqüências de proporções tão grandes e
iminentes. Passou-se de perspectivas de milênios para perspectiva de séculos, e
agora já estamos em perspectiva de décadas. Que daqui a pouco não nos falem em
anos ou em semanas. Este é praticamente o problema que estamos enfrentando,
quando nós tratamos dessa descongruência entre o conjunto atual de fontes de
energia e o capitalismo, como o conhecemos. Esse padrão atual de capitalismo, que
naturalmente não é aquele da China anterior a Jesus Cristo, evidentemente. É um
outro capitalismo. E daí que me parece que o ponto central está em dois pontos
acenados quase na conclusão da apresentação. Eu resumo muito, naturalmente,
como espero ter que fazer, alternativas ao capitalismo e alternativas dentro do
capitalismo, ou seja, colocar-se claramente esses dois problemas. E aí queria
comentar – vejam bem – como nós, efeito talvez quem sabe da globalização,
perdemos quase que por completo, certamente mais de 99%, daquela participação no
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debate sobre alternativas ao capitalismo. Podemos pensar que isso se deveu ao fato
de que uma alternativa se apresentou como única, que era o socialismo realmente
existente e essa revelou toda sua fraqueza na queda da União Soviética e nos
desenvolvimentos sucessivos. Temos que recuperar o problema da alternativa ao
capitalismo. E quanto à alternativa dentro do capitalismo, quero fazer duas anotações.
Uma das sugestões falava numa série de reapropriações. E aí isso nos leva à origem
do capitalismo. O capitalismo é um sistema de igualdade, de transferências feitas por
uma igualdade fabricada por quê? Pela moeda. Pelo sistema em que a moeda
domina. Mas, no entanto, na sua origem está a desapropriação. Não existe um
sistema social tão “igualitário” como o capitalismo. Nunca existiu. Porque aí a
igualdade é universal. O valor de uma coisa é igual ao valor de uma outra. Por
definição. Coisa que nunca se pensou sistematicamente em outros sistemas sociais
anteriores. No entanto, como é que se realizou esse sistema tão igualitário que
sabemos que provoca muitas desigualdades – algumas vimos aqui? Como? Gerou-se
por um sistema amplíssimo de desapropriações. Só para falar da casa nossa, que é o
Brasil, não houve esse sistema enquanto não houve séculos de colonização. Esse é
um lado. Ou seja, quando nós recuperarmos, que se poderia fazer agora, ou seja, o
debate sobre o possível, nós temos que nos reapropriar de coisa que foi
desapropriada anteriormente. E depois? O outro lado é que uma série de coisas que
se acena hoje, desde a economia solidária até os vários movimentos sociais, foram
assim batizados aqui de relativamente fracos. E são fracos mesmo. São fracos
mesmo. Em relação com o tamanho do problema, trata-se de pouca coisa. De um lado
está o elefante e do outro lado está a formiga. A formiga só pode ganhar do elefante
se forem milhões. Será que nós vamos ter esses milhões de economias solidárias, de
economias alternativas, de fontes alternativas de energia? Pensem nos milhões de
milhões de painéis solares necessários para substituir simplesmente o sistema elétrico
do Brasil atual. Como ele funciona. Que por sinal, não é dos piores do mundo, porque
grande parte é hidroelétrica. Portanto, não é tão gravemente feridor ou inimigo de um
equilíbrio ecológico. Não tanto quanto os sistemas mais concentrados na
termoelétrica. Por aqui eu acenei algum dos pontos que me parecem se poderiam
debater. E muito obrigado. (Palmas).
Joanildo Burity, coordenador da mesa: Obrigado, Galvan. Passo a palavra agora ao
Clóvis Cavalcanti.
O SR. CLÓVIS CAVALCANTI (INPSO/FUNDAJ) - Muito obrigado. Inicialmente eu
queria agradecer ao convite que o Hugo me fez para vir debater com o professor
Altvater, cujo trabalho também já conheço. Inclusive já o vi falando até no Chile, em
1991. Foi a primeira vez que eu o vi. E simpatizo muito com a sua abordagem. Muito
parecida com a minha também, que há tempos eu venho tentando introduzir meu
trabalho. Inclusive graças em grande parte à oportunidade que eu tive de conviver em
alguns momentos com Nicholas Georgescu-Roegen, que realmente causa um impacto
muito sério em quem estuda o que ele escreveu. E isso, de certa forma, também se
projeta no trabalho do professor Altvater nos seus livros publicados em português.
Alguns artigos que eu li também dele em inglês. Uma coisa que me parece
fundamental, uma tentativa de comentar o que ele disse, é considerar três objetivos
segundo o filósofo britânico Alfred North Whitehead acerca de todos os seres vivos,
acerca das pessoas. Toda pessoa tem três finalidades. A primeira é viver. A segunda
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é viver bem. E a terceira é viver melhor. Isso Whitehead diz no livro dele A Função da
Razão. É interessante, porque viver é uma tarefa que nós cumprimos se nós
obedecemos às leis da natureza. Se nós seguirmos a ecologia. Viver é seguir a
ecologia. Viver bem é aplicar à vida as regras da economia, no sentido de uma
alocação eficiente de recursos. E isso instintivamente todos os seres vivos fazem.
Viver melhor é uma iniciativa deliberada que nós tomamos para enriquecer a
existência a partir daquilo que nós temos à nossa disposição. Aí entra, então, uma
característica da... As percepções com que nós vemos a realidade; as nossas visões
de mundo. O que prevalece no mundo atual, no capitalismo, que foi exposto na sua
nudez pelo professor Altvater, é uma visão pré-analítica, como diria Schumpeter, que
considera a economia fora da natureza. Na visão da teoria econômica dos
economistas a natureza é, quando muito, um apêndice, quando muito um
penduricalho, um berloque da economia. Porque normalmente nem sequer com essa
perspectiva tão diminuída, tão rebaixada, a natureza aparece. Numa perspectiva,
digamos, ecológica, como aqui ele propõe, a natureza é o grande todo e a economia
fica situada dentro desse grande todo. Submetida a uma hierarquia, a hierarquia da
natureza. Então, é a natureza que manda na economia e não o contrário. Mas nós
recebemos um mandamento de que o homem deve subjugar a natureza. De certa
forma um tanto simbolicamente, mas isso foi traduzido em mandamento efetivo pelo
cientificismo, pelo racionalismo, pela visão cartesiana. A ponto de a natureza ser
tratada pelos economistas com uma lógica que não é necessariamente a lógica do
funcionamento do mundo biofísico, como se a economia funcionasse de uma forma e
o mundo biofísico de outra. E eu tenho aqui um trabalho interessante de uma
economista italiana, que entrevistou inclusive ao professor Altvater, Carla Ravaioli, que
se chama Economistas e o Meio Ambiente. Esse livro é escrito por essa italiana a
partir de entrevistas que ela fez com 28 economistas. Dos quais sete vencedores do
Premio Nobel. O professor Altvater está na lista dos 28. E numa certa altura,
conversando com um expoente do pensamento econômico mundial, o deus do
neoliberalismo, Milton Friedman, a conversa segue um curso que é bem sugestivo. A
conversa de Carla Ravaioli com Milton Friedman, professor da Universidade de
Chicago, agora aposentado e morando na Califórnia. Foi conhecido como professor de
Chicago, parte da escola de Chicago. Então, diz ela: "Mas nós sabemos que é preciso
milhões de anos para criar um poço de petróleo. E nós não podemos reproduzir esse
processo. Depender do petróleo significa viver por conta do capital e não dos juros,
que seria o rumo sensato. O senhor não concorda?”. Aí diz Friedman: "Se nós
fôssemos viver do capital, o preço de mercado subiria. Do petróleo, claro. O preço de
recursos verdadeiramente limitados crescerá ao longo do tempo. O preço do petróleo
não tem subido. Então, nós não estamos vivendo por conta do capital. Quando isso
não for mais verdade, o sistema de preço sinalizará e o preço do petróleo irá subir,
como sempre acontece com recurso que é de fato limitado.” Diz aí Carla Ravaioli:
"Claro, a descoberta de novos poços de petróleo tem dado, tem proporcionado a
ilusão de que o petróleo é ilimitado”. “Por que uma ilusão?”, pergunta Friedman.
"Porque nós sabemos que ele é um recurso limitado”, afirma Ravaioli. Então, rebate
Friedman: “Desculpe-me, o petróleo não é um recurso limitado do ponto de vista
econômico. Você tem que separar o ponto de vista econômico do ponto de vista físico.
Muitos dos erros que as pessoas cometem vêm daí. Como as projeções estúpidas do
Clube de Roma. Eles usaram um modelo, uma abordagem puramente física, sem
levar em conta os preços.” Bom, essa é a visão pré-analítica dos economistas, que diz
que todos os problemas físicos, biológicos, ecológicos, vão ser resolvidos através dos
preços de mercado. Portanto, não surpreende que os rumos do capitalismo tão
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influenciados pela teoria econômica, pela ciência econômica sejam esses que
conduzem cada vez mais a uma situação de colapso. Nós estamos marchando para
um colapso. Entretanto, quem é que se sensibiliza de fato concretamente em face
dessa ameaça real? Ninguém. Pegue o jornal diário. Veja os políticos falando na
televisão. Veja o noticiário jornalístico da televisão. Ninguém mostra qualquer sinal de
que está incomodado ou de que percebe ou de que reconhece que as coisas estão
caminhando nesse sentido que é claro do ponto de vista físico. O Presidente Lula em
2002 na sua campanha se valeu do slogan do “espetáculo do crescimento”. Que é a
mesma visão do Instituto Nacional de Altos Estudos – INAE, no Rio de Janeiro, que
realiza todo ano no mês de maio o fórum nacional. Esse fórum nacional é uma
discussão da elite econômica brasileira. Vai lá o Presidente da República, vão os
ministros, a área econômica, etc. Neste ano o tema do fórum foi autocrescimento.
Quer dizer, a mesma linha do Presidente da República. Autocrescimento, espetáculo
do crescimento. Precisamos crescer. Nós ouvimos todo dia isso. E a conseqüência é
que concretamente nós chegamos a uma situação como em Pernambuco de, diante
da impossibilidade física de que o mundo continue o rumo que está seguindo, se
proponha para desenvolvimento do estado a construção de uma refinaria de petróleo.
Isso é de uma estupidez inominável. Mas nenhuma pessoa se levanta para dizer:
“Espera aí, por que refinaria de petróleo?”. Não há uma única voz de qualquer
espectro, de qualquer ponto do espectro político que contradiga a necessidade, o
significado de uma refinaria de petróleo. Daqui a sete anos, quando essa refinaria de
petróleo estiver concluída – se estiver, que eu duvido muito que vá acontecer – o
preço do petróleo terá subido bem mais do que está hoje. O que é que nós podemos
prever para o mundo daqui a dez ou vinte anos? Nós não temos nenhuma condição,
nenhuma possibilidade de antever o que vai se manifestar nas próximas décadas. Nós
não temos, porque a evolução, a transformação dos parâmetros biofísicos atingiu um
ponto em que tudo é, como no caso da previsão climática, fora de qualquer
prognóstico. Nós estamos diante dessa situação. Comprimidos e pressionados pela
necessidade de buscar alternativas. Mas qual é a alternativa? A alternativa é a
revolução solar. Isso aí Georgescu-Roegen diz. E ele diz no livro dele, no artigo dele
de 1973, Energia e Mitos Econômicos, que é uma tautologia sem graça falar em
crescimento ilimitado num mundo finito. Não vou perder tempo com isso. Isso é tolice.
Não é para a inteligência. Não é para a pessoa que pensa. Não é para o animal
racional. Entretanto, o que prevalece é exatamente a visão de que isso sim é possível.
Não somente é possível como precisamos ter mais e mais crescimento. Crescimento
de 3% ao ano? Que é isso? É muito medíocre. É ridículo. Precisamos de cinco, se
possível, dez por cento ao ano, imitando a China. Todo mundo, sem exceção,
comunga desse princípio. Quando nós nos colocamos em face de comentários, de
análises como as que foram aqui apresentadas, tanto por Altvater quanto por Galvan,
a conclusão é oposta. Se nós formos ler Georgescu-Roegen, se nós pegarmos este
livro aqui de Carla Ravaioli e examinarmos as opiniões que são ditas de Friedman, do
lado puramente econômico, economicista, para Georgescu-Roegen, que também está
neste livro, Herman Daly, Altvater, então, nós vamos perceber a necessidade de
questionar essa instituição fundamental que é o mercado. Polanyi já dizia: “Nós
precisamos ter uma sociedade que comande o mercado. Não o contrário, uma
sociedade comandada pelo mercado”, que é o que acontece, porque a instituição
principal para fazer qualquer coisa, nós precisamos de um capital social. E a
instituição principal do nosso capital social é o mercado venerado. Ninguém pode
ofender o mercado. Ninguém pode incomodar. Temos que ver o que o mercado vai
dizer. Quer dizer, o mercado é a nossa baliza principal. Isso me faz lembrar um
13
comentário que uma vez, a respeito da Guerra do Vietnã, o capelão da Universidade
de Yale, nos Estados Unidos, onde eu estudava, disse: “Nós temos que fazer...”
Porque na época, como agora também com o Bush, se queria passar a idéia de que a
verdade era que a guerra se justificava porque estavam em jogo ali os valores da
democracia. Era preciso levar esses valores. E aí o capelão de Yale, Willian Slown
Coffee Jr., disse o seguinte: "Nós precisamos fazer da verdade nossa autoridade, não
de fazer de uma autoridade a nossa verdade”. É essa a percepção. Nós estamos
diante da denúncia de um domínio de uma preponderância do pensamento econômico
que faz com que Friedman separe a lógica econômica da lógica biofísica. Nós
podemos muito bem viver economicamente sem precisar do mundo biofísico. Agora,
como é que isso vai se aplicar, por exemplo, à água, ao ar? Está faltando ar aqui
dentro, mas o preço do ar vai subindo, subindo e com isso nós conseguimos equilibrar
a oferta e a procura, vai chegar um momento que todos aqui vão ficar sem poder
respirar. E aí a oferta e procura podem estar em equilíbrio, mas nós não. Nós estamos
afundando aqui. Caindo debaixo da mesa sem poder respirar. Todos se agarrando um
no outro, tentando salvar-se dessa forma. É essa de fato a provocação que eu acho
que o professor Altvater tentou fazer aqui. Eu finalizaria mencionando um trabalho
muito interessante de um professor suíço, Hans Binwanger. O livro dele é Money and
Magic (Dinheiro e Mágica), no qual ele aplicando o esquema do Fausto de Goethe,
mostra como os economistas conseguiram realizar o grande feito, não de transformar
chumbo em ouro, mas de transformar papel em ouro, porque o dinheiro que comando
tudo isso não vale absolutamente nada. Entretanto, ele é cultuado como algo que tem
valor intrínseco, algo que é merecedor da nossa adoração. E é isso que faz com que
haja um contraste, um conflito tão grande entre as tendências biofísicas da natureza e
as tendências da economia. O gráfico que foi mostrado aqui da situação do petróleo é
de uma clareza extraordinária. Entretanto, cada vez mais que o petróleo vai se
escasseando, o consumo se torna cada vez maior. Uma lógica estúpida. Uma lógica
que não tem como ser classificada, porque você consome cada vez mais de um
recurso que fica cada vez menos disponível. E aqui os gráficos que foram mostrados
claramente sobre isso. Bom, eu acho que o recado do professor Altvater seria melhor
que atingisse ao público que está completamente cego, bloqueado para entender
essas questões. Há um público ao qual se deve proporcionar algum tipo de
alfabetização ecológica, que é exatamente o que Capra, o físico Fritjof Capra propõe.
Alfabetização ecológica. A ponto de ter fundado na Califórnia o Instituto para a
Alfabetização Ecológica. Porque o problema todo é de analfabetismo ecológico
generalizado. Obrigado (Palmas).
O SR. MODERADOR DA MESA - Obrigado, Clóvis. Nós, então, passamos agora a
palavra de volta ao professor Altvater para que ele possa fazer uma primeira reação
aos comentários dos nossos debatedores.
O SR. ELMAR ALTVATER (Universidade Livre de Berlim) – Muito rapidamente,
algumas poucas observações. Eu gostei muito da palavra sobre a alfabetização
ecológica, porque foi o Pierre Bourdieu que falou sobre a alfabetização econômica,
que é necessária para os movimentos sociais nos tempos de globalização, porque a
globalização, em primeiro lugar é uma globalização econômica. E temos de
compreender o que acontece nos mercados, no sistema financeiro, nas pressões, nos
veículos que transformam o transporte, nas pressões financeiras em cima do mercado
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de trabalho, etc., etc. Mas temos que as acrescentar à alfabetização econômica a
alfabetização ecológica. Eu concordo completamente com isso.
Segunda observação, com respeito ao crescimento. Essas curvas que eu mostrei
sobre o crescimento das taxas de crescimento desde o fim do Século XVIII não se
traduziam diretamente num discurso de crescimento. Na economia política clássica,
nas obras que Adam Smith, de Malthus, de David Ricardo, de John Stuart Mill e outros
não há discurso de crescimento, há discurso de distribuição. Crescimento tem só uma
dimensão quantitativa, em vez da acumulação do capital, é sempre movimento dos
conflitos entre capital e trabalho. Então, é uma questão qualitativa, muito mais
importante. Buscando nas teorias econômicas desde quando se tem um discurso de
crescimento bem claro, começamos com a existência do sistema alternativo no Século
XX, com o surgimento da União Soviética. A União Soviética, nas famosas palavras de
Lênin, deve ser melhor que os países capitalistas... E por isso tem de crescer a uma
taxa mais alta que o capitalismo. Não sei como se traduz em português, talvez o
Galvan possa produzir: (expressão em alemão). É difícil de traduzir, mas é uma
fórmula que... (alguém traduz na platéia) Exatamente, ultrapassar. Alcançar e
ultrapassar. Ultrapassar em termos de taxas de crescimento. Isso foi a parole du jour
(palavra do dia), a palavra de Lênin e depois de Stalin com respeito ao sistema
capitalista. E o sistema capitalista respondeu essa provocação com a mesma palavra:
“Nós temos de ser mais rápido que o sistema socialista”. Começou com as teorias de
Keynes, após a grande crise de 29 e depois. Nas décadas após a Segunda Guerra
Mundial, a taxa de crescimento foi a medida na qual se afere o sucesso dos sistemas,
se medem os sucessos dos governos. Hoje em dia, a taxa de crescimento é um dos
critérios de good governess (bom governo), no entendimento do Banco Mundial, do
FMI, das Nações Unidas, etc. Por isso o crescimento é nada menos do que um feitiço.
Um feitiço nas sociedades de hoje. Mas é bem claro, como o Clóvis disse, que o
crescimento para sempre é impossível, é um non sense, uma loucura pensar que o
sistema do planeta Terra pode crescer para sempre. Isso é absolutamente impossível,
e por isso tem que não somente mudar, trocar, reformar a economia, o sistema
econômico, mas também o pensamento econômico. E por isso é tão importante
promover essa alfabetização ecológica... Econômica como ecológica.
Uma outra observação muito rápida. O discurso de Milton Friedman só é possível
porque os economistas neoclássicos, neoliberais traduzem todas as diferenças
existentes no mundo concreto numa palavra só. Isso é capital: capital natural, capital
humano, capital produtivo, capital de dinheiro. Tudo é capital. E por isso tudo pode se
substituir por outra coisa. É possível se substituir capital natural quando é esgotado
por capital humano. Isso é a linha... Não é só o pensamento dos economistas, é a
linha da International Energy Agency. O chief economist da IEA disse: “Ok, nós temos
de investir na exploração de petróleo. Investir capital. Depois temos de novo petróleo.
Não tem limites da produção, da extração de petróleo. É só uma questão do
investimento de capital. Nada mais. É muito simples.” Isto é muito perigoso para o
desenvolvimento, porque é um bloqueio às alternativas necessárias em termos
políticos. Uma última observação de Cesare Galvan. Eu gostei muito da sua palavra
das formigas. Porque isso é verdade, tem muitas alternativas, muitos projetos em todo
o mundo. Tem de dizer adeus às grandes alternativas, aos grandes projetos. O
socialismo como sistema único no mundo, que não funcionou no Século XX e
provavelmente não vai funcionar no Século XXI. É uma economia sociedade solar,
como mencionou o Clóvis... É uma sociedade que existe de milhares e mais iniciativas
locais, mas atualmente tem de buscar o que os une. A idéia e a prática unificando.
Isso é importantíssimo. Por isso eu penso que os fóruns sociais são tão importantes
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para não só ter essas formigas, milhares de formigas que estão construindo pequenas
e fracas alternativas, mas também de unir essas formigas numa iniciativa conjunta.
Isso é importantíssimo para o futuro do desenvolvimento.
O SR. MODERADOR DA MESA - Bom, nós agora abrimos a palavra aos presentes.
Vamos recolher numa primeira rodada quatro ou cinco intervenções e vemos se há
tempo suficiente para que o professor Altvater responda e nós abramos uma nova
oportunidade. Senão, teremos pelo menos permitido que um número de pessoas
suficiente se coloque. Então, nós já temos duas inscrições aqui. Eu já estou me
inscrevendo também. Três. O colega, quatro. Lá em cima cinco, lá no final. E aí nós
fechamos essa primeira rodada e já fica um pedido para uma rodada seguinte.
Socorro Araújo/”Toiô” (FUNDAJ): Bom, é que a minha geração, nós da minha
geração crescemos ouvindo falar que era preciso crescer para poder depois distribuir,
para poder depois trabalhar os indicadores, melhorar os indicadores sociais.
Recentemente, no nosso País, no primeiro governo Lula, nós tivemos o que algumas
pessoas vêm chamando de paradoxo. Nós tivemos as taxas de crescimento mais
baixas e ao mesmo tempo nós conseguimos melhorar os nossos indicadores sociais.
Reduzimos as desigualdades, melhoramos o IDH, reduzimos o índice de miseráveis e
com taxas de crescimento mais baixas. Eu acho, e não estou fazendo um
questionamento, estou fazendo um registro do que me chama a atenção recentemente
e que agora, com o que foi colocado na mesa, eu me senti com vontade de registrar o
que eu venho pensando esses dias a respeito do que vem se apresentando como
paradoxo... E me lembrando a respeito da formiga, lembrada pelo professor Galvan,
me lembrando de um texto que eu li recentemente de um escritor moçambiquenho,
Mia Couto, quando ele aponta como a saída para nós a necessidade de uma mudança
na cultura individual, um novo posicionamento nosso diante do mundo. E essas coisas
que eu venho refletindo batem com o que acaba de ser dito pelas autoridades que
estão à mesa. Isso me deixa contente e achei que o debate realmente foi muito bom.
Prof. Marcos Costa Lima (UFPE): Bom, em primeiro lugar devo dizer que gostei
muito tanto da palestra do professor Altvater quanto das colocações que o Galvan fez,
muito inteligentes. Por princípio, eu combato o capitalismo, por premissa. Parece um
sistema que leva à exaustão física do planeta. É um sistema que tem aprofundado as
desigualdades sociais, entendendo que pobreza é um conceito relativo. Nós não
podemos comparar a pobreza de hoje com a pobreza do Século XIX. Então, são
coisas diferentes. Mas que o maior número de pessoas que está sem inserção na
produção e no consumo do capitalismo, sobretudo o consumo mais ostensivo mostra a
perversidade do sistema. Agora, entendendo isso, eu acho que o mundo está
apresentando um dilema muito forte, e o professor Altvater coloca a questão toda,
centra – claro que não só isso, o professor teve que fazer uma síntese –, ele coloca
toda a força do seu argumento na questão do petróleo, basicamente. Pelo menos foi o
que foi apresentado aqui. E eu me pergunto se essa associação está vinculada
também a várias outras leituras. Por exemplo, a leitura do Wallerstein, que está
apontando... Ele chega inclusive a datar, num dos últimos livros dele, em 50 anos o fim
do capitalismo, talvez como nós o conhecemos. Mas a impressão que eu tenho é que
o capitalismo, se nós incorporamos um pouco a idéia de Schumpeter nesse processo
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dos ciclos e da retomada a partir de inovações tecnológicas, nós não só estamos no
início de um ciclo, que é um ciclo da computrônica, entrando já articulado com o ciclo,
que esse é de uma interrogação profunda, que é o ciclo da bio e da nanotecnologia,
que o professor chegou... Que abre o mundo completamente misterioso, para
simplificar a nossa conversa assim. Então, por um lado nós temos uma observação de
que, ceteris paribus, o capitalismo vai ao desastre. Ele está levando a humanidade ao
desastre, mas não quero dizer que as tecnologias que estão por aí possam resolver o
problema, mas elas podem dar uma nova vida, um novo ciclo de crescimento a esse
capitalismo. É isso que eu estou querendo chamar a atenção. Então, basicamente a
questão é essa. Agora, do meu ponto de vista hoje, para não me alongar demais, eu
creio que a financerização da ciência, do processo do conhecimento... Quer dizer, o
Alf Clarum dizia que a ciência era produto universal e era produto disponível para toda
a humanidade. E a grande mudança, sobretudo, da mundialização financeira é a
operacionalidade que está sendo dada à ciência. Quer dizer, a ciência revoluciona a
todo o momento, mas ela é apropriada cada vez por menos gente. É por isso que
inclusive o professor Chesnais quando apresenta as suas estatísticas de que com toda
inovação tecnológica produzida no mundo, as taxas per capita da produção são
decrescentes, 6% nos anos 60 a 70, a 1,5, e que não chega a 2% nos anos 90. O que
parece uma contradição, haja vista essa exuberância do capital financeiro. Então,
concordo também com o professor Galvan, que os nossos instrumentos, tanto
analíticos quanto políticos para enfrentar o sistema, eles são parece que - bom, vamos
dizer - são o que são, são o que temos. Mas eles são extremamente pobres ainda
para nos defrontarmos, porque de uma certa forma o mundo, quando o Clóvis faz a
crítica violenta ao petróleo, é uma crítica à refinaria em Pernambuco de alguém que
pode ter o consumo do petróleo no automóvel... Quais são as outras alternativas que
as esquerdas têm que pensar, por exemplo, ao nível não só da energia solar, mas ao
nível dos transportes urbanos, dos transportes de massa, que economizariam. Todos
querem se deslocar. Cada vez mais todo mundo está no meio urbano. Ninguém quer
abrir mão dessa oferta do capitalismo, desses bens maravilhosos. Só que isso é
excludente. E tem uma obsolescência programada que faz parte desse circuito. Então,
é esse o dilema. Um. Quer dizer, será que a ciência cria outro produto que não o
petróleo num tempo que seja razoável e que vá dar uma nova vida ao capitalismo? E a
outra é a questão das alternativas.
O SR. MODERADOR DA MESA - Joanildo Burity (FUNDAJ): Esta terceira inscrição
é minha. Eu queria colocar para o professor Altvater um questionamento que vem não
da economia, mas de alguém que por ofício trabalha com atores sociais e políticos,
movimentos, enfim, tentativas de organização e mobilização com vistas a encontrar
saídas e alternativas para problemas sociais e políticos. Então, a minha questão é a
seguinte: dada a estrutura do argumento que o senhor apresentou na sua palestra, eu
gostaria de ouvi-lo um pouco a respeito de num certo momento aqui já próximo do final
quando se colocou a questão da necessidade de desenvolver alternativas, sejam
alternativas ao capitalismo, sejam alternativas dentro do capitalismo, a pergunta que
me surgiu foi: qual é a agência política dessa construção de alternativas? A
identificação da necessidade não necessariamente faz surgir um ator ou um sujeito
que possa ser identificado como capaz ou desejoso de assumir essa tarefa. Ou de
assumir... Ou dos sujeitos e dos atores desejosos e capazes de assumir essa tarefa.
Como levar nesse sentido o capitalismo a um fim que não seja o fim da história? E
talvez não apenas o fim da história, mas o fim do próprio planeta, dada a continuidade
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pura e simples das tendências que nós temos. Que sinais e que estratégias nós
identificamos, e poderíamos até dizer assim, para além das experiências do Fórum
Social Mundial que nos apontam a Constituição dessa agência? Que relação, por
exemplo, essa agência tem com alguns nomes que nós classicamente herdamos ou
utilizamos como classe social, como movimentos sociais, como o Estado, como o
partido político, enfim? Que na história da teoria social foram desde o Século XIX
apontados como os atores capazes de equacionar essa relação entre economia e
política, entre acumulação e distribuição, entre participação e concentração de poder,
etc. Isso somente lembrando, já foi levantado aqui a propósito do discurso do
crescimento, é que hoje nós parecemos não ter na esquerda política ou na esquerda
partidária um ator capaz de visualizar esse cenário que nós estamos desenhando ou
construindo aqui. Ao contrário, a esquerda política é inteiramente caudatária do
mesmo discurso, quer dizer, ela pede que nós resolvamos os problemas com mais do
mesmo. Ou com o mesmo de alguma maneira melhor distribuído. Enfim, então, um
pouco essa questão da agência e dos sinais das estratégias que nós podemos
identificar por onde é que estariam surgindo esses caminhos alternativos.
Abdias Vilar: Eu tinha anotado. As minhas observações vão na esteira do que você
acabou de falar, que é mais no sentido político, porque eu parto da premissa seguinte:
quem conduz a crítica hoje, a situação que nós vivemos? O que conduzirá a
mudança? Se nós partirmos dessas duas premissas, todos os dados ficaram ao nível,
vou usar um jargão antigo, da infra-estrutura. No entanto, a questão política não
aparece. As alternativas que estão sendo construídas hoje, pelo menos por um lado
da chamada Economia Solidária, é de sobrevivência do capitalismo. Dentro do
capitalismo. Não é fora do capitalismo. Os parâmetros que são dados como de
crescimentos econômicos melhores do mundo, a China, Deus e Marx nos livre dela,
porque são os piores exemplos que temos. A China está destruindo a natureza, está
matando a mão-de-obra. É a mão-de-obra mais barata do mundo. Não tem liberdade
de expressão, não tem liberdade de nada. Então, quer dizer o Estado que poderia...
Um protótipo que foi dado como alternativa fracassou também como fracassaram a
Rússia e seus satélites. Então, qual é a saída política... Como é que o senhor enxerga
essas alternativas que devem, como ele usou a expressão agência, deve ser
construída por novas classes ou novos grupos sociais... Quem são eles? Os
movimentos sociais? Todos os movimentos sociais hoje, não só no Brasil, estão
dentro de uma perspectiva saída de dentro do capitalismo. Eu não diria tão
fechadamente, tão exclusivamente. Mas estão dentro do capitalismo ainda. Ou seja,
ele está demonstrando o capitalismo tem mais força do que se esperava. E o velho
Marx tem razão quando diz que a sociedade não coloca questões que ela não possa
resolver. Então, ela está buscando essas saídas. Eu gostaria de ouvir sua opinião
mais do ponto de vista político.
O SR. MODERADOR DA MESA - Para fechar, então, essa rodada, a colega lá no
fundo, pudesse dizer o nome, porque nós estamos gravando, para ajudar na
transcrição depois.
A SR.ª ROSANE – Meu nome é Rosane. Eu gostaria de saber do professor porque ele
considera Economia Solidária como uma alternativa fraca diante do capitalismo e da
precariedade do mercado de trabalho.
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O SR. ELMAR ALTVATER (Universidade Livre de Berlim) – Algumas das questões
e argumentos outros podem responder melhor do que eu, em particular as questões
sobre a situação aqui no Brasil. Eu acho que o paradoxo que você mencionou que
baixas taxas de crescimento, de um lado, de outro lado, indicadores sociais favoráveis
se explicam através de erros estatísticos tem, mas também de esforços na campanha
eleitoral para melhorar a situação social. Mas o grande problema é o seguinte: aqui no
Brasil, como em outros países, tem uma divergência muito maior entre as taxas dos
juros reais e as taxas de crescimento real. No Brasil temos 10% taxa de juros real e
2% mais ou menos de taxa de crescimento. Não dá, em longo prazo é impossível. Mas
nós temos... Eu vou falar da mesma situação de taxas de juros bem altas, bem
superior às taxas de crescimento. E as taxas de crescimento, isso é verdade, foi
mencionado por Marcos, que decrescem, diminuem tendencialmente e também para
as economias européias têm tabelas muito sugestivas mostrando que a taxa média de
crescimento nos anos 50 foi 5%, 6% nos anos 60, 3%, 4% nos anos 70, 2%, 3%...
Agora 0, até 1 ou 2%. Mas as taxas de juros crescem no mesmo período. Isso tem a
fazer alguma coisa com o funcionamento dos mercados financeiros. Vemos se nos
mercados de mercadorias a competição tem resultado em preços mais baixos e, às
vezes, também em qualidade crescente dos produtos. Mas nos mercados financeiros
é diferente porque a competição é entre as praças financeiros, financial places. Isso
significa entre Frankfurt, Nova York, São Paulo, Tóquio, Cingapura, etc. E todos esses
lugares onde tem mercados de bolsas, de moeda, bolsas de capital, etc., têm uma
competição para a mais alta lucratividade do capital. E por isso tem uma tendência da
lucratividade. Os juros são um dos aspectos dessa lucratividade do capital é alto. Isso
não pode ser corrigido pelos bancos centrais. Até agora não tem condições. Só uma
regulamentação dos mercados financeiros ajudaria uma intervenção conjunta dos
grandes países no mundo, nas grandes moedas do mundo para estabelecer as taxas
de troca, de câmbio, e as taxas de juros. Então, esse paradoxo se pode explicar e...
As outras observações, Marcos, por exemplo, não são (...) da teoria dos ciclos. Na
interpretação dos ciclos de longo prazo, na interpretação de Schumpeter, esses ciclos
começam exatamente com o surgimento da época fóssil. O fim do Século XVIII. E por
isso nunca nos ciclos a base fóssil das novas tecnologias foi questionada. Nunca. E
agora tem a grande questão, a transição a tecnologias de nano e biotecnologias, etc.,
isso é uma nova etapa, um novo ciclo sobre a base das energias fósseis? Ou trata-se
de uma substituição das energias fósseis? E uma resposta hoje em dia não é possível.
E eu acho que não. Mas pode ser. Agora, essas tecnologias, nanotecnologias,
biotecnologias não são tão desenvolvidas que se poderia dizer: “Isto é uma base
econômica para um novo ciclo. Esse novo ciclo não precisa mais da oferta de energia
fóssil”. Essa é a grande questão. Mas eu concordo completamente com as
observações consoantes ao transporte urbano e a deficiências, ineficiências do uso de
energia fóssil. Questões com respeito à agência social: em primeiro lugar, tem de
lembrar que o setor informal, a informalidade é interpretada por alguns cientistas
sociais como uma determinada forma de um neoliberalismo de embaixo, porque elas
seguem a mesma lógica, a lógica da troca igual: a troca das mercadorias do mercado,
ao individualismo dos agentes no mercado, o individualismo. Na economia solidária
segue outro princípio, o princípio de organização coletiva de produção, de distribuição,
também do consumo e tudo isso. É uma outra lógica. E, às vezes, essa lógica é uma
necessidade, porque não tem alternativa. Por exemplo, a Oxi calculou que o terceiro
setor, ou non profit sector (setor sem lucro), são mais ou menos 30 milhões de
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pessoas que trabalham num setor sem lucro, em outras formas que nós que
trabalhamos no setor formal e por isso também é normal. São 30 milhões de pessoas.
Na Alemanha são 9 milhões de pessoas que trabalham non profit. Mas isso é um
trabalho muitas vezes muito precário e não é uma saída no sentido progressivo,
positivo para as condições de vida e de trabalho das pessoas. Mas, essas alternativas
são uma saída, porque outras não têm mais. E o capitalismo, você falou, é um sistema
totalizante. É muito difícil de superar o capitalismo. Muito difícil de superar as formas
de pensamento capitalista em termos de dinheiro, em termos de valor e troca nas
nossas cabeças. Por isso o velho Che Guevara, no início dos anos 60 em Cuba, disse:
“Nós precisamos ter uma revolução cultural para colocar fora esses feitiços do
dinheiro. Nós temos só dólares na cabeça. Para fazer uma revolução socialista é
necessário puxar esses dólares fora da cabeça”. Mas, isso é muito difícil e por isso
tem razão dizendo que a China não é só uma alternativa. É um país capitalista.
Concordo completamente. Tem absolutamente razão. A Economia Solidária também
não é sempre uma alternativa ao capitalismo. É uma forma capitalista dentro do
capitalismo. Mas é uma saída da miséria. E por isso tem condições de mudar-se numa
outra forma. Talvez também além do capitalismo. Anticapitalista, eu não sei. Isso é
muito importante de ter em conta. Eu acho que foram mais ou menos as questões.
O SR. MODERADOR DA MESA - Nós temos apenas uma pessoa ainda lá atrás, o
colega que tinha pedido para fazer uma pergunta. Vamos passar, então, a palavra
para ele e em seguida, então, nós devolvemos a... Então assim que ele fizer a
pergunta eu passo para o Marcos e nós, então, devolvemos a palavra para a mesa
para que não apenas o professor Altvater, como o professor Galvan possa fazer seus
comentários. Infelizmente Clóvis, que está organizando um evento sobre governança
ambiental, que nós vamos realizar no final deste mês, precisou se ausentar para
resolver um problema da organização do evento e pediu desculpas pela necessidade
de sair. Talvez ele ainda consiga voltar antes de nós encerrarmos aqui, mas pelo
menos para explicar porque ele não está conosco neste momento. Então, o colega lá
no final. Que pudesse dizer o nome.
O SR. ANTÔNIO FISHER – Meu nome é Antônio Fischer. Eu sou engenheiro
aposentado há 30 e tantos já. Estou afastado do meio acadêmico, vivo isolado e não
sei se saberei formular a pergunta. Quero contribuir e quero ajudar. Sou muito inibido
para essas coisas. Preocupa-me muito, evidentemente, a práxis, porque a práxis um
elemento fantástico de todo o imperialismo, é a práxis, ele impõe pela prática, pela
praticidade das coisas. Então, dentro desse espírito... Eu vou rodear umas três ou
quatro coisas e depois formulo a pergunta ao professor Altvater. Repare bem... Está
escutando bem aí? O Engels, numa certa ocasião, citou que a idéia dominante é a
idéia do poder dominante. Ora, o poder dominante... Há muito tempo que já é a
maioria oprimida. Há mais dez mil anos o pessoal do templo e do palácio fica naquela
dobradinha, quando não come no mesmo prato come na mesma mesa. Templo e
palácio, templo e palácio. Mas o poder dominante somos nós. O valor intrínseco da
moeda é fantástico. É poder. Dinheiro é poder sob todos os aspectos. Ghandi já viu
isso, Hélder Câmara, e por aí afora. O mais importante também como um contraponto
ao dinheiro é a informação. E mais do que a informação é a transformação da
informação através da práxis numa reação organizada. Eu vivo afastado, leio um
pouquinho e reflito muito e vejo com bons olhos a reação mundial. Embora estejamos
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todos adormecidos, como dizia Heráclito, antes de Sócrates. Todos adormecidos. Mas
nós vemos aqui, acolá no rádio, na televisão, nas revistas e nos jornais, reações que
não estão sendo somadas. Não estão sendo somadas. Então, dentro desse aspecto
surgiu em 1846 aquela reação fantástica de Thoreau. Esteve um dia preso porque se
insurgiu a participar de um imposto a mais contra a guerra com o México, em 1846,
Henry Thoreau. Então, diante desse aspecto de Engels, de Thoreau, do valor
primordial também da informação e da união da informação, transformando essa união
de informação no que eu chamo de realidade, transformação. É a transformação. Não
só o dinheiro é poder, mas a informação bem trabalhada, bem organizada, bem
somada em termos pragmáticos, práxis. Então, como nós podemos explorar uma
reação a esse estado de coisas que está aí afligindo toda a humanidade num aspecto
psicológico fantástico, a escassez de recurso tremenda fazendo que os seres
humanos estejam adormecidos. Estejam adormecidos. Poucos estão despertos.
Poucos estão despertos. A partir de medos, inseguranças, angústias, depressões,
suicídios. Olha, é uma pressão realmente inteligentíssima e não é por acaso que ela
está se dando. Agora, eu sinto que afora o meio político internacional, as igrejas, o
meio político... existem fóruns. Poucos. Aí que eu quero começar a formular a
pergunta ao professor Altvater. Existem poucos fóruns. Eu conheço o Fórum
Internacional Social, esse contraponto a Davos. Interessantíssimo. Inteligentíssimo.
Brilhante. Unesco, eu conheço alguma coisa. E os senhores que vivem nos meios
acadêmicos devem ter outros fóruns fantásticos onde essa reação que tem e que deve
ser comandada pelas academias, porque nós não podemos contar mais com os
poderes políticos nem com as igrejas, nem com as forças produtoras nos três setores,
nem com a sociedade que está... Nós estamos totalmente atordoados. Meia dúzia está
desperto. Então, a pergunta é a seguinte: diante da colocação de Engels, diante de
Thoreau, a desobediência civil, diante da grande reação de Ghandi, pacífica e
fantástica. É claro que o imperialista no momento não é o inglês. Como o professor vê
a armação de uma estratégia, como o senhor coordenador ainda há pouco colocou...
Como o professor vê... E se explorar Unesco, Fórum Internacional e outros fóruns
aonde você possa levar de forma pragmática, prática uma desobediência civil, claro
que pacífica, uma vez que nós somos – nós maioria oprimida... Nós é que devemos
dar as cartas. E me parece que ela deverá vir a partir das academias, das
universidades. E que isso está disperso. Por amor de Deus, isso está disperso! Então,
como ele vê, em que organismos e de que maneira nós poderemos somar esforços
nesse sentido. Peço desculpas porque eu estou afastado há muito tempo e sou
inibido. Eu não sei se formulei a pergunta adequadamente. Muito obrigado.
O SR. MODERADOR DA MESA - Marcos. Última palavra.
O SR. MARCOS – Alguma coisa... Celso Furtado introduziu no Brasil o pensamento
de Amarthia Sen. E foi talvez a única leitura que eu fiz desses economistas
internacionais, quando ele diz que usando o exemplo de Kerola, na Índia, que mesmo
em momentos de depressão econômica o país podia se desenvolver, porque com os
recursos extremamente precários havia um estabelecimento de uma prioridade tão
acentuada sobre aspectos como financiamento de projetos para as mulheres, focado
nas mulheres, nos grupos. E isso dava um resultado econômico a longo prazo
bastante fundamental. Quer dizer, eu acho que o senhor chegou a mencionar alguma
coisa parecida, quer dizer, a questão da priorização dos gastos, etc. Mas eu acho que
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mesmo sendo um pensador liberal que gostava de um Adam Smith que diz que os
outros esqueceram... Ele fala disso. Eu acho interessante como...
O SR. ELMAR ALTVATER (Universidade Livre de Berlim) – Não sei se entendi tudo
tão bem como desenvolver. Eu acho que você tem razão, sublinhando a necessidade
de resistência pacífica. A organização de fóruns internacionais, como o Fórum Social
Mundial, internacional. Talvez também a Unesco. Mas a Unesco é uma organização
formal. É uma suborganização das Nações Unidas e não são um fórum para os
movimentos sociais no sentido muito estreito no ECOSOC - Economic and Social
Council das Nações Unidas. E também as igrejas têm responsabilidades para
organizar esta resistência. Eu concordo com a posição que haja informação de um
lado... Informação, como você disse, mas do outro lado tem de se haver a práxis
humana. E por isso tem uma necessidade da práxis querer desenvolver as
informações necessárias para o apoio da práxis social, dos movimentos sociais. Isso é
uma lacuna no pensamento como nas políticas em todo o mundo. E uma necessidade
que se tem de realizar, às vezes, contra as mídias de informação, que são mídias de
desinformação, muitas vezes ou de deformação, como você disse, e não de
informação necessária para uma práxis, uma justificativa. Então... Ok. Só.
O SR. CESARE GALVAN (UFPB-Centro de Estudos Josué de Castro) – Olha, eu
não teria direito diante do... Mas não quero perder a ocasião de parabenizar o nosso
amigo Antônio. Com sua falta de academicidade deu uma das melhores definições da
pobreza da situação em que nós estamos e com precisão absoluta. Reações que não
estão sendo somadas. Isso é de uma precisão. Apontou com o dedo um dos pontos
principais desse problema. Eu não tenho sugestão, infelizmente, nenhuma para dizer
como se pode fazer a soma. No entanto, o fato de apontar para esse aspecto do
problema, é uma contribuição essencial. Podem dizer que é só uma gota no mar, mas
o mar sem gota nenhuma deixa de existir. E essa é uma gota essencial. As reações
não estão sendo somadas. Vamos tomar conta disso. Haverá alguma resposta num
certo momento. Espero que sim. E de novo agradeço ao professor Altvater pelas
amplas contribuições que ele deu a este nosso debate.
O SR. MODERADOR DA MESA - Nós gostaríamos de continuar nessa linha do
agradecimento e realmente expressar a nossa gratidão e nossa honra por termos
podido contar hoje à tarde aqui com o professor Elmar Altvater e discutir com ele essa
temática de perspectivas de longo prazo, inclusive para a humanidade, para nós aqui,
enfim, para as nossas sociedades. Agradecer aos nossos colegas que se dispuseram
a debatê-lo: o professor Cesare Galvan, o professor Clóvis Cavalcanti. Agradecer ao
Hugo pelo empenho na organização da viabilização deste evento. E a todos vocês,
todas vocês que estiveram aqui e continuam aqui até este momento. Muito obrigado. E
boa tarde. (Palmas).
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Degravação: ProiXL Estenotipia
Revisão: Hugo Cortez Barros (FUNDAJ)
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SEPAC - Palestra de Elmar Altvater,