ANÁLISE RETÓRICO-CRÍTICA DE GÊNEROS OPINATIVOS MIDIÁTICOS IMPRESSOS: O EDITORIAL E A CRÔNICA Maria Francisca Oliveira SANTOS (Centro de Estudos Superiores de Maceió - CESMAC) ABSTRACT – This paper reports and discusses results from a research on mass-media genres, specifically some chronicles and editorials which appeared in local newspapers. The work consists of an analysis of these genres, involving students from the graduation course of Communication – Journalism of the Centro de Estudos Superiores de Maceió – CESMAC, through a program of scientific initiation which was carried out in 2004. The analyses were based on genre theory defended by Bronckart (1999) and Marcuschi (2002), and the analysis categories used elements from the critical-rhetorical approach defended by authors who follow critical analysis of discourse based on Fairclough’s work of 1981, such as Meurer (2002) and Koch (1997). The analysis emphasized some aspects such as argumentation, textual marks which indicates beliefs, identities, social places and relations. The analyses revealed that the mentioned genres have their own features, despite of the same discursive universe where they have a current use. KEY WORDS: opinion; genres in mass media; discursive domains; rethorical-critical aspects. 1. Acerca dos gêneros de caráter midiático impresso A idéia de perseguir os gêneros textuais proveio de Bronckart (1999, p. 103), para quem “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização, de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. Nesse sentido, uma vez que os gêneros permitem que se instaure a interação entre os interlocutores do texto escrito, Brandão (2000, p.180) assim se expressa: “uma abordagem que privilegie a interação deve conhecer tipos diferentes de textos, com diferentes formas de textualização, visando a diferentes situações de interlocução”. Restringindo o estudo dos gêneros textuais para o campo jornalístico, apontamos Freitas (2002), segundo o qual, a tipologia textual, nessa área de estudo, tem a seguinte classificação: retórico-opinativa, retórico-informativa e retórico-interpretativa. A primeira permite explicitamente que o leitor interprete e forme juízos de valor ou ainda pontos de vista sobre um determinado assunto ou fato; a segunda tem por meta ampliar o público ou o auditório receptivo, centrando-se, por isso, no receptor ou referente. A última tem por finalidade informar aos leitores, constituindo-se numa atitude de ofício do agente da informação da atualidade. O estudo em foco centra-se no gênero retórico-opinativo, que apresenta a seguinte classificação: editorial, comentário, artigo, resenha ou crítica, coluna, crônica, caricatura e carta (MELO, 2003)1. Nessa linha, analisamos o editorial, a crônica, a carta do leitor e o artigo, estando em processo de estudo a caricatura, representada pela charge (crítica humorística de um fato ou acontecimento específico) e pela tira humorística (narrativa 2 Este estudo é resultado da análise dos gêneros opinativos de Melo (2003). Abrangeu dois grandes projetos, intitulados “Análise retórico-crítica do jornalismo opinativo do discurso midiático impresso”, aprovados pelo PSIC: no primeiro, foram estudados o editorial e a crônica, do que resultou a apresentação dos resultados no III Simpósio Internacional de Estudos dos Gêneros Textuais e II Simpósio Internacional “Linguagem, Cultura e Sociedade”, na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2005. No segundo, foram estudados o artigo e a carta. Depois, foi estudada a charge. Para o ano vindouro (2008), pretendemos estudar a tira jornalística. 1429 composta por imagens que se sucedem, sendo completada por textos em forma de balões). Quando aos gêneros textuais, aparecem na perspectiva da fala e da escrita dentro de um continuum tipológico das práticas sociais de produção textual, constituindo-se, neste trabalho, como um recurso para melhorar o ensino da língua portuguesa, em sala de aula. Representam “uma noção propositadamente vaga para referir os textos materializados que encontramos em nossa vida diária e que apresentam características sócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica” (MARCUSCHI, 2002, p. 22-3). O presente estudo insere-se na perspectiva da tipologia sócio-interacionista, porque entendemos que é na interação em que os sujeitos se constituem, pois “a relação interlocutiva se concretiza no trabalho conjunto, compartilhado, dos seus sujeitos através de operações com as quais se determina, nos discursos, a semanticidade dos recursos expressivos utilizados” (GERALDI, 1991, p. 13). Esses sujeitos necessitam, obviamente, para concretizar o trabalho único da linguagem, de um espaço ideológico, que, no caso da nossa pesquisa, é a escola onde serão estudados textos escritos (jornais) que circulam na cidade de Maceió-Alagoas. Com base nos elementos apresentados, este trabalho estuda os gêneros midiáticos, procurando analisá-los realmente dentro de uma perspectiva, segundo a qual são evidenciadas os seus movimenos (as diversões facções de que o gênero discursivo se compõe), bem como os valores sociais a que os citados gêneros estão a serviço nas relações que se estabelecem entre os interlocutores no mundo jornalístico. 2. Os aspectos retórico-críticos dos gêneros da mídia impressa Quanto aos aspectos retóricos da nossa análise, entendemos por retórica, conforme REBOUL (1998, p. XIV), como “a arte de persuadir pelo discurso”. O autor entende por discurso como toda produção verbal, de caráter escrito ou oral, sendo constituído por uma frase ou por uma seqüência de frases, desde que tenha começo e fim e apresente certa unidade de sentido. Assim, ficam então sob a alçada da retórica somente aqueles discursos que visem a persuadir, o que possibilita o surgimento de vários tipos, como o sermão, o folheto, o cartaz de publicidade, a fábula, a petição, o ensaio, dentre outras exemplificações. Segundo o autor, a retórica tem relação com o discurso persuasivo, pois consiste em levar alguém a crer, sem incidir necessariamente no fazer. À retórica são atribuídas várias funções caracterizadas como persuasiva, hermenêutica, heurística e pedagógica. O caráter persuasivo da retórica se dá por meios de ordem racional e afetiva, uma vez que razão e sentimento são inseparáveis. Os argumentos representam os meios na linha racional, integrando o raciocínio silogístico (entimemas) e aqueles que se fundamentam no exemplo. Os que se referem à afetividade compreendem: de um lado, o etos, o caráter que o orador deve assumir para chamar a atenção, bem como para angariar a confiança do auditório; de outro lado, o patos, as tendências, os desejos, as emoções do auditório em que o orador se baseia para tirar proveito. Como o próprio nome indica, a retórica é persuasiva pelo fato de usar meios para persuadir o auditório. No que diz respeito à função hermenêutica, dizemos que é a arte de interpretar texto, sendo obviamente a função que, de certo, é desenvolvida na universidade. Assim, “para ser persuasivo, o orador deve antes compreender os que lhe fazem face, captar a força da retórica deles, bem como seus pontos fracos” (REBOUL, 1998, p. XIX). 1430 A função heurística da retórica, que provém do verbo grego euro, eureka, que significa encontrar, volta-se especificamente para a ação de encontrar, sendo, pois, uma função de descoberta. Completando essa função, surge a função pedagógica da retórica, que se expressa quando ensinamos “a compor segundo um plano, a encadear os argumentos de modo coerente e eficaz, a cuidar do estilo, a encontrar as construções apropriadas e as figuras exatas [...]”(REBOUL, 1998, p. XXII). A argumentação se dá também de maneira escrita ou oral. Isso leva a pensar nas características específicas de cada uma delas, pois, segundo Reboul (1998, p. 95), a argumentação oral em geral é menos lógica e mais oratória que a escrita. No entanto, cabe ressaltar uma expressão, que se ouve nos debates mais técnicos, e não só nas brigas de família: ‘Se pelo menos pudéssemos explicar pessoalmente!’ Ela comprova que falta alguma coisa à argumentação escrita, que a oral tem um valor insubstituível, que a oratória pode ser, de certa forma heurística. O caráter verossímil das premissas na argumentação se explica pelo fato de que esta se sustenta no fato de ser a confiança presumida. A essa característica é somada a idéia de se dizer que a argumentação depende do orador, por ser livre. Nessa perspectiva, ela (a argumentação) também depende do auditório, no sentido de que o orador faz a disposição de seus argumentos em conformidade com as reações, as quais verifica ou imagina de seus ouvintes. Enfim, a argumentação leva a conclusões sempre controversas, pelo fato de estas resultarem de um acordo entre os interlocutores. A conclusão deve ser mais rica que as premissas; ser reivindicada pelo orador como uma perspectiva que deve encerrar o debate e, finalmente, em se referindo ao auditório, este não deve ter a obrigação de aceitar a conclusão, sendo responsável pela sua afirmação ou negação. Seguindo a linha do estudo dos argumentos, Medeiros & Tomasi (2004) apresentam uma tipologia, afirmando que um texto argumentativo pode apresentar argumentos nomeados como: por exclusão, pelo absurdo, de autoridade, contra o homem, por analogia e com maior razão. Os três primeiros podem assim ser entendidos: por exclusão, quando várias hipóteses são paulatinamente excluídas para chegarmos à considerada como certa ou verdadeira; pelo absurdo, quando há evidência dos fatos e; finalmente, de autoridade, quando a própria autoridade confere credibilidade para convencer o receptor a fim de que aceite a mensagem. Os três últimos argumentos assim podem ser explicados: a) por analogia, que é baseado na semelhança existente entre duas realidades; b) com maior razão, que é explicado por estabelecer uma escala de valores entre termos; e, finalmente, c) contra o homem, segundo o qual, o argumento é válido apenas contra a pessoa à qual se dirige. Os autores abordam ainda a existência de elementos que podem funcionar como mecanismos de argumentação, assim denominados: metáfora, metonímia, ironia e estilo. Esses mecanismos favorecem o estabelecimento das forças argumentativas de um texto. Breton (1999) faz apreciações precisas acerca dos argumentos, que, pela extensão do assunto, apenas tomamos como referência cinco argumentos dentre os existentes na literatura por ele apresentada, tais como: a afirmação pela autoridade, pela competência, pelo testemunho, pela definição e pela associação. Quanto às considerações alusivas ao argumento pela autoridade, dizemos que o real descrito pelo enunciador é aceitável pelo receptor pelo fato de a pessoa que o descreve ter autoridade para fazê-lo. Há confusões entre autoridade e poder: este último termo está 1431 ligado às noções de força, coação e violência; o primeiro diz respeito ao campo mesmo da argumentação. Em relação ao argumento pela competência, diz respeito ao fato de haver uma suposição de que haja uma competência de caráter científico, técnico, moral ou profissional que vai tornar legítimo o olhar sobre o real que deriva dessa competência. Nessa mesma linha, temos o argumento pelo testemunho, quanto se enuncia que o “testemunho de um fato terá mais peso para propor seu enquadramento em uma perspectiva argumentativa” (BRETON, 1999, p. 83); pela definição, quando ela se diz propícia à argumentação, e finalmente, pela associação, quanto são feitos reagrupamentos, confrontações e aproximações inéditas. Quanto à perspectiva crítica do discurso, notificamos que qualquer gênero produz e reproduz não somente conhecimentos, mas também crenças por meio dos diferentes modos de representação da realidade. Além disso, estabelece as relações sociais, bem como reforça ou reconstitui identidades. Para a análise dos aspectos críticos dos gêneros escolhidos, baseamo-nos em Fairclough (2001), Meurer (2002) e Magalhães (2001), os quais analisam os fatores sociais da língua, distanciando-se evidentemente do que era defendido por Saussure (1972), que se centrava no estudo do sistema, langue2, deixando de lado o uso dessa língua. Prosseguindo nos estudos lingüísticos, vemos que Halliday e Hasan (1976) instauraram os estudos da coesão e da coerência, centrados não mais na frase, mas nos aspectos alusivos ao texto. Após os enfoques dados aos estudos conversacionais e aos textuais, a perspectiva de análise passou a ser voltada para a conversação e o discurso, sendo o último o que mais teve ramificações teóricas como a Análise Crítica do Discurso, em cujos fundamentos este trabalho se insere. Fairclough (2001, p. 91) propõe a abordagem do discurso efetivado em um quadro tridimensional, envolvendo o texto, a prática discursiva e a prática social. Discurso é para o autor “uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado”. Essa categoria contribui para o estabelecimento das identidades sociais, para a construção das relações sociais entre as pessoas e dos sistemas de conhecimento e crença. Evidentemente, esses aspectos construtivos vão indicar as funções identitária (voltada aos modos como as identidades sociais são estabelecidas no discurso), relacional (centrada nas relações sociais entre participantes do discurso no sentido de serem negociadas e representadas) e ideacional (objetivada nas diversas maneiras de o discurso significar o mundo). As duas primeiras correspondem à função interpessoal proposta por Halliday (1978), acrescentando-lhes a função textual, o que vai permitir a execução da análise em seus mecanismos internos (coesão) e externos (coerência), operacionalizando os sentidos nas negociações discursivas. A categoria do discurso é identificada com a de texto, a qual pode ser estudada abrangendo o vocabulário, a gramática, a coesão, a estrutura textual, os tipos de atos de fala, a coerência e a intertextualidade. Segundo Fairclough (2001), o vocabulário trata das palavras individuais; a gramática é aquela das palavras combinadas em orações e frases; a coesão vai se ocupar da ligação entre orações e frases; a estrutura textual vai se deter nas propriedades organizacionais dos textos; os atos de fala são constituídos por promessas, pedidos, ameaças etc.; a coerência está ligada à apreensão do sentido dos textos e, enfim, a 2 Para Saussure (1972, p. 220), a língua “é o produto que o indivíduo registra passivamente”, “é um objeto bem definido no conjunto heteróclito dos fatos da linguagem”. 1432 intertextualidade é a propriedade de o texto ter outros textos em sua composição. As pessoas podem fazer escolhas sobre o que vão usar em determinadas situações, construindo para isso as suas orações de forma a que se apliquem à transmissão dos seus desejos, das suas práticas sociais e das suas emoções. A prática discursiva vai envolver processos de produção, distribuição e consumo textual, sendo a natureza desses processos variável em relação aos diferentes tipos de discurso em consonância com fatores sociais. O discurso como prática social se volta não somente aos aspectos econômico-políticos, mas também aos de caráter cultural e ideológico. Assim, “discurso como prática política estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas (classes, blocos, comunidades, grupos) entre as quais existem relações de poder” (MAGALHÃES, 2001, p. 94). Também tem uma função ideológica que “constitui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder”. O discurso como prática social está aliado às noções de ideologia e hegemonia, situando-o em uma noção de poder como hegemonia e em uma concepção da evolução das relações de poder como uma luta hegemônica. A referência às ideologias e à hegemonia aparece em Fairclough (2001, pp. 117 e 122) respectivamente. As ideologias constituem um campo complexo de entendimento, sendo consideradas como: significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação. A noção de hegemonia é entendida como “liderança tanto quanto dominação nos domínios econômico, político, cultural e ideológico de uma sociedade”. 3. As linhas metodológicas A metodologia adotada neste trabalho proveio da linha teórica adotada, estando, pois, inserida na Análise Crítica do Discurso, da Lingüística Textual e das Teorias do Jornalismo. Assim, temos uma pesquisa de cunho qualitativo, baseada nos princípios, que, segundo Bogdan & Biklen (1982) e André (1995), assim podem ser resumidos: a) contato direto entre pesquisador, ambiente e objeto de estudo investigado; b) trabalho com dados descritivos; c) enfoque não do produto, mas do fenômeno em processo; e d) não existência de hipóteses previamente definidas. Admitimos que, embora a nossa escolha seja pela pesquisa qualitativa, sabemos que, muitas vezes, temos que recorrer a dados numéricos como forma de complementação da nossa análise. Trata-se ainda de uma pesquisa baseada na etnografia da escrita, segundo a qual estuda o funcionamento dos usos da escrita na sociedade. Os corpora foram constituídos por jornais de circulação local e revista (MaceióAlagoas) de onde foram retirados os gêneros que constituíram objeto de análise. Assim, inicialmente procedemos ao levantamento bibliográfico da literatura existente em relação aos gêneros discursivos, para o que elaboramos os devidos fichamentos dos livros encontrados, ocasião durante a qual as idéias centrais desses textos foram discutidas e cotejadas entre si. Em seguida, selecionamos o jornal, fonte de análise dos textos opinativos, sendo dele retiradas as edições durante o período de um mês, tempo julgado 1433 suficiente para o entendimento de alguns de seus caracteres de ordem lingüísticopragmática. A análise dos textos selecionados teve um cunho interpretativo à luz da fundamentação teórica destacada, procurando evidenciar os elementos constitutivos que advêm da análise textual do gênero e os fatores ligados às relações interpessoais entre jornalistas e leitores, às crenças predominantes e às identidades. 4. O gênero editorial: uma amostragem O editorial é definido como o espaço em que o veículo midiático expressa suas opiniões a respeito da atualidade. A opinião do jornal é emitida por meio dos editoriais, razão por que a opinião do editor é desenvolvida de acordo com os interesses do grupo proprietário e dos seus administradores. Suas idéias devem, no entanto, estar voltadas à comunidade e, assim, orientar a opinião pública na defesa do bem comum. Sua fala tem que estar ligada à realidade humana, por meio de fatos e acontecimentos, sendo o fundamento de maior interesse do jornalismo. O editorial é um texto massudo e maciço, sem subtítulo, com poucos parágrafos e muito intelectualizado, destinando-se a uma determinada classe de leitores, representada por empresários, políticos e administradores. Trata-se de uma figura isolada, distante das matérias informativas que abordam ou não o mesmo assunto. Na maioria das vezes, o tema escolhido não interessa ao público em geral, possuindo um público específico de intelectuais, na idade madura, pois geralmente o tema abordado é de questões voltadas à economia, política e administração, o que o faz um texto pouco lido pela massa. Apresenta características ligadas à apresentação gráfica (manifesta-se de maneira tradicional, padronizada, tipo de modelo mais usado nos jornais), à sua estrutura (composta pela introdução, pelo desenvolvimento e pela conclusão), à impessoalidade (não é assinado, sendo escrito na terceira pessoa do singular), à topicalidade (trata de um tema ou tópico) , à condensalidade (focaliza uma idéia central) e à plasticidade (trata-se de um texto dinâmico). O material que constitui o corpus da pesquisa provém de um jornal de circulação diária da cidade de Maceió, Gazeta de Alagoas. Assim, procedemos à seleção dos jornais, procurando contemplar os dias durante os quais os jornais mais circulam ou têm uma venda limitada. Desse modo, foram retirados dois jornais dos dias de maior tiragem e mais quatro de maneira aleatória, constituindo um total de seis jornais para análise. Os critérios de análise selecionados para o corpus desta pesquisa foram baseados no material bibliográfico disponível. Foram classificados de maneira a compreender os aspectos retóricos e críticos do editorial. A partir dessa linha metodológica, as análises foram baseadas em critérios básicos, extraídos principalmente das definições encontradas em Beltrão (1980) e Melo (2002). Todos os editoriais apresentam várias características, tais como: a impessoalidade, pois todos tratam de textos não assinados; sendo assim, o editorial se torna impessoal, não tendo autoria. A plasticidade é uma outra característica desse texto, pois é um relato jornalístico e dinâmico, que possui ritmo e valoriza os fatos que estão acontecendo. Afinal, é um texto flexível que trata de vários fatos e temas. Ele é condensado por trazer várias informações num texto breve, porque o leitor moderno dispõe de tempo escasso para leitura. Trata-se de um texto maciço sem subtítulos. 1434 O editorial (Jornal Gazeta de Alagoas, 10/03/2004) apresentado a seguir contempla a análise retórico-crítica proposta neste trabalho. Nova sede, novos tempos Hoje serão inauguradas as novas instalações da redação da GAZETA DE ALAGOAS. Introdução da matéria por meio do dêitico hoje. Não se trata de uma simples mudança de endereço, nem se limita à modernização dos equipamentos. A nova redação está inserida numa agenda de realizações que marca a passagem dos setenta anos deste diário. Argumentação representada por elementos retóricos: afirmação/negação. Essa agenda, por sua vez, é bem mais ampla que um conjunto de atividades planejadas com o objetivo de simplesmente comemorar. A pauta se expande para ações cidadãs, culturais - todas voltadas para a população como um todo - e se estende por todo esse ano de 2004. Explicação da agenda. O elemento retórico simplesmente modaliza a expressão. Mas, voltando ao tema do ato de hoje, a apresentação da nova sede da redação da GAZETA, alguns pontos devem ser destacados como referenciais. Em primeiro lugar, a nova redação é a continuidade de antigas marcas da Organização Arnon de Mello: arrojo, inovação tecnológica, capacidade de vencer desafios e integração. Retomada da idéia inicial, a inauguração. Há o emprego de pontuações. O elemento coesivo em primeiro lugar introduz elementos de análise. Arrojada, a nova redação está adequada às novas tendências funcionais ambientais de conforto e eficiência no trabalho. Inovadora, agrega as últimas tendências tecnológicas da informatização editorial. Integra, fisicamente, os efetivos das redações dos veículos da mídia impressa e das mídias eletrônicas da Organização Arnon de Mello. As nominalizações arrojo=arrojada e inovação=inovadora ajudam no processo argumentativo E os desafios vencidos? Numa realidade de crise nacional, com o País decrescendo em sua economia nos últimos 12 meses, a Organização Amon de Mello não se intimida nem se acanha e, orientada por projetos ousados e objetivos, avança. A nova sede, que se inaugura hoje, não rema contra a maré ela é parte de um movimento real de enfrentamento e superação das dificuldades da conjuntura, navega com segurança, buscando os ventos adequados, trabalhando as próprias forças e as forças positivas da comunidade alagoana. A maré está para quem tem visão de futuro, e tem experiência acumulada no caso, setenta anos de existência; sete décadas de muitas lutas, muitas realizações, muitos obstáculos superados. Uso da pergunta retórica, artifício da linha argumentativa. Há ainda expressões informais como em: A nova sede, que se inaugura hoje, não rema contra a maré. Aparecem também elementos retóricos expressos por palavras ou expressões usadas em sentido figurado. A inauguração da nova sede, hoje, é um passo para o amanhã. Um passo que, como nos setenta anos de nossa história, continuaremos a dar junto com Alagoas. Conclusão do texto com a retomada do dêitico hoje em oposição a o amanhã O editorial, intitulado Nova sede, novos tempos, comunica aos leitores do jornal a inauguração das instalações da Gazeta de Alagoas. Para isso, o texto se apresenta de maneira estruturada, compondo-se de introdução, desenvolvimento e conclusão. Assim, inicialmente, aparece a grande temática, que é representada por hoje serão inauguradas as novas instalações da redação da GAZETA DE ALAGOAS, com grande ênfase no dêitico 1435 hoje, dada a importância do acontecimento. Após isso, aparecem outros momentos sustentados pelo uso da afirmação/negação, como em não se trata de uma simples mudança de endereço, nem se limita à modernização dos equipamentos. A nova redação está inserida numa ... com o propósito de convencer o leitor quanto à localização da redação da Gazeta de Alagoas. Há no texto o recurso retórico representado pelo modalizador simplesmente, utilizado para mostrar que a agenda não é apenas para comemorar, mas para a execução de ações, que se viabilizam pela nominalização quando se diz que a nova redação é arrojo e inovação tecnológica, sendo isso retomado por arrojada e inovadora: com a primeira, a idéia se fixa nas tendências ambientais de conforto e eficácia no trabalho; com a segunda, o pensamento do leitor se volta para as últimas tendências tecnológicas da informatização editorial. A linha argumentativa do texto se mantém com o uso da pergunta retórica: E os desafios vencidos? A suposta explicação dada a isso é representada por expressões informais como em: não rema contra a maré, bem como por itens metafóricos como: ela (maré) é parte de um movimento real de enfrentamento e superação das dificuldades da conjuntura, navega com segurança, buscando os ventos adequados, trabalhando as próprias forças e as forças positivas da comunidade alagoana, os quais acentuam a idéia transmitida pelo editorialista. No final do texto, observamos uma retomada do dêitico inicial hoje para, em oposição a amanhã, explicar que a inauguração da sede da Gazeta de Alagoas é um passo a ser dado juntamente com o povo alagoano. O editorial realiza um diálogo com o Estado, no momento em que faz comentários às organizações Arnon de Medo, dizendo que elas vencem desafios e conquistam avanços numa realidade de crise nacional, com o país decrescendo em sua economia. É dirigido à intelectualidade porque o tema abordado não é de interesse público e sim de um pequeno número de leitores, tornando-se seletivo; é impessoal, por não ser assinado; é breve, por ser curto, tendo apenas 7 parágrafos. O editorial exibe um conteúdo de caráter normativo, sendo informativo por informar a evolução das empresas. Apresenta um estilo misto, mesclado pelo intelectual e pelo emocional, caminhando ainda para um estilo circunstancial por aproveitar-se da situação do momento. Na linha ainda interpretativa, esse gênero textual transmite conhecimentos (transmite informações para os seus leitores), estabelece as relações de poder (o editorial escreve a linha do jornal que defende) e instaura identidades (o texto revela as identidades na comunidade humana). 5. Considerações finais Trabalhar os gêneros discursivos de caráter opinativo é tarefa de quem deseja seguir uma perspectiva cheia de controvérsias relativas às peculiaridades de cada modalidade de língua, seja a falada ou a escrita, e à concepção de linguagem adotada. Nesse sentido, os gêneros apresentam-se em sua modalidade escrita com interferências da oralidade ou não, alicerçando-se numa idéia de língua como o espaço interlocutivo para a constituição dos sujeitos. Observamos ser possível agregar os fundamentos argumentativos e críticos. Os primeiros (os argumentativos) aparecem porque os atos de fala exigem que os interlocutores utilizem argumentos, firmados pelo uso de modalizadores, dos operadores 1436 argumentativos, dentre outros elementos lingüísticos, que bem auxiliam no ato de argumentar; os últimos (os críticos) se justificam porquanto o discurso jornalístico permite que façamos uma leitura das relações sociais estabelecidas entre repórteres e ouvintes, das suas identidades e dos conhecimentos e das crenças que eles dominam. Referências ANDRÉ, M. E. D. A de. (1995). Etnografia da prática escolar. Campinas, Papirus. BOGDAN, R. & BIKLEN, S. K. (1982). Qualitative research for education. Boston: Allyn and Bacon. BELTRÃO, Luiz. (1982). Teoria geral da comunicação. 3 ed. Brasília: Theasures. BRANDÃO, H. N. (2000). Texto, gêneros do discurso e ensino. In CHIAPPINI, L. Gêneros do discurso na escola; mito, conto, cordel, discurso político, divulgação científica. São Paulo: Cortez, 5 v. BRETON, Philippe. 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