FINANCIAMENTO E GESTÃO FLEXÍVEL SÃO NECESSÁRIOS PARA ENFRENTAR OS DÉFICITS DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE DO BRASIL No último mês os primeiros médicos cubanos chegaram ao Brasil, no âmbito de um novo programa do governo, para trabalharem em áreas menos assistidas do país, tanto rurais quanto urbanas. Francisco Eduardo Campos explica à Claudia Jurberg porque o Programa Mais Médicos é necessário. Francisco Eduardo Campos tem dedicado grande parte de sua carreira ao desenvolvimento de recursos humanos para saúde, particularmente ao amplo setor público da saúde do Brasil. Ele é professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de Minas Gerais, onde obteve seus títulos de médico (1974), mestrado (1977) e Doutorado em saúde pública (1985). Ele é o secretário executivo da UNA-SUS, a Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde e membro do conselho da Aliança Global para Força de Trabalho em Saúde (GHWA) e da Iniciativa de Líderes Ministeriais da Escola de Saúde Pública de Harvard. De 2005 a 2011, foi secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde no Ministério da Saúde e coordenador da Comissão Interministerial de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. P: O Brasil tem uma taxa relativamente alta de médicos (1.8 para cada 1000 hab.), mas recentemente o Governo decidiu trazer profissionais estrangeiros para trabalhar no seu país. Você pode explicar este paradoxo? R: O mercado de trabalho atual para médicos está aquecido. Estudos mostram que não temos médicos suficientes para atender a crescente demanda dos setores público e privado. A incapacidade de atender a essas demandas tornar ainda mais difícil para o Governo alocar médicos para a zona rural e áreas mais pobres das grandes cidades. Contudo, essa falha é incompatível com o sistema de saúde estabelecido pela Constituição Federal que determina o acesso universal e equitativo da saúde a todos os cidadãos. Por isso, o Governo brasileiro decidiu agir de forma categórica sobre o tema, capacitando mais médicos e trazendo outros de fora do país, com contratos de curto prazo, para preencher essas lacunas atuais. No Brasil, menos de 2% dos médicos são formados em outros países. Em alguns países, essa proporção chega a um terço. Dessa forma, é perfeitamente razoável que o Brasil abra seu mercado para médicos estrangeiros. P: O Governo brasileiro dá incentivos para encorajar médicos brasileiros a trabalharem em áreas urbanas pobres e regiões remotas do país? Por que ainda estão relutantes em ir para essas áreas? R: O Brasil não enfrenta apenas a falta de médicos: esses profissionais são também mal distribuídos. Esse não é um problema só do Brasil, mas de muitos países, como mostra a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os médicos relutam em trabalhar nessas partes do país por diversos motivos. A maioria dos estudantes de medicina no Brasil pertence à elite econômica e social do país e prefere viver nas zonas urbanas mais ricas. As áreas mais 1 pobres da zona urbana e a zona rural não são atrativas para eles ou para qualquer profissional com antecedentes similares. Mas enquanto a falta de professores, arquitetos, engenheiros, artistas, jornalistas, cantores ou músicos qualificados nas pequenas cidades não resulta em situações que ameacem a vida das pessoas, a falta de médicos, sim, demandando, dessa forma, mais atenção. Há muitas barreiras que dificultam a atração de profissionais de saúde para essas áreas, incluindo deficiências de infraestrutura, medo da violência, pouca perspectiva de desenvolvimento na carreira e insegurança de remuneração (devido a práticas precárias de contratação). Além disso, há poucas oportunidades de emprego para os cônjuges desses profissionais ou boas escolas para os filhos. Mais ainda, eles podem temer o isolamento profissional – não ter ninguém para consultar sobre um caso difícil – embora esse problema possa ser em parte abordado por programas de e-saúde, como aqueles ofertados pela Universidade Aberta do SUS. P: O Governo quer criar um contrato compulsório para médicos recém-formados oriundos de instituições públicas para trabalharem por dois anos no Sistema Único de Saúde. O que você acha desse plano? R: Seja por meio de serviço civil obrigatório ou pós-graduação compulsórias, diversos países relacionam a obtenção de qualificação médica ao esforço de responder às necessidades públicas. Por um lado, o plano pode gerar o retorno do investimento público feito na educação dos médicos, e, por outro lado, pode ser a forma de mudar a imagem das áreas rurais – que são vistas com frequência como lugares indesejáveis de se trabalhar -, e modificar a visão de que a atenção primária é algo de “segunda classe”. O interesse público deve sempre prevalecer sobre os interesses do indivíduo ou das associações que representam os profissionais de saúde. Por isso, concordo com a solução proposta pelo Governo Federal. Contudo, temo que aumentar de seis para oito anos o tempo que leva para um médico se graduar possa não ser a melhor abordagem, especialmente dados os quatro anos médios necessários para completar a residência médica. Nossos recursos são limitados e podem não cobrir os salários de todos os médicos que podem vir a cobrar mais para compensar os anos de perdas salariais devido à capacitação adicional. A alternativa, que acabou de ser aprovada pelo Congresso, é exigir que o primeiro ano da residência médica seja feita em um estabelecimento de atenção à saúde da família, a começar em 2019. De todo modo, não há dúvidas de que uma grande quantidade de médicos deve ser bem qualificada em atenção primária. “O interesse público deve sempre prevalecer sobre os interesses do indivíduo ou das associações que representam os profissionais de saúde.” P: O Programa Mais Médicos permite a importação de um número limitado de médicos estrangeiros para trabalhar nas áreas menos assistidas. Algumas pessoas dizem que o trabalho deles pode ser de qualidade inferior ou que competiram com os médicos brasileiros. Esses receios são justificados? R: Os profissionais estrangeiros só podem aderir ao Programa Mais Médicos se forem licenciados para trabalhar nos seus próprios países. Não creio que os países de onde provavelmente atrairemos médicos graduados tenham sistemas educacionais deficitários, por isso não estou preocupado com a qualificação desses profissionais. Além disso, eles não competirão com os médicos brasileiros qualificados porque só receberão licença temporária (três anos), restringindo também a atuação desses profissionais aos locais de 2 atendimento onde foram lotados. Apenas se passassem no Revalida, eles poderiam requerer uma licença médica permanente e, dessa forma, competiriam com os profissionais brasileiros. P: Durante a 66ª Assembleia Mundial da Saúde em maio, o Brasil impressionou outros países com sua alta relação médico/população. Quais são os órgãos no Brasil responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção da força de trabalho da saúde? R: De acordo com a Constituição brasileira, o Ministério da Educação é responsável pela área da educação. Contudo, quando se trata de profissionais de saúde, essa responsabilidade é compartilhada com o SUS. Nos últimos anos, esses órgãos têm fortalecido essa colaboração de diversas formas. Por exemplo, eles têm trabalhado juntos por meio da Comissão Interministerial de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, criado em 2007. Juntos, esses ministérios são responsáveis por diversas iniciativas que visam melhorar a educação técnica de nível médio, bem como cursos de graduação, residência médica e outros programas de formação para todos os tipos de trabalhadores da saúde. Também disponibilizam educação médica continuada para proporcionar a atualização das habilidades do médico. P: Quais são os principais desafios para o desenvolvimento da força de trabalho nos últimos anos? R: Desde a década de setenta, com a criação do programa interministerial de recursos humanos, tem havido consenso sobre quais são os principais problemas. Naquela época, o programa envolvia quatro ministérios: Educação, Saúde, Previdência e Trabalho. Desde então, temos lidado com alguns problemas com ajuda da Organização Pan-Americana da Saúde. Por exemplo, desenvolvemos uma estratégia para capacitação de assistente de enfermagem (que estão passando para um novo nível) para se tornarem enfermeiras de nível médio. As discussões entre esses quatro ministérios nem sempre era fácil, pois cada setor tinha suas próprias prioridades. Contudo, esse diálogo continua até hoje. O Conselho Nacional de Saúde – CNS (órgão superior de tomada de decisão da saúde no Brasil) tem uma comissão de recursos humanos bastante ativa que examina todas as propostas de políticas antes de serem submetidas ao pleno do conselho. Do mesmo modo, a Comissão Tripartite (composta por representantes dos governos federal, estaduais e municipais) tem uma forte comissão de recursos humanos. Cada política aprovada por portaria ministerial tem que ser examinada primeiro por essas duas comissões, nas quais a sociedade civil, incluindo pacientes e trabalhadores da saúde, é bem representada. P: Pode-se comparar a força de trabalho da saúde do Brasil com as de outras economias emergentes? R: É difícil fazer comparações porque, como mencionei, o Brasil tem estruturas singulares de governança dos temas de força de trabalho da saúde. Apesar disso, o Brasil tem sido elogiado em diversos eventos internacionais como um país que compreende a centralidade da força de trabalho da saúde como um elemento essencial de um sistema de saúde complexo. O sistema de saúde brasileiro encoraja a discussão entre todos os atores – incluindo a sociedade civil, trabalhadores da saúde, autoridades da saúde – para melhorar o sistema de saúde por meio de subsídios, regulamentações, incentivos e outros mecanismos. 3 P: Por exemplo? R: A reforma do currículo escolar do médico. Atualmente, há uma enorme lacuna entre as necessidades do SUS e o modelo dominante da abordagem curativa, hospitalocêntrica, que forma a base dos nossos cursos de medicina. Cerca de 400 instituições acadêmicas que são regulamentadas e financiadas pelo Ministério da Educação estão recebendo agora incentivos financeiros do Ministério da Saúde para mudarem a ênfase da alta complexidade para a atenção primária, por meio de subsídios a professores e profissionais de saúde. Além disso, recentemente o Ministério da Saúde tornou-se um importante financiador da residência médica. Entre os anos de 2010 e 2013, ele duplicou o número de bolsas de estudo para ampliar o número de médicos qualificados nas especialidades prioritárias e alcançar mais equidade no sistema público, como exigido por lei. Nenhum outro país tomou medidas tão amplas relacionadas à força de trabalho da saúde com tanta vontade política. P: O Brasil percorreu um longo caminho em termos de construir um sistema público de saúde baseado no acesso universal. Contudo, a saúde foi um tema central durante as manifestações ocorridas no começo do ano no país. Por que o público não está satisfeito com o SUS? R: O sistema é subfinanciado e sobrecarregado. O Brasil impôs uma taxação às transações financeiras de 1997 a 2007 (0,25% entre 1997 e 2002 e 0,38% de 2002 a 2007). A receita ampliada por esse tributo contribuiu substancialmente para o orçamento da saúde pública. Contudo, em 2007, o governo perdeu a votação no Congresso para continuar a arrecadar esse tributo e ele foi extinto. Como resultado, o SUS perdeu certa de um quarto das suas receitas. Embora seja extremamente subfinanciado, o sistema continua a fazer milagres tanto na atenção básica como na alta complexidade. O tempo de espera para a média complexidade é frequentemente muito longo e alguns hospitais estão em situação precária. Entretanto, esses problemas não serão resolvidos pela privatização do sistema de saúde, como alguns sugerem. O que precisamos é uma revisão do modelo de gestão, dando a ele mais flexibilidade, e adequando seu financiamento. Esses fatores são centrais para melhorar a qualidade da assistência e os serviços ofertados pelo SUS. P: Qual a base legal do Brasil para o acesso universal à saúde? R: A Constituição brasileira tem cinco capítulos dedicados à saúde. Ela determina que o acesso aos cuidados de saúde no país seja público, gratuito, universal e equitativo para todos os cidadãos brasileiros ricos ou pobres. É um dos mais generosos e socialmente inclusivos programas de saúde no mundo. Contudo, ao mesmo tempo em que a base legal da Constituição de 1988 e outras leis sejam importantes, o que mais importa é a conscientização da população. O movimento da saúde pública brasileiro, que resultou na criação do SUS em 1988, cresceu conjuntamente aos apelos por redemocratização no país e fim da ditatura. Por isso, fez parte do apelo público como um todo por melhores serviços públicos, tendo sido diretamente influenciado por importantes segmentos da população. Isso é particularmente verdadeiro no caso das populações urbanas mais pobres e dos trabalhadores sindicalizados. Com todas as suas dificuldades, o SUS não é meramente um projeto técnico: ele é um produto da vontade política das pessoas. 4