Entrevista a Maria Ferreira Diniz
A União:
“Minha relação com A União é antiga. Foi o primeiro jornal que pedi
emprego, mas na época não consegui, isso em 91. Depois, em 93,
entrei pela primeira vez no jornal. Saí e voltei várias vezes. A
primeira vez que fui editor de Cultura foi Carlos César como editor
geral, como acontece agora”.
A editoria:
“Assumi em março de 2003. Bem, estava passando por problemas
financeiros na época, quando recebi convite de Itamar Cândido
(superintendente do jornal) para uma conversa no jornal. Foi
quando ele me convidou para editar o Correio das Artes, em
substituição a William Costa, que estava saindo da editoria do
suplemento. Acertamos detalhes financeiros e aceitei de pronto”.
Equipe:
“A estrutura mínima possível. Contava apenas com um diagramador
(Damasceno Júnior), um ilustrador (Domingos Sávio) e a minha
vontade de fazer algo diferente”.
Primeiras mudanças:
“A principal mudança mesmo foi em relação ao enfoque do
suplemento. Antes uma coisa fria, se transformou num suplemento
dinâmico, com capas temáticas, geralmente em cima de autores
contemporâneos. Tive a preocupação de fazer isso, porque, como
poeta da atualidade, sempre achei um equívoco jornalístico a falta
de valorização das pessoas que estão fazendo a literatura na
atualidade. Então, pensei em trazer para o Correio esses escritores
e fazê-los conhecidos do público. Para isso, foi fundamental a
participação de Astier Basílio. Primeiro como colaborador e depois
como repórter. Ele trouxe a tradição para o Correio, enquanto eu
trazia a vanguarda. Conversávamos muito e unimos nossas
diferenças estéticas para tornar o jornal plural e sem qualquer tipo
de censura às escolas e tendências literárias. Não fosse Astier,
talvez a revista não tivesse essa cara atual”.
Maiores dificuldades:
“Tecnicamente, as de sempre, as que sempre ocorrem no
jornalismo cultural paraibano. Pouco caso das editorias em relação
ao segmento cultura, falta de jornalista qualificado para trabalhar,
enfim. Do ponto de vista editorial, a principal dificuldade foi ter jogo
de cintura para lidar com as vaidades literárias, da província e de
fora. Mas aprendi muito”.
Maiores realizações:
“Muita coisa. Tivemos a criação do Troféu Correio das Artes, o
lançamento do livro Diálogos, a participação e convite para
participar de eventos literários em todo o Brasil, a parceria com sites
como Cronópios e Capitu e a melhoria na qualidade gráfica e
editorial. Mas creio que a principal realização foi mesmo dar
visibilidade nacional a um suplemento feito aqui. Sem falsa
modéstia, acho que muito da valorização que os autores
contemporâneos locais vêm tendo na mídia nacional se deve
(indiretamente) ao Correio das Artes, que nestes últimos anos tem
se tornado uma espécie de assessoria de imprensa dos escritores
locais”.
Estrutura atual:
“A mesma do início. Aliás, pior. Hoje só tenho um diagramador
(Roberto) à minha disposição. Antes tinha ilustrador. Para as
reportagens, tenho que utilizar as repórteres do caderno de
Cultura”.
Relação com a diretoria:
“Nunca existiu nenhum tipo de interferência editorial. Sempre fiquei
livre para fazer meu trabalho. No máximo, sugestões de uma ou
outra capa, mas nada imposto. Mas a postura é de passividade”.
Mudança no lay-out:
“Creio que aconteceram em função da necessidade de adequar o
Correio das Artes ao século 21. Neste ponto, a participação do
Cícero Félix (enquanto editor de artes) foi fundamental. Ele mudou
o visual do Correio. Tivemos boas brigas, mas prevaleceu o bom
senso e o suplemento ficou mais moderno visualmente, sem perder
a tradição. O número de páginas foi variando de acordo com as
mudanças feitas. Quando se tornou revista, ampliamos para 24.
Agora, que é mensal, para 40. A circulação é que continua sendo o
grande entrave do Correio”.
Reação às mudanças:
“A melhor possível. Basta conferir pela seção de cartas do
suplemento. Elogios, críticas e dicas de todo o país. Dizem que a
cultura não é viável. Mas faço uma pergunta: qual jornal da Paraíba
tem seção de cartas hoje? O Correio tem e nunca faltam cartas”.
Correio das Artes no mundo virtual:
“O caso do blogue foi mesmo por necessidade. Na época não
existia um Correio virtual. Como envio a cada edição um boletim
com resumo do que tem no suplemento para todo o país, recebi
cobranças de pessoas querendo ter acesso a revista. Como não
tenho condições de enviar o Correio às cerca de 5 mil pessoas que
recebem este boletim, criei o blogue em minha conta da UOL para
facilitar o acesso da leitura dos textos inseridos na revista. A
comunidade no orkut foi apenas mais um meio de ocupar espaços e
estamos sempre colocando enquetes lá, com boas respostas dos
leitores. Quanto ao perfil, diria que é praticamente o mesmo do que
lê o Correio das Artes. Apenas nos leitores do blogue prevalecem
os escritores, jornalistas que moram fora do estado”.
Distribuição:
“Talvez não seja a pessoa mais indicada a responder esta pergunta.
Sei que a distribuição é fraca, como do jornal de uma forma geral.
Mas isso é um problema crônico que se repete há séculos sem
solução. É feita apenas no encarte de jornal. Quando acontece
algum evento (tipo Fenart e bienais) é que sai um reparte extra para
distribuição. Nesse caso, quando possível, envio para algumas
pessoas fora do Estado. Em outras diretorias, havia um catálogo de
endereços e o Correio era mandado para alguns escritores e
instituições de todo o país pelos correios, bancado pelo jornal”.
Tiragem do suplemento:
“A mesma do jornal A União: entre 3 e 4 mil exemplares
Divulgação:
“Mídia em si, não existe. O que existe é a divulgação através do
Boletim que faço a cada edição para cerca de cinco mil e-mails de
escritores, jornalistas, produtores culturais, estudantes e pessoas
comuns de todo o país. Existe também a divulgação boca-a-boca
de seus leitores e colaboradores e também a exposição que faço do
suplemento nos eventos que participo”.
Parcerias:
“A principal delas é com o site Cronópios, editado pelo Édson Cruz
e o Pipol, em São Paulo. O site, o maior de literatura feito hoje no
país, divulga algumas matérias publicadas no Correio, dando o
devido crédito. Isso é bom porque coloca os escritores paraibanos
que publicam no Correio e saem na Cronópios em pé de igualdade
com os escritores do Sul. Antes do Cronópios, existia o Capitu,
também de São Paulo, que fazia a mesma parceria. Outros sites
também vez por outra estão divulgando matérias do Correio”.
Público:
“Creio que escritores, estudantes de letras e comunicação e
interessados em literatura de uma forma geral”.
Interação com o leitor:
“Temos a página do leitor em cada seção. Também temos a
comunidade no orkut, sempre com perguntas em cima das matérias
que publicamos. E temos também as respostas aos e-mails que
envio com resumo das edições. Algumas publico, outras não, por
serem muito pessoais e em cima do editor do suplemento e não da
revista”.
Critérios para escolha de temas, textos e colaboradores:
“O critério se divide entre literário e jornalístico. Ás vezes, uma capa
é determinada pela importância de um livro lançado ou de um tema
abordado por determinado autor. Em outras, pela importância do
personagem escolhido para capa ou para marcar uma data
histórica. Para a escolha dos temas, vou pelo critério jornalístico
mesmo. Se determinado colaborador publica pouco no CA, posso
priorizar ele, desde que o texto dele seja interessante. Não há
colaboradores no índex do Correio. Todos podem ser publicados.
Também não há queridinhos e nem protegidos. Há alguns que
saem mais por enviarem mais colaborações”.
Participação dos autores locais:
“Priorizo os autores locais (e isso pode ser constatado no número
de capas para autores de fora versus autores locais). Mas sem
xenofobismo ou exclusão. Se acho que o escritor de fora merece
capa, faço isso sem nenhum medo, mesmo que ele seja
desconhecido entre nós”.
Os textos:
“Escolho pelos temas, mas procuro contrabalancear. Quando vejo
que separei muitas resenhas literárias, fico procurando
colaborações de outras áreas e vice-versa. É um critério subjetivo,
claro. Outro editor, talvez escolhesse outros textos. Daí ser
fascinante o trabalho de edição”.
Vocação do Correio das Artes para a Literatura:
“Eu creio que sim. Mas isso não impede que ele abra espaço para
outras artes, desde que sempre priorizando a literatura”.
O papel da poesia:
“A poesia é fundamental para o Correio das Artes. Mas,
infelizmente, nem sempre temos boas colaborações poéticas e
acabamos publicando textos de qualidade inferior. Acontece, não
é?”
Preocupação com as ‘outras’ artes:
“Existe. Mas de uma forma que ela não se sobressaia à literatura.
Já tentaram fazer com que eu abrisse mais espaço para a música,
inclusive em capas. Mas faço isso com muito cuidado. Se for abrir
para a música de forma mais intensa, ela toma o espaço da
literatura, que sempre foi o patinho feio da mídia cultural. Neste
ponto, prefiro valorizar artes como teatro ou artes plásticas, que não
são valorizadas quanto a música e o cinema nos cadernos de
cultura”.
Porque destacar o cinema:
“Porque tínhamos um crítico de qualidade como João Batista,
primeiro ponto. Segundo, porque cinema fascina mesmo. No caso
de João Batista, ele é colunista fixo. Tem um dos melhores textos
da crítica paraibana”.
Rodapé:
“Foi uma proposta de Rinaldo de Fernandes, que faz coluna
idêntica no Rascunho do Paraná. Gostamos da proposta e
acatamos”.
Preocupação especial com a parte visual:
“Existe e estamos sempre inovando. Cícero Félix é o responsável
por esta área. O cuidado é para que a parte visual não fique em
primeiro plano em relação à questão editorial. Acho que estamos
conseguindo este equilíbrio até agora”.
Colaboradores:
“Em 95% dos casos, eles que enviam seus textos. Poucas vezes a
editoria encomenda textos, a não ser em capas temáticas”.
Remuneração:
“Infelizmente não. Uma vez até a Maria José Limeira reclamou
disso. Concordo com ela, mas não consegui nada de positivo em
relação a isso”.
Interesse das Editoras:
“Interesse sempre existe, imagino. Mas sou acanhado para isso e
nunca procurei de forma incisiva às grandes editoras. Editoras
menores, como Objetiva, Escrituras, Lamparina, Rocco, 34, estão
sempre nas páginas do Correio”.
Critério escolha:
“O critério é que o livro lançado esteja dentro do interesse editorial
do Correio. Independente de qual seja a editora”
Participação das editoras paraibanas?
“Nenhuma. Os livros que recebemos publicados na Paraíba são
enviados pelos próprios autores, que fazem sua própria divulgação,
já que as editoras locais não se preocupam com isso”.
Polêmicas literárias:
“Ih, polêmicas tivemos muita. Algumas públicas. Como a do texto de
Hildeberto Barbosa Filho sobre Solha. HBF escreveu um texto com
titulo quilométrico. Tive que adaptar o título ao padrão gráfico da
revista. HBF achou que foi censura e respondeu com um texto
irônico. Publiquei a resposta com uma contra-reposta minha,
explicando o trabalho de edição. Soube depois que os dois textos
foram temas de trabalho num curso da UFCG, como exemplo de
jornalismo cultural. Outra de HBF pública foi o artigo “Odeio
Poesia”, que mexeu num vespeiro e teve resposta no orkut, no
Correio das Artes e no Cronópios. O texto de Astier Basílio sobre os
50 anos do Concretismo também teve resposta no próprio Correio
das Artes, em texto assinado por Luciano Justino, de Campina
Grande. Mas tivemos outras. Como a capa que dei para Fabrício
Carpinejar, que mereceu crítica de Frederico Barbosa. Ou a
discussão (no bom sentido) que tive com um poeta local, que me
ligou para questionar a publicação de poemas de determinada
poeta no Correio. Respondi que publiquei tal poeta por ela ter sido
prefaciada por este mesmo poeta que me questionava. Afora
algumas polêmicas de bastidores que me reservo no direito de não
comentar. Enfim, é difícil agradar a todos. Mas o fato de existir
polêmicas é uma prova de que o Correio está mais vivo do que
nunca”.
Diferencial de se editar um suplemento literário em um jornal
oficial:
“Por incrível que pareça, tenho mais liberdade que teria num jornal
privado. O diferencial talvez seja justamente esta liberdade. Não há
também preocupação com o retorno financeiro. Então, a cobrança
da diretoria é bem menor”.
Garantia de longevidade por ser um ‘produto’ de um jornal
oficial:
“Com certeza. Inclusive, uma vez recebi e-mail de um cara de fora
do estado. Ficou decepcionado quando descobriu que o Correio é
bancado pelo governo. Respondi para ele que até entendia seus
argumentos, mas que se não fosse assim, um suplemento com uma
história tão bonita e importante para a literatura paraibana e
nacional nem teria existido. Ele calou-se”.
Diferencial do CA em relação ao demais suplementos literários:
“Talvez o principal seja a pluralidade editorial. O Correio não se
apega a nenhuma corrente literária específica. O editor pode ter sua
preferência (e tem), mas o Correio não pode expressar isso. É
assim que penso. Jornalísticamente. Mas temos bons suplementos
literários no país, embora muitos deles estejam atrelados a guetos e
grupos literários. Cito, entre os bons, o Suplemento de Minas Gerais
e o de Pernambuco, este em nova fase. Temos também boas
revistas, como Coyote e ETC. E alguns sites, como Zunái e
Bestiário”.
Importância do Correio das Artes para a literatura paraibana:
“O Correio das Artes sempre foi, e continuará sendo por muito
tempo, o estuário da nossa produção intelectual. Todos os grandes
escritores contemporâneos passaram pelo Correio das Artes desde
a sua fundação”.
Repercussão do CA nos meios culturais:
“A melhor possível. E a prova são essas polêmicas que falei acima.
Lá fora, sempre que levo o Correio das Artes para eventos literários,
todos que o vêem ficam “doidos” e querendo saber como a Paraíba
consegue produzir revista literária com qualidade boa. Afora os
pedidos que vivo recebendo para enviar edições da revista, até
mesmo do exterior”.
Personagem que mais influencia o ‘editor’ do Correio das
Artes: escritor/poeta ou o jornalista:
“O jornalista, sem nenhuma dúvida. O poeta só influência na hora
de não ter medo de abrir espaço para as vanguardas literárias”.
(Entrevista concedida a jornalista Maria Ferreira Diniz sobre a
experiência de editar o suplemento literário Correio das Artes.
A entrevista foi inserida na monografia final do curso de
Comunicação, com habilitação em jornalismo, da UFPB, cujo
tema era: O Correio das Artes e suas edições publicadas entre
2003 e 2006. A jornalista, que teve como orientador o professor
Wellington Pereira, tirou um dez na monografia, apresentada
em junho de 2007)
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Entrevista a Maria Ferreira Diniz