Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 33 EFEITO DO BENEFICIAMENTO NAS PROPRIEDADES FÍSICAS E MECÂNICAS DOS GRÃOS DE ARROZ DE DISTINTAS VARIEDADES Fabrício Schwanz da Silva1 Paulo Cesar Corrêa2 André Luís Duarte Goneli3 Rodrigo Martins Ribeiro4 Paulo Cesar Afonso Júnior5 RESUMO O conhecimento das propriedades físicas e mecânicas dos produtos agrícolas é de fundamental importância para uma correta conservação e para o projeto, dimensionamento, construção e operação dos diversos equipamentos utilizados nas principais operações de pós-colheita destes produtos. Para o caso específico do arroz, equipamentos e operações, quando mal dimensionados e realizadas, podem gerar a quebra dos grãos e, conseqüentemente, uma redução nos preços de comercialização. Com este trabalho objetivou-se, determinar a influência do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz de distintas variedades. Foram utilizados grãos de arroz em casaca, integral (descascados) e polidos de três variedades (Urucúia, Confiança e Jequitibá), com teor de umidade de 12% b.u. Pode-se concluir com os resultados obtidos neste experimento que a massa específica aparente de todas as variedades aumenta com o beneficiamento dos grãos de arroz, podendo este aumento ser de até 51% e as variedades diferem estatisticamente entre si; a massa específica real, de forma geral, não sofre a influência do beneficiamento e das variedades; a porosidade da massa de grãos de arroz sofre influência do beneficiamento, sendo maior para os grãos em casca e menor para os polidos, sendo está diferença de até 26%; os coeficientes de atrito externo estático e dinâmico diminuem com o beneficiamento em todos os materiais de parede e variedades, sendo que o coeficiente de atrito estático tem maior influência da variedade do que o coeficiente dinâmico; os maiores coeficientes de atrito são oriundos do atrito com a superfície de madeira e os menores com a de aço e a força de compressão necessária para promover o colapso dos grãos de arroz é afetada significativamente com o beneficiamento, não sofrendo influência da variedade do produto. Palavras-chave: Oriza sativa L., beneficiamento, propriedades físicas e mecânicas EFFECT OF THE BENEFICIATION IN THE MECHANICAL AND PHYSICAL PROPERTIES OF THE RICE GRAINS OF DIFFERENT VARIETIES ABSTRACT The physical and mechanical properties knowledge of agricultural products is very important to a correct conservation of them and to the designing, manufacturing and operation of the equipment used in the main post harvest operations. For the rice case, when the processing equipment is not designed properly it can cause the grain break and low marketing values. This work aimed to determine the influence the processing at the physical and mechanical properties of three varieties of rice grains (Urucuia, Confiança and Jequitibá). Rough rice, brown rice and milled rice with 12% w.b. moisture content were used. The results of the experiments showed that the apparent density of all types of rice increases due to the rice g rains processing and this increase can reach up to 51% and the varieties Keywords: Oriza sativa L., processing, physical and mechanical properties __________________ 1 Eng. Agrícola, M.S., Doutorando no DEA-UFV, Viçosa - MG, CEP: 36571-000, fabrí[email protected] Eng. Agrônomo, D.S., Professor Adjunto no DEA-UFV, Viçosa - MG 3 Eng. Agrônomo, Mestrando no DEA-UFV, Viçosa - MG 4 Bolsista PIBIC/FAPEMIG no DEA-UFV, Viçosa - MG 5 Enga. Agrícola, D.S., Pesquisador EMBRAPA CAFÉ, Brasília - DF 2 34 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. differ statistically. The processing and the varieties don t influence the real density, broadly. The porosity of the rice grains mass varies according to the processing. It s bigger to the rough rice and it s less to the polished one. This difference is up to 26%. The static and dynamic external coefficients of friction decrease with the processing in all wall material types and different varieties of then. The static coefficient of friction is more influenced by the variety than the dynamic coefficient. The higher coefficients of frictions are on wood surface and the lower ones are on steel surface. The compression power needed to collapse the rice grains is affected significantly by its processing and it s not affected by the variety of the product. INTRODUÇÃO Dentre os cereais mais cultivados no mundo, destaca-se o arroz, constituindo-se na base alimentar de grandes contingentes humanos e inúmeros esforços são realizados visando à manutenção da qualidade dos grãos desta cultura nas diversas operações de pós-colheita. No Brasil, segundo Vieira & Carvalho (1999), o arroz é um cereal consumido principalmente na forma de grãos inteiros, como produto de mesa, sendo mais conhecidos três tipos de produtos: o arroz integral (descascado), o arroz branco (polido) e o arroz parboilizado, os quais são oriundos do arroz em casca e obtidos por diferentes processos de pós-colheita que geram mudanças físicas, químicas e estruturais nos grãos. O arroz é um produto agrícola que tem seu valor de comercialização dependente da qualidade física dos grãos verificada após o beneficiamento. O percentual de grãos inteiros é o parâmetro de maior importância para a indústria do arroz (Marchezan, 1991). O conhecimento das propriedades físicas e mecânicas dos produtos agrícolas é de fundamental importância para uma correta conservação e para o projeto, dimensionamento, construção e operação dos diversos equipamentos utilizados nas principais operações de pós-colheita destes produtos (Afonso Júnior, 2001; Silva & Corrêa, 2000). No caso específico do arroz, equipamentos e operações, quando mal dimensionados e realizadas, podem gerar a quebra dos grãos e, conseqüentemente, uma redução nos preços de comercialização. A fim de minimizar os custos de produção para maior competitividade e melhoria da qualidade do produto processado, a determinação e o conhecimento do comportamento das propriedades dos grãos de arroz são os principais fatores a contribuírem para o adequado desenvolvimento de processos e simulações, que visem aperfeiçoar o sistema produtivo dessa cultura. Informações referentes à porosidade e à massa específica, dentre outras características físicas dos produtos agrícolas, são consideradas de grande importância para estudos envolvendo transferência de calor e massa e movimentação de ar em massas granulares. Juntamente com o teor de umidade, o volume, a massa específica e a porosidade são parâmetros básicos para o estudo das condições de secagem e armazenagem de produtos agrícolas e, conseqüentemente, possibilitar a predição de perdas de qualidade do material até o momento de sua comercialização. A massa específica pode ser definida como a razão entre a massa e o volume ocupado por determinado produto. Este conceito aplicado à massa e volume de apenas um grão determina a massa específica real ou unitária. Já a aplicação do conceito para uma determinada massa ou quantidade de produto estabelece a definição da característica massa específica aparente ou granular (Pabis et al., 1998). Já a porosidade de uma massa granular de acordo com Sasseron (1980), é definida como a relação entre o volume de espaços vazios ocupados pelo ar nos espaços intergranulares e o volume total da massa de grãos. A porosidade pode ser determinada por métodos diretos, volume de líquido acrescentado à massa de grãos, e por métodos indiretos, com o uso de picnômetro de comparação ar. Vários autores, ao longo dos anos, destacam que o conhecimento de outras propriedades físicas, como por exemplo, dos coeficientes de atrito externo, ou seja, dos grãos contra a superfície dos materiais de parede de equipamentos e silos, são necessários e fundamentais para o projeto racional e seguro de equipamentos de transporte, processamento e armazenamento (Suthar & Das, 1996; Milani, 1993; Mohsenin, 1986; Lawton, 1980), visto que esta propriedade desempenha um importante papel no comportamento de pressões e fluxo em silos. O coeficiente de atrito é definido pela relação entre a força de atrito (força que atua como resistência ao movimento) e a força normal sobre a superfície do material empregado na construção da parede. Para os produtos biológicos, segundo Mohsenin (1986), são considerados dois Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. tipos de coeficientes de atrito: o atrito estático, determinado pela força que é capaz de vencer a oposição ao movimento e o atrito dinâmico, determinado pela força que se manifesta na superfície de contato quando há movimento, dependendo principalmente da natureza e do tipo dos materiais em contato. Os aparelhos apropriados para medir as propriedades físicas e de fluxo dos produtos armazenados são os de cisalhamento (Calil Jr.,, 1990), onde, entre estas propriedades, encontramse os coeficientes de atrito externo estático e dinâmico. Jenike realizou um estudo muito importante para a determinação dessas propriedades, desenvolvendo uma metodologia e um aparelho de cisalhamento apropriado para produtos armazenados, a célula de carga de Jenike ou Jenike Shear Cell como é conhecida internacionalmente, sendo este um aparelho de cisalhamento direto com movimento de translação, o qual, desde então, tem sido usado por pesquisadores em todo o mundo e adotado e recomendado pelas principais normas internacionais (Milani, 1993; Calil Jr., 1990). Com os parâmetros determinados por meio deste equipamento, são possíveis a determinação e a predição das pressões que ocorrerão na estrutura e, principalmente, dos tipos de fluxo, o que é muito importante no processamento e na expedição do produto armazenado a granel. Haaker (1990) relata em seu estudo que da maioria dos aparelhos de avaliação de cisalhamento, um dos mais utilizados é o de Jenike, no qual as propriedades dos produtos são medidas de acordo com um método bem descrito, levando, em geral, a resultados seguros para projetos de silos. De acordo Satake e Yamashita citados por Shitanda et al. (2002), o processamento e o beneficiamento do arroz envolvem um número muito grande de operações unitárias, durante as quais os grãos ficam expostos a várias forças que podem ser devido a impacto, cisalhamento e atrito, principalmente, durante o seu descascamento e beneficiamento. (Shitanda et al., 2002). Ojayi & Clark (1997) afirmam que a magnitude do dano causado, durante o processamento, depende das propriedades físicas e mecânicas dos grãos. O conhecimento das propriedades mecânicas dos grãos de arroz, principalmente, da resistência do grão a compressão, é importante para a análise e a determinação da quebra e ou fissura dos mesmos durante seu processamento (Wouters & Baerdemaeker ,1988; Pomeranz & Webb, 1985). Em vista do exposto, e, considerando a escassez de dados na literatura científica específica 35 da área, objetivou-se, com este trabalho, determinar a influência do beneficiamento dos grãos de arroz nas propriedades físicas e mecânicas de distintas variedades. MATERIAL E MÉTODOS Este trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Propriedades Físicas e Avaliação de Qualidade de Produtos Agrícolas, localizado no Centro Nacional de Treinamento em Armazenagem - Centreinar, no campus da Universidade Federal de Viçosa UFV, Viçosa MG. Foram utilizados grãos inteiros de arroz tipo longo fino, de três variedades: Confiança (sequeiro), Urucúia e Jequitibá (irrigados) em três níveis de beneficiamento, em casca, descascado (integral) e polido, com teor de umidade de aproximadamente 12% b.u., determinado pelo método da estufa, 105 ± 3ºC, por 24 horas de acordo com Brasil (1992). Os distintos graus de beneficiamento foram obtidos por intermédio do descascamento e brunimento dos grãos com casca em uma máquina testadora de arroz , sendo este equipamento padrão para teste de rendimento e qualidade do produto. A massa específica global ou aparente ( g) foi determinada, utilizando-se uma balança de peso hectolítrico da marca Dallemole, com capacidade de um litro, em cinco repetições para cada variedade e grau de beneficiamento. A porosidade da massa granular de arroz das três variedades foi determinada, para os grãos com casca, descascados e polidos, pela média de cinco repetições, utilizando um picnômetro de comparação a ar construído no Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, segundo processo descrito por Day, citado por Moshenin (1986). A determinação da massa específica unitária ou real ( ) foi realizada, matematicamente, em função da porosidade ( ) e da massa específica global ( g) da massa de grãos de acordo com a seguinte relação (Moshenin, 1986): g 1 (1) Os coeficientes de atrito externo ( ) estático e dinâmico foram determinados em cinco repetições com a utilização do equipamento de cisalhamento de Jenike, internacionalmente por Jenike Shear Cell , modelo TSG 70-140, recomendado e adotado pelas principais normas Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. 36 internacionais de silos, entre elas a australiana, européia e alemã. As determinações foram realizadas de acordo com a metodologia descrita por Milani (1993) e Jenike (1980). Para a realização dos testes utilizou-se uma célula de cisalhamento de alumínio de 70 cm2 e os materiais de parede empregados nos testes foram: aço, madeira e concreto. Para medir o atrito, entre o produto e o material da parede do silo, a base da célula de cisalhamento, foi substituída por uma placa quadrada de cada material confeccionada com as medidas de 150 x 150 mm de lado e 5 mm de espessura. As forças de cisalhamento foram medidas sob diferentes cargas normais de 0, 1, 2, 3, 4 e 5 kg. O lugar geométrico da parede (IWYL) é a reta obtida por regressão, unindo os pares dos valores calculados de tensão normal ( w) e tensão de cisalhamento ( w), formando com a horizontal o ângulo de atrito com a parede ( w). O coeficiente de atrito com a parede ( ) foi determinado matematicamente pela seguinte equação: ' tan w (2) Para cada carga normal, as tensões normais ( w) e de cisalhamento ( w) foram calculadas, utilizando-se as seguintes equações: Tensão normal ( w): w W wt (W r Wr Wm) Vr (3) Tensão de cisalhamento ( w): w A caracterização do material de parede foi representada pela rugosidade média (Ra) das superfícies, medidas com a utilização de um rugosímetro digital, modelo SJ-201, em dez repetições, na direção do deslocamento dos grãos. A utilização do valor da rugosidade média, deve-se ao fato de ser o parâmetro tradicional para representar a rugosidade de superfícies. A determinação da resistência à compressão foi realizada através de ensaios de compressão uniaxial, segundo metodologia descrita no ASAE Standards (2000), individualmente, em amostra de 30 grãos de cada variedade e nível de beneficiamento. Os grãos foram comprimidos em sua posição natural de repouso, utilizando-se uma máquina universal de teste, modelo TA-HDi Texture Analyser, conjugada a um computador. A compressão do produto foi realizada com uma velocidade constante de aproximação de 0,14 mm.s-1, conforme Shitanda et al. (2002). O comportamento dos grãos foi analisado por meio do software Texture Analiser, cuja interface gráfica permitiu obter os pontos referentes ao colapso dos grãos e suas respectivas forças, através de gráficos da curva de força-deformação. Os resultados obtidos para as variáveis estudadas foram submetidos à análise de variância, seguindo um delineamento inteiramente casualizado, utilizando um esquema fatorial 3 x 3 (três variedades e três graus de beneficiamento) com cinco repetições para as propriedades físicas e trinta para a compressão, para cada tratamento. As médias foram comparadas pelo teste de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO sw * g A (4) em que, Wwt = peso total da amostra incluindo anel de cisalhamento, tampa e produto armazenado, kg; peso da amostra de material da parede, kg; Wm = Ww = Sw = carga sobre o pendural de pesos do teste de atrito, kg; força de cisalhamento registrada, kg; Vr = Volume do anel de cisalhamento, m3; A = área da secção transversal da célula, m2; G = constante gravitacional, m.s-2; Wr = peso do anel de cisalhamento, kg; e WL = peso da tampa de cisalhamento, kg. Os valores médios das propriedades físicas, massa específica real, massa específica aparente e porosidade dos grãos de arroz para os fatores estudados, variedade e nível de beneficiamento, encontram-se no na Tabela 1. Nesta tabela pode-se observar que, tanto massa específica aparente quanto para a porosidade, para, praticamente, as 3 variedades, diferem significativamente entre si, para cada nível de beneficiamento. Não se observa este resultado para a massa específica real. No caso da porosidade, esta diminui com o beneficiamento, ou seja, com a retirada da casca e do polimento do grão integral (descascado). O que se deve, possivelmente, `a característica pilosa da casca do arroz, permitindo um maior índice de vazios na massa de grãos, enquanto que, com o beneficiamento, o volume de espaços intergranulares diminui, diminuindo conseqüentemente a porosidade da massa. Com relação às Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. variedades, não foram observadas diferenças significativas para esta propriedade, para os grãos de arroz integral, apresentando somente diferença significativa entre as variedades Urucúia e Jequitibá para os grãos com casca e grãos polidos. Os valores da porosidade determinados para os grãos de arroz em casca, neste experimento, foram 37 superiores aos encontrados por Brooker citado por Silva & Corrêa (2000) e por Wratten et al. (1969), que encontram valores de, aproximadamente, 60% para grãos com teor de umidade de 12% b.u., o que se deve, possivelmente, à utilização de variedades diferentes das utilizadas neste experimento. Tabela 1. Valores médios da porosidade e massas específicas aparente e real dos grãos de arroz com casca, integral e polido de três variedades. Nível de Beneficiamento Casca Integral Polido Casca Integral Polido Casca Integral Polido Urucúia Variedade Confiança 65,64 A a 49,79 A b 47,04 B c Massa Específica Aparente (kg.m-3) 518,06 B c 779,65 A b 795,22 B a Porosidade (%) 64,69 AB a 49,89 A b 47,83 AB c 1481,79 B a 1522,47 A a 1520,18 A a Massa Específica Real (kg.m-3) 1468,13 B b 1557,41 A a 1524,36 A a 508,98 C c 764,42 B b 805,12 A a Jequitibá CV (%) 0,35 548,47 A c 754,28 C b 780,53 C a 1,52 64,02 B a 49,12 A b 48,87 A b 1,58 1524,73 A a 1532,51 A a 1526,83 A a Para cada teste realizado, as médias seguidas pela mesma letra maiúscula nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente a nível de 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. A massa específica aparente apresentou diferença significativa entre as variedades estudadas em todos os níveis de beneficiamento, devida, possivelmente, às características físicas intrínsecas de cada uma delas. Esta propriedade aumentou com o beneficiamento, possivelmente devido à redução de volume dos grãos pela retirada da casca e pelo polimento que eles sofrem, sendo esta redução de volume superior à redução de massa deles, considerando que o material retirado em cada operação unitária é de menor massa específica. De acordo com Webb citado por Brooker et al. (1992), a massa específica aparente dos grãos de arroz longo varia de 541-579 kg.m-3; Wratten et al. (1969) encontraram valores para esta propriedade de aproximadamente 582 kg.m-3 para grãos longos com teor de umidade de 12% b.u., e para este mesmo tipo de grão e teor de umidade, Brooker et al. (1992) informa que a massa específica aparente está em torno de 586 kg.m-3, sendo estes valores superiores aos encontrados para as variedades analisadas, no presente experimento. Assim como, para a porosidade, a diferença encontrada entre os valores da massa específica aparente, deve-se possivelmente, às diferentes variedades e tipos de arroz empregados nos testes. No caso da massa específica real, esta, praticamente, não apresentou diferença significativa entre as variedades, exceção feita aos grãos de arroz com casca, onde a variedade Jequitibá foi superior as outras duas (Urucúia e Confiança) que não diferiram, significativamente, entre si. Os valores encontrados, nesta pesquisa, foram superiores ao determinados por Wratten (1969), que, trabalhando com grãos longo da variedade Bluebonnet com teor de umidade de 12% encontrou para esta propriedade valores de 1384 kg.m-3. De acordo com Baudet (1998), a casca dos grãos de arroz possui, um papel protetor, durante o armazenamento, e esta estruturalmente separada da cariopse, fato que permite a sua retirada, facilmente, durante o beneficiamento. Nos grãos secos, fica um espaço interno maior, ocupado por ar entre a casca e a cariopse, por isso que os grãos com casca apresentam menor massa específica do que aqueles descascados. Com os resultados obtidos, podemos verificar de forma geral, na Tabela 1, esta Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. 38 tendência de aumento das massas específicas aparente e real com o processo de beneficiamento. Através dos resultados obtidos, pode-se calcular que o descascamento e o polimento do arroz gera um aumento médio de aproximadamente 46% e 4%, respectivamente, na massa específica aparente, sendo toda a operação de beneficiamento responsável por um aumento médio de 51% desta propriedade. No caso da porosidade, ocorre uma diminuição de 23% e 3%, respectivamente, no descascamento e polimento dos grãos de arroz, sendo, 26% a diminuição total desta propriedade durante todo o beneficiamento. Nas Tabelas 2 e 3 encontram-se, respectivamente, os valores médios dos coeficientes de atrito externo estático e dinâmico dos grãos de arroz para as diferentes variedades e níveis de beneficiamento em cada material de parede. Tabela 2. Valores médios dos coeficientes de atrito estático dos grãos de arroz com casca, integral e polido de três variedades em cada material de parede Nível de Beneficiamento Urucúia Casca Integral Polido 0,4112 A a 0,2857 C b 0,2249 C c Casca Integral Polido 0,2270 A a 0,1755 B b 0,1365 B c Casca Integral Polido 0,3894 A a 0,2571 C b 0,2316 B c Variedade Confiança Coeficiente de Atrito Estático na Madeira 0,3537 C a 0,3107 B b 0,2305 B c Coeficiente de Atrito Estático no Aço 0,1732 C a 0,1578 C b 0,1419 B c Coeficiente de Atrito Estático no Concreto 0,3430 C a 0,2777 B b 0,2283 B c Jequitibá CV (%) 1,72 0,3748 B a 0,3190 A b 0,2447 A c 4,12 0,2123 B a 0,1921 A b 0,1547 A c 1,78 0,3544 B a 0,3327 A b 0,2445 A c Para cada teste realizado, as médias seguidas pela mesma letra maiúscula nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente a nível de 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. Tabela 3. Valores médios dos coeficientes de atrito dinâmico dos grãos de arroz com casca, integral e polido de três variedades em cada material de parede Nível de Beneficiamento Urucúia Casca Integral Polido 0,4049 A a 0,2359 B b 0,1941 B c Casca Integral Polido 0,1610 A a 0,1088 B b 0,0987 B c Casca Integral Polido 0,3092 A a 0,2224 C b 0,2151 B c Variedade Confiança Coeficiente de Atrito Dinâmico na Madeira 0,3334 C a 0,2570 A b 0,1994 B c Coeficiente de Atrito Dinâmico no Aço 0,1210 B a 0,1101 B b 0,1031 AB c Coeficiente de Atrito Dinâmico no Concreto 0,2912 B a 0,2337 B b 0,2035 C c Jequitibá CV (%) 1,52 0,3635 B a 0,2572 A b 0,2074 A c 2,59 0,1655 A a 0,1179 A b 0,1070 A c 2,46 0,3070 A a 0,2761 A b 0,2299 A c Para cada teste realizado, as médias seguidas pela mesma letra maiúscula nas linhas e minúsculas nas colunas, não diferem estatisticamente a nível de 5% de probabilidade, pelo teste de Tukey. Pode-se verificar, nas Tabelas 2 e 3, que, tanto o coeficiente de atrito estático, como o dinâmico, diminuíram com o beneficiamento, independentemente, do material de parede e Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. variedade, apresentando diferença significativa entre os grãos com casca, integral e polido, o que confirma o efeito do descascamento e brunimento nestas propriedades do arroz. Em todas as variedades e materiais de parede, os coeficientes de atrito diminuíram, significativamente, com o nível de beneficiamento dos grãos, sendo que os grãos polidos apresentaram os menores valores de coeficiente de atrito. Este fato já era esperado, considerando que o processo de polimento a que os grãos são submetidos, resulta em uma superfície mais lisa, concordando com Mohsenin (1986), o qual afirma que o atrito e, conseqüentemente, seus coeficientes, são afetados, principalmente, pela natureza e pelo tipo das superfícies em contato. Quanto às variedades, observa-se, na Tabela 2, que, para os grãos de arroz em casca, elas diferem, significativamente, entre si, independentemente, do material de parede, sendo os maiores coeficientes de atrito estático obtidos pela variedade Urucúia e os menores pela Confiança. Já para o grão integral e grão polido, em praticamente todos os tratamentos, a variedade Jequitibá é responsável pelos maiores coeficientes, diferindo, significativamente, das outras duas variedades, as quais não diferem entre si, exceção feita para a superfície de madeira onde todas diferem, significativamente, entre si, sendo os coeficientes gerados pela variedade Urucúia os menores e os da variedade Jequitibá, os maiores. Para os coeficientes de atrito dinâmico, pode verificar-se, na Tabela 3, que as variedades Confiança e Urucúia, praticamente não diferem entre si para os grãos de arroz integral e polido, sendo os maiores coeficientes obtidos pela variedade Jequitibá. Já para os grãos com casca, na superfície de madeira, as variedades diferem, significativamente, entre si, independentemente, do material de parede, sendo os maiores coeficientes de atrito estático obtidos pela variedade Urucúia e os menores pela Confiança. Nas demais superfícies, as variedades Urucúia e Jequitibá não diferem, significativamente, entre si, gerando os maiores coeficientes de atrito dinâmico. A retirada da casca gerou uma diminuição média de aproximadamente 18% nos valores do coeficiente de atrito estático e de 25% do atrito dinâmico dos grãos de arroz, enquanto que o polimento do grão integral promoveu uma diminuição de 13% no coeficiente dinâmico e 20% no estático. Os coeficientes de atrito estático e dinâmico dos grãos polidos diminuíram aproximadamente 34% quando comparados com os valores para os grãos em casca. 39 Benedetti (1987), trabalhando com arroz em casca com teor de umidade de 11,4%, nas superfícies de madeira, concreto e aço, encontrou, respectivamente, os seguintes coeficientes de atrito estático: 0,364; 0,533 e 0,221. Para estas mesmas superfícies, Brooker et al. citado por Fontana (1986), determina uma faixa de valores para os coeficientes de atrito, sendo de 0,40 a 0,45; 0,45 a 0,60 e 0,40 a 0,50, para a superfície de madeira, concreto e aço, respectivamente. Os coeficientes de atrito estático determinados, neste experimento, foram semelhantes ao encontrados por Benedetti (1987) para as superfícies de aço e madeira, e inferiores para a de concreto, o mesmo ocorrendo quando estes coeficientes são comparados com as faixas apresentadas por Fontana (1986). A diferença nos valores possivelmente deve-se ao fato da superfície dos materiais empregados apresentarem rugosidades diferentes ou devido à metodologia e equipamentos utilizados nas determinações destas propriedades. Nota-se portanto que para permitir a comparação entre resultados de diferentes pesquisas é fundamental que as superfícies dos materiais de parede sejam caracterizados, pelo menos pela determinação de sua rugosidade média. A fim de permitir futuras comparações, as rugosidades médias (Ra) das superfícies dos materiais de parede empregados neste estudo foram de 0,64; 3,22 e 3,56 m para o aço, concreto e madeira, respectivamente. A rugosidade média da superfície de vidro liso foi de 0,02 m, sendo o vidro considerado um material polido ou muito liso . Na Tabela 4, são apresentados os valores médios das forças de colapso e ruptura dos grãos de arroz das distintas variedades para os diferentes níveis de beneficiamento. Observa-se, na Tabela 4, que não existe diferença significativa da força de colapso para os grãos das distintas variedades estudadas, sendo este resultado semelhante ao encontrado por Shitanda et al. (2002) trabalhando com grãos de arroz com casca das variedades Akitakomachi, Delta e L201. A força necessária para promover a ruptura dos grãos foi diferente significativamente para cada nível de beneficiamento do arroz de todas as variedades, sendo maior para o arroz com casca e menor para o polido, resultado este já observado por Lu e Siebenmorgen (1995) ao trabalharem com as variedades de arroz Lemont e Tebonnet. Isto possivelmente ocorre devido à proteção oferecida pela casca e a película de recobrimento do grão integral, o que justifica o fato das etapas do beneficiamento, descascamento Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 40 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. e brunimento, serem as principais responsáveis pela ruptura dos grãos. Tabela 4. Valores médios da força de ruptura por compressão dos grãos de arroz com casca, integral e polido das três variedades. Nível de Beneficiamento Casca Integral Polido CV = 10,38 % Variedade Confiança Força (N) 99,00 a A 77,45 a B 70,34 a C d.m.s. = 2,94 Urucúia 101,18 a A 77,30 a B 70,63 a C Jequitibá 98,10 a A 75,46 a B 67,37 a C Médias com a mesma letra maiúscula e minúscula na coluna e na linha, respectivamente, não diferem entre si a 5% de probabilidade pelo teste de Tukey. CONCLUSÕES REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Pode-se concluir com os resultados obtidos neste experimento que: Afonso Júnior, P.C. Aspectos físicos, fisiológicos e de qualidade do café em função da secagem e do armazenamento. 2001. 351 p. Tese (Doutorado em Engenharia Agrícola) Departamento de Engenahria Agrícola, Universidade Federal de Viçosa, Viçosa. a massa específica aparente de todas as variedades aumenta com o beneficiamento dos grãos de arroz, podendo este aumento ser de até 51% e as variedades diferem estatisticamente entre si; a massa específica real, de forma geral, não sofre a influência do beneficiamento e das variedades; a porosidade da massa de grãos de arroz sofre influência do beneficiamento, sendo maior para os grãos em casca e menor para os polidos, sendo está diferença de até 26%; os coeficientes de atrito externo estático e dinâmico diminuem com o beneficiamento em todos os materiais de parede e variedades, sendo que o coeficiente de atrito estático tem maior influência da variedade do que o coeficiente dinâmico; os maiores coeficientes de atrito são oriundos do atrito com a superfície de madeira e os menores com a de aço e a força de compressão necessária para promover o colapso dos grãos de arroz é afetada significativamente com o beneficiamento, não sofrendo influência da variedade do produto. AGRADECIMENTOS ASAE Standards. American Society of Agricultural Engineers, St. Joseph, MI, 2000. Baudet, M.L. Armazenamento de sementes de arroz. In: PESKE, S.T.; NEDEL, J.L.; BARROS, A.C.S.A. Produção de arroz irrigado. Pelotas: Editora e Gráfica Universitária UFPel: Pelotas, 1998. p.469490. Benedetti, B.C. Influência do teor de umidade sobre propriedades físicas de vários grãos. 1987. 125 p. Dissertação (Mestrado em Engenharia Agrícola) Faculdade de Engenharia Agrícola, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. Brasil, Ministério da Agricultura e Reforma Agrária. Regras para análise de sementes. Brasília: DNDV/CLAV, 1992. 365p. Brooker, D.B.; Bakker-Arkema, F.W.; Hall, C.W. Drying and storage of grains and oilseeds. Westport: The AVI Publishing Company, 1992. 450 p. Calil Jr., C. Recomendações de fluxo e de cargas para o projeto de silos verticais. São Carlos: USP, 1990. 198 p. Os autores agradecem ao CNPq e ao programa FINEP/RECOPE pelo auxílio financeiro. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.5, n.1, p.33-41, 2003 Efeito do beneficiamento nas propriedades físicas e mecânicas dos grãos de arroz....., Silva et al. 41 Fontana, C. Propriedades físicas e térmicas do arroz. Santa Maria: Ed. UFSM, 1986, 68 p. (Caderno Didático) Pomeranz, Y.; Webb, B.D. Rice hardness and functional properties. Cereal Foods World, St. Paul, v.30, n.11, p.784-790, 1985. Haaker, G.F.J.C.R. Progress in measuring bulk solid properties. In: Chisa Conferation 115. Prague, 1990. 10p. Sasseron, J.L. Características dos grãos armazenados. Viçosa: Centreinar, 1980. 65p. Jenike, A.W. Storage and flow of solids. Salt Lake City: University of Utah. 1980. 197p. Lawton, P.J. Coefficients of friction between cereal grain and various silo wall materials. Journal of Agricultural Engineering Research, London, v.25, n.1, p.75-86, 1980. Lu, R; Siebenmorgen, T.J. 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