Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 DE JOÃO URSO AO CONDADO DE GREEN: BRENO ACCIOLY E AS PERSONAGEM DESFIGURADAS Maria Cícera dos Santos Correia (Graduanda/UFAL-Campus Sertão)1 As mais recentes investigações acerca dos aspectos culturais e espaciais no texto literário têm devassado aspectos da obra que contribuem para uma sondagem mais ampla do texto e da personagem de ficção. Em alguns contos do escritor alagoano Breno Accioly, os traços culturais adquirem uma importância significativa no estudo da personagem, em outros, os aspectos espaciais são determinantes, pois evidenciam uma relação de identidade entre personagem/ambiente, que revelam um mundo ficcional e personagens marcadas por medos, angústias, fraquezas. Segundo Antonio Dimas (1987), o texto literário é lugar de inúmeras armadilhas que se escondem ao primeiro olhar do leitor desavisado, e dentre essas armadilhas o espaço pode alcançar status de qualquer outro elemento da narrativa, e cabe ao leitor desvelar “onde se passa uma ação narrativa, quais ingredientes desse espaço e qual sua eventual função no desenvolvimento do enredo” (DIMAS, 1987, p. 6). João Urso2 (1999) é formado por dez contos. O primeiro livro do escritor Breno Accioly. Nessa obra alguns espaços remontam à sua cidade natal, a pequena Santana do Ipanema, no Alto Sertão alagoano, mas os cenários aqui captados não se configuram apenas como fotografias desse espaço ou simples cópias do real. A Santana do Ipanema, lugar onde são ambientados alguns dos contos mais expressivos de João Urso é recriada numa atividade paradoxal e contraditória, pois seu autor retira-a de suas remotas recordações de infância e a (re) produz em imagens. Nos contos analisados, o que se percebe é que, o mesmo olhar que passeia pela cidade onde nasceu o escritor, é o mesmo que mergulha nas profundezas do 1 Aluna do curso de Letras-Português, da Universidade Federal de Alagoas-UFAL-Campus do Sertão. Pesquisadoracolaboradora do NELA – Núcleo de Estudos em Literatura Alagoana, sob a coordenação do Prof. Dr. Márcio Ferreira da Silva. 2 João Urso é o título do livro publicado em 1949, nome do conto homônimo e da personagem do primeiro conto, os demais títulos são: As Agulhas, Uma Janela, Medo, As três toucas Brancas, Açougue, Os Olhos, Na Rua dos Lampiões Apagados, Natal de Seu Hermídio e Condado de Green. Todas as citações utilizadas no corpo do texto são da obra Breno Accioly: obras reunidas. São Paulo: Escrituras, 1999, aqui mencionadas apenas o número da página. 1 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 homem, ser universal, retirando daí suas personagens, que se apresentam como seres cultural e socialmente deslocados. A descrição metafórica dos espaços permeia a obra analisada, seja da rua, da natureza, dos ambientes, evidencia o que Silva (2011, p. 27) chama de “intenção autoral de expor a mobilização dos espaços degradados”, ressaltando que “o espaço literário é capaz de fotografar os pontos de (des) equilíbrio da narrativa”. O que emerge nos contos de Breno Accioly é o sofrimento, ora físico, ora emocional de suas personagens. A cultura de um povo que pensa na recitação de poemas como punição, que representa e constrói uma imagem de desagregação, como o João Urso, que passa de órfão e doente, a “renegado”, apedrejado pelas mesmas pessoas que o julgam louco. A grande maioria das personagens da obra analisada vive no que Bhabha (1998, p. 21) chama de mundo estranho, e estas convidam o leitor a meditar “sobre os mundos desiguais, assimétricos, que existem em outras partes”. Segundo Rego (1999, p. 669), os contos de Accioly não são apenas para ler e reler, pois o contista não é apenas dono de “uma vocação indomável para a literatura”, mas também de uma “verdadeira força poética que se debruça sobre o homem para sondar-lhe as profundezas”. É nesse mergulho que Accioly nos apresenta, em João Urso, personagens densamente construídas, assim como o estranhamento que seus personagens provocam. Como já havia notado Gilberto Freire (1999, p.667), nos contos acciolyano haverá sempre o efeito poético, e nenhum leitor deixará de captar, ou de se “sentir num mundo que não é outro senão o poético”. Mas essa poesia nos chega carregada do imaginário urbano, carregado de resquícios de múltiplas culturas, e do desequilíbrio, como podemos perceber nesses fragmentos dos contos João Urso e Medo, respectivamente: Desceu muito triste (João Urso), e tristemente olhou da janela a rua escaldando no calçamento de lajes enormes, subindo como se quisesse alcançar os mortos, donde voltavam os jumentos que iam roubar água do rio (p. 15). [...] A dez passos, um palacete equilibrava-se na rigidez de uma das colunas de mármore. As mãos se quisessem, podiam arrancar para Salustiano rosas abertas [...] Todavia Salustiano não parou para 2 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 colher flores. Parou como certos homens que antes de se vingarem detêm-se sem saber por quê (p. 52). O conto João Urso é narrado em terceira pessoa por um narrador que ora se confunde com a personagem, um homem/menino acometido por incontroláveis gargalhadas que causam o estranhamento e o afastamento de todos à sua volta, ora numa tristeza comovente. O que João Urso devassa da sua janela é o espetáculo de uma natureza em fúria, “são as cores vermelhas dos relâmpagos, trovões arrebentando em gritos enormes [...] nuvens raivosas, cores incendiadas, aquela claridade agressiva” (p.13). E, enquanto espera mais uma vez pela punição imposta pela mãe desde que começaram suas gargalhadas, João Urso contempla, mais uma vez, à sua janela, e o espaço ali nega-lhe a ideia de vida que água/rio simbolizam: E como se fosse um condenado de poucos instantes de vida, deixouse ficar à janela, os olhos subindo com a rua, descendo pelo oposto, perdendo-se nas viagens de carro de boi chiando nas estradas. As lajes espelhavam o rio de águas mortas como se tivessem estagnado se transformava num pântano onde apodreciam (p.16, grifos meus) E antes que este rio seja visto e descrito com objetividade, o rio Ipanema nos remete ao significado de seu nome que, apesar de evocar a famosa praia do Rio de Janeiro, na sua origem indígena, significa “água ruim, imprestável, estéril, improdutiva” 3 . Assim, a Santana do Ipanema, que surge às margens desse Rio, é representada nas narrativas de Accioly com imagens carregadas de desfiguração, Impregnada na representação desfigurada da cidade, a personagem mãe parece despertar para a realidade impenetrável de João Urso, acolhe-o entre os braços, estreita-o em um “longo e maternal abraço”, cobrindo-o de beijos. Aqui o tamborete, outrora objeto de sofrimento do menino “de peito atrofiado, mãos pequenas e cabeça descomunal”, fica abandonado, esquecido, e “no canto de uma sala [...] torna-se uma sombra amiga como as dos móveis. Terminava o sofrimento do tamborete, de decorar sonetos” (p. 17). Mas, nesse momento, iniciava-se outro sofrimento: João Urso não encontra a saída do mundo caótico em que vive. 3 In: Enciclopédia Municípios de Alagoas. 3 ed. Carlos Alberto Pinheiro Mendonça: Instituto Arnon de Mello. Maceió: Núcleo de Projetos Especiais, 2012. 3 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 Nesse conto, o espaço social e humano evidencia uma cultura de exclusão (a mãe afasta-o do convívio social, de todas e dela mesma). “Nas escolas, professoras diziam quando pegavam alguém rindo sem razão, sem ver por quê: - Será que está com a doença do João Urso?” (p. 17). Na descrição dos espaços, por vezes insondáveis, a metaforização e o um-nooutro, caracterizam o gênero lírico, pois segundo Staiger (1975, p.31), “dificilmente defrontam-se um eu de um lado e um objeto do outro” (STAIGER, p. 31), pelo contrário, há a fusão/elisão do sujeito com o objeto: Parece que por lá tudo se incendiou. Relâmpagos retalhando serras, ensanguentando (sic) árvores, debruçando manchas sobre a cidade, manchas de amplos reflexos que são nódoas de sangue nas torres da matriz, nos poucos sobrados, nos muros do cemitério. Dir-se-iam lanternas, estranhas lanternas que atormentassem a cidade com seus olhos vermelhos, apagando, acendendo, rapidamente apagando (p. 17). Numa troca de cena do tempo presente para o tempo da memória e das lembranças de João Urso, os relógios apontam essa mudança temporal/espacial. A cor da casa da personagem do conto Natal de seu Hermídio chama à atenção pela vivacidade, pois a “casa de platibanda vermelha” é uma oposição à personalidade soturna de Seu Hermídio, que, apenas à véspera do Natal, “arrancava da face aquela tristeza que lhe adoecia os olhos punha de lado aquela sua paciência tão comum na vida dos bois” (p. 82). Durante o ano a casa suja e “coberta de telhas encardidas, bolorentas” de seu Hermídio, a casa onde “aranhas bordavam redes pro seu arranhol do sono”, no Natal se transformava e parecia receber um sopro de vida e de limpeza, quando seu Hermídio expulsa desse espaço degradado os: [...] sapos enormes, alimentando-se de insetos que, por acaso, fossem visitar a cozinha, sapos cururus, sapos mijadores, capazes de cegar alguém com aqueles esguichos qual jatos de pútridos lança perfumes venenosos. Seu Hermídio também não temia as lacraias, silêncios repelentes, abomináveis ferrões vermelhos, longe ou perto das paredes, imóveis à maneira de crocodilos que dormitassem (p. 82). O presépio que “se assemelhava a um mundo” corrobora com a ideia de espaço da tradição judaico-cristã, mas os elementos da narrativa denunciam a ação 4 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 da personagem no momento em que moedas provocam o movimento maquinal do presépio, cujas molas invisíveis funcionavam apenas “Se se pusessem quinhentos réis no buraco de uma salva de papelão” (p. 82). No primeiro fragmento deste conto – “Lembro-me numa memória que me conta o meu Natal de nove anos” – o verbo lembrar mais a forma átona me, que ora vale como possessivo, ora possui caráter reflexivo, sugere o narrador/personagem adulto que busca na memória as lembranças dum determinado Natal, o de seus nove anos em Sant’Ana do Ipanema4, e este possuía: [...] todas as cores do mel, bem como todos os possíveis desenhos das nuvens, e não lhes faltavam, apesar de toda essa riqueza estratosférica e marítima, as vozes da nau catarineta se arrebentando na amplidão de adeuses, sempre comoventes (p.81). Numa oposição marcada de tempo e espaços, o Natal do narrador adulto, que se revela o Natal do presente, cujo “rolar amoroso da Roda Gigante do Natal de Maceió” o narrador admite no pretérito perfeito: “eu detestei”, e explica: O Natal do Bairro da Levada da sonolenta Maceió possuía manjedoura, além dos Três Reis Magos, e a ele aderiam caixeiros, gigolôs, seminaristas, mulheres de cinco cruzeiros, viúvas, investigadores, juízes, cônegos, Desembargadores e doidos que ficavam escavando as cavernas da ventas com lâminas de unhas emporcalhadas, quando não soltavam palavrões, faziam gestos obscenos com as mãos, os dedos, os punhos, as línguas [...] (p.81). Mas outros usos verbais se destacam nesse conto. O pretérito imperfeito do indicativo com valor de dúvida – Se houvesse, igualmente o mais-que-perfeito em percebera, conjugado na primeira pessoa remete ao sentido do verbo. Do latim percipere, significa apoderar-se de, ou prender pelos sentidos5. Aqui sugere o deslizar do narrador, que não somente apreende a personagem pelos sentidos, mas se apodera dela, dilatando-a. Na descrição elaborada de espaços degradados ou carcomidos, transitam personagens como seu Hermídio, João Urso, Frederico, Poni. Personagens que 4 Sant’Ana do Ipanema assim escrito remete a cidade ficcional; Santana do Ipanema grafada sem o aposto –Santana do Ipanema, à cidade sertaneja “real”. 5 Novo Dicionário Aurélio, versão eletrônica 5.0. 5 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 parecem ter sido “superados numa recriação, em que o modelo é convertido numa personagem mais densa, mais humana, mais poética” (ROCHA, 1999, p. 7). Sobre o processo de criação da personagem reportamo-nos a Candido (2011, p.64), pois se as personagens de João Urso nos dão “a impressão de que vivem”, é porque a liberdade de criação nesse contista lhe possibilita transportar um “modelo da realidade” e a ele acrescentar, “no plano psicológico sua incógnita pessoal, graças à qual procura revelar a incógnita da pessoa copiada” (2011, p. 65). Sobre isso o ator de Formação da Literatura Brasileira nos dá lição sucinta quando afirma: [...] o princípio que rege o aproveitamento do real é o da modificação, seja por acréscimo, seja por deformação de pequenas sementes sugestivas. O romancista (ou contista) é incapaz de reproduzir a vida, seja na singularidade dos indivíduos, seja na coletividade dos grupos (CANDIDO, 2011, p.67, grifos do autor, inserção minha). O que nos chama atenção em alguns dos contos de Breno Accioly é a violência, e a ela detivemos o olhar por algum tempo, assim como a loucura, tom artístico recorrente dos contos do autor de Dunas6, presente também em As Agulhas, Uma janela, Medo e Açougue. A violência que deforma Poni, Coriolano, Salustiano e Frederico é comum aos quatro contos e provoca descrições desfiguradas dessas personagens. Enquanto Poni é “um rosto agressivo” vivendo em outro mundo, também é dono de um “coração terno”; Coriolano (de Uma Janela) é “dois ouvidos surdos” e um homem cuja “desagregação” ninguém consegue explicar, e era esta espécie de “nova loucura” que os moradores comentavam, já que Coriolano movido pelo ciúme passa a viver atrás do balcão de sua farmácia: Babando, sempre babando, como um novilho portador de febre aftosa, Coriolano alagava as tábuas do balcão, exalando aquela sua baba de pingos grossos, uma fetidez somente encontrada nos recessos de trapiches [...] Imóvel, ainda debruçado sobre o balcão, Coriolano parecia dormir, como de verdade a baba o houvesse aniquilado, pois à medida que aumentavam poças de gosmas, invadia-lhe o rosto uma maceração cadavérica (p. 35). Em As Agulhas, há pistas que confundem a primeira vista o leitor desavisado Nesse conto uma mistura de espaços ora negativos: 6 Romance publicado em 1955. 6 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 [...] O balão agoniza, morre se despetalando, assemelhando-se a uma enorme flor de desconhecido caule que tombasse dos ares à maneira de asas de pássaros fulminados (p. 24). [...] a Rua do Cantagalo continuaria sempre inferior, sempre recalcada numa expansão que lhe haviam negado (p. 26). [...] a rua transmitindo o silêncio de um horrível e desconhecido crime (p. 26). Nas trepadeiras, os ramos choravam e era triste o som daquele vento (p. 26). Ora positivos: As esquinas quebram a procissão. Colchas rendadas pendem das janelas e, cobertas de flores, as ruas anunciam que é uma tarde de Corpus Christi (p. 23) As pernas param e, lá na frente, a casa de Alda são janelas iluminadas (p. 26). Poni, o telegrafista do conto As Agulhas não matará Alda, a esposa adúltera, preferindo continuar na insanidade à tornar-se um assassino, como ainda deixará “desabrochar na boca uma imensa alegria”. A alegria daqueles que preferem não pertencer ao mundo das sombras, evidenciando que a loucura de Poni “principiou mansa e mansa ela terminou” (p. 30), pois o amor se compraz à violência e à ira. Não é difícil entrever em Uma Janela avolumar-se a concepção do ser enquanto frágil, em passagens como: “Eram de quem muito sofrera os olhos do farmacêutico. Lembravam aqueles olhos dois espelhos que somente tristes imagens soubessem refletir” (p.37). Esse falseamento do espaço é percebido logo no título do conto: Uma Janela, que aqui não define uma saída, pelo contrário, aqui a metaforização negativa da natureza anuncia: “Tarde de nuvens sanguíneas, de vento morno aquecendo os frutos, levantando das janelas uma poeira vermelha” (p.38). Com efeito, a força desse conto reside no falseamento (ou escamoteamento) da violência desse espaço carregado de negatividade. A imagem que o espelho, como um juízo de valor reflete é a de “faces embaciadas” e olhar pesaroso, como o de Frederico de Açougue. Esta personagem é um homem há muito tempo deixou de sonhar, de “transpor fronteiras”, seu mundo é o que o espelho lhe devolve. Esse reflexo devolvido é fragmentado, limitado, somente lhes mostra sofrimento, evidenciando o “sujeito que habita a borda de uma realidade ‘intervalar’” que Bhabha (1998) afirma ser condição para “a inscrição dessa existência fronteiriça”: 7 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 Agora as viagens de Frederico parecem caminhar no mesmo caminho de outrora, caminhar numas recordações cadenciadas, lentas. Tudo cinzento, dando a entender que vultos de pesados capotes mergulham num pesado silêncio todos os ruídos [e] Nem a fonte murmurando sobre o musgo das pedras limosas se escuta. Uma misteriosa prisão fez calar o mais leve dos movimentos e tudo está morto, parado (p. 61). De enredo descontínuo, Açougue é uma narrativa não linear. Um adulto rememora o passado. A troca de cena tão habitual na narrativa acciolyana, onde presente-passado-presente se misturam. Passado de uma infância/adolescência remota e relembrada com satisfação, prazer: Frederico sentava-se defronte das gaiolas e os fundos do laboratório eram sensações de cenas privadas. Era um açougue de pequenos animais, de passivos animais que se decompunham, lentamente morriam sem acusar nenhum sinal de revolta. De olhos atentos Frederico acompanhava aquelas mortes. Pressentindo o momento decisivo, descia a gaiola (p.67). A evocação à memória dissipa-se nas últimas linhas do conto, Frederico compreende “que o ato que acabar de praticar [jamais] lhe podia trazer descanso, sossego” (p. 63, inserção minha), pois seu “desejo seria o de estrangular todos os outros Fredericos que desfilam com todas as suas características expressões, esbofetear cada face que o espelho devolvesse” (p. 62). Para Frederico, assim como para outras personagens de João Urso, “é por demais tarde para uma reflexão”. O sentido da vida se perdeu no fundo de seu pequeno “açougue nos fundos do laboratório”, onde, na infância sentira enorme prazer em infligir sofrimento e matar suas cobaias, enquanto estudante. Nesse conto, o elemento pictórico da janela não é um portal, uma saída, pois esta já denuncia “a mais sombria visão de uma noite imperturbável. (p. 68). Os atos de violência extrema nesse conto demanda uma explicação bastante convincente de Finazzi-Agrò (2001)7 sobre esse sentimento: [...] no fundo, a violência humana, na sua essência mais pura e terrível, só pode ficar impensada e inefável; quero dizer que podemos refletir e escrever, não a brutalidade em si mesma, mas os seus 7 No apêndice intitulado “A força e o abandono: violência e marginalidade na obra de João Guimarães Rosa”. 8 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 pressupostos – podemos, enfim, pensar a partir dela (FINAZZIAGRÒ, 2001, p. 190) 8. NOs olhos, conto dedicado a Vinicius de Moraes, temos, mais uma vez, a representação de um homem doente, corroído pelo ciúme. O funcionário público esquece de seus deveres , sente-se um inválido e vive com os “olhos pesados de visões” (p. 73). Os olhos da personagem desse conto vivem à deriva, numa infância povoada por sons de uma sanfona, pelo singelo coral e por uma canção de despedida. Nessa evocação, a sanfona, objeto que representa a cultura da música do sertão. Esses olhos, fixos em lugar nenhum da personagem dOs Olhos, também se apresentam em Na Rua dos Lampiões Apagados. Nele, as lembranças da personagem Bioléu também o fazem sofrer. Bioléu, o discípulo do Marista é um homem angustiado. Dividido entre as aulas de apologética do Irmão Gabriel e o desejo de desvendar os mistérios e segredos “que podia ser desvendados em todas as casas” daquela rua, onde mulheres oferecem seus corpos como mercadorias a serem consumidas. O Condado de Green é ambientado em Maceió. É nesse espaço que a narrativa lírica se faz mais presente, seja na descrição da ilha imaginária que dá nome ao conto, seja nos aspectos culturais bem marcados. Nessa ilha, ao primeiro olhar, o narrador percebe “um vigiado rendezvous, tendo em vez de sentinelas [...] dunas pequenas, lembrando seios” (p.85) e imagens de navios ancorados num porto que lhe é tão familiar. Mas aqui, o mesmo ouvido que capta a “música de indecisos pianos”, também percebe, na dilatação do espaço, o “silêncio que mais parece ser o silêncio da morte” (p.91). Ao primeiro olhar, a ficção acciolyana surpreende pela representação de um universo caótico. Entretanto, um olhar minuncioso, para além dos espaços degradados e de homens perturbados, há na obra do contista muito mais do que homens na escuridão da dor, aqui se abre uma nova experiência estética, na preposição descritiva de aspectos culturais e do homem. Nesse sentido Accioly assume uma postura revolucionária na sua criação, uma vez que seus contos revelam imagens pungentes em obras que sintetizam o sofrimento físico e emocional do homem, também a ficção acciolyana possui um repertório cultural que imprime a sua obra algo que transcende a fotografia e um 8 Baseado na reflexão de Tzvetan Todorov, na obra Face à l’extrême. 9 Realização: Apoio: Anais do V SENALIC – TEXTOS COMPLETOS ISSN – 2175-4128 Organizadores: Gomes, Carlos; Ramalho, Christina; Ana Leal Cardoso São Cristóvão: GELIC, Volume 05, 2014 evidente valor de arte, ou como já percebido por Rego (1999), “o conto de Breno Accioly não se perde e nem se degrada. Comunica-se com o leitor” (p. 670), abrindo assim as portas para uma nova fase da ficção contemporânea de forma permanente. REFERÊNCIAS ACCIOLY. Breno. João Urso. In: Breno Accioly: obras reunidas. São Paulo: Escrituras, 1999. BHABHA, Homi K. Locais da cultura. In: ________. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. CANDIDO. A. [et al]. A personagem do romance. In: CANDIDO. A. A personagem de ficção. 12. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. (Coleção debates). DIMAS, Antonio. Espaço e romance. 2 ed. São Paulo: Ática, 1987. ENCICLOPÉDIA Municípios de Alagoas. 3 ed. Carlos Alberto Pinheiro Mendonça: Instituto Arnon de Mello. Maceió: Núcleo de Projetos Especiais, 2012. FINAZZI-AGRÒ, Ettore. A força e o abandono: violência e marginalidade na obra de João Guimarães Rosa. In: Um lugar do tamanho do mundo: tempos e espaços da ficção em João Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001. FREIRE. Gilberto. Fortuna crítica. In: Breno Accioly: obras reunidas. São Paulo: Escrituras, 1999. REGO, José Lins do. Fortuna crítica. In: Breno Accioly: obras reunidas. São Paulo: Escrituras, 1999. ROCHA, Tadeu. Breno Accioly, senhor do Condado de Green. In: Breno Accioly: obras reunidas. São Paulo: Escrituras, 1999. SILVA, Márcio F. da. A cidade, o espaço urbano: formas narrativas em Lêdo Ivo. In: FALARES: Revista do curso de Letras, do Campus IV da UNEAL/Universidade Estadual de Alagoas, Curso de Letras Ano 1, n.1 (jan./jun. 2011) São Miguel dos Campos: Universidade Estadual de Alagoas-GRAFPEL, 2011. 10 Realização: Apoio: