OS FATORES QUE INFLUENCIAM NA OBESIDADE INFANTIL:
UMA REVISÃO DA LITERATURA
Gabriela da Costa Soares1, Willeny Cerqueira Lemos1, Raphael Rodrigues Bezerra1, Rodrigo
Aragão da Silva1, Maria Zélia de Araújo Madeira2
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Graduandos do 6° período de Bacharelado em Enfermagem, Faculdade de Saúde, Ciências Humanas e
Tecnológicas do Piauí – NOVAFAPI, Teresina, PI.
Doutoranda em Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Mestre em Educação,
Universidade Federal do Piauí – UFPI, Professora do curso de enfermagem da NOVAFAPI, Teresina, PI.
RESUMO
Introdução: A obesidade é uma patologia crônica, caracterizada pelo acúmulo progressivo de
gordura corporal. O excesso de peso e gordura corporal está relacionado a doenças crônicodegenerativas, trazendo sérias complicações à saúde do indivíduo. Em crianças, a obesidade é
preocupante, visto que as probabilidades destas se tornarem adultos obesos é aumentada.
Objetivo: levantar na literatura publicações a respeito da obesidade infantil e os fatores
determinantes. Metodologia: Foram selecionados 10 artigos consultados na base de dados
Scielo, com publicações no período de 2007 a 2011 por meio dos descritores utilizados:
Enfermagem, Obesidade, Criança e Fatores de risco. Resultados: Dos fatores encontrados, foi
possível identificar três categorias: estilo de vida e fatores nutricionais, hereditariedade e
comportamento familiar e gestação e fatores pós-natais. Conclusão: A obesidade infantil está
diretamente relacionada a práticas diárias e condutas, destarte, o tratamento da obesidade deve
incluir alterações gerais na postura familiar e da criança, em relação a hábitos alimentares,
tipo de vida, atividade física e correção alimentar.
Palavras-chaves: Obesidade, Criança e Fatores de risco.
INTRODUÇÃO
A obesidade é definida como uma patologia crônica, caracterizada pelo acúmulo
progressivo de gordura corporal, com manifestação em ambos os gêneros e em distintas faixas
etárias, podendo causar complicações em diversos sistemas do organismo. O excesso de
tecido adiposo na infância, geralmente é multifatorial, envolvendo hábitos alimentares
errôneos, propensão genética, estilo de vida familiar, condição sócio-econômica, fatores
psicológicos e etnia1.
Atualmente existe um grande número de estudos que mostram que o excesso de peso e
gordura corporal está relacionado a doenças crônico-degenerativas, e assim reduzem
significativamente a qualidade de vida dos indivíduos2. E, segundo Schwimmer, Burwinkle e
Varni3, a nível individual esta redução nos aspectos qualitativos da vida ocorre não apenas em
função de problemas médicos e fisiológicos, mas também por problemas psicológicos.
A obesidade pode trazer sérias complicações à saúde do individuo. Estas complicações
são retratadas por outros autores4;5, levando-se em consideração o tempo de exposição a esta
morbidade, uma vez que quanto maior o tempo que o individuo permanece obeso, maior
possibilidade ele tem de desenvolver uma ou mais complicações.
Segundo ainda os autores acima, os agravos decorrentes da obesidade podem ser:
articulares (maior predisposição a artroses, osteoartrites, epifisiólise da cabeça femoral, genu
valgum e coxa vara), cardiovasculares (hipertensão arterial sistêmica, hipertrofia cardíaca e
morte súbita), cirúrgicas (aumento do risco cirúrgico), endócrinos (idade óssea avançada,
aumento da estatura e menarca precoce), dermatológicas (com micoses, estrias, dermatites e
piodermites principalmente nas regiões da axila e inguinal), endócrino-metabólicas (maior
resistência à insulina, maior predisposição a diabetes mellitus tipo 2, hipertrigliceridemia,
hipercolesterolemia, gota úrica e doença dos ovários policísticos com oligomenorréia ou
amenorréia), gastrintestinais (maior freqüência de litíase biliar), neoplásicas (maior freqüência
de câncer de endométrio, mama, reto e próstata), respiratórias (forte tendência à hipóxia,
apnéia de sono, asma e Síndrome de Pickwick)
A dieta tem um papel importante neste processo, pois pode desencadear um
desequilibro entre a ingestão e o gasto energético6. A utilização de alimentos industrializados
excessivamente calóricos e com alto teor de colesterol e gordura saturada é muito frequente
na sociedade moderna7 .
Evidências disponibilizadas na literatura sugerem que, em crianças, os principais
fatores ambientais que têm contribuído bastante para o aumento do sobrepeso nessa faixa
etária, além do excesso na ingestão energética, seria o número de horas em frente à televisão,
uso de videogames, computadores e a inatividade física8;9;10.
No inicio dos anos 1990, a OMS começou a realizar os primeiros movimentos de
alerta sobre a obesidade, pois já naquela época, cerca de 18 milhões de crianças menores de 5
anos em todo o mundo, tinham sido classificadas como portadoras de sobrepeso 4.
No Brasil, a obesidade como problema de Saúde Pública é um evento recente. Apesar
da existência de relatos a partir da Era Paleolítica sobre "homens corpulentos", a prevalência
de obesidade nunca se apresentou em grau epidêmico como na atualidade 8 . Enquanto agravo
nutricional, a desnutrição era assumida como um problema relevante para os países em
desenvolvimento, e a obesidade seria para países desenvolvidos. Atualmente, tanto os países
desenvolvidos como os países em desenvolvimento não se apresentam como unidades
homogêneas, quer para a prevalência da desnutrição, quer para a da obesidade5;11. Ao
contrário, podem ser caracterizados em uma fórmula mista tanto de excesso de peso quanto de
déficit nutricional6.
Desta forma, o presente trabalho torna-se relevante pelo aumento dos índices de
obesidade na infância, assim como os problemas de saúde que tal condição acarreta a esses
indivíduos. É necessário entender os fatores que proporcionam essa modificação no quadro
nutricional da população infantil para, a partir de então, elaborar medidas que visem contornar
a atual situação.
Este trabalho tem como objetivo levantar na literatura publicações a respeito da
obesidade infantil e os fatores que influenciam.
METODOLOGIA
Realizou-se uma revisão bibliográfica narrativa de produções anteriores que
analisaram a obesidade infantil e os fatores relacionados a essa condição. Buscou-se os artigos
durante o mês de maio de 2012, utilizando-se como fonte a base de dados eletrônica Scielo
Brasil (Scientific Eletronic Library Online). Pesquisa bibliográfica é aquela que se realiza a
partir do registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, teses etc. Utiliza-se de dados
ou de categorias teóricas já trabalhados por outros pesquisadores e devidamente registrados 12 .
Os descritores utilizados para a coleta do material foram: Enfermagem, Obesidade, Criança e
Fatores de risco. Materiais encontrados com data de publicação anterior ao ano de 2007 foram
descartados, haja vista a necessidade de artigos atuais. Ao total, selecionaram-se dez artigos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos dez artigos analisados, foram identificadas três categorias. Estilo de vida e fatores
nutricionais, com uma frequência de 100% dos artigos pesquisados; hereditariedade e
comportamento familiar; sendo citado em 50% dos artigos e gestação e fatores pós-natais,
encontrados em 40%.
Estilo de vida e fatores nutricionais
O estilo de vida, os fatores nutricionais, as escolhas dos alimentos, quantidades e
frequência com que são ingeridos mostraram-se determinantes no atual quadro da obesidade
infantil. De acordo com estudos13;14 ocorreu estagnação de redução do consumo de
leguminosas, verduras, legumes, frutas e sucos naturais e ascensão do consumo excessivo de
açúcar refinado e refrigerante. Em pesquisa15 verificou-se que em 162 escolares, de 6 a 10
anos de idade da cidade de São Paulo, o consumo de refrigerante e a falta da prática de
atividade física constituem fatores de risco associados à obesidade. Nesse estudo, 38,2% da
amostra apresentavam-se acima do peso normal, com sobrepeso ou obesidade.
A alimentação inadequada é um fator determinante, uma vez que há a substituição de
refeições balanceadas por lanches rápidos, sem valores nutricionais adequados. Afirma ainda
que o nível da prática de atividade física menor do que o recomendado para uma boa saúde e
a obesidade está diretamente ligado à condição obesa da criança 16;17;18.
Em um estudo transversal com crianças de dois a seis anos com prevalência de 34,4%
apresentando sobrepeso e obesidade, realizado em São Paulo, o consumo de frutas estava de
acordo com a recomendação. Por outro lado, consumiam porções menores que as
recomendadas de pães e cereais, verduras e legumes. Estes ingeriam 50% acima do sugerido
de leites e lácteos19 .
Outro estudo, realizado com 508 crianças apresentou inadequação do quantitativo
calórico da dieta ingerida. No grupo com sobrepeso, o consumo calórico apresentava-se
excessivo (inadequação de até 158%) em relação às recomendações, além de 74% de
sedentarismo contra 52% no grupo de crianças não obesas20.
Os meios de comunicação, em especial a televisão, mostram-se ainda como grande
vilã no tocante à obesidade infantil. Os comerciais de TV influenciam o comportamento
alimentar infantil e o hábito de assistir TV está diretamente relacionado a pedidos, compras e
consumo de alimentos anunciados e que esses alimentos veiculados possuem elevados índices
de gorduras, óleos, açúcar e sal, o que não está de acordo com as recomendações de uma dieta
saudável e balanceada13. Os alimentos consumidos com maior frequência em frente à TV são
os biscoitos, refrigerantes, salgadinhos, pipoca e pães21;14 .
A disponibilidade da tecnologia, aliada ao aumento da insegurança e a progressiva
redução nos espaços livres nos centros urbanos, reduzem as oportunidades de lazer,
aumentando a prática de jogar videogames e o uso dos computadores, diminuindo a prática de
atividades fisicamente ativas16 . As crianças passam horas em frente a aparelhos de televisão e
vídeo-games, aumentando o sedentarismo e inatividade física 19;18.
O nível socioeconômico apresenta-se como um fator de risco para o desenvolvimento
da obesidade, visto que indivíduos com poder aquisitivo elevado apresentam maior chances
de aquisição de produtos industrializados16;22;19. Um estudo realizado no município do Rio de
Janeiro constatou que os alunos de escolas públicas apresentavam 18,4% dos escolares com
sobrepeso ou obesidade, contra 27,1% dos alunos de escolas particulares nessa mesma
condição16.
Hereditariedade e comportamento familiar
A família de indivíduos com obesidade exógena apresenta como características:
excesso de ingestão alimentar, sedentarismo, relacionamento intrafamiliar complicado,
desmame precoce, introdução precoce de alimentos sólidos, substituição de refeições por
lanches e dificuldades de relações interpessoais13 . O ambiente familiar determinante na
etiologia da obesidade infantil. Supõem-se que filhos de pais obesos estão mais propensos à
obesidade presumindo-se que, associado ao fator genético, estes não tenham preocupação com
alimentação saudável e manutenção do peso ideal19;17;18.
As crianças cujas mães já trabalham no quarto mês após o seu nascimento são mais
susceptíveis ao sobrepeso, uma vez precocemente desmamadas e introduzidas no consumo
dos alimentos da família22. Outro ponto evidenciado é o fator que estas tendem a agradar os
filhos com merendas hipercalóricas mais que as mães que se mantem em casa.
Gestação e fatores pós-natais
Características da gestação e ocorrências após o nascimento mostram-se fatores de
risco para a obesidade infantil segundo alguns artigos estudados. Um estudo transversal, em
Feira de Santana22 constatou uma maior ocorrência de sobrepeso entre as crianças filhas de
mães primíparas e que o peso ao nascer apresentou-se como um fator de risco para o
desenvolvimento de sobrepeso e obesidade, sustentando a hipótese que crianças que nascem
com maior peso tem mais probabilidade de apresentar obesidade na infância quando
comparadas a crianças que nasceram com o peso normal ou baixo peso.
O aumento da obesidade em lactentes é resultado de um desmame precoce e incorreto,
e erros alimentares no primeiro ano de vida, principalmente, nas populações urbanas as quais
abandonam precocemente o aleitamento materno e o substituem por alimentação com excesso
de carboidratos14. A interrupção precoce da amamentação em detrimento da adoção de uma
alimentação artificial eleva o consumo energético infantil em 15% a 20% quando comparado
ao consumo energético de criança em aleitamento materno exclusivo13 .
O aleitamento materno exclusivo por seis meses ou mais e que o aleitamento materno
prolongado por mais de 24 meses de vida são fatores de proteção contra sobrepeso e
obesidade, que quanto maior a quantidade de leite materno recebido o início da vida, maior a
proteção em relação ao sobrepeso e obesidade19 . Preparações do tipo leite com achocolatado,
mingau, bolacha doce e recheada, que tem sabor agradável, agradam as crianças, levando ao
consumo em grande quantidade, elevando assim o valor calórico total da dieta e o risco do
sobrepeso e obesidade.
CONCLUSÃO
A obesidade infantil é um sério problema de saúde pública no Brasil e em diversos
outros países. Com a pesquisa constatou-se que os maiores determinantes na etiologia da
obesidade infantil encontrados são modificáveis, como a ingestão elevada de alimentos ricos
em gorduras e carboidratos, a falta da prática de exercícios físicos e o uso excessivo da
televisão e vídeo games, proporcionando sedentarismo e inatividade física. Tratando-se de
condutas, é importante a implantação de programas educacionais nas escolas e nas famílias,
uma vez que os pais, mesmo em menor proporção, aparecem como influencia na condição
estudada. O tratamento da obesidade deve incluir alterações gerais na postura familiar e da
criança, em relação a hábitos alimentares, tipo de vida, atividade física e correção alimentar.
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