TÍTULO DO SIMPÓSIO: PESQUISA E INTERVENÇÃO NA PSICOLOGIA HITÓRICO-CULTURAL TÍTULO DO TRABALHO: A ORGANIZAÇÃO DE PESQUISAS EM PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO NA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL: o ensino e a formação do pensamento teórico. Carolina Picchetti Nascimento – FE-USP - [email protected] bolsista FAPESP 1. Introdução O conhecimento sobre a realidade, o processo para se conhecê-la e o produto resultante deste processo, suscita-nos algumas questões, tais quais: qual o papel do conhecimento para os indivíduos e para a humanidade em geral? Qual a relação entre o conhecimento e a realidade? Quais são os procedimentos para se produzir conhecimentos? Todas essas perguntas refletem um aspecto geral e fundamental no processo de produção de conhecimentos: o método. O método, compreendido como um meio para a obtenção de determinados resultados no conhecimento e na prática (KOPNIN, 1978) orienta ou direciona a produção de conhecimentos por meio da concepção de homem e de mundo (e no nosso caso: de educação, ensino, aprendizagem e desenvolvimento) que apresenta. Se o método, como meio para a obtenção de conhecimento, determina em grande parte a direção e os resultados possíveis do conhecimento a ser obtido, uma primeira consideração que fazemos neste trabalho é com relação à necessidade de explicitação (para si e para os outros) do método ao qual a pesquisa se vincula, particularmente no que tange aos procedimentos teórico-metodológicos utilizados. Esta explicitação permite ao pesquisador uma relação mais consciente com os limites e as possibilidades de produção de conhecimento (dadas, justamente, pelo método que lhe fundamenta) e permite aos leitores uma análise do conhecimento produzido à luz das concepções gerais anunciadas pelo método. 2 Partimos da seguinte tese: assumir a perspectiva da teoria histórico-cultural como fundamentação para a realização de pesquisas no campo educacional implica em assumir o método no qual essa teoria foi elaborada - o materialismo histórico e dialético - de modo que as concepções de ensino, de aprendizagem e de formação humana, presentes no referido método, sejam orientadoras para a elaboração e/ou apropriação dos instrumentos de pesquisa. Compreendemos que os procedimentos de pesquisa podem ser aproximados ao conceito de instrumentos (WERTSCH 1998; VIGOTSKI, 2009). Neste sentido, constituem-se em um elemento intrínseco de toda a pesquisa, condicionando a sua existência e as próprias possibilidades de ações do pesquisador. Estamos afirmando, assim, que os procedimentos de pesquisa constituem-se em um elemento orgânico da ação do pesquisador. Trata-se de algo indissociável de sua ação de “fazer pesquisa” e que expressa um determinado conjunto de experiências da humanidade relacionadas à produção de conhecimento científico. Assim, produzir conhecimentos visando sistematizar estes instrumentos ou procedimentos de pesquisa não se constitui em uma forma de limitar ou padronizar o trabalho investigativo, mas justamente, de ampliá-lo. Apenas apropriando-se do conjunto de instrumentos já existentes é que o pesquisador poderá realizar ações de pesquisa efetivamente criativas. A teoria histórico-cultural vem sendo cada vez mais utilizada como fundamentação teórica para as pesquisas em educação (SOUZA, SYNTHES e BARROCO, 2010 1 ). Diante desse quadro, podemos nos perguntar: quais instrumentos de pesquisa essa perspectiva teórica adota para a produção de conhecimentos no campo educacional? Como essa perspectiva teórica dialoga com outros instrumentos engendrados em marcos teóricos diferentes? É possível, sistematizar procedimentos para a pesquisa em educação a partir da teoria histórico-cultural? O estudo de teses e dissertações fundamentadas na teoria histórico-cultural apresenta-se como uma possibilidade de elaboração de respostas às questões formuladas anteriormente. Trata-se, assim, de compreender o movimento de apropriação – e, portanto, de criação – do método (materialista histórico e dialético) e da concepção metodológica presentes na teoria histórico-cultural por parte das pesquisas em educação e em psicologia escolar fundamentadas nessa perspectiva teórica. 1 Neste trabalho as autoras apresentam um levantamento dos grupos de pesquisa que se fundamentam na tória histórico-cultural e que estão cadastrados no CNPq, contabilizando um total de 53 grupos. 3 Neste trabalho, temos como objetivo analisar os procedimentos teóricometodológicos desenvolvidos em nossa dissertação de Mestrado. Esses procedimentos, que são criados a partir do objeto específico da pesquisa, (portanto, atendendo a sua dimensão singular) relacionam-se, necessariamente, a um objeto comum (dado pela área em que a pesquisa se insere: em nosso caso, a Educação e a Psicologia escolar) o que nos permite estudá-los em seu aspecto também genérico ou generalizável e, assim, falar em um conjunto de princípios teórico-metodológico para realização de pesquisas fundamentadas na teoria histórico-cultural. Consideraremos neste trabalho três teses centrais da teoria histórico-cultural : a) o caráter social das funções psíquicas; b) a apropriação dos bens culturais como condição essencial para a formação humana; c) a necessidade de superação das condições alienantes e alienadoras de nossa atual sociedade. Estas teses gerais serão apresentadas, aqui, a partir de outras duas teses que fundamentaram nossa dissertação: d) o único bom ensino é aquele se adianta ao desenvolvimento (VIGOTSKII, 1991); e) não basta qualquer ensino, mas um ensino adequadamente organizado (VYGOTSKY, 1994). A partir dessas teses analisaremos os procedimentos teóricos e metodológicos utilizados em nossa pesquisa de mestrado, cujo objeto de investigação era o processo de organização do ensino para a formação do pensamento teórico. Com relação à tese “o único bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento”, definimos em nosso trabalho a que tipo de desenvolvimento estávamos nos referindo: no caso, o desenvolvimento do pensamento teórico (DAVIDOV, 1988). Com relação à tese de que “não basta qualquer ensino, mas devemos ter um ensino adequadamente organizado”, temos a elaboração de questões norteadoras da dissertação, tais quais: como se organiza o ensino para a formação do pensamento teórico?; como definir o conteúdo de ensino, considerando que ele seja o objeto para a formação do pensamento teórico? quais os princípios teórico-metodológicos para a organização do ensino na teoria histórico-cultural? A exposição da análise dos procedimentos teórico-metodológicos utilizados por nós ocorrerá tendo por base três processos centrais da pesquisa: os processos de obtenção, organização e análise dos dados. Para cada um deles ressaltamos os princípios que os fundamentam bem como os instrumentos por nós utilizados, respectivamente: o experimento didático, os episódios de ensino e as unidades de análise. 4 2. O processo de Obtenção dos dados: elaboração de um experimento didático com o objeto de ensino. O primeiro conjunto de procedimentos para a pesquisa que iremos refletir neste trabalho relaciona-se ao processo de obtenção dos dados da realidade empírica. Quais são os instrumentos possíveis para a obtenção dos dados na pesquisa em educação nos marcos da teoria histórico-cultural? Ou, antes disso: o que constitui um dado empírico para essa perspectiva teórica e como obtê-lo? O que distingue os fatos comuns dos fatos científicos? O fato real e o fato científico distinguem-se precisamente um do outro pelo fato de que este último constitui o fato real reconhecido em determinado sistema, isto é, uma abstração de certos traços da inesgotável soma de signos do fato natural (VIGOTSKI, 2004, p. 234). A primeira consideração com relação ao processo de obtenção dos dados referese à concepção mesma de “dados” ou fatos científicos e à concepção de realidade atrelada a ela. Os dados de pesquisa, ainda que sejam um produto da ação do pesquisador e que reflitam as suas intencionalidades e os seus referenciais teóricos, possuem uma dimensão objetiva que independe deste pesquisador. Os fatos comuns ou imediatos (a realidade em si) existem independentemente do pesquisador; os fatos científicos, entretanto, são já um produto da relação ou ação do pesquisador com os fatos comuns. É nesta dimensão, e somente nessa, que podemos compreender a idéia de que o conjunto de dados de uma pesquisa é um processo de “construção” desses dados pelo pesquisador. [...] como fato real da experiência direta, a visão dos raios químicos por parte das formigas não existe para nós. Mas para a existência coletiva da humanidade existe sim como fato científico (VIGOTSKI, 2004, p. 236). Embora possamos afirmar que a realidade exista objetivamente e em si mesma, independentemente das pessoas serem ou não conscientes dessa realidade (tal qual o 5 exemplo da visão das formigas), a compreensão da realidade para além de sua aparência - tarefa de todo o conhecimento científico - e, assim, a produção da realidade pensada, só é possível mediante a relação do pesquisador com esta realidade. O pesquisador deve buscar explicá-la, estabelecer relações entre vários fatos ou grupo de fatos, definindo as causas de surgimento do fenômeno/ realidade investigada e, assim, revelando aquilo que não estava dado imediatamente. O pesquisador buscará explicitar o fenômeno para além de sua aparência. Uma segunda consideração com relação ao processo de obtenção dos dados na pesquisa refere-se à definição dos instrumentos para realizar tal ação. Neste sentido, a relação pesquisador - realidade é (ou deve ser) planejada desde o início de modo que o pesquisador possa se relacionar com aqueles aspectos mais importantes da realidade para a compreensão do seu objeto de estudo. O pesquisador deve selecionar, intencionalmente, os fatos científicos que sejam mais importantes para que ele explique a realidade investigada. O processo de investigação do pesquisador em uma dada realidade reflete a sua intencionalidade, seus objetivos e seus referenciais teóricos e, assim, determina em grande medida, os procedimentos que selecionará para se aproximar dessa realidade: definição dos aspectos a serem registrados e os modos de registrá-los; escolha dos sujeitos que tomarão parte da investigação; escolha do espaço ou contexto em que a investigação ocorrerá etc. E uma vez que essas ações e os instrumentos mesmo de pesquisa dependem inteiramente desta intencionalidade do investigador e de seus referenciais teóricos, é necessário explicitar essa intencionalidade, do começo ao fim da pesquisa, o que deve estar explicitado: no problema, na tese, no objetivo e no objeto da pesquisa. Por tanto, faz parte desse processo de obtenção dos dados a relação consciente do pesquisador com àqueles procedimentos de pesquisa que possuem uma dimensão mais operativa ou “técnica”, tais quais: as técnicas de filmagem; a posição da câmera e do microfone no caso de registros em áudio e vídeo; o uso de questionários; a organização de entrevistas; o registro em caderno de campo; a realização de experimentos didáticos etc. E para isso, os conhecimentos advindos de diferentes perspectivas teóricas podem ser válidos. Estes instrumentos mais “operativos” ou técnicos, tomados em si mesmos e isoladamente, podem ou não corresponder aos princípios e fundamentos da teoria histórico-cultural. Queremos dizer com isso: as técnicas de obtenção e registro de dados 6 devem ser analisadas não isoladamente, mas na relação que ela estabelece com os demais instrumentos de pesquisa (ou com a ação do pesquisador). Só assim, sua coerência – ou não – com a perspectiva teórica adotada poderá ser explicitada. Tomemos um exemplo. Imaginemos que um pesquisador, realizando suas investigações em uma sala de aula, tome como instrumento de registro o caderno de campo. O fato deste pesquisador registrar os dados observados em um caderno e, inclusive, o fato deste nosso hipotético pesquisador utilizar-se de alguns conhecimentos produzidos pela etnografia para registrar esses dados, não significa necessariamente a sua vinculação à perspectiva teórica etnográfica. O que vai determinar a sua filiação teórica é o conjunto de instrumentos utilizados nos processos de obtenção, organização e, sobretudo, análise dos dados. Isto é, a sua pesquisa como um todo, do qual o registro no caderno de campo é apenas um elemento e um elemento operativo. De toda forma, o que deve ser considerado é que para analisarmos quaisquer “técnicas” ou instrumentos de obtenção e de registro dos dados, precisamos pensá-los: a) na totalidade da pesquisa e em relação com os demais instrumentos utilizados, especialmente nos processos de organização e análise dos dados; b) na correspondência destes instrumentos com os princípios da teoria histórico-cultural e com o método no qual ela se fundamenta. Assim, teríamos como perguntas para essa análise: os instrumentos adotados pelo pesquisador permitem que ele se aproxime do seu objeto de pesquisa de modo a conhecê-lo em sua essência? Estes instrumentos estão coerentes com os princípios da teoria histórico-cultural (tais como: o caráter social das funções psíquicas; a universalidade da apropriação dos bens culturais; a superação da alienação)? Esta última consideração nos leva a pensar em um terceiro princípio com relação ao processo de obtenção dos dados fundamentado na teoria histórico-cultural: a necessidade de apreensão dos dados em seu processo de desenvolvimento e junto com ele, um quarto princípio: o objeto a ser investigado deve manifestar-se a partir das ações intencionais do pesquisador. Utilizando-nos de uma metáfora, o fenômeno que se quer investigar, explicar, deve ser captado não de modo a obtermos um retrato deste fenômeno (o objeto estático), mas de modo a obtermos um “filme” do fenômeno (o objeto em movimento). Uma vez que explicar o fenômeno implica em explicar o seu processo de desenvolvimento (o que é, como era, como pode vir a ser), isto é, explicitar as relações que este fenômeno estabelece consigo mesmo e com outros, o processo de obtenção dos dados deve 7 conseguir captar essa dimensão dinâmica do fenômeno para que a análise explicativa possa ocorrer. Em nossa pesquisa de mestrado pretendíamos investigar o processo de organização do ensino relacionada à formação do pensamento estético-artístico, isto é, à formação do pensamento teórico no campo das atividades artísticas. Nosso objeto, portanto, era a organização do ensino, entendida como aquela que promove a formação do pensamento teórico dos estudantes. Se por um lado, era importante acompanharmos o processo de desenvolvimento deste tipo de pensamento nos sujeitos, como ia se dando a sua apropriação dos conceitos e as suas relações com a atividade criadora, nosso foco de investigação residia mais nos processos de ensino e organização do ensino do que nos processos de desenvolvimento psíquico propriamente dito. Ainda que haja uma relação bastante próxima entre os processos de ensino e desenvolvimento (o ensino, como afirma a teoria vigotskiana, é o aspecto fundamental e necessário para o desenvolvimento cultural do sujeito), nossa investigação não é tanto uma investigação psicológica, mas sim pedagógica. Evidentemente há uma linha tênue entre essas duas áreas de investigação, sobretudo quando se dão dentro de uma mesma perspectiva teórica (a Teoria HistóricoCultural). Entretanto, ainda que seja tênue, ela efetivamente existe. A forma como organizamos a pesquisa, o problema e os objetivos propostos e o modo como organizamos a análise dos dados, apontam mais para uma pesquisa de cunho pedagógico, que busca investigar as relações e os processos de organização do ensino, o processo de apropriação da atividade teórica pelos educandos – ou em outras palavras, as “leis da organização do ensino” – do que uma pesquisa de cunho psicológico, que busca investigar os processos de desenvolvimento de uma ou outra função psíquica – as leis do desenvolvimento. Entretanto, as pesquisas psicológicas e pedagógicas fundamentadas na teoria histórico-cultural compartilham os princípios do mesmo método e da mesma concepção metodológica: a) a necessidade de apreensão dos dados em seu processo de desenvolvimento e b) o objeto a ser investigado deve manifestar-se a partir das ações intencionais do pesquisador. O método genético experimental (VYGOTSKI, 1995) e, mais especificamente, a metodologia do experimento formativo (DAVIDOV, 1988) buscam superar uma investigação no campo da psicologia apenas constatadora dos processos de desenvolvimento, concretizando uma pesquisa que considere que tais processos só 8 podem surgir mediante o ensino e a aprendizagem dos mesmos. O experimento formativo, então, busca investigar o processo de desenvolvimento de determinadas funções psíquicas que são intencionalmente formadas durante o próprio processo da investigação. O objeto de pesquisa não é “buscado” em uma dada realidade, mas é provocado para que apareça ou surja nessa realidade. Para o método do experimento formativo é característico a intervenção ativa do investigador nos processos psíquicos que ele estuda [...]. Para nós, se pode chamar ao experimento formativo experimento genético modelador, o que plasma a unidade entre a investigação do desenvolvimento psíquico das crianças e sua educação e ensino (DAVIDOV, 1988 p.196, grifos do autor). Entretanto, e como já discutimos, nossa investigação não é uma investigação propriamente psicológica. Assim, ainda que compartilhemos do mesmo método geral de investigação (o método materialista histórico e dialético), nossa metodologia deveria ser, necessariamente, outra. Estamos chamando de experimento didático ao procedimento metodológico utilizado em nossa pesquisa para a obtenção dos dados. Com o experimento, buscávamos formar um determinado tipo de relação do sujeito com a realidade, formar um determinado tipo de pensamento: o pensamento teórico. Da mesma forma que o experimento formativo, nossa pesquisa foi uma forma de propiciar o desenvolvimento dos sujeitos. Entretanto, e como já mencionamos, por termos como objeto de nosso trabalho mais a organização do ensino do que a formação psicológica dos estudantes, a situação experimental enfatizou uma investigação da relação ensino/aprendizagem em detrimento de uma investigação da relação entre o ensino/desenvolvimento. Resumindo, o nosso procedimento metodológico estava subordinada ao objeto de nossa pesquisa que era o processo de organização do ensino para a formação do pensamento teórico. Ainda que seja uma situação realmente de ensino, o experimento didático possui uma condição que o faz ser uma situação de ensino especial, comparativamente às situações de ensino que ocorrem nas escolas. O experimento didático cria uma situação de ensino especialmente organizada para os fins da pesquisa, buscando responder, em primeiro lugar, à necessidade da pesquisa e não à necessidade de ensino presente na situação escolar em primeiro plano. De novo, encontramos aqui uma linha bastante tênue entre uma situação e outra, mas o que não quer dizer uma linha contínua entre as duas. Se na situação de ensino escolar, o objeto da consciência do educador é a 9 organização do ensino e a aprendizagem das crianças, o objeto da consciência do investigador, numa situação de experimento didático, é o próprio objetivo da pesquisa. Muitas vezes, e como no nosso caso, o objetivo da pesquisa inclui, em si, os objetivos anteriormente mencionados e que estão presentes, em primeiro plano, no educador na escola. O experimento didático foi realizado na dissertação mediado por uma forma específica de organização do ensino: a atividade orientadora de ensino (AOE) (MOURA, 11996; 2010). Em termos gerais podemos dizer que a AOE é uma proposta pedagógica de organização do ensino tendo por base os princípios educativos e didáticos presentes na Teoria Histórico-Cultural, sintetizados em modos gerais de ação docente. Destacamos alguns desses modos gerais de ação: a) compreensão do conceito como um instrumento psíquico, historicamente formado e que surgiu como uma forma da humanidade resolver determinado problema ou necessidade em uma dada atividade; b) o entendimento de que a finalidade do ensino é a de formar o pensamento teórico (DAVIDOV, 1988) ou científico (VIGOTSKI, 2009) dos estudantes; c) o objeto de ensino e de aprendizagem da atividade pedagógica é o próprio conhecimento teórico; d) a intencionalidade do professor na atividade pedagógica deve estar presente em todo o percurso de ensino e é materializada nas ações de ensino e nas ações de aprendizagem. Assim, considerando como objeto central da atividade pedagógica o conhecimento teórico, procuramos em nossa dissertação explicitar como ponto de partida para a organização do experimento didático os conceitos (modos de ação) necessários de serem ensinados e aprendidos para que os estudantes se apropriassem teoricamente da atividade que estávamos trabalhando com eles (a atividade circense) e, assim, do pensamento teórico presente nela: o pensamento estético artístico (NASCIMENTO, 2010). Os conceitos necessários de serem ensinados para que os estudantes pudessem dominar teoricamente a atividade circense (conceitos que lhes permitissem criar intencionalmente cenas) serviram de base para a organização do ensino e, no nosso caso, para a elaboração do experimento didático tendo por base os princípios pedagógicos presentes na teoria histórico-cultural. 3. O processo de organização dos dados: os episódios de ensino 10 O processo de organização dos dados da pesquisa tem como princípio central a descoberta dos momentos críticos para a análise do objeto. Trata-se, nesta etapa da pesquisa, de transformar e organizar os dados obtidos na etapa anterior, preparando-os para a análise. O processo de obtenção dos dados, ainda que já seja uma primeira forma de selecionar o material para a análise - transformando os fatos comuns em fatos científicos - constitui-se, por assim dizer, em um conjunto de dados “brutos”, dispostos de uma maneira caótica e, de certo modo, incompreensíveis. O processo de organização dos dados refere-se, assim, a um momento de “lapidação” desse conjunto caótico de fatos obtidos da realidade empírica, organizando-os de modo a estruturar as posteriores ações de análise do pesquisador. Como iniciar esse processo de organização dos dados? Como descobrir esses momentos críticos ou essenciais para a análise? Comecemos com a resposta a segunda pergunta. Para organizar os dados de uma pesquisa é preciso, tal qual no seu processo de obtenção, ter clareza das intenções, do objeto, do objetivo e dos referenciais teóricos que nos fundamentam. Ao ter o objeto de investigação e o objetivo em mente (isto é, o produto que se quer obter ou objetivar ao final da pesquisa), o pesquisador poderá olhar para o seu conjunto de dados iniciais identificando aqueles que se aproximam mais do objeto que se quer investigar; aqueles que parecem trazer um potencial maior para a análise. Assim, o objeto e o objetivo do pesquisador, constituem-se no eixo ou no elemento norteador do processo de organização dos dados. Passemos a primeira pergunta: como organizar esses dados? Nas pesquisas em sala de aula, geralmente o pesquisador se depara com uma quantidade bastante volumosa de dados registrados e passíveis de se constituírem em material para a análise. Assim, a resposta à questão de “como organizar esse volume de dados” tem uma dimensão prática de bastante importância. Pensamos que o primeiro passo nesse processo de organização dos dados seja o pesquisador conseguir elaborar um quadro geral ou uma descrição inicial que lhe permita visualizar a totalidade desses dados. Para isto, o “mapa de eventos” (MARTINS, 2006) parece constituir-se em um instrumento ou recurso bastante favorável. O mapa de eventos constitui-se em uma primeira etapa de organização dos dados registrados em áudio, vídeo e/ou cadernos de campo. Ele apresenta uma descrição geral 11 dos acontecimentos de cada aula (ou dia de pesquisa) e a localização destes acontecimentos ou eventos nos registros de áudio e vídeo (número da fita, tempo em que ocorreu etc). Poderíamos dizer que se trata ainda de uma organização descritiva dos dados, apresentando-os tanto cronologicamente (os dados são dispostos de acordo com a sucessão real ou cronológica em que ocorreram), quanto “tematicamente” (em que os dados são agrupados por temas previamente selecionados pelo pesquisador, independentemente dos tempos cronológicos em que ocorram). Em nossa pesquisa, optamos por essa organização temática dos dados, a partir de conceitos que se relacionavam ao nosso objeto (formação de conceito; imaginação; ações de ensino etc). Esta primeira etapa de organização dos dados nos permitiu focar atenção naqueles aqueles dados mais significativos para a análise. Como se vê, o mapa de eventos não nos indica ainda os “pontos centrais para a análise”, mas nos dá uma compreensão de todos os eventos ocorridos, nos dá uma percepção “macro” dos acontecimentos que foram observados e/ou gravados em áudio e vídeo e nos permite agrupar os dados empiricamente. Deste modo, trata-se da primeira forma efetiva de organização dos dados, preparando-os para a análise do pesquisador. O segundo momento de organização desses dados seria – partindo do mapa de eventos – pré-selecionar aqueles acontecimentos e temáticas que parecem mais relevantes para a análise do objeto de pesquisa, detalhando as cenas que compõem tais eventos. Trata-se, então, do momento de transcrição dos áudios e vídeos (ou de detalhamento das descrições que foram registradas no caderno de campo) para cada um dos eventos ou temáticas pré-selecionadas pelo pesquisador. Neste momento da organização dos dados, em que determinados eventos podem ser visualizados em toda a sua riqueza (as falas, os gestos, as ações, a situação ao qual se vincula etc), é possível ao pesquisador esboçar possibilidades de análises com os dados e preparar a terceira e última etapa de sua organização: a elaboração de episódios. Os episódios poderão ser frases escritas ou faladas, gestos e ações que constituem cenas que podem revelar interdependência entre os elementos de uma ação formadora. Assim, os episódios não são definidos a partir de um conjunto de ações lineares. Pode ser que uma afirmação de um participante de uma atividade não tenha impacto imediato sobre os outros sujeitos da coletividade. Esse impacto poderá estar revelado em um outro momento em que o sujeito foi solicitado a 12 utilizar-se de algum conhecimento para participar de uma ação no coletivo (MOURA, 2004, p.276, grifos do autor). Os episódios, assim, contém uma classe de fatos capazes de explicitar empiricamente os fenômenos, sintetizando um conjunto de fatos ou cenas previamente organizadas e transcritas, que se articulam a uma temática comum. Por isso mesmo, os episódios já assumem a forma de um modo de exposição dos dados empíricos da pesquisa, ainda que obviamente não seja capaz de – por si – analisar esses dados. Assim, consideramos que o terceiro momento de organização dos dados permite ao pesquisador trabalhar com um conjunto de dados já “lapidados” para a análise, ao mesmo tempo em que lhe indica um modo de exposição dos dados de sua pesquisa. Os episódios, deste modo, apontam-nos já para uma necessidade teóricometodológica das pesquisas científicas: analisar o processo de desenvolvimento das situações a serem analisadas e não apenas um ou mesmo diversos elementos que compõem essa situação. Os dados podem ser agrupados, agora, não mais empiricamente mas teoricamente, por meio de organização das diversas cenas em episódios que expressem determinadas “categorias” teóricas ou “unidades conceituais de análise”. Os episódios, ao aglutinarem de forma lógica e subordinada a um determinado conceito teórico, situações em seu processo de desenvolvimento, permitem que os dados sejam analisados também teoricamente. 4. O processo de análise dos dados: o trabalho com o conceito de “unidade de análise” O processo de organização dos dados discutido no tópico anterior pode nos levar a um momento bastante importante da pesquisa: a descrição dos dados. De fato, ao organizarmos os materiais para a análise, organização essa intencional e orientada pelos objetivos da pesquisa, geralmente conseguimos descrever o nosso fenômeno de forma bastante rica e completa. Contudo, a descrição dos fatos ou fenômenos não é, em si, suficiente. É preciso dar um salto além da descrição e conseguir efetivamente explicar o fenômeno investigado, explicitando aquilo que não nos aparece de imediato e que está oculto quando nos relacionamos diretamente com este fenômeno. 13 A teoria histórico-cultural tem como princípio central para o processo de análise dos dados a busca da explicação do fenômeno, explicação essa que exige que o objeto investigado seja explicitado em seu movimento, isto é, que se revele o seu processo de desenvolvimento. [...] a verdadeira missão da análise em qualquer ciência é justamente a de revelar ou por de manifesto as relações e nexos dinâmico-causais que constituem a base de todo fenômeno. Nesta proporção a análise se converte, de fato, na explicação científica do fenômeno (Idem, p. 101). Vygotski (1995), partindo do método materialista histórico e dialético, aponta alguns princípios para o processo de análise dos objetos: a) centralidade da explicação em detrimento da descrição dos fenômenos, engendrando uma análise que revele as relações dinâmicas (ou causais) efetivamente existentes, em oposição à simples sistematização ou enumeração das características externas de um processo; b) uma análise do processo em detrimento a uma análise do objeto em si, descolado de suas relações com os demais objetos e consigo mesmo; c) a realização de uma análise genética dos objetos, isto é, uma análise do seu processo de desenvolvimento, reconstruindo todos os pontos e fazendo-os retornar à origem do desenvolvimento de uma determinada estrutura. Ainda que possamos reconhecer o valor destes princípios levantados por Vigotski para a realização de nossas pesquisas, podemos nos perguntar: mas quais seriam os procedimentos metodológicos para efetivarmos esses princípios? Consideramos que a resposta a essa questão – e talvez possamos dizer: a todas as questões dessa natureza, que buscam sistematizar os procedimentos efetivos para nossas ações de pesquisa – precisam ser elaboradas a partir de um diálogo orgânico entre os princípios gerais e específicos presentes na teoria histórico-cultural e as condições objetivas da pesquisa que estamos realizando. Ou seja, os princípios devem ser dominados pelo pesquisador para, com eles, elencar e/ou elaborar os procedimentos de obtenção, organização e análise dos dados específicos para as condições de pesquisa existentes. Como já defendido no início deste trabalho, consideramos ser possível (e necessário) sistematizar alguns procedimentos de pesquisa referentes aos processos de 14 obtenção, organização e análise dos dados. Isto não significa criar um “manual” de pesquisa (o que, além de contraditório com o método, nos parece impossível de se efetivar), mas também não pode se reduzir a apenas uma sistematização de princípios teóricos gerais. Como um procedimento teórico-metodológico para a análise dos dados destacamos o processo de elaboração de unidades de análise, desenvolvido por Vigotski (2009). Vigotski defende que o processo de análise seja pautado na análise por unidades, contrapondo-se à análise por elementos que ao nos levar a “[...] produtos que perderam as propriedades inerentes ao todo nem chega a ser propriamente análise do ponto de vista do problema cuja solução ela se aplica” (2009, p.6). As unidades de análise buscam estabelecer a “célula viva” do objeto ou fenômeno que está sendo investigado, contendo as relações essenciais do objeto (ou a sua totalidade), o que permite ao investigador o estudo do objeto como um todo e em seu processo de desenvolvimento, a despeito de ter partido de uma abstração para a análise. Assim, essas abstrações ou unidades expressam as características necessárias e suficientes para a compreensão/explicação do objeto características essas objetivamente presentes nos fenômenos. Considerando a validade e a importância desse método de análise para captar o fenômeno em sua totalidade e em seu processo de desenvolvimento, poderíamos pensar que ele pode se configurar como um procedimento teórico-metodológico para a pesquisa em educação. Isso não quer dizer que possamos estabelecer a unidade de análise das pesquisas em educação, já que para cada objeto há que se encontrar a sua própria unidade de análise ou a sua unidade correspondente. Contudo, ao explicitarmos o processo de elaboração de diferentes unidades de análise por parte dos pesquisadores, poderemos sistematizar um caminho ou um modo de ação possível para o trabalho com as unidades de análise. Ou seja, ao analisarmos os processos pelos quais um pesquisador passou para chegar a uma determinada unidade de análise, muito provavelmente poderemos nos apropriar de formas de trabalho com ela, em outros contextos de pesquisa e para outros objetos de estudo. Em nossa dissertação, buscamos trabalhar com a idéia de “unidade de análise” no processo de organização do ensino. Elaboramos a idéia de “unidade fundamental do objeto de ensino” ou “unidade fundamental de ensino”, para nos referirmos à “célula” ou a “abstração substancial” para um determinado tema ou conteúdo a ser ensinado. 15 Esta unidade ou abstração, explicitaria as características necessárias e suficientes em um dado tema/conteúdo de ensino e, assim, assumiria o papel de eixo organizador do ensino (dos conceitos a serem aprendidos para que os estudantes conheçam o objeto/fenômeno teoricamente). Essa idéia se constituiria no ponto central e fundamental da organização do ensino para a formação do pensamento teórico. A determinação da unidade fundamental de um objeto, como já afirmamos, não é arbitrária, a depender do interesse e do olhar de quem o caracteriza. Ela existe objetivamente na realidade, na forma de relações historicamente estabelecidas entre esse objeto e a realidade e, assim, não precisa e não pode ser recriada a cada instante e por cada pessoa, mas, antes, precisa ser revelada ou explicitada pelo educador. Qual seria, então, a unidade fundamental do circo como uma atividade artística? O que caracteriza o circo em sua essência? Para chegarmos a essa resposta elencar todos os elementos que compõem o circo (movimentos corporais, personagens, público, palco, coreografia, enredo, intencionalidade, figurino, música, maquiagem, cenários...) é, sem dúvida, uma tarefa importante, contudo, não é, em si, suficiente. A essência do circo (e de qualquer objeto) não está em um ou vários elementos juntos, mas em uma determinada relação entre esses elementos. Nenhum deles representa as características necessárias e suficientes para definir o objeto, isto é, a “célula” ou a unidade fundamental de análise do circo. Portanto, mais do que estabelecermos os elementos mais importantes presentes na atividade circense, precisávamos olhar para esses elementos de modo a estabelecer as relações fundamentais existentes entre eles, bem como entre os elementos e a atividade como um todo. Esta unidade encontramos no processo de composição das cenas. O objeto de ação dos artistas circenses (que posteriormente será transformado em objeto de ação dos educandos) e que representa a unidade fundamental do circo é a criação de cenas. O artista circense deve dominar todos aqueles elementos já descritos. Se se trata de um contorcionista, domina os movimentos, escolhe as roupas mais adequadas, prepara a maquiagem, pensa no espaço, na luz, na música que irá tocar etc. Mas a questão central é que nenhum desses elementos existe por si mesmos. Todos eles estão subordinados ao motivo do artista que é criar um objeto artístico. No caso do artista circense, esse objeto artístico, produto de seu trabalho e objeto de apreciação estética do público, são as cenas. Deste modo, cada um dos elementos de criação da cena ganha vida no circo apenas quando entra em movimento no próprio processo de criação das 16 cenas, isto é, quando se subordinam ao motivo central da atividade circense, transformando-se em orientações para as ações dos artistas. Assim, por meio da idéia geral de unidade de análise, conseguimos analisar teoricamente o objeto de ensino. E o produto desta análise constituiu em ponto de partida ou eixo organizador para a elaboração do experimento didático de modo que o mesmo pudesse desempenhar o papel de um ensino orientado para a formação do pensamento teórico dos estudantes. Como já defendido no início deste trabalho, a sistematização de procedimentos teórico-metodológicos fundamentados na teoria histórico cultural é não apenas possível, mas, também, necessária na medida em que constitui um corpo de conhecimentos ou instrumentos que permite aos pesquisadores uma relação ainda mais consciente e intencional com a sua atividade de pesquisa. Esses procedimentos, criados a partir dos objetos específicos de cada pesquisa, (portanto, atendendo a sua dimensão singular), relacionam-se necessariamente a um objeto comum (dado pela área em que a pesquisa se insere: em nosso caso, a Educação e a Psicologia Escolar), o que nos permite estudá-los em seu aspecto genérico ou generalizável. É nesta medida que compreendemos a possibilidade de, para além da enunciação de princípios teóricos gerais presentes no método e na concepção metodológica da teoria histórico-cultural, sistematizarmos procedimentos de pesquisa que expressem modos gerais de ação do pesquisador. 5. referências bibliográficas Davidov, V. V. (1988). La enseñanza escolar y el desarrollo psíquico: investigación psicológica teórica y experimental. Moscou: Progresso. KOPNIN, P. V. (1978) A dialética como lógica e teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. MARTINS, I. (2006). Dados como diálogo – Construindo dados a partir de registros de observação de interações discursivas em salas de aula de ciências. In: SANTOS, F. M. T e GRECA, I. M. (Org). A pesquisa no ensino de Ciências no Brasil e suas metodologias. Ijuí: Editora Unijuí. 17 MOURA, M. O. (2004) Pesquisa colaborativa: um foco na ação formadora. In: Barbosa, Raquel Lazzari Leite (org). 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