arte 3/1/05 3:07 PM Page 1 Portinari: menino de Brodósqui, homem do Brasil Entrevista: Fernando Pamplona JornaldaUFRJ Gabinete do Reitor – Assessoria de Comunicação – Setor de Mídia Impressa – Ano 2 – nº 4 – março 2005 A nova universidade, segundo o ministro Tarso Genro PPPs no centro da polêmica • O ministro da Educação, em • O chefe da Assessoria Econômica do Ministério do Planejamento, Antonio José Alves, em entrevista ao Jornal da UFRJ, afirma que as Parcerias PúblicoPrivadas vão gerar novas oportunidades de desenvolvimento para o país. No entanto, o economista Reinaldo Gonçalves, professor da Universidade, diz que a lei 11.079 (PPPs), sancionada em 30 de dezembro de 2004, é uma forma de privatizar os serviços públicos. pág. 8 entrevista exclusiva ao Jornal da UFRJ diz que o ensino superior deve ser inclusivo e prevê a expansão das vagas nas instituições federais. Ele revela, porém, que a liberação de recursos para novos investimentos só será feita com a aprovação do Plano de Desenvolvimento Institucional da universidade, previsto no anteprojeto de reforma do governo. Mais detalhes no caderno especial Brasil amplia parcerias no cenário internacional IPPUR recebe nota seis da Capes • O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional é reconhecido pela qualidade e pelo aprimoramento de um intenso trabalho de equipe. "A nossa formação é vinculada à investigação e pesquisa científica, procurando entender a melhor maneira de elucidar processos sociais, econômicos, políticos, culturais, materiais e imateriais, que não são transparentes", explica o diretor do Instituto, professor Carlos Bernardo Vainer. Mais informações na pág. 17 • O presidente Lula, a fim de revitalizar a Organização das Nações Unidas, formou, em 2004, o G-4, grupo que reúne Brasil, Índia, Japão e Alemanha. Esses países defendem uma reforma profunda na ONU. Segundo o cientista político e professor da UFRJ, Francisco Carlos, trata-se de uma demonstração do empenho do governo brasileiro em assumir um papel de cooperação em larga escala com as Nações Unidas. Leia mais na pág. 13 Dois anos de governo Lula Por Luiz Werneck Vianna N NUPEM: Campus avançado em Macaé • A nova sede do Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé, criado em 1993, está em fase final de construção e permitirá a instalação de um campus avançado da Universidade na região. Uma nova turma do curso de ciências biológicas, que já foi aprovada pela congregação do Instituto de Biologia, será aberta no local. O terreno novo foi doado pela prefeitura de Macaé, que também ajuda na construção da sede. Leia mais na pág. 16 foto: Romulo Campos ão restam mais dúvidas de que, findos esses dois anos de governo, longe de promover mudanças de fundo no modelo que tomou forma com o governo Collor em 1989, consolidado e aperfeiçoado nos oito anos sob a presidência de Fernando Henrique, ele já fez sua opção em dar continuidade a esse novo ciclo político da política brasileira. Com efeito, desde então, salvo o curto interregno do governo Itamar Franco, que procurou resguardar o papel do Estado como sujeito ativo no processo do desenvolvimento econômico, inclusive como gestor direto de empresas públicas tidas como de interesse estratégico para o país, a agenda dominante tem sido a de liberar a dimensão sistêmica da economia de quaisquer lógicas que sejam externas a ela. Continua na pág. 3 Hospital Universitário opera obeso Lagoa do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba Debate: 25 anos de PT pág. 4/5 UFRJ retoma terreno da av. Chile pág. 18 • O Hospital Clementino Fraga Filho (HUCFF) realiza cirurgias de redução de estômago desde 2002, além de manter um programa de controle da obesidade mórbida. A obesidade ganhou destaque com os resultados da segunda etapa da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003, divulgada pelo IBGE em 2004, que trouxe uma surpresa: 38,8 milhões de brasileiros com mais de 20 anos estão acima do peso, dos quais 10,5 milhões são obesos. Segundo a pesquisa, o excesso de peso tende a aumentar com a idade mais rapidamente para os homens e de modo gradual para as mulheres. Saiba também calcular seu Índice de Massa Corporal (IMC) através da tabela da pág. 7 Novo plano de carreira para servidores pág. 13 3/1/05 3:07 PM Page 2 Jornal UFRJ editorial arte ano 2 - nº 4 - março 2005 Ano novo, novos rumos OPinião E sta quarta edição do Jornal da UFRJ, a primeira de 2005, traz algumas novidades. Como se vê, estamos Jandira Feghali* aperfeiçoando os projetos gráfico e editorial. O novo formato standard, semelhante ao dos jornais de grande circulação, entre outras vantagens, oferece mais espaço noticioso, o que permite maior cobertura “Se queremos nunca mais vivê-lo, da vida cotidiana da instituição, de seus problemas, de suas virtudes e interesses. Foram criadas quatro novas editorias. Nas páginas de Tribuna e Debate, temas diversos serão discutidos, em devemos nunca mais negá-lo” artigos de autores internos e externos à UFRJ, a fim de consolidar um eixo editorial de interlocução da instituição (Ricardo Lagos – Presidente do Chile). com a sociedade. A nova editoria Internacional pretende veicular e fomentar o debate da agenda mundial, repercutindo especialmente as análises dos especialistas da UFRJ. Em Variedades haverá sempre um painel dos principais eventos de interesse para a comunidade universitária. Foram, ainda, ampliadas as editorias Opinião e Unidades. Nessa última ganham espaço as atividades acadêmicas das Unidades, suas necessidades, sua abrangência, sua relevância. Neste número, três artigos fazem um balanço dos dois anos do Governo Lula, com foco sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores, que completou 25 anos de fundação. Em entrevista exclusiva ao Jornal da UFRJ, o Ministro da Educação, Tarso Genro, defende os principais pontos do anteprojeto de reforma universitária apresentado pelo governo, atualmente sob intensa crítica de setores conservadores. Também com exclusividade, o chefe da Assessoria Econômica do Ministério do Planejamento, Antônio José Alves, explica e defende a lei das PPP’s – Parcerias Público-Privadas–, questionada pelo professor do Instituto de Economia, Reinaldo Gonçalves, que prevê o enrijecimento ainda maior das contas públicas. A alta qualidade da pesquisa científica realizada na UFRJ destaca-se, neste número, nas reportagens sobre o desempenho do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR, cujo programa de pós-graduação obteve grau seis na avaliação da Capes; e sobre a consolidação das atividades do Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé – NUPEM –, do Instituto de Biologia da UFRJ, que agora será a ponta de lança de um campus avançado da universidade na região Norte Fluminense. Como dito em nossa primeira edição, o que se pretende com a recriação, o aperfeiçoamento e a consolidação do Jornal da UFRJ é dotar a universidade de um instrumento estável e democrático de comunicação. Para tanto, haverá de institucionalizar-se pela decisão colegiada e pela apropriação comunitária. Assim, aguardamos as manifestações dos leitores a respeito das mudanças introduzidas, bem como suas sugestões de aperfeiçoamento dos projetos gráfico e editorial. V Cartas inte anos após superarmos a ditadura em nosso país, que ceifou a vida de homens e mulheres, persiste um indisfarçável desejo de dificultar o esclarecimento dos fatos da época por parte daqueles que não incorporaram as mudanças dos tempos. Aqueles brasileiros, que se dispuseram a levar as últimas À Editora responsável, Gostaria de solicitar a V. Sa. que fossem publicados os seguintes esclarecimentos sobre a matéria intitulada “Disputa Política na Escola de Música”, da edição de dezembro de 2004. 1. O Departamento de Instrumentos de Sopro não está se negando "a ministrar aulas aos estudantes do curso de Licenciatura em Música, recém-criado" (...). Este Departamento tem, sim, se negado a ministrar uma matéria que não criou: Instrumento-Licenciatura (...). 2. O professor Afonso Oliveira foi membro da Comissão da Licenciatura e Chefe do Departamento de Instrumentos de Sopro, mas não exercia este último cargo ao tempo da aprovação pela Congregação do Curso de Licenciatura em Música (...). 3.A Diretora da EM-UFRJ desconhece que a aprovação por parte de Conselhos Superiores não substitui aprovação em instâncias inferiores obrigatórias, nem lhe agrega valor jurídico (...). 4. Não mencionei o nome da professora Maria Beatriz Licursi (...). publicação. Pedimos desculpas à professora Maria Beatriz Licursi pela inclusão de seu nome, uma vez que ela não foi ouvida. conseqüências o resgate da democracia e ousaram enfrentar o ••• coragem, heroísmo e opinião de quem não abre mão de conceitos insuportável e inadmissível terrorismo de Estado, deixaram marcados com seu sangue nas terras do Brasil, dores, lamentos, mas sobretudo diferentes dos vigentes, nem na completa adversidade. Além disso, Prezados Senhores, esses “mortos” eram cidadãos, com mães, pais, irmãos, cônjuges, filhos, amigos que os perderam e, até hoje, não obtiveram o Atenciosamente, Eduardo Monteiro Venho através deste parabenizar a UFRJ pelo excelente Jornal que está circulando no meio acadêmico. Aproveito a oportunidade para também solicitar a assinatura do mesmo. N.R. Infelizmente, a interpretação dada pelo professor Eduardo Monteiro, da Escola de Música desconsidera que outras "fontes" foram ouvidas e que todos os diferentes pontos de vista foram respeitados na Atenciosamente, Marcos Oliveira - Arquivo Histórico – Cúria Diocesana de Petrópolis – Rua São Pedro de Alcântara, 12, Centro CEP:25680-300 – Petrópolis - RJ seguiram à escuridão da ditadura trouxeram-nos maturidade de reconhecimento oficial do que realmente aconteceu. Na democracia, instituições não podem viver em sombras ou disfarçadas de si mesmas, nem mudar a história. Os vinte anos que se procurar reparar materialmente, se é que é possível, espancamentos, paus de araras, choques elétricos, humilhações, desaparecimentos e desterros, sem vinganças ou perseguições. Não estão em questão as Forças Armadas, mas um período ditatorial que perseguiu e matou lideranças políticas democráticas, socialistas e comunistas em nosso País. Neste momento, é da mais alta responsabilidade de militares e civis e, fundamentalmente, do Estado Brasileiro que não se permita nenhum tipo de paralisia ou vacilação, que se retire toda a poeira, O Gabinete do Reitor, elabarou, através do Setor de Mídia Impressa, da Assessoria de Comunicação, o Calendário 2005 que está sendo distribuído para todas as unidades da UFRJ. manchas e entulhos desta página de nossa história, para que possamos tratar das dores e chagas causadas pela ditadura, reunificando o povo brasileiro, deixando aos jovens a importância e a história da construção da democracia no Brasil. Jandira Feghali é deputada federal. Assista às sessões do Consuni ao vivo http://tv.ufrj.br/consuni Próximas transmissões dias 10 e 24 de março a partir das 9h Expediente 2 Reitor: Aloísio Teixeira – Vice-Reitor: Sylvia da Silveira Mello Vargas – Chefe de Gabinete: João Eduardo do Nascimento Fonseca – FORUM DE CIÊNCIA E CULTURA Carlos Antônio Kalil Tannus – Pró-Reitoria de Graduação – PR-1: Pró-reitor: José Roberto Meyer Fernandes – Superintendente: Deia Maria Ferreira dos Santos – Pró-Reitoria de pós-Graduação e Pesquisa – PR-2: Pró-reitor: José Luiz Fontes Monteiro – Superintendente de ensino: Leila Rodrigues da Silva – Superintendente administrativa: Kátia Tereza Barroso Abbês – Próreitoria de planejamento e desenvolvimento – PR-3: Pró-reitor:Joel Regueira Teodósio - Superintendente: Almaísa Monteiro de Souza – Pró-reitoria de Pessoal – PR-4: Pró-reitor: Luiz Afonso Henriques Mariz – Superintendente: Roberto Antônio Gambine Moreira – Pró-reitoria de Extensão – PR-5: Pró-reitor: Marco Antonio França Faria – Superintendente: Alexandre Mendes Nazareth – Superintendência Geral de Administração e Finanças – SG-6 – Superintendente: Milton Flores – Prefeitura Universitária – Prefeito: Hélio de Mattos Alves – JORNAL DA UFRJ é uma publicação MENSAL DO SETOR de MídIa IMPRESSA, da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Assessor de Comunicação: Fernando Pedro Lopes – Av. Brigadeiro Trompovsky, s/n. Prédio da Reitoria, 2o andar - Cidade Universitária - Ilha do Fundão. - CEP 21941-590 - Rio de Janeiro - RJ. Telefones: (21) 2598 1621 - 2598 1894 Fax: (021) 2598 1605 - [email protected]. – Editora/Jornalista Responsável: Geralda Alves ([email protected]) – Chefe de Pauta: Geralda Alves – Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: A 4 Mãos comunicação e Design – Ilustração: Cláudio Duarte e Bia Salgueiro (A 4 Mãos) – Redação e Reportagem: Geralda Alves, Ilza Santos e Coryntho Baldez – Estagiários de jornalismo: Ana Carolina Alves, Liana Fernandes, Luana Monçores e Lucas Bonates – Fotografia: Gabriela d‚Araújo – Revisão: Daniele Robert – Secretaria: Maria do Carmo Mendes – Impresso na Gráfica Folha Dirigida arte 3/1/05 3:07 PM Page 3 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 LUIZ WERNECK VIANNA (continuação da página 1) do governo pela via eleitoral. Cumprir essa vocação LUIZ WERNECK Assim, a Carta de 1988, concebida ainda sob a implicou uma conversão, mais uma mutação em sua VIANNA É CIENTISTA influência da social-democracia européia do segundo história que obrigava a se afastar ainda mais do seu POLÍTICO pós-guerra, com sua ênfase no papel do Estado como ponto de partida. Em primeiro lugar, significou o E PROFESSOR- organizador do capitalismo e das relações entre as que se pode chamar de uma “absolvição” da história PESQUISADOR DO suas classes sociais, não por acaso se tornou no do Brasil por um partido de base trabalhista e principal alvo de ataque das forças sócio-políticas popular que se formou e cresceu denunciando os que intentavam romper com a tradição brasileira de seus quinhentos anos como o de um fracasso, forte presença do Estado no domínio econômico. O somente remediável a partir de uma ruptura INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE PESQUISAS DO RIO DE JANEIRO – IUPERJ primeiro presidente que governou sob sua égide revolucionária que nos garantisse um novo começo. chegou a declarar que “com este texto não se pode A conversão se inicia com a aliança com o PL, governar”,e, a partir daí, principalmente no primeiro confiando-se a vice-presidência a este partido na mandato de Fernando Henrique, sucessivas emendas pessoa de um empresário bem sucedido. Aliança, constitucionais expurgaram a Constituição da sua pois, com a burguesia nacional, fração de classe inspiração doutrinária de origem, liberando a esfera identificada por décadas como adversária dos da economia. Nesse contexto, a declaração de Mario interesses populares e da nação pela esquerda Covas – candidato do PSDB à sucessão presidencial de 1989 –, com a legitimidade de quem fêz parte da resistência ao regime militar, que o “país necessitava de um choque de capitalismo” veio a significar que, de fato, emergia um padrão, no processo de tomada de decisões em âmbito econômico, orientado pela lógica de mercado. A larga escala em que se realizaram, nos anos 1990, as privatizações das empresas públicas confirmaram essa mudança. A Não havia nem haverá um plano B – o caminho é este. Esse governo representa a auto-reforma do capitalismo brasileiro, não uma manobra tática ... “Era Vargas”, como anunciara, em 1994, o intelectual do partido. Na reta final da campanha de 2002, o Rubicão é atravessado: o PT se compromete a dar continuidade à política macroeconômica do governo anterior, inclusive à sua política de estabilização monetária. Sem rupturas, pelo caminho das instituições, atinge à Presidência um homem vindo do mundo do trabalho manual, candidato de um partido que pretende exercer a representação dos trabalhadores. Assim, a conclusão feliz do processo vai importar a presidente recém-eleito Fernando Henrique, em governo Fernando Henrique, já conhecia importantes revisão do diagnóstico negativo sobre a história do discurso no Senado, iria ser deixada para trás, mutações em relação àquela que prevalecera na hora país e a consagração da Carta de 1988 como removendo-se o entulho patrimonial, considerado o da sua fundação, da consolidação dos seus quadros documento consensual. Em segundo lugar, significou responsável histórico pelo atraso econômico e partidários e de sua presença eleitoral, a saber: sua que a administração do capitalismo seria, a partir de político da sociedade brasileira. apropriação da agenda da Tradição Republicana, 2002, confiada a uma elite política com origem, Nesse contexto, a declaração de Mario Covas – quando abdicou de sua posição inicial de ruptura socialização e sistema de valores distintos dos que candidato do PSDB à sucessão presidencial de 1989 com a era Vargas; e sua adesão às instituições, como singularizam os personagens desse modo de –, com a legitimidade de quem fez parte da se verificou no recurso ao Poder Judiciário e na valo- produção. Tal problema foi de algum modo atenuado resistência ao regime militar, que o “país necessitava rização do papel do Ministério Público, inclusive de com a designação para o Banco Central de Henrique de um choque de capitalismo” veio a significar que, suas funções investigativas. Na origem, como Meireles, reputado executivo egresso do sistema de fato, emergia um padrão, no processo de tomada notório, o PT iniciou sua trajetória em rota oposta a financeiro internacional, e dos sólidos empresários de decisões em âmbito econômico, orientado pela essas práticas. Nascido do sindicalismo metalúrgico Luis Furlan e Roberto Rodrigues para os Ministérios lógica de mercado. A larga escala em que se de São Paulo, que tinha como principal bandeira a do Desenvolvimento e da Agricultura, respectiva- realizaram, nos anos 1990, as privatizações das liberação dos sindicatos dos procedimentos criados mente. A blindagem do compromisso do governo empresas públicas confirmaram essa mudança. A pela Consolidação da Legislação Trabalhista, com a administração do capitalismo se encorpou no “Era Vargas”, como anunciara, em 1994, o propunha que trabalhadores e empresários fixassem Ministério da Fazenda, cujo titular, Antônio Palocci, presidente recém-eleito Fernando Henrique, em livremente as cláusulas, inclusive as salariais, dos ter- quadro do PT, se apresentou em linha de forte discurso no Senado, iria ser deixada para trás, mos da contratação coletiva do trabalho. Estava, continuidade com a política macroeconômica do removendo-se o entulho patrimonial, considerado o pois, orientado para o mercado, e não para o Estado governo anterior. responsável histórico pelo atraso econômico e e suas instituições. Por meio dessa operação garantiu-se que a A essa origem se vão acrescentar setores da Igreja dimensão sistêmica viveria a sua própria lógica, livre Toda essa mudança encontrou decidida oposição Católica, da sua intelligentzia e mesmo da sua de contaminações do que lhe fosse externo. À do PT, como nos casos das lutas contra as hierarquia, e da fração da esquerda marxista que dimensão da política caberia garantir condições de privatizações, da reforma da previdência, da proposta optara, nos anos 1970, pelo caminho da luta armada, governabilidade, redirecionar as políticas públicas, de flexibilização da legislação trabalhista, da uma boa parte dela de origem trotskista. Essa difícil principalmente nas áreas de educação e saúde, na denúncia da dívida externa, da caracterização do composição se realiza em um momento de descrença direção de uma maior eficiência na distribuição dos governo de Fernando Henrique como neoliberal e a no papel do Estado em razão do autoritarismo seus serviços e da extensão da incorporação, e serviço de “uma inscrição subordinada do país no político do regime militar, de declínio da capacidade promover a execução de programas sociais processo da globalização”. Nesses anos, inclusive de atração do bloco socialista e do movimento orientados para os setores excluídos da população. porque o seu sindicalismo passou a incorporar, comunista em geral – do brasileiro, em particular – e Caberia, ainda, à política abrir novas janelas de crescentemente, contingentes expressivos dos traba- de grande voga mundial do “sindicalismo de base” ao oportunidade no mundo exterior, diversificando lhadores no setor público, o PT se apresentou quase estilo do Solidariedade polonês. Daí sairá um parcerias e as alianças internacionais. No curso desses que como um herdeiro da Tradição Republicana socialismo de índole libertária, despreocupado de dois anos, como se viu, tal desenho foi obedecido à brasileira, com a sua agenda clássica de prevalência afirmações doutrinárias, refratário ao Estado e à risca. Não havia nem haverá um plano B – o caminho política do público sobre o privado e de ênfase na política, centrado nos movimentos sociais, é este. Esse governo representa a auto-reforma do questão da soberania nacional. A essa característica, instrumental quanto às instituições, principalmente capitalismo brasileiro, não uma manobra tática já discrepante dos seus tempos de fundação, vai se quanto ao Parlamento, e animado por um vago visando a sua superação, na expectativa de uma acrescentar uma outra, qual seja a de adesão às projeto de ruptura com a ordem burguesa. Não à conjunção afortunada para uma mudança de rumos. instituições da Carta de 1988, uma vez que suas toa, contrariando uma experiência generalizada na Tirante a curiosidade sarcástica de que o capitalismo derrotas parlamentares, no curso das reformas da esquerda, este partido nasce sem um jornal. Ele não no Brasil pode estar melhor administrado por forças época, o levaram, não mais se restringindo ao é filho de uma teoria, mas de práticas, e foi assim que políticas que não se originaram do seu próprio protesto dos movimentos sociais, a procurar a via pôde transitar da sua política dos anos 80 para a dos campo, o que cabe registrar, a contar por esses dois das ações diretas de inconstitucionalidade a fim de 90 sem maiores sobressaltos, especialmente quando anos já percorridos, é que não há nada que indique contestar a legitimidade constitucional delas. O PT se entreviu, na sucessão presidencial de 1989, a tática que tal modelagem encontre maiores dificuldades à tornará, dentre todos os agentes dotados da que vai cimentar a sua identidade: a eleitoral. sua reprodução, especialmente com o fluxo de político da sociedade brasileira. tribuna Duas décadas e dois anos de governo Lula capacidade de propor Adins no STF, o que mais Essa descoberta veio aos poucos, sedimentada investimentos que deverá provir das Parcerias recorreu a esse instrumento, e sem ele não se pode por conquistas no plano municipal, logo confirmada Público-Privadas, a serem logo convertidas em lei. explicar o processo de judicialização da política que, de modo forte no Parlamento, sempre na esteira de A questão que fica para a esquerda brasileira é atualmente, singulariza a política brasileira. uma candidatura presidencial reiterada por quatro tentar localizar em sua história recente quais Tem-se, portanto, que sua prática política, vista vezes consecutivas. Na derradeira, afinal, a decisão: disparates praticou a ponto de se deixar subsumir da perspectiva dos anos em que liderou a oposição ao a verdadeira vocação do partido seria a conquista inerme à ordem existente. n 3 3/1/05 3:07 PM Page 4 Jornal UFRJ debate arte ano 2 - nº 4 - março 2005 A construção da democracia HÉLIO BICUDO N Helio Bicudo é fundador do PT, foi deputado Constituinte e vice-prefeito de São Paulo esses 25 anos, inúmeras foram as contribuições do partido à causa da democracia no Brasil. O PT, que vinha das lutas pelas Diretas já, não se sujeitou às eleições indiretas impostas pela ditadura, que indicaram Tancredo Neves para a Presidência da Artigo publicado no jornal O Globo de 13/2/2005 República, quando já chegava a seu termo o governo dos generais. Não se conformou com o arranjo tramado nos altos escalões da política para empossar-se José Sarney, que se elegera para a vicepresidência e que somente poderia assumir com a vacância da Presidência, fato que não se dera, já que Tancredo não chegou a tomar posse do cargo para o qual fora eleito, pois falecera em dia anterior àquele em que deveria assumir a curul presidencial. Sustentava-se, então, que a solução democrática seria a realização de novas eleições, agora, diretas, segundo o clamor popular o exigia. O PT já se empenhara em lutas eleitorais que ocorreram anteriormente, tendo disputado as eleições estaduais que se realizaram em 1982. Lula foi candidato ao governo paulista e, não obstante a precariedade dos meios, percorreu todo o estado em carros emprestados, às vezes dormindo com seus companheiros em fundos de bar, e mesmo assim pôde transmitir a uma multidão que acorria às ruas para ouvir as novas mensagens de um partido que pela primeira vez se lançava a uma luta eleitoral. Não importa que não tenha vencido. A semeadura fora feita. Para que se tenha uma idéia da repercussão pública das propostas do PT, convém anotar que, no comício de encerramento da campanha eleitoral, Lula e seus companheiros falaram para cerca de cem mil pessoas reunidas na praça Charles Müller, no Pacaembu. Nas eleições ulteriores, para o Congresso Constituinte — lembremo-nos de que o PT lutava por uma Assembléia Nacional Constituinte realmente autônoma — o Partido dos Trabalhadores lançou candidatos que, nesse instante, se constituíram numa bancada que sob o comando de Lula pôde influenciar na redação do que hoje se considera a Constituição mais democrática que jamais tivéramos. Na redação dos direitos civis, políticos e sociais: ali está a mão do PT; na organização do Dois anos se passaram nos quais não se mediram esforços para o estabelecimento de um patamar indispensável aos avanços sempre perseguidos para a construção de um país mais igual. Este terceiro ano será decisivo para que encontremos os parâmetros de um desenvolvimento que atenda às carências de um país pobre, mas com enorme potencial para desenvolver-se e tornar-se o Brasil com que sempre sonhamos, onde os direitos humanos são o fundamento do estado democrático. Estado: ali está a mão do PT; nas questões de educação e saúde: ali está a mão do PT; na organização do Poder Judiciário e do Ministério Público: ali está a mão do PT. 4 primeiro partido a requerer a abertura, na quais não se mediram esforços para o É mesmo inacreditável que o então pequeno Câmara, de um processo de impeachment que, estabelecimento de um patamar indispensável aos PT, com uns poucos deputados, conseguiu se im- entretanto, dormiu nas gavetas de sua Mesa avanços sempre perseguidos para a construção de por a um parlamento conservador e traçar os parâ- Diretora até que, escancarando-se a corrupção, o um país mais igual. Este terceiro ano será decisivo metros mínimos de uma democracia voltada para Legislativo não pôde evitar a onda que se formou para que encontremos os parâmetros de um o social. para o afastamento do presidente corrupto. desenvolvimento que atenda às carências de um Recordo-me das discussões que se travavam O PT não participou do governo Itamar país pobre, mas com enorme potencial para em torno da reforma agrária, quando, num Franco. Preferiu permanecer na trincheira, desenvolver-se e tornar-se o Brasil com que sempre Congresso de patrões e latifundiários, chegava-se lutando pelo estabelecimento do Estado sonhamos, onde os direitos humanos são o à definição, quase revolucionária para a época, Democrático de Direito. fundamento do estado democrático. do direito de propriedade, subordinando-o à sua Depois de Fernando Henrique Cardoso, estamos Não gostaria de fazer uma distinção entre o função social. Com isso estava dado o primeiro à frente do poder. Imbuídos todos do ideal de que se fez de maior e de menor no atual governo, passo para a reforma agrária inscrita nos artigos construção de uma pátria solidária, na qual se mesmo porque a administração pública não pode 184 e seguintes da Constituição. diminuam as distâncias entre ricos e pobres. e não deve ser compartimentalizada. Ela funciona A cada quatro anos o PT foi aumentando suas Nestes dois anos exercendo o poder, o PT teve de como um todo para encontrar seus objetivos e bancadas, na Câmara e no Senado. Nas eleições de enfrentar o desmonte de uma herança, procurando, nessa caminhada terá sempre que atender a esta ou 1989, quando Fernando Collor assumiu a entretanto, atuar sem causar maiores traumas ao àquela prioridade e é esta escolha que marca o Presidência numa eleição que se qualificou pela seu projeto de governo. Não se pode esquecer que estadista. Confio que a melhor escolha seja feita. É fraude, o PT — evidenciados os desmandos dos não estamos sós e que o Brasil faz parte de um o que, não obstante enormes dificuldades, o dois primeiros anos de seu mandato — foi o concerto de nações. Dois anos se passaram nos governo Lula procura e saberá enfrentar. n arte 3/1/05 3:07 PM Page 5 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 PT Debate Bodas de prata do FRANCISCO DE OLIVEIRA C omo a grande maioria dos casais que Lula já havia declarado, em entrevista à revista Veja, em 1998, que estava cansado de ser famoso e pobre; queria ser anônimo e rico. Numa ausência de hegemonia, o caráter carismático da liderança conta muito: assim as idiossincrasias pessoais do líder, agora no poder, tornam-se orientações políticas; o que importa é o êxito individual. A ironia da história é: quantos milhões de miseráveis são necessários para o êxito de um Lula? comemoram 25 anos de união (?) , o PT chega exausto às suas bodas de prata. Em lugar dos fogos da paixão, a cinza fria de uma convivência que, no melhor dos casos, é tolerância e amizade, e no mais comum, é conveniência ou cinismo. Em lugar da paixão das reformas, o amofinamento, o parasitismo dos cargos, a capitulação diante dos poderes econômicos antes demonizados, o acumpliciamento funcional com a desigualdade na forma das políticas compensatórias e ineficazes, o anti-republicanismo patrimonialista fazendo inveja mesmo a antigos campeões dessa praga brasileira. Francisco de Oliveira é sociólogo e coordena o Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP Artigo publicado no jornal O Globo de 13/2/2005 Em lugar do partido mobilizador que, caucionado pelos movimentos sociais, entranhado nas dores da República, opôs-se aos desmandos de Collor e Fernando Henrique e na Constituinte que, por cegueira e bravatas — a confissão é do próprio presidente — não subscreveu, mesmo assim foi capaz de recolher assinaturas populares para algumas de suas melhores disposições; agora, um partido tornarem-se “partidos da ordem” não-refor- Sobrou um programa pífio, remendos em sapato populista-autoritário que no Fórum Social mistas, mas não necessariamente anti-reformistas velho, o qual torna a pobreza funcional à Mundial 2005 pôs “macacos de auditório” — o PSOE espanhol é mais do que secular, e o acumulação capitalista. O PT não entendeu a uniformizados com súbitas camisetas “100% outrora farol da social-democracia mundial, o mudança, pois já havia se burocratizado, e os Lula”, barrou gente que certamente não faria SPD alemão, completa 130 anos — o PT meios tornam-se mais importantes que os fins. coro à aduladora unanimidade das platitudes do “cometa” em 25 anos passou do zero ao infinito No caso dos partidos políticos dá-se a autonomia presidente, que receberá de volta, de braços da degradação, renegando não só o reformismo das lideranças e a verticalização hierárquica, em abertos, os filhos pródigos do PT. Aos sons da programático da esquerda mundial, mas detrimento da capacidade das bases de Orquestra da Petrobras, dinheiro público para transformando-se num partido violentamente influenciar as decisões partidárias. fins de marquetagem. anti-reformista. Burocratização e mudança na estrutura social Como o eterno transformismo brasileiro O partido se desmanchou enquanto programa produziram a perda de hegemonia e o pegou nesse partido renovador, cuja contribuição reformista em parte pela avalanche combinada esgotamento das “energias utópicas”, e ganhou à redemocratização foi inegável, que nas duas da globalização e desregulamentação promovidas relevo uma “nova classe”, a dos administradores últimas décadas do século XX negava o que acentuadamente nos últimos 15 anos. Esta ou gestores de fundos de pensão, que constitui a parecia ser uma “lei de ferro” do declínio dos combinação produziu uma profunda deterioração outra metade da laranja formada com os partidos de massa de base operária? Um conjunto das bases sociais do PT, com a perda de milhares economistas dublês de banqueiros que fazem a amplo de determinações materiais e escolhas de postos de trabalho e a parcial liquidação das elite do PSDB. Chegando ao poder no vácuo da políticas, e até pessoais, ajuda a explicar a mais categorias de trabalhadores mais importantes na desestruturação das relações entre a economia e formidável, e perversa, conversão de um partido formação do partido; de outro lado, a liquidação o sistema partidário, provocada pela turbulência reformista a um agente da perpetuação do status do as da era FH, o PT seguiu a primeira regra quo na história política do Ocidente. Enquanto os privatizações, mudou o caráter do Estado burocrática que é a de manter-se no poder, e a partidos social-democratas e os antigos brasileiro, o qual constituía a base em que se perda da hegemonia obrigou-o a reproduzir o comunistas levaram até mais de um século para assentaria o programa de reformas sociais do PT. programa anterior, mesmo porque nem havia Estado desenvolvimentista, com entendido a mudança, nem dispunha de bases sociais para um programa reformista. Mas as determinações objetivas não bastam para esconder as escolhas feitas pelos dirigentes do PT. Daí o amplo arco de alianças, em nome da governabilidade, e que produz justamente o contrário. Junte-se a isso as escolhas pessoais: Lula já havia declarado, em entrevista à revista Veja, em 1998, que estava cansado de ser famoso e pobre; queria ser anônimo e rico. Numa ausência de hegemonia, o caráter carismático da liderança conta muito: assim as idiossincrasias pessoais do líder, agora no poder, tornam-se orientações políticas; o que importa é o êxito individual. A ironia da história é: quantos milhões de miseráveis são necessários para o êxito de um Lula? Os partidos tornam-se irrelevantes para a grande política; esta se decide em outras instâncias, fora dos controles democráticos e republicanos: o Banco Central é a principal delas. A economia engole o Estado e este a sociedade, e partidos e ONGs se transformam em simples agentes do Estado. Esta é a história contada com o reflexo mortiço desse metal funerário. n 5 3/1/05 3:07 PM Page 6 Jornal UFRJ ano 2 - nº 4 - março 2005 FERNANDO PAMPLONA Broadway na avenida Agência O Globo entrevista arte Agência O Globo Salgueiro, eles (os bicheiros) participavam das reuniões e Assembléias para ajudar a decidir o melhor para a Escola. Eram decisões coletivas, mais democráticas. A UFRJ se envolve com o Carnaval? A Universidade nunca contribuiu significativamente com o Carnaval. Muitos alunos gostavam de fazer estágio, mas o Joãozinho Trinta prefere ensinar aos meninos de rua. Seu nome é associado à revolução estética nos desfiles do Carnaval... Dizem muita besteira (risos). A única coisa O professor aposentado da Escola de Belas Artes da UFRJ, Congada e das festas juninas do Maranhão, que eu fiz foi continuar o trabalho do por exemplo, que são manifestações Nelson de Andrade, revolucionando o extremamente criativas. O samba me enredo, que é o princípio de tudo. carnavalesco do Salgueiro e critica os presidentes das esco- encantou, mas já não me atrai. Preparávamos um enredo cronológico, las de samba e a Prefeitura. Para o ex-diretor da EBA, essa Por quê? e fim; com prólogo e epílogo, e alegorias de Porque virou comércio. Li sobre um cara acordo com o posicionamento dentro do que trabalha com a confecção de fantasias. desfile. Mas hoje é uma bagunça. Não O “comerciante” diz que confecciona para as existem enredos, apenas temas. Arlindo alas em quatro Escolas e, às vezes, tem Rodrigues e eu fomos responsáveis por prejuízo. No meu tempo as alas eram uma revolução devido à diversificação no diferentes, não vendiam nada. As alas eram enredo. Fizemos enredos sobre o negro Fernando Pamplona, conta nesta entrevista como se tornou festa é popular e não se limita ao Sambódromo. LUCAS BONATES contando uma estória com princípio, meio O senhor fez o curso de Arte Decorativa Embalo, Bloco de Enredo e Bloco Natural. associações que, juntas, constituíam a herói (Quilombo dos Palmares), sobre na Escola de Belas Artes da UFRJ. Como Mas o governo deixou de dar subvenção a Escola. Ala não foi criada para dar lucro ou Aleijadinho, sobre uma mulher (Chica da se tornou cenógrafo? esses blocos, que, por isso, reduziram prejuízo. Silva). Incluímos a temática do negro que Na época não havia curso de cenografia, signicativamente. O povo não se diverte por isso estudei Arte Decorativa. Mas com a lei, se diverte com o povo. desde garoto eu me interessava por Teatro. Consegui uma vaga para trabalhar no Teatro Municipal como servente. Fiquei um ano carregando tinta e só recebia quando havia temporada no Teatro, mas “Escolas de samba vendem o enredo por uma ninharia” o meu objetivo era aprender a profissão. luta por mudanças sociais e não como É possível resgatar a essência do Carnaval escravo. Nesse sentido, no uso de uma popular, sem que o interesse financeiro visão crítica, fomos pioneiros. seja a prioridade? Aí eu não sei, porque não sou pitonisa. Esse discurso crítico era direcionado? Mas o dia que houver homem com Todos os nossos enredos cutucavam a vergonha na cara, ele conseguirá fazer uma ditadura. Tentaram nos prender quando Escola de verdade sem precisar dessas fizemos Histórias da Revolução do Brasil, apelações comerciais. Mas é muito difícil inspirados no livro de Viriato Corrêa. E o conseguir. Império Serrano fez Heróis da Liberdade De cenógrafo para carnavalesco foi um E como o senhor chegou ao Salgueiro? pulo, então. O Nelson de Andrade, do Salgueiro, me É...no Carnaval se faz cenografia. As ruas convidou para organizar o seu desfile, Então o senhor não é a favor do da Cidade eram decoradas por cenógrafos, depois que participei do júri dos desfiles patrocínio de empresas às Escolas de que participavam de em concurso, mas o no quesito alegoria. Como eu não entendia samba? Explique a expressão “a ditadura do Darcy Ribeiro acabou com essa decoração, nada daquilo, fiz algumas experiências que Carnaval é notícia. Se as grandes escolas carnavalesco”? com os blocos de rua e o Carnaval passou deram certo (foi campeão em sua estréia). fossem calcular, perceberiam que vendem O carnavalesco chegava com o enredo a ser no Sambódromo. Infelizmente, o Rio Mas não sou carnavalesco desde 1978. enredos por ninharia — cerca de três pronto. As decisões deixaram de ser em milhões. Pessoas do mundo todo assistem grupo. Mas hoje, o ditador não é mais o carnavalesco, é quem paga pelo enredo. esqueceu as decorações monumentais que com a mesma finalidade. Sempre houve eram feitas nas ruas do Centro da cidade, Na sua opinião, qual a importância do aos desfiles das grandes escolas. É muita quando o Carnaval era Carnaval de surgimento do curso superior em publicidade. Mas os presidentes de Escolas verdade. Hoje fazem umas papagaiadas cenografia? O que mudou depois disso? de samba não percebem que são usados Qual é a sua maior decepção? como essa publicidade mal-feita do O curso de cenografia surge com a reforma por um preço ínfimo. Por dois milhões a Todas. Fundamentalmente na concepção prefeito. A Prefeitura esqueceu que tem a universitária de 1968, e o cenógrafo foi Varig e a Tam foram assuntos de desfile do cara que está na escola para ganhar obrigação de enfeitar a Cidade; está obrigado a ter o diploma de nível superior, de primeira categoria. dinheiro. Presidentes que não aparecem na preocupada em ganhar dinheiro. segundo a lei que regulamenta a profissão Escola, que atrasam o salário das teatral. Cenógrafo e diretor de teatro E a originalidade do trabalho do O que houve com o Carnaval “de precisam ter diploma, caso contrário estão carnavalesco? verdade”? em desobediência à lei. Poucos são inteligentes o suficiente para Por que deixou de ser carnavalesco em O Carnaval é muito mais do que desfile de Mas é fundamental que se tenha vontade e superar as forças do mercado. Os enredos 1978? escolas de samba. Tem gente que brinca o vocação, como em qualquer atividade perderam qualidade e os sambas foram Foi quando as escolas começaram a Carnaval sem sair do seu bairro, mas não cultural humana. transformados em marchinhas. vender tudo. Planejaram ala para os vira notícia de jornal. A festa no costureiras e dos chapeleiros. turistas, depois para a burguesia. Ano Sambódromo é linda, um espetáculo digno Você introduziu uma concepção de classe E os bicheiros? passado, no desfile da Mangueira havia da Broadway, e só. média nas escolas? Eles nunca me incomodaram. Na verdade, uma ala com apenas dois negros. Um Eu posso dizer a você que aprendi muito eles deram ordem às escolas de samba. Não jornal ironizou a situação reivindicando Mas e os blocos de rua? Esse ano foram com eles. Não fui ensinar, mas aprender. interferiam no processo criativo. Apenas o reserva de vagas para negros nas escolas mais de 50. Tenho interesse específico mais em cultura Maninho intervinha um pouco no Salgueiro, de samba. Por isso, Carnaval não me atrai havia popular do que em samba propriamente mas o Anísio nunca atrapalhou o João mais. Quem não viu Escola de samba não campeonato em três categorias: Bloco de dito. Gosto do Maracatu, frevo, da (Joãozinho Trinta). Na minha época, no Antigamente 6 uma intenção política. eram 440. E verá mais. n arte 3/1/05 3:07 PM Page 7 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 pesquisa Obesidade: Hospital Universitário faz cirurgia desde 2002 Em todo mundo a percentagem da doença é maior na população de baixa renda LIANA FERNANDES eeducação alimentar, R 38,8 milhões de brasileiros com exercícios físicos, medi- mais de 20 anos estão acima do camentos, acompanha- peso, dos quais 10,5 milhões são mento psiquiátrico e cirurgias de obesos. Segundo a pesquisa, a redução de estômago (bariátrica) obesidade varia de acordo com os são formas de controle da meios urbano e rural e o excesso obesidade tipo III, ou obesidade de peso tende a aumentar com a mórbida, como é conhecida a idade mais rapidamente para os forma mais grave da doença. Na homens e de modo gradual para UFRJ existem programas de as mulheres. tratamento no Instituto de O relatório causou embaraço Psiquiatria, através do Grupo de ao governo, pois seus programas Obesidade e Tratamento de de combate à fome foram con- Alimentares siderados, pelos opositores, ina- (GOTA) e no Hospital Cle- dequados à realidade do País. mentino Fraga Filho (HUCFF), Mas de acordo com a professora onde são realizadas cirurgias e doutora Denise Xerez, chefe do desde 2002. Serviço de Medicina Física e Transtornos O Doutor Vinícius Gomes com participantes do programa de cirurgia bariátrica do HUCFF. a professora Denise Xerez. gosta de comer e, normalmente, o comprimento do intestino é di- tem vida sedentária. É preciso minuído, impedindo que haja A obesidade é caracterizada Reabilitação do HUCFF, é errado pelo excesso de gordura corporal pensar que a população mais Controle da obesidade corrigir isso. Para os que não absorção do alimento, e a mista, associado a problemas graves de pobre não sofre de obesidade ou A cirurgia é indicada para conseguem se reeducar, a cirurgia que associa a restrição da passa- saúde, como hipertensão e diabe- que o obeso é bem nutrido. quem já fez uso de medica- é uma opção — disse o doutor e gem do alimento com a diminui- mentos, dietas e exercícios físi- professor Vinícius Gomes, um dos ção do comprimento do intestino. uma doença multifatorial, a cos, mas não obteve sucesso. Os coordenadores do Programa de Na cirurgia mista, diminuí- obesidade está sempre ligada ao medicamentos usados são basea- Cirurgia Bariátrica do HUCFF. tes. Além disso, apesar de ser aumento da ingestão de alimentos calóricos e ao sedentarismo, fatores contraditórios à atual cultura do corpo perfeito. — O GOTA avalia a presença de quadros depressivo, ansioso e de transtorno alimentar. A cirurgia bariátrica é indicada para uma doença grave, mas está sendo realizada até — Em todo o mundo a A obesidade varia de acordo com os meios urbano e rural e o excesso de peso tende a aumentar com a idade. em consultórios, em pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) inclusive, percentagem da doença é maior associam a cirurgia ao pacote da na população de baixa renda, e lipoaspiração — alerta o psi- existe ainda uma forte associação quiatra José Appolinário, um dos da obesidade com a desnutrição coordenadores da GOTA, e protéica. Basta verificarmos o coordenador do Instituto de preço de 1 kg de farinha e o de 1 Psiquiatria da UFRJ. kg de carne. Os dois alimentos baixo. Alguns, A obesidade ganhou destaque têm a mesma quantidade de mos bastante a quantidade de dos em substâncias que blo- Existem, basicamente, três alimentos que o estômago queiam o apetite, mas podem tipos de cirurgia bariátrica: a res- comporta e retiramos cerca de provocar o “efeito sanfona” (os- tritiva, em que a passagem de ali- 1,80m do intestino da área de cilação de peso) ou dependência. mento é dificultada por um anel absorção, colocando um anel — O tratamento clínico do no encontro do esôfago com o para reduzir a passagem de obeso é complicado porque ele estômago; a desabsortiva, em que alimento. Essa tem sido a melhor alternativa cirúrgica utilizada no HUCFF — disse o professor TABELA DO ÍNDICE DE MASSA CORPORAL Vinícius Gomes. A obesidade pode ser determinada através do Índice de Massa Corporal, que é calculado dividindo-se o peso do indivíduo pela altura ao quadrado: IMC = Peso (Altura)2 IMC de 20-25 kg/m2, paciente normal. IMC de 25-30kg/m , paciente com sobrepeso; IMC de 30-35kg/m2, obeso tipo I IMC de 35-40kg/m2, obeso tipo II 2 O pré-operatório dura de seis a oito meses, e o paciente é submetido à avaliação do serviço de nutrição, da psicologia médica e do serviço social, a fim de não comprometer o bom resultado da operação. De acordo com o doutor Appolinário, a obesidade pode vir acompanhada de transtornos alimentares como a bulimia e a compulsão alimentar. com os resultados da segunda calorias, mas com preços dife- IMC de 40-50kg/m , obeso tipo III (obeso mórbido) Nesses casos, o acompanhamento etapa da Pesquisa de Orçamentos rentes. Então, não há paradoxo IMC de 50-60kg/m2, super-obeso psicológico é essencial antes, Familiares 2002-2003, divulgada em existirem muitos obesos em pelo IBGE em 2004. A surpresa: um país que passa fome! — disse 2 IMC de acima de 60kg/m2, super-super-obeso durante e depois da cirurgia bariátrica. n TABELA DE PREVALÊNCIA DE OBESIDADE NA POPULAÇÃO A PARTIR DE 20 ANOS DE IDADE, POR SEXO E SITUAÇÃO DE DOMICÍLIO NO PERÍODO DE 2002-2003 Regiões Com a paciente Wilma Burrige em dois momentos. À esquerda, antes da cirurgia e à direita um ano após. Homens Mulheres Urbano Rural Urbano Rural Norte 9,0 3,9 10,8 9,9 Nordeste 8,1 3,2 12,0 10,8 Sudeste 10,3 7,0 13,9 12,0 Sul 10,7 7,7 14,4 18,6 Centro-Oeste 9,0 6,1 10,5 11,7 Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de índice de Preços, Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2003. 7 3/1/05 3:07 PM Page 8 Jornal UFRJ nacional arte ano 2 - nº 4 - março 2005 A polêmica continua PPPs: privatização de serviços ou única forma de desenvolver o país? ILZA SANTOS “Supondo que a possibilidade de concessionar uma rodovia hipotética a um operador privado requer um tráfego diário médio de dez mil veículos; o tráfego observado é de oito mil. Num contrato de PPPs, o parceiro público pode complementar a receita do operador no montante equivalente aos dois mil veículos que faltam para viabilizar o projeto. Se, no futuro, o tráfego aumentar para 12 mil veículos/dia, o retorno excedente pode ser compartilhado entre os parceiros, desde que isso esteja previsto em contrato”, afirma Antonio José. Professor da UFRJ diz que vulnerabilidade do país pode aumentar Ele destaca que o mais importante, no entanto, não é a perspectiva de retorno financeiro direto para o Estado, mas sim expandir as alternativas de provimento de infra-estrutura, aumentando a eficiência na logística e o âmbito da lei brasi- N que “quando o serviço público é leira, Parcerias Público- privatizado na ausência de um Privadas (PPPs) é uma aparato regulatório eficaz, a concessão para o provimento de sociedade acaba pagando um um serviço que prevê uma preço elevado e isso não necessa- contrapartida financeira por riamente implica na melhoria de parte do setor público, define o qualidade de atendimento”. chefe da Assessoria Econômica gerando novas oportunidades econômicas, através de projetos de alto impacto econômico direto. “A idéia é boa, o objetivo é bom, o fato é que os contratos em PPPs envolvem custos muito União e ao Senado Federal. Um função das dívidas públicas, elevados”, comenta Reinaldo comitê técnico será assessorado externa e interna, o que envolve Gonçalves, destacando que o do Ministério do Planejamento, Órgão Gestor pela Unidade de PPP do Minis- um comprometimento muito importante é observar a mecânica Antonio José Alves, em entrevista Para dar mais garantia e tério do Planejamento. grande em termos de pagamen- que será utilizada na implantação tos de juros. “Então, o Estado dos negócios. Na visão do exclusiva ao Jornal da UFRJ. 8 Para o governo, o importante é expandir as alternativas de infra-estrutura orientar os projetos que real- Ele explica que numa conces- mente têm condições de serem Investimento garantido perde mais ainda em grau de professor vale considerar a pos- são simples, como a de uma financiados pelas PPPs, está A garantia de uma taxa de liberdade na gestão dos recursos sibilidade de haver uma exage- rodovia, a remuneração ao ope- prevista na Lei a instituição de retorno sobre o investimento é públicos”, ressalta. rada pressão de setores da área rador privado vem basicamente um órgão gestor que atuará um outro aspecto polêmico. O Entretanto, na visão do go- de exportação. “Devemos ficar da cobrança de pedágio dos como núcleo administrativo das professor Reinaldo Gonçalves verno, o retorno financeiro num atentos para que não haja um usuários; no caso das PPPs, parte iniciativas de parcerias público aponta a iniciativa do governo de projeto de PPP pode ter duas aumento da vulnerabilidade in- da rentabilidade vem desta co- privadas. Coordenado pelo Mi- completar a rentabilidade do fontes: o recolhimento de impos- terna do país, na medida em que brança e parte pode vir da con- nistério do Planejamento, Orça- investidor como um esquema tos, segundo a legislação vigente, as PPPs podem atrair investidores trapartida governamental. “Não mento e Gestão, o grupo terá financeiro que enrijece o orça- e a eventual participação nos estrangeiros que terão apenas se pretende aumentar os lucros membros do Ministério da Fa- mento da União. Ele explica que lucros extraordinários do empre- receitas em Real, mas as despesas do operador, mas simplesmente zenda e da Casa Civil da Presi- o orçamento já é muito rígido em endimento. tornar viável a sua operação em dência da República. De acordo situações em que o retorno com o chefe da Assessoria Eco- privado não compensa inteira- nômica, cabe a este órgão definir mente os custos de construção e os serviços prioritários para a manutenção do ativo”, afirma execução de empreendimentos Antonio. no regime de parceria público- Exatamente nesse aspecto privada; disciplinar os procedi- acontecem as principais manifes- mentos para celebração dos tações contrárias. “A PPP é, na contratos; definir a prioridade realidade, uma forma de privati- entre os projetos estratégicos; zação dos serviços de utilidade programar e autorizar a abertura pública”, dispara o professor de da licitação e, por último, apre- Economia Internacional da UFRJ ciar os relatórios de execução e diretor do Conselho Regional dos contratos, provenientes dos de Economia, Reinaldo Gon- Ministérios e Agências Regula- çalves. Tomando como base doras. Periodicamente, o órgão exemplos da experiência brasi- gestor deve encaminhar relató- leira nas privatizações ele destaca rios ao Tribunal de Contas da serão em dólares”, sinaliza. n O que diz a lei A Lei que trata de regras para viabilizar investimentos conjuntos do setor produtivo (dinheiro privado) e governos (dinheiro público) determina itens como o valor mínimo de R$ 20 milhões para que seja possível o estabelecimento de um contrato de PPPs, com vigência de cinco a 35 anos, nem mais nem menos. Estados e municípios já estão se movimentando para a adaptação aos novos moldes das PPPs mas ficam legalmente limitados a comprometer no máximo 1% de suas receitas. Se ultrapassarem este limite, terão suspensos os repasses de recursos voluntários da União. De acordo com a Assessoria Econômica do Planejamento, no âmbito federal, a perspectiva é que no final de 2005 estejam sendo celebrados os primeiros contratos. Em alguns estados, as iniciativas estão mais adiantadas, restando apenas conformar suas leis à lei federal. Uma lista original de 23 projetos vem passando por uma revisão crítica para adaptá-la às circunstâncias atuais. Alguns acabaram entrando no Projeto Piloto de Investimentos, um acordo com o FMI para possibilitar que alguns projetos de alto impacto fossem retirados da contabilidade do superávit primário; outros foram reavaliados à luz de dados mais atuais e precisos. arte 3/1/05 3:07 PM Page 9 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 especial REFORMA UNIVERSITÁRIA Ampliando o debate Comissão do Consuni faz análise preliminar do anteprojeto do MEC CORYNTHO BALDEZ J á pouco generoso face à envergadura da iniciativa, o excedentes financeiros de cada exercício serão recesso universitário achatou ainda mais o prazo para automaticamente incorporados ao exercício seguinte, e o o debate dos 100 artigos do anteprojeto da reforma do montante recebido por cada instituição nunca poderá ser ensino superior, anunciado em seis de dezembro de 2004. inferior ao do exercício anterior (...)”. O recolhimento de críticas e sugestões para a redação Outro membro da Comissão, José Carlos Pereira, que definitiva do anteprojeto deveria se encerrar no dia 15 de representa os técnicos-administrativos no Consuni, fevereiro. Contudo, como seria uma tarefa trabalhosa e ressalta que a proposta do MEC já veio carimbada por complexa, neste tempo exíguo, examinar as repercussões da uma série de medidas tomadas anteriormente, como as proposta governamental sobre o sistema superior de ensino leis que instituíram o Sistema Nacional de Avaliação do no país, o MEC decidiu prorrogar o prazo para a entrega de Ensino Superior e o ProUni. “Além disso, o anteprojeto sugestões pelo menos até o dia 30 de março. Depois, o não avança em demandas históricas da comunidade anteprojeto será enviado à Casa Civil e entrará em fase de acadêmica e deveria estar sendo discutido com maior consulta pública. Até junho, o texto definitivo do Executivo amplitude com todos os segmentos da sociedade”, deverá chegar ao Congresso Nacional. acrescenta José Carlos, ressalvando que os seus comen- (...) A dotação global de seu orçamento permitirá às universidades, ainda segundo o relatório, uma flexibilidade de transferência de recursos entre rubricas que atualmente lhes é negada pela rigidez da legislação. tários não expressam, necessariamente, as discussões realizadas no âmbito da Comissão. A previsão de repasses da União sob a forma de dotações globais talvez seja o maior avanço da proposta governamental para garantir a autonomia universitária, de acordo com o relatório preliminar da Comissão. (...) Entre outros pontos, o relatório condena a permissão dada ao capital estrangeiro para investir em educação no A Comissão que fez uma primeira análise da proposta Brasil e propõe que o sistema de cotas nas universidades oficial de reforma do ensino superior foi composta pelos públicas, por ser assunto extremamente polêmico, seja seguintes membros do Conselho: Eduardo Siqueira remetido a uma discussão ampla em toda a UFRJ. (representante dos professores-adjuntos do CCMN), Vera Na reunião em que o relatório foi apresentado, em 27 Halfoun (representante dos professores-adjuntos da de janeiro, o Consuni – que depois dessa data entrou em Faculdade de Medicina), Franklin Trein (representante recesso e voltará a se reunir em 10 de março – considerou dos professores-adjuntos do CFCH), José Carlos Pereira necessário intensificar o debate sobre o anteprojeto em (representante dos técnicos-administrativos) e Fernanda todos os centros e unidades da Universidade. de Lima Martins (representante dos alunos). n Dotação global:avanço Já prevendo a urgência de um envolvimento amplo da comunidade acadêmica no debate sobre as profundas mudanças que se avizinham para a universidade pública brasileira, o Conselho Universitário da UFRJ elegeu uma Comissão para analisar o texto do anteprojeto. A previsão de repasses da União sob a forma de dotações globais talvez seja o maior avanço da proposta governamental para garantir a autonomia universitária, de acordo com o relatório preliminar da Comissão. A dotação global de seu orçamento permitirá às universidades, ainda segundo o relatório, uma flexibilidade de transferência de recursos entre rubricas que atualmente lhes é negada pela rigidez da legislação. Uma das integrantes da Comissão, Vera Halfoum, que representa os professores-adjuntos da Faculdade de Medicina no Conselho Universitário, disse que o Plano de Desenvolvimento Institucional, previsto no anteprojeto, também foi considerado uma inovação benéfica porque vai exigir da universidade “uma profissionalização administrativa para a implantação de um processo de auto-avaliação permanente”. Mais recursos? Quanto ao financiamento das Ifes, segundo Vera Halfoum, a subvinculação de 75% sobre os 18% da receita constitucional destinada à manutenção e desenvolvimento do ensino da União deve merecer um estudo detalhado que demonstre se aquele percentual melhora, de fato, o padrão de financiamento atual das universidades públicas. O relatório ressalta, porém, o “(...) importante fato de que os 9 3/1/05 3:07 PM Page 10 Jornal UFRJ ano 2 - nº 4 - março 2005 A hora do especial arte ajuste REFORMA UNIVERSITÁRIA A sintonia da universidade com a política industrial e as demandas facilitar a liberação de recursos para novos investimentos, segundo CORYNTHO BALDEZ Com a aprovação da reforma do ensino superior, o governo espera que o crescimento de vagas se dê, principalmente, em universidades federais, via ensino presencial. Para isso, estão previstos, em 2005, investimentos de R$ 85 milhões em novos campi e universidades, anuncia o ministro da Educação,Tarso Genro, em entrevista exclusiva ao Jornal da UFRJ. Ele ressalta, ainda, que a manutenção básica da instituição pública estará garantida pela orçamentação, mas “aportes adicionais de recursos” para investimentos, além daqueles definidos pelo governo, só serão liberados se o Plano de Desenvolvimento Institucional da universidade cumprir algumas exigências, como compatibilizar a pesquisa com a política industrial em curso e propiciar uma interação orgânica entre o meio acadêmico e a comunidade. o comentar o novo perfil do ensino superior A vagas, restando 32,6% para as públicas — assinala Tarso, Todas as instituições federais tiveram neste ano, de imaginado pelo governo, o ministro da Educação, lembrando que essa liberalização foi combinada com uma acordo com Tarso Genro, um aumento substancial em suas Tarso Genro, enumera as características que redução gradual e sistemática de recursos financeiros. verbas de custeio e nenhuma delas terá menos de 34% de considera essenciais para a universidade do futuro: Para exemplificar a lenta asfixia financeira a que foram acréscimo em relação ao ano anterior. “Se considerarmos inclusiva, democrática e de qualidade. A reforma da submetidas as IFES, o ministro diz que o orçamento do que há quase uma década não havia efetiva variação nesses educação superior segundo ele, vai ampliar o acesso de ensino superior público era de R$ 6,6 bilhões, em 1995, e recursos, trata-se do maior aumento de recursos nos tempos jovens aos cursos de nível superior, fortalecer a foi reduzido para R$ 4,9 bilhões, em 2001. Já em 2004, recentes”, realça. universidade pública e gratuita e estabelecer parâmetros de segundo ele, em contraste com esse histórico recente de Para o ministro, a subvinculação será um grande avanço, qualidade para que a instituição cumpra o seu papel de sangria orçamentária, o investimento na educação superior possibilitando um financiamento regular em duodécimos, democratização do conhecimento. Assim, diz o ministro, pública foi de R$ 9,1 bilhões. A previsão para 2005 — que garante as atividades de rotina das instituições. Além ela contribuirá para o crescimento sustentável do Brasil, continua Tarso — é a sua elevação para R$ 11,3 bilhões. disso — acrescenta — permitirá um orçamento a mais que O ministro ressalta que, para garantir o aumento dos deverá ser definido pelo mérito das propostas apresentadas, — Em entrevista, antes de tomar posse, o presidente investimentos na universidade pública, o artigo 41 do ou seja, a partir das propostas de ampliação, qualificação e Lula deu as diretrizes do que viríamos a propor, ao assinalar anteprojeto assegura que a União aplicará, anualmente, nas extensão de serviços de cada uma das instituições. que a educação superior é importante na formação instituições federais, nunca menos de 75% da receita acadêmica e ética de recursos humanos, nas atividades de constitucionalmente pesquisa científica e tecnológica e no desenvolvimento desenvolvimento do ensino. com inclusão social. cultural, econômico e social da nação — lembra. vinculada à manutenção e — Será deduzida da base deste cálculo a complementação da União ao Fundef, nos termos do artigo Por onde crescer? 60 da Constituição, a fim de igualmente assegurar Embora o ministro aposte na expansão da rede federal, financiamento qualificado para a educação básica — frisa. o que se constata, nos últimos anos, é que o número de Ao ser indagado se o espírito do anteprojeto, em relação universidades públicas diminuiu de 227, em 1992, para ao financiamento, era dar liberdade para as instituições se 195, em 2002. No mesmo período, as instituições privadas financiarem no mercado ou manter um padrão de passaram de 666 para 1.442, segundo dados do INEP/MEC. financiamento público compatível com a meta de expansão Pelo anteprojeto, existe uma previsão de expansão da rede prevista, o ministro ressaltou que, antes de tudo, o pública tendo como base a meta de chegar a 40% das vagas compromisso do presidente Lula é com a recuperação das do sistema de ensino superior até 2011. Ao falar sobre as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes). Este é um estratégias do governo para mudar o atual quadro, o item da reforma que, segundo ele, jamais poderia estar Aumento das vagas ministro Tarso Genro afirma que, de fato, a liberalização do desconectado de ações imediatas. Em relação à expansão das vagas no sistema público, o ensino superior, a partir da década de 90, levou a uma expansão das universidades privadas. — O Brasil se transformou em um dos países com 10 Sobre os programas de ações afirmativas para estudantes de escolas públicas de ensino médio, negros e ´indígenas,Tarso observa que o Brasil é um dos países que mais desperdiça talentos maior participação privada no ensino superior: 67,4 % das — Assim, foi absolutamente imprescindível que, em ministro não acredita que ela aconteça através de centros conexão com as propostas de efetiva autonomia e universitários e ensino à distância, meios mais simples, em financiamento apropriado no futuro, fossem assegurados tese, para viabilizá-la. “Embora também inclua os excelentes avanços no presente — afirma. Cefets, a expansão seria prioritariamente, em termos arte 3/1/05 3:07 PM Page 11 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 especial fino da comunidade vai o ministro da Educação numéricos, em universidades federais. O crescimento de vagas será, pelo menos por enquanto, predominantemente, via ensino presencial, em que pese termos todo interesse em apoiar o ensino à distância também na graduação”, diz. Apesar de promissora e de ter um belo futuro, de acordo com Tarso Genro, esta modalidade encontra-se em fase ainda inicial e, muitas vezes, experimental. Portanto — assinala — mesmo que continue crescendo, não deverá ser dominante em curto prazo. Para o ministro, também não há nenhum motivo, a princípio, para se associar baixa qualidade a ensino à distância ou a centros universitários. A fim de ilustrar o incentivo à expansão da rede pública de universidades, Tarso Genro enumera alguns investimentos que vêm sendo feitos pelo MEC. — Estamos promovendo a expansão da rede federal majoritária, por representantes de entidades de fomento com a implantação dos campus de Volta Redonda (UFF), de científico e tecnológico, representantes de secretarias de Nova Iguaçu (UFRRJ), da Baixada Santista (Unifesp), de educação do estado ou município, associação de ex-alunos, Sorocaba (UFSCar), do Litoral do Paraná (UFPR), de entidades corporativas, sindicatos, associações de classe e da Caruaru (UFPE), de Garanhuns (UFRPE) e da Floresta sociedade civil. No entanto, o peso de cada segmento dentro (UFA), além dos campi de Marabá, Bragança e Castanhal do conselho será definido pela própria universidade. Tarso Genro: “A expansão da universidade estará sujeita à apresentação do Plano de Desenvolvimento Institucional” (UFPA). E os investimentos previstos em 2005 para a A composição do conselho será definida pela instituição, criação de novos campi e universidades somam cerca de respeitadas suas especificidades regionais e vocacionais. A R$ 85 milhões — revela. Ele afirma, ainda, que o número sua criação visa assegurar a participação da sociedade em de matrículas — que vinha crescendo no governo anterior assuntos relativos ao ensino, à pesquisa, à extensão, à Reorganização curricular cerca de 5% ao ano — aumentou em 2003 para 7%. A administração e ao planejamento das universidades, que terão A repercussão sobre a estrutura acadêmica da proposta estimativa do governo, segundo Tarso, é de incrementos autonomia para escolher a sua composição — assegura o de divisão dos cursos em dois períodos de formação — anuais de matrícula no sistema federal de 10%. ministro, acrescentando que o MEC apenas está levando para geral e profissional — também foi analisada pelo ministro. a lei o que a Constituição Federal determina, isto é, a gestão Para Tarso Genro, essa flexibilização da estrutura curricular democrática do ensino público e a colaboração da sociedade. dos cursos de graduação visa a permitir aos estudantes uma Plano de Desenvolvimento O anteprojeto do MEC prevê, também, experiência mais rica e diversificada. a — O objetivo é enfatizar as atividades formativas, obrigatoriedade da elaboração de um Plano de Sistema de cotas Desenvolvimento Institucional (PDI), que deverá conter a No que diz respeito aos programas de ações afirmativas através de propostas inovadoras que permitam uma indicação orçamentária dos recursos financeiros necessários para estudantes de escolas públicas de ensino médio, negros formação geral mais ampla e sólida precedendo a à realização dos seus objetivos e metas, em especial novos e indígenas, Tarso Genro observa que o Brasil é um dos especialização profissional — comenta. investimentos que dependam de serem obtidos em fontes países que mais desperdiçam talentos. Segundo ele, alunos Ele explica que a nova organização curricular estranhas à instituição. Uma dependência excessiva das nascidos em lares modestos, mesmo que apresentem demandará um sistema de créditos centrado principal- instituições federais de captação de recursos externos para potencial para a educação avançada e demonstrem mente no aluno e não somente na carga de trabalho do investimentos poderia comprometer a sua autonomia? Ao criatividade e vocação, têm chances baixíssimas de professor. Para o ministro, não poderão ser levadas em comentar essa questão, o ministro lembra que o PDI tem concluírem o ensino superior. Já um jovem da classe média conta apenas as horas letivas de ensino presencial, mas o como objetivo estabelecer um padrão de relacionamento alta ou alta, mesmo pouco ou nada vocacionado — afirma tempo total de aprendizagem, baseado na carga de do Estado com as universidades que compatibilize dois — completa sua formação universitária. trabalho dos estudantes. Isso permitirá a validação e princípios constitucionais: o da autonomia, de um lado, e o da soberania, de outro. — Nosso filtro, infelizmente, tem sido basicamente de natureza econômica e muito pouco de mérito. O que integração de períodos de estudos ou estágios em outras instituições de educação superior — observa. — Isso significa dizer que a universidade tem propomos é usar todos os instrumentos que propiciem aos Segundo Tarso Genro, em que pese a importância autonomia, sim, mas a sua expansão estará sujeita à alunos talentosos, sejam eles de qualquer classe social ou de dessas mudanças, a complexidade do processo sugere que, apresentação de um Plano de Desenvolvimento Institu- qualquer etnia, condições de completar sua formação e inicialmente, sejam definidas instâncias laboratoriais nas cional, por parte das instituições que vão receber aportes contribuir com o Brasil — diz. universidades que se apresentarem como voluntárias. adicionais de recursos, quando o Estado validar aquela Segundo Tarso Genro, para superar tal quadro, é preciso Deste modo — conclui — antes da adoção em grande es- perspectiva apresentada. A manutenção básica da instituição melhorar a qualidade do ensino médio e pagar melhores cala da organização curricular prevista no anteprojeto, estará garantida pela orçamentação. A sua expansão é uma salários aos professores da rede básica. No entanto, nada poderiam ser explorados diferentes modelos, respeitando relação dialógica entre a universidade e o Estado para impede que todas essas ações se realizem conjuntamente, as características regionais e as especificidades das compatibilizar os interesses de toda sociedade — afirma. como vem ocorrendo — destaca. instituições. n Segundo Tarso, essa relação poderia ser aferida, por exemplo, pelo projeto de expansão de cursos noturnos, pela sintonia entre a pesquisa e a política industrial em curso e pela interação orgânica com a comunidade. Conselho comunitário Na definição dessas diretrizes e da política geral da universidade, o conselho comunitário social — outro ponto do anteprojeto — vai ter uma grande influência. Isto porque os seus relatórios sobre o desempenho da instituição serão obrigatoriamente considerados no processo de avaliação estabelecido pelo Sinaes (Lei nº 10.861/04). O conselho comunitário social será constituído pelo reitor da universidade, que o presidirá, pelo vice-reitor, por representantes do Poder Público e, sempre com participação E AS FUNDAÇÕES, COMO FICAM? elo anteprojeto, as instituições federais de ensino superior poderão se habilitar à gestão financeira autônoma dos recursos que lhes forem destinados, no regime de orçamentação global. Isso acontecendo, o MEC descredenciaria as fundações de apoio das universidades. Se isso levará ao fim das fundações ou a um novo tipo de relação delas com a universidade, só o tempo dirá. Para o ministro da Educação, boa parte das ações das fundações P dentro das instituições federais decorre, hoje, das dificuldades de gestão impostas pelo modelo atual. Segundo Tarso Genro, quando as instituições puderem trabalhar com autonomia, nos moldes de orçamento global, certamente as fundações ou deixam de existir, por falta de necessidade, ou então passam a desempenhar um papel complementar, “o que não quer dizer não importante”. O essencial é que, de acordo com o ministro, redefinidas as suas funções, elas sejam absolutamente transparentes e interajam positivamente com as instituições. “Por sinal, hoje temos fundações que tentam trabalhar assim”, afirma. Aliás, na opinião do ministro, elas não têm maior transparência por causa dos empecilhos de uma universidade com pouca autonomia de gestão, o que torna “as fundações uma inevitável e, às vezes, indesejável necessidade”. 11 3/1/05 3:07 PM Page 12 Jornal UFRJ especial arte ano 2 - nº 4 - março 2005 O ensino básico na agenda da universidade Parcerias envolvem formação continuada de professores, reorientação curricular e informatização das escolas CORYNTHO BALDEZ N as últimas décadas, o descaso com o ensino público básico fez estragos sociais consideráveis. Professores mal remunerados, infra-estrutura precária e ausência de uma política de qualificação profissional tornaram-se fatores invariáveis de uma equação cujo resultado é o desempenho sofrível do país na área da educação. O Brasil figura na 72ª posição geral na última pesquisa da Unesco (divulgada em novembro de 2004) que mediu, em 127 países, a qualidade e o acesso de todos à educação. As causas dessa situação ganham uma clareza incômoda nos dados oficiais. Segundo o estudo Estatísticas dos Professores no Brasil (outubro/2003), do Inep/MEC, os professores que lecionam no ensino fundamental recebem entre R$ 462 e R$ 600 e os que atuam no nível médio ganham, em média, R$ 866. Em relação à infra-estrutura, 45% dos profissionais de educação trabalham em escolas públicas sem biblioteca, 74% em estabelecimentos sem laboratório de informática e cerca de 80% não contam com laboratórios de ciências. Não é de se estranhar, portanto, que o magistério tenha deixado de ser uma profissão atraente. Somente no CCMN coordenou a produção de cadernos de reorientação curricular para o ensino fundamental e médio ensino médio, por exemplo, faltam 250 mil professores de química, física, matemática e biologia, como admitiu, recentemente, a diretora do Ensino Médio da Secretaria de Educação Básica do MEC, Lúcia Lodi. Reduzir tal O CCMN participou também — entre outras formação continuada para professores daquele município. déficit e estancar o processo de desvalorização social da incursões na área da formação continuada — das Hoje, acabamos de realizar, em Macaé, no final de atividade docente são desafios que, mal ou bem, começam licitações feitas pelo Ministério da Educação, a partir de janeiro, o 13º curso de Educação Ambiental, dirigido a a ser levados em conta nas políticas governamentais. 2003, com o objetivo de criar uma rede de instituições professores dos ensinos fundamental e médio da rede Entre as formas de enfrentar o problema, uma já entrou para capacitar professores e produzir material didático. A estadual, municipal e particular, embora a maioria absoluta na ordem do dia: a intensificação do apoio da UFRJ, através do Centro, liderou um consórcio para atuar pertença à rede pública — frisa Deia Ferreira. universidade pública ao ensino fundamental e médio. No no ensino de Ciências e Matemática e venceu a licitação. Esse curso é resultado dos primeiros cursos para caso da UFRJ, as parcerias com o Poder Público envolvem Já foram liberados R$ 500 mil para a implementação do professores de Biologia organizados pelo NUPEM naquela a formação continuada de professores, a reorientação cur- projeto, o que representa a primeira parcela do aporte de região, que tiveram financiamento CAPES/FAPERJ e ricular e, até mesmo, a informatização de escolas. R$ 2 milhões previsto para os próximos quatro anos. foram ministrados para professores de Biologia e Ciências. Em 1997 e 1998, atendemos 160 professores e, no primeiro semestre de 1999, decidimos implantar um Reformulando currículos Em setembro de 2004, por solicitação da Secretaria Estadual de Educação, a UFRJ, através do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN), coordenou um trabalho completo de reformulação de diretrizes curriculares que abrangeu o ensino fundamental (5a à 8a série), o ensino médio e a educação de jovens e adultos. O estado do Rio de Janeiro não tinha nenhum padrão de currículo, nem sequer lista de conteúdos. Cada escola definia o que queria e havia grande dificuldade de transferência de uma escola para outra, pois até os critérios de avaliação eram diferentes — conta a decana do CCMN, Ângela Rocha. Executado no tempo recorde de dois meses, esse trabalho de 12 Em relação à infra-estrutura, 45% dos profissionais de educação trabalham em escolas públicas sem biblioteca e 74% em estabelecimentos sem laboratório de informática curso ministrado por alunos da Licenciatura em Ciências Biológicas da UFRJ que, junto com uma equipe de professores, fazem todo o seu planejamento — relata. Esse curso deveria ter características especiais, atendendo a dois objetivos. Primeiro, aperfeiçoar a formação de professores do ensino básico, que poderiam conhecer melhor os ecossistemas da região (restingas, lagoas, mata atlântica, manguezal e costão rochoso). Em segundo lugar, implantar uma metodologia inovadora para os alunos do curso de licenciatura em Biologia. Hoje, este curso de Educação Ambiental, freqüentado por professores não apenas de Macaé, mas de 15 municípios das regiões Norte, Noroeste, Serrana e Baixada Litorânea reorientação curricular contou com o apoio de professores de do Rio de Janeiro, reúne características especiais. Além de todos os Centros da UFRJ, da Unirio e de educadores do Estado ser uma disciplina da graduação, é também uma atividade selecionados para, a partir da sua experiência em sala de aula, Formação continuada em ecologia de extensão que reforça o indispensável elo entre elaborar a versão preliminar da proposta. A sólida relação de apoio da UFRJ com o ensino pesquisa, ensino e extensão, assim como a forte ligação Para Vilma Ferraz, assessora especial da Secretaria de fundamental e médio também pode ser exemplificada que deve existir entre os ensinos públicos fundamental, Educação, a parceria com a UFRJ, que incluiu também a pelos cursos de ecologia e educação ambiental oferecidos médio e superior. informatização da rede estadual de escolas, inaugura uma pelo Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé relação de compromisso de longo prazo: (NUPEM/UFRJ). Formamos os licenciandos, profissionais que serão os futuros professores da rede básica. E dentro das Quando estabelecemos como princípio norteador a O NUPEM/UFRJ foi, de 1993 a 1996, um centro universidades, onde passamos a vida estudando e cooperação dos saberes, estamos avançando em política voltado para a pesquisa dos ricos ecossistemas localizados pesquisando, somos a prova de que a formação pública. Para 2005, daremos continuidade à parceria no norte fluminense. Depois do período inicial, o continuada é absolutamente necessária para docentes de oferecendo cursos de capacitação aos professores, em Coordenador do Núcleo, professor Francisco de Assis todos os níveis de ensino — conclui Deia Ferreira. suas diversas áreas de atuação — frisa. Esteves, propôs uma contrapartida da Universidade para No conjunto os cursos do NUPEM/UFRJ já O objetivo desses cursos — que terão carga horária de aquela região, que oferecia condições inigualáveis para a capacitaram mais de 900 professores, tendo como 80h e vão atingir cinco mil professores — é garantir a investigação científica de ponta na área ecológica, conta objetivo provê-los de informações indispensáveis à implementação das novas diretrizes curriculares e a professora do Instituto de Biologia, Deia Maria Ferreira, formação de cidadãos que terão que conviver e consolidar, ao final do ano letivo, um documento que coordena os cursos de Educação Ambiental no administrar um mundo com mais degradação, redução enriquecido por propostas de práticas pedagógicas NUPEM, ao lado do professor Reinaldo Luiz Bozelli. de recursos naturais e população mais numerosa, elaboradas pelos docentes, completa Vilma Ferraz. Assim, em 1996, nasceu o primeiro projeto de curso de portanto, com mais desafios. n arte 3/1/05 3:07 PM Page 13 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 Brasil amplia parcerias e se esforça para recuperar o prestígio no mundo LUCAS BONATES O presidente Lula, a fim de revitalizar a Organização das Nações Unidas, formou, em 2004, o G-4, grupo que reúne Brasil, Índia, Japão e Alemanha. Esses países defendem uma reforma profunda na ONU. Segundo o cientista político e professor da UFRJ, Francisco Carlos, trata-se de uma demonstração do empenho do internacional editorial Em busca da cooperação governo brasileiro em assumir um papel de cooperação em larga escala com as Nações Unidas. O principal alvo do G-4 se refere à mudanças na composição e atribuições do Conselho de Segurança da ONU, que possui apenas cinco países como membros permanentes — China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia. O grupo defende a ampliação da representatividade desse Conselho no intuito de torná-lo mais eficaz. Apenas os EUA e Grã-Bretanha se opõem a essa mudança. seleção brasileira de futebol crática do Congo. Foi a primeira A posição norte-americana realizou o “amistoso da paz” vez que o futebol brasileiro fez considera as diretrizes da ONU contra a seleção do Haiti, na de um território minado um irrelevantes na resolução dos capital Porto Príncipe. santuário da paz. ESPERANÇA DE PAZ NA PALESTINA ahmoud Abbas foi eleito novo presidente da Autoridade M Nacional Palestina (ANP), em 9 de janeiro de 2004, com uma conflitos no Iraque e na Palestina. — Não são manifestações O Brasil não crê que seja possível militares, mas o uso das forças assegurar a paz com a ONU civil e militar para a reconstrução desprestigiada, disse Francisco desses países arrasados pela Segundo o professor da UFRJ Carlos. guerra. Está sendo assim no Francisco Carlos, a atual política Gaza. Contudo, o premier Ariel Sharon condicionou o acordo de Timor e assim será no Haiti, externa brasileira se assemelha paz ao controle dos grupos extremistas palestinos. afirmou Francisco Carlos. muito à formulada em 1961 pelo No início de fevereiro, Ariel Sharon e Abu Mazen (Abbas) se embaixador San Tiago Dantas, e encontraram pela primeira vez e concordaram em retomar o plano Apesar das dificuldades que enfrenta, o Brasil se prontificou a ajudar às vítimas do maremoto no plataforma de colocar fim a mais de quatro anos de derramamenResgate da diplomacia independente to de sangue. O governo israelense demonstrou interesse em cooperar para o restabelecimento da paz nessa região, dando seqüência ao plano de retirada dos assentamentos da Faixa de Sudeste Asiático, enviando um Jogo da paz que ficou mais conhecida como de paz conhecido como "mapa do caminho" — o qual prevê a cri- avião com medicamentos e man- A seleção brasileira de futebol Política Externa Independente. ação de um Estado palestino. O governo israelita permitiu que tra- timentos por semana. Além disso, participou de um jogo amistoso Essa doutrina foi inaugurada no balhadores palestinos oriundos da Faixa de Gaza entrassem em de acordo com Francisco Carlos, histórico na capital do Haiti, governo de Jânio Quadros e Israel e decretou a libertação de 500 prisioneiros palestinos. Abbas, o país, a partir de solicitação da Porto Príncipe, em agosto de defendia a expansão das relações por sua vez, conseguiu o apoio do Hamas e do Jihad Islâmica, prin- ONU, mantém tropas no Haiti 2004. O “Jogo da Paz” foi uma diplomáticas brasileiras a países cipais grupos extremistas da Palestina, que respeitarão a trégua que para controlar as milícias que iniciativa da Confederação Brasi- como China, Cuba, ex-URSS, vigora desde sua eleição. põem em risco o estabelecimento Em 20 de fevereiro, o governo israelense decidiu pela desocu- de uma ordem democrática. Operações de paz O Brasil participa das operações da ONU de manu- “Política externa brasileira valoriza aproximação com países do Terceiro Mundo” tenção da paz desde 1956. Ao to- pação de todos os assentamentos israelenses na Faixa de Gaza e quatro na Cisjordânia. É a primeira vez que Israel se propõe a abandonar territórios palestinos conquistados na Guerra dos Seis Dias. Os colonos israelenses, que devem desocupar a região a partir de 20 de julho deste ano, serão indenizados pelo Parlamento Israelense. A retirada deverá ser feita em seis semanas. do, foram 25 operações nos con- A Suprema Corte de Israel considerou que a barreira em con- Europeu, leira de Futebol (CBF), em par- além do tradicional eixo norte- strução na Cisjordânia estava prejudicando a vida dos Palestinos e, Asiático e Latino-americano, com ceria com os governos brasileiro e atlântico. Mas, a partir do Golpe por isso, Israel, em outra decisão histórica, redefiniu o traçado o envio de tropas, observadores haitiano, a FIFA e a ONU. militar de abril de 1964 essa desta barreira, que ocupará 7% da Cisjordânia — eram 16% anteriormente. tinentes Africano, militares, policiais e observadores Mais de um milhão de pessoas doutrina foi abandonada. Ao eleitorais. As últimas intervenções acompanharam o desfile dos contrário do que pensaram os No dia 21 de fevereiro Israel deu início à libertação dos pri- militares brasileiras foram no jogadores brasileiros na capital militares, não havia relação entre sioneiros palestinos, que já haviam cumprido dois terços da pena e Timor Leste, em 1997, e no Haiti, haitiana. Pela segunda vez o a Política Externa brasileira e a não eram acusados de assassinato. Em Nablus, na Cisjordânia, 15 em 2004, ambas sob tutela da futebol brasileiro conseguiu um cubana. Na época, em plena mil pessoas esperavam um grupo de cem presos. Esta foi a maior ONU. período de trégua em um país em guerra fria, o governo comunista libertação desde 1996, quando Israel soltou 800 palestinos. O governo brasileiro sele- guerra civil. O atacante Ronaldo, de Fidel Castro pretendia estender Mas esporádicos atentados terroristas de autoria de grupos cionou, recentemente, professo- embaixador do Unicef, o meia a Revolução por todo o mundo. palestinos põem em risco a continuidade do processo de paz na res, médicos, enfermeiros e Ronaldinho Gaúcho, e o lateral O Itamaraty que, anterior- região. O governo israelense soltou 500 presos e condicionou a assistentes sociais para a reestru- esquerdo Roberto Carlos foram os mente, priorizava relações foca- libertação de outros 400 a medidas enérgicas do presidente turação de Timor Leste. No Haiti, mais festejados, no jogo que teve lizadas nos EUA e na Europa, palestino contra o terrorismo na região. Para o professor Francisco após a deposição do presidente placar de 6x0 para a seleção tem buscado aproximar o Brasil Carlos, as exigências de Israel são descabidas: Jean-Bertrand Aristide, milícias canarinha. de países emergentes, como — A Palestina é um Estado-fantasma, sem bancos, sem Forças entraram em confronto com as Em 1969, o Santos de Pelé China e Índia, com o continente Armadas, sem nada. As exigências de Sharon são um absurdo. Se tropas do governo em disputa em excursão pela África conse- Africano e com a América Latina, Israel, que tem a melhor força terrestre do mundo, não conseguiu pelo controle político do país. guiu 48 horas de cessar-fogo na neste caso, através do Mercosul, eliminar os grupos terroristas, como os palestinos poderão fazer Tropas brasileiras buscam guerra entre tropas de Kinshasa e com a população andina (Bolívia, alguma coisa? Israel deve obedecer a ONU e retirar suas tropas das controlar os conflitos e assegurar de Brazaville, no antigo Congo Equador e Peru) e a comunidade terras palestinas, caso contrário, a paz continuará distante daquela o processo eleitoral. Em agosto, a Belga, hoje República Demo- do Caribe. n região. 13 3/1/05 3:07 PM Page 14 Jornal UFRJ ano 2 - nº 4 - março 2005 Agência O Globo universidade arte Manifestação de estudantes em frente a Candelária no centro do Rio de Janeiro (4/4/68) “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...” Movimento estudantil na vanguarda da resistência à ditadura LIANA FERNANDES versidade e da educação no país, visava os acordos externos. Em universitária ainda persistem. quando a polícia cercou a UFRJ março de 68, no Rio de Janeiro, os estudantes que freqüentavam o Porém, os estudantes de hoje já para prender os líderes estudantis. m tempos de reforma conseguiram destruir, mas que a não reagem da mesma forma. — A reunião foi no Teatro de universitária, vale democratização não valorizou Para Jean Marc, apesar da ideo- Arena e o reitor era o professor Flamengo, foram protagonistas de papel estrategicamente. De acordo logia individualista dos estu- Clementino Fraga Filho. Ele um dos grandes conflitos daquele central do movimento estudantil com ele, a ampliação das vagas dantes, há espaço para politi- tentou negociar com a polícia a ano fatídico, quando preparavam na luta da resistência à ditadura no ensino superior se deu, sobre- zação e militância. saída dos estudantes, mas não uma manifestação e a polícia militar e pela democratização da tudo, nas faculdades particulares — A sociedade como um conseguiu. Quando saímos, ha- invadiu o local, matando o universidade brasileira e com baixo nível de formação. todo está mais permeável a uma via um “corredor polonês”. Uns estudante Edson Luís. Revoltas pelas ruas, lutas por visão do “enricar” a qualquer conseguiram fugir, outros não; — A passeata dos cem mil foi projetos de mudanças e por preço, ao consumismo desen- foram levados para o estádio de o auge de uma série de manifes- freado. Nestes termos é pedir futebol do Botafogo e apanha- tações pelo país que começam muito aos estudantes de hoje que ram bastante — conta o pro- com o enterro de Edson Luís, em tenham sonhos mais amplos de fessor Carlos Vainer, aluno da março. Estas manifestações uma sociedade justa. Acho que UFRJ na época da ditadura, e selaram o isolamento político do a partidarização das entidades atual diretor do Instituto de Pes- regime militar antes que o estudantis também contribui quisa e Planejamento Urbano e “milagre econômico” fosse capaz para o desencanto dos que, Regional (IPPUR). de atrair a classe média. Por E rememorar o democracia no Brasil e no mundo, inovação na música e na arte — grandes festivais da MPB — e, principalmente, auge do movimento estudantil no país. Esse era o cenário dos anos 60. De acordo com Jean Marc von der Weid, presidente da União Nacional dos Estudantes, de março a setembro de 1969, no início, os estudantes reivindicavam melhora na qualidade do ensino a fim de aumentar as oportunidades profissionais, e pediam mais verbas para insta- “A Universidade pública voltada para a autonomia do desenvolvimento nacional foi uma conquista que os militares não conseguiram destruir” lações das escolas e univer- restaurante Calabouço, no eventualmente, se sensibilizam outro lado, a incapacidade de com a militância — completa. liderança da esquerda facilitou o Mobilizações e repressão No segundo semestre de 1966 ocorreu a “setembrada”, como ficou conhecida a seqüência de manifestações nas principais cidades do país contra sidades. Ele acredita que os — É um negócio como outro a repressão. Os militares reagiam militares entenderam a reivin- qualquer no país e sem Procon com a força. A Faculdade de dicação estudantil como ameaça que dê conta da má qualidade do Medicina da UFRJ, por exemplo, comunista à sobrevivência do produto oferecido. Segundo mui- foi invadida por tropas da Polícia regime, transformando uma tos especialistas, inclusive deste Militar, que espancaram e pren- proposta específica para os governo, gasta-se demais com deram centenas de estudantes. estudantes em uma luta contra o ensino público de nível superior Ainda assim, os jovens não governo. e existem outras prioridades para desistiram. No dia 20 de junho de o país — disse Jean Marc. 68 se reuniram na Reitoria da Para Jean Marc a universi- 14 do número de vagas e da verba “Algumas das reivindicações dos estudantes dos anos 60, como a democratização do acesso ao ensino superior e o aumento do número de vagas ainda persistem.” isolamento da vanguarda militante descontente com a falta de democracia. Desta ruptura origina-se o AI-5 — explica Jean Marc, fundador e atual diretor de uma ONG que trabalha com a promoção da agricultura familiar pela difusão das práticas agroecológicas. Os estudantes tentavam organizar respostas às agressões dos militares, mas o movimento estudantil começava a dar sinais de decadência. As mobilizações já diminuíam quando houve, em 68, o Congresso da UNE, em dade pública voltada para a au- Algumas das reivindicações UFRJ — que funcionava na Praia Aos poucos os estudantes Ibiúna, São Paulo, e cerca de 700 tonomia do desenvolvimento na- dos estudantes dos anos 60, Vermelha — com professores do perceberam que a política educa- estudantes foram presos. O cional foi uma conquista dos como a democratização do aces- Conselho Universitário e deba- cional do governo não atenderia às movimento de 1968 estava anos 50 e 60 que os militares não so ao ensino superior, o aumento teram sobre os problemas da Uni- suas reivindicações e que o regime derrotado pelos militares. n arte 3/1/05 3:07 PM Page 15 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 Lula sanciona Plano de Carreira que entra em vigor em março de 2005 ANA CAROLINA ALVES nº11.091, isto é, até 14 de março. para efeito de aposentadoria e exercício no cargo, dentre outros. Aspectos importantes do Plano a outros direitos prossegue sem Entretanto, de maneira geral, ele serem destacados são a garantia alteração. tem sido bem visto pelos sindicatos Os aposentados epois de grandes mo- D as greves, os sindicatos conse- de desenvolvimento horizontal, poderão pelo e trabalhadores. O professor Luiz bilizações por melho- guiram inserir no novo plano uma através enquadramento no novo plano, Afonso atenta para uma das rias salariais e reivin- série de conceitos já descritos no Capacitação Profissional, e de sendo pelas significativas mudanças para a dicações de reconhecimento Plano de Cargo Único, e que só desenvolvimento vertical, com a gratificações incorporadas à nova Universidade que seria o maior profissional, os servidores téc- esse fato já representa uma grande Progressão por Mérito Profis- tabela. Os pensionistas serão enfoque no nível de escolaridade da Progressão por optar beneficiados nico-administrativos das institui- vitória. O Plano de Carreira entrará sional, além do aumento da malha incluídos compulsoriamente. dos servidores de nível de apoio ções federais parecem ter encon- em vigor a partir de março de salarial para 39 padrões de venci- Aqueles que permanecerem no — “A gente tem feito um trabalho trado uma fresta de luz em meio à 2005, com algumas alterações para mentos básicos, com steps cons- antigo plano – PUCRCE – grande em relação a isso, mas escuridão que se instalou na janeiro de 2006. Ele estabelece tantes, e o incentivo à qualifica- perderão o direito sobre a GT ainda temos cerca de 100 ser- tentativa de reestruturação de uma nova matriz hierárquica em ção, principalmente, no que (Gratificação Temporária) e a vidores analfabetos aqui na UFRJ. suas carreiras. Sancionada no dia que os cargos passarão a ser orga- concerne à educação formal, ex- GEAT (Gratificação Específica de Até o final da nossa gestão não te- 12 de janeiro pelo presidente da nizados em cinco Níveis de plica Neuza. Segundo ela, no ca- Apoio Técnico-Administrativo e remos mais nenhum analfabeto República, Luiz Inácio Lula da Classificação, sendo que cada Nível so do enquadramento por tempo Técnico-Marítimo), concedidas nesta Universidade”. Neuza Luzia Silva, a Lei nº 11.091 dispõe de Classificação, por sua vez, terá de serviço resultar em padrão de como antecipação de carreira. Pinto fala da importância dos ser- sobre a estruturação do Plano de quatro Níveis de Capacitação, vencimento de valor inferior ao já Carreira dos Cargos Técnico- somando 39 padrões de venci- recebido em dezembro de 2004, Lacunas no Plano juntos a Universidade e, em se- administrativos em Educação, no mento, justapostos com intervalo a diferença será paga como A problemática que envolve os guida, faz um apelo à Reitoria pa- âmbito das Instituições Federais de um padrão entre os Níveis de parcela complementar — sobre desvios de função continua sendo ra que encare o processo de en- de Ensino vinculadas ao Minis- Capacitação e dois padrões entre essa parcela também incidirão as uma questão importantíssima não quadramento não de forma tério da Educação. os Níveis de Classificação (ver vantagens pessoais e adicionais, resolvida pelo novo plano, que burocrática, mas que compreenda A “briga” vem sendo travada tabela). Uma novidade importante como anuênio, ações judiciais e ainda apresenta outras lacunas a Lei e seus motivos; que entenda desde 1990, com forte participa- é que a diferença percentual entre insalubridade. Não haverá criação como step insuficiente, o não- o Plano e trabalhe do ponto de ção da Federação dos Sindicatos os padrões de vencimento (steps) de novos cargos, apenas mu- reconhecimento de cursos feitos vista conceitual e não excludente. de Trabalhadores das Univer- será constante – 3% a partir de danças na nomenclatura dos já antes de o trabalhador ingressar Afinal, a UFRJ tem um papel fun- sidades Brasileiras (FASUBRA) março e 3,6% na tabela do existentes — o que fará com que na instituição, a implementação do damental, e servirá de espelho e do Sindicato Nacional dos próximo ano. As formas como os se mantenham as peculiaridades Incentivo à Qualificação apenas para as demais instituições Servidores da Educação Básica e servidores poderão progredir em do cargo anterior. A contabilidade após quatro anos de efetivo Profissional (SINASEFE). A suas áreas de atuação obedecerão à coordenadora geral do Sindicato Progressão dos Trabalhadores em Educação Profissional — mudança de nível da UFRJ (Sintufrj), Neuza Luzia no mesmo cargo e nível de Pinto, diz que, no entanto, esse classificação — e à Progressão por Plano ainda não caracteriza o Mérito Profissional — mudança projeto que o sindicato tem rei- para o padrão de vencimento vindicado. Segundo ela, o ideal imediatamente subseqüente, a cada de projeto seria o chamado dois anos, após avaliação de “Plano de Cargo Único”, que desempenho. Além desses, o novo estabeleceria apenas um cargo — plano ainda prevê o chamado Trabalhador em Educação — nas Incentivo à Qualificação, que universidades e instituições de consiste na aquisição de título em ensino superior. Já para o pró- educação formal superior ao reitor de Pessoal da UFRJ, exigido para o cargo em que está professor Luiz Afonso Henriques posicionado. Os percentuais não Mariz, “as coisas, muitas vezes, serão acumuláveis e serão incorpo- são conquistadas aos poucos. rados à aposentadoria e à pensão. por universidade Novos rumos para a carreira dos servidores e para a Universidade vidores se envolverem e pensarem federais de ensino, conclui n Capacitação Essa já representa uma grande conquista para o sindicato, por- Enquadramento que está havendo uma repercus- O servidor poderá optar por são direta no bolso do servidor”. ingressar ou não nos novos ajustes, através do Termo de Novo Plano Opção, que deverá ser corre- Neuza diz que no decorrer do tamente formalizado no prazo de processo de negociações, durante 60 dias após a vigência da Lei Houve um aumento da massa salarial para 39 padrões de vencimento básicos. Confira seu enquadramento. O Sintufrj elaborou uma cartilha explicativa do Novo Plano de Carreira, que pode ser baixado diretamente do site www.sintufrj.org.br A Pró-Reitoria de Pessoal (SR-4) disponibiliza em sua página (www.sr4.ufrj.br) o serviço de simulação da situação do servidor que optar pelo novo plano. 15 3/1/05 3:07 PM Page 16 Jornal UFRJ ano 2 - nº 4 - março 2005 foto:arquivo do laboratório de limnologia unidades arte UFRJ e ecologia: parceria sólida em Macaé Núcleo de Pesquisas Ecológicas de Macaé é referência na pesquisa dos ecossistemas do município Alunos realizam pesquisa no NUPEM foto:arquivo do laboratório de limnologia LUANA MONÇORES Lagoa Cabiúnas, Restinga de Marambaia nsino, pesquisa e ex- E Mensalmente é feito o monitora- tensão. Esas três palavras mento de cinco lagoas (Imboas- são a melhor definição sica, Cabiúnas, Carapebus, Com- que podemos encontrar para o prida e Piripiri), sendo analisados Núcleo de Pesquisas Ecológicas de a água, as plantas aquáticas e os Macaé (NUPEM), do Instituto de aspectos microbiológicos destes Biologia da UFRJ, criado em ecossistemas. “Parque Nacional de Jurubatiba é resultado das atividades do Núcleo” Professores participam de atividades em uma das lagoas de Macaé aprendem nos bancos escolares. responsáveis pelo conteúdo A Escola de Pescadores é programático da escola. O núcleo mais um projeto inovador que também oferece cursos de trabalha com os problemas que ecologia e sustentabilidade ecoló- afetam a população do Norte- gica para gestores municipais de fluminense, como o declínio da meio ambiente. pesca, a poluição ambiental e a A produção científica é outro expansão urbana. Depois da área ponto forte. Cerca de 60% dos petrolífera, a pesca é a segunda trabalhos publicados são em 1993. O espaço é uma referência Outro importante estudo é o de ensino e pesquisa em ecologia PELD (Projeto de Pesquisas no Brasil, e de educação ambiental Ecológicas de Longa Duração). maior atividade que gera empre- periódicos internacionais. As na região Norte Fluminense do Esse projeto está inserido em segundo o professor Esteves, já gos na região. Ela é uma escola pesquisas no NUPEM já geraram Rio de Janeiro. Hoje, o NUPEM uma rede nacional, que segue um atenderam em média seis mil pública de tempo integral, que três livros, os Cadernos do está em fase de finalização da sua modelo de pesquisa em ecologia alunos e 900 professores de 15 concilia as matérias básicas do NUPEM nova sede, que abrigará um cam- existente em todo o mundo. São municípios da região. Através de sistema educacional e disciplinas elaborado por pesquisadores, pus avançado da Universidade. garantidos a ele, no mínimo, 10 aulas focadas nas questões eco- de embasamento ecológico e envolvendo questões sobre as Tudo foi possível graças às parce- anos de financiamento do lógicas do lugar e visitas guiadas recursos pesqueiros. Os profes- lagoas), além de várias disser- rias realizadas entre a Petrobras, a Governo Federal. Durante este à restinga e às lagoas, os alunos sores do NUPEM e a Secretaria tações de mestrado e teses de prefeitura de Macaé e a UFRJ, que tempo é realizado um acompa- podem vivenciar de perto o que de Educação de Macaé são os ao longo de mais de 10 anos nhamento de como o ambiente trabalham em conjunto na conso- reage aos impactos da presença lidação desse empreendimento. humana no local. O NUPEM Para o coordenador do cuida do sítio número cinco, o NUPEM, o professor Francisco único no país que é uma restinga A de Assis Esteves, sempre foi e abriga o Parque Nacional da nova turma do curso de ciências biológicas, que já foi aprovada pela congregação do Instituto objetivo do grupo envolver Restinga de Jurubatiba. Ele foi de Biologia, será aberta no local. No momento, nenhuma outra unidade formalizou interesse de sociedade e pesquisa científica. criado em 1998, em conjunto participar deste novo campus. “A UFRJ e o NUPEM são refe- com vários pesquisadores da O terreno novo foi doado pela prefeitura de Macaé, que também banca a construção da sede. rências na região. Isto é fruto do UFRJ, resultado das pesquisas e A UFRJ vai equipar o espaço com laboratórios para os grupos de pesquisa e aulas, auditório, trabalho de cooperação desen- atividades realizadas no núcleo. biblioteca, salas de aula, gabinetes de trabalho, dormitórios, cozinhas e banheiros. E ainda está volvido ao longo desses anos, Em associação,os laboratórios prevista a construção da Estação ECO-Ciência. Em julho do ano passado, o NUPEM foi incluído pois todos os estudos realizados de limnologia e de Ecologia no local foram surgindo de Vegetal, do departamento de O novo campus aumentará ainda mais o envolvimento dos alunos de graduação e pós-gra- acordo com a demanda dos pro- ecologia da Universidade estu- duação do Instituto de Biologia, como também das universidades nacionais e internacionais blemas que a região apresen- dam o seqüestro e a liberação de conveniadas e associadas com o núcleo. tava”, explica. carbono nesses (material didático doutorado. n NUPEM COMO CAMPUS AVANÇADO nova sede, que está em fase final de construção, permitirá a expansão das atividades, o que possibilitará a instalação de um campus avançado da Universidade na região. Uma no mapa da ciência do Rio de Janeiro, projeto promovido pela FAPERJ. ambientes (Projeto Carbono). Com o atual problema do aumento da libera- Com a expansão do espaço ção de gás carbônico (CO2) na físico do NUPEM, dos anos 90 atmosfera e a queima de até hoje, puderam ser ampliados combustíveis fósseis. Os estudos o número de cursos e as permitem perceber se há possibi- atividades oferecidas. Com isso, lidades de absorção do gás por alguns projetos se consolidaram e esse ecossistema. tornaram-se atividades centrais A educação ambiental é outro do departamento de ecologia da pilar que se desenvolve com UFRJ. O Projeto Ecolagoas tem excelência no NUPEM. Os pro- por objetivo o estudo ecológico jetos Jurubatiba na sala de aula e das lagoas costeiras da região. Imboassica na sala de aula, foto:arquivo do laboratório de limnologia 16 Ensino, Pesquisa e Extensão 3/1/05 3:07 PM Page 17 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 Com um programa que tem Social: Tecnologia e Território por base a pluridisciplinaridade, a (LASTRO); o autonomia acadêmica, a plurali- Espaço Sociedade da dade de interlocutores, a integra- Informação (Espaço); o ção de ensino, pesquisa e Laboratório Estado, Economia e extensão universitária, o IPPUR Território (LESTE); o Observa- quer ser inovador e participar, tório de Políticas Urbanas e da Rocinha à Índia através da pesquisa, na consti- Gestão Municipal; a Oficina tuição de espaços e processos que Redes e Espaços (Red-Es); o propiciem a afirmação do plane- Observatório Imobiliário e de jamento urbano como campo de Políticas de Solo (OIPSOLO) e Capes reconhece excelência do trabalho desenvolvido pelo Instituto uma teoria, uma metodologia e o Grupo de Pesquisa Tecnologia, na Laboratório uma prática comprometidas com a construção de uma cidade democrática. — Não trabalhamos apenas foto: Pedro Abramo sobre a cidade, mas sobre o conjunto das relações que têm o território como base, esse é o nosso objeto de estudo, — destaca o diretor, ressaltando que há uma atenção particular para o lugar e o papel do Estado, enquanto esfera pública e instrumento da ação coletiva consciente. Empenhado em formar planejadores e pesquisadores aptos a pensar, o IPPUR acaba de receber avaliação seis da Capes unidades IPPUR: Crise urbana Definindo a cidade como um conjunto organizado, composto por diversos mecanismos e recursos, Vainer defende que a foto: Andrea Pulici Território e Planejamento. crise urbana é uma manifestação Criado no âmbito do COPPE, contemporânea de um processo como programa de mestrado e histórico e resulta de relações transformado em Instituto espe- urbanas que produzem e repro- cializado do CCJE, em 1987, no duzem a desigualdade. Para ele, IPPUR são ministrados cursos de este é o ponto decisivo do Mestrado e Doutorado em Plane- trabalho do IPPUR. “Nós quere- jamento Urbano e Regional, e mos ver a cidade como palco da Especialização. Um dos pontos cidadania-cidadão, projetos, de destaques dos cursos é o vín- idéias”. Assim, aponta o plane- culo direto dos alunos com os jamento como um dos instrumen- trabalhos de pesquisa. Outro tos fundamentais do processo de aspecto valorizado pelo Instituto democratização do espaço e de é o intercâmbio, que abre novas uando o filósofo suíço construção coletiva, cidadã e oportunidades tanto para a Jean Jacques Rousseau democrática das cidades e regiões. pesquisa, quanto para os estu- Favela em Belém, no Pará ILZA SANTOS Q dantes brasileiros e estrangeiros. (1712-1778) afirmou “que a origem da desigualdade O Instituto mantém projetos entre os homens está na proprie- de articulação com entidades dade privada”, nem sequer pode- localizadas nos mais diversos ria imaginar que um dia existiriam comunidades tão distintas, convivendo de forma tão complexa como as que ocupam, hoje, as grandes cidades. foto: Luciana Fernandes arte Empenhado em formar profissionais, planejadores e pesquisadores aptos a pensar e desvendar essa complexidade, o Instituto de Pesquisa e Planeja- A cidade do Rio de Janeiro constitui um laboratório privilegiado para a pesquisa urbana pontos do mundo. Sem abandonar as relações tradicionais com os centros de ensino e pesquisa europeus e norte-americanos, atualmente vem sendo desenvolvido um trabalho para intensificar o intercâmbio latino-americano e se iniciaram relações com instituições africanas (África do Sul) e asiáticas (Índia, Tailândia, mento Urbano e Regional, Japão). “Da Rocinha à Índia IPPUR, unidade vinculada ao temos atuações e intercâmbios”, Centro de Ciências Jurídicas e enfatiza o professor Vainer. A cidade do Rio de Janeiro Econômicas da UFRJ, acaba de Estruturas receber a avaliação seis da Coor- Avançando com a proposta constitui um laboratório privi- denação de Aperfeiçoamento de de que a melhor forma de orga- legiado para a pesquisa urbana. Pessoal de Nível Superior nizar a sociedade, gerir e repartir Nos últimos anos, convênios com (Capes): um reconhecimento pela os recursos sociais da maneira o Instituto Pereira Passos, da qualidade e pelo aprimoramento mais adequada à gestão e dis- Prefeitura do Rio, possibilitaram de um intenso trabalho de tribuição da riqueza, passa por a produção de pesquisas para o equipe. “A nossa formação é um planejamento, o IPPUR conhecimento do mercado imobi- vinculada à investigação e pes- distribui suas atividades em dez liário informal existente nas fave- quisa científica, procurando en- laboratórios de pesquisa, envol- las cariocas e as formas da econo- tender a melhor maneira de elu- vendo docentes, pesquisadores, mia, também isentas de normas, cidar sociais, estudantes de graduação e pós- que nelas se desenvolvem. econômicos, políticos, culturais, graduação. As equipes são dis- O diretor do IPPUR lembra a materiais e imateriais, que não tribuídas pelo Laboratório Esta- importância das pesquisas sobre são transparentes”, explica o do, e o mercado imobiliário formal diretor do Instituto, professor Natureza (ETTERN); o Grupo de que desvendam as dinâmicas nas Carlos Bernardo Vainer. Pesquisa Modernidade e Cultura quais se estrutura o crescimento (GPMC); o Grupo de Estudos do da cidade e de seus bairros.”Em Território e de História Urbana 2002, por exemplo, a Tijuca foi (GESTUH); o Laboratório de identificada, através de pesquisa, Redes de Infra-estrutura Urbana como um dos bairros mais e Organização Territorial; o procurados para compra de processos Acima, o Morro da Lagartixa: construção de rsico; ao lado, favela do jacarezinho, no Rio de Janeiro Trabalho, Território Laboratório da Conjuntura imóveis”, conclui Vainer. n 17 3/1/05 3:07 PM Page 18 Jornal UFRJ colegiados arte ano 2 - nº 4 - março 2005 UFRJ reconquista direito sobre patrimônio Pró-Reitoria de Patrimônio e Finanças identificou equívocos no processo de alienação, e a reitoria retomou os entendimentos com o consórcio. BRUNO FRANCO Conselho Universitário O desentendimentos, que se iniciou (Consuni) aprovou, no em 2001 com a alteração, pelo dia 27 de janeiro, o consórcio, do projeto arquitetônico acordo, feito pela UFRJ com o de forma prejudicial aos interesses consórcio Tishman Speyer — da UFRJ estabelecidos no edital, Método, que restabeleceu os direi- com a redução de seu percentual tos da Universidade na alienação do para 14,72%. Entretanto, a terreno de sua propriedade, na alteração foi aceita na ocasião. avenida Chile, 300. A decisão de alienar o terreno, Acordo garante propriedade hoje ocupado indevidamente por Após a mudança na gestão da um estacionamento, foi tomada Universidade, a Pró-reitoria de pela Universidade em junho de Patrimônio e Finanças identificou 1995. No entanto, somente em equívocos no processo de aliena- 2001 foi realizada a licitação que ção, e a reitoria retomou os enten- previa o pagamento à UFRJ de, no dimentos com o consórcio. O mínimo, 17% da área privativa a acordo ser construída no local. O encontro dos pleitos da Univer- consórcio vencedor ofertou em sidade e garantiu o percentual de sua proposta 20,16% de permuta 17,63%, o que equivale a 16.541 sobre a área privativa total. m2 nas áreas destinadas à UFRJ e o O Consuni decidiu ainda que a envolvimento do consórcio na filosofia desse empreendimento nem desocupação do terreno. não é a mais adequada à Insti- propriedade de seus bens. Não O acordo, alcançado pela atual reitoria, encerra um ciclo de conquistado foi ao Reunião do Consuni que deliberou sobre acordo do terreno da av. Chile tuição. A Universidade não deve pode prescindir da obstante, o respeito, aos contratos já estabelecidos, reforça credibilidade da UFRJ. n a Programas de pós-graduação concorrem à verba Ministério da Ciência e Tecnologia disponibiliza R$ 110 milhões para a infraestrutura de pesquisa LUANA MONÇORES nada às instituições das regiões Sudeste e Sul. Mas para pós-graduação seis e sete no conceito da Capes. A idéia conseguir a verba, a UFRJ terá que apresentar uma pro- para atender a um maior número de unidades é a apre- Universidade poderá ganhar mais verbas do posta com subprojetos, em uma quantidade propor- sentação de projetos integrados entre os institutos e Governo Federal através do edital MCT/ cional ao número de professores doutores da institu- escolas, abrangendo também os programas com notas FINEP/CT-INFRA — Pro INFA 01/2004 liber- ição. A Para cada 100 professores titulados, a ado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, no último Universidade poderá apresentar um subprojeto, sendo dia 15 de dezembro. O dinheiro é destinado à que 10 é o limite. menores. O Centro de Ciências da Saúde (CCS) está articulando um plano que reúne os Institutos de Ciências infraestrutura de pesquisa. São ao todo R$ 110 mi- A disputa é acirrada, já que a UFRJ concorre com Biomédicas, Biofísica, Bioquímica Médica e de Micro- lhões disponíveis, sendo que 30% estão reservados outras Ifes de excelência. E também porque, para se biologia. São ao todo três programas com nota sete na para as universidades públicas do Norte, Nordeste e tornar ainda mais competitiva, terá que disputar a Capes, um com nota seis e outros dois com cinco e qua- Centro-oeste e a outra parte (R$77 milhões) será desti- verba usando suas unidades que possuem programas de tro, cada um. O projeto que está sendo preparado prevê a criação de uma unidade de Microscopia Funcional Multifônica, tecnologia avançada na área de microscopia óptica. No Brasil, existe apenas uma máquina em São Paulo. “Se atingirmos o objetivo, estaremos na fronteira da tecnologia de imagem de microscopia, com uma unidade multi-usuária que atenderá a mais de 100 professores já cadastrados, em regime transversal, isto é, supradepartamental”, explica o professor Roberto Lent, do programa de pós-graduação de Ciências Morfológicas. As unidades estão se organizando, assim como os colegiados, para atender da melhor forma possível as necessidades dos programas de pós-graduação. O prazo para a entrega do projeto ao Ministério é dia 15 de março. O resultado final será divulgado no site da FINEP(http://www.finep.gov.br) e publicado no Diário Oficial da União. Leia na íntegra o edital do MCT no site http://www.finep.gov.br//fundos_setoriais/ct_infra/editais/Chamada_publica_CT_INFRA_PROINFRA_01_2004.PDF n 18 Laboratórios terão mais verbas para pesquisa arte 3/1/05 3:07 PM Page 19 UFRJ Jornal ano 2 - nº 4 - março 2005 LUANA MONÇORES E ANA CAROLINA ALVES UFRJ e Banco do Brasil firmam acordo • Um dos maiores acervos particulares do Brasil na área de Humanidades pertence atualmente à UFRJ e se encontra junto à Biblioteca José de Alencar da Faculdade de Letras: a Biblioteca Afrânio Coutinho, composta de cerca de 100 mil volumes entre livros, periódicos e documentos. A partir de 15 de março todo material estará disponível para estudantes e pesquisadores interessados em literatura e cultura em geral. A inauguração será neste dia, às 12h, no prédio da Faculdade de Letras – Campus do Fundão. n • A UFRJ e o Banco do Brasil firmaram, no dia 25 de janeiro, um convênio para regular as relações de parceria entre as duas instituições. O acordo, que teve a intervenção administrativa da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), prevê o apoio financeiro à Universidade, em 2005, da ordem de R$ 2.411.934,00. O montante será aplicado na implementação do Restaurante Universitário e em projetos de divulgação institucional. O restaurante será instalado ao lado da Escola de Educação Física e Desportos (EEFD), em frente ao Instituto de Nutrição, e produzirá 2.500 refeições por dia. O projeto prevê que o estabelecimento funcionará, futuramente, como cozinha central para fornecer alimentos a outros refeitórios instalados nos campi da Universidade. A gestão dos recursos será feita pelo Comitê Gestor do Fundo de Patrocínio do Banco do Brasil à UFRJ, que será constituído pelos pró-reitores de Planejamento e Desenvolvimento (PR-3) e Extensão (PR-5), pelo gerente da Agência UFRJ do Banco do Brasil e pelo superintendente regional de Duque de Caxias, do Banco do Brasil. O convênio foi assinado pelo reitor Aloísio Teixeira, o pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento, Joel Regueira Teodósio, o pró-reitor de Extensão, Marco Antônio França Faria, o presidente da FUJB, Raymundo Theodoro Carvalho de Oliveira e o superintendente estadual do banco no Rio de Janeiro, Danilo Angst. n variedades Biblioteca inaugura acervo HU homenageia Pamplona Biblioteca Pedro Calmon, no Palácio Universitário Verbas para as bibliotecas da UFRJ • O Sistema de Bibliotecas e Informação – SIBI/UFRJ recebeu uma verba de R$ 167.049,00 do BNDES para conservação e preservação dos acervos da UFRJ. O dinheiro será utilizado para compra de equipamentos de segurança das bibliotecas que possuem acervos raros. As principais contempladas são: Museu Nacional, Escola de Música, Biblioteca do CCMN, Biblioteca do CFCH, IFCS, Biblioteca do CCS, Biblioteca Pedro Calmon, Biblioteca do CT, Biblioteca do CCJE, Biblioteca do PPGAS, Biblioteca de Obras Raras do CT, Arquivo do Museu Nacional, Biblioteca da Faculdade de Letras e Biblioteca da Faculdade de Arquitetura. Outra verba de R$ 600 mil, aprovada na previsão orçamentária para 2005, será destinada ao SIBI para compra de material bibliográfico. n • O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho homenageou, no dia 24 de fevereiro, o professor Emérito Carlos Nilo Gondim Pamplona, com a inauguração de um busto em bronze no 7° andar do hospital. Estiveram presentes o fundador do hospital, Dr. Clementino Fraga Filho, e o exdiretor Ananias Figueira da Silva, entre outros. A homenagem se deve ao fato de ter sido Pamplona, quando presidente da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB), o principal Jairo Luciano Cabral, Prof Carlos Nilo G Pamplona Amancio Paulino de Carvalho e José Francisco Ornellas articulador de empréstimos que resultaram em melhorias significativas para o HUCFF, a Maternidade-Escola e o Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG). A vice-reitora Sylvia Vargas, representando o reitor Aloísio Teixeira, e o atual diretor do hospital, Amâncio Paulino de Carvalho, exaltaram as qualidades de realizador do professor Pamplona. O busto foi criado pela escultora Elza Maria Lezaffre, professora da Escola de Belas Artes (EBA). n Biblioteca reaberta no IFCS • Na reunião do Consuni, do dia 13 de janeiro, o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), professor Franklin Trein, anunciou a reabertura da biblioteca da Unidade. Há quase três anos, o Instituto lutava por melhorias, principalmente para acabar com os fungos que atingiram a biblioteca. Felizmente o problema foi solucionado e a comunidade do IFCS já pode voltar a usar o local. n SERVIÇOS Anote aí alguns telefone úteis da Universidade DISQUE SEGURANÇA – campus da Ilha do Fundão: 2598-1900, campus da Praia Vermelha: 2295-7399. A Divisão de Segurança da Universidade disponibiliza estes telefones para problemas de assaltos, furtos e roubos, além de serviços de monitoramento de áreas da Universidade. Há também uma página na Internet para onde você pode enviar suas críticas, sugestões e denúncias. Acesse www.prefeitura.ufrj.br/seguranca.htm. ••• DISQUE DENGUE - 25626698. Criado pelo Departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia da UFRJ, o número recebe denúncias de focos do mosquito e esclarece dúvidas a respeito do mesmo. HOSPITAL-ESCOLA SÃO FRANCISCO DE ASSIS (HESFA) 2293-2932, 2293-9443, 2293-2255 (Disque-AIDS). O Hospital possui um programa de assistência integral às pessoas portadoras do vírus HIV. O hospital está localizado na av. Presidente Vargas, 2863, Cidade Nova. Acesse também a página www.hesfa.ufrj.br para mais informações. ••• DOE SANGUE – O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho necessita de doações permanentes para manter seu estoque de sangue. (HUCFF) 2564-2010 (Geral), 2270-9591 (Diretoria). O doador precisa ter entre 18 e 60 anos e estar com peso superior a 50 quilos. Não podem ser doadores as pessoas que tiveram hepatite após dez anos de idade; quem tem problemas renais, cardíacos, pulmonares e hematológicos; portadores de diabetes, câncer, doenças infecciosas; os que têm pressão alta; os que tiveram doença de Chagas; os que tiveram malária ou sífilis; quem recebeu transfusão de sangue ou derivados nos últimos dez anos; os usuários de drogas ilícitas e portadores do vírus HIV. É necessário apresentar documento de identidade e passar por uma entrevista. O horário de atendimento é de 2ª a 6ª feira, entre 8h e 13h30. Mais informações pelos telefones 2562-2401 e 2562-2305 ou pelo e-mail [email protected]. ••• LABORATÓRIO SONDA Realiza exames de paternidade e outros serviços de análise de DNA, como: o cartão de identidade, que possui dados sobre o genótipo do indivíduo, indicado para pessoas que possuem profissão de risco; extração e armazenagem de DNA para análises futuras e kits coletas, para pessoas que residem fora do Rio de Janeiro. Informações: 2260-5579 (Ilha do Fundão) ou 2531-3123 (posto de coleta no Centro) CURSOS PROJETO ÁGUAVIDA Escola de Educação Física e Desportos O projeto ÁGUAVIDA da Escola de Educação Física e Desportos oferece no primeiro semestre deste ano aulas de natação, hidroginástica, pólo aquático e aulas para portadores de necessidades especiais, para a comunidade interna e externa dos campi da Ilha do Fundão e da Praia Vermelha. Para se inscrever é preciso um atestado médico, foto 3x4 e o pagamento da taxa única referente ao semestre. As inscrições começam dia 7 de março no campus do Fundão, de 8h às 12h, na sala 223 da Escola, ou na piscina de 12h às 13h20 / 16h às 17h. E dia 17 de março no campus da Praia vermelha, na sala da administração (próximo ao campo de futebol). Confira abaixo valores e horários: Taxas: Comunidade Interna Terça e Quinta – R$ 100,00 / Segunda, quarta e sexta – R$ 120,00 / Segunda à sexta – R$ 170,00 Comunidade Externa Terça e Quinta – R$ 120,00 / Segunda, quarta e sexta – R$ 140,00 / Segunda à sexta – R$ 200,00 Portadores de Necessidades Especiais – R$ 150,00 Horários na Ilha do Fundão: (Telefone: 2562-6815) Natação – 6h45/ 11h30/ 12h30/ 16h/ 17h (Todos os níveis) Hidroginástica – 11h30/ 12h30/ 16h/17h Pólo Aquático – quarta e sexta/ segunda, quarta e sexta/ segunda à sexta - 11h30 Horários na Praia Vermelha: (Telefone 2275-5939) Natação – 6h45/ 7h30/ 10h/ 11h35/ 12h20/ 13h05/ 16h15/ 17h/ 17h45/ 18h30/ 19h15 * Os horários da tarde para esta atividade são apenas para terça e quinta. - Terceira Idade – 10h50 - Infantil/ Adolescente – 8h25/ 9h10/ 14h45/ 15h30 - Portadores de necessidades especiais, apenas segundas, quartas e sextas 8h25/ 10h50/ 11h35/ 12h20 Hidroginástica (Adulto e terceira Idade) Piscina rasa – 7h30/ 8h25/ 9h10/ 10h/ 10h50/ 11h35/ 15h30/ 17h/ 18h30 Piscina funda – 8h25/ 9h10/ 10h/ 10h50/ 11h35/ 14h45/ 15h30/ 17h45/ 18h30 19 3/1/05 3:07 PM Page 20 Jornal UFRJ ano 2 - nº 4 - março 2005 Menino de Brodósqui, homem do Brasil cultura arte A pátria esquecida de Portinari ANA CAROLINA ALVES “Daqui fiquei vendo melhor a minha terra – fiquei vendo Brodósqui como ela é. Aqui não tenho vontade de fazer nada (...).Vou pintar aquela gente com aquela roupa e aquela cor”, escreveu Portinari na famosa “Carta do Palaninho”, de 1930. Um dos representantes mais ilustres da arte nacional, ele fez acontecer. Viajou os quatro cantos para apresentar ao mundo um Brasil desconhecido, uma nação castigada, uma pátria esquecida. Lançou, com essas palavras, o que se daria dali para frente, ou seja, uma vida traçada por ideais como a paz e a não-violência e uma morte causada por aquilo que mais apreciava: a sua própria pintura. D escendente de imigrantes italianos A temática de Portinari será desenvolvida da região do Vêneto, que vieram através da força que a terra exerceu sobre o para o Brasil no final do século pintor. Sobretudo nacionalista, o artista XIX, Candido Portinari nasceu, em 1903, deixou painéis belíssimos acerca dos ciclos Portinari pintando um dos painéis "Guerra e Paz", no galpão da TV Tupi. Rio de Janeiro, 1956. serão sempre homens de profunda dignidade e de pés fortes, fincados na terra. O Sonho, 1938 no pequeno vilarejo de Brodósqui, interior Acusado ora de comunista, ora de de São Paulo. Sua paixão pela pintura foi simpatizante de Vargas, Portinari, além de despertada quando um grupo de artistas pintor extraordinário e ícone da arte itinerantes, que recrutavam crianças para brasileira, foi um sonhador, conta João decorar as igrejas das pequenas cidades, Candido. Ansiava por valores como a paz e passou por Brodósqui. Com apenas nove a justiça social. Militou no Partido anos, Portinari juntou-se ao grupo para Comunista, era amigo de Luís Carlos reconheça sua obrigação e cumpra com as pintar a pequena capela de sua cidade. Prestes, alvo de Ferreira Gullar e trabalhou devidas determinações para que as novas no Ministério de Gustavo Capanema. gerações possam conhecer esses homens e A Fuga para o Egito, 1952 Contraditório? Não, nem um pouco. Ele mulheres que fizeram grandes criações e que No entanto, desenvolver essa paixão abusou do que melhor sabia fazer para são o espelho da pátria. Se você quiser se recente em uma cidade tão pequena e transmitir mensagens em prol desses valores. reconhecer como brasileiro, para onde vai orientada para a lavoura como Brodósqui, Comprou briga, não só através das suas olhar? Para a sua música, para a sua poesia, seria tarefa bastante penosa. Aos 15 anos, pinturas, mas de sua atuação política, para para a sua arte”, argumenta João Candido. Portinari veio para o Rio de Janeiro na alcançar valores sociais e humanos, como a Assim viveu Portinari. Sonhou com o dia fraternidade e o espírito comunitário. Foi em que a guerra não ultrapassaria as profeta na luta pela paz. Para João Candido, fronteiras de suas telas. Viu o país como a tentativa de se matricular na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA). No ano seguinte, foi admitido pelo Curso Livre — que não outorgava diploma nas condições de curso de graduação — da ENBA. Ano de 1928: Candido Portinari obtém, com sua obra O Olegário Mariano, a mais almejada premiação da Academia, o Prêmio de Viagem, concedido pelo Salão Nacional da “Em um pé de café, nasci. O material usado lá no céu para me realizar deveria ter sido gasto em águas e folhas”. sua “menina de tranças”: frágil, porém encantadora. Candido Portinari morreu de intoxicação crônica das tintas que usava para pintar, em fevereiro de 1962. No dia de sua morte, Guilherme Figueiredo escreveu: “...o menino Candido Portinari saiu de minha terra com papel e cores em punho para uma Escola, que o leva à Europa. Durante os dois imensa aventura de pintar uma pátria. Pintá- anos em que esteve fora, relata a diretora da das riquezas, como café, cacau, borracha e la, não: criá-la de uma realidade ignorada, Escola de Belas Artes da UFRJ e pes- fumo. Durante o tempo em que esteve na mostrá-la aos quatro cantos do mundo, Europa, sofreu influências de Picasso e da contorcida, ofegante, opressa, inaugural, Escola de Paris. Chegou ao Brasil, com uma seus últimos grandes trabalhos — os painéis forma moderna, traduzida na distorção das Guerra e Paz, de 1952, feitos por cabeças, mãos e pés enormes. Para seu único encomenda para a sede da ONU, nos filho, João Candido Portinari — diretor do Estados Unidos — figuram a síntese de tudo Projeto Portinari —, havia uma diversidade o que o artista fez neste sentido. Ao passo de correntes circulando em suas veias, como em que ele exalta o amor e a compreensão, o próprio Renascimento italiano, por exem- denuncia a condenação de tudo o que a plo, que o aproximava de Piero della Frances- guerra pode acarretar. Para João Candido, ca em murais como Tiradentes, de 1948. esse painel representa realmente tudo o que Essa obra foi talvez uma das mais signi- ele quis significar durante toda a vida; tanto quisadora de Portinari, Angela Ancora da ficativas deste período. Abusando de simbo- na arte, quanto nas suas posições políticas e Luz, o pintor enviou para o Brasil apenas três lismos, Portinari demonstrou o luto do país humanas. Portinari escreveu: “A pintura que trabalhos: três naturezas-mortas. Criticado com a perda do herói e, com ele, da não fala ao coração, não é arte. Porque só ele na época, ele replicava dizendo que teria esperança. a entende. Só o coração poderá nos tornar melhores e esta é a grande função da arte”. muito tempo para pintar quando voltasse, O espaço em Portinari é sempre cúbico, afinal estava ali para observar e aprender, de perspectiva tridimensional, ainda de para “descobrir o Brasil, longe do Brasil”. caráter acadêmico, explica Angela. Temas Menina de Tranças, 1955 sombrios faziam parte do seu perfil. Candido Olhar para o Brasil e sentir orgulho de Retirantes, 1936 Portinari foi, sobretudo, um artista trágico. uma nação que gerou artistas como Portinari Na década de 30, Portinari amadureceu Também podemos notar a ligação da sua é também buscar forças para não deixar com sua arte. Segundo Angela, foi a hora da arte com as questões sociais vigentes na que grandes obras sejam perdidas por falta figurada, época, como o caso dos Retirantes — obra de informação ou cuidado na documen- bastante famosa de 1936. Seus personagens tação. “É brigar para que o Estado chamada 20 “— Portinari, você não acha que isso é um negócio moderno? — Isso daí não é nem novo, quanto mais moderno...” “fase marrom”, principalmente, no café e na terra. como a dizer-lhe: ´Somos assim’...” n