Ano X • nº 190 Março de 2011 R$ 5,90 em POUCaS PalavraS Divulgação Neste ano, o Peru comemora com muita festa o centenário do redescobrimento de Machu Picchu, ou MaPi, para os íntimos. Sim, redescobrimento, porque em 1911 o historiador norte-americano Hiram Bingham localizou a cidade sagrada dos incas mergulhada em densa f loresta que a protegeu dos saqueadores por quatro séculos. Leia a partir da página 22 o relato de Rafael Imolene sobre esse destino turístico, considerado o mais impressionante conjunto arquitetônico pré-colombiano da América do Sul. Mas é da Colômbia contemporânea que vem uma das grandes atrações internacionais que vão se apresentar em Brasília este mês. A exuberante Shakira terá a companhia do jamaicano Ziggy Marley e do DJ Fatboy Slim, entre outros, no Pop Music Festival, dia 17, no estacionamento do Mané Garrincha. Ainda em março teremos aqui a finlandesa Tarja Turunen, a francesinha Berry, o britânico Seal e, fechando o mês, a legendária banda de heavy metal Iron Maiden (página 18). O destaque da seção Luz Câmera Ação é a Semana da Francofonia, que este ano está apresentando 30 filmes de países de todos os continentes: os que têm o francês como língua oficial (ou mesmo segunda língua) e também produções de nações árabes e de países que adotam idiomas os mais diversos, como a República Tcheca, o Líbano e a Polônia (página 32). Vicente Sá e Rodrigo Oliveira foram ao Recanto das Emas visitar os jovens do Projeto Batucadeiros, um grupo de 210 meninos e meninas pra lá de alto astral que se reúne numa igreja presbiteriana para aprender a fazer percussão com o próprio corpo, a tocar violão e, mais do que isso, a se tornarem cidadãos (página 26). Quanto às novidades gastronômicas, elas estão em Água na Boca, a partir da página 4: a inauguração do Giappa, no Parkshopping, e a chegada, em outubro, no mesmo local, de quatro renomados restaurantes de São Paulo e do Rio. Uma saudável (e deliciosa) resposta à chegada dos restaurantes de grife que abriram as portas recentemente no Iguatemi Shopping. Nós, moradores da cidade, é que sairemos ganhando com a disputa. 4 8 10 12 14 18 20 22 26 28 30 águanaboca picadinho garfadas&goles pão&vinho dia&noite graves&agudos galeriadearte diáriodeviagem culturapopular verso&prosa cartadaeuropa Boa leitura e até abril. Maria Teresa Fernandes Editora ROTEIRO BRASÍLIA é uma publicação da Editora Roteiro Ltda | SHS, Ed. Brasil 21, Bloco E, Sala 1208 – CEP 70322-915 – Tel: 3964.0207 Fax: 3964.0207 | Diretor Executivo Adriano Lopes de Oliveira | Redação [email protected] | Editora Maria Teresa Fernandes | Capa Carlos Roberto Ferreira, sobre foto de John Mcmurtrie| Diagramação Carlos Roberto Ferreira | Reportagem Akemi Nitahara, Alexandre Marino, Alexandre dos Santos Franco, Ana Cristina Vilela, Beth Almeida, Bruno Henrique Peres, Eduardo Oliveira, Guilherme Guedes, Heitor Menezes, Lúcia Leão, Luiz Recena, Quentin Geenen de Saint Maur, Reynaldo Domingos Ferreira, Sérgio Moriconi, Silio Boccanera, Súsan Faria e Vicente Sá | Fotografia Eduardo Oliveira, Rodrigo Oliveira e Sérgio Amaral | Para anunciar Ivone Carmargo (3349.5061 / 9666.7755) e Ronaldo Cerqueira (8217.8474) | Assinaturas (3964.0207) | Impressão Gráfica Charbel | Tiragem 10.000 exemplares. www.roteirobrasilia.com.br 3 Arthur Bragança Tadeu Brunelli água na boca Bacalhau com nage de vongoli, batata, azeitona verde e alcachofrinha, do Due Cuochi Camarões grelhados ao molho de soja com arroz selvagem, do La Tambouille Saudável concorrência N uma clara reação à chegada do Iguatemi e suas grifes gastronômicas (Gero, Galeto’s, Pobre Juan), o ParkShopping anuncia a criação de um espaço gourmet que contará com cinco restaurantes igualmente renomados, a maioria exclusivos na capital federal. Quatro já estão confirmados: Antiquarius Grill, Due Cuochi Cocina, La Tambouille e The Fifties. Bom para os brasilienses, que assistem de camarote à saudável disputa entre os dois shoppings. Aproximadamente R$ 35 milhões serão investidos na implantação do novo espaço gourmet, que ocupará uma área de 3.600 m2 no andar superior do ParkShopping. As obras foram iniciadas em meados de fevereiro e deverão estar concluídas em outubro. Os cinco restaurantes, de propostas gastronômicas diferenciadas, terão acesso e horários de funcionamento independentes, segundo o superintendente do shopping, Marcelo Martins. 4 A grife Antiquarius, especializada em comida portuguesa, nasceu há mais de 30 anos no Leblon e dez anos depois abriu sua segunda unidade, em São Paulo. Dois anos atrás, inaugurou a terceira na Barra da Tijuca, que serve também carnes nobres argentinas e uruguaias – além, é claro, dos pratos emblemáticos da casa, como as várias versões de bacalhau e o arroz de pato. Bem mais jovem – foi aberto em 2005 – é o Due Cuochi Cucina, onde o chef Paulo Barros (ex-Vecchia Cucina) dedicase à preparação de receitas de inspiração italiana, como o tagliatelli com shitake, camarão e abobrinha e o robalo fresco grelhado em crosta de amêndoas. A unidade brasiliense será a terceira da grife – as outras duas ficam em São Paulo, ambas no bairro paulistano do Itaim Bibi. Às vésperas de completar 40 anos, o também paulistano La Tambouille, localizado no elegante bairro dos Jardins, foi o primeiro restaurante do badalado chef Giancarlo Bolla. O ambiente elegante, o serviço impecável e as requintadas receitas da culinária franco-italiana são sua marca registrada. Entre as estrelas do cardápio, destaque para a trilogia de cordeiro (filé, contra-filé e costeleta grelhados com molho poivre, servido com risoto milanesa), o badejo grelhado com ervas e panquecas de camarões e o risoto de chorizo, feijão preto e porcinello, uma espécie de funghi. À rede de lanchonetes The Fifties, hoje com onze unidades (nove na capital paulista, uma no Rio de Janeiro e outra em Ribeirão Preto), atribui-se a introdução, no Brasil, do conceito de refeições rápidas com alto padrão de qualidade. Em todas as lojas da rede a decoração combina traços modernos com referências à cultura americana jovem dos anos 50. O The Fifties será mais uma opção para os brasilienses que apreciam bons hambúrgueres, sanduíches de filé, batatas fritas crocantes, onion rings, baurus, cachorros quentes, wraps e milk-shakes. Fotos: divulgação Gostosa miscelânia Pizzas, sushis, massas, sashimis, risotos e tempurás se misturam no cardápio do Giappa Por Beth Almeida D iversidade sem preconceito. Não há melhor maneira de definir o mais novo espaço gastronômico do Parkshopping, o Giappa, que substitui a Forneria Baco. A diversidade fica por conta da variedade do cardápio, que vai da pizza à culinária oriental (japonesa e chinesa), passando por um leque de petiscos que combinam perfeitamente com um drinque de fim de tarde. O artífice dessa miscelânea é Gil Guimarães, da Pizzaria Baco, que se juntou a Jael Silva, um dos ex-sócios do Carpe Diem, e a Salti Sun, do Grande Muralha. “Queríamos uma casa que fosse alegre, moderna e que oferecesse alternativas de cardápio”, afirma Gil. A pizza da Baco dispensa apresentações, mas para a nova casa Gil elaborou novas opções de recheios, algumas com toques da cozinha oriental, como a Giappa (com lascas de rosbife de atum fresco, mussarela, gengibre, gergelim, shoyo com saquê, maçã e pera) ou a Camarão Thai (catupiry, camarão ao alho e óleo, gengibre e molho de tomate). No almoço, além do bufê de cozinha oriental, com sushis, sashimis, tempurás, robatas e outras delícias, pratos quentes de origem italiana, como massas e risotos. Há também um prato do dia, que pode ser um escondidinho de frango, uma rabada, uma costelinha defumada assada ou uma carne assada com cogumelo Paris, entre outros. Tudo com a opção de pagar pelo bufê completo ou, para quem preferir, self-service a peso. Na parte externa da casa, que dá para o estacionamento do shopping, o espaço para a happy hour oferece, além de chope e vinhos, uma grande variedade de caipirinhas à base de saquê. E com uma novidade: o cliente pode adquirir a garrafa do saquê, da marca Jun Daiti, e pedir os ingre- dientes para preparar ele próprio o seu drinque. Para acompanhar as bebidas, o exibidinho de carne seca com purê de mandioca, o tempurá de ovo de codorna, os camarões empanados e comidinhas orientais que podem ser selecionadas pelo cliente para compor o seu bento (marmita à moda japonesa cuja pronúncia correta é bentô), incluindo três variedades de comidas orientais. São muitas opções, desde os tradicionais sushis e sashimis até uma saborosíssima saladinha de bifun (macarrão de arroz) com gergelim. Inaugurado com festa no dia 28 de fevereiro, o Giappa é ideal para famílias e grupos de amigos, porque é quase impossível não encontrar no cardápio da casa algo que agrade aos paladares mais exigentes. Giappa ParkShopping – Térreo (3234.7871) Diariamente a partir das 12 horas. 5 água na boca Loiras, morenas e ruivas Grote Market traz a Brasília cervejas especiais de todas as partes do mundo Texto e fotos Akemi Nitahara U m grande mercado, mais pela variedade do que pelo tamanho. Esse é o significado, em holandês, de Grote Market, cervejaria que vem dar um toque a mais à Rua 8, como é conhecida a entrequadra 408/409 Norte, frequentada por públicos de todas as idades. Aberto há três meses, a Grote Market é, na verdade, mais uma loja do que um bar. Tem cerveja gelada, claro, mas não tem cardápio nem garçom, e as mesas são apenas três. A proprietária, Paula Figueiredo, explica que a ideia é ser uma loja mesmo, onde as pessoas entram, analisam e fazem perguntas sobre os produtos. 6 “Nós temos as cervejas para degustação e servimos como acompanhamento apenas o amendoim, uma cortesia da casa”, acrescenta. Formada em química e biologia, Paula trabalhava como modelo e produtora e já naquela época se interessava por cerveja. Começou a estudar o assunto e resolveu abrir a loja, depois de uma pesquisa de campo pela Alemanha, Holanda, Bélgica e outros países. O objetivo foi trazer marcas que ainda não tinham chegado ao Brasil. São oferecidos mais de 150 tipos de cervejas de Portugal, Jamaica, Inglaterra e México, além dos mais tradicionais fabricantes da bebida, anteriormente citados. Também está dis- ponível para consulta na Grote Market uma ampla bibliografia sobre cervejas. A loja trabalha com tele-entrega e oferece kits e cestas, alguns prontos de fábrica, normalmente com duas garrafas e um copo personalizado da marca, ou com produtos escolhidos pelo cliente. Copos e taças variados também estão à venda, já que “cada tipo de cerveja pede um copo diferente”, explica a proprietária. Entre os destaques da loja estão a Brew Dog Tokyo, cerveja mais forte do mercado, com 18,2% de teor alcóolico, a alemã WeihenStephaner, feita de trigo, e a americana Flying Dog, inspirada no ícone do jornalismo gonzo, o norte-americano Hunters Thompson (1937/2005). Para quem não sabe, Thompson criou um estilo jornalístico, denominado gonzo, no qual o autor do texto abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura com a ação. Paula também exibe as melhores cervejas do ano, eleitas pela revista Prazeres da Mesa: em primeiro lugar, a americana Brooklyn Lager; em segundo, a italiana Baladin; em terceiro, a Bamberg St. Michael; e em quarto, a Colorado Índice (as duas últimas são brasileiras). Apesar do gosto nacional pela “estupidamente gelada”, Paula ensina que cerveja muito gelada congela as papilas gustativas, “e aí não dá para sentir os aromas, os sabores e as especiarias”. Quadra charmosa A escolha da quadra para receber a Grote Market não foi aleatória. A 408/409 Norte vem diversificando o perfil dos empreendimentos e também do público. O primeiro bar da rua foi o do Zé, que nem nome tinha e foi batizado de Meu Bar pelos integrantes do vizinho Moto Clube Carcarás. No melhor estilo boteco, o Por do Sol e o Vale da Lua são a meca de estudantes da UnB. Mais novo na quadra, o Raízes foi para lá há um ano, em busca de espaço (que era muito restrito no antigo endereço da 110 Norte) e também, claro, do público que já frequentava a rua. Entre os de estilo mais charmoso, agora predominante, o pioneiro foi o Café da Rua 8, que vai debutar em setembro próximo. Já consagrado como ponto de resistência cultural, o café de Eva Pimenta revitalizou a redondeza e levou vários eventos culturais para a quadra, como a Semana de Arte Moderna, o Grito de Carnaval (com um jantar para o cortejo de Momo na sexta-feira pré-folia), a festa de Cosme e Damião e o Salve a Pátria, quando a rua é fechada para carros e dá lugar a diversas atrações musicais. O Barkowski faz referêcia, claro, ao escritor Charles Bukowski, com um ambiente no estilo pub americano, valorizando o balcão. Aberto há dois meses, ainda está instalando a cozinha, que vai oferecer petiscos rápidos. Além das cervejas Guinnes, Original e Edelweeiss, tem o único chope Heineken da Asa Norte. E rock’n’roll de qualidade nas caixas de som. Com decoração estilo anos 50, lembrando a casa da vovó, o Zigfrida abriu as portas no início de dezembro. Parceira do Godofredo, casa mais antiga no mesmo bloco, oferece uma carta com 45 tipos de cervejas, além de canapés e crostinis (pães ciabata recheados e levados ao forno). Há quase quatro anos dando charme à entrequadra, o Senhoritas Café tem se especializado em boa música. Na programação fixa, as terças-feiras são dedicadas aos Beatles; na quarta é a vez do violonista Rafael dos Anjos e convidados; quintafeira tem roda de choro com o grupo Aquattro e sexta roda de jazz. O proprietário, Renato Fino, também organiza saraus e lançamentos de livros. Grote Market 409 Norte – Bloco A (3201-0592) De 2ª a sábado, das 11 às 23h www.grotemarket.com.br 7 picadinho O chef Dudu Camargo é outro que acaba de lançar novos pratos para o seu festival Você tem fome de quê? , todos inspirados no Carnaval. Até o final deste mês, cada um de seus restaurantes terá um cardápio diferente, com cinco opções. No DaNoi, na cantina Unanimità e no Dudu Camargo Bar e Restaurante os clientes poderão saborear, de segunda a sexta-feira, no almoço, pratos executivos com o toque do chef. No cardápio do Dudu Camargo foi incluída a Super Quadra de Filé (sushi grelhado recheado com cream-cheese, molho teriaki, seleção de legumes e lascas de filé mignon, a R$ 29,90). Divulgação Para comemorar sua recente eleição, pelo governo do Peru, como o melhor restaurante de culinária peruana do Brasil, o Taypá (QI 17 do Lago Sul) acaba de incluir em seu cardápio novas criações do chef Marco Espinoza. Entre as novas entradas, destaque para o ceviche de atum fresco com leite de tigre, mel de maracujá e espuma de wasabi (foto), que custa R$ 38,35. A Roteiro também experimentou – e aprovou – o Lomo Pituco, um medalhão de filé mignon grelhado em molho quatro queijos, pimenta e vinho branco, gratinado sobre crepes de champignon (R$ 50,80). De sobremesa sugerimos o cheesecake de maracujá com calda de chocolate e pisco (R$ 15,80). Bonsmara à moda Dom Francisco e a bisteca prime de suíno empanada. Entre as entradas, destacam-se os pastéis de marreco e as bruschettas com alho negro. Colheita eletrônica ... a preço camarada E tem mais: de segunda a sextafeira, o Taypá está oferecendo um almoço-degustação por apenas R$ 45. O cliente pode escolher qualquer entrada, prato principal e sobremesa do cardápio. Divulgação Novos pratos (2) Também o restaurante Miró (Complexo Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul) começou o ano lançando novos pratos em seu cardápio. Entre as novidades estão a lula en su tinta, o filé mignon em crosta de castanha e pimentas e o filé de frango ao molho curry. Às sextas, a casa oferece um bufê de bacalhau, com diversos pratos feitos com a iguaria. Novos pratos (3) Outra casa que está com novidades no cardápio é o Dom Francisco. As casas da 402 Sul e do ParkShopping passaram a servir o bacalhau dourado em cama de batatas e cebolas alouradas, o confit de bacalhau, o picadinho de fraldinha de 8 Sérgio Alberto Novos pratos Delícias del Perú... A Almadén acaba de estrear uma máquina da marca francesa Pellenc que faz a colheita mecânica de cerca de 200 hectares de parreirais, um terço de toda área produtiva da vinícola. A empresa investiu R$ 500 mil na aquisição da máquina e na reforma dos vinhedos para viabilizar a colheita mecânica e a um novo padrão de qualidade. Segundo o diretor Afrânio Moraes, a máquina permite o planejamento do dia e da hora da colheita, conforme seu grau de maturação, o que não era possível com a colheita manual. Sinal dos tempos Três meses depois de abrir as portas no Iguatemi Shopping, o badalado Gero aderiu à fórmula do menu executivo, de segunda a sexta-feira, na tentativa de ampliar sua fatia de mercado. O Gero a Mezzogiorno (couvert, entrada, prato principal e sobremesa) custa R$ 70 e oferece aos clientes um cardápio especial com opções que vão se revezar conforme o frescor e a disponibilidade dos melhores ingredientes. Rodízio incrementado André Zimmerer Algumas opções: de entrada, carpaccio alla Fasano, caesar salad clássica, insalata verde e crema di asparagi; de prato principal, taglionini com ragú di pesce e zucchine, stinco di vitello con polenta molle con salvia, taglionini con salsa di funghi, medaglione di manzo di mostarda com fettuccine al burro e salvia, ravioli ripieni di robalo al volut e scaloppine al marsala com ghonocchi di patate; de sobremesa, petit gateau e gelati. Diferente do restaurante Nippon da 403 Sul, que tem grande variedade de pratos em seu rodízio, o Nippon Gourmet da 207 Sul acaba de aumentar o número de itens de seu rodízio, incluindo alguns pratos que eram servidos somente no sistema à la carte. Agora estão disponíveis mais dois tipos de sushi (primeira foto abaixo), o rolinho de salmão com shimeji e o filé de tilápia com champignons e alcaparras. Para quem gosta de carne, a casa incluiu opções de filé ao molho e shitake, Filé au Poivre, Filé à Café de Paris (segunda foto) e Filé Marchand de Vins, servidos em pequenas porções. O chef Jun Ito explicou que as novidades implantadas na casa da 207 Sul ocorreram para atender melhor os seus clientes. “Como o Nippon Gourmet é menor, não podemos servir todos os pratos que são servidos na 403, como os grelhados e outros. Assim, resolvemos colocar mais opções no rodízio, o que tem agradado muito aos nossos clientes”, disse. O rodízio custa R$ 43,90 no almoço e R$ 49,90 no jantar. Chico Bruno Cardoso Café Premium Mais uma A rede Yoggi, de frozen yogurt, abriu seu quarto ponto em Brasília. A nova loja, de 70m², fica na 209 Sul e oferece os sabores natural, jabuticaba, chocolate belga e manga, além de grande variedade de toppings (coberturas). André Zimmerer Telmo Ximenes A Belini Pães & Gastronomia (113 Sul) ganhou da Associação Brasileira de Indústrias de Café (Abic) o selo Casa de Café Premium. O título é o único do mundo que atesta a pureza e a qualidade do café torrado e moído. Os grãos da Belini foram classificados no segmento gourmet – nível máximo da avaliação. O aviú é um pequeno camarão de água doce, muito encontrado na foz do Rio Tocantins. No restaurante franco-italiano Bottarga, ele é usado como uma farinha, empanando camarões maiores. Trata-se do prato camarões grelhados com crosta de aviú e linguini ao molho bisque (R$ 69), que entrou este ano no cardápio da casa. O Bottarga fica no Espaço Maria Tereza (QI 5 do Lago Sul) e oferece opções de carnes vermelhas, aves, peixes, crustáceos, pastas e risotos, além de uma extensa carta de vinhos mantida pelas importadoras Zahil e Mistral. Brito Junior Crosta de aviú 9 GARFADAS & GOLES LUIZ RECENA garfadas&[email protected] Sempre é Carnaval Queridos editores: começo estas “mal traçadas linhas” com um clássico da linguagem popular: “E não é que o Carnaval chegou de novo na Bahia?” Pois é, entra ano e sai ano e a festa momesca insiste em dizer aos brasileiros – cariocas e pernambucanos, principalmente – que o Carnaval, a antiga festa dos gregos, ou das loucuras do deus Baco (que na época não fazia pizzas...) acontece mesmo é na Bahia. E não são apenas três dias, é muito mais. Da lavagem das escadarias da Igreja de nosso Senhor do Bonfim, a primeira, até a última, na Igreja de Itapuã, dez dias antes do Carnaval, são semanas e dias e dias de muita agitação, festas e bebedeiras, como convém a uma época baiano-carnavalesca. além das lavagens, há outras festas que anunciam a definitiva aproximação dos festejos de Momo. Uma delas, talvez a última antes da explosão dos trios elétricos, dos blocos, das deusas, das musas, da baianagem em geral, seja a Feijoada de Dadá, que na sua 18ª edição já se transformou numa das maiores festividades desta época. Ela, a Dadá, cozinheira de mão cheia, chama todos e todas de “negão e negona”. Ela tem um amigo de fé, irmão-camarada, que produz toda a zorra, o Rodolfinho Tourinho. O cara faz tudo, da primeira serpentina ao último confete, passando por uma baita feijoada com a assinatura da Dadá, até os shows musicais com artistas do primeiro time do Carnaval baiano. São sete horas de festa onde não falta nada. E não sobra um grão de feijão preto. Este ano, como sempre, Dadá, sempre ela, e Rodolfinho, “mataram a pau”. Sucesso completo. E agora, já dizia um amigo argentino, morador de Salvador, para o baiano cunhado dele: “Badarô, que venga el Carnaval, porque yo soy negrón!...”. Entre uma chuva e outra, Brasília e brasilenses podem pensar nisso. E o colunista, negão, daqui exclama: Saudades do Pacotão. axé! No pasarán Depois do massacre das barracas de praia assumido pelo prefeito João "aleluia!" Henrique, a orla de Salvador ficou uma tristeza. Pode até ter mudado o visual um pouquinho, menos poluído, para os ecochatos, que, iguais ao burgomestre, não vão e odeiam praia. Para os outros, os que gostamos, inclusive ambientalistas que nadam, bebem e curtem a praia e seus atrativos, começam a surgir pontos de resistência. Eles, os crentes-caretas, uma redundância, perdão meus dezoito leitores e meio (tem um baixinho), os simplesmente reacionários, desconhecem o gênio de um ginasta olímpico chamado "o capital". No passarán – 2 Recuar cem, duzentos metros. Foi o que fizeram os donos de barracas (o capital). E alugaram casas e terrenos e estão começando a enfrentar os (as) bíblias que não conseguem acreditar que o mundo se move e é movido pelos que dão emprego, pelos que precisam trabalhar e pelos lucros que desse conúbio são gerados. E assim, agora, começaram a acontecer coisas. No pasarán – 3 As casas famosas, do Farol de Itapuã até a Praia do Flamengo, 10 estão de volta assim, duzentos metros mais longe do mar, mas ainda com caminho direto para a praia. Loro, Papanel, Margarita, Azul Marinho, Goa e muitas outras, todas seguraram o investimento feito antes e agora se defendem do prefeito e o do IPHAN, diz que instituto de preservação da cultura brasileira, mas que nunca mandou um burocrata passar um tarde em Itapuã. Axé, poetinha Vinicius! No pasarán – 4 Melhor seria titular esta nota de "Capitães da Areia". Jorge Amado, que amou, escreveu e defendeu a Bahia, vai rir nos universos onde hoje habita. Pois há os que não tinham dinheiro e na praia ficaram sem morrer. São gerentes, garçons e até amigos de barraqueiros sem muita grana que resolveram encarar a situação. São pequenos postos, aqui e acolá na praia, com um balcão e poucas mesas, alugando garagens duzentos metros mais atrás, só para fazer as comidinhas de antigamente. É um tipo de guerrilha social, detonando pequenos "ditadores árabes" na orla de Salvador. Pode parecer cruel e sofrido para quem conheceu os pontos anteriores e agora volta pensando neles. Mas, para os que ficamos, resistentes e clientes, ainda sobra um certo sabor de guerreira, aventureira galhardia: NO PASARÁN! Fotos: Rodrigo Oliveira Receita do chef Paulo Maurício da Silva Ferreira, do Ilê (para uma pessoa) INGREDIENTES • 150 g de camarões médios • 60 g de kiwi em fatias grandes • 60 g de manga em lascas grandes • 60 g de abacaxi em lascas grandes • 40 g de maça fatias largas • 70 g ou seis morangos médios • 30 g de coco ralado • 50 ml de azeite extra virgem • 150 g de arroz cozido • 30 g de castanha triturada • 10 g manteiga MODO DE PREPARO Em duas frigideiras, introduza 25 ml de azeite extra virgem (em cada uma),esquente-as e coloque os camarões numa delas, até ficarem rosados. Na outra frigideira coloque as frutas separadas, sem deixar que se misturem, e aqueça bastante. Vá virando as frutas para que fiquem coradas e assimilem o sabor do azeite extra virgem. Após esse procedimento, arrume em um prato grande os camarões ao centro e as frutas à sua volta. Salpique coco ralado por cima do camarão e das frutas e o prato estará pronto. Simultaneamente ao preparo dos camarões, coloque em uma panela pequena 10 g de manteiga, a castanha e o arroz. Em seguida, mexa bastante para misturar a manteiga, a castanha e o arroz. Decore com uma flor ou com pimentas variadas e estará pronto para servir. Bom apetite. 11 PÃO & VINHO ALEXANDRE FRANCO pao&[email protected] Capuleto ou Caparzo? É certo tratar-se da família Capuleto, de Verona, mas vendo o filme Cartas para Julieta, recentemente, e ainda bonita Vanessa Redgrave com seu amor perdido, chegamos a desejar que fosse Caparzo, da Toscana. na figura do não tão saudoso Franco nero, que no filme, O assunto deste artigo surgiu, em verdade, numa ao que se entende, ainda que não claramente, é o simples degustação. Em meados do ano passado tive a proprietário da vinícola. Foi o estímulo final para que oportunidade de escrever aqui sobre a viagem que realizei eu escrevesse este artigo. em maio à Itália, na qual passei ao largo de Verona e pude dar um bom passeio pela região da Toscana. Como em todas as minhas viagens ao exterior, fiz questão de comprar alguns dos melhores vinhos que pude encontrar. a Toscana, certamente uma das mais lindas regiões da Itália, de um charme talvez comparável apenas ao da Costa amalfitana e ao de Veneza, produz um dos Todos os vinhos muito bem pontuados, inclusive pelo todo poderoso Robert Parker, e certamente bons, diria até que da categoria excelente, mas apenas um deles na categoria inesquecível. O Biondi-Santi, pela sua importância e fama, será tema de matéria própria no futuro. O Pacenti (importação da Enoteca Fasano), três melhores tipos de vinho daquele país, o Brunello considerado um dos melhores produtores da região, di Montalcino. São muitos os produtores e a qualidade, se mostrou de pronto um concorrente de alto nível. é claro, varia – do bom ao muito bom, ao ótimo, Com forte caráter de madeira, rescindia a carvalho e couro, ao excelente, ao fantástico e ao inesquecível. com corpo de médio a pleno e bastante bom na boca. as inspirações para as escolhas foram diversas, desde Mas o Caparzo (importação da MM Vinhos) a fama popular que me trouxe o Biondi-Santi, passando surpreendeu. Um vinho com personalidade marcante, pelo livro 1001 vinhos para beber antes de morrer, que redondo e sedoso em boca, ao mesmo tempo que me apontou o Siro Pacenti, até a indicação do lojista consegue ser altamente gastronômico. Com frutas local, o Caparzo. Todos da ótima safra de 2004. vermelhas maduras e especiarias ao nariz, seduz o mais Pois bem, há pouco tempo degustei-os e achei que deveria dedicar uma matéria a essa comparação. Qual não foi minha surpresa quando, assustindo ao Cartas para 12 já que o primeiro desfecho é o encontro de uma saudosa cético dos enófilos, e em sua versão Riserva 2004, meu exemplar, obteve nada menos que 93 pontos de Parker. ao final das contas, por mais Capuleto que possa ter Julieta, deparei-me com imagens do vinhedo da Caparzo sido a Julieta de Romeu, sei que seu romance mereceria, – que, aliás, acaba por ter papel fundamental no roteiro, certamente, uma taça de Caparzo para brindá-lo. 13 Jaqueline Machado DIA E NOITE aluavemdaásia cincohorascommário Essa peça de autoria do espanhol Miguel Delibes estará em cartaz no Instituto Cervantes (707/907 Sul) no dia 26, às 20 horas. Tratase de um retrato, às vezes cruel, às vezes bem humorado, do espírito predominante na Espanha do pós-guerra. Para isso, o autor leva para o divã uma alma feminina, desnudada em monólogo íntimo enquanto vela seu marido morto. Na evocação de um passado idealizado, a personagem expressa seu medo de mudança, de modernidade e de liberdade. Os ingressos devem ser retirados na secretaria do instituto nos dias 24 e 25, das 7 às 21h. Instituto Cervantes/Divulgação Esse é o título do romance de Campos Carvalho (1916/1998), um mineiro que produziu poucos livros e é considerado o único escritor surrealista do Brasil. E esse é também o nome do monólogo que fica em cartaz no CCBB entre 11 de março e 3 de abril. Com direção de Moacir Chaves e estrelada por Chico Diaz, A lua vem da Ásia tem como tema principal a loucura. Seu protagonista, Astrogildo, é um homem incomum em busca da compreensão sobre a vida e a morte. Ele conta, em forma de diário, momentos marcantes de sua vida, desafiando, com muita ironia, a lógica do mundo em que vive. Astrogildo inicia o insano relato de sua trajetória confessando que matou seu professor de lógica quando tinha 16 anos e se assume falsário, ladrão, assassino e também vítima da opressão. Sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 20h. Ingressos a R$ 15 e R$ 7,50. menininha lobomau Que criança não gosta de ouvir a história do Chapeuzinho Vermelho? Que dirá, então, assistir à peça infantil que agrada a dez entre dez crianças? Está em cartaz, de 12 de março a 3 de abril, a história de Charles Perrault que tem adaptação da Cia. de Teatro Neia e Nando, desta vez no Espaço Cultural do Brasília Shopping. Em 50 minutos de duração, as aventuras da menina que põe o pé na estrada para levar uns doces para a avó doente e, no caminho, tem seus planos alterados pelo Lobo Mau. Sábados e domingos, em sessões às 15h e às 17h. Ingressos a R$ 30 e R$ 15. 14 Paky “Menininha do meu coração / Eu só quero você / A três palmos do chão / Menininha não cresça mais não / Fique pequenininha na minha canção”. Esses são os versos iniciais da música Valsa para uma menininha, de Vinícius de Morais e Toquinho. Ela serviu de inspiração para o musical infantil Menininha, baseado nas músicas dos discos Arca de Noé 1, Arca de Noé 2, de Vinicius, e Casa de brinquedos, de Toquinho. Dirigido por João Cícero e protagonizado por Laura Castro, o espetáculo tem como proposta levar os pais a viajarem no tempo e voltarem à infância, em companhia de seus filhos. A atriz representa mãe e filha em processo de transformação e divide palco com Marta Nóbrega, que incorpora a boneca de pano bailarina. Interpretadas ao vivo pelo pianista Filipe Bernardo, canções como O pato (Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulo Soledade) e A casa (Vinicius de Moraes) são acompanhadas em coro pela plateia adulta, que ensina aos pequenos letras que já sabem de cor. De 12 de março a 3 de abril, no CCBB. Sessões aos sábados e domingos, às 15 e às 7 horas. Ingressos a R$ 15 e R$ 7,50. Divulgação umásdopianonathomas Divulgação Considerado atualmente o mais importante do mundo, o Concurso Internacional de Música Rainha Elisabeth da Bélgica premia todos os anos jovens pianistas, violinistas, cantores e compositores que passam por seu exigente crivo de qualidade. O vencedor de 2010 foi o pianista russo Denis Kozhukhin, que se apresenta dia 18, às 20 horas, na Casa Thomas Jefferson (706/906). Ele começou seus estudos musicais na Balakirev Music Shool e estudou depois na Escuela Superior de Música Reina Sofia, de Madri, onde prossegue seus estudos em música de câmara. No repertório do concerto que fará em Brasília, peças dos compositores Haydn, Brahms e Liszt. Entrada franca. mulher,mulheres Luiz Doroneto Também a jovem pianista norte-americana Oni Buchanan fará concerto na Thomas Jefferson, dia 25, às 20 horas. Em homenagem ao Mês Internacional da Mulher, ela interpretará músicas de sua autoria e também de cinco compositoras do Século XXI: Missy Mazzoli, Mei-Fang Lin, Annie Gosfield, Joan Tower e Cindy Cox. Ao contrário do pianista russo que se apresenta na semana anterior, de formação inteiramente clássica, Oni é pesquisadora e costuma realizar concertos inovadores com sonoridades bem contemporâneas que já agradaram plateias das principais cidades dos Estados Unidos, Europa e América do Sul. A pianista tem três CDs solo gravados por selos independentes. Entrada franca. orádioeoviolão palhaçomusical Thais Gaillart As histórias do rádio e do violão brasileiro se confundem e se entrelaçam: ambos começaram a ficar conhecidos no Brasil mais ou menos na mesma época, nos anos 20. A música produzida por esse casamento costuma despertar interesse até hoje. Foi assim que nasceu o projeto Acordes do rádio – 90 anos do violão brasileiro, uma série de quatro shows que o CCBB apresenta até 29 de março, com duas apresentações semanais. No dia 15 estarão no palco a cantora Na Ozzetti (foto) e o violonista Henrique Annes. A direção musical, a pesquisa e a curadoria do projeto, que passou com sucesso pelo CCBB do Rio de Janeiro, são do jornalista e produtor Alessandro Soares. Terças-feiras, às 13h (gratuita) e às 21h, esta com ingressos a R$ 15 e R$ 7,50. Às vésperas de completar 20 anos, o grupo paulista Parlapatães chega a Brasília para apresentar Parapapá, seu mais novo espetáculo. Com roteiro de Hugo Possolo, o fundador da trupe, a peça é pontuada por canções da MPB que se inspiram no circo e conta a história de um menino pobre do interior que vê toda a magia da chegada do circo em sua cidade, mas não tem dinheiro para ir ao espetáculo. Ele passa a ver seus brinquedos se transformarem em números circenses. Na hora da partida do circo, a dúvida... Será que o menino seguirá com o circo? Na Caixa Cultural, dias 19 e 20, às 17 horas. Ingressos: R$ 10 e R$ 5. Informações: 3206.9449. 15 Orlando Brito DIA E NOITE ahistóriaemfotos Ulysses Guimarães luzesdofuturo Nascido em Juazeiro do Norte, o artista plástico Mano Alencar morou em várias cidades cearenses, mas foi em Sobral que teve contato inicial com o desenho. Qualquer calçada ou pátio de igreja servia para ele exercitar sua arte, utilizando o material que lhe caísse nas mãos, fosse um pedaço de giz ou de carvão. Quando sua família se mudou para Fortaleza, ele tinha 15 anos e já comercializava seus quadros, inicialmente arte figurativa. Aos 27 anos, optou de vez pelo abstracionismo, pintura que o acompanha há mais de 20 anos e pode ser vista pelos brasilienses no Espaço Cultural Marcantonio Vilaça. Na mostra Luzes do futuro estão 30 telas do artista que teve em Brasília parte da inspiração. Conhecido como ”o poeta das cores”, Mano apresenta também uma série de trabalhos em preto e branco. “Nela o observador, através de sua imaginação, pode ver todas as cores refletidas, uma vez que o branco representa a junção de todas elas e o preto a sua negação”, explica a curadora da exposição, Augusta Alencar. Até 9 de abril, de segunda a sexta-feira, das 10 às 19h, e aos sábados, das 14 às 18h. Entrada franca. artesustentável Divulgação Pranchas de surfe, skates, tecido, madeira, garrafas, tudo serve de inspiração para o trabalho do artista plástico paulista Apo Fousek, que pinta desde os três anos de idade. Em Brasília pela primeira vez, a exposição Apo Fousek – dos 3 aos 100 está montada na Galeria Vitrine da Caixa Cultural até 17 de abril. “Tudo que sobra dos meus trabalhos está sendo por mim mesmo reciclado, reaproveitado e literalmente engarrafado”, revela o artista. “Isso é tão parte do meu mundo que, ao longo de alguns meses de trabalho, coloquei micro-pedaços de material descartado em 15 garrafas. Lá estariam as lembranças criativas de algo que pode fazer parte de um novo momento, de uma nova fase, de um novo artista, amanhã e daqui a 70 anos, quando vou estar com 100”, completa. Diariamente, das 9 às 21h, com entrada franca. obelocaos 16 Objetos decorativos ou utilitários do cotidiano, como plantas, pães e utensílios diversos, fazem parte do processo criativo do artista dinamarquês Søren Dahlgaard, que faz sua primeira mostra individual no Brasil. A beleza do caos: pintura expandida está em cartaz no Espaço ECCO até 1º de maio. Resultado de parceria com a Casa da Cultura da América Latina da UnB, e contando com o apoio da Embaixada da Dinamarca, a exposição tem curadoria de Karla Osório, que explica: “O trabalho de Søren desafia a narrativa pictórica tradicional e tem conceito fortemente ligado à arte performática japonesa do pós-guerra e ao movimento da vanguarda de Nova York da década de 60, bem como o Land Art dos anos 70”. Entrada franca. Informações: 3327.2027. Nelson Aguilar Divulgação Nomes consagrados como Bob Wolfenson, Cristiano Mascaro, Orlando Brito, Pedro Martinelli, Claudia Andujar, J.R.Duran, Maureen Bisilliat e David Zingg terão seus trabalhos expostos na segunda edição da mostra Fotografia em revista. Entre 17 de março e 24 de abril, os brasilienses que forem ao Museu da República poderão rever momentos importantes da história do Brasil e do mundo a partir de 1954. Com curadoria do diretor da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP, Rubens Fernandes Junior, do vice-presidente do Conselho Editorial da Abril, Thomaz Souto Corrêa, e do diretor de arte corporativo do Grupo Abril, Carlos Grassett, a exposição apresenta 500 imagens registradas por cerca de 162 fotógrafos. Dessas, 263 foram reproduzidas em grande formato e centenas de outras serão projetadas ininterruptamente. De terça a domingo, das 9 às 18h30, com entrada franca. Divulgação cinematranscendental As mães de Chico Xavier, de Glauber Filho e Halder Gomes, é um dos filmes a serem exibidos durante o 1º Festival de Cinema Transcendental que acontece entre 24 e 27 de março na Sala Martins Pena do Teatro Nacional. Organizado pela Ong Estação da Luz – co-produtora e produtora dos filmes Chico Xavier e Bezerra de Menezes: o diário de um espírito, respectivamente – o festival pretende promover filmes e vídeos que remetem à espiritualidade, aos fatos que a ciência não pode explicar e à busca da religiosidade em cada um. Curtas de até 25 minutos de duração estarão concorrendo ao Troféu Luz. Ingresso para o festival: 2kg de alimento não perecível. Informações: www.cinematranscendental.com.br. Divulgação elasemcena Joana, a louca, filme de Vicente Aranda, é uma das atrações do ciclo de cinema que o Instituto Cervantes (707/907 Sul) apresenta em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Produzido em 2001, conta a história da filha dos reis católicos Dom Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que parte da Espanha para se encontrar com Felipe, o Belo, na região de Flandres, norte da Bélgica. O que era para ser um casamento de conveniência política se transforma numa louca paixão. Dia 11, sexta-feira, às 20h, com entrada franca. Estão também na programação os filmes La dama boba, de Manuel Iborra, baseado na obra de Lope de Veja (dia 10), e Yerma Pilar Távora (dia 12), baseada na obra homônima de Federico García Lorca. O cartunista argentino Ricardo Liniers estará em Brasília nos dias 29 e 30 para comandar uma oficina de quadrinhos no Instituto Cervantes (707/907 Sul). Pai da tira Macanudo, que publica no jornal La Nación desde 2002, ele tem sete livros publicados e suas histórias aparecem semanalmente no jornal Folha de S. Paulo. Quem quiser aprender os segredos dos quadrinhos pode se inscrever até o dia 25 na secretaria do instituto. Inscrição: R$ 150. festivaldecinema1 Estão abertas, até 15 de maio, as inscrições para o Paulínia Festival de Cinema 2011, que será realizado de 7 a 14 de julho naquela cidade paulista. O melhor filme receberá um prêmio de R$ 250 mil e o melhor documentário R$ 100 mil. Para participar da seleção, o filme deve ser brasileiro, inédito no circuito comercial e não ter recebido prêmio de melhor filme em nenhum festival nacional. Além disso, precisa ter duração mínima de 70 minutos (longas) ou de15 minutos (curtas). Informações: www.culturapaulinia.com.br. vivaasmulheres Está de volta o Sextas culturais, projeto que movimenta as sextas-feiras do Terraço Shopping, desta vez homenageando as mulheres em seu mês internacional. As cantoras Márcia Tauil e Célia Rabelo se alternam no palco com seus shows Festival muitas Marias e Feminina mulher, respectivamente. No repertório da primeira, muito samba e canções dedicadas às mulheres. No show de Célia, canções de compositores que mostraram a vida e o dia a dia da mulher brasileira. Sempre às 19h30, na Praça das Palmeiras do Terraço Shopping. Entrada franca. Adalberto Carvalho Pinto macanudoembrasília festivaldecinema2 Vem aí, nos dias 6, 7 e 8 de maio, a quarta edição do Festival Internacional de Filmes Curtíssimos. Realizado simultaneamente em 100 cidades de 20 países, deve selecionar filmes com, no máximo, três minutos de duração, fora o título e os créditos. As inscrições podem ser feitas gratuitamente, valendo qualquer gênero de produção amadora ou profissional. Inscrição no site www.filmescurtissimos.com.br 17 graveS & aguDoS Tarja Turunen Shakira Ziggy Marley Pra todas as tribos Por heiTor meNeZeS A 18 forismo atribuído a Nietzsche afirma que a música é a arte da noite e da penumbra. Realmente, diminuído o burburinho do dia, parece que o ouvido fica mais aguçado depois que o sol vai embora. Deve ser porque esse turno, vencida a labuta, talvez seja o momento mais propício para se entregar ao relax que a boa música proporciona. Na verdade, Nietzsche não tinha as gravações e nem mp3 player que pudesse conectá-lo ao mundo sensual da música, do jeito que se faz hoje. Problema dele. Nós, os contemporâneos, com a ajuda da tecnologia, temos a música em abundância, a qualquer hora, em qualquer lugar. Fácil, mas nada se compara ao prazer da música ao vivo. Neste mês de março, Brasília volta a receber uma leva de atrações musicais internacionais, dessas que realmente justificam sair de casa. O problema, sempre ele, é ter dinheiro para satisfa- zer ouvidos e olhos, corações e mentes. A ajuda você na escolha dos programas, com dicas gerais sobre as atrações. É bom escolher bem, pois a aventura continua em abril. Tem Ozzy Osbourne (com Sepultura tocando na abertura) e Motörhead, do figuraça Lemmy Killmister. Detalhes no mês que vem. Tarja Turunen Quem: A ex-vocalista da banda finlandesa Nightwish, verdadeira rainha gótica, mesmo tendo saido da banda, mantém séquito fiel e crescente de admiradores do que se conhece como metal-sinfônico. A banda que a acompanha é de primeira. Haverá desfile de cabelos espetados, olheiras falsas, muita roupa preta e acessórios que fazem a festa dos metaleiros, góticos e gente que gosta de sair por aí fantasiada. Onde: Gardenhall (ao lado do Bay Park), na Vila Planalto. Quando: 15/3 (terça-feira), às 21h. Serviço: Ingressos nas lojas Chilli Beans e no site www.bilheteriadigital.com.br. Pop Music Festival 2011 Quem: Fatboy Slim, Ziggy Marley, Train e Chimarruts esquentam a plateia ansiosa pela primeira passagem da colombiana Shakira por Brasília. Dois problemas: 1) o local, ridículo, que evidencia a falta de espaços apropriados em Brasília; 2) se esbaldar numa quinta-feira, pois com tantas atrações a diversão deve entrar pela madrugada. Fatboy e Ziggy Marley já estiveram por aqui e são diversão garantida. A banda Train, de São Francisco (California, EUA) pode roubar as atenções, mas é Shakira, com a cintura mais cobiçada do mundo e repertório para horas e horas de entretenimento, a grande estrela do evento. O mesmo festival acontece no dia 15, em Porto Alegre, e no dia 17, em São Paulo. Onde: estacionamento do Estádio Mané Garrincha (Eixo Monumental). Quando: 17/3 (quinta-feira), a partir das 19h. Serviço: http://popmusicfestival.com.br. Fotos: Divulgação Berry Fatboy Slim Da rainha gótica Tarja Turunen à legendária donzela de ferro, Brasília recebe em março uma leva de atrações internacionais Berry Quem: Berry é o pseudônimo da cantora francesa Elise Pottier. Seu estilo remete a um jeito muito delicado de cantar e encantar, como já fizeram em outras épocas as inesquecíveis Françoise Hardy, Julie London e Blossom Dearie, e mais recentemente Madeleine Peyroux e Stacey Kent. Pela primeira vez em Brasília, Berry apresenta-se em dose dupla: no mini-palco da FNAC, em pocket-show, e no Teatro da Caixa, no contexto da Semana da Francofonia. Onde: FNAC (Parkshopping) e Teatro da Caixa. Quando: 21/3 (segunda-feira), às 19h30 (FNAC), e 22/3, às 20h (Teatro da Caixa). Serviço: http://casadeberry.artistes.universalmusic.fr/ Seal Quem: Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel, ou simplesmente Seal, é estrela de primeira grandeza no firma- mento da música popular mundial. Pela primeira vez em Brasília, o cantor de 48 anos, filho de nigerianos e neto de brasileiro, vem divulgar seu mais recente disco, , lançado em 2010. As músicas mais recentes certamente não causarão estranheza, pois o estilo e a voz, inconfundíveis, têm grande poder de sedução. , , (da trilha do filme ) e o repertório de covers do álbum (2008) prometem petrificar a platéia ou provocar deleite que as palavras jamais conseguirão descrever. Onde: Ginásio Nilson Nelson (Eixo Monumental). Quando: 23/4 (quarta-feira), às 21h30. Seviço: Ingressos nas lojas Free Corner e na Central de Ingressos do Brasília Shopping. te Bruce Dickinson e os antigos heróis do que se chamou um dia “a nova onda do britânico”. O Iron Maiden traz a Brasília , que, muito apropriadamente, traz como carro-chefe as músicas do mais recente CD de estúdio da banda, . Óbvio, não faltarão a chuva de pedras do longo repertório do velho Iron e nem o mascote Eddie – que, aliás, se exibe todo decrépito em outdoors espalhados pela cidade. O bombardeio promete ter , , , , , e outras bombas do mais puro e legítimo . Programa para levar protetores auriculares e a família – pois os tempos mudaram. Onde: Estacionamento do Estádio Mané Garrincha (Eixo Monumental). Quando: 30/3 (quarta-feira), às 21h. Serviço: http://www.livepass.com.br. Iron Maiden Quem: Parece incrível, mas raio cai duas vezes no mesmo lugar. No caso, a segunda vinda do Iron Maiden a Brasília (a pri- meira, em 2009, entrou para a história). Ótima chance de ver (ou rever) o coman- dan- 19 galeria DE arTe Brasiliando-se... Por aNa criSTiNa vilela foToS roDrigo oliveira E 20 stranhamento, sim, é o que Brasília causa em quem a vê pela primeira vez, em quem faz as malas e vem de Minas, de Santa Catarina, do Tocantins, de Pernambuco. Os lugares comuns ao falar da cidade são inúmeros, às vezes incomodam, levantam discussões, mas a maioria deles é real – ao menos para quem chega. Porque é real o choque causado ao sair de onde as ruas são repletas de gente, onde cada esquina se difere de outra, onde o burburinho de feiras, o colorido, a vida ganham calçadas, praças, espaços vazios... e chegar a esta Brasília concretada de sonho e de visão. Foi assim com o artista plástico Rinaldo Silva, há três anos (des) encantado por aqui, vindo de sua Recife pictórica e de tantas gentes. Depois do embate entre duas imagens antagônicas, embate que pode ser duradouro, seguem-se o ver e o viver a capital de fato, respirar Brasília, digerir o urbano, pintar o concreto. De tal forma fez o artista, e dessa experimentação nasceu a exposição Brasília, eu vi porque fui pra lá, em cartaz na galeria Objeto Encontrado, na 102 Norte. São dez obras em óleo sobre tela em que Rinaldo descobre e tenta compreender a capital, em que retira a linearidade de suas linhas, empregando-lhes or- ganicidade por meio de pinceladas livres. “Tenho interesse em me adaptar à cidade, em me moldar”, diz o artista, pintor de figuras humanas, mas que, em raro momento, criou telas desabitadas para retratar “o meu vazio em relação à cidade” – e, consequentemente, capturar o vazio humano (onde mora um dos lugares comuns de todos nós, estrangeiros). “A cidade ainda é muito árida, demora ainda a virar cidade, aqui a coisa está acontecendo, enquanto Recife tem quase 400 anos”, analisa. Pode parecer estranho quem veio do agreste, nascido em Toritama, falar em aridez de Brasília, mas tudo se encaixa diante da imagem de Rinaldo na Feira de Caruaru, aonde ia frequentemente e onde “vivenciou muito a estética nordestina”. Na feira, nasceu uma de suas principais características como artista plástico: pintar seu “objeto poético, a figura humana”. Viver e ver Brasília, sentir, cheirar, ouvir, recriar não são tarefas fáceis, e somente as cumpre quem realmente se abre, quer, deseja, imagina. Assim, se o humano ficou de fora das telas brasilienses de Rinaldo, a cor as invadiu. Além da não linearidade das linhas, o concreto ganhou vermelho, azul, amarelo, laranja. A obra Anexo IV (da Câmara dos Deputados) é a única que traz uma face, a da mulher do artista, motivo de um dia as malas terem sido feitas. “Ela é assessora parlamentar e foi transferida”, conta. Hoje, com 30 anos de arte (apesar de ter começado a desenhar na adolescência) e 50 de vida, depois de ter se formado em Geografia (profissão nunca exercida) e, em seguida, em Arte, Rinaldo precisou reinventar sua obra, e recriar-se, para expressar o que a capital lhe provoca, lhe causa, lhe traz. Além do abandono temporário do humano, mudou a técnica. Depois de sempre ter trabalhado com tinta acrílica, usou tinta a óleo. Esse jogo de descobertas e de contraposições pode ser visto nas imagens do Buraco do Tatu, do Palácio da Alvorada, do jogo da marquise com a sombra no Museu da República, da Igrejinha. Tudo pintado sob a luz do meio-dia. Porém, “na tela, a luz é a do fim do dia”, esclarece o artista, que, aos poucos, se apropria da cidade: “Começo a me sentir bem, Brasília já faz parte do meu DNA, começo a criar empatia, se vou para Recife penso em Brasília; se estou aqui, penso em Recife”. E, assim, Rinaldo vai deixando suas digitais pela capital do país, impregnando as digitais da cidade em sua história e em sua arte... brasília, eu vi porque fui pra lá até 22/3, na galeria objeto encontrado (102 Norte, bloco b, loja 56, tel. 3326.3504). De 2ª a 6ª feira, das 10h às 19h; sábados, até as 18h. A beleza do cerrado Por maria TereSa ferNaNDeS Q uando era pequena, a artista plástica Cristina Ferrari aprendeu na escola que o cerrado era uma vegetação feia, cheia de árvores tortas e pequenas. Mas não era bem isso o que a menina via em suas caminhadas por Sorocaba, cidade onde nasceu e também uma região de cerrado paulista. Conduzida por seu pai, que chamou a atenção para as texturas daquelas árvores pequenas, ela aprendeu a observar os galhos retorcidos e as orquídeas que neles se instalavam. Anos depois, mudou-se para Rio Verde, em Goiás, e em sua primeira caminhada para explorar as redondezas desco- briu que, no meio de um capim todo seco, flores roxas e amarelas surgiam num universo que parecia morto. Para ela, foi como se tivesse visto plantas surgindo da neve, tal o encantamento que a imagem lhe provocou. Pois essa paixão pela beleza do cerrado brasileiro continua até hoje acompanhando e inspirando o trabalho da artista plástica que mora em Goiânia e vem a Brasília pela primeira vez mostrar seu trabalho, na Casa Thomas Jefferson (706/906 Sul), a partir do dia 25. Ouvida pela Roteiro no fim de fevereiro, Cristina explicou que o título da exposição, Viagens, tem a ver com sua paixão por observar e fotografar nas estradas por onde passa: “É uma paisagem que liga, que une, que distancia, uma novidade e também um momento de solidão e autoconhecimento”. Tem a ver, ainda, com sua maneira de composição artística, que nos remete a um passado das aquarelas brasileiras e da vinda dos primeiros artistas ao Brasil. “Acho mágico esse olhar do viajante que chega a um lugar desconhecido; é esse olhar que eu sempre procurei ter ao registrar os lugares pelos quais passei”, explica. De acordo com Antonio da Mata, curador da mostra, Cristina tem o domínio e a segurança de quem aprendeu a fazer aquarelas que parecem fotografar suas representações com superfícies aveludadas. A impressão que se tem, explica, “é que ela é, antes de tudo, uma paisagista”. Tendo como tema o cerrado brasileiro, a arte de Cristina, segundo o curador, é também documental, com paisagens de florestas virgens incrementadas com sutilezas de cercas ou trechos de estradas para reforçar a presença do homem naqueles locais. Entre os mais de 30 trabalhos da artista que estarão expostos até 16 de abril há aquarelas da região dos Pireneus, de Pirenópolis, Goiânia, do caminho de Caldas Novas e até da estrada que liga Brasília a Goiânia. É percorrer a galeria da Thomas Jefferson e se deixar levar pelas viagens de cores e formas retorcidas das aquarelas da artista que já prometeu retratar em breve o cerrado de Brasília. viagens De 25/3 a 16/4, na galeria de arte da casa Thomas Jefferson (706/906 Sul, conjunto b). De 2ª a 6ª feira, das 9 às 21h; sábados, das 9 às 12h. entrada franca. mais informações: 3442.5501 e www.thomas.org.br. Fotos: Divulgação Ipês roxos, amarelos, galhos ressequidos e capim seco são inspiração para Cristina Ferrari, próxima artista a ocupar a galeria da Casa Thomas Jefferson 21 diário de viagem 100 anos de Machu Picchu Peru celebra centenário de redescobrimento da cidade símbolo do Império Inca, que ficou quatro séculos adormecida no meio da selva 22 Por Rafael Imolene Fotos Sergio Alberto O Peru está em festa. De Arequipa a Iquitos, não se fala em outra coisa. O assunto nacional é o centenário de redescobrimento de Machu Picchu. Ou MaPi, para os íntimos. O país prepara uma série de comemorações para atrair visitantes, reafirmar a identidade nacional e mostrar ao mundo a riqueza da civilização inca, que dominou a região antes da chegada de conquistadores espanhóis, no século 15. Em julho de 1911, o historiador norteamericano Hiram Bingham localizou a cidade sagrada que os invasores europeus procuraram em vão quatro séculos antes, na Amazônia peruana, no topo de uma cordilheira. Isolada do contato com o Ocidente, a cidade se manteve intacta, livre de saqueadores, aventureiros e caçadores de relíquias. Como no início do Século XX a aviação era incipiente, ninguém havia sobrevoado a região. Mesmo os balonistas daqueles tempos não conseguiram localizar a cidadela. Para comparar, se Brasília quase foi coberta pelo matagal durante um mês de greve da Terracap, tente imaginar como a vegetação tomou conta de Machu Picchu por 400 anos. A cidade estava coberta pela floresta, e levou anos até ser completamente desvendada. Assim, Bingham encontrou em perfeito estado, há 100 anos, o mais impressionante conjunto arquitetônico précolombiano da América do Sul. Reforço no turismo O Peru batizou 2011 de “Ano do Centenário de Machu Picchu para o Mundo”. Frise-se “centenário para o mundo”, já que para os peruanos a cidade existe há quase seis séculos, fundada pela civilização inca. Erguida em um penhasco a 2.400 metros de altitude, MaPi impressiona pela imponência, beleza e mistérios. Mistério sobre a montanha Se, por um lado, os incas eram arquitetos à frente do seu tempo e engenheiros de mão cheia, por outro desenvolveram uma escrita apenas rudimentar. A inabilidade com a comunicação escrita resultou em aspectos tanto negativos como positivos. A parte ruim é que são raros os registros feitos à época pelos próprios nativos. O lado bom é que a falta desses registros preservou a cidade do ataque de espanhóis, que não a localizaram. Até hoje historiadores debatem sobre qual teria sido a função de Machu Picchu dentro do império inca, cujo governo central ficava em Cusco, a aproximadamente 150 km de distância. Há décadas arqueólogos se referem ao local como a “cidade sagrada”, que teria sido habitada principalmente por religiosos. Mais recentemente, estudiosos defendem que o complexo arqueológico mais famoso dos Andes era, na realidade, uma cidade universitária, com apenas 300 moradores, a nata da intelectualidade inca. Um dos indícios é o observatório astronômico encontrado na parte alta da cidade. Outros historiadores creem, ainda, que se tratava de uma fortaleza, utilizada para treinamentos militares. Mistérios que ainda poderão ser descobertos, mas nada diminui o encanto e a beleza desse Patrimônio Cultural da Humanidade que tanto orgulha os peruanos. 23 diário de viagem Exposição em Brasília O fotojornalista Sergio Alberto, autor das imagens que ilustram esta reportagem, prepara uma exposição para homenagear os 100 anos da redescoberta de Machu Picchu. A exposição está programada para começar em maio e deverá percorrer diferentes salas da cidade. Sérgio Alberto usou equipamentos que possibilitaram captar imagens inéditas em 360º, tanto de Machu Picchu como de outros pontos turísticos do Peru, em Cusco e Lima. “A intenção é provocar no público algumas emoções que sentimos ao vivo nesses lugares”, afirma o fotojornalista. “E, claro, incentivar que as pessoas viajem ao Peru para conferir Machu Picchu de perto.” Todos os turistas, desde os iniciantes até os mais experientes, ficam de queixo caído quando vislumbram a cidade feita de rochas, cercada de montanhas e de um verde natural vibrante. O local é o mais famoso ponto turístico do país, quiçá de todas as nações andinas. O governo peruano tira proveito da data para tentar atingir a marca de 3 milhões de turistas em 2011, ou 11% a mais do que em 2010, quando 2,7 milhões de visitantes estrangeiros desembarcaram no país. Para os brasilienses, que desde 2010 contam com voos diretos para Lima, Macchu Picchu nunca esteve tão perto. A maioria dos roteiros de viagens oferecidos pelas operadoras brasileiras inclui 24 Macchu Picchu. Em território peruano, é possível chegar a Macchu Picchu de trem pela Inca Rail, a partir de Urubamba, cidade a 75 km de Cusco. São quase duas horas na ferrovia até Aguas Calientes, povoado nos pés da montanha da cidade sagrada. Outra opção é percorrer o trecho a pé. São três ou quatro días de caminhada guiada em trilhas, com paisagens deslumbrantes, desde a vegetação inóspita dos Andes até o começo da Floresta Amazônica. Os hotéis em Águas Calientes e Machu Picchu estão cada vez mais confortáveis, e contam com staff atencioso e restaurantes sofisticados. 25 cultura popular Instrumento de inclusão Mais do que percussão corporal, Projeto Batucadeiros ensina crianças e jovens do Recanto das Emas a se tornarem cidadãos Por Vicente Sá Fotos Rodrigo Oliveira A ave que lhe dá o nome já há muito não é vista por aqui. O Recanto da Emas cresceu e hoje tem quase 160 mil habitantes, em sua maioria de jovens com menos de 25 anos de idade. A poeira e a precária infraestrutura convivem com um comércio diversificado. Os problemas comuns às populações de baixa renda, como violência e drogas, aqui têm um peso um pouco menor, embora faltem lazer, áreas para a prática de espor- 26 tes, espaços e projetos culturais. O Recanto não possui nem cinema. Muito menos teatro. Pequenos parques mambembes são, vez ou outra, a diversão diferente da TV ou das rodas de conversa. Muito pouco ou quase nada para uma juventude com tanta sede de tudo. Foi lá que, há dez anos, teve início um projeto de inclusão social que hoje chama a atenção não só do Distrito Federal, mas de todo o Brasil: o Projeto Batucadeiros, do Instituto Batucar, que no ano passado recebeu o troféu de ouro do Prêmio ANU/2010 da Central Única das Favelas (CUFA), cujo objetivo é informar a sociedade sobre projetos socioculturais que impactam positivamente comunidades populares. Buscando desenvolver a expressão artística de crianças e adolescentes em estado de risco, o Projeto Batucadeiros trabalha com a arte como instrumento de inclusão dos adolescentes e das crianças do Recanto das Emas. Em um pequeno espaço cedido por uma igreja presbiteriana, os alunos do projeto aprendem percussão corpo- ral, têm aulas de violão e canto com monitores formados no próprio grupo. Os exalunos/professores são oriundos da comunidade e ainda dão aulas de reforço escolar às crianças. Como resultado, os índices de evasão escolar e reprovação caíram para menos de 7%, diminuiram as brigas domésticas e houve um despertar para os assuntos ligados à arte e à cultura. Os 210 meninos atendidos pelo projeto adoram e as famílias agradecem. “Eu passo a manhã aqui aprendendo música e brincando, almoço em casa e vou para a escola. É tão legal que eu já trouxe duas amigas para cá”, conta Yasmim, de 13 anos, que há cinco participa das aulas e é uma das mais animadas da turma. Pedro, de nove anos, está lá há apenas três meses, mas não quer mais sair e diz que o que curte mesmo são as aulas de funk. Em uma comunidade onde chegar à faculdade ou conseguir uma graduação de nível superior é um sonho que poucos conseguem realizar, o Instituto Batucar aprendeu a investir em sua gente e formar sua própria mão de obra através de bolsas de estudos que fornece aos alunos. Depois de dez anos, 15 jovens já conseguiram formação superior e alguns continuam trabalhando com o instituto. É o caso de Alceu Avelar, que desde os 16 anos participava das aulas, formou-se em administração com o apoio do instituto e hoje trabalha na área burocrática e também como instrutor de percussão corporal. “É muito gratificante. È como estar me vendo menino, no início, e também servir de exemplo. Além de saber que estamos fazendo um trabalho de profundo valor social”, declara. O homem que começou esse trabalho há dez anos e continua até hoje à frente do grupo, sempre buscando novos caminhos e parceiros, é Ricardo Amorim, músico candango formado na UnB e com apego às idéias humanistas. “Atualmente, nossa grande luta é para conseguir um espaço onde possamos aumentar nossa capacidade de trabalho, atender mais jovens e conseguir manter a sustentabilidade do instituto”, explica Ricardo. Essa sustentabilidade depende dos apoios e parcerias que ele consegue em empresas ou desenvolvendo projetos junto ao governo. Mas enquanto os apoios não chegam e os projetos não saem do pa- pel, o instituto vende camisetas e vídeos de suas apresentações para se manter. Lutando ao lado da comunidade e recebendo diariamente, como maior prêmio, o respeito dos moradores do Recanto das Emas. Projeto Batucadeiros www.institutobatucar.org.br Informações: 8419.9674 / 8419.9675 27 verSo & ProSa Estado de espírito de pássaro Pela primeira vez em livro, a poesia do publicitário Marcelo Benini. Por alexaNDre mariNo A 28 poesia é a linguagem da revelação. Bastam alguns versos dispostos numa página para que um sentido oculto seja desperto pela disposição das palavras. Ao lançar mão de imagens às vezes delirantes, ou de metáforas, o poeta rompe a lógica do texto e convida o leitor a experimentar um outro código. Na poesia, as palavras libertam-se da precisão dos verbetes dos dicionários e voam, subvertendo o significado. O publicitário Marcelo Benini, em seu primeiro livro de poemas, O capim sobre o coleiro, faz esse jogo entre imagem e significado. Ele propõe uma aparente simplicidade, com lirismo e concisão, mas o universo abordado por seus versos se apresenta ao leitor em outro grau de complexidade. O que se conclui é que sua poesia leva o leitor a atingir um estado de espírito de pássaro, e assim voar com as palavras, estabelecendo uma cumplicidade semelhante à do menino que apresenta ao amigo os segredos do quintal. Benini vive em Brasília desde criança, mas traz consigo a essência do mundo em que nasceu, e permaneceu naquele pedaço de infância que jamais se perde. Sua linguagem poética não trai suas origens. Nascido em Cataguases, Zona da Mata de Minas Gerais, ele garante ter se mantido em permanente atividade literária, ainda que tenha lançado o primeiro livro aos 40 anos. É bom lembrar que Cataguases é uma das cidades de mais forte tradição cultural e literária de Minas, onde surgiram movimentos literários importantes e nasceram escritores de nome nacional, como Rosário Fusco e Luiz Ruffato. Benini, fiel a sua proposta de apresentar ao leitor “aquilo que realmente interes- sa ser dito”, evitando distraí-lo da ideia síntese, faz uma poesia concisa, às vezes reduzida a uma simples frase, ou verso, com achados interessantes. “Onde o tempo encarde a alma alveja”, diz um desses versos, levando o leitor a parar e pensar nas possibilidades ocultas desse simples arranjo de palavras. Os pássaros são personagens de muitos dos poemas de Benini, talvez porque “quem tem olho de passarinho / está a um passo de voar”, como ele revela à página 21. O poeta faz desses bichos, a partir de sua leveza e delicadeza, uma alegoria para diversas reflexões sobre a vida, nem sempre desprovida de peso. “Restos de mim no capim / coleiros, almas, desavim / pedaços de sanhaço no mamão / amor mais doído que perda / dor de alçapão / ai de mim / quão precárias são as valentias.” É interessante observar que, embora pássaros sejam uma boa fonte de inspiração para inúmeros poetas, Marcelo Benini às vezes revela forte influência de Manoel de Barros, o poeta que transformou o mundo das pequenas coisas da natureza em fonte de poesia de primeira grandeza. Essa influência se torna evidente em versos como “Coisa que tem desafio é ver um buraco piscar” ou “Procurar o impossível / é procurar a ausência / de brejo nos sapos.” Mas, liberto de excessos incômodos, Marcelo Benini também faz reflexões interessantes, como nesta visão poética do lixo: “Um maço de hollywood / repousando na chuva / uma tampinha de crush / mais ainda um abio caído / ou uma tia solteira / fascinam-me os escombros da civilização.” o capim sobre o coleiro marcelo benini edição do autor, 116 páginas, r$ 20. À venda nas lojas da livraria cultura (casa Park e iguatemi) e na livraria café com letras (203 Sul). ESTAMOS DANDO UM SHOW de qualidade atendimento personalizado prazos de entrega profissionalismo parceria É a nossa missão ... COMO UMA ORQUESTRA. 26 Fotos: divulgaçã o carTa Da euroPa A Dama de Ferro Por Silio boccaNera, De loNDreS C orreu mundo semanas atrás uma foto da atriz americana Meryl Streep incorporada como a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, no filme A Dama de Ferro, ainda em produção. A direção é de Phyllida Lloyd, que comandou Streep na versão cinematográfica de Mamma mia, o musical açucarado e grande sucesso de público baseado nas canções do conjunto sueco Abba. O que mais chama a atenção na foto de Streep é seu aspecto sedutor, olhos brilhantes, pele sem rugas, lábios entreaber- 30 tos. Em parte, aparece assim porque a atriz é mesmo bela e atraente, mas percebe-se que a direção do filme optou por não usar maquiagem que refletisse o lado mais duro e antipático de Thatcher, alguém que tratava com brutalidade até seus ministros (para nem falar dos desempregados e grevistas) e ganhou o apelido Dama de Ferro dos soviéticos que com ela negociaram. Deduz-se que o filme pretende mostrar um lado de Thatcher mais pessoal, talvez até mais sensual, o que muitos consideram impossível e poucos enxergam nela. Uma das exceções foi o ex-presiden- te francês François Mitterand, que a confrontou em negociações duras, mas que também observou “olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe”. Marilyn? Se ainda fosse Lucrécia Borges... Que esforço de imaginação da velha raposa política francesa, ele mesmo um sedutor de damas fora de seu casamento. Sabe-se pouco do filme ainda em gravação, mas os produtores já esclareceram que vão lidar apenas com um período limitado da carreira dela, pouco antes da Guerra das Falklands (ou Malvinas, como preferem os argentinos, que invadiram as ilhas em 1982). Era um período em que ela sofria de grande impopularidade, resultado sobretudo do arrocho econômico que instituiu quando chegou ao poder, em 1979, semelhante ao que seus sucessores no poder hoje acabam de adotar. Fábricas fechando, desemprego, protestos nas ruas, o clima anti-Thatcher era tamanho que as pesquisas de opinião previam derrota de seu Partido Conservador nas eleições de 1983. Ajuda providencial Aí entra a ditadura militar argentina e dá a Thatcher um presente dos céus. Invade as ilhas próximas a seu território, foco de disputa centenária sobre soberania com os britânicos. Os generais de extrema direita em Buenos Aires estavam convencidos (e assim comprovam seus depoimentos posteriores) de que a primeiraministra, acuada e impopular, não ousaria uma ação militar tão distante. Afinal, os tempos de império britânico e domínio dos mares já tinham se acabado. Até o navio da Royal Navy que patrulhava a área tinha sido retirado, por economia. Um fator extra de autoconfiança que os generais não admitem de público, mas alguns analistas argentinos constataram, era o fato de que lidavam com uma mulher. O machismo daqueles generais e almirantes torturadores de militantes grávidas não concebia firmeza por parte de uma senhora formada em Química na Universidade de Oxford, filha de um comerciante de classe média baixa, criada politicamente dentro de um partido defensor de tradição. Erraram grosseiramente na análise política (uma reação britânica firme era a melhor opção para ganhar apoio popular) e mais ainda na avaliação pessoal daquela mãe de gêmeos, casada com um milionário aposentado, líder do Partido Conservador desde 1975. Se algum traço de seu comportamento aparecia às claras era a determinação e a firmeza, nem que fosse para fazer maldades. Pois a Dama de Ferro despa- chou uma frota a milhares de quilômetros de distância, confrontou tropas argentinas mal-supridas e mal-treinadas (a não ser pela Força Aérea), venceu a guerra ao lado da Argentina e retomou a ilhas, que até hoje permanecem sob controle britânico. Pior ainda – e aí vai mais uma avaliação política equivocada dos generais em Buenos Aires – é que havia espaço naquela época para uma negociação diplomática lenta, mas numa direção conveniente, que acabasse levando a algum acordo sobre a soberania das ilhas. Um ex-império que tinha largado o domínio colonial de Índia e Paquistão, além do controle de diversos países africanos, da Nigéria ao Quênia, não teria motivos instransponíveis para negociar soberania sobre aquelas ilhotas distantes, mais habitadas por carneiros e pinguins do que por gente. O obstáculo eram os moradores, sempre fiéis a Londres. Tinham de ser levados em conta, convencidos aos poucos. Ao contrário das ex-colônias asiáticas e africanas, não havia nas Falklands/Malvinas (e não há até hoje) movimento nativo próindependência ou pró-ligação com a Argentina. Os habitantes se consideram cidadãos britânicos, descendentes de compatriotas que descobriram aquelas terras no Século XVIII e ali se estabeleceram, sem que nunca tivesse havido domínio argentino. Buenos Aires contesta. Popularidade em alta Diante dos gastos de manutenção de um solo tão distante, o governo de Sua Majestade poderia usar sua longa experiência diplomática e acabar persuadindo os locais a ceder algum tipo de controle aos argentinos. Depois da guerra, no entanto, essa opção se tornou impossível –pelo menos num futuro previsível, pouco importa o partido político no governo em Londres. Graças aos erros de avaliação dos generais argentinos, Thatcher viu sua popularidade disparar no Reino Unido (é sem- pre assim quando um comandante em chefe ganha uma guerra) e, menos de um ano depois, ela e seu partido tiveram uma vitória avassaladora nas eleições gerais que renovaram o Parlamento. Ela mesma deixaria o governo sete anos depois, mas os conservadores permaneceram no poder durante 18 anos e só seriam derrotados por Tony Blair, em 1997. Para mostrar Thatcher no período imediato antes do conflito no Atlântico Sul, o filme vai exigir de Meryl Streep todo o seu farto talento como atriz, para que as sutilezas não se percam e a personagem não vire uma caricatura. O público, sobretudo no Reino Unido, será impiedoso no julgamento do que será mostrado na tela. Até hoje, as opiniões no país se dividem furiosamente sobre o que ela representou, sobretudo para as gerações que a conheceram no poder. Não há data prevista para o lançamento do filme, mas se os produtores se apressarem poderão pegar a verdadeira Dama de Ferro ainda viva, embora doente. Ela raramente aparece em público, depois de ter sofrido vários derrames que a deixaram quase sem fala, com dificuldade de se movimentar e, segundo os mais próximos, sofrendo falhas de memória. Seu marido Dennis morreu, o filho Mark vive recluso desde que escapou por pouco da cadeia na África do Sul, por envolvimento num golpe de estado fracassado na Guiné Equatorial, a filha Carol ocasionalmente desponta na mídia como celebridade nível D (a última, num reality show) e Thatcher se limita a observar à distância o que dizem, escrevem e produzem sobre ela – de filmes a peças de teatro, documentários e livros. Um desses livros é Thatcher’s britain (O cérebro de Thatcher), em que Richard Vinen, professor de História no King’s College, de Londres, examina o impacto político e social que ela deixou no Reino Unido e, de certa forma, no resto do mundo, porque o thatcherismo foi copiado em vários países. 31 luZ CÂMERa aÇÃo A última fuga, de Léa Pool Uma língua comum Semana da Francofonia exibirá 30 filmes de cinematografias que comungam valores de cooperação e diversidade cultural Você e eu, de Julie Lopez-Corval Por SÉrgio moricoNi U Fotos: divulgação O Papai Noel é um picareta, de Jean-Marie Poiré 32 Caindo no ridículo, de Patrice Leconte ma simples olhada na programação de cinema da Semana da Francofonia impressiona. Há filmes de cinematografias de todos os continentes, dos que têm o francês como a língua oficial (ou mesmo segunda língua), mas há também produções de nações árabes (Egito) e de países que adotam idiomas os mais diversos como, por exemplo, a República Tcheca, o Líbano, a Polônia. Afinal, então, o que é a francofonia? Em pouquíssimas palavras, francofonia é compartilhar valores universais de solidariedade e cooperação e, claro, de afinidade com a cultura vária dos povos de língua francesa. O cinema agradece. Nas duas semanas de programação, obras contemporâneas importantes de realizadores de grande prestígio vão poder ser vistas em diversos espaços da cidade. Entre os cineastas de língua propriamente francesa estão presentes os franceses Patrice Leconte, com Caindo no ridículo, Julie Lopez Corval, com Você e eu, Albert Dupontel, com Bernie, e Philippe Faucon, com Duas senhoras; os suíços Raymond Vouillamoz, com o recente Desacorrentadas, Christian Karcher, com O herdeiro, e Laurent Nègre, com Operação Casablanca; os canadenses Denys Arcand, com o clássico As invasões bárbaras, Denis Cote, com Curling, Xavier Dolan, com Amores imaginários, e Jean-François Pouliot, com A grande sedução; e o belga Erik Ca- nuel, com Bon cop, bad cop. Juntos, esses filmes formam um mosaico multifacetado da produção francofone de raiz européia, ainda que alguns deles estejam do outro lado do Atlântico. Muitas das produções de realizadores não franceses mencionados acima contam com o suporte financeiro da França, embora o Canadá e a Suíça tenham criado suas próprias políticas de apoio ao cinema. Muito recentemente foi fundada a Swiss Films, organização que faz lobbies no próprio país para obter apoio político e econômico para o seu cinema nacional independente. Além disso, cuida de todo o processo de promoção, publica catálogos e fortalece a distribuição internacional dos filmes no circuito comercial e sua presença nos mais variados e prestigiosos festivais do mundo. O Canadá faz a mesma coisa há muitos anos, baseado principalmente no modelo francês, país que com sua prolífica produção – mais de 200 filmes por ano – permanece entre os maiores do setor. Para se ter uma idéia, mais de 25% de toda a produção do continente europeu é de origem francesa. Essa capacidade fez com que a França tivesse tido um papel fundamental no ressurgimento de algumas das cinematografias do leste europeu. Alguns desses países – chamados de “observadores” da Organização Internacional da Francofonia (OIF), entidade criada em Niamey, na Nigéria, em 1970 – estão presentes na Semana da Francofonia com Jasminum, do polonês Jan Jakub Kolski, O preço da inocência, da romena Geanina Grigoras, e Tobruk, do tcheco Václav Marhoul (co-produção da República Tcheca com a Eslováquia). Dos três, apenas a Polônia já faz efetivamente parte da OIF. A Polônia, a exTchecoslováquia e a Romênia viram suas indústrias cinematográficas ruírem com o fim do financiamento estatal no período pós-comunista. Todas elas passaram a depender do apoio da televisão e das co-produções internacionais. A França se tornou uma parceira importante nos dois po- los da cadeia produtiva. Seus principais festivais deram visibilidade e proporcionaram a distribuição internacional dos filmes desses países. O mesmo se deu com vários países africanos, embora as circunstâncias histórico- políticas fossem inteiramente distintas. Muitas cinematografias do continente surgiram em meados dos anos 60 como um dos instrumentos da luta de emancipação e independência. Eram apoiados por inúmeras facções comprometidas com o processo de descolonização. Nos anos 70, curiosamente, tudo mudou. Os novos governos elegeram outras prioridades e resolveram deixar o cinema de lado. Foi então que a França, mais uma vez, entrou em cena, oferecendo um programa de cooperação que incluía a organização de festivais (entre eles, alguns específicos, como o Festival de 3 Continents, na cidade de Nantes) onde os filmes dos cineastas africanos pudessem ser vistos. Apesar de até hoje não ter sido resolvida efetivamente a questão da distribuição dos filmes nos mercados mundiais, a política francesa de apoio às cinematografias africanas possibilitou o aparecimento de diretores importantes. Idrissa Quedraogo, de Burkina Faso, é um deles. A Semana da Francofonia apresenta uma das suas obras-primas, Tilai. Esse filme é revelador de alguns dos dilemas cruciais do continente. Da mesma maneira, Tasuma, o fogo, dirigido por Kollo Daniel Sanou (também de Burkina Faso), Poeira urbana, de Moussa Touré (co-produção Congo/Senegal), os senegaleses Madame Brouette, de Moussa Sene Absa, e Barcelona ou a morte, de Idrissa Guiro, o marroquino Ali Zaoua, de Nabil Ayouch, e Eu e meu branco, de Pierre Yameogo (mais um de Burkina Faso) são todas obras – e incluindo aqui o conjunto de toda a programação da Semana da Francofonia – que contribuem para nos fazer conhecer e compreender questões fundamentais do indivíduo no mundo hoje a partir da língua comum do cinema. Mostra de Cinema da 14ª Semana da Francofonia De 15 a 27/3 na Sala Le Corbusier (Embaixada da França), SESI de Taguatinga, SESC do Setor Comercial Sul, Caixa Cultural, Aliança Francesa, SESC do Gama e Universidade de Brasília. 15/3: 12h – Xalima, a pena (SESC/SCS); 18h – Tilai (Sala Le Corbusier); 19h: Você e eu (SESC/ Gama); 20h – Amores imaginários (Sala Le Corbusier) e O herdeiro (SESI/Taguatinga). 16/3: 12h – Tobruk (SESC/SCS); 19h – Barcelona ou a morte (SESC/Gama) e Caindo no ridículo (Sala Le Corbusier); 20h – Você e eu (SESI/Taguatinga). 17/3: 12h – Poeira urbana (SESC/SCS); 14h – Madame Brouette (Aliança Francesa); 16h – O Papai Noel é um picareta (Aliança Francesa); 18h – Tobruk (Sala Le Corbusier); 19h – Eu e meu branco (SESC/Gama); 20h – Bernie (Sala Le Corbusier); 20h – Ali Zaoua (SESI/ Taguatinga). 18/3: 12h – Tasuma, o fogo (SESC/SCS); 14h – After shave + O preço da inocência (Aliança Francesa); 16h – Rastros, pegadas de mulheres (Aliança Francesa); 18h – Os barões (Sala Le Corbusier); 19h – Desacorrentadas (SESC/ Gama); 20h – Ali Zaoua (Sala Le Corbusier) e Eu e meu branco (SESI/Taguatinga). 19/3: 18h – Os barões (SESC/Gama). 20/3: 18h – Poeira urbana (SESC/Gama). 21/3: 12h – Barcelona ou a morte (SESC/ SCS); 14h – Barcelona ou a morte (Aliança Francesa); 16h – Operação Casablanca (Aliança Francesa); 18h – Desacorrentadas (Sala Le Corbusier); 18h – Você e eu (Caixa Cultural); 19h – Rastros, pegadas de mulheres (SESC/ Gama); 20h – Jasminum (Sala Le Corbusier), O preço do perdão (SESI/Taguatinga) e As invasões bárbaras (Caixa Cultural). 22/3: 12h30 – Bernie (UnB); 14h – O Papai Noel é um picareta (Aliança Francesa); 16h – Memórias entre duas margens (Aliança Francesa); 18h – Xalima, a pena (Sala Le Corbusier); 19h – Tilai (SESC/Gama); 20h – Cúmplices (Sala Le Corbusier) e Tasuma, o fogo (SESI/ Taguatinga). 23/3: 12h30 – A grande sedução (UnB); 14h – O herdeiro (Aliança Francesa); 16h – Bernie (Aliança Francesa); 18h – Operação Casablanca (Sala Le Corbusier) e A última fuga (Caixa Cultural); 19h – After shave + O preço da inocência (SESC/Gama); 20h – O Papai Noel é um picareta (Sala Le Corbusier) e Bon cop, bad cop (Caixa Cultural). 24/3: 12h – Os barões (SESC/SCS); 14h – Ali Zaoua (Aliança Francesa); 16h – Você e eu (Aliança Francesa); 18h – A grande sedução (Sala Le Corbusier); 20h – Duas senhoras (Sala Le Corbusier). 25/3: 12h30 – Os barões (UnB); 14h – Curling (Aliança Francesa); 16h – Eu e meu branco (Aliança Francesa); 18h – Você e eu (Sala Le Corbusier); 19h – Madame Brouette (SESC/ Gama); 20h – Cúmplices (SESI/Taguatinga) e O preço do perdão (Sala Le Corbusier). 26/3: 18h – Memória entre duas margens (SESC/Gama). 27/3: 18h – Bernie (SESC/Gama). 33 Fotos: Divulgação luZ CÂMERa aÇÃo Bravura indômita Com dez indicações ao Oscar, mas nenhuma premiação, esse sonolento remake deixa claro que o western não é território para os irmãos Coen Por reYNalDo DomiNgoS ferreira O 34 tom melancólico da narrativa de Bravura Indômita, de Joel e Ethan Coen, é dado pela protagonista, uma solteirona recalcada que relembra o episódio da morte do pai quando ela, com 14 anos, se viu forçada a contratar um soldado beberrão e de antecedentes morais duvidosos para dar caça ao assassino, então homiziado em território indígena. O roteiro, baseado no romance True grit, de Charles Portis, também assinado pelos Irmãos Coen, mutila o contraste entre as personagens no que diz respeito à questão moral, que ganhou destaque na primeira adaptação (1969), dirigida por Henry Hathaway. Assim, enquanto Mattie Ross (Hailee Steinfeld), presbiteriana convicta, é observadora de regras rígidas de comportamento, Rooster Cogburn (Jeff Bridges) é um caolho bêbado e licencioso. Na primeira versão, Rooster, interpretado por John Wayne, que ganhou o Oscar por sua brilhante atuação, conta mais sobre sua vida, principalmente sobre suas atividades ilícitas no México para obter dinheiro e montar, no Texas, seu primeiro negócio. Mesmo assim, na versão atual, o diálogo parece excessivo, e a pregação religiosa se faz por meio da trilha sonora de Carter Burwell, na qual se incluem vários hinos, como The glory-land way e What a friend we have in Jesus. De início, tem-se a impressão de que se vai ver, pela composição de planos, na chegada de Mattie ao povoado, uma citação do clássico Era uma vez no oeste, de Sergio Leone. Mas fica só na impressão. Logo a linguagem dos Coen se mostra indecisa, lenta e pobre de panorâmicos – típicos do estilo épico, como é da natureza do western – a não ser nas sequências em que se expõem os enforcamentos em praça pública ou quando se encontram outros enforcados no meio da mata. Ao ser contratado por 50 dólares, Rooster quer cumprir sozinho a missão de trazer o assassino Tom Chaney (Josh Brolin), mas Mattie, sempre bem vestida e com os cabelos enfeixados em duas tranças, insiste em acompanhá-lo. Enquanto ele pensa nessa possibilidade, ela, ao regressar à casa em que se hospeda, conhece o patrulheiro texano LaBoeuf (Matt Damon), que está também no encalço de Chaney por vários crimes cometidos no Texas e no Arkansas, onde matou até um senador. Ele lhe propõe trabalho conjunto com Rooster com o argumento de que ambos poderão – sendo conhecedores, o primeiro, do território indígena, e ele, da estratégia de fuga de Cheney – facilmente capturá-lo e, assim, obter proveito mútuo. Receosa de que LaBoeuf não lhe entregue Cheney – que também está de posse de bens de seus familiares – Mattie recusa-lhe a oferta ou fica simplesmente no jogo do empurra, mas, ao concluir as negociações com Rooster, acaba por aceitá-la. Na manhã seguinte, os dois partem, deixando recomendação a Mattie para que volte para casa e fique, em companhia da mãe, à espera da prisão de Cheney. Impetuosa, porém, ela os persegue e, se não atravessa o rio na balsa com eles, o faz a cavalo, que é quase levado pela correnteza. Ao chegar à outra margem, LaBoeuf a coloca no colo e lhe dá boas palmadas por sua teimosia. Mas, depois disso, o texano se desentende com Rooster e decide prosseguir sozinho. A narrativa continua, assim, sonolenta, até que Rooster e Mattie conseguem preparar uma emboscada, num rancho, para Ned Pepper (Barry Pepper) e seus homens, que sabem ser associados de Cheney. Mas quem chega primeiro ao local é LaBoeuf, que acaba sendo preso pelos bandidos. É então que os Irmãos Coen dão com os burros n’água ao realizar a sequência em que Pepper e seus asseclas dão uma pancadaria em LaBoeuf. Tomada da distância – já que observada, do esconderijo, por Rooster e Mattie – a cena deixa mais do que evidente que o western não é terreno para os irmãos realizadores de Queime depois de ler, apesar das indicações ao Oscar. Os atores Jeff Bridges, Matt Damon e Josh Brolin, pela categoria que têm, não mereciam se afundar, como se afundaram, nessa empreitada. Quanto a Hailee Steinfeld, por ser jovem, talentosa e bonita, não teve nada a perder. bravura indômita (True Grit) EUA/2010, 110 min. Direção e roteiro: Joel e Ethan Coen, com base no livro True grit, de Charles Portis. Com Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Hailee Steinfeld, Barry Pepper e Domnhall Gleeson. 35