Pai e mãe diferentes e complementares
Por: Fernanda Pompermayer, Virgínia Aparecida dos Santos
Tivemos num tempo que, como em nenhum outro, passa por transformações profundas.
E são mudanças rápidas e abrangentes. Os movimentos libertários, ocorridos na segunda
metade do século passado, alteraram significativamente a composição da família –
principalmente com a utilização da pílula anticoncepcional e a lei do divórcio (aprovada
no Brasil em 1975). Além disso, alguns aspectos como o avanço irrefreável da
tecnologia, os efeitos culturais da globalização, a inserção crescente das mulheres no
mercado de trabalho (com a consequente redução do número de filhos), tiveram e têm
um papel de primeira grandeza nessa mudança de época, mudança que afeta cada
indivíduo.
Muitos de nós fomos educados tendo a família como célula fundamental da sociedade.
Gerações e gerações de homens e mulheres cresceram sob a proteção de um lar, de um
pai, de uma mãe, muitas vezes aquecidos também pelo afeto de avós e de outros
parentes.
Essa experiência ainda é possível? E – principalmente – ainda é necessária?
Para o professor doutor Dmitri Cerboncini Fernandes, do Departamento de Sociologia
da USP, a família perdeu muito espaço na sociedade e acabou “terceirizando” o seu
papel: as crianças são educadas por babás, ou pela escola em seus vários níveis –
quando não pela TV ou pelo computador –, enquanto os pais estão trabalhando, ou
quando, em muitos casos, houve uma separação. Na opinião do professor, “hoje as
fontes que informam as crianças são muitas. A família passou a ser mais uma célula de
formação, ou seja, é uma entre as várias instituições que lidam com a formação da
criança”.
O próprio pai, cuja figura era, antes, símbolo de segurança, de estabilidade, “verdadeiro
porto seguro”, hoje está sujeito ao desemprego iminente, que, às vezes, se arrasta por
anos, afetando diretamente o seu papel dentro da estrutura familiar. “Ele não é mais o
provedor, o sustentáculo moral da família, mas tem sua identidade dilacerada”, afirmou
Fernandes. No entanto, apesar dessas mudanças fundamentais, segundo o estudioso, “os
pais dão o referencial moral ou ético. São eles que transmitem os valores para os
filhos”.
Toda criança, seja ela menina ou menino, tem necessidade de absorver e introjetar o
caráter masculino normalmente relacionado pela psicologia à agressividade, entendida
como uma função importante no relacionamento do sujeito com o mundo exterior. Essa
é a visão de Romildo Almeida, psicólogo clínico que trabalha em algumas cidades do
Estado de São Paulo. Ele vê a agressividade “relacionada com agilidade, persistência,
coragem, determinação, ambição, entre outras qualidades”. Para o psicólogo, a origem
dessas qualidades é dupla: “Uma parte é inata, mas outra parte é aprendida através do
contato com as pessoas, principalmente com os pais, que são os modelos primordiais
com quem a criança aprenderá a relacionar-se. O papel do pai é importante porque é ele
quem possui naturalmente essas características do sexo masculino”.
E a mãe, que função exerce?
A mulher tem um papel fundamental na educação e formação da personalidade. É ela
que transmite à criança – menino ou menina – as características naturais do sexo
feminino como delicadeza, compreensão, receptividade, acolhimento, bondade.
Segundo Almeida, a criança, desde cedo, aprende essas características a partir do
vínculo que desenvolve com a figura materna. O psicólogo suíço Carl Gustav Jung
chamou de Anima e Animus as características que compõem o aspecto feminino e
masculino, respectivamente.
Além disso, existe uma complementaridade entre as características específicas do
homem e da mulher. Juntas elas dão equilíbrio psicológico ao indivíduo. Para Almeida,
“um indivíduo bem equilibrado em termos psicológicos é aquele que, não obstante
esteja bem integrado e ajustado com a sua identidade sexual, possui um pouco das
características do sexo oposto”. Isto é, “um homem que, apesar de ser corajoso,
decidido, incisivo e rígido (características do próprio sexo masculino), apresenta
também certa docilidade, benevolência, que são características do sexo feminino”. “Do
mesmo modo se pensarmos em um modelo equilibrado de mulher” – continua o
terapeuta –, “teríamos uma mulher à primeira vista simpática, acolhedora, dócil, gentil,
delicada, mas ao mesmo tempo com uma capacidade de reação frente aos obstáculos”.
O psicólogo Carlos Messa, autor do livro “O Poder dos Pais no Desenvolvimento
Emocional e Cognitivo dos Filhos”, vê o papel dos pais como “construtores da mente”
dos próprios filhos: “A natureza constrói o cérebro, que traz consigo algumas tendências
instintivas; os pais constroem a mente”, diz ele. Ou seja, “pais e mães têm um poder
mágico: gerar pensamentos, comportamentos e atitudes em seus filhos, além de
transformar pensamentos, comportamentos e atitudes indesejados”. E Messa explica:
“Empreguei a palavra ‘mágica’ porque o poder dos pais é tão grande que, como em uma
mágica, extrapola aquilo que consideramos normal e, ainda, porque os próprios pais não
acreditam ser capazes de realizar tamanha criação ou transformações”.
Ausência dos pais
Por ocupar-se diretamente do indivíduo e de seu comportamento, a psicologia nos
fornece elementos e informações que revelam quanto é imprescindível a relação do pai
e da mãe com os filhos. No entanto, diante do contexto social em que grande parte das
famílias vive hoje, essa relação pode parecer idealizada demais e nem sempre possível.
Basta pensar nos inúmeros casos de separação dos cônjuges, dos filhos de mães
solteiras e também da morte prematura de um dos genitores.
Estarão essas crianças fadadas a um futuro de desequilíbrio emocional? A resposta está
naquilo que a psicologia denomina “adulto significativo”, como explica Carlos Messa.
“Os valores se formam através do relacionamento com o ‘adulto significativo’ – e não
apenas por meio de palavras, mas, principalmente, de exemplos”. Para ele, essa figura
pode ser a babá, a professora, um tio, um avô ou avó, que assumirão o papel do pai ou
da mãe.
Essa ideia é compartilhada por Romildo Almeida: “A mãe não pode substituir o papel
do pai e nem o pai pode substituir o papel da mãe. Quando um deles faltar, a criança
deve travar um relacionamento com outras pessoas, outras personagens, do mesmo sexo
do genitor ausente: um adulto que, ao criar um vínculo positivo, irá apresentar as
características da sexualidade para essa criança”.
Papel suplementar
Nos milhares de exemplos em que a mãe também trabalha o dia todo, a escola tem
assumido uma função determinante na formação das crianças. Esta, porém, segundo os
psicólogos entrevistados, deve exercer um papel de complementaridade, não de
substituição dos pais.
Há pouco tempo, tomamos conhecimento em Cidade Nova da experiência de uma
professora que confirma esse papel de apoio que os professores têm na formação das
crianças. Carlos, um garoto de dez anos, vivia calado pelos cantos da escola. Não tinha
amigos e custava-lhe se enturmar com os colegas. A sua expressão era sempre de uma
criança triste que chorava constantemente. Ninguém entendia o seu comportamento. Até
que um dia uma professora da escola resolveu parar e conversar com ele. Sentindo-se
acolhido pela professora, Carlos desabafou: “Professora, no dia em que eu fiz quatro
anos, minha mãe morreu. Até hoje não esqueci… não aguento mais essa dor!” Depois
desse momento, a criança passou a interagir com os outros colegas. A professora teve
sensibilidade e percepção quanto ao comportamento da criança e ajudou-o a superar um
problema familiar. Sua ação foi complementar.
De acordo com especialistas em educação, entre eles Bernadete Maria Ceccagno, pósgraduada em Orientação e Supervisão Escolar pela UNISSALE (Centro Universitário
La Salle), de Canoas (RS), o ideal é que escola e pais trabalhem juntos, como parceiros,
na formação das crianças. “Mas cabe aos pais a formação integral dos filhos”,
argumenta ela.
Para Bernadete, a escola não pode substituir os pais. De fato, segundo confirmam
alguns psicólogos, o que se observa é que, quando os pais “terceirizam” a educação dos
filhos, as crianças tendem a desenvolver lacunas no campo afetivo – sobretudo quando o
papel da mãe não é preenchido – ou no campo do julgamento do que é bom ou ruim, ou
no desenvolvimento de noções de valores, de ética – que é uma qualidade desenvolvida
com a ajuda do pai.
Normalmente, os filhos são levados a assumir comportamentos, criar hábitos e ter
aprendizados variados, que marcarão suas vidas, de acordo com a formação que tiveram
dos seus pais. É essa relação entre pais e filhos que fundamenta a família. E ela se
baseia não tanto no tempo de convivência da criança com o pai ou a mãe, mas na
intensidade dos momentos vividos juntos, que lhe darão a segurança e a certeza do amor
de ambos por ela.
O mundo mudou, a sociedade atual criou novas demandas, mas as crianças continuam
necessitando de referências vitais para um desenvolvimento harmônico e equilibrado.
Segundo a educadora Bernadete, “quando o ambiente familiar é estimulador para a
criança, mediante uma relação mais próxima entre pais e filhos, baseada em diálogos
francos e abertos, a criança crescerá de um modo mais harmonioso”. Pai e mãe
continuam tendo um papel insubstituível.
Fonte: http://www.cidadenova.org.br/RevistaCidadeNova/ArtigoDetalhe.aspx?id=4570
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