FORMAÇÃO E IDENTIDADE DO PROFESSOR QUE ENSINA MATEMÁTICA NOS ANOS INICIAIS Fabiangela Santana Mendes1 RESUMO A matemática é fundamental para a condição de cidadania. Ela é instrumento para a interpretação do mundo, para a tomada de decisões, para a transformação social. Pensar na formação do professor que atuará nos anos iniciais do ensino fundamental e ensinará matemática é essencial, se desejamos melhoria da qualidade de ensino, e este é um dos objetivos desse trabalho. Nele refletimos sobre a formação dos professores que atuam nas séries iniciais, o ensino da matemática e a formação continuada. Foi realizada uma pesquisa qualitativa e quantitativa, de levantamento bibliográfico e pesquisa de campo, com os alunos dos últimos períodos do curso de Pedagogia da Faculdade Catuaí, verificando a partir das suas histórias de escolarização a importância de uma prática reflexiva, do domínio dos conteúdos e do uso de metodologias que favoreçam a aprendizagem dos alunos. Consideramos que a formação continuada e a reflexão sobre os problemas escolares são essenciais para superar as “lacunas” de aprendizagem e possíveis “traumas” em decorrência de uma história na educação escolar deficitária. Para isso, é importante o compromisso do professor com sua aprendizagem e com a dos seus educandos. Palavras-chave: Educação Matemática. Formação de Professor. Prática Reflexiva. ABSTRAT Mathematics is fundamental for the exercise of citizenship. It is an instrument for the interpretation of the world, for making decisions and for social transformation. Thinking about the teacher’s education, who will teach in the early years of elementary school and teach mathematics, is essential if we want to improve the quality of education, and this is one of the objectives of this article. This paper reflects on the education of teachers who work in the early gradeson the teaching of mathematics and,on the teacher’s continued education. A qualitative and quantitative survey was conducted, a literature review and field research, with students of the junior and senior years of the graduation course of Education at Catuaí University, checking from their schooling stories the importance of having a reflective practice, a good command of the contents and using methodologies that promote student’s learning. We believe that continued education and the reflection on school problems are essential to overcome the learning "gaps" and possible "traumas" due to a story of a deficient education. Therefore, it is important the teacher's commitment to their own learning and to their students’ learning. Keywords: Mathematics Education, Teacher’s Education, Reflective Practice. 1 Graduada em Pedagogia na Faculdade Catuai. 1 INTRODUÇÃO Sabemos que a escola tem enfrentado muitos problemas, como alunos desinteressados e professores desmotivados, utilizando-se de uma metodologia que, muitas vezes, não atende às necessidades dos alunos. Provavelmente, devido a estes fatores, nem sempre a educação tem obtido resultados significativos de aprendizagem. Em 07/12/2010, foi publicado os resultados do PISA – Programa Internacional de Avaliação de alunos, que é realizado a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujos participantes são os estudantes com mais de 15 anos, dos países membros da OCDE, espalhados pelo mundo. O Brasil, como resultado da prova de matemática aplicada em 2009, apresentou esta disciplina como o ponto frágil da educação brasileira. Verificou-se que 69% dos estudantes do País apresentaram como resultado apenas o nível 1. Isso significa que formamos alunos que não conseguem ir além dos problemas mais básicos e têm dificuldades de aplicar conceitos, em realizar procedimentos, descrever e analisar fenômenos. Na avaliação da OCDE, eles teriam inclusive dificuldades de tirar proveito de uma educação mais avançada. O Brasil ficou em 57º lugar, demonstrando ter uma educação matemática pouco consistente, estando atrás do Uruguai (48º), Chile (49º), México (50º). Perguntamo-nos como superar tais dificuldades já que a profissão docente exigirá o domínio dos conteúdos e da metodologia para a docência nos anos iniciais. Pois, a influência do professor no processo de ensino aprendizagem deixa marcas positivas e negativas em seus alunos, e os conteúdos, a metodologia e a didática utilizada nas aulas também podem favorecer ou não o gosto pela disciplina. Devemos refletir sobre a formação continuada do professor e a importância de sua prática reflexiva. Analisando o modo como o professor deve ser flexível visando atender a todos, mediante a realidade e necessidade de cada um. Efetuando, uma auto-análise constante, em relação às atividades propostas e resultados esperados. No caso da matemática, se faz necessário para o ensino atividades em que os alunos consigam desenvolver o raciocínio lógico, descobrir padrões, realizar hipóteses, apropriando-se do conteúdo, ao invés de simplesmente reproduzir um exercício sem significado, pois a repetição e memorização não significam que conseguirão alcançar o conhecimento esperado. As aulas de matemática podem e devem ser mais significativas, utilizando-se de métodos que contribuam para aprendizagem dos alunos. É importante entender as concepções de uma boa prática docente e ter clareza sobre a importância da matemática para a vida do aluno e para a ampliação de sua visão de mundo e sociedade. Portanto, refletindo sobre as questões apresentadas, propusemos o presente trabalho que tem o intuito de pensar sobre o ensino e aprendizagem em matemática, e pesquisar se as dificuldades que os discentes de pedagogia encontram estão relacionadas com sua formação inicial, pois percebemos durante o curso de pedagogia que muitos alunos encontraram dificuldades nas noções básicas de matemática, provavelmente fruto da má aprendizagem ao longo da sua escolarização. Realizamos uma pesquisa bibliográfica sobre a formação profissional do professor, a necessidade da formação continuada, a prática reflexiva e as influências que estes profissionais têm de sua própria história de escolarização. Acrescentamos ao processo de investigação também uma pesquisa de campo. Essa pesquisa de campo foi realizada com os alunos de Pedagogia da Faculdade Catuaí e coletamos dados que puderam nos dar pistas e nos ajudar a refletir sobre os fatores que interferiram ou não no gosto pela disciplina, considerando a história de aprendizagem de cada aluno, a influência dos professores e os métodos utilizados em todo o processo de ensino. Nosso objetivo foi identificar os métodos significativos que estes alunos tiveram ao longo de sua escolarização e refletir sobre como percebem e avaliam sua formação inicial em matemática, destacando as influências que sofreram dos professores das séries iniciais, e compreendendo qual a concepção que os alunos de pedagogia têm sobre a prática docente na referida disciplina, analisando as práticas pedagógicas, os conteúdos, metodologias e aprendizagem Matemática. 2 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DOS ANOS INICIAIS De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) a partir da portaria nº 225 de 26 de julho de 2011, art. 1º o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), foi criado com o objetivo de avaliar os estudantes do ensino superior, com relação aos conhecimentos previstos nas diretrizes curriculares e competências para sua atualização permanente. E, também avalia, em seu art. 5º, parte da postura do profissional em relação à responsabilidade social, promovendo uma sociedade justa e solidária, evidenciando seus campos de atuação: a) Na docência da Educação Infantil (0 a 5 anos), dos anos iniciais do Ensino Fundamental, regular e de Jovens e Adultos, nos cursos de Ensino Médio na modalidade Normal e em cursos de Formação Profissional na área de serviços e apoio escolar; b) no planejamento, organização, avaliação e gestão nos sistemas de ensino, em escolas e outros espaços educativos; c) na produção e difusão do conhecimento científico e tecnológico no campo da Educação. Considerando as definições estabelecidas pela Comissão Assessora de Área de Pedagogia, a Portaria Inep n° 225, resolve em parágrafo único que para atuar nestas áreas o graduando deverá estar capacitado, a: Compreender o contexto sociocultural respeitando e reconhecendo suas diferenças; considerando a formação profissional como um processo contínuo; conhecendo os conteúdos que fundamentam o processo educativo na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, planejar e avaliar os projetos educativos, integrar diferentes conhecimentos e tecnologias no planejamento, desenvolver trabalho em equipe, investigar situações educativas e realizando diagnósticos de problemas e reconhecer e respeitar a diversidade cultural, social, etc. (BRASIL, 2011, p.20). No entanto, ao longo da história, nos cursos de formação de professores não predominou a necessidade de se ensinar as disciplinas a serem trabalhadas e sim a forma como aplicá-las, prevalecendo nas grades curriculares apenas as metodologias a serem utilizadas. Segundo Curi (2005), no caso da matemática, mesmo se limitando aos conteúdos básicos a serem ensinados, como “as quatro operações fundamentais com números naturais e racionais na forma fracionária, algumas noções de medidas, de proporcionalidade, incluindo porcentagem, regra de três e juros”, foram deixados de lado, e em muitos momentos, não havia a disciplina de matemática no curso destinado a formação docente. Desde a década de oitenta, visando um aperfeiçoamento da prática docente, o MEC (Ministério da Educação) elabora diversos cursos de formação continuada para professores, com o intuito de suprir deficiências na educação, relacionadas com o preparo do professor e o domínio dos objetos de ensino. Curi (2005) faz uma ressalva nas disciplinas como no caso de “Conteúdos e Metodologia das Ciências e da Matemática” que de certa forma resgatam a importância de estudar o objeto junto com as metodologias para assim poder ensiná-lo. De acordo com Shulman (apud CURI, 2005, p. 23), cada disciplina tem suas especificidades e o professor deve estudar e dominar o conteúdo que pretende ensinar. Segundo o autor é necessário que o professor tenha três conhecimentos em relação à disciplina, “o conhecimento do conteúdo da disciplina; o conhecimento didático do conteúdo da disciplina; o conhecimento do currículo.” Assim pode compreender e organizar a disciplina estabelecendo relações com outras áreas do conhecimento, dominando o conteúdo e o método para transmiti-lo, facilitando a compreensão dos alunos. A LDB 9394/96 Art. 26, § 1º da Educação Básica, confirma a necessidade da boa formação docente, pois o professor deve ensinar e desenvolver nos alunos o domínio dos cálculos matemáticos, tendo como base: Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. Reafirmando ainda a relevância da disciplina de matemática como um dos conhecimentos fundamentais para o desenvolvimento do aluno, consta no Artigo 32 parágrafo I da Seção III do Ensino Fundamental, que o ensino deve abranger a formação básica do individuo, “o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo.” A partir destas leis pode-se considerar o reconhecimento da importância do domínio da matemática auxiliando na construção do conhecimento e na compreensão de mundo. Percebemos que ensinar matemática nas séries iniciais é uma tarefa que exige muita seriedade e compromisso. Ao se perceber frágil em conceitos e metodologias deve o professor das séries iniciais procurar melhorar a sua formação inicial. É natural que os professores iniciantes não tenham uma grande bagagem de experiências, pois muitos ainda não exercem a função, mas deve-se tomar o cuidado para que com o tempo de profissão não se acomodem, esquecendo que a formação do educador é contínua. Só assim poderemos construir uma educação de qualidade e um olhar de respeito e valorização sobre a profissão docente. 3 REFLEXÃO EM TORNO DA DOCÊNCIA Como mencionado anteriormente, notamos que existem leis que cobram e avaliam a formação docente e se preocupam em colocar no mercado um professor que esteja apto a exercer suas funções e reconheça a importância da formação continuada que lhe permite manter-se atualizado e em constante pesquisa. No entanto, nem sempre esta formação é alcançada de maneira satisfatória como diz Franco (2007), muitos alunos recém formados entram na carreira docente e se chocam com a realidade encontrada nas escolas, muitas vezes bem diferente da teoria estudada em sala. Apesar da importância de dominar as metodologias e os conteúdos básicos, a Pedagogia deve se preocupar com a formação de um professor crítico e reflexivo. Desenvolvendo neles a competência de pensar e repensar sobre suas práticas. Segundo Pimenta (2005) é necessário, que desenvolva neles a capacidade de investigar a própria atividade para, a partir dela, constituírem e formarem seus saberes-fazeres docentes, num processo contínuo de construção de suas identidades como professores. Assim, o curso de pedagogia deve favorecer e auxiliar na formação dos professores, contribuindo para este olhar reflexivo sobre seu próprio trabalho, beneficiando a construção do ser professor, consciente das diversas dimensões que deve alcançar. Dominando os conteúdos que lhe cabe ensinar, os métodos que auxiliam na ação-pedagógica, o processo avaliativo, entre outros. (PLACO; SILVA, 2007). Normalmente a iniciação do trabalho docente é complicada, pois de acordo com Franco (2007), é o momento em que deixamos de ser alunos e passamos a atuar como professores. Ocasião em que precisamos colocar em prática todos os conhecimentos adquiridos no período de formação, conscientes da importância deste trabalho e angustiados por resultados positivos. É inevitável não pensar se a teoria estudada é suficiente para suprir nossas dificuldades, é claro que a bagagem teórica é fundamental para o nosso trabalho, mas também sabemos o quanto esta profissão é dinâmica e necessita-se de bom senso, compromisso e dedicação para solucionar os problemas do cotidiano. Segundo Cunha (2004, p.30) “A educação de professores que temos tido, assim como a educação em geral, tem sido muito mais a que procura internalizar o saber do que conscientizar o homem, sujeito do conhecimento.” Os cursos responsáveis pela formação de professores devem se preocupar em capacitar profissionais aptos a realizar seu trabalho de forma consciente. Reconhecendo que a pesquisa deve fazer parte do cotidiano do educador, sendo indispensável para o crescimento intelectual e cientifico, pois para ensinar é necessário que tenhamos conhecimento histórico e cientifico, e que saibamos analisar e refletir sobre nossa prática. A formação e o desempenho dos professores estão diretamente ligados as suas experiências de vida escolar. Em seu trabalho ficam resquícios de sua própria formação e das práticas de ex-professores que de alguma forma deixaram marcas não só na maneira como transmitiam os conhecimentos, mas também no convívio com seus alunos. Segundo Cunha (2004, p.30) “o professor trata o conhecimento da forma como aprendeu e ainda da maneira como vivenciou experiências escolares.” Normalmente é feita uma seleção em que tenta se repetir as experiências consideradas positivas e excluir as identificadas como negativas. Arroyo (2007, p.124), também defende a idéia de que aprendemos a ser professores a partir da convivência com nossos docentes, desde os primeiros anos de vida escolar, pois temos uma longa vida de escolarização, com a presença constante de diferentes professores. “Repetimos traços de nossos mestres que, por sua vez, já repetiam traços de outros mestres.” Isso nos faz pensar nas marcas que carregamos, renovamos e reinventamos a cada dia em nossa docência. Somos professores e independente do motivo ou relação que nos levou a esta profissão, carregamos conosco angústias e alegrias conquistadas em um dia de trabalho, somos reconhecidos dentro e fora do ambiente escolar como professores e não apenas como cidadãos comuns. Realmente somos professores e não interpretamos um papel, como também nossos mestres eram e transmitiam esta imagem do ser, do como agir, e a partir desta convivência aprendemos e formamos nossa personalidade profissional. Aprendemos a ser professores diante de julgamentos que fizemos dos “bons” ou “maus” professores que tivemos. De acordo com Cunha (2004), o homem se torna resultado de suas experiências, considerando e se apropriando de situações vivenciadas em seu cotidiano, que são interpretadas conforme sua subjetividade, pois cada indivíduo é único e tem uma visão diferenciada que lhe permite uma abstração de acordo com sua realidade. Então, nos referimos novamente à influência dos professores em nossas vidas, pois estas pessoas reconhecidas e lembradas por nós como docentes estiveram presentes durante toda nossa fase de escolarização, participando de diversos momentos e interferindo, de certo modo, no nosso fazer pedagógico. 4 ENSINAR MATEMÁTICA NOS ANOS INICIAIS 4.1 Princípios Gerais do Ensino da Matemática A prática educativa, segundo Libâneo (1994, p.17) não se resume às exigências da vida em sociedade, ou as necessidades de preparação para o trabalho ou mesmo vestibulares. É um processo que visa promover nos sujeitos envolvidos, conhecimentos e “experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social e transformá-lo em função de necessidades econômicas, sociais e políticas da coletividade.” Pensando nisso, como alunos e futuros professores, é necessário entender o porquê, o que, e para que se ensinar, o que significam estes conhecimentos, qual a relação que os alunos conseguem fazer dos conteúdos aplicados em sala com sua realidade. De acordo com Morin (apud PIMENTA 2008, p. 21-22) conhecimento não se reduz à informação. Este é um primeiro estágio daquele. Conhecer implica um segundo estágio: o de trabalhar com as informações classificando-as, analisando-as e contextualizando-as. O terceiro estágio tem a ver com a inteligência, a consciência ou sabedoria. Inteligência tem a ver com a arte de vincular conhecimento de maneira útil e pertinente, ou seja, de produzir novas formas de progresso e desenvolvimento; consciência e sabedoria envolvem reflexão, isto é, capacidade de produzir novas formas de existência e de humanização. Não basta ter acesso à informação, é necessário compreender, transformar a informação em conhecimento. Sabemos que a matemática é fundamental para o desenvolvimento humano e está presente no cotidiano dos alunos em diferentes formas, desde as mais simples resoluções de problemas até as mais complexas operações. Auxilia na formação do conhecimento interferindo na estruturação do pensamento e raciocínio dedutivo. Deste modo, a Matemática deve ter como princípio básico a formação de capacidades intelectuais do raciocínio dedutivo, e sua aplicação deve favorecer na resolução de situações problemas encontrados no cotidiano, no mundo do trabalho e nas demais áreas curriculares. O currículo de Matemática destinado ao ensino fundamental deve considerar os estudos dos “Números e operações, Espaços e Formas, Grandezas e Medidas e Tratamento da Informação” como descrito nos Parâmetros Curriculares Nacionais. (BRASIL, 1997, p.53). Zimer (2010) nos diz que embora o raciocínio lógico matemático não esteja evidenciado nos conteúdos estruturantes, como um conteúdo a ser trabalhado, este deve ser associado aos demais conteúdos através da resolução de situações problemas. Assim, os conteúdos matemáticos devem ser trabalhados de maneira a integrar os conceitos com os procedimentos, que acarretará um enriquecimento do processo ensino aprendizagem. Através de um processo dialético, os conteúdos relacionados aos números e operações devem instrumentalizar os discentes, para a resolução de problemas com diferentes significados nas percepções de suas propriedades, ralações e o modo como se configuram historicamente, expandindo seu conceito numérico. A geometria é a parte da matemática que estimula as observações do mundo e formas que nos rodeiam, despertando o interesse do aluno por estar diretamente ligada a sua realidade. A matemática deve ser vista como uma maneira de pensar e um processo em permanente evolução, que permite colaborar para a construção e apropriação do conhecimento matemático e aplicação no contexto sociocultural onde vivemos. Desta forma, o tratamento de informação converge com os anseios desta nova sociedade em que vivemos, onde estão presentes as várias tecnologias descritas através de variações de gráficos, tabelas e dados estatísticos. Sadovsky (2007, p.13) comenta sobre a difícil tarefa de motivar o aluno despertando seu interesse pela disciplina. No caso da matemática, proporcionar situações complexas, porem não impossíveis, levantando hipóteses, fazendo questionamentos e instigando o aluno, levando-o a pensar e ousar, partindo dos conhecimentos que o educando tem e ir gradativamente ampliando o seu universo de saberes. No entanto, não é fácil despertar o interesse, mas é fundamental “acreditar no potencial dos alunos”, considerando seus conhecimentos e respeitando seus atuais limites. De acordo com Zimer (2010), a utilização de recursos é importante, pois auxiliam na aprendizagem e no interesse, desenvolvendo na criança o “cognitivo, o afetivo e o social.” Evidencia a relevância dos materiais didáticos, mas ressalva que a mediação, a ação docente feita intencionalmente é que promovem a construção do conhecimento. Os conceitos matemáticos não estão nos recursos utilizados e sim na capacidade do indivíduo de pensar e refletir, promovendo seu próprio conhecimento. 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS Com o objetivo de refletir e compreender o que faz com que um professor seja considerado um bom profissional ao ensinar matemática nos anos iniciais, fizemos uma pesquisa bibliográfica e, para aprofundar nessa reflexão, realizamos também uma pesquisa de campo, com os acadêmicos do curso de Pedagogia, da Faculdade Catuaí, Cambé-PR, buscando conhecer como avaliam a formação matemática que tiveram ao longo de sua escolarização. A pesquisa foi realizada com os alunos do sétimo e quinto período, do curso de Pedagogia da Faculdade Catuaí no Município de Cambé. São futuros professores, que em breve estarão habilitados a exercer sua função. A escolha desses períodos do curso para a pesquisa se deu pelo fato de que os mesmos já haviam cursado ou estavam cursando a disciplina de Fundamentos da Metodologia do Ensino de Matemática. Assim acreditamos que as informações coletadas nesta amostra estavam mais nítidas e visíveis na memória destes alunos, pois a partir da teoria estudada em sala conseguiram analisar sua história de formação em Matemática. 5.2 O que Dizem os Acadêmicos da Pedagogia Para desenvolvermos a pesquisa e conhecer o perfil dos alunos, foi efetuado um levantamento sobre a idade e o tempo que os alunos concluíram o ensino médio. Identificamos que 63% são jovens que tem entre vinte e trinta anos, e 27% esta na faixa etária de trinta e um a quarenta anos. Somente 10% dos alunos têm entre quarenta e um e cinquenta anos. Apenas 14% terminaram a Educação Básica há mais de quinze anos, 32% dos respondentes concluíram o ensino médio entre seis a dez anos e 34% de três a cinco anos. Indagamos estes alunos sobre como analisavam sua aprendizagem em matemática durante sua formação inicial. Enquanto alguns relataram que foi ruim, a maioria respondeu “boa”. No entanto, estudos realizados no Brasil apontam que a Matemática tem sido um ponto frágil na Educação Básica, e que a maioria dos educandos não se apropria dos conteúdos integralmente, como deveriam. Os entrevistados colocaram a importância de um professor sensível, que utiliza de boas práticas para ampliar a compreensão dos educandos, conforme demonstra alguns relatos: “Havia uma professora que colocava a configuração das carteiras em formas geométricas e permitia aos alunos conversarem”; “Só na quarta série despertei para a matemática, pois a professora brincava e trazia jogos” Ainda foi citada, por um dos respondentes a importância de aproximar a matemática dos problemas do cotidiano, conforme observamos no seguinte registro: “A professora ensinava com exemplos do dia-a-dia, trazendo atividades como: problemas de compras, ilustrações e aulas expositivas no pátio com formas geométricas e cálculo”. A presença e o auxílio do professor foram importantes para sua aprendizagem em Matemática, e destacaram que: “Durante o ensino de geometria, em que tinha muita dificuldade, a professora estava sempre presente”; “Na quarta série, a professora era atenciosa e se preocupava com o aprendizado da turma”. Notamos nas falas dos alunos que a relação professor-aluno colabora para que ocorra o processo ensino aprendizagem. Para estes entrevistados, mais do que os métodos ou recursos utilizados, a mediação e a preocupação do professor em relação à aprendizagem dos alunos foi o que contribuiu para construção do conhecimento. Lemos, França e Machado (2002) denominam esta dedicação, este gostar, como a “esfera subjetiva”, que deve ser uma das categorias que permeiam a formação docente. Além de ter a graduação e estar apto a desenvolver seu trabalho para atuar nesta profissão é necessário querer, gostar, sentir-se professor e mediador deste processo. Realmente considerar a importância de seu trabalho e envolver-se com sua prática, visando o crescimento social e intelectual do aluno. De acordo com Ortega (apud SANTOS, 2008), as aulas de matemática podem sim promover vínculos entre professores e alunos, deixando de ser considerada vilã, passando a gerar interesse e conhecimento. Alguns alunos relatam que a falta de professores capacitados e comprometidos com seu trabalho, prejudicaram sua aprendizagem, “Infelizmente meus professores não foram muito colaboradores para a minha aprendizagem. Desta forma, não consigo gostar de matemática justamente porque tenho muitas dificuldades”; outros referem-se a matemática como se não tivesse sido trabalhada em sua escolarização, “Nem parece que aquilo que estou estudando hoje já fez ou deveria ter feito parte da minha aprendizagem, há alguns anos atrás” ; “Na verdade não me lembro nem de quem foram meus professores, muito menos do que ensinaram”. Com base na proporção de alunos que relataram não terem encontrado significado nas aulas de Matemática e a partir destas respostas, analisamos como a Matemática vem sendo desenvolvida algumas vezes como um amontoado de números e regras sem nenhum sentido para os alunos. Muitas vezes vista como algo obsoleto, sem relação alguma com o cotidiano e com a realidade. Perguntamos aos alunos, como qualificavam os docentes que foram seus professores durante sua formação. Entre os que responderam como excelentes e bons, alguns justificaram suas respostas referindo-se ao profissionalismo do docente, afirmando que: “Por ser uma professora comprometida com a aprendizagem das suas alunas”; “Uma pessoa com valores humanos”; “Alguns buscavam métodos diversificados para ensinar” .Outros respondentes destacaram o carinho e atenção de seus professores, “A professora chamava D. Mitsue e era maravilhosa”; “Apesar da Metodologia Tradicionalista eles eram atenciosos e trabalhavam o conteúdo” . Alguns avaliam seus professores a partir da escolarização que tinham na época. “Eles ensinavam de acordo com que tinham sido preparados, não as julgo, por que além dos anos, eram professores que tinham somente o segundo grau como formação”; “Eles foram formados de maneira tradicional, não tinha outra forma de ensinar” . Analisando as respostas identificamos que os entrevistados compreendem como bons, os professores que utilizam métodos diferenciados e os que mantêm uma boa relação com seus alunos, mas também consideram bons aqueles comprometidos com sua prática, e que independente dos métodos contribuíram para que aprendessem o conteúdo. Refletindo sobre as respostas, pensamos que nossos entrevistados carregam “marcas positivas” de seus professores, que perduram durante toda sua vida. Arroyo (2007), Curi (2005) e Cunha (2005), concordam com a idéia de que adquirimos conhecimentos com nossas experiências, e que a partir da convivência e da relação com nossos docentes aprendemos a sermos professores e formamos uma concepção sobre os mesmos. E, em nossa prática docente tentamos selecionar pontos positivos para assim reproduzi-los, como o domínio de conteúdo, as metodologias, a organização e a relação social. Houve os que responderam que não tiveram bons professores, os avaliaram como extremamente tradicionalistas e revelaram que: “Por que eles ensinavam somente a teoria”; “Não me recordo de nada significativo, a base sempre tradicional”; “Os métodos eram tradicionais e com isso cansativo, o que tornava a matéria ser classificada como ruim”; outros respondentes recordam que não era utilizado nenhum material didático nas aulas de matemática, “As aulas eram muito tradicionais, professores muito tradicionais, sem recursos diferenciados para ensinar”; “Poderiam ter feito mais, serem mais metodológicos, não ficar somente no giz e no quadro negro”. Alguns alunos revelaram traumas e medos que sentiam em relação aos professores, e responderam da seguinte forma: “O professor era muito ruim com os alunos, era de dar medo nos alunos”; “Muita repressão”; “Ela era muito rígida e todos tinham medo de tirar dúvidas”. E, em algumas falas de nossos respondentes identificamos que eles consideram que os seus professores não eram qualificados e comprometidos: “Primeiramente eu nunca gostei de matemática, depois os professores não eram altamente qualificados”; “Não davam importância para a dificuldade do aluno”; “Alguns cumpriram o currículo”; “Nem todos eram comprometidos com o ensino de qualidade”. Podemos identificar em algumas respostas a dificuldade, o medo e os traumas que não conseguiram superar no decorrer de sua trajetória escolar. Curi (2005), através de pesquisas, denomina como “crenças” estas concepções que construímos sobre a Matemática durante toda nossa vida de escolarização, e destaca que uma das maneiras de romper com estas dificuldades encontradas pelos profissionais da educação, é trabalhar estes conceitos nos cursos de formação de professores, visando quebrar estas barreiras e construir uma educação de qualidade. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A matemática tem um papel fundamental no desenvolvimento do individuo, é uma ferramenta que auxilia o sujeito a reconhecer e interpretar o mundo. No entanto, há muito tempo se discute sua importância e resultados, que ao longo da história, conforme alguns índices já citados, não têm sido tão positivas quanto deveria. A legislação exige que o docente esteja devidamente habilitado para atuar nas séries iniciais do ensino fundamental. Porém, nem sempre o docente que se encontra habilitado está realmente preparado para desenvolver seu trabalho com qualidade, com domínio de conteúdo e métodos que favoreçam a aprendizagem. Este trabalho demonstrou que há professores que ensinam e que muitas vezes têm um déficit de aprendizagem em alguns ou vários conteúdos de matemática. Esta fragilidade pode existir em razão da sua própria formação escolar e também da formação continuada, que muitas vezes não atende as necessidades dos docentes. É necessário romper com tais inconsistências teóricas através da formação inicial e continuada que considere tais aspectos. É recomendável que os cursos de formação de professores se atentem para as dificuldades trazidas da escola básica e busquem alternativas para superá-las na graduação. Nesse sentido, sugerimos que os currículos dos cursos de formação de professores sejam revistos para realmente atender a tais necessidades. Conforme revelam alguns autores consultados nesta pesquisa, a prática docente deixa marcas na vida dos alunos. Isso significa que, ao longo de nossa escolarização, somos influenciados por nossos professores, os quais contribuíram para a nossa aprendizagem. É também, a partir de nossas experiências, que aprendemos a sermos professoras e muitas vezes de forma inconsciente, atuamos repetindo o que aprendemos com nossos mestres. Analisamos como estas futuras professoras, que pretendem atuar no Ensino Fundamental, foram influenciadas pelos docentes que fizeram parte de sua vida escolar, e como deixaram marcas, nem sempre tão positivas e significativas. Por isso devemos pensar nas dificuldades que ainda trazemos e na necessidade da tomada de consciência destas para poder superá-las. Por meio do presente estudo notamos a importância da formação continuada, do professor refletir, pesquisar e desenvolver seu trabalho com responsabilidade, considerando e se importando com a aprendizagem de seu aluno. Um profissional comprometido que aprecia seu trabalho, que busca alternativas para realizálo com sucesso, refletindo sempre sobre o trabalho que desenvolve. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. BRASIL. Portaria Inep n. 225 de 26 de julho de 2011. Diário Oficial [da] Republica Federativa do Brasil, Brasília, DF, 27 jul. 2011.Seção 1,p.20. ______. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais. Matemática. Brasília: MEC, 1997. CUNHA, Maria Isabel. O Bom Professor e sua Prática, 16. ed. Campinas: Papirus,2004. CURI, Edda. A Matemática e os professores dos anos iniciais. São Paulo: Musa, 2005. FRANCO, Francisco Carlos. O coordenador pedagógico e o professor iniciante. 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