envelhecimento ativo
Esta Banda
é a Maior
A ideia, lançada pela Câmara Municipal de Odivelas, era juntar
um grupo de gente com talento musical, criar uma banda rock
e dar o exemplo de como se pode ser sénior de forma ativa e divertida.
A Banda Maior só podia mesmo tornar-se um sucesso.
Os ensaios são para ser
levados muito a sério.
Têm dia certo e hora
marcada. Não se
admitem atrasos nem
lamentos de idade
O ensaio tem dia certo na semana, hora
marcada e programa de trabalhos previamente definido. Não é para profissionais,
mas é como se fosse. Por isso, não são permitidos atrasos injustificados, nem lamentos de idade. Aqui, a vida é para se levar
a sério. Mesmo a cantar.
É claro que a Banda Maior é feita de muitas memórias. As músicas são, sobretudo,
dos anos 60 e 70 e a ideia é pôr toda a gente que canta e que ouve a recordar as coisas boas do passado – os bailaricos, os namoros, as bandas de garagem... Mas as
vozes, o empenho e a animação são de
agora. Aliás, aqui o passado é mesmo só
o pretexto para preencher o presente e ga36
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rantir que planear o futuro continua a fazer sentido.
Esta é, então, a Banda Maior. É Banda porque toca e canta música, como as bandas
dos tempos em que os Beatles, os Sheiks,
os Rolling Stones e a Madalena Iglésias
faziam sucesso. E é Maior, não por ser
grande em número de membros – que até
é! -, mas por juntar gente que a faz ter uma
média de idade invejável.
O mais novo tem 55 anos e o mais velho
fez há dias 84. Todos eles reencontraram
nesta Banda um talento antigo, uma
experiência de juventude, um sonho que
achavam já estar arrumado. Mas não só.
Descobriram que ser Maior, afinal, até pode
ser divertido. É isso. O que se vê nas suas
caras, o que se percebe nos seus gestos
ritmados enquanto cantam, o que se sente no ambiente dos ensaios e dos concertos é que eles gostam mesmo disto. E gostam, especialmente, de transmitir esse
prazer aos outros.
São, ao todo, 25. Homens e mulheres que
deixaram as suas carreiras e profissões
para trás, há uns anos, e que aceitaram o
desafio lançado pela Câmara Municipal
de Odivelas, no ano passado, quando a
autarquia começou a preparar as iniciativas para a celebração do Ano Europeu do
Envelhecimento Ativo. “Não fizemos propriamente um casting”, refere António
atendimento juvenil
A porta de entrada desta consulta mal
se vê, quando se entra no Centro de
Saúde de Loures. A ideia é mesmo ser o
mais discreto possível
Monteiro, que coordena este projeto na
Câmara de Odivelas. “Quando se começou a saber que íamos fazer isto, tivemos
muitas inscrições. Mas a ideia era mesmo
fazer uma banda, por isso escolhemos pessoas com algumas competências musicais”, esclarece. É claro que a música não
é o único objetivo. “Nem é sequer a finalidade deste projeto. A música é um meio
para juntar as pessoas. Porque este é um
projeto social”, lembra ainda António.
Às quartas-feiras, as três da tarde são a
hora sagrada do ensaio. Em cima do palco
está já a maior parte dos membros do grupo. Um é baixista, outro baterista, dois tocam guitarra elétrica. E atrás o pessoal que
canta. Tomás é um dos principais vocalistas. Mas muitas vezes dá lugar a Ilda ou
a Marília, dependendo do estilo de música, do tipo de voz que é preciso para a
canção ou, simplesmente, do facto de um
se sentir melhor a cantá-la que outro.
Ricardo é o jovem responsável pela preparação do grupo. Tem 31 anos, uma licenciatura em Direito e uma vocação óbvia, que o fez deixar tudo para trás. É músico e, entre as suas várias atividades artísticas, é formador musical, colaborando,
nessa qualidade, com a Câmara Municipal de Odivelas na ocupação de tempos
livres das crianças e dos idosos das instituições do concelho. É ele que dirige a
Banda Maior. Faz os arranjos para as músicas, escolhidas em conjunto, orienta os
ensaios, tenta ‘disciplinar um pouco’ os
seus elementos. “E às vezes é difícil”, reconhece, entre duas gargalhadas.
O tom afinado e a concentração do momento não mostram nada disso. Em cima
do palco, há quem cante de olhos fechados, quem não desvie os olhos do caderno
das letras e quem siga atento os gestos do
professor. Os instrumentistas reagem, zangados, quando são eles próprios a falhar
a nota ou o ritmo. As interrupções têm,
aliás, intervalos cada vez mais curtos.
“Vamos lá, estamos quase no final do ensaio e daqui a 15 dias temos um concerto.”
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envelhecimento ativo
As músicas são dos anos 60 e 70 e a ideia é pôr toda a gente a recordar
coisas boas do passado – bailaricos, namoros, bandas de garagem...
António vai lembrando os outros deveres
que o grupo tem, além deste de cantar e
tocar na perfeição. A Banda Maior leva-se
a sério. Tem mesmo de ser. Afinal, na agenda estão programados sempre vários concertos em lares, creches, festas de instituições variadas e até programas de televisão.
Há, pois, muito ainda para fazer. Não se
pode desperdiçar um segundo.
TALENTOS REVISITADOS
Ilda sempre foi intérprete... em casa e para
os amigos! “E ia às vindimas só para cantar”, acrescenta, rapidamente. De resto, a
música nunca passou de um suplemento
casual na sua vida. Até se reformar. Nesta
altura, ganhou tempo para outras atividades: entrou no grupo de teatro sénior de
Odivelas, escreveu umas letras de canções
para um dos espetáculos que esse grupo
realizou e, de um dia para o outro, viu-se
“primeira voz na Banda Maior”, ao lado
de Tomás.
Canta um clássico que, normalmente, o
público adora: “Menina Estás à Janela”,
claro! Mas em versão rock a partir do terceiro ou quarto verso, o que acaba sempre
por ser uma surpresa para as plateias dos
seus concertos.
O rock é quase sempre o pano de fundo
das escolhas musicais do grupo. Porque
– é bom não esquecer – esta é uma Banda
no verdadeiro sentido da palavra! José que
o diga. Os seus primeiros rendimentos, há
umas décadas, foram ganhos precisamente com uma banda de garagem, que corria
o país de Norte a Sul em concertos familiares e festas populares. “Tocávamos o
que estava na moda na altura, mas também Pink Floyd, Black Sabbath, etc.” Era
uma vida intensa e cansativa, reconhece.
“Só se faz isso quando se tem 20 anos”,
diz, com saudade.
O casamento, a família e as responsabilidades da vida adulta obrigaram-no a pôr de
lado aquela que era a sua verdadeira paixão.
Mas esta banda sénior despertou-o.
“Há 30 anos que não tocava”, assegura.
questões, não apenas no Ano Europeu do
Envelhecimento Ativo, mas de agora em
diante.
Esta é uma preocupação recente? Como
estamos a preparar-nos para lhe dar
resposta?
O envelhecimento demográfico começou
a afirmar-se na segunda metade do séc.
XX, tendo adquirido rapidamente uma
dimensão mundial. Em Portugal, só se
começou a olhar para este fenómeno no
início do séc. XXI. No entanto, o nosso
país é hoje um dos mais envelhecidos da
Europa, com a população com mais de
65 anos a representar em 2010 cerca de
16% da população total. Com o envelhecimento, aumenta naturalmente o risco
de fragilidade da saúde física e mental, a
prevalência das doenças crónicas e os níveis de dependência (25% da população
com mais de 65 anos e 50% da população
com mais de 80 anos têm algum tipo de
dependência). A solidão, o isolamento,
as preocupações com a saúde e a necessidade de obter apoios sociais adequados
aumentam, inevitavelmente, à medida
que os anos passam. Não há dúvida é que
os estigmas do envelhecimento exigem,
de todos os intervenientes na sociedade,
abordagens inovadoras que possibilitem
respostas sustentáveis e que venham dar
significado, felicidade e alegria de viver
a vidas mais longas que se aproximam ou
mesmo ultrapassam os 100 anos.
Mas a ideia do envelhecimento ativo não
é um tema negativo. Pelo contrário...
Viver mais anos e, sobretudo, viver com
melhor qualidade durante mais anos é
ROSÁRIO SOBRAL
Administradora da Espírito Santo Saúde
“Ligação
do hospital
à comunidade
é fundamental”
O que quer dizer este conceito de
‘envelhecimento ativo’?
O mundo está a envelhecer de forma acelerada e cresce a preocupação com o funcionamento de uma sociedade onde as
pessoas vivem cada vez mais tempo e se
nasce cada vez menos. A preocupação
com o envelhecimento, e em 2012 especialmente com o “envelhecimento ativo”,
traduz-se em questões fundamentais como
estas: Como conseguir viver mais tempo,
com mais saúde e ser mais feliz? Como
conseguir criar e manter laços com a sociedade? Como manter os mais velhos
nos seus ambientes habituais, respeitando a sua privacidade e a sua liberdade?
Temos de aprender a responder a estas
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envelhecimento ativo
José não tocava há 30 anos. Ilda nunca tinha cantado em palco. Vasco diz que só aqui está
para ‘ajudar’ os outros, que cantam melhor que ele. Para todos eles, ser Maior até é divertido
Teve, por isso, de comprar uma viola baixo e, com a Banda Maior, ganhou uma
nova vida. “Por mim, estava aqui todos os
dias a ensaiar. Adoro música, gosto muito
de tocar. Não há nada igual à adrenalina
que se sente quando se está em palco a
fazer música.”
Vasco é o mais velho do grupo. Acabou
de fazer 84 anos, não falha um ensaio e
faz questão de ser um dos elementos da
Banda Maior que mais se fazem notar. É
que não há concerto em que não se apresente em palco com uns óculos escuros
modernos, seja dia ou seja noite, a lembrar
algumas estrelas da atualidade. “Tenho
um problema na vista. Fui operado e o
médico disse para proteger bem os olhos
da luz intensa”, justifica. Seja qual for o
motivo, Vasco é definitivamente o elemento do grupo com mais estilo.
Foi alfaiate toda a vida, mas os últimos
anos de profissão passou-os numa das
aliciante e deve ser encarado como algo
de muito positivo nas sociedades modernas. Mas há que aprender a “viver bem”
durante mais anos após se atingir a idade
da reforma. Para isso é necessário um esforço simultâneo por parte de cada pessoa
individualmente, das suas famílias e das
instituições de saúde e apoio social. A
nível individual, é importante que as pessoas, desde jovens, saibam preparar o seu
período de envelhecimento, assumindo
de forma responsável e informada a “gestão” da sua vida, da sua saúde (prática de
hábitos de vida saudáveis, preocupação
com os tratamentos preventivos e com o
controlo das suas doenças crónicas), a par
com o estabelecimento de laços com a
sociedade nas suas áreas de interesse pessoal (a música, como é o caso da Banda
Maior).
Que papel devem ter os hospitais,
nomeadamente o Hospital Beatriz
Ângelo, nesta estratégia?
Os hospitais prestam cuidados de saúde
agudos; a sua preocupação é, naturalmente, prestar aos cidadãos os melhores
cuidados, humanizados, eficientes, tecnologicamente evoluídos, com qualidade
da comunidade, envolvendo um total de
mil participantes. O patrocínio e envolvimento ativo de muitos profissionais da
ESS na produção de recursos formativos
(brochuras e filmes) pela Advita, para
apoio aos cuidadores familiares (que
apoiam o doente na sua própria casa) e
aos cuidadores formais (que desenvolvem a sua atividade em unidades de saúde ou de apoio social) mostra também a
preocupação do Grupo com a educação
para a saúde. São recursos formativos,
de fácil acesso e linguagem simples e
clara. Cuidadores formados, informados
e eficazes são muito importantes para
manter as pessoas mais velhas nas suas
casas ou nas instituições, bem tratadas,
independentes e autónomas.
O apoio ao cuidador, aliás, tem vindo a
ser ativamente fomentado pelo ESS e é
muito gratificante verificar que, no documento estratégico da União Europeia
para estas matérias, em que se define
como meta para o ano de 2020 a “duplicação do número de anos saudáveis”,
esse tema é especialmente relevante,
aparecendo incluído nos três pilares da
estratégia europeia.
e segurança. Mas uma organização de
cuidados de saúde socialmente responsável, como é a Espírito Santo Saúde
(ESS), no atual contexto de uma sociedade envelhecida, não pode deixar de
reconhecer a importância do papel dos
cuidados de saúde primários e continuados, incluindo os paliativos, e dos médicos de medicina geral e familiar na prevenção, rastreio e diagnóstico precoce da
doença, na informação ao doente, aos
seus familiares e cuidadores, sobre como
prestar cuidados e como adotar práticas
de vida saudáveis. A preocupação da ESS
com a promoção e a educação para a saúde é bem visível nas ações que realizou
em 2011: 4200 rastreios; 40 jornadas técnico-científicas para colaboradores internos e a profissionais de saúde externos
(nomeadamente dos centros de saúde);
e jornadas de informação sobre prevenção e educação em saúde, doenças crónicas e apoio ao cuidador, abertas a organizações de saúde, sociais, clientes e
cuidadores da comunidade.
Só o HBA, até maio, realizou 250 rastreios
gratuitos e 10 ações abertas a profissionais de saúde externos e outros parceiros
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lojas de roupa mais prestigiadas de Lisboa. Fez fardas para os generais Humberto Delgado e Craveiro Lopes e fatos
para os mais importantes políticos do
pré e pós-25 de Abril. Depois, claro, veio
a reforma. Mas a sua vida não acalmou
a partir daí. Hoje, faz ginástica, hidroterapia, caminhadas regulares e, claro,
concertos e festas com a Banda Maior.
“Eles dizem que eu canto bem. Mas eu
só estou aqui mais para ajudar. Nem sei
cantar em estrangeiro...” O palco não o
assusta. Mesmo nada. Porque, assegura,
adapta-se “muito bem” a tudo o que é
novo. O resultado é que se diverte “imenso” na Banda Maior, vai dizendo, indiferente aos piropos de quem passa: “Ele
não canta. Ele encanta!”
O senhor das barbas brancas, que também integra o coro, chama-se António.
Faz de Pai Natal, na época respetiva, em
centros comerciais e programas de televisão – uma espécie de part-time que lhe
permite compor a reforma. Explica que
tem de começar a deixar crescer a barba
em fevereiro, para ela estar impecável na
altura em que lhe rende um dinheiro extra. De resto, tem uma vida mais intensa
agora do que tinha quando era técnico
de vendas e percorria o país.
“Sou figurante na televisão. Já participei
em mais de 70 filmes e séries! Faço anúncios, estou na Universidade Sénior, na
aula de teatro e na escola de fado, a aprender a cantar. E faço ginástica três vezes por
semana”, enumera de rajada. Isto sem contar com a Banda Maior, claro.
PROJETOS
PARA SEIS MIL SENIORES
Ricardo é o jovem professor de música
que dirige a Banda Maior (foto em cima).
Enquanto Ilda canta, os espetadores
aproveitam para dançar
António diz que o palco sempre o fascinou, mas a vida obrigou-o a optar por outra profissão. Começou a trabalhar aos dez
anos como empregado de balcão, mas
sempre com vontade de largar tudo para
se dedicar a uma qualquer atividade artística. Está, por isso, agora, a viver o melhor momento da sua vida, assegura. “Aqui
não se ganha dinheiro, mas dá tanto prazer... É uma felicidade, sobretudo quando
vamos a lares e creches e vemos as pessoas felizes com o que fazemos.”
A Banda Maior
em plena atuação,
num dos muitos
concertos para
que são
convidados pelas
instituições sociais
da zona. Já foram
várias vezes
à televisão e estão
agora a preparar
a gravação
de um CD
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Esta é, verdadeiramente, a essência do
projeto. É não se limitar a ocupar o tempo
livre de um grupo de gente sénior, mas
dar-lhes a possibilidade de continuarem
a servir, a serem úteis à comunidade em
que estão inseridos.
Para a Câmara Municipal de Odivelas, de
quem partiu a iniciativa da criação da Banda Maior, esta é uma área de intervenção
essencial e um dos “mais importantes desafios que se colocam à nossa responsabilidade coletiva e individual”. Até agora,
os “inúmeros programas promovidos pela
câmara, especialmente os dirigidos a pessoas com 55 anos ou mais e visando a
criação de condições para o seu desenvolvimento pessoal e social e para um envelhecimento activo” mobilizaram cerca de
seis mil munícipes seniores. O objetivo é,
explica a autarquia, a “sensibilização para
a importância do envelhecimento ativo e
da solidariedade intergeracional, e a promoção do intercâmbio de informações e
de experiências”. Por isso, reforça, “a Câmara Municipal de Odivelas não podia
deixar de se associar ao Ano Europeu do
Envelhecimento Ativo, que, dado o período em que ocorre, dificilmente podia ser
mais oportuna”.
Este objetivo assenta em três eixos fundamentais: a participação dos seniores
na vida da comunidade; a promoção
da sua saúde e bem-estar social, material e emocional; e a criação de ambientes físicos, comunitários e sociais, “que
lhes garantam uma vida quotidiana
digna e segura”.
Entre eles, e além da Banda Maior, do
Clube do Movimento e do Teatro Sénior,
a Câmara destaca o Portal Sénior, com informação útil direcionada a esta população; o Cartão Municipal Sénior, um documento totalmente gratuito, que concede aos seus titulares o acesso a bens e
serviços em condições vantajosas nas áreas de saúde, desporto, cultura e lazer, entre outras; e o Projeto Municipal “Novas
Tecnologias e Internet Sénior”, através do
qual é dada formação nesta área à população sénior.
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Revista Beatriz Ange.. - Câmara Municipal de Odivelas