Miolo 235:Layout 1 10/05/19 15:57 Page 18 EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO O PROPULSOR A Formação na Área de Engenharia de Máquinas Marítimas na ENIDH: Situação Actual e Perspectivas Futuras Resumo Nos últimos anos, tem-se assistido a uma grande transformação no ensino superior dos países da União Europeia, devido à aplicação do Processo de Bolonha. A Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH) fez parte integrante deste processo, tendo adequado os seus cursos aos novos graus e diplomas previstos na legislação, no período compreendido entre 2006 e 2007. Nos últimos três anos, período durante o qual os cursos da Escola já funcionaram de acordo com o modelo de Bolonha, os cursos de Engenharia de Máquinas Marítimas têm tido uma evolução bastante positiva quer em termos de aumento do número de candidatos quem em termos do número de diplomados. Esta evolução quantitativa e qualitativa evidencia a revitalização da formação na área de Engenharia de Máquinas Marítimas, a qual passou por uma fase de menor fulgor na última década. Palavras-chave Ensino náutico, engenharia de máquinas marítimas, marinha mercante. 18 Março/Abril 2010 - N.º 235 • Ano 40.º Revista Técnica de Engenharia Miolo 235:Layout 1 10/05/19 15:57 Page 19 O PROPULSOR EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO 1. Introdução Nos últimos anos, o ensino superior em Portugal sofreu uma grande evolução devido à introdução do Processo de Bolonha. Este processo foi iniciado em Junho de 1999 com a assinatura pelos ministros da Educação da União Europeia de uma declaração conjunta, conhecida por Declaração de Bolonha [1], a qual definiu um conjunto de etapas e de passos a dar pelos sistemas de ensino superior europeus no sentido de construir, até ao final da presente década, um espaço europeu de ensino superior globalmente harmonizado. Embora já tenha abordado este tema anteriormente (nº 218 do Propulsor de Maio/Junho de 2007), considero pertinente relembrar de uma forma muito breve os objectivos gerais da Declaração de Bolonha, que são: o aumento da competitividade do sistema europeu de ensino superior e a promoção da mobilidade e empregabilidade dos diplomados do ensino superior no espaço europeu [2]. A realização destes objectivos globais pressupõe que sejam atingidos os seguintes objectivos específicos: a) Adopção de um sistema de graus académicos facilmente legível e comparável, incluindo também a implementação do Suplemento ao Diploma1; b) Adopção de um sistema assente essencialmente em dois ciclos de estudos, incluindo: • um primeiro ciclo, que em Portugal conduz ao grau de licenciado (BSc – Bachelor of Science), com um papel relevante para o mercado de trabalho europeu, e com uma duração compreendida entre seis e oito semestres; • um segundo ciclo, que em Portugal conduz ao grau de mestre (MSc – Master of Science), com uma duração compreendida entre três e quatro semestres. c) Estabelecimento e generalização de um sistema de créditos académicos (ECTS-European Credit Transfer System2), não apenas transferíveis mas também acumuláveis, independentemente da Instituição de Ensino frequentada e do país de localização da mesma; d) Promoção da mobilidade intra e extra comunitária de estudantes, docentes e investigadores; e) Fomento da cooperação europeia em matéria de garantia de qualidade; f) Incremento da dimensão europeia do ensino superior. Fig.1 - Aula prática do curso de EMM: treino no Simulador de Máquinas Marítimas. Em Portugal, a aplicação do Processo de Bolonha ao ensino superior iniciou-se com a publicação do Decreto-lei n.º 74/2006 de 21 de Março, sobre os graus e diplomas do ensino superior. A partir da data de publicação desta legislação e até finais de 2008, as instituições de ensino superior foram reorganizando as suas ofertas formativas de modo a adequá-las ao novo modelo de ensino. A ENIDH efectuou entre 2006 e 2007 um grande debate interno que conduziu a uma completa reorganização das suas ofertas formativas, que passaram a conferir os graus académicos de licenciatura e mestrado. No caso específico da área de Engenharia de Máquinas Marítimas (EMM), esta passou a estar organizada de acordo com os seguintes dois ciclos de formação: • Curso de licenciatura em EMM (3 anos lectivos – 180 ECTS); • Curso de mestrado em EMM (2 anos lectivos – 120 ECTS). O curso de licenciatura em EMM entrou em funcionamento pela primeira vez no ano lectivo de 2007/2008, tendo o curso de mestrado em EMM entrado em funcionamento no ano lectivo seguinte. A oferta formativa de primeiro ciclo foi igualmente alargada ao regime póslaboral, tendo iniciado a sua actividade no ano lectivo de 1 - O Suplemento ao Diploma, que se enquadra nas recomendações da Declaração de Bolonha, é um documento apenso ao certificado original, cujo propósito é melhorar a transparência internacional, por forma a facilitar a mobilidade e a empregabilidade dos estudantes, diplomados, docentes e investigadores, promovendo o reconhecimento académico e profissional das qualificações (títulos, diplomas, certificados, etc.) e presta informação sobre o sistema do ensino superior. 2 - Sistema de créditos que se baseia no trabalho global, medido em número de horas de actividade, que o estudante deve efectuar para ser aprovado nas várias unidades curriculares do curso, em oposição ao sistema anterior em que os créditos estavam associados ao número de horas de docência para cada tipo de aulas (teóricas, práticas ou teórico-práticas). Um ano de trabalho a tempo inteiro corresponde a 60 créditos ECTS. Revista Técnica de Engenharia Março/Abril 2010 - N.º 235 • Ano 40.º 19 Miolo 235:Layout 1 10/05/19 15:57 Page 20 O PROPULSOR EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO 2008/2009. Este curso funciona preferencialmente no período das 18 às 22 h ao longo da semana, com 4 unidades curriculares por semestre e uma carga horária semanal máxima de vinte horas lectivas. Trata-se de um curso com uma duração mais longa, correspondente a nove semestres lectivos. Embora se destine a todos os públicos, tem vindo a ser procurado preferencialmente por candidatos que já estão inseridos no mercado de trabalho e que pretendem frequentar o curso de Engenharia de Máquinas Marítimas. 2. Dados Relativos à Evolução dos Cursos de EMM A reorganização e o consequente aumento da oferta formativa dos cursos de EMM, tem vindo a ter uma boa aceitação por parte dos antigos diplomados e dos novos candidatos aos cursos de EMM. Assim, e até ao momento pode destacar-se o seguinte: 1 - Regresso à Escola de um elevado número de antigos alunos de EMM para completar o curso de licenciatura e de antigos bacharéis que pretendem obter o grau de licenciado. Para integrar os novos alunos no curso, foram criadas tabelas de creditação/conversão de créditos de modo a considerar toda a formação académica obtida anteriormente; Fig.2 - Aula prática do curso de EMM: ensaio de uma instalação frigorífica. 20 Março/Abril 2010 - N.º 235 • Ano 40.º 2- Aumento sustentado do número de candidatos ao curso de licenciatura em EMM em regime diurno, e uma razoável procura de candidatos ao curso de licenciatura em EMM em regime pós-laboral; 3 - Procura moderada de candidatos ao curso de mestrado em EMM. Este facto poderá ser explicado pelo reduzido número de diplomados de primeiro ciclo formados pela Escola durante alguns anos. Para ilustrar a evolução do número de alunos do curso de EMM, apresentam-se seguidamente os elementos fornecidos pelo Sistema Integrado de Gestão Escolar (SIGE) da ENIDH e Direcção Geral do Ensino Superior (DGES), que evidenciam alguns aspectos relevantes do funcionamento do curso de EMM. Na Tabela I indicam-se os dados relativos ao curso de EMM em regime diurno ao longo dos últimos três anos. Pode observar-se que estas foram quase totalmente preenchidas nos dois últimos anos, apesar de ter-se aumentado o seu número em 2009/2010. Por outro lado, manteve-se bastante estável o número de alunos (10) que colocaram o curso como primeira opção de ingresso no ensino superior. TABELA I - Dados do curso de EMM (regime diurno) 2008/2009 2008/2009 2009/2010 Total de vagas 20 20 25 Vagas preenchidas 14 20 24 Matrículas 1.ª opção 10 10 10 Estudantes do 1.º ano 33 34 29 Total de estudantes 91 85 92 Total de diplomados 14 13 - Na Tabela II, indicam-se os dados relativos ao curso de EMM em regime pós-laboral, na qual pode observar-se que, possivelmente devido ao facto de ser uma nova oferta ainda com pouca divulgação junto do público alvo, não ter tido ainda uma elevada procura por parte dos candidatos ao ensino superior. Neste caso, o curso tem sido procurado preferencialmente por jovens que já estão inseridos no mercado de trabalho e que se candidataram ao abrigo do Decreto-lei nº 64/2006 (maiores de 23 anos) e por alunos que pretendem efectuar a mudança de outra instituição de ensino superior para o curso de EMM da ENIDH, antevendo a possibilidade de seguir uma carreira profissional como oficial da marinha mercante. No que diz respeito ao número de diplomados em EMM, a evolução é positiva, conforme pode constatar-se da análise aos dados representados na Tabela I. Espera-se que esta tendência de aumento do número de diplomados se acentue no decorrer do corrente ano lectivo. Revista Técnica de Engenharia Miolo 235:Layout 1 10/05/19 15:58 Page 21 O PROPULSOR EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO TABELA III - Dados do curso de MEMM (pós-laboral) 2008/2009 2009/2010 Total de vagas 30 20 Vagas preenchidas 12 9 Estudantes do 1.º ano 12 14 Total de estudantes 12 21 Nos próximos anos, prevê-se que, com o aumento do número de alunos que concluírem o curso de licenciatura em EMM, possa igualmente aumentar o número de candidatos ao segundo ciclo de formação em Engenharia de Máquinas Marítimas. Deve notar-se que o mestrado pode ser frequentado por candidatos com formação na área da engenharia mecânica ou naval, que por força da sua actividade profissional em terra ligada a empresas industriais ou marítimas, estaleiros navais, etc., estejam interessados em frequentar o curso de modo a obter uma especialização nesta área de actividade. No caso dos alunos que não realizaram o primeiro ciclo de EMM na ENIDH, a conclusão do curso não lhes confere qualquer tipo de certificação marítima. 3. Situação Actual do Mercado de Trabalho dos Oficiais da Marinha Mercante Fig. 3 - Aula prática do curso de EMM: ensaio de um sistema de comando electro-hidráulico. TABELA II - Dados do curso de EMM (regime pós-laboral) 2008/2009 2009/2010 Total de vagas 30 25 Vagas preenchidas 14 2 Matrículas 1.ª opção 2 0 Estudantes do 1.º ano 29 27 Total de estudantes 32 45 Na Tabela III, podem observar-se os dados relativos ao curso de Mestrado em Engenharia de Máquinas Marítimas (MEMM) relativos aos dois anos de funcionamento. Neste caso, dada a menor procura de candidatos, optou-se por reduzir o número de vagas para o ano lectivo de 2009/2010. Neste último ano, foram admitidos catorze novos alunos, dos quais cinco são angolanos, e que estão a frequentar o curso ao abrigo de um protocolo de colaboração estabelecido entre a ENIDH e o Ministério das Pescas daquele país de língua oficial portuguesa. Revista Técnica de Engenharia Conforme descrito num artigo anterior (Edição nº 200 do Propulsor de Maio/Junho de 2004), tem vindo a assistir-se, conforme ilustrado no gráfico da Fig.4, a um lento e contínuo declínio da frota mercante comunitária quando comparada com a frota mundial. Com efeito, a frota comunitária está a decrescer desde meados dos anos oitenta, constituindo actualmente cerca de 13% da frota mundial, ao contrário desta que, em igual período, tem vindo progressivamente a aumentar. Este facto, vem comprovar que os armadores da União Europeia (UE) estão a desinvestir em navios de bandeira comunitária, embora continuem a manter o controlo sobre cerca de 33% da frota mercante mundial [3]. Fig.4 - Evolução das frotas mundial e da União Europeia no período de 1988-2000 [3]. Março/Abril 2010 - N.º 235 • Ano 40.º 21 Miolo 235:Layout 1 10/05/19 15:58 Page 22 O PROPULSOR EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO Relativamente ao número de oficiais da marinha mercante em actividade a nível mundial, verifica-se que, já em 2000 existia um elevado défice de oficiais (-16000), e que estudos publicados em 2001 apontavam para que esse valor fosse ainda mais acentuado em 2010 (- 46000 oficiais), conforme se ilustra na Tabela IV [3]. No caso específico da União Europeia, estimava-se que em 2006, iria haver um défice de cerca de 36000 oficiais [3]. Actualmente, esta tendência tem vindo a agravar-se devido ao decréscimo de formação de novos oficiais da marinha mercante formados nos países da União Europeia. TABELA IV - Diferença entre a oferta e procura de marítimos a nível mundial [3] Oficiais Marítimos da Mestrança e Marinhagem 2000 % 2010 % - 16 000 -4 - 46 000 - 12 + 224 000 + 27 + 255 000 + 30 Para o corrente ano, a ENIDH irá realizar uma campanha de divulgação bastante importante nos comboios da CP e nos navios da Transtejo/Soflusa, cuja administração gentilmente se disponibilizou a apoiar a promoção da Escola e dos seus cursos. Esta acção constitui um bom exemplo de colaboração que poderá estabelecer-se entre a ENIDH e empresas do sector marítimo-portuário tendo em vista a realização de acções conjuntas de divulgação da Escola e dos seus cursos. Está presentemente em fase de instalação na Escola um serviço de apoio à realização dos estágios de praticantes nos navios mercantes, bem como do acompanhamento do trajecto profissional dos nossos diplomados, tendo em vista caracterizar a sua inserção no mercado de trabalho. Até ao presente, as informações recolhidas indicam que não há nenhum diplomado em EMM no desemprego, relativamente ao universo dos que concluíram o curso no ano lectivo de 2008/2009. 4. Conclusões Face a este quadro de grande carência de oficiais da marinha mercante, nomeadamente na área de engenharia de máquinas marítimas, abrem-se excelentes oportunidades de emprego para os jovens portugueses que pretendam efectuar uma carreira marítima na marinha comunitária. Com efeito, existem actualmente muitas ofertas de emprego em navios-tanque, navios de passageiros e ro-ro de passageiros, para além da oferta em navios porta-contentores. Nos últimos anos, a ENIDH tem vindo progressivamente a aumentar o número de alunos, que se situa no corrente ano lectivo em cerca de 650, considerando todos os cursos da Escola. Actualmente, com a celebração em finais de 2009 do Contrato de Confiança entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) e as instituições de ensino superior, que prevê o aumento da formação de estudantes e a requalificação de activos, é de prever que o número global de vagas dos cursos da Escola possa aumentar nos próximos anos para cerca de 200 (actualmente é de 165). Deste modo, é possível que a ENIDH possa vir a ter num futuro próximo um valor global próximo de 1000 alunos, valor que já atingiu em meados dos anos noventa. Para que este objectivo possa ser alcançado, é fundamental contar com a contribuição de todos os agentes do sector marítimo-portuário para a divulgação dos cursos da Escola em geral, e em particular do curso de Engenharia de Máquinas Marítimas. Por outro lado, a Escola tem forçosamente que aumentar as acções de divulgação dos seus cursos junto do público alvo, nomeadamente através da distribuição de folhetos, visitas a escolas secundárias, realização de visitas de alunos do ensino secundário à ENIDH, realização de palestras e seminários, para além da participação em feiras e outros eventos que dêem visibilidade aos cursos da Escola junto dos potenciais candidatos. 22 Março/Abril 2010 - N.º 235 • Ano 40.º Neste artigo, descreveu-se a evolução do curso de Engenharia de Máquinas Marítimas nos últimos anos, na sequência da aplicação do Processo de Bolonha. Os dados apresentados relativamente aos últimos três anos lectivos são bastante positivos e evidenciam um aumento significativo do número de candidatos aos cursos de licenciatura em Engenharia de Máquinas Marítimas (regime diurno e pós-laboral). Espera-se que esta tendência se mantenha nos próximos anos, de modo a que a Escola possa contribuir para satisfazer a elevada procura de oficiais de máquinas marítimas por parte dos armadores da marinha mercante, quer a nível nacional quer a nível internacional. Referências [1]. Declaração de Bolonha: declaração conjunta dos ministros da educação europeus, assinada em Bolonha em 19/06/1999, Direcção Geral do Ensino Superior, MCTES. [2]. O Processo de Bolonha, Direcção Geral do Ensino Superior, MCTES. [3]. Relatório da Comissão das Comunidades Europeias ao Conselho e ao Parlamento Europeu relativo à formação e ao recrutamento dos marítimos, COM(2001) 188, Abril de 2001. Luis Filipe Baptista Professor adjunto da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique Presidente do Conselho de Departamento de Engenharia Marítima Revista Técnica de Engenharia