Confederação Nacional do Transporte – CNT SAUS Quadra 1 – Bloco “J” Entradas 10 e 20 Ed. Confederação Nacional do Transporte – 13º. e 14º. Andares Brasília – DF CEP: 70070-944 Telefone: (61) 3315-7000 Fale com a CNT: 0800 728 2891 Site: www.cnt.org.br Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes – ANPET Rua Marquês de São Vicente, 225 – sala 954L Ed. Cardeal Leme Gávea Rio de Janeiro – RJ CEP: 22453-900 Telefone: (21) 2562-8727 Site: http://www.anpet.org.br Transporte em Transformação XV - Trabalhos Vencedores do Prêmio CNT Produção Acadêmica 2010. © 2011 - CNT - Confederação Nacional do Transporte / ANPET - Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transporte. Todos os direitos para a língua portuguesa reservados para CNT/ANPET. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, guardada pelo sistema retrieval ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, seja este eletrônico, mecânico, de fotocópia, de gravação, ou outros, sem prévia autorização, por escrito, da Editora. Impresso no Brasil ISBN: 978-85-99082-12-6 Tiragem: 1700 exemplares Coordenação Editorial: Composição e Impressão: Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Transporte em transformação XV: trabalhos vencedores do prêmio CNT de Produção Acadêmica 2010 / Confederação Nacional do Transporte, Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transporte. -- Brasília: Positiva, 2011. 216 p. Trabalhos apresentados durante o XXIV Congresso da ANPET realizado em Salvador (BA) ISBN: 978-85-99082-12-6 1. Ensino e Pesquisa. 2. Soluções Tecnológicas. 3. Sustentabilidade em Transporte. I. Título. II. Confederação Nacional do Transporte (CNT). III. Congresso de Ensino e Pesquisa da ANPET (XV : 2010 : Brasília, DF) CDU: 656:001.891(042) Catalogação na fonte elaborada pela Bibliotecária: Cristina S. de Almeida CRB 1/1817 Autores dos Trabalhos Vencedores do Prêmio CNT Produção Acadêmica – 2010 Confederação Nacional do Transporte – CNT CLÉSIO SOARES DE ANDRADE Presidente THIERS FATTORI COSTA Presidente de Honra NEWTON JERÔNIMO GIBSON DUARTE RODRIGUES METON SOARES JÚNIOR JACOB BARATA FILHO JOSÉ FIORAVANTI Vice-Presidentes da CNT Presidente de Seção e Vice-Presidente de Seção MARCO ANTONIO GULIN OTÁVIO VIEIRA DA CUNHA FILHO Seção do Transporte de Passageiros FLÁVIO BENATTI PEDRO JOSÉ DE OLIVEIRA LOPES Seção do Transporte de Cargas JOSÉ DA FONSECA LOPES EDGAR FERREIRA DE SOUZA Seção dos Transportadores Autônomos, de Pessoas e de Bens GLEN GORDON FINDLAY PAULO CABRAL REBELO Seção do Transporte Aquaviário RODRIGO VILAÇA JÚLIO FONTANA NETO Seção do Transporte Ferroviário URUBATAN HELOU JOSÉ AFONSO ASSUMPÇÃO Seção do Transporte Aéreo Conselho Fiscal – Titulares DAVID LOPES DE OLIVEIRA ÉDER DAL’LAGO LUIZ MALDONADO MARTHOS JOSÉ HÉLIO FERNANDES Conselho Fiscal – Suplentes WALDEMAR ARAÚJO ANDRÉ LUIZ ZANIN DE OLIVEIRA JOSÉ VERONEZ EDUARDO FERREIRA REBUZZI Diretoria Seção do Transporte Rodoviário de Cargas LUIZ ANSELMO TROMBINI URUBATAN HELOU IRANI BERTOLINI PEDRO JOSÉ DE OLIVEIRA LOPES PAULO SERGIO RIBEIRO DA SILVA EDUARDO FERREIRA REBUZZI OSWALDO DIAS DE CASTRO DANIEL LUÍS CARVALHO AUGUSTO EMILIO DALÇÓQUIO GERALDO AGUIAR BRITO VIANNA AUGUSTO DALÇÓQUIO NETO EUCLIDES HAISS PAULO VICENTE CALEFFI FRANCISCO PELÚCIO Seção do Transporte de Passageiros LUIZ WAGNER CHIEPPE ALFREDO JOSÉ BEZERRA LEITE LELIS MARCOS TEIXEIRA JOSÉ AUGUSTO PINHEIRO VICTORINO ALDO SACCOL JOSÉ SEVERIANO CHAVES EUDO LARANJEIRAS COSTA ANTÔNIO CARLOS MELGAÇO KNITTEL EURICO GALHARDI FRANCISCO SALDANHA BEZERRA JERSON ANTÔNIO PÍCOLI JOÃO REZENDE FILHO MÁRIO MARTINS Seção dos Transportadores Autônomos, de Pessoas e de Bens EDGAR FERREIRA DE SOUSA JOSÉ ALEXANDRINO FERREIRA NETO JOSÉ PERCIDES RODRIGUES LUIZ MALDONADO MARTHOS SANDOVAL GERALDINO DOS SANTOS ÉDER DAL’LAGO ANDRÉ LUIZ COSTA DIUMAR DELÉO CUNHA BUENO CLAUDINEI NATAL PELEGRINI GETÚLIO VARGAS DE MOURA BRAATZ NILTON NOEL DA ROCHA NEIRMAN MOREIRA DA SILVA Seção do Transporte Aquaviário, Ferroviário e Aéreo HERNANI GOULART FORTUNA PAULO DUARTE ALECRIM ANDRÉ LUIZ ZANIN DE OLIVEIRA MOACYR BONELLI GEORGE ALBERTO TAKAHASHI JOSÉ CARLOS RIBEIRO GOMES ROBERTO SFFAIR LUIZ IVAN JANAÚ BARBOSA JOSÉ ROQUE FERNANDO FERREIRA BECKER RAIMUNDO HOLANDA CAVALCANTE FILHO JORGE AFONSO QUAGLIANI PEREIRA ALCY HAGGE CAVALCANTE ECLÉSIO DA SILVA Diretoria da ANPET ORLANDO FONTES LIMA JÚNIOR Presidente GLAUCO TÚLIO PESSA FABRI Diretor Executivo HELENA BEATRIZ BETTELLA CYBIS ANÍSIO BRASILEIRO DE FREITAS DOURADO Diretor MARIA ALICE PRUDÊNCIO JACQUES Diretora JORGE BARBOSA SOARES Diretor MARCIO DE ALMEIDA D´AGOSTO Diretor ORLANDO STRAMBI Diretor Comissão Julgadora dos Artigos ALINE ELOYSE LANG – CNT MARILEI DE OLIVEIRA MENEZES – CNT Profª. HELENA BEATRIZ BETTELLA CYBIS - ANPET Sumário Prefácio.......................................................................................................................19 Capítulo 1 - Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Tempo de Viagem .....................................................................................................21 Resumo ............................................................................................... 21 Abstract .............................................................................................. 22 1. Introdução ...................................................................................... 22 .......................................... 24 3. Coleta de Dados ............................................................................. 26 3.1. População pesquisada e estrutura da pesquisa.................... 26 3.2. Experimento de preferência declarada ............................... 26 3.3. Apresentação do conceito da margem de segurança .......... 27 4. Análise Premilinar dos Dados Coletados ...................................... 28 4.1. Indivíduos com comportamento não compensatório .......... 29 4.2. Inconsistências na ordenação ............................................. 30 5. Estimação dos Modelos de Escolha Discreta ................................ 31 5.1. Especificação dos modelos utilizados ................................ 31 5.2. Descrição dos modelos base ............................................... 32 5.3. Resultados dos modelos estimados .................................... 34 5.3.1 Efeito do motivo de viagem ............................................. 35 5.3.2 Efeito da renda.................................................................. 35 5.3.3 Outros efeitos.................................................................... 37 5.3.4 Valor do tempo de viagem (VTV) e importância da margem de segurança (IMS) ............................................................................ 37 6. Conclusão ....................................................................................... 38 Agradecimentos.................................................................................. 39 ................................................................. 40 Capítulo 2 - Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da ..............................................43 Resumo ............................................................................................... 43 Abstract .............................................................................................. 44 1. Introdução ...................................................................................... 44 2. Análise Envoltória de Dados ......................................................... 46 3. Fronteira Invertida .......................................................................... 48 4. Programa de Concessões de Rodovias .......................................... 50 5. Modelagem e Caracterização do Problema .................................... 53 6. Resultados ...................................................................................... 54 7. Conclusão ....................................................................................... 56 ................................................................. 57 Capítulo 3 - Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília .........................................................................61 Resumo ............................................................................................... 61 Abstract .............................................................................................. 62 1. Introdução ...................................................................................... 62 2. Método da Pesquisa........................................................................ 63 3. Stakeholders (Grupos de Interesse) ................................................ 65 4. Análise de Redes Sociais ................................................................ 66 4.1. Rede como um todo ............................................................ 68 4.2. Rede centrada em ego ......................................................... 68 5. Estudo de Caso (VLT– Brasília) .................................................... 70 6. Apresentação e Análise dos Resultados ......................................... 71 7. Considerações Finais ...................................................................... 75 ................................................................... 76 Vida do Gás Natural Veicular Comprimido e da Energia Termelétrica a Gás ....................................................................79 Resumo ............................................................................................... 79 Abstract .............................................................................................. 80 1. Introdução ...................................................................................... 80 .............................................................. 81 3. Aplicação do Procedimento de Análise de Inventários de Ciclos de Vida .................................................................................................... 83 3.1 Fase 1: Objetivo e definição do escopo ............................... 83 3.2. Fase 2: Inventários de ciclos de vida .................................. 87 3.3. Fase 3. Avaliação dos dados ............................................... 88 3.4. Fase 4 – Comparação dos resultados .................................. 89 3.4.1. Comparação dos resultados sobre eficiências energéticas do ICV1 e ICV2 ........................................................................................ 89 3.4.2. Comparação dos resultados do consumo de energia no ICV1 e ICV2 ................................................................................................. 91 4. Considerações Finais e Sugestões .................................................. 94 ................................................................. 95 Capítulo 5 - Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional ....................................................................................................99 Resumo ............................................................................................... 99 Abstract ............................................................................................ 100 1. Introdução .................................................................................... 100 2. Modelo do SISTEMA CIRSO ..................................................... 103 2.1 Características do CIRSO ................................................. 109 2.2 Ação de controle de retenção hi,k ...................................... 109 2.3 Seqüenciamento dos ônibus ..............................................110 3. Estudo de Caso ..............................................................................110 4. Conclusões ....................................................................................112 Agradecimentos.................................................................................114 ................................................................114 Capítulo 6 - O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária ....................................................................................................115 Resumo ..............................................................................................115 Abstract .............................................................................................116 1. Introdução .....................................................................................116 2. Indicadores de Desempenho da Segurança de Tráfego .................118 3. Características Inerentes aos Microssimuladores......................... 123 3.1. Entrada de dados............................................................... 124 3.2. Saída de dados .................................................................. 124 3.3. Algoritmos de modelagem................................................ 125 4. Algoritmos de Modelagem do Aplicativo VISSIM ...................... 126 5. Calibração e Validação dos Microssimuladores ........................... 128 6. Validação do Desempenho da Segurança Viária .......................... 129 7. Conclusões ................................................................................... 130 ............................................................... 131 Capítulo 7 - Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas ....................................... 135 Resumo ............................................................................................. 135 Abstract ............................................................................................ 136 1. Introdução .................................................................................... 136 2. Descrição do Problema ............................................................... 140 3. Metodo Adotada ........................................................................... 141 3.1. Método de Resolução do PPV .......................................... 142 3.2. Heurística Primeiro Agrupa – Depois Programa .............. 143 3.2.1. Primeiro Agrupa ............................................................ 144 3.2.2. Depois Programa ........................................................... 144 3.3. Heurística Primeiro Programa – Depois Agrupa .............. 145 3.3.1. Primeiro Programa......................................................... 145 3.3.2. Depois Agrupa ............................................................... 146 4. Apresentação e Análise dos Resultados ....................................... 148 5. Conclusões .................................................................................. 150 Agradecimentos ............................................................................... 151 ............................................................... 151 Capítulo 8 - Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada ......................................................................... 153 Resumo ............................................................................................. 153 Abstract ............................................................................................ 154 1. Introdução .................................................................................... 154 2. O Problema do Carregamento de Cargas Parceladas na Literatura . 156 3. Modelo Matemático .................................................................... 158 4. Estratégia de Solução Baseada em Busca Tabu .......................... 160 5. Experimentos Computacionais.................................................... 164 6. Conclusões ................................................................................... 167 ............................................................... 169 Capítulo 9 - Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos ....................................................................... 171 Resumo ............................................................................................. 171 Abstract ............................................................................................ 172 1. Introdução .................................................................................... 172 2. Representação do Conhecimento ................................................. 173 2.1 Ontologia .......................................................................... 174 2.2 Redes semânticas ............................................................... 174 3. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas (STRC) ................. 176 3.1 Elementos dos Sistemas de Transportes ............................ 177 3.2 Transporte Rodoviário de Cargas ...................................... 180 4. Proposta de Estrutura dos Elementos do STRC ........................... 181 4.1 Procedimento geral para construção da estrutura de organização ................................................................................................. 182 4.2 Estrutura de organização: relações entre elementos .......... 183 4.3 Estrutura Organizada do Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas .......................................................................................... 185 5. Tópicos Conclusivos .................................................................... 187 Agradecimentos................................................................................ 188 ............................................................... 188 Capítulo 10 - Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil ............................. 191 Resumo ............................................................................................. 191 Abstract ............................................................................................ 192 1. Introdução .................................................................................... 192 2. Visão Geral do Método de Adaptação .......................................... 193 3. Adaptação do HCM2000 para Rodovias de Pista Simples .......... 194 3.1. Segmentos bidirecionais e direcionais.............................. 196 3.1.1. Velocidade de fluxo-livre............................................... 196 3.1.2. Taxa de fluxo ................................................................. 197 3.1.3. Relações Fundamentais de Tráfego ............................... 199 3.2. Rampas específicas ........................................................... 202 3.3. Segmentos direcionais com faixas adicionais .................. 207 4. Estimação do Nível de Serviço com a Adaptação Proposta 209 5. Recomendações ............................................................................ 210 Agradecimentos................................................................................ 210 ............................................................... 210 Prefácio O Prêmio CNT de Produção Acadêmica chega à sua 15ª edição em 2011, com o compromisso de apoiar iniciativas que tragam soluções para os problemas do transportador brasileiro. Desde 1996, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) homenageia os cional de Ensino e Pesquisa em Transportes (Anpet). A seleção dos trabalhos tem como critérios a originalidade, a atualidade e a relevância dos assuntos tratados, que deverão propor alternativas para situações relacionadas à gestão empresarial, aos custos operacionais, à qualidade do serviço prestado, a soluções tecnológicas e logísticas e à responsabilidade sócio-ambiental. Os artigos selecionados a cada ano são publicados no livro Transporte em Transformação como um registro das contribuições apresentadas por pesquisadores tes. Na edição 2011, a integração entre o mundo acadêmico e as reais necessidades do setor de transportes está presente mais uma vez nessa iniciativa da CNT. Os temas selecionados pela Comissão Julgadora do prêmio envolvem questões ambientais, de mobilidade urbana, operacionais, de regulamentação, de segurança viária, de gestão de frotas e de planejamento logístico do transporte de cargas. Tudo isso está presente nos artigos selecionados para integrar esta edição. Mergulhe fundo na leitura e descubra diferentes visões sobre temas ligados à infraestrutura, ao transporte e à logística no país. Esta edição é, portanto, mais um dos esforços empreendidos pela CNT para empresarial das ferramentas mais atuais desenvolvidas no meio acadêmico brasileiro. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso Terrestre a Aeroportos Considerando a Confiabilidade do Tempo de Viagem 1 Resumo acesso terrestre ao Aeroporto Internacional de São Paulo. A análise utilizou dados de uma pesquisa de preferência declarada conduzida com residentes na região viajando para destinos internacionais. Os indivíduos ordenavam 4 alternativas: automóvel, táxi, ônibus expresso existente e um trem expresso proposto, descritas pelos expressa através de uma margem de segurança. Modelos de escolha discreta foram estimados, considerando os efeitos de painel, aninhamento e de inércia. Os resulta- 22 Transporte em Transformação XV dos indicaram que viajantes a negócios e de alta renda são menos sensíveis ao custo viagem é maior do que a atribuída ao tempo esperado de viagem e não foi afetada por variações sistemáticas. Abstract The paper analyses systematic variation of tastes and preferences of air travelers regarding the choice of mode for the ground access to the São Paulo International Airport. A stated preference survey was conducted with individuals traveling to international destinations. Each respondent ranked 4 alternatives: auto, taxi, the existing express bus, and a proposed express train. Attributes describing modes were travel cost, average travel time and travel time reliability, expressed as a safety margin – the time period allocated by the individual for arriving at the airport at the preferred time. Discrete mode choice models were estimated, considering panel, nesting and inertia effects. Results indicated that business and higher income travelers are less sensitive to access cost. The importance of the reliability of travel time is higher than the importance of average travel time and is not affected by systematic variations. 1. Introdução O acesso terrestre a aeroportos em grandes áreas urbanas pode ser seriamente afetado pelo congestionamento de tráfego urbano; em alguns casos, o tempo de acesso pode ser maior do que o dedicado à viagem aérea propriamente dita. A provisão de acesso direto, muitas vezes por modo ferroviário, é uma importante alternativa considerada nestes casos. O estudo de viabilidade para este tipo de investimento a demanda atraída por novos modos de transporte. Para prever a demanda é comum a utilização de modelos que consideram atriUsualmente, os modelos restringem-se a representar tempos e custos de viagem, variáveis mais facilmente mensuráveis. Reconhece-se, porém, que outros fatores afetam, alguns deles de forma importante, o comportamento da demanda. Entre estes, Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 23 nos deslocamentos, geralmente em conseqüência da presença de congestionamentos. A escolha de modo no acesso terrestre a aeroportos vem sendo estudada na literatura recente como um tópico de interesse acadêmico e aplicação prática (Transportation Research Board, 2008; Tsamboulas e Nikoleris, 2008). Ao mesmo tempo, portante, na medida em que avanços conceituais e metodológicos são incorporados na análise (ITS, 2008; Vincent, 2008; Brownstone e Small, 2005). No entanto, são do tempo de viagem no acesso a aeroportos – (Koster , 2010; Tam , 2008), implicariam altos custos. atribuída pelos viajantes aos fatores que afetam a escolha do modo de acesso ao aeroporto internacional de São Paulo. Atualmente, o acesso de/para o centro de São Paulo é feito utilizando uma via expressa que apresenta elevados níveis de congestionamento; os tempos de viagem podem variar entre 40 minutos e mais de 2 horas para uma viagem de cerca de 25 km, dependendo das condições de tráfego. Como motivação adicional, existem propostas para a construção de uma ligação expressa ferroviária ao aeroporto, que se distinguiria dos outros modos em virtude de uma tam a escolha do modo, foi realizada uma pesquisa de preferência declarada – PD – com viajantes partindo em vôos internacionais; os resultados foram utilizados para a estimação de modelos de escolha discreta de modo de transporte no acesso terrestre ao aeroporto. O artigo está estruturado da seguinte maneira: o item 2 apresenta uma revisão dados é descrito no item 3, enquanto no item 4 são feitas algumas análises prelimidos resultados são feitas no item 5, seguindo-se as conclusões. Este artigo estende trutura de modelos que melhor descrevessem o comportamento observado. 24 Transporte em Transformação XV 2. A Confiabilidade do Tempo de Viagem Bates ras de expressar a variabilidade do tempo de viagem (como percebido pelo indivídade do tempo de viagem está associada com a noção estatística de variabilidade, que é a variância da distribuição, que por sua vez está relacionada ao tempo médio de viagem. Para os autores, todos os efeitos não originados exclusivamente da variabilidade – efeitos não aleatórios – devem ser descartados. Nesse sentido, variações decorrentes de congestionamento diário recorrente não devem ser incluídas na análise, porque eles não estão associados à variabilidade aleatória do tempo de síveis, para esses autores, não são medidas da variabilidade do tempo de viagem. No entanto, essa pode não ser a maneira como a variabilidade do tempo de viagem é compreendida pelos indivíduos. É difícil garantir que estes incluam em laciona-se à repetição e regularidade, há casos, como no acesso a aeroportos, nos quais as viagens não são frequentes. Mesmo que haja uma variação sistemática nos tempos de viagem, ela pode não ser conhecida ou percebida pelos indivíduos. De acordo com Noland e Polak (2002), há ainda grande incerteza quanto à capacidade de capturar de fato as percepções que as pessoas têm da variabilidade do tempo de viagem. Um recente e vasto estudo sobre o assunto conduzido pelo Institute for Transport Studies da Universidade de Leeds (ITS, 2008) indica a necessidade de pesquisa substancial sobre a valoração da variabilidade do tempo de viagem, investigando como a informação pode ser apresentada aos indivíduos e também como os dados coletados. No nosso estudo, uma característica importante delimita o conjunto de variáveis que podem ser utilizadas para indicar a variabilidade do tempo de viagem; no acesso terrestre a aeroportos, é comum que os viajantes agendem seu horário de que no vôo desejado. As companhias de aviação geralmente sugerem que viajantes internacionais estejam no aeroporto com (pelo menos) duas horas de antecedência Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 25 em relação à partida (a margem da companhia aérea para realizar o e operações de despacho no aeroporto). Porém, a escolha do horário preferido de chegada ao aeroporto varia entre os viajantes e pode coincidir – ou não – com o sugerido pela companhia aérea (os viajantes mais frequentes podem se expor mais ao risco, os viajantes decidem a sua hora de partida da origem (residência, trabalho, etc.) com base no tempo esperado de viagem e na variabilidade percebida do tempo de viagem. Eles adotam uma que os permita chegar ao aeroporto e proceder ao embarque com mais ou menos conforto, de acordo com a sua percepção. Pells (1987) sugere que a margem de segurança é a forma como as pessoas reagem à variabilidade; portanto, seria a melhor maneira de medir a percepção de a diferença entre o horário de chegada e o começo do turno de trabalho. Para Pells, forças contrárias estão agindo: o indivíduo tenta restringir atrasos a um nível aceitável, maximizando o tempo livre. Em um experimento preferência declarada, além das incertezas que os viajantes têm que lidar neste tipo de viagem (infrequente e não familiar, requerendo uma margem de segurança no aeroporto), existe uma considerável quantidade de bilidade. Eles têm que conhecer as alternativas de transporte público disponíveis (nossa pesquisa revelou que muitas vezes mesmo os residentes em São Paulo não tinham esse conhecimento) e selecionar hipoteticamente quais os terminais e modos de transporte até esses terminais eles escolheriam caso selecionassem determinada alternativa. Noland e Polak (2002) ressaltam que está presente uma complexidade adicional quando os viajantes têm que realizar uma transferência entre modos de transporte. o tempo reservado para a viagem terrestre para se chegar ao aeroporto no horário desejado, que pareceu de mais fácil compreensão pelos entrevistados, permitindoos realizar escolhas hipotéticas. A margem de segurança é um conceito mais simples em relação aos enfoques baseados em programação ( ) propostos na literatura (Hollander, 2006), já que não explicita as considerações de hora de saída e preferida de chegada, assim como os custos por chegada adiantada ou atrasada. 26 Transporte em Transformação XV 3. Coleta de Dados 3.1. População pesquisada e estrutura da pesquisa Em junho de 2005, dados de preferência revelada (PR) e declarada (PD) foram coletados de viajantes para destinos internacionais no Aeroporto Internacional de São Paulo. Entrevistas face-a-face utilizando foram realizadas nos portões de embarque, com passageiros selecionados “aleatoriamente”. As entrevistas foram aplicadas somente a residentes da Região Metropolitana de São Paulo buscando-se reduzir o viés gerado pela possível falta de informação sobre as alternativas disponíveis para o acesso ao aeroporto. As entrevistas foram conduzidas em duas sextas-feiras e dois sábados. Esses dias apresentam características de acesso distintas; sexta-feira é em geral o dia da semana com as piores condições de tráfego, enquanto que aos sábados congestionamentos são menos frequentes. As entrevistas foram realizadas em 3 estágios. No primeiro estágio, dados sócio-econômicos e sobre a viagem aérea e terrestre foram levantados. No segundo estágio, o trem expresso proposto e o serviço de ônibus direto de alta qualidade foram apresentados. O conceito de margem de segurança foi também apresentado como detalhado abaixo. No terceiro estágio, o entrevistado ordenava alternativas de transporte segundo sua preferência, de acordo com o experimento descrito a seguir. 3.2. Experimento de preferência declarada A coleta de dados PD vem se tornando a principal forma de coleta de dados sobre comportamento da demanda (Louviere , 2000). Enquanto modelos estimados com dados observados – dados de preferência revelada – PR – tendem a ser mais aderentes às escolhas realizadas pelos indivíduos, modelos PD apresentam mais estabilidade no tempo e no espaço. Dados PR são úteis para prever mudanças no equilíbrio de curto prazo, enquanto dados PD são ricos em informação sobre entre características das alternativas e melhores para prever comportamento. Outra vantagem dos dados PD é que eles contêm mais informação por entrevistado, já que cada indivíduo provê múltiplas respostas em cenários de escolha ou ordenação de alternativas. Amostras de indivíduos em pesquisas PD tendem então a serem menores do que as necessárias usando dados PR para a construção de modelos. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 27 A pesquisa foi baseada em um experimento fatorial ortogonal de escolha (Louviere , 2000). Três atributos foram considerados no acesso terrestre ao aeroporto – custo de viagem, tempo médio de acesso e margem de segurança do tempo de acesso – todos apresentados em três níveis. O desenho foi elaborado de modo a eliminar situações dominantes de escolha (com os três atributos de uma alternativa melhores – ou piores – do que os das outras alternativas). Os questionários foram construídos para evitar fadiga e protocolos de decisão tais como omissão de restrições e outros vieses. Cada indivíduo procedia à execução de três exercícios de ordenação ( ) ou cenários, cada um deles contendo um conjunto de quatro alternativas, uma para cada modo considerado: carro, táxi, o serviço de ônibus direto existente (que parte de diversos terminais em São Paulo) e o novo trem expresso proposto, ligando o centro de São Paulo ao aeroporto. Para tornar o experimento mais realista, cenários individualizados de tempo e custo de viagem foram construídos utilizando a informação do bairro de origem da viagem terrestre, como informado pelo entrevistado. Para o ônibus e o trem, a necessidade de se estimar tempos e custos associados ao acesso ao terminal foi enfatizada e o passageiro deveria escolher um modo de transporte para essa etapa da viagem. Solicitou-se ainda aos entrevistados considerar que a viagem aérea seria realizada sem acompanhantes. 3.3. Apresentação do conceito da margem de segurança O conceito de margem de segurança foi apresentado ao entrevistado duas vezes ao longo da pesquisa. Em um primeiro estágio, o conceito foi introduzido e o respondente foi solicitado a responder à seguinte questão: “No acesso terrestre ao aeroporto, normalmente enfrentamos congestionamento que afeta o nosso tempo de viagem. Quanto tempo você reserva para sua viagem terrestre para chegar no horário desejado, considerando o modo de transporte utilizado?” Mais tarde, na etapa do experimento PD, uma probabilidade foi associada ao conceito de margem de segurança: “No primeiro estágio desta pesquisa, você respondeu quanto tempo reservava para chegar no aeroporto no horário desejado. Você escolheu o que chamamos de uma margem de segurança”… “Com os valores de margem de segurança apresentados no próximo estágio, você pode considerar que chegará ao aeroporto no horário desejado em 90% das vezes.” 28 Transporte em Transformação XV É importante mencionar que os entrevistados pareceram compreender bem o conceito, como se escolher uma margem de segurança fosse um processo familiar. Além disso, eles pareceram confortáveis com a forma como a margem de segurança foi apresentada, com a hipótese de 10% de chance de chegar atrasado (um indicador de atitude face ao risco). 4. Análise Premilinar dos Dados Coletados No total, 105 indivíduos foram entrevistados, sendo 39 mulheres e 66 homens, com uma média de idade de 39 anos. A Tabela 1 indica que o motivo mais comum de viagem foi o de negócios (57%), seguido de lazer (34%); viagens que combinavam esses dois motivos representaram 7% da amostra e os 3% remanescentes viajaram por outras razões. A renda declarada individual é superior a R$ 4.000/mês para 57% dos entrevistados e inferior a este valor para 23% dos entrevistados; 20% optou por não declarar a renda. A tabela mostra ainda que viajantes a negócio eram mais frequentes nos sábados, o que deve ter ocorrido pela amostra ser composta apenas por viajantes internacionais. Tabela 1: Distribuição dos indivíduos entrevistados por motivo, renda e dia da semana Motivo Negócios Lazer Ambos Outros Total Renda Individual Mensal <= R$4.000 > R$4.000 não informou 67% 29% 4% 0% 23% 62% 28% 7% 3% 57% 33% 57% 5% 5% 20% Dia da Semana Sex ta Sábado 48% 36% 9% 7% 42% 64% 33% 3% 0% 58% Todos 57% 34% 6% 3% A Tabela 2 apresenta os modos de transporte utilizados pelos entrevistados em seu acesso terrestre. O questionário permitia a combinação de até três modos para o acesso terrestre, mas apenas 5 pessoas utilizaram mais de um modo. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 29 Tabela 2: Distribuição dos modos de transporte no acesso terrestre Modo de Transporte Modo 1(*) Modo 2 Carro 62 (59%) 3 Táxi 36 (34%) 1 Ônibus 5 (5%) - Outros 2 (2%) - Metrô - Total 105 1 (100%) 5 (*) Modo 1 é o utilizado no ultimo trecho no acesso ao aeroporto. Os resultados obtidos no terceiro estágio da pesquisa, o exercício de ordenação PD, indicaram forte preferência pelo trem, como demonstrado na Tabela 3. Em 46% dos cenários, o trem foi escolhido em primeiro lugar, superando os demais modos; porém, este foi também escolhido como última opção em 25% dos cenários. O carro foi a primeira escolha em 35% dos cenários; foi ainda o modo com menor índice de rejeição, sendo escolhido por último em apenas 16% dos cenários. Tabela 3: Resultados da ordenação feita pelos entrevistados no experimento PD Modo de Transporte 1ª opção 2ª opção 3ª opção 4ª opção Carro 35% 26% 23% 16% Táxi 11% 27% 20% 42% Ônibus 8% 30% 45% 17% Trem 46% 17% 12% 25% 4.1. Indivíduos com comportamento não compensatório Uma análise detalhada dos dados indicou que 75% dos entrevistados não mudaram a sua alternativa preferida nos três cenários. Duas categorias de indivíduos podem ser caracterizadas neste caso. A primeira inclui os entrevistados que escolheram como primeira opção na ordenação, nos três cenários de escolha, o modo 30 Transporte em Transformação XV de transporte utilizado no seu acesso terrestre naquele dia (modo da preferência revelada). Esses podem ser considerados cativos da sua escolha anterior, compondo uma categoria de indivíduos denominada de (Hess , 2010). Esse é um comportamento não compensatório, no qual a piora de um atributo não pode ser compensada pela melhora de outro. As funções de utilidade nos modelos de escolha discreta geralmente consideram comportamento compensatório e, portanto, recomenda-se excluir esses indivíduos da amostra. Havia 33 indivíduos nesta situação (25 cativos do carro) e eles foram excluídos da amostra, reduzindo-a a 72 indivíduos. Embora a retirada desses indivíduos impacte principalmente nas constantes A segunda categoria seria a de entrevistados que escolheram o trem como sua primeira opção em todos os cenários; estes não podem ser considerados cativos uma vez que esta não é atualmente uma opção existente. Esse resultado pode ter ocorrido devido às diferenças entre os níveis adotados para os atributos, que podem víduos mudarem sua alternativa preferida nos três cenários. Variações maiores nos níveis, por outro lado, poderiam ter gerado alternativas não realistas. Outra possível explicação seria a presença de um viés de intenção política ( ), quando os (no sentido proposto por Hess , 2010) pela alternativa trem, revelando a possível importância que seus atributos têm para o consumidor, em particular a variabilidade do tempo de viagem. Deve ser lembrado que o indivíduo era solicitado a considerar que a viagem era realizada desacompanhado, o que pode ter contribuído para aumentar a atratividade do trem. Por estas razões, esses indivíduos foram mantidos na amostra utilizada para a estimação dos modelos. 4.2. Inconsistências na ordenação Exercícios de ordenação contêm múltiplas escolhas implícitas (pseudo-observações). No experimento aqui descrito pode-se dizer que a primeira escolha foi feita entre um conjunto de quatro alternativas, a segunda entre um conjunto de três alternativas (as restantes) e assim por diante. Nesse tipo de aplicação, porém, obserintermediárias são ordenadas com menor atenção. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 31 Existem procedimentos relativamente complexos para lidar com este efeito, que pode ser representado admitindo-se diferentes variâncias para a variável dependente – a alternativa escolhida – dependendo do nível de ordenação (Ortúzar e Willumsen, 2001). Ben-Akiva (1991) investigaram dados de em “profundidade” do e demais escolhas. Para Louviere regularidade de preferências entre as diferentes fontes de dados. para cada uma das diversas profundidades dos que incluíram escolhas de todas as profundidades foi menor do que modelos que incluíram apenas as primeiras escolhas. Com base nesses resultados, os dados para estimação dos modelos foram restritos às primeiras escolhas apenas; as respostas de ordenação foram substituídas por uma escolha simples entre quatro alternativas. Essa decisão resultou em uma redução dramática da informação disponível para estimação dos modelos. Além de um possível viés nas estimativas, essa redução dos - 5. Estimação dos Modelos de Escolha Discreta 5.1. Especificação dos modelos utilizados Modelos de escolha discreta foram estimados para avaliar a importância atrimodelos do tipo logit misto ( ) vêm sendo utilizados de forma crescente, em função de avanços teóricos e em capacidade de processamento. Esses modelos que não dependem das hipóteses de independência e homocedasticidade da parcela aleatória da utilidade das alternativas (Train, 2009). A partir de um conjunto de modelos logit misto desenvolvidos por Alves e Strambi (2010), foram selecionados dois modelos que serviram de base para novas lação amostrada, melhorando a aderência dos modelos base aos dados e possivel- 32 Transporte em Transformação XV os casos, foram adotadas funções de utilidade linear, uma hipótese muito comum nas aplicações práticas (ITS, 2008). Para representar nos modelos de escolha discreta variações de gostos ou preferências em uma população, pode-se proceder de duas maneiras: admitindo variações sistemáticas de acordo com condições sócio-econômicas dos indivíduos função de utilidade variem na população segundo uma distribuição probabilística; os parâmetros destas distribuições (em geral valores esperados e variâncias) podem aleatórios tenham sido testadas, estas não mostraram superioridade estatística quanModelos com variações sistemáticas de preferência foram preferidos, utilizando-se variáveis binárias ( ) para categorizar indivíduos na amostra. Essas variáveis binárias podem então interagir com os atributos (e com constantes espe(em relação à categoria de referência) (Ortúzar e Willumsen, 2001; Brito e Strambi, dos indivíduos, como idade, gênero, renda, viajante frequente ou não, ou características da viagem, como motivo, dia da semana, etc. 5.2. Descrição dos modelos base Com base nos dois melhores modelos obtidos por Alves e Strambi (2010) e utilizando o mesmo conjunto de dados, foram exploradas possíveis variações sistemáticas de preferências, objetivo deste trabalho. Naquele estudo, detectaram-se dois tipos de correlação importantes. Primeiro, a existência (esperada) do efeito painel – a correlação existente entre as respostas de um mesmo indivíduo, pela existência de fatores que são comuns às suas escolhas, tais como suas características sócio-econômicas (Hensher e Greene, 2003). Modelos estimados com dados obtidos em pesquisas de preferência declarada, que coletam múltipas respostas de cada indivíduo, devem incluir um termo que leve em conta o efeito painel. Não é possível representar adequadamente o efeito painel em modelos logit multinomial, sendo Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 33 as alternativas de transporte coletivo (ônibus direto e trem expresso), possivelmente decorrente do fato desses modos compartilharem características importantes, como o desconforto/incerteza da espera em um terminal ou a falta de privacidade, não explicitamente consideradas na parcela observável da utilidade. A correlação entre alternativas pode ser representada em modelos logit hierárquicos (ou aninhados). Porém, esses modelos não permitem capturar o efeito painel, tornando-se necessário adotar uma estrutura que acomode os dois tipos de correlação observados, como o modelo base II apresentado abaixo. O modelo base I é um modelo logit misto do tipo componentes de erro ( ) (Train, 2009). Apesar de formalmente iguais, o modelo de componendistribuição probabilística. São chamados de componentes de erro porque o erro (a parte não observável da utilidade) é dividido em duas parcelas: uma parcela aleatória, que pode seguir qualquer distribuição, incluindo a normal, e uma parcela independente, identicamente distribuída como valor extremo (a mesma que dá origem aos modelos logit multinomial). O modelo base II é um modelo do tipo hierárquico (também chamado de generalizado de valor extremo, GEV, em inglês) misto (componentes de erro), que inclui em sua equação de utilidade termos que permitem representar os dois tipos de correlação: entre as alternativas (ninho) e entre respostas de um mesmo indivíduo (o efeito painel) (Train, 2009). O ninho considerado reuniu os modos de transporte coletivo (trem e ônibus). tativa do efeito de hábito ou inércia, que leva o indivíduo a preferir alternativas conhecidas. Nesses casos, o comportamento é considerado como compensatório, mas a atratividade das alternativas menos utilizadas ou conhecidas tem que ser suNo caso de viagens não frequentes, como ao aeroporto, existem ainda menos oportunidades de se conhecer os atributos de alternativas nunca ou raramente utilizadas, o que pode reforçar o efeito de inércia na escolha do modo de acesso. Esse aspecto do comportamento pode ser capturado nos modelos de escolha discreta introduzindo uma variável que represente a escolha prévia do indivíduo em uma situação semelhante. Neste estudo, estava disponível a informação sobre o modo utilizado 34 Transporte em Transformação XV pelo entrevistado na viagem de acesso ao aeroporto (PR). Foi introduzida um variável binária nas funções de utilidade, recebendo o valor 1 no caso do modo utilizado no acesso, e zero nas funções de utilidade dos modos restantes. No caso do modelo principalmente, apresentar sinal contrário ao esperado. 5.3. Resultados dos modelos estimados Os modelos foram estimados com o Biogeme (Bierlaire, 2008). A Tabela 4 apresenta os resultados da estimação dos modelos base e demais modelos que buscaram capturar variações sistemáticas de preferências. Analisando inicialmente os modelos base observa-se que o modelo base II apresenta melhor aderência aos dados do que o modelo base I ( 2 ajustado = 0,388 e 0,371, respectivamente); decidiu-se, porém, manter o modelo base I uma vez que este capturou da forma esperada o efeito de inércia e apresentou resultados interessantes no caso da categoria de viajantes a negócios, como será discutido a seguir. No caso do modelo base II, pode-se também observar na tabela a estimativa do valor do parâmetro do ). Em alguns modelos, os valores das coletivo estatísticas t-Student são relativamente baixos, fato que pode decorrer da reduzida amostra disponível; esta consideração levou à manutenção das variáveis nos modesinais esperados. É importante destacar que em geral não é possível comparar diretamente os dos modelos base I e II, em função dos diferentes fatores de escala implícitos. Pode. A Tabela 4 apresenta duas estimativas de : o valor do tempo de viagem (VTV) e a importância Os itens a seguir discutem os resultados dos modelos obtidos a partir dos modelos base, incorporando interações que buscaram capturar variações sistemáticas com todos os atributos da função de utilidade, apenas as interações com o custo de são apresentados na Tabela 4. O modelo base I deu origem aos modelos 1.1 e 1.2 na tabela; os modelos 2.1 e 2.2 são derivados do modelo base II. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 35 5.3.1 Efeito do motivo de viagem Diversos autores concordam que viajantes a negócios apresentam valores do tempo até 80% mais altos do que viajantes por outros motivos (Pels 2003, Tsamboulas e Nikoleris, 2008). Estes tendem a valorizar mais o tempo de viagem e menos o custo, seja porque não pagam por sua viagem (que pode ser paga pela empresa), seja porque o tempo gasto no acesso ao aeroporto pode ser considerado como tempo de trabalho desperdiçado. O modelo 1.1 incorpora uma variável biná- baixa. O ajuste do modelo, indicado pelo valor de 2 ajustado, decresce com a inclusão de mais uma variável. A interação custo-negócios utilizando o modelo base 5.3.2 Efeito da renda considerando que a taxa de escolha de modos coletivos no experimento é muito similar para viajantes de alta e baixa renda. Por outro lado, conforme mostram os duz drasticamente a sensibilidade dos passageiros de alta renda (>R$4000/mês em junho de 2005) em relação ao custo da viagem. A baixa sensibilidade dos viajantes aéreos com relação aos custos do acesso terrestre foi também observada por outros autores (Koster , 2010). Nota-se ainda que a inclusão da interação da variável conjuntamente o efeito de renda e do motivo de viagem e suas interações com o Modelo 1.1 Modelo 1.2 Modelo Base II Modelo 2.1 Modelo 2.2 1,16 1,85 1,03 3,60 1,39 2,93 0,98 (0,0078) (0,0165) 0,3915 2,2727 1,2899 2,1302 0,6202 0,0000 0,0 0 (1) (2) 2,93 1,01 1,16 1,85 1,05 3,62 1,46 1,74 1,07 0,386 -175,0 41,61 4,64 2,2 5000 0,000 0,0 0 (3) (4) 3,01 1,00 2,70 1,14 1,85 1,15 3,64 1,47 0,0362 (0,0078) (0,0169) 0,4527 2,2804 1,3769 2,2024 0,6357 2,73 (0,0407) * Valores ajustados para dólares (1US$ = R$ 2.4743 em 10/06/2005) renda > R$4000, (4) 0,000 0,371 (3) 0,370 0,0 -180,3 viajantes a negócio, (2) não-negócios -179,7 0 18,93 9,47 2,1 5000 2,1750 0,6515 (0,0078) (0,0166) 0,4045 2,3287 1,3718 (0,0200) 0,0100 2,1 5000 14,17 1,41 (0,0134) 0,388 -175,3 2,2 5000 17,55 0,000 0,0 0 3,56 3,05 1,29 3,67 0,96 2,3474 0,7002 2,3769 2,1739 4,1243 1,30 1,60 1,15 (0,0039) (0,0084) (0,0054) 0,399 -170,9 74,24 4,63 2,3 5000 2,2791 2,0427 3,4520 2,3054 0,8344 0,0225 (0,0046) (0,0104) (0,0240) 0,000 0,0 0 (3) (4) 3,51 3,03 2,24 3,67 1,11 2,21 1,46 2,02 2,20 0,402 -169,1 65,49 4,93 2,3 5000 0,000 0,0 0 (3) (4) 3,57 3,12 2,05 1,70 1,3457 2,3064 2,1001 3,8783 3,63 0,22 1,93 1,40 1,88 1,97 2,2774 (0,2230) 0,0187 (0,0041) (0,0093) (0,0203) Estimativa Teste-t Estimativa teste-t Estimativa teste-t Estimativa teste-t Estimativa teste-t Estimativa teste-t Modelo Base I (1) VTV* VTV* IMS Número de draws Máxima verossimilhança r2 ajustado Custo Custo-Negócios Custo-Renda Tempo de Viagem Margem de Segurança Inércia Sigma_Painel Constante Táxi Constante Táxi_Negócios Constante Trem Constante Ônibus μcoletivo Variável Tabela 4: Modelos Estimados 36 Transporte em Transformação XV Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 37 5.3.3 Outros efeitos Diversas outras categorias da população amostral foram analisadas para veescolha do modo e uma eventual preferência feminina pelos modos não coletivos, frequência de viagens do viajante e suas interações com os atributos de escolha. feira x sábado), considerando as diferenças de tempo esperado de viagem e, principalmente, variabilidade do tempo de viagem. binária indicativa do motivo de viagem, além da interação custo-renda já descrita (modelo 2.1). A idéia é a de que viajantes a negócios apresentem uma preferência cios para o indivíduo que viaja desacompanhado (situação mais comum em viagens a negócios), que pode também não ter a disponibilidade de carona para o aeroporto. Além disso, em alguns casos, o viajante a negócios tem como origem de sua viagem terrestre o local de trabalho, tornando o táxi uma opção mais adequada. O modelo 2.2 apresenta o maior 2 ajustado entre os modelos testados (passando de 0,388 no 5.3.4 Valor do tempo de viagem (VTV) e importância da margem de segurança (IMS) O VTV apresentou variações interessantes entre os modelos apresentados na Tabela 4. Considerando os modelos base I e II, os valores do tempo não foram muito diferentes para o conjunto da amostra (cerca de US$14 e US$18, respectivamente). Viajantes a negócio revelaram um VTV cerca de 2 vezes maior do que viajantes por outros motivos (modelo 1.2). Koster (2010) encontraram resultados semelhantes, embora os VTV calculados por estes sejam sensivelmente maiores (da ordem de grandeza de 90€/hora para viajantes a negócio). Valores mais próximos a esses (entre US$65/hora e US$74/hora) foram encontrados para viajantes 38 Transporte em Transformação XV acesso terrestre. Para viajantes no estrato de renda inferior a R$4000, os valores do tempo são bastante estáveis entre modelos (1.2, 2.1 e 2.2), ligeiramente inferiores a US$5/hora. ções testadas, aumentando nos modelos com melhor ajuste. O IMS calculado indica que os viajantes, quando desacompanhados, valorizam a margem de segurança cerca de duas vezes mais do que valorizam o tempo de viagem. A literatura apresenta estudos concorda que a variabilidade do tempo de viagem é mais valorizada do que o tempo de viagem propriamente dito (ITS, 2008). 6. Conclusão As características do acesso terrestre a um aeroporto afetam sua atratividade, e diversos autores têm incluído variáveis de acesso terrestre nos modelos de demanda de aeroportos, tais como tempo de viagem e custo. No entanto, os efeitos da variabilidade do tempo de viagem são raramente considerados nestes estudos, apesar de sua importância em uma viagem que requer um elevado grau de pontualidade. Esse artigo utiliza os resultados de uma pesquisa de preferência declarada viagem na escolha de modo de transporte para o acesso terrestre a aeroportos. O aeroporto internacional André Franco Montoro, em São Paulo, foi utilizado como (por carro, táxi ou ônibus direto) e a proposta de se construir uma ligação expressa ferroviária com o centro da cidade. Foram coletados dados de viajantes a destinos internacionais. Os atributos utilizados para descrever o experimento de escolha PD tempo alocado pelo indivíduo para chegar ao aeroporto no horário desejado. Uma análise preliminar dos dados mostrou uma forte preferência pelo trem, um modo Os dados PD foram utilizados para a estimação de modelos de escolha discreta. Um modelo de componentes de erro e um modelo hierárquico misto, desen- Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 39 volvidos em um trabalho anterior (Alves e Strambi, 2010), foram utilizados como base para a análise neste artigo. Em uma busca por variações sistemáticas de pre- semana (sexta e sábado), apesar destes apresentarem diferenças consideráveis em termos de tempo de viagem e variabilidade. mente comparáveis devido a diferenças de escala, os , calculados como foram calculados: o valor do tempo de viagem e o índice de importância da margem de segurança. Os resultados indicam que viajantes a negócios apresentam valor do tempo cerca de duas vezes maior que os viajantes por outros motivos, e viajantes de alta renda apresentam baixa sensibilidade ao custo, apresentando por vezes valores do tempo muito altos, fato também constatado por outros autores. Os modelos estimados indicam também que o táxi apresenta maior atratividade para os viajantes a negócio do que para viajantes em relação às demais alternativas. Embora calculados segundo cenários bastante diferentes, os estudos enconmaiores do que para o tempo de viagem. Em concordância com estes resultados, este estudo indica que a margem de segurança tem uma importância relativa de cerca de um pouco mais de duas vezes a do tempo de viagem médio. Este resultado Agradecimentos Dios Ortúzar, Elisabetta Cherchi e Sebastián Raveau foram de inestimável ajuda na estimação dos modelos. 40 Transporte em Transformação XV Referências Bibliográficas Alves, B.B. (2005) A importância da variabilidade do tempo de viagem no acesso terrestre a aeroportos: estudo de caso do Aeroporto Internacional André Franco Montoro. . Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo. Alves, B.B.; Strambi, O. (2010) Travel time reliability on airport ground access. Proceedings . WCTR, Lisboa. Bates, J.; Cook, A.; Jones, P.; Polak, J.W. (2001). The valuation of reliability for personal travel. , 37, 191-229. Ben-Akiva, M.; Morikawa, T.; Shiroishi, F. (1991). Analysis of the reliability of preference ranking data. 23, 253-268. Bhat, C. R.; Sardesai, R. (2006). The impact of stop-making and travel time reliability on commute mode choice. Transportation Research B, 40, 709-730. Bierlaire, M. (2003). BIOGEME: a free package for the estimation of discrete choice models, 3rd Swiss Transportation Research Conference, Ascona. Bierlaire, M. (2008). Brito, A.N.; Strambi, O. (2007). Análise de características relacionadas à variação do valor do tempo de viagem de motoristas usando técnicas de preferência declarada. , 15, 50-57. Brownstone, D.; Small, K.A. (2005). Valuing time and reliability: assessing the evidence from road pricing demonstrations. , 39, 279–293. Hensher, D.A.; Greene, W.H. (2003). The Mixed Logit model: the state of practice. , 30, 133–176. Hess, S.; Rose, J.M; Polak, J. (2010). Non-trading, lexicographic and inconsistent behaviour in stated choice data. , 15, 405-417. Hollander, Y. (2006). Direct versus indirect models for the effects of unreliability. , 40, 699–711. Institute for Transport Studies (2008). . University of Leeds, Leeds. Koster, P.; Kroes, E.; Verhoef, E.T. (2010) . Tinbergen Institute Discussion Paper TI 2010-061/3. Tinbergen Institute, Amsterdam. Louviere, J.J.; Hensher, D.A.; Swait, J.D. (2000). . Cambridge University Press, Cambridge. Variação Sistemática da Preferência em Modelos de Escolha de Modo no Acesso 41 Noland, R.B.; Polak, J.W. (2002). Travel time variability: a review of theoretical and empirical issues. , 22, 39-54. Ortúzar, J.D.; Willumsen, L.G. (2001). . 3.ed. Wiley, Chichester. Pells, S. (1987). The evaluation of reductions in travel time variability. . University of Leeds, Leeds. Pels, E.; Nijkamp, P.; Rietveld, P. (2003). Access to and competition between airports: a case study for the San Francisco Bay area. , 37, 71-83. Swait, J.; Louviere, J. (1993). The role of the scale parameter in the estimation and use of multinomial logit models. , 30, 305-314. Tam, M. L.; Lam, W. H. K.; Lo, H. P. (2008). Modeling air passenger travel behavior on airport ground access mode choices. , 4,135-153. Train, K. (2009). , 2. ed. Cambridge University Press, Cambridge. Transportation Research Board (2008). Airport ground access mode choice models. ACRP Synthesis 5. Transportation Research Board, Washington, D.C. Tsamboulas, D.A.; Nikoleris, A. (2008). Passengers’ willingness to pay for airport ground access time savings. , 42, 1274-1282. Vincent, M. (2008). . Land Transport New Zealand Research Report 339. Land Transport New Zealand, Wellington. Bianca Bianchi Alves ([email protected]) Orlando Strambi ([email protected])Departamento de Engenharia de Transportes Escola Politécnica da Universidade de São Paulo Av. Prof. Almeida Prado, trav. 2, n. 83 05508-900, São Paulo, SP Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da Eficiência de Rodovias Federais Concessionadas 2 Resumo Com base nos relatórios anuais de 2008 publicados pela Agência Nacional de rodovias federais que fazem parte do Programa de Concessão de Rodovias. Foram incluídas na avaliação as concessionárias participantes da primeira etapa do Programa. O estudo foi realizado utilizando a Análise Envoltória de Dados, considerando como os bens de capital e os recursos humanos utilizados pelas concessionárias e como o total de veículos que passam pela rodovia (representado pelo volume de veículos pedagiados) e o total de atendimentos. Para aumentar a discriminação entre as rodovias aplicou-se a fronteira invertida, e assim, concluiu-se que 44 Transporte em Transformação XV Abstract Based on the 2008 annual reports published by the Brazilian National Agency Brazilian Federal Highways that took part on the Highways Grant Program. Were included in the assessing the concessions that participate in the First Stage of the Program. The study uses Data Envelopment Analysis, with the capital goods and human resources as inputs and the total of vehicles that goes through the highway (represented by the number of vehicles tolled) and the total of attendances. In order to have a higher discrimination between the highways it’s applied the Inverted Frontier, that 1. Introdução O transporte é um setor essencial para um país e a sua população. Segundo de desenvolvimento, da qualidade de vida e do bem estar da população. Segundo dados do Ministério do Transporte (2008), o modo rodoviário corno país. Apesar da elevada importância deste modo, os investimentos governamentais para ampliação e manutenção de rodovias vêm reduzindo drasticamente nas últimas décadas, principalmente após a extinção do Fundo Rodoviário Nacional (FRN), em 1988 (Harral e Faiz, 1988; Schliessler e Bull, 1994). A concessão de rodovias com pagamento de pedágio foi a alternativa encontrada para alavancar recursos e fazer os investimentos necessários para a melhoria do sistema rodoviário no país. Além da manutenção, as concessionárias também devem prestar serviços de atendimento ao usuário e emergenciais, como médicos em acidentes e guinchos para veículos avariados. vias federais reguladas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Para isso, serão avaliados o uso de bens de capital e a gestão de pessoal na operacionalização da rodovia através da Análise Envoltória de Dados (DEA – sigla do inglês, ) Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 45 Destaque-se que grande parte dos estudos que envolvem concessões rodoviáque surgem a partir das diferentes visões dos envolvidos (governo, concessionária e usuários). Veloso & Carvalho (2004) apresentam um modelo de Programação Linear Inteira Mista para otimização de um projeto de concessão rodoviária sob a perspectiva do Rocha e Vanalle (2003) apresentam um modelo mais abrangente para o processo de decisão de seleção das rodovias a serem pedagiadas que leva em conta conceitos além do . Dalbem et al. (2010) fazem recomendações para a melhoria das metodologias de análise de projetos especialmente no que concerne à avaliação dos benefícios de segurança, economias de tempo e desenvolvimento social oriundos de projetos de infraestrutura de transporte. Cybis et al. (2006) constroem um modelo de avaliação de concessões rodoviárias a partir da opinião de usuários a respeito das condições físicas da estrada e dos serviços prestados. O estudo é aplicado às concessionárias brasileiras. No que se refere à utilização de DEA para avaliação de rodovias, Gomes et al. (2004) utilizam DEA em um estudo comparativo de 5 (cinco) rodovias privatizadas. Foram usados 2 (dois) modelos, onde o primeiro mede os investimentos para redução de acidentes, utilizando as variáveis acidentes/Km ( ), investimento/Km ( ) e tráfego/Km ( ). O segundo modelo mostra o uso que é dado à receita da concessionária e utiliza as variáveis acidentes/Km ( ), receita-dia/Km ( ) e investimento/Km ( ). Utilizam ainda 2 (duas) formas de se chegar a um índice único. A primeira constrói um modelo DEA no qual o é unitário e os o produto dos dois índices anteriores. de Rodovias do Estado do Rio Grande do Sul. Foram construídos quatro modelos orientados para a redução nos insumos para analisar o desempenho das concessio- 46 Transporte em Transformação XV Possamai et al.(2007) utilizam DEA para avaliar o desempenho de empresas de Transporte Rodoviário Interestadual e Internacional de Passageiros em Porto Alegre. Para tanto, utilizam o número de veículos na frota, de passageiros transportados e de viagens realizadas como e a nota dos relatórios de pesquisa do sistema de monitoramento como . Duarte (2008) analisa o lote de concessões adquiridas pela empresa Obrascon Huarte Lain Brasil S.A. (OHL Brasil), cuja oferta para o valor das tarifas foi bem abaixo do teto propostas pela ANTT. No estudo é avaliada a sensibilidade do retorno do projeto mediante alterações das projeções e é apresentada uma discussão sobre a relação risco x retorno do projeto. Neste artigo, além do modelo DEA clássico, também foi aplicado o método da Fronteira Invertida, introduzido por Yamada et al. (1994) e Entani et al. (2002) melhor gestão de seus recursos operacionais. O estudo está organizado da seguinte forma: na seção 2 há uma revisão do modelo DEA clássico e na seção 3 da fronteira invertida. A seção 4 descreve o Programa de Concessões de Rodovias no Brasil. Na seção 5 são apresentadas a caracterização e a modelagem do problema. A seção 6 apresenta os resultados da as conclusões do trabalho. 2. Análise Envoltória de Dados A Análise Envoltória de Dados ( – DEA) é uma metodologia com base em programação matemática, que tem como objetivo medir Unidades Tomadoras de Decisão), que consomem múltiplos (insumos, recursos) para produzir múltiplos (produtos). Os problemas de programação linear otimizam cada observação individual Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 47 unidades, sem que haja necessidade de conhecer a função de produção empregada. Existem dois modelos clássicos em DEA: CCR (também conhecido por CRS ou ) proposto por Charnes et al. (1978) e BCC (também conhecido por VRS ou ) proposto por Banker et al. (1984). No modelo CCR qualquer variação nos produz variação proporcional nos considerando-se retornos constantes de escala. Já o modelo BCC não assume proporcionalidade entre e , permitindo retornos variáveis de escala. que objetiva produzir a mesma quantidade de produtos minimizando a utilização dos recursos. Por outro lado, a orientação a visa maximizar a produção mantendo constante a quantidade de recursos consumidos. O modelo BCC, a ser empregado neste estudo, admite que a produtividade máxima varie em função da escala de produção. Um aumento equiproporcional de pode gerar um aumento de proporcionalmente menor, nesse caso a DMU estaria em uma região de retornos decrescentes de escala. Caso o aumento dos seja proporcionalmente maior ao aumento dos , diz-se que a unidade avaliada está em região de retornos crescentes de escala. O modelo dos multiplicadores do BCC é apresentado na equação (1): (1) em que e ur são os multiplicadores de e , respectivamente; e são os u* é a variável de escala. , ,e da DMU , ; 48 Transporte em Transformação XV de unidades com modelos de desempenho, com o qual a organização pode se comparar, com o objetivo de melhorar a sua . Em DEA, cada DMU escolhe seu próprio conjunto de multiplicadores, de a estrutura benevolente do método e reduzindo sua capacidade discriminatória. Segundo Leta et al. (2005), por determinação empírica, o empate das unidades produtivas acontece principalmente quando o número de DMU’s não é muito grande em comparação com o número total de e . Ao longo dos anos, têm-se desenvolvido diferentes modelos com o objetivo de melhorar a discriminação em DEA. (Angulo-Meza e Lins, 2002) 3. Fronteira Invertida A Fronteira Invertida pode ser vista como uma avaliação pessimista das DMU’s e seu conceito foi introduzido por Yamada et al. (1994) e Entani et al. DMU construindo uma fronteira constituída pelas unidades com as piores práticas Como método de aumento de discriminação, seu uso é feito por Angulo-Meza vertida. A Figura 1 mostra as duas fronteiras, a clássica e a invertida, para o caso DEA BCC. Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 49 Figura 1: Fronteira DEA BCC clássica e invertida. Tal como foi mencionado, a avaliação da fronteira invertida pode ser empregada como uma forma de contornar o problema da baixa discriminação em DEA RES DE MELLO, 2008), conforme descrito em (2), que é a média aritmética entre basta dividir todos os valores pelo maior índice calculado. Assim, para uma DMU padrão e não ter bom desempenho na fronteira invertida. Isto implica que a DMU seja boa naquelas características em que tem bom desempenho e não seja tão ruim naquelas em que seu desempenho não é dos melhores. (2) 2 50 Transporte em Transformação XV 4. Programa de Concessões de Rodovias O Programa de Concessões de Rodovias Federais se iniciou em 1995, com a licitação de 5 (cinco) trechos, que totalizavam 858,6 km, previamente pedagiados pelo Ministério dos Transportes. Em 1997 e 1998, foram incluídas rodovias que estavam em obras de duplicação e excluídos trechos atendidos pelos programas de restauração e ampliação de capacidade. (ANTT, 2010) Em 1996, foi promulgada a Lei das Delegações que permitiu que Estados e Municípios solicitassem a delegação de trechos de rodovias federais para inclusão em seus Programas de Concessão. Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), neste processo foram transferidos para o estado do Rio Grande do Sul 983,5 km de rodovias federais que foram concedidas integradas a 674,3 km de rodovias estaduais. Já no estado do Paraná foram transferidos 1.769,8 km de rodovias federais, que integradas a 581,3 km de rodovias estaduais, estão sob concessão. rodovias. (ANTT, 2010) Em 2007, foram leiloados os 7 (sete) lotes de rodovias que compõem a Segunda Etapa – Fase I totalizando 2.600,80 km de rodovias. As empresas vencedoras dos leilões apresentaram a menor tarifa de pedágio a partir da tarifa-teto estipulada no edital. (ANTT, 2010) Em 2009 foram leiloados mais 4 (quatro) trechos que compõem a Segunda Etapa – Fase II de concessões. Todos os trechos estão em um único lote que abrange 680,6 km de rodovias. Foram usadas as mesmas regras da licitação anterior. (ANTT, 2010) Atualmente existem 14 (quatorze) concessões administradas pela ANTT totalizando 4.763,8 Km, das quais 7 (sete) referem à Segunda Etapa – Fase I e 1 (uma) referente à Segunda Etapa – Fase II. (ANTT, 2010) Com as concessões, as atividades do Estado na área de transporte foram descentralizadas, transferindo à iniciativa privada a responsabilidade pela prestação de determinados serviços que, apesar de serem essenciais à sociedade, não precisariam necessariamente ser oferecidos pelo poder público. Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 51 Ao adquirir o direito de explorar determinado trecho rodoviário, as concessionárias têm até 6 (seis) meses para eliminar os problemas emergenciais e dotar a período, inicia-se a etapas de Recuperação da rodovia, junto com a cobrança de pedágio e a Manutenção dos trechos concedidos. Durante todo o período da concessão, a empresa responsável também deverá prestar os serviços de Manutenção, Melhoramentos e Operação da rodovia. (ANTT, 2010) Para acompanhar os investimentos e a operação das concessionárias, a ANTT nanceiros e operacionais a respeito das rodovias em concessão. Neste artigo, foi utilizado o Relatório referente ao ano de 2008, por ser o mais recente na ocasião, que pode ser obtido em http://www.antt.gov.br/. As concessionárias Autopista Planalto Sul, Autopista Litoral Sul, Autopista Régis Bittencourt, Autopista Fernão Dias, Autopista Fluminense, Transbrasiliana, Rodovia do Aço e Via Bahia não foram incluídas no estudo, pois não apresentaram parte da primeira etapa do programa de concessões, destacadas na tabela 1: Tabela 1: Informações das Concessionárias Avaliadas Concessionária Rodovia Trecho Ex tensão NOVA DUTRA PONTE CONCER BR-116/RJ-SP BR-101/RJ BR-040/MG-RJ 402,0 13,2 179,9 CRT BR-116/RJ CONCEPA BR-290/RS Rio de Janeiro - São Paulo Ponte Rio-Niterói Rio de Janeiro - Juiz de Fora Rio de Janeiro- Teresópolis Além Paraíba Osório -Por to Alegre ECOSUL BR-116/293/392/RS Pólo de Pelotas 623,8 142,5 121,0 NOVA DUTRA – A Rodovia Presidente Dutra liga as duas regiões metropolitanas mais importantes do País: Rio de Janeiro e São Paulo. Atravessa uma região altamente desenvolvida, que responde por 50% do PIB brasileiro. (NOVA DUTRA, 2010) 52 Transporte em Transformação XV PONTE S.A. – A Ponte Rio-Niterói, é uma das maiores pontes do mundo, com seus 13 quilômetros de extensão e até 72 metros de altura no trecho do vão central. É a principal ligação da capital com Niterói e o interior do Estado do Rio de Janeiro, sobretudo o pólo turístico da Região dos Lagos, também conhecida como a Costa do Sol. A Ponte Rio-Niterói foi escolhida para iniciar o Programa Nacional de Concessões de Rodovias. (PONTE, 2010) CONCER – A Concer iniciou suas atividades em 1º de março de 1996, outorgada pelo Programa Federal de Concessões Rodoviárias. A Concer é composta por quatro empresas acionistas: Triunfo Participações e Investimentos S.A., Construcap CCPS Engenharia e Comércio S.A., Construtora Metropolitana S.A. e C.C.I. Concessões S.A. (CONCEPA,2010) CRT – Apesar de conhecida como Rio-Teresópolis, a rodovia corta importantes municípios, desde a Baixada Fluminense, como Duque de Caxias e Magé, pimirim e Teresópolis, até alcançar os municípios de São José do Vale do Rio Preto e Sapucaia, na fronteira com Além-Paraíba em Minas Gerais. (CRT, 2010) CONCEPA – Primeira concessão rodoviária federal do Rio Grande do Sul, com uma área de concessão corresponde a 3.928 km², onde vivem, aproximadamente, 2,1 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geoa Rodovia BR 290 atravessa seis municípios (Osório, Santo Antonio da Patrulha, Glorinha, Gravataí, Cachoeirinha e Porto Alegre), no segundo trecho, já coincidente com a BR 116 e conhecido como Travessia Getúlio Vargas, passa por Porto Alegre e Eldorado do Sul, e no último trecho, recentemente incorporado, sendo apenas a BR 116, corta Eldorado do Sul e Guaíba, atendendo, portanto, oito municípios e tornando-se um dos principais corredores de ligação com o Mercosul, em especial com o Uruguai e a Argentina. (CONCEPA, 2010) ECOSUL – A Ecosul administra a maior malha rodoviária do Brasil. A concessão reúne cinco trechos vitais para as economias regional e nacional, sendo o maior deles o “corredor do Mercosul” (BR 116). Quase metade dos 6,5 milhões de veículos que trafega anualmente pelas rodovias administradas pela Ecosul é de carga, com destino ao porto do Rio Grande. Além disto, a Ecosul é o principal acesso para turistas uruguaios e argentinos em direção ao litoral brasileiro. (ECOSUL, 2010) Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 53 5. Modelagem e Caracterização do Problema ículos e com maior desgaste do pavimento. Conseqüentemente, são estradas que necessitam de um grande volume de investimentos em manutenção e atendimento ao usuário por parte da empresa concessionária. Além disso, o crescimento econôparte das cargas é deslocada por estradas). Por outro lado, a expansão da renda e automóveis e ônibus nas estradas. Neste estudo, cada concessionária individualmente foi considerada uma DMU. A avaliação das concessionárias foi realizada a partir da obtenção de um objetivo a atingir. Conforme destacado anteriormente, as concessionárias de rodovias são responsáveis pela manutenção dos trechos e por serviços de atendimento ao usuário. Para a operacionalização destes serviços, a empresa necessita de bens de capital, considerados como o primeiro . Neste caso, são os veículos disponíveis para atendimento (socorro mecânico, socorro acidentes, apreensão de animais, entre outros) e para manutenção das estradas. O outro está relacionado às pessoas empregadas nesta operação, incluindo desde atendentes de pedágio até médicos para socorro em acidentes. Como do modelo, “produtos” das concessionárias, temos o volume de veículos pedagiados anualmente nas rodovias e total de atendimentos realizados e o atendimento adequado ao cliente. Vale destacar que o estudo não inclui como variável o tamanho, em km, das rodovias por considerar que o total de atendimentos e volume de veículos independe do tamanho da rodovia, e por isso, os resultados não seriam afetados. O estudo visa avaliar o desempenho das concessionárias no que se refere a sua gestão operacional e por isso foi utilizada a orientação a . Assim, serão melhor avaliadas as empresas que conseguem garantir o atendimento aos seus usuários 54 Transporte em Transformação XV do quadro funcional. da empresa. Isso porque o modelo considera como culos na rodovia maior a receita da concessionária) quanto o total de atendimentos realizados ao usuário (que indica a visão do órgão regulador). Lins et al (2007) avaliaram também sob estes dois pontos de vista concessionárias de energia elétrica. O modelo DEA escolhido para esta análise foi o modelo BCC, que avalia retornos variáveis de escala, presentes no grupo de dados em avaliação. A fronteira invertida fornece uma avaliação pessimista das unidades, pois não permite que haja especialização. 6. Resultados O modelo DEA-BCC clássico foi aplicado às 6 (seis) DMU`s que representam as concessionárias de rodovias da primeira etapa do Programa de Concessões de Rodovias Federais. Os dados utilizados na avaliação estão dispostos na tabela 2. Tabela 2: Dados das Concessionárias utilizados no estudo DMUS Total de funcionários Total de veículos Volume anual de carros Número total de atendimentos NOVA DUTRA 1070 122 131.910.880 341.365 PONTE 234 17 28.094.945 93.666 CONCER 393 50 22.454.239 68.866 CRT 245 26 14.712.311 30.055 CONCEPA 279 31 26.433.198 37.096 ECOSUL 288 20 13.785.016 28.825 dadas, foi utilizado o SIAD, de Angulo Meza et al. (2005). Em seguida, foi aplicada a fronteira invertida, com a utilização do mesmo . Os resultados da composta calculada para cada empresa concessionária, estão apresentados na tabela 3. Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 55 Tabela 3: DMU Eficiência BCC Clássica Eficiência Invertida Eficiência Composta Eficiência Composta Normalizada NOVA DUTRA 1,00 1,00 0,50 0,69 PONTE 1,00 0,55 0,73 1,00 CONCER 0,59 1,00 0,30 0,41 CRT 0,96 1,00 0,48 0,66 CONCEPA 0,85 1,00 0,42 0,58 ECOSUL 0,88 1,00 0,44 0,60 Como o problema em questão apresenta um número reduzido de DMU’s em relação ao total de e modelo DEA-BCC: Nova Dutra e Ponte S.A., não havendo como fazer distinção entre elas. Para aumentar a discriminação entre as unidades, aplicou-se a fronteira No início do ano de 2008, a concessionária da Ponte Rio-Niterói promoveu melhorias na estrutura e a instalação de acostamentos nas pistas de subida do vão central da Ponte Rio-Niterói. Foram construídos dois refúgios, cada um com 80 metros de comprimento e 4,5 metros de largura. Nesses refúgios, foram posicionadas viaturas de atendimento ao usuário, para socorro. Essas bases operacionais permitiram a redução do tempo de atendimento através da melhor utilização dos recursos, especialmente dos bens de capital usados para este atendimento. O menor tempo de Por outro lado, a Nova Dutra manteve-se em segundo lugar considerando-se o cálter provocado um aumento na estrutura para prestação de serviços, mas também um serviço. 56 Transporte em Transformação XV alvo a ser atingido por essas concessionárias. Todas elas tiveram a Ponte S.A. como para sua operação. Para atingir este alvo, a Concer deve buscar um melhor gerenciamento de seu pessoal (deve-se buscar uma redução de 40,5% do quadro atual) e redução dos bens de capital em 65,9%. Para a CRT, o quantitativo de pessoal deve ser melhor administrado no sentido de reduzir em 4,3%. Em relação aos bens de capital, usados tanto pra a manutenção da via quanto para atendimento ao usuário, a concessionária da Rio-Teresópolis deve reduzir 33,3%. Já no caso da Concepa a redução em relação ao pessoal deve ser de 15,4% e reduzir seu pessoal em 18,5% e seus bens de capital em 12,5%. mensionamento dos equipamentos necessários ao atendimento dos usuários, garantindo uma melhoria no rendimento. O mesmo pode ocorrer na gestão de pessoas. 7. Conclusão vias federais reguladas pela ANTT. Devido a falta de informações, só foi possível de Concessões Rodoviárias, reduzindo assim o número de DMU’s para o modelo DEA. Em relação aos dados disponíveis, os relatórios não apresentam padronização permitiu que o estudo considerasse estas diferenças. Quanto aos resultados encontrados, a Ponte S.A. foi considerada a única con10% da quilometragem das demais rodovias estudadas, o que não foi considerado no modelo. Esta via é utilizada diariamente por residentes de Niterói que trabalham e estudam no Rio de Janeiro, e vice-versa, sendo um trecho de grande circulação ao longo de todo o dia. Além disso, é uma das principais ligações entre a cidade do Rio de Janeiro e a Região dos Lagos, pólo turístico do estado. Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 57 Espera-se que nos próximos anos, as demais concessionárias envolvidas no Programa de Concessão emitam relatórios anuais que permitam um estudo mais amplo, com maior quantidade de DMU’s para o modelo DEA. Além disso, as rodovias estaduais concessionadas também poderiam ser incluídas no estudo permitindo um estudo ainda mais amplo. Outra abordagem possível seria avaliar o desenvolvimento de cada concessionária comparando os dados disponibilizados em uma série de relatórios anuais. O presente estudo foi realizado apenas com dados disponibilizados pela ANTT, que não levam em consideração a opinião dos usuários quanto à qualidade dos serviços prestados. Para incluir essa informação, seria possível utilizar uma abordagem semelhante à utilizada por Cybis et al. (2006). Referências Bibliográficas Angulo Meza, L.; Biondi Neto, L.; Soares de Mello, J.C.C.B.; Gomes, E.G. (2005), ISYDS - Integrated System for Decision Support (SIAD - Sistema Integrado de Apoio à Decisão): a software package for data envelopment analysis model. Pesquisa Operacional, v. 25, n. 3, p. 493-503. Angulo Meza, L.; Lins, M. P. E. (2002), Review of methods for increasing discrimination in Data Envelopment Analysis. Annals of Operations Research Vol. 116, n. 1-4, p. 225-242. ANTT (2010), Concessão de Rodovias. Disponivel em: http://www.antt.gov.br/ concessaorod/apresentacaorod.asp. Acesso em: 20 Junho 2010 Banker, R. D.; Charnes, A. ;Cooper, W. W.(1984), Some models for estimating tece Vol. 30, n. 9, p. 1078-1092. sion-making units. European Journal of Operational Research Vol. 2, n. 6, p. 429-444. Chen, A.; Subprasom, K (2007). Analysis of regulation and policy of private toll roads in a build-operate-transfer scheme under demand uncertainty. Transportation Research Part A: Policy and Practice 41 (6), pp. 537-558. Cybis, H.B. B.; Guzen, E.R.; Lindau, L.A.; Ribeiro, J.L.D.; Michel, F.D.(2006), Model to Evaluate Roadway Concessions in Brazil. Transportations Research Record: Journal of the Transportation Research Board. 1948, pp. 9-16. Dalbem, M.C.; Brandão, L.; Macedo-Soares, T.D.L.A.(2010) Avaliação Econômi- 58 Transporte em Transformação XV ca de Projetos de Transporte: melhores práticas e recomendações para o Brasil. Revista de Administração Pública. Rio de Janeiro 44(1), p. 87-117. Duarte, G. R.(2008), Análise Econômico-Financeira de Concessões Rodoviárias: Estudo de Caso de uma Concessionária. Universidade de São Paulo. São Paulo. Entani, T.; Maeda, Y. ; Tanaka, H.(2002), Dual models of interval DEA and its extensions to interval data. European Journal of Operational Research Vol. 136, n., p. 32-45. Gomes, E.; Soares de Mello, J.C.C.B; Biondi Neto, L.; Angulo Meza, L.(2004) Brasileiras com Portagens. Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão, 3, n. 2, p. 68-75. Harral, C.; Faiz, A.(1988) El deterioro de los Caminos en los Países en Desarrollo – Causas y Soluciones. [S.l.] (ISBN 0-8213-1114). Leta, F. R.; Soares de Mello, J.C.C.B.; Gomes, E. G.; Angulo Meza, L.(2005) Métodos de melhora de ordenação em DEA aplicados à avaliação estática de tornos mecânicos, Investigação Operacional, 25(2), p. 229-242. Lins, M. P. E.; Novaes, L. F. L.; Legey, L. F. L. (2005), Real estate appraisal: A double perspective data envelopment analysis approach. Annals of Operations Research Vol. 138, n. 1, p. 79-96. Lins, M.P.E., Sollero, M.K.V., Calôba, G.M., Silva, A.C.M.(2007), Integrating the tricity distribution. European Journal of Operational Research, vol. 181, n.3, pp. 1413-1424. MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES. Disponivel em: <www.transportes.gov.br>. Acesso em: 20 Setembro 2008. Rodovias Utilizando Análise Envoltória de Dados. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [S.l.]. Empresas de Transporte Rodoviário Interestadual e Internacional Utilizando Análise Envoltória de Dados. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Convênio 008ANTT/2006. Rocha, J.G.C.; Vanalle, R.M. (2003). Análise do Processo Decisório para Seleção de Rodovias a Serem Pedagiadas no Brasil. Revista de Administração Contemporânea, 7, pp.151-172. Schliessler, A. S.; Bull, A.(1994) Caminhos: Um Novo Enfoque para a Gestão e Manutenção Rodoviária. Nações Unidas. [S.l.], p. 246. Soares de Mello, J. C. C. B., Gomes, E. G., Angulo Meza, L.; Leta, F. R. (2008); DEA Advanced Models for Geometric Evaluation of used Lathes. WSEAS Aplicação da Análise Envoltória de Dados na Avaliação da 59 Transactions on Systems Vol. 7, n. 5, p. 500-520. Veloso, R. G.; Carvalho, C. R. V. D. (2004), Análise de Otimização de um Projeto de Concessão Rodoviária. Florianópolis: [s.n.]. DEA. Journal of the Operations Research Society of Japan Vol. 37, n., p. 158167. Juliana Quintanilha da Silveira([email protected]) Guilherme Henrique Ismael de Azevedo ([email protected]) João Carlos Correia Baptista Soares de Mello ([email protected]) Departamento de Engenharia de Produção, Escola de Engenharia de da Universidade Federal Fluminense Rua Passo da Pátria, 156, São Domingos, Niterói, RJ, Brasil Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 3 Resumo O objetivo deste artigo é investigar, com o auxilio da abordagem de redes sociais, os atores principais para a transação de informações sobre o projeto do Veículo Leve sobre Trilho (VLT) de Brasília dentre os possíveis do projeto. Assim, foi perguntado a cada atores que participam de discussões sobre o projeto do VLT que lhe passam informações importantes. Os resultados mostram, dentro dos critérios pré-estabelecidos formação na rede e que, também por ser esta rede pouco densa, muitos atores têm apenas uma fonte de informação. 62 Transporte em Transformação XV Abstract This paper aims to investigate the main actors for the transaction of information about the project on Light Rail Vehicle (LRV) in Brasilia, obtained among the potential project stakeholders, using the social network approach. Thus, each stakein debates about the LVR project that pass important information. According to predetermined criteria in the search, the results show that only two actors are really one source of information, as a result of the sparse network. 1. Introdução Os obstáculos para implantação dos programas governamentais estabelecidos no desenho das políticas públicas têm natureza variada, devido a administração pública não funcionar como um mecanismo operativo perfeito que garantiria padrão diferente onde prevalece a troca, a negociação a barganha, o dissenso e a contradição entre os atores envolvidos no processo. Existe um ambiente onde o poder de decisão sobre a implantação de uma política não está restrito a um agente e sim imerso em redes, formadas por pessoas e organizações e onde há um grande A ação de atores externos à esfera estatal que, mesmo com a falta de autoridagurar que os seus interesses sejam levados em conta, o que proporciona um cenário onde existem muitos atores com preferências, informações e estratégias distintas (Klijn, 1998), e esse conjunto de atores formam as redes por onde se mobilizam os recursos que subsidiam a tomada de decisão quanto à implantação de uma determide interesses que representam, bem como por meio das relações que estabelecem entre si, as quais podem acontecer ou sob a forma de alianças, quando seus objetivos, interesses e aspirações são complementares ou idênticos, ou sob a forma de Assim conhecer tanto os atores como também a estrutura desses relacionamentos é importante para o entendimento do processo de implantação de uma polí- Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 63 tica pública, que no caso a ser estudado é um projeto de transporte urbano. O questionamento central da pesquisa é sobre como os atores que estarão potencialmente envolvidos no projeto são informados do mesmo para que possam criar juízo e se relacionam através de uma estrutura de rede (uma rede social) e a informação cação desses atores chaves e quais relações eles mantém na rede social. O artigo está dividido em 7 seções. Após essa introdução é apresentado o método da pesquisa, na terceira seção é apresentado o conceito de stakeholders Sociais, na quinta seção é descrito sucintamente o projeto de transporte a ser estudastakeholders, dos atores chaves e da estrutura da rede de informação do projeto, 2. Método da Pesquisa Para atingir o objetivo do trabalho foram realizadas: pesquisa indireta, observação direta intensiva e observação direta. As etapas são apresentadas esquematicamente na Figura 1. Figura 1: Etapas da metodologia utilizada 64 Transporte em Transformação XV pelo projeto, e portanto, preliminarmente, quem tem maior interesse (favorável ou contrário) no projeto. Continuando na fase da pesquisa em literatura, os estudos sobre análise de rede social subsidiaram o entendimento da estrutura reticular em que os atores estão submetidos, o caminho que a informação percorre para chegar a estes atores e o papel de cada ator nessa rede. Esta primeira etapa da pesquisa foi encerrada com uma pesquisa em sítios do governo do Distrito Federal e na imprenPosteriormente foi realizado de um na academia com alunos, do projeto, além dos pré-determinados, devido a suas responsabilidades regulamentares, tais como os Órgãos Fiscalizadores (ambiental, de contas e contratos etc.) e gestores. Inicialmente foi ser um em seguida ocorreu o com a seguinte orientação aos participantes deveriam ser citados stakeholders coletivos. Caso a citação fosse nominal de pessoa, seria considerada a organização a qual ela pertence, com pois em algumas organizações o acesso para aplicar o questionário se limitou a um assessor que fora incumbido em atender o pesquisador A terceira etapa está relacionada à confecção e aplicação do questionário a ser respondido pelos . Ela foi dividida em duas fases: na primeira, elaborou-se um questionário com apenas uma pergunta que solicitava ao respondente que indicasse pessoas que participam de discussões sobre o projeto do VLT que lhe passam informações importantes. A segunda foi a submissão do questionário aos da etapa anterior. Como alguns citados no eram formados por uma gama de organizações e indivíduos, tais como: mídia, academia, usuário etc., os dos citados. Foram entrevistados: da mídia um âncora de programa jornalístico; dos usuários, um representante do movimento do passe estudantil livre e da academia, um professor da Universidade de Brasília. Com os questionários respondidos, utilizou-se o software livre UCINET 6.0 Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 65 utilizadas na última etapa, a análise dos resultados, para responder aos propósitos deste trabalho. 3. Stakeholders (Grupos de Interesse) Desde a obra seminal de Freeman (1984), diversos autores vêm buscando contribuir para a constituição de um corpo teórico que permita entender as organizações, não apenas a partir do ponto de vista dos proprietários ou acionistas controladores (shareholders), como também dos inúmeros atores que, direta ou indiretamente, são impactados por suas atividades (Almeida , 2000). O conceito de eman (1984) “ s adotado neste trabalho é o formulado por Fre- ”, conceito utilizado por Varvasovszky e Brugha (2000), em estudos de política sanitária, e por Buanes (2004), no gerenciamento de recursos naturais. cação dos potenciais de uma organização ou um projeto: 1) , Almeida (2000) e Krick (2006); 2) indicação por especialistas, Brugha e Varvasovszky (2000) e Morais (2007); 3) formulação de lista para ser colocada à disposição de especialistas para críticas Pouloudi e Whitley (1997) e também autores que citam as três alternativas como Jepsen e Eskerod (2008). Mayers (2005) apresenta, além das técnicas citadas acima, outras formas de riscos, o que reforça as vantagens da utilização de mais de uma abordagem para minimizar os riscos de se omitir atores importantes. O autor apresenta algumas com conhecimentos do sistema (especialistas): Quem já trabalha no sistema questões tratadas no projeto de transporte. 66 Transporte em Transformação XV mentais e privadas e seus funcionários ligadas ao setor em estudo, muitas vezes têm registros sobre reivindicações, reclamações de pessoas que assistiram a reuniões que no caso de projetos de transporte pode estar nas atas de orais ou escritos de grandes eventos), como também ONGs e acadêmicos podem revelar em pesquisas e relatórios pessoas e entidades interessadas. Auto-seleção de participantes: Anúncios feitos em reuniões e na mídia ou outro meio para disseminar informações podem atrair pessoas interessadas. projeto os participantes podem indicar nos stakeholders. Os grupos de interessados podem ser pré-determinado através de requisitos regulamentares, tais como: O responsável pela elaboração do projeto sua execução contas e contratos, de segurança, legal etc). 4. Análise de Redes Sociais A Análise de Redes Sociais (ARS) constitui uma abordagem oriunda da das ciências sociais (Freeman, 1996) que estuda as ligações relacionais entre atores sociais, unidades individuais (pessoas) ou unidades sociais coletivas (empresas, nações, organizações estatais, sindicatos etc.). Trata-se de um “ferramental” em crescente utilização nos últimos anos na pesquisa em várias áreas do conhecimento (Borgatti e Foster, 2003) e seu foco não está nos atributos dos atores e sim nos padrões das relações (ligações) entre eles (Wasserman e Faust, 1999). O fator gerador de uma rede seja social ou organizacional é a relação de interdependência entre os Uma rede social é constituída por um conjunto de atores (nós) e as relações (laços ou bordas) entre esses atores (Wasserman & Faust, 1994 e Haythornthwaite, tes autônomos, unindo idéias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados. Para Tomaél e Marteleto (2006) redes sociais referem-se a um conjunto Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 67 de pessoas (ou organizações ou outras entidades sociais) conectadas por relacionamentos sociais, motivados pela amizade e por relações de trabalho ou compartilhamento de informações e, por meio dessas ligações, vão construindo e reconstruindo pessoas, organizações ou instituições sociais que estão conectadas por algum tipo de relação. têm ligações com outros atores, podendo ocorrer um ou mais tipos de relações entre a rede social: atores e ligações. Os atores em uma rede social podem ser pessoas, empresas, um autor ou uma agência de serviço público, isto é uma pessoa individualizada ou uma entidade social coletiva. As ligações são canais por onde “escoa” tangíveis e intangíveis (Haythornthwaite, 1996): laços afetivos, formais, transferênou poder (Katz et al, 2004, Silva, 2003 e Tichy et al, 1979) entre outros. Dois tipos de ferramentas matemáticas são utilizados para representar as informações sobre os padrões de laços entre os atores sociais: grafos e matrizes (Hanneman e Riddle, 2005 e Haythornthwaite, 1996). Neste estudo, o foco estará na ferramenta originária da teoria dos grafos para fazer a análise da rede em estudo. A análise de redes sociais (ARS) é uma técnica interdisciplinar que possibilita realizar uma análise estrutural cujo objeto é mostrar em que a forma da rede é explicativa dos fenômenos e fundamenta-se na observação de que os atores sociais são interdependentes e que suas conexões apresentam importantes conseqüências para cada indivíduo. Assim na ARS são observados os atores sociais, seus papeis e suas ligações e o que interessa é o posicionamento estrutural de cada ator dentro de um contexto, sua posição na rede (Marteleto, 2001). A análise de rede social pode ser desenvolvida sob dois pontos de vista, uma abordagem da estrutura da rede como um todo ou descendo ao nível dos atores e suas ligações. 68 Transporte em Transformação XV 4.1. Rede como um todo O foco da análise da rede como um todo é medir os padrões estruturais das interações e como esses padrões explicam os resultados, como a concentração de poder ou de outros recursos dentro do grupo descreve os laços que todos os atores ção, como os limites de uma organização formal, departamento, clube ou grupo de parentesco (Garton . Tal abordagem permite uma poderosa descrição e atividades semelhantes que necessitam de informações semelhantes (Hanneman e Riddle, 2005). Um conceito ligado a atributos da rede como um todo é a coesão, que indica a presença de fortes relações entre os membros da rede e a probabilidade destes de poderem alcançar às mesmas informações ou recursos. Uma rede é coesa se apresentar alta conectividade (Haythornthwaite, 1996 e Silva, 2003), quando a rede quando retirados da rede resultam em outra rede com uma quantidade menor de nós, são chamados de pontos de cortes (Silva, 2003). A primeira medida é a densidade da rede que indica o grau em que os membros estão ligados a todos os outros e é calculada como a razão entre o número de ligações reais com o número de possíveis ligações, a densidade indica o grau de aproveitamento das relações sociais na rede (Neiva e Brito, 2008). Os atores de uma rede de alta densidade estão mais em contato com todos os outros membros da rede do que os atores de uma rede que possui baixa densidade. As informações em uma de menor densidade (Haythornthwaite, 1996). Além da coesão do grupo á também os subgrupos coesos, esses subgrupos serão objeto deste pelo escasso espaço para a dissertação do trabalho. 4.2. Rede centrada em ego A abordagem da rede centrada em ego, isto é, análise ao nível dos atores e suas ligações consiste principalmente em encontrar o papel que esses atores de- Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 69 sempenham na manutenção e expansão da rede. O papel que os atores que será alvo de análise deste estudo é o de ator central que será medido pela centralidade. A centralidade representa o quanto um ator está acessível aos demais atores da rede (Silva, 2003). Sabe-se que nas estruturas sociais o poder é uma propriedade fundamental e uma das principais abordagens que a análise de rede social desenvolveu para estudar o poder está estreitamente relacionada com o conceito de centralidade (Hanneman e Riddle, 2005). Portanto, o entendimento desse conceito é de fundamental importância para este estudo. Gomes (2003) esclarecem que um ator que pode comunicar-se com muitos outros de forma direta, ou está próximo ou, ainda, é utilizado como intermediário por muitos atores para atingir outros, é central na rede onde está inserido. As medidas de centralidades a serem utilizadas neste estudo, a de grau, a de intermediação, a de proximidade e a de Bonachich, têm as três primeiras em comum o mesmo elemento estrutural, o percurso geodésico e foram postuladas por Freeman (1979) e a última conceituada por Bonacich (1972 e 1987): a) Centralidade de Grau ( ): a abordagem dessa centralidade tralidade de grau mede o nível de comunicação de um ator, a maior capacidade de comunicar-se diretamente com os outros. Segundo Hanneman e Riddle (2005), os atores que têm mais vínculos têm mais oportunidades porque possuem mais escolhas de canais de comunicação. Essa autonomia torna-os menos dependentes de quaisquer outros atores. b) Centralidade de Intermediação ( ): a centralidade de intermediação se baseia na freqüência com que um nó se insere entre os pares de outros nós no menor caminho de vias de ligação (geodésico) entre eles, isso dá a um ator nessa posição a capacidade de mediar os contatos entre outros atores, em o grupo retendo ou falseando informações na transmissão. Os atores ocupantes dessas posições são responsáveis pela manutenção da comunicação da rede e é este c) Centralidade de Proximidade ( ): Esta abordagem considera a soma das distâncias geodésicas entre um determinado nó e os restantes, considerando as distâncias diretas e indiretas. Esta centralidade representa independência, a possibilidade de comunicar com muitos outros, dependendo um número 70 Transporte em Transformação XV mínimo de intermediários (Gomes , 2003 e Tomaél e Marteleto, 2006) Segundo Freeman (1979), a independência de um ator é determinada pela sua proximidade a todos os outros atores da rede. d) Centralidade de Bonacich: A idéia básica é que atores centrais que estão mais próximos de atores com grande centralidade são mais poderosos, ou seja, a centralidade de Bonacich é também uma medida de hierarquia (Hanneman e Riddle, 2005). Esse fato é devido à diferença de valor existente entre um ator ser citado por atores de prestígio ou por atores periféricos (Silva 2003). 5. Estudo de Caso (VLT– Brasília) O projeto do novo sistema de transportes de Brasília, o VLT, está inserido em dois programas do governo do Distrito Federal, o programa de melhoria dos transportes coletivo à disposição da população e também na revitalização da Avenida W3 Sul, região da capital federal que foi um importante corredor de comércio nas três primeiras décadas de Brasília. O sistema do VLT será composto por duas linhas, o estudo foi feito apenas em uma das linhas, que ligará o Aeroporto internacional de Brasília ao extremo norte da cidade, passando quando dentro dela pelas vis W3 Sul e W3 Norte em um total de 22,6 quilômetros de extensão (Figura 2). Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 71 Figura 2: Traçado da linha objeto do estudo do VLT – Brasília A implantação desse sistema de VLT espera atender a uma demanda diária de 120.000 passageiros e com isso reduzir em 30% o volume de carros a circular pela via W3 Sul, que atualmente é de 60.000 carros de passeio e 800 ônibus diariamente. Há uma previsão de entrada em operação desta linha para atender ao evento da Copa do Mundo de Futebol em 2014, porém, ocorrem interrupções das obras por diversos no realizado – Tribunal de Contas, Ministério Público e IPHAN). 6. Apresentação e Análise dos Resultados Nesta seção serão apresentados os resultados da pesquisa, a começar pelo foram elencados quarenta e oito possíveis. Dentre esses atores, a mídia foi uma das citadas, tendo em consipam uma posição única no processo, e dessa forma, não podem inicialmente serem , porque não possuem qualquer interesse efetivo no 72 Transporte em Transformação XV projeto. Contudo, a mídia pode ter um enorme efeito sobre os resultados dos projetos, tanto positivo como negativo, assim ela é um fator importante que deve ser considerado e que, na prática, dá-lhe o estatuto de um . Com esse entendimento a mídia foi aceita como um do projeto objeto de estudado. Dos quarenta e oito possíveis stakeholders, 22 responderam ao questionário e, esses por sua vez, indicaram atores como seus informantes, alguns coincidentes com a lista de stakeholders previamente elencados no . Vale ressaltar que esses atores que responderam ao questionário não tiveram acesso a essa lista, nem antes nem após suas respostas. Também atores que não constavam da lista foram citados. Assim totalizou-se 37 atores que foram utilizados na análise da rede de informação do VLT de Brasília (tabela 1). Tabela 1: Lista de Atores utilizados na análise da rede de informação do VLT de Brasília Atores Sigla Atores Sigla Órgão Gestor de Transpor te DFT Ministério Público DF MPD Sec. Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente / DF SED Instituto Brasília Ambiental IBR Mídia MID Sindicato dos Metroviários MTV IPHAN IPH CONFEA COF Secretaria de Transpor tes / DF SET Líder Comunitário local PFQ Tribunal de Contas do Distrito Federal TCD Usuários USU DETRAN / DF DET Brasíliatur BST CREA / DF CREA Sindicato dos ta xistas STX Operador de ônibus EMO Sindicato dos Rodoviários ROD Comunidade Acadêmica ACD Associação Brasileira de Agências de Viagens ABV FECOMÉRCIO FEC Confederação dos Metroviários CFM Administradora de Brasília ADB Deputado Distrital DED Empresa de Consultoria em Transpor tes COS Deputado Federal DEF Fabricante de VLT FAB Senador da República SND Companhia do Metrô do DF MET ONG para o Desenvolvimento do Turismo ONT Ministério Público da União MPU Sindicato da Contrução Civil do DF SIN Sindicato dos Engenheiros do DF SEG Ministério do Transpor tes MTF Secretaria de Obras / DF SEO Secretaria de Turismo / DF STU Gabinete do Governador do DF GDF Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 73 A partir dos atores da tabela 1 e suas conexões, o estudo utilizou o programa UCINET 6.0 para o desenho da rede pesquisada, suas características estruturais, informação. O mapa da rede (sociograma) de informação entre os do observada como um todo e posteriormente, foi realizada a análise centrada em ego. Figura 3: Sociograma da rede de Informação do Projeto do VLT de Brasília A rede em estudo apresentou densidade de 0,039, isto é, 3,9% de conectividade, 52 laços de um total possível de 1332 ligações. Essa baixa densidade (inferior a grande parte dos atores possuírem apenas uma fonte de informação. Doze atores MET, MTV, PFQ, TCD, MPD, ONT, ABV e BST, o stakeholders mídia (MID) é o mais representativo, pois sua remoção acarreta a saída de dez outros atores da rede 74 Transporte em Transformação XV Figura 4: Sociograma da remoção do ator MID as centralidades, em um total de quatro (grau, intermediação, proximidade e Bonacich), os resultados das centralidades médias e desvio padrão foram: a de grau de 7,81 e 6,95; a de intermediação de 33, 6 e 6,53; a de proximidade de 5,99 e 11,52 e de Bonacich de 18,34 e 14,29. O critério utilizado no estudo para escolher os atores de alta centralidade foi quem possuía centralidade superior a soma da média mais um desvio padrão, resultando na tabela 2. Tabela 2: Atores centrais importantes conforme critério Grau Intermediação Proximidade Bonacich SET MID MET PQF SET MID PQF SET MID PQF SET MID PQF Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 75 Centralidade de grau, que mede a maior capacidade de um ator comunicar-se diretamente com os outros e assim possuir maiores oportunidades de escolhas de canais de comunicação, indicou os atores SET, MET, MID e PFQ como aqueles que possuem maiores valores:os dois primeiros são agentes governamentais responsáveis pela gestão do projeto, portanto, fonte primária de informação; os outros dois são atores não governamentais, um ator de difusão de informações inerente a natureza de sua atividade o outro representante da população moradora da região onde o projeto será implantado, teoricamente, quem tem maiores expectativas sobre a atividade. Centralidade de intermediação indica, no estudo, que uma pessoa em tal posipantes dessas posições são responsáveis pela manutenção da comunicação da rede. Neste estudo, destacaram-se os atores SET, MID e PFQ, com altas centralidades de intermediação. No caso da centralidade de proximidade, destacaram-se os atores SET, MID e PFQ. Os resultados da Centralidade de Bonacich. também apontou os atores SET, MID e PFQ como os mais centrais. Assim conclui-se que os atores MID e SET, que aparecem nas quatro categorias de centralidade, possuem maiores O PFQ, apesar de apresentar valores de centralidades acima do critério estabelecido para determinar quem possuía alta centralidade, é indicado mante de apenas um ator, no caso, o MTV, que por sua vez não foi citado como fonte de informação de nenhum ator. Assim o PFQ não pode ser congrande atuação como repassador de informação. 7. Considerações Finais implantado na capital federal. Os resultados da pesquisa mostram que do universo de quarenta e oito atores previamente escolhidos como possíveis (Secretaria de Transportes do Distrito Federal). Esses resultados podem ser explicados pelo grande número de atores que possuem apenas uma fonte de informação 76 Transporte em Transformação XV e também pelo fato de alguns atores repassarem informação para um único ator, como pode ser observado no sociograma. No grupo completo, há muitos atores com apenas um laço de emissão e/ou recepção. O fato de muitos atores terem apenas uma fonte de informação também explica a baixa conectividade da rede, assim, há muita oportunidade para que novos canais de comunicação sejam abertos para serem explorados pelos gestores do projeto. O focada nos atores quanto na análise da rede como um todo, pois ele se mostrou um saída deixaria a rede original com apenas 26 nós e outros dez sem transacionar informação com estes. Assim, muitos atores recebem informações somente da mídia, o que empobrece o curso de informações na rede social. Alguns respondentes conhecimento de quem participava das discussões sobre o projeto. Desconhecer os participantes da discussão do projeto é um sinal do limitado repasse de informações na rede social. Esse desconhecimento já mostra que a rede é limitada. A limitação da pesquisa está no fato das respostas em algumas organizações, serem dadas por assessores e não pelo titular, o que pode ter contribuído para a diminuição da quantidade de pessoas citadas, o que acarreta uma diminuição na da rede. Estudos futuros poderiam aprofundar para saber a freqüência de contato entre estes e se os contatos são institucionais ou sociais e assim poder ter um desenho da rede social desses com outros recursos que Referências Bibliográfica Almeida, G. S.; Fontes Filho, J. R. e Martins, H. F. (2000). . In: 24º Encontro da ANAPAD, Campinas. Journal of Mathematical Sociology, n. 2, p. 113-120. Bonacich, P. (1987), Power and centrality: a family of measures. American Journal of Sociology n. 92 , p.1170-1182. Borgatti, S., & Foster, P. (2003). Entendendo a Rede de Atores de um Projeto de Transporte Urbano: Caso do VLT de Brasília 77 (6), 991-1013. Brugha, R. e Varvasovszky, Z (2000). . V. 15, nº 3, p. 239-246. Buanes, A.; Jentoft, S; Karlsen, G.R.; Maurstad, A e Søreng, S. (2004). . Ocean & Coastal Management v. 47, nº 3, p. 207–23. Freeman, R. E. (1979) . Social Networks, 1 (1978/79), p. 215-239 ____________(1984). . Pitman, Boston. Freeman, L. C. (1996). . Connections, v. 19, n. 1, p. 39-42. Garton, L.; Haythornthwaite, C.; Wellman, B. (1997). , disponível em: http://jcmc.indiana.edu/vol3/issue1/garton.html. Acesso em:15 de dez. De 2009 Gomes, D.; González-Arangüena, E.; Manuel, C.; Owen, G.; Pozo, M. e Tejada, J. (2003) . Mathematical Social Sciences. v. 46, p. 27–54 Governo do Distrito Federal (GDF) (2009). , disponível em: http://www.vlt.df.gov.br/index.htm. Acesso em : 18 de dez. de 2009. Haythornthwaite, C. (1996). . Library & Information Science Research, Norwood, v.18, n.3, p.323-342. Hanneman, R. A. and Riddle M. (2005). . Riverside, CA: University of California, Riverside. Publicado em formato digital, disponível em: http://www.faculty.ucr.edu/~hanneman/nettext/. Acesso em: 15 de out. De 2009 Jepsen, A. L. e Eskerod P. (2008). . ELSEVIER: International Journal of Project Management. Katz, N., Lazer, D., Arrow, H., & Contractor, N. (2004). . Small Group Research (3), 307-332 Klijn, E. H. (1998). in Kichert, W. J. M. & Koppenjan, J. F. (eds) Managing Complex Networks. Sage, London. Krick, T.; Forstater, M.; Monaghan, F. e Sillanpää, M. (2006). , disponível em: www.telefonica.es/ responsabilidadcorporativa/pdfs/manualpracticarelaciones.pdf. Acesso em 18 78 Transporte em Transformação XV de maio de 2007. Marteleto, R.M. (2001). . Ciência da Informação, Brasília, v. 30, n. 1, p. 71-81. Mayers, J. (2005). disvponível em: http://www.policypowertools.org/Tools/Understanding/docs/stakeholder_power_ tool_english.pdf acesso em: 16 de fev. de 2010 . In: XXI Congresso de Ensino e Pesquisa em Transportes, 2007, Rio de Janeiro. Neiva, E. R. e Brito, M. J. P. (2008) . Psicologia (Florianópolis), v. 8, p. 5-24. Olander, S. e Landin, (2005). . International Journal of Project Management , v. 23 p. 321–328. Pouloudi, A. e Whitley, E. A. (1997). . European Journal of Information Systems. V. 6, nº 1, p. 1-14 Silva, M. C. M. (2003) . Dissertação de Mestrado, Salvador, Universidade Federal da Bahia. Soares, W. (2004). Revista brasileira Estudo de População, Campinas, v. 21, n. 1, p. 101-116. Tichy, N. M.; Tushman, M. L. & Fombrun, C. (1979) . Academy of Menagement Review, v. 4, n. 4 p. 507 - 519 Tomaél, M. I. e Marteleto, R. M. (2006). , Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Especial Florianópolis Wasserman, S.; faust, K. (1994). . Cambridge: Cambridge University Press. Artur Carlos de Morais - [email protected] Elaine Rabelo Neiva - [email protected] Joaquim José Guilherme de Aragão - [email protected] Análise Comparativa da Eficiência Energética entre os Ciclos de Vida do Gás Natural Veicular Comprimido e da Energia Termelétrica a Gás para uso final em Automóveis Leves 4 1 Resumo Este artigo compara duas fontes de energia para uso veicular, considerando a energética e consumo de energia. O procedimento utilizado é fundamentado na ferramenta Análise de Ciclo de Vida (ACV) e resulta numa abordagem conhecida como “ ”. Sua aplicação compara o inventário de ciclo de vida do gás bustão interna de ciclo Otto (ICV1) e o inventário de ciclo de vida da energia elétribateria (ICV2). O resultado desta análise indica que enquanto o ICV1 apresenta uma 80 Transporte em Transformação XV 2 ). No ICV1, para promover o deslocamento de 1,5 1 passageiros ao longo de 1.000km, é necessário o consumo de 2.196,4 MJ, enquanto consome no ICV2 1 247% mais energia do que o ICV2 para efetuar o mesmo trabalho). Estes números mostram que em termos de uso da energia, ICV2 é melhor do que o ICV1, mais usual no Brasil e no mundo, indicando a possibilidade de melhoria na aplicação do gás natural em transportes. Abstract This article compares two power sources for vehicular use considering the sis, based on Life Cycle Assessment (LCA), is applied in the comparison between the life cycle inventory of the compressed natural gas used in vehicles with internal combustion engines of the Otto cycle (LCI1) and life cycle inventory of the electricity pro(ICV2). The analyses indicates that while LCI1 ). In the LCI2 1 LCI1, to promote the displacement of 1,5 passengers 1.000km away, is necessary to spend 2.196,4 MJ, while in LCI2 it must be consumed 633,5 MJ, (what means 247% better in terms of energy consumption). Those numbers show clearly that in terms of energy use, LCI2 is better than LCI1, indicating a possibility of change in order to practice a better use to natural gas application in transportation. 1. Introdução O consumo de energia no setor de transportes no Brasil aumentou 23,6% entre 2000 e 2007 (BEN, 2008), período no qual a participação do gás natural comprimido (GNC) no consumo de energia aumentou de 0,6% (2000) para 4,3% (2007). O uso do gás natural comprimido em automóveis é uma prática comum em países como Itália, China, EUA, Argentina, Alemanha, Irã, Índia e Brasil (GNV, 2010). No Brasil, existem 1.640.000 automóveis (GNV, 2010) com motores de combustão interna (VCI) adaptados para GNC. No entanto, a introdução dos veículos elétricos - 81 a bateria (VEB) no mercado automotivo e o fato do gás natural constituir uma fonte primária de energia que pode ser transformada em eletricidade nas usinas fontes de energia, o uso de GN em usinas termelétricas para a produção de energia sumo de energia do que o uso de gás natural comprimido em veículos com motores de combustão interna (MCI), prática atual no Brasil e no mundo.” Após esta introdução o trabalho apresenta sucintamente o procedimento a ser - 2. Metodologia e Definições A Figura 1 apresenta o procedimento adotado para a comparação entre o ICV1 e o ICV2 (D´Agosto e Ribeiro, 2009). Figura1: Estrutura do procedimento 82 Transporte em Transformação XV energéticas (mínimas, médias e máximas) para cada modelo de ciclo de vida (em ciência energética utilizado neste trabalho pode ser compreendido através da Figura A “energia na saída” do processo é calculada através da equação (1). Figura 2: Fluxos de energia em processo(s) ou estágio do ciclo de vida (1) (2) clo de vida, estabelecendo-se uma contribuição ao trabalho de D´Agosto e Ribeiro (2009) por meio de um mecanismo para o cálculo dos consumos energéticos dos estágios dos ICVs na base funcional, além de enriquecer a análise no contexto do uso da energia nos ICVs envolvidos. - 83 3. Aplicação do Procedimento de Análise de Inventários de Ciclos de Vida A seguir, apresenta-se a aplicação do procedimento tendo como base a Figura 1. 3.1 Fase 1: Objetivo e definição do escopo gética entre ICV1 e ICV2, tendo como função o deslocamento de passageiros. A unidade funcional escolhida para a elaboração da matriz de consumo energético foi valores percentuais. Para caracterizar as alternativas de ciclo de vida em análise foram escolhidos dois pares de fontes de energia (FE) e sistema de propulsão (SP) (Tabela 1). No a cadeia de suprimentos de GNC para seu maior produtor e consumidor nacional: o estado do Rio de Janeiro. Em 2008, o Rio de Janeiro foi responsável por 40,58% do gás natural nacional produzido (ANP, 2010) e por 42,5% do gás consumido neste estado localizadas em subsolo marinho ( ) (ANP, 2010), assim como suprimentos conduz à abrangência tecnológica onde serão consideradas a exploraabastecimento de VCIs nos postos de combustíveis situados no município do Rio de Janeiro. O estado também possui a maior frota de veículos leves adaptados para GNC do Brasil (732.013 unidades), com 40% do total (GNV, 2010). A abrangência carioca de veículos leves existente, que considera motores alternativos de combustão interna de ignição por centelhamento e quatro tempos - ciclo Otto (D´Agosto e Ribeiro, 2007, 2009). Foram considerados também aspectos técnicos (autonomia, velocidade máxima, potência do motor, peso, entre outros) que se aproximem da lhante. 84 Transporte em Transformação XV bém na exploração e produção de gás natural na Bacia de Campos. As etapas de exploração, produção, transferência, processamento, transporte e distribuição de GN são as mesmas do ciclo (GNC, VCI), com a diferença que o gás processado passa a ser destinado para termelétricas a gás localizadas no estado do Rio de Janeiro. Em 2008, 66% do gás natural consumido no estado do Rio de Janeiro destinou-se a geração e cogeração de energia elétrica do país (ABEGAS, 2009). As quatro termelétricas mais potentes do país utilizam o gás natural como combustível e estão localizadas no RJ, constituindo assim o maior parque de geração de energia elétrica a partir de termelétricas a GN do país. A energia elétrica produzida é transportada em alta tensão e distribuída para a rede elétrica presente, pois a tecnologia do VEB passa por um momento histórico que favorece seu desenvolvimento, fazendo com que qualquer passado recente possa representar tecnoser passível de comparações com o veículo equipado com motor de combustão interna escolhido para a alternativa de ciclo de vida (GNC,VCI). ções técnicas de oito modelos de veículos populares utilizados no Rio de Janeiro. As médias de potência, peso, autonomia, velocidade máxima podem ser encontradas da Tabela 1. Determinou-se o rendimento de 12km/m3 em tráfego urbano para o VCI por meio de pesquisa feita no Rio de Janeiro (Hill, 2010). Tabela 1: Caracterização das alternativas. Fonte de Energia(FE) Sistema de Propulsão (SP) Alternativas Nome Nome (FE,SP) Iniciais Caracterização Gás natural GNC comprimido Gás natural associado ao petróleo, processado e comprimido Veículo com motor de combustão interna (1) Energia elétrica Eletricidade produzida em termelétricas de ciclo-combinado a gás natural Veículo elétrico a bateria (2) EE Iniciais Caracterização VCI Carro de passageiros adaptado para admitir (GNC,VCI) GNC como principal combustível VEB Carro de passageiros cujo principal combustível é a eletricidade armazenada em baterias (EE,VEB) Notas: (1) peso = 1.000 kg, velocidade máxima = 155 km/h, potência máxima = 61 hp, autonomia = 120 km. (2) peso = 1.080 kg, velocidade máxima = 130 km/h, potência máxima = 63 hp, autonomia = 160 km. - 85 Seguindo o escopo do trabalho, alguns modelos de veículos elétricos foram pesquisados, sendo que o iMiev (Mitsubishi) foi escolhido por ser o veículo cujos (Tabela 1). teria de células de íons-lítio que possui maior densidade energética além de ser a mais difundida atualmente pelos fabricantes de VEB (Hill, 2010). Numa tomada de 220V o tempo de recarga das baterias é de 7 horas aproximadamente. Suas baterias permitem cerca de 1.000 recargas (MITSUBISHI, 2009). O consumo energético do iMiev considerado foi de 0,125KWh/km (MITSUBISHI, 2010). A autonomia do iMiev é de 160km por carga completa (Tabela 1), valor superior ao do veículo com motor de combustão interna adaptado para GNC, que com cilindro de 10m3 possui autonomia entre 115 e 158km. Na área urbana é comum que se trafegue entre 20 a 40km por dia, o que indica que a autonomia de 160km do VEB pode ser, num primeiro momento, satisfatória. Esta etapa apresenta e descreve os modelos de ciclo de vida (MCV) associado aos pares (GNC, VCI) e (EE, VEB). Os dois modelos de ciclos de vida apresentados neste item se “estendem” desde o meso-estágio da produção de matéria-prima até vida. Para efeito de análises comparativas entre ciclos de vida, a “profundidade” escolhida foi a de meso-estágios, pois permite melhor eqüidade de comparação entre alternativas. As Figuras 3 e 4 apresentam o MCV associado à alternativa (GNC, VCI) e (EE,VEB), respectivamente. 86 Transporte em Transformação XV Figura 3: Modelo de Ciclo de Vida (MCV) associado à alternativa (GNC, VCI). Figura4: Modelo de Ciclo de Vida (MCV) do par (EE, VEB). - 87 3.2. Fase 2: Inventários de ciclos de vida tica dos ciclos de vida envolvidos, mostrados nas Tabelas 2 e 3, dados foram colhi- Tabela 2: Inventário de energia do ciclo de vida para alternativa (CNG, VCI). Macroestágios Eficiência energética% Meso-estágios Micro-estágios Produção de matéria prima Min Med Max Exploração de GN 99,6% 99,7% 99,8% 7,5 0,3% Produção de GN 92,9% 95,7% 97,1% 107,5 4,9% 92,5% 95,7% 96,9% 115 5,2% 95,0% 96,5% 98,0% 83,7 3,8% 95,0% 96,5% 98,0% 83,7 3,8% 97,6% 97,6% 97,6% 55,4 2,5% 97,6% 97,6% 97,6% 55,4 2,5% 92,0% 93,5% 95,0% 146,5 6,7% 0 0,0% Total Transpor te de matéria prima Ciclo de vida ICV1 Transferência de GN Total Cadeia de suprimentos Produção da fonte de energia Tratamento de GN Total Transpor te e distribuição da fonte de energia Transpor te de GN Distribuição de GN 100,0% 100,0% 100,0% Abastecimento de GNC Total Total Uso final Total Uso final Consumo ParticipaMJ/(pass × ção % ICV 1000km) consumo VCI 98,1% 98,4% 98,6% 33,7 1,5% 90,3% 92,0% 93,7% 180,2 8,2% 77,4% 82,9% 86,8% 434,3 19,8% 15,0% 15,0% 15,0% 1762,1 80,2% 11,6% 12,4% 13,0% 2196,4 100,0% 88 Transporte em Transformação XV Tabela 3: Inventário de energia do ciclo de vida para alternativa (EE, VEB) Macroestágio Meso-estágios Produção de matéria prima Min Med Max Consumo MJ/(pass × 1000km) Exploração de GN 99,6% 99,7% 99,8% 2,6 0,4% Produção de GN 92,9% 95,7% 97,1% 37,4 5,9% Transferência de GN 95,0% 96,5% 98,0% 29,2 4,6% Processamento de GN 97,6% 97,6% 97,6% 19,3 3,1% 85,8% 89,9% 92,7% 88,5 14,0% 94,0% 95,5% 97,0% 35,3 5,6% 0 0,0% Micro-estágios Total Ciclo Cadeia de de vida suprimentos ICV2 Transpor te de matéria prima Transpor te de GN processado Distribuição de GN processado Total Produção da fonte de energia 95,5% 97,0% 35,3 5,6% 48,0% 51,5% 56,0% 363,6 57,4% 48,0% 51,5% 56,0% 363,6 57,4% Transmissão de EE 93,0% 96,5% 98,0% 13,5 2,1% Distribuição de EE 92,0% 93,1% 94,2% 25,7 4,1% Carregamento de EE 83,0% 86,5% 90,0% 46,8 7,4% 71,0% 77,7% 83,1% 86,0 13,6% Produção de energia elétrica Total Total Uso final Uso final 100,0% 100,0% 100,0% Participação% ICV consumo 94,0% Total Transpor te e distribuição da fonte de energia Eficiência energética% VEB Total 27,5% 34,3% 41,8% 573,5 90,5% 80,0% 80,0% 80,0% 60 9,5% 22,0% 27,5% 33,5% 633,5 100,0% 3.3. Fase 3. Avaliação dos dados de forma positiva o resultado aqui obtido, indicando coerência e consistência. - 89 Hekkert na exploração do GNC, além de 92,8% para a produção e 96,6% no transporte de e 84%. A Agência Internacional de Energia (IEA, 2008) divulgou valores máximos do GNC, enquanto Boustead Hancock (1979) informaram os seguintes valores médios: 89% (Estados Unidos), 82,5% (Reino Unido) e 87,5% (Europa Ocidental). de suprimentos do GNC, que está entre 86,5% e 94%. Segundo Handa dos 27,5% apresentados neste trabalho. Ramos-Real Yoshida - (2007) informam que , 2 com valores entre 48% e 56. 3.4. Fase 4 – Comparação dos resultados ciência energética e o consumo de energia. 3.4.1. Comparação dos resultados sobre eficiências energéticas do ICV1 e ICV2 energéticas dos ICV1 (12,4%) e ICV2 2 é 121% 1 o ciclo de vida das fontes de energia, o uso de GN em usinas termelétricas para a tica” ... “do que o uso de gás natural comprimido em motores de combustão interna (MCI), prática atual no Brasil”. o ICV2 1. Para 90 Transporte em Transformação XV . 2 Figura 5: dos ICV1 e ICV2 em macro-estágios. Figura 6: dos ICV1 e ICV2 – meso-estágios. - 91 No ICV1 res aos análogos do ICV2 (Figura 6). Numa análise entre meso-estágios (Figura 6), 1 os meso-estágios da cadeia de suprimentos. Isso ocorre desde a “produção da matéria-prima” até o “transporte e distribuição” da fonte de energia. Destaca-se o mesogás natural nas UPGNs (97,6%) no ICV1 alcançada pelas termelétricas ICV2. Uma diferença considerável também ocorre no 1 (92%), contra o ICV2 (77%). 3.4.2. Comparação dos resultados do consumo de energia no ICV1 e ICV2 Os valores de consumo energético de cada inventário, em MJ/(pass×1.000km), contidos nas Tabelas 2 e 3, mostram resultados sob a ótica do real aproveitamento da energia nos ciclos de vidas analisados, que até então estavam representados em Para calcular os valores de consumo de energia no ICV1, foi considerado que para um VCI (com rendimento médio de 12 km/m3, transportando 1,5 passageiro) se deslocar 1.000km, necessita ser abastecido com 2073 MJ de GNC, sendo que apenas 15% disso é, de fato, transformado em trabalho. Para prover esse deslocamento, o gás natural deve passar por todas as etapas da cadeia de suprimentos do GNC e pela tecnologia que envolve o VCI. A partir do consumo do VCI e das , foi possível elaborar o consu1 mo energético de cada estágio do ICV1, assim como o peso de cada um deles no consumo total de energia no ciclo de vida (Tabela 2). Como resultado imediato, foi energia com 1.762 MJ/(pass×1000km), o que representa 80% do total de energia demandada pelo ICV1. O consumo energético do iMiev está em torno de 0,125 kWh/km, ou 0,45 MJ/ km. Transportando 1,5 passageiro ao longo de 1.000km, necessita ser abastecido com 300 MJ de energia elétrica, sendo que 80% disso é de fato transformado em das na Tabela 3, foi possível determinar o consumo de energia dos estágios do ICV2 92 Transporte em Transformação XV e a respectiva parcela que cada um deles detém no consumo total de energia no ciclo de vida. Acerca dos valores de consumos de energia apresentados pelo ICV2, o meso-estágio “transporte de MP” consome apenas 5,6% do total consumido pelo ciclo de vida, enquanto a produção de eletricidade por termelétricas é o principal estágio consumidor de energia em relação aos demais, com 57,4%. O consumo de energia total do ICV1 foi de 2.196,4 MJ/(pass×1000km), enquanto no ICV2 este valor foi de 633,5 MJ/(pass×1000km); uma diferença de 247%. consumo de energia do ICV2 se comparado ao ICV1 uma vez que “considerando o ciclo de vida das fontes de energia, o uso de GN em usinas termelétricas para a produção de energia elétrica para uma frota de automóveis elétricos a bateria pode apresentar” ... “menor consumo de energia do que a utilização em prática atualmente, que é a do uso de gás natural comprimido em motores de combustão interna (MCI)”. Observando o consumo energético do ICV2, Figura 7, em nível de macroenergético em ICV1 onde a cadeia de suprimentos representa 20% da energia total é o maior entre seus meso-estágios, enquanto no ICV2, este 1 valor é atribuído à produção da fonte de energia. Ainda que a cadeia de suprimentos do ICV1 do ICV2, a alta demanda de energia do VCI acarreta altos valores absolutos de con- afetando o consumo de energia em todos os estágios anteriores podendo resultar num alto consumo de energia global do ICV. - 93 Figura 7: Consumo energético dos ICV1 e ICV2 – na profundidade de macro-estágios. Figura 8: Comparação do consumo energético dos ICV1 e ICV2 – meso-estágios. Observa-se a vantagem energética do VEB associada não apenas em relação em relação à quantidade de energia requerida por quilômetro percorrido, indicando uma grande vantagem do VEB sob este aspecto. No VCI, para promover o deslocamento de 1.5 passageiros em 1.000km de distância, é necessário abastecê-lo com 94 Transporte em Transformação XV 2073MJ de gás natural. Para o VEB percorrer esta mesma distância, com os mesmos 1,5 passageiros, ele deve ser abastecido com apenas 300 MJ de eletricidade. 4. Considerações Finais e Sugestões O resultado deste estudo comparativo favorece a implementação do modelo de ciclo de vida referente à alternativa (EE,VEB) como alternativa para melhoria em 247% do aproveitamento energético do gás natural da Bacia de Campos como fonte de energia para automóveis em tráfego urbano na cidade do Rio de Janeiro. O modelo de ciclo de vida que se destacou, implica no direcionamento do GN para a produção de energia elétrica nas termelétricas de ciclo combinado e na substituição gradativa da frota de veículos do Rio de Janeiro, que hoje são VCIs, para VEBs. Conforme apresentado nos itens 3.4.1 e 3.4.2., pode-se considerar que princilecida na introdução. Além da vantagem do melhor aproveitamento da energia, para o consumidor realidade de um abastecimento numa residência no Rio de Janeiro em dezembro de geração de eletricidade, onde cerca de 72% é proveniente de hidrelétricas. Porém, matrizes baseadas em termelétricas podem implicar em maiores preços ao consumidor de energia elétrica. Enquanto isso o custo do VCI para a mesma realidade é em torno de R$ 0,12/km para o VCI (Hill, 2010). introdução da frota de veículos elétricos: menor poluição atmosférica global pela redução das emissões de CO2; menor poluição atmosférica local por redução das emissões de monóxido de carbono (CO), material particulado (MP) e hidrocarbonetos (HC); além da redução da poluição sonora provocada pelos motores de combustão interna (MITSUBISHI, 2009). Para um trabalho mais completo sobre a comparação dos ciclos de vida aqui apresentados, recomenda-se incluir além da análise energética, informações sobre emissão de poluentes atmosféricos, emissão de resíduos sólidos e líquidos e consumo de água. - 95 Adicionalmente, entende-se que para uma recomendação mais consistente sobre o uso de veículos elétricos a bateria (VEB), os valores de aquisição e os custos de operação destes veículos deveriam ser considerados. Entende-se que atualmente, estes valores ainda sejam bastante superiores aos dos veículos com motor de combustão interna (VCI). Impulsionados pelos argumentos de preservação ambiental e desenvolvimento sustentável, países como EUA, Holanda e Portugal já oferecem incentivos (descontos na aquisição, isenção de impostos, tarifas e pedágios) para estimular o uso de veículos elétricos (Hill, 2010). Estes incentivos são fundamentais para impulsionar o mercado dos VEBs, combinando a participação e interesse de diversos setores como: ambiental, de energia, automobilístico e governo. Referências Bibliográficas BEN, 2008, , In: Ministério de Minas e Energia, Brasília, DF site:http://www.mme.gov.br , acesso em 26/02/2009. D´Agosto, M. de A. e Ribeiro, S. K. (2007). Procedimento de análise de ciclo de vida para comparação de fontes de energia para o transporte no Brasil. Anais do XXI Congresso de Ensino e Pesquisa em Transportes, Rio de Janeiro, RJ. D´Agosto, M. de A. e Ribeiro, S. K. (2009). Assessing total and renewable energy in Brazilian automotive fuels. A life cycle inventory (LCI) approach. Renewable and Sustainable Energy Reviews 13 (2009) 1326–1337. GNV, 2010, , NGV Communications Group, maio de 2010 . ANO X, nº 110. Rio de Janeiro, Brasil. Site: www.ngvgroup.com, acessado em julho de 2010. ANP, 2010, 2009. Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis. Rio de Janeiro, 2010. ABEGÁS, 2009, 2008, Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado, site:www.abegas.org.br, acessado em 19/03/2009. D´Agosto, M. A. 2004, , Tese realizada como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de Doutor em Ciências (D. Sc.) na COPPE/UFRJ TRANSPETRO, 2010, Informações sobre processamento de gás natural de Cabiúnas, contatos pessoais e por email, em janeiro de 2010. 96 Transporte em Transformação XV CTGAS, 2009, , Centro de Tecnologia do Gás. Site:www.ctgas.com.br acessado em 18/03/2009. GASNET, 2009, . Site: www.gasnet.com.br, acessado em 31/03/2009. MITSUBISHI, 2009, , MITSUBISHI MOTORS, site: www.mitsubishi-motors.com/special/ev/, acessado em dezembro de 2009. MITSUBISHI, 2010, , MITSUBISHI MOTORS, http://www.mitsubishi-motors.com/special/ev/whatis/index.html, acessado em 02/02/2010. IEA, 2008, . In: International Energy Agency, 2008. Hackney, J. Neufville, R., 2001, “Life cycle of alternative fuel vehicles: emissions, energy and cost trade-offs.” Part A 35, pp. 243266. Kreith F, 2002. Legislative and technical perspective for advanced ground transportation systems. Transportation Quarterly 2002; 56:51-73. Hekkert M. P. , 2005, “Natural gas as an alternative to crude oil in automotive fuel chains well-to-wheel analysis and transition strategy development”, 33, pp. 579-594, Holanda. Lee Kun-Moo , 2004, “Life cycle inventory analysis for electricity in Korea, 29, pp. 87-101, Coréia do Sul. Wagner U. , 2006, “Energetic life cycle assessment of fuel cell powertrain systems and alternative fuels in Germany”, 31, pp. 3062-3075, Alemanha. Dinca C. , 2007, “A life cycle impact of the natural gas used in the energy in Romania”, 15, pp. 1451-1462, Romênia. Goedeck M. , 2007, Life cycle cost analysis of alternative vehicles and fuels in Thailand”, 35, pp. 3236-3246, Tailândia. Ally J. Pryor T., 2007, “Life-cycle assessment of diesel, natural gas and hydrogen fuell bus transportation systems”, 170, pp.401-411. Ramos-Real F. J. 2007, “The effects of introducing natural gás in the Canary Islands for electricity generation”, 35, pp. 3925-3935, Espanha. Handa, K. Yoshida, H., 2007, “Development of Nest-Generation Electric Vehicle “iMiev””, In.: nº 19, 2007. EPE, 2007, , In: Empresa de Pesquisa Energética, 2007. energética entre os ciclos de vida do gás natural veicular comprimido e da - 97 Rio de Janeiro, RJ. Mauro Pereira Hill Márcio de Almeida D’Agosto ([email protected]) Programa de Engenharia de Transporte, Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia – COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Bloco H, CEP 21949-900, Rio de Janeiro, Brasil. Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 5 Resumo Este trabalho apresenta o modelo e estratégia de controle de um sistema BRT ( ) que tem como principal característica a presença de segmento(s) de faixa exclusiva única para ambos os sentidos de deslocamento dos ônibus (segmentos bi-direcionais). Este diferencial, dadas as restrições associadas ao alto grau de adensamento das áreas urbanas, permite uma menor ocupação de espaço físico e menor ocupação das vias convencionais por parte dos ônibus, podendo muitas vezes representar a viabilidade ou não da implementação de sistemas BRT. São apresentados o modelo e uma estratégia de controle em tempo real para operação do sistema BRT proposto, aqui denominado CIRSO (Controle Integrado de Retenção 100 Transporte em Transformação XV e Seqüenciamento dos Ônibus). O modelo matemático utilizado é determinístico, representado por uma função custo e restrições, sendo as variáveis de controle o tempo ótimo de retenção dos ônibus nos pontos e o controle do seqüenciamento dos ônibus através do(s) segmento(s) bidirecional(ais). Resultados de simulação controle CIRSO aqui propostos. Abstract This paper presents a model and control strategy for a BRT system which has as its main distinguishing characteristic the presence of segment(s) with only one exclusive lane for both directions of bus movement (bi-directional segments). This feature, given the constraints associated with high density urban areas, allows for a smaller physical footprint and lower occupancy of the conventional ways by buses and can often represent the only feasible alternative of the implementation of a BRT system. The model and a control strategy for real time operation of the proposed BRT system are presented, here called CIRSO (Integrated Control of Retention and Sequencing of the Buses). The mathematical model used is deterministic, represented by a cost function and constraints. The control variables are the optimum holding time of buses at stops and control of bus sequencing through the biBRT system model and CIRSO control strategy here proposed. 1. Introdução A implantação de um sistema de transporte público de massa e de qualidade é uma necessidade cada vez mais presente nas cidades de médio e grande porte, ternativa cada vez mais utilizada é a implantação de sistemas do tipo BRT, que de implantação e manutenção, tornando-se muitas vezes a única opção economicamente viável. Entretanto, a implantação de sistemas BRT geralmente encontra restrições associadas ao alto grau de adensamento das áreas urbanas, tornando em muitos Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 101 casos, inviável a implantação de faixas exclusivas para os ônibus nos dois sentidos em todo o percurso. Assim, a utilização de segmentos de faixa exclusiva única para ambos os sentidos de deslocamento dos ônibus (segmentos bi-direcionais), não simultâneos, em pontos críticos do percurso, pode representar a única solução técnica e economicamente viável. Um problema típico relativo à operação de sistemas BRT é o desvio dos ônibus em relação ao plano de horários e ou espaçamento ( ), causado por variações probabilísticas no tempo de embarque e desembarque de passageiros nos pontos e ou velocidade dos ônibus ao longo da rota. Este desvio ou instabilidade faz com que os ônibus acabem se agrupando e formando pelotões (efeito ), o que implica num aumento do tempo de espera dos usuários do sistema de transporte público, além de custos adicionais aos prestadores do serviço. Estes possíveis desvios podem e devem ser minimizados através de uma estratégia de controle em tempo real, de forma a otimizar o desempenho do sistema. Dentre as várias estratégias utilizadas, no caso de um serviço com alta freqüência de ônibus, pode-se destacar a retenção ou , que consiste em reter o(s) ônibus no(s) ponto(s) por determinado tempo, buscando com isso reduzir a variação no espaçamento entre estes e com isto reduzir o atraso dos usuários do sistema. Caso exemplo da utilização de segmentos bi-direcionais é o sistema BRT de aproximadamente 6,4 km, sendo 4,8 km de segmento bidirecional de faixa exclusiva única, com espaçamento típico entre ônibus no horário de pico de aproximadamente 15 minutos. O controle do seqüenciamento dos ônibus através do segmento de 16 minutos de fase para os ônibus em cada sentido. Segundo análise, a principal causa dos atrasos é função da falta de uma coordenação ou controle tempo-real da operação dos ônibus (Li . 2009a). Trabalhos anteriores relativos a sistemas BRT com segmentos bi-direcionais são bastante escassos, podendo-se citar Li . (2009a), Li . (2009b) e Tsao . (2009). O trabalho de Li . (2009a,b) apresenta uma estratégia de controle tempo-real para operação de um sistema tipo BRT no cenário (potencial) Bay Área, Califórnia. O cenário (simulação) é constituído de 8 pontos, num percurso (não fechado) de aproximadamente 21 km com faixa exclusiva única bidirecional. 102 Transporte em Transformação XV As restrições associadas ao modelo permitem que somente um ônibus transite em cada segmento bidirecional entre pontos em determinado sentido e que o encontro entre ônibus em sentidos contrários se dá somente nos pontos. O modelo utilizado é apresentado na forma de um problema de otimização ou programação matemática inteira mista, com a função custo representando os atrasos associados ao tempo de viagem dos ônibus e tempo de permanência dos ônibus nos pontos. O algoritmo utilizado para solução do problema de otimização é do tipo .A capacidade dos ônibus, o modelo de chegada dos passageiros aos pontos, o tempo de embarque e desembarque de passageiros e o número de passageiros nos pontos e embarcados não são considerados. da proposta de estratégia de controle tempo-real do sistema BRT com segmento bidirecional quando comparado com o mesmo cenário e utilização de duas faixas unidirecionais exclusivas, uma para cada sentido. Entretanto, à medida que o espaçamento entre os ônibus diminui, no caso apresentado para espaçamentos menores tempo de CPU para se chegar à solução quase ótima. Neste contexto, este trabalho propõe uma estratégia de controle tempo real para sistemas BRT que permita o controle simultâneo ou integrado da retenção dos ônibus nos pontos ( ) e do seqüenciamento dos ônibus através do(s) segmento(s) bidirecional(ais), com uma série de diferenciais. O modelo e estratégia propostos, aqui denominado CIRSO (Controle Integrado de Retenção e Seqüenciamento dos Ônibus), tem por objetivos a possibilidade de utilização de segmentos de faixa exmas BRT. Nas seções seguintes são apresentados: o modelo e estratégia de controle do sistema BRT proposto, ou CIRSO; um estudo de caso via simulação, da aplicação do CIRSO num cenário BRT com segmento bidirecional; análise dos resultados e aplicabilidade do CIRSO. Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 103 2. Modelo do SISTEMA CIRSO O modelo aqui utilizado considera um sistema de transporte urbano tipo BRT, constituído de dois circuitos de faixa exclusiva unidirecional (sentido único para os ônibus) ligados por um segmento de faixa exclusiva bidirecional (duplo sentido para os ônibus), conforme indicado na Figura 1. Figura 1: Esquema do sistema BRT (CIRSO) com segmento bidirecional. Assume-se a disponibilidade das seguintes informações do sistema BRT: o instante de partida dos ônibus do último ponto visitado (e anteriores se necessário); índice do último ponto visitado pelo ônibus (e anteriores se necessário); número de passageiros embarcados nos ônibus na saída do último ponto visitado. Consideram-se os seguintes dados históricos: taxa de chegada de passageiros nos pontos; fração de passageiros embarcados nos ônibus que desembarcam em cada ponto; 104 Transporte em Transformação XV parâmetros ou constantes de embarque e desembarque de passageiros nos pontos; tempo nominal de viagem dos ônibus entre pontos. O modelo é sujeito às seguintes aproximações e limitações: passageiros nos pontos); o tempo de viagem dos ônibus entre pontos é aproximado pelo valor nominal; o tempo de embarque e desembarque de passageiros é aproximado por uma função linear (Wilson e Lin, 1992), com o embarque e desembarque ocorrendo por portas distintas; a função objetivo considera um horizonte limitado de pontos a jusante de cada ônibus na avaliação do impacto da ação de controle; a ordem dos ônibus é mantida, sem ultrapassagem entre os ônibus, ou seja, o ônibus -1 sempre precede o ônibus . Apesar do problema CIRSO em tempo real apresentar uma natureza eminentemente estocástica, este pode ser aproximado, dentro do horizonte de predição considerado, por um modelo determinístico (Eberlein ., 2001). O problema CIRSO consiste em determinar quanto, em quais pontos e quais ônibus do sistema BRT devem ser retidos ( ) para se minimizar a função custo apresentada e ao mesmo tempo controlar o seqüenciamento dos ônibus através do segmento bidirecional. Ou seja, minimizar o atraso total dos usuários ou passageiros do sistema BRT para o horizonte de predição considerado. A função custo que representa o atraso total do sistema BRT é dada por: (1) Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 105 em que índice dos ônibus, =1,..., ; : número de ônibus do sistema BRT; : : conjunto de ônibus do sistema BRT, ={1,…, }; : índice dos pontos, =1,..., ; : : : , : número de pontos do sistema BRT; conjunto de pontos pertencentes ao horizonte de predição do ônibus ; instante de partida do ônibus do ponto [s]; taxa de chegada de passageiros ao ponto [passageiros/s]. - rior ( -1), o ônibus seguinte ( -1) e o ponto seguinte ( pertencem a mesma volta, dentro do circuito fechado BRT, do ônibus e ponto em questão. Maiores detalhes da representação completa que considera a representação da volta podem ser encontrados em Koehler (2009). No modelo determinístico da Equação (1), a função custo determina o atraso total dos passageiros nos pontos, para cada um dos ônibus do sistema BRT e pontos dentro do horizonte de predição de cada ônibus. O atraso ou tempo de do passageiro ao ponto e a partida deste ponto embarcado no ônibus. Desconsidera- As restrições associadas ao modelo CIRSO estão indicadas abaixo: (2) (3) 106 Transporte em Transformação XV (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10) (11) (12) (13) (14) em que 1 1 : : primeiro ponto pertencente ao horizonte de predição do ônibus ; conjunto de pontos pertencentes ao horizonte de predição do : ônibus com exceção do ponto 1 ; número de pontos dentro do horizonte de predição ônibus; dos Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional : ônibus anterior ao ônibus ; 1: ônibus seguinte ao ônibus ; 107 : ponto anterior ao ponto ; 1: ponto seguinte ao ponto ; : ponto de partida dos ônibus à esquerda do segmento bidirecional; : ponto de partida dos ônibus à direita do segmento bidirecional; : ponto de chegada dos ônibus à direita do segmento bidirecional; : ponto de chegada dos ônibus à esquerda do segmento bidirecional; : fração de passageiros embarcados que desembarcam dos ônibus no ponto ; tempo nominal de viagem do ônibus entre os pontos [s]; r : , , , 1e : instante de chegada do ônibus ao ponto [s]; : número de passageiros embarcados no ônibus quando da partida do ponto ; : tempo de retenção do ônibus no ponto [s]; : tempo de embarque de passageiros no ônibus no ponto [s]; : tempo de desembarque de passageiros do ônibus no ponto [s]; , : tempo máximo entre o processo de desembarque e embarque de passageiros do ônibus no ponto [s]; 0 : tempo para o início do embarque e desembarque de passageiros a partir da chegada do ônibus ao ponto [s]; , , 108 Transporte em Transformação XV 1 : tempo gasto para o embarque de cada passageiro nos ônibus [s/passageiro]; : tempo gasto para o desembarque de cada passageiro dos ônibus [s/passageiro]; : espaçamento temporal mínimo permitido entre os ônibus [s]; : tempo máximo de retenção dos ônibus nos pontos [s]; : variável binária, 2 , ; , , ,, , : variável binária, ; , , ,, , : variável binária, ; 3 : 4 : As restrições das Equações (2) à (14) permitem expressar, para o ônibus e ponto o instante de chegada do ônibus ao ponto, os tempos de embarque e desembarque de passageiros no ponto, a operação mais lenta dentre estas, o instante de partida do ônibus do ponto, o instante máximo de partida do ônibus do ponto para evitar ultrapassagem ou encontro com o ônibus seguinte, o limite máximo para retenção do ônibus no ponto, o número de passageiros embarcados no ônibus quando da partida do ponto, a disputa do segmento bidirecional e a natureza positiva das variáveis. As restrições das Equações (11) e (12) estão associadas à disputa do segmento bidirecional, ou seja, restringem a utilização da faixa exclusiva única a somente ônibus num determinado sentido de cada vez. A Equação (11), por exemplo, condiciona a partida do ônibus do ponto à chegada do ônibus ao ponto ou (variável binária), a partida do ônibus do ponto -1 (= conforme representação utilizada no circuito BRT) à chegada do ônibus ao ponto conforme representação utilizada no circuito BRT). A Equação (12) pode ser interpretada de forma similar. Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 109 diferenciais presentes no modelo apresentado em relação a outros trabalhos são: possibilidade do controle de retenção em todos os pontos do horizonte de predição considerado, Equações (1) e (7); utilização de restrição de ultrapassagem entre ônibus e espaçamento mínimo, Equação (8); utilização de restrição de retenção máxima dos ônibus nos pontos, Equação (9); utilização de segmentos de faixa exclusiva bi-direcionais com controle integrado de retenção e seqüenciamento dos ônibus, Equações (11) e (12). 2.1 Características do CIRSO Conforme indicado na Equação (1), a função custo é convexa e as restrições são lineares, o que implica num problema de programação matemática linear inteira mista. Vários outros trabalhos que abordam o tema controle de retenção, como por exemplo Eberlein . (2001), Hickman (2001) e Zolfaghari . (2004), também não consideram o atraso dos passageiros embarcados no ônibus na função custo, o que garante a convexidade. Outros, como o trabalho de Sun e Hickman (2004), consideram somente o processo de embarque de passageiros nos ônibus, o que elimina o conjunto de inequações lineares associada à escolha do processo mais lento, embarque ou desembarque. Entende-se neste trabalho que para um modelo realista do sistema BRT, a possibilidade de escolha entre o processo de embarque e desembarque de passageiros não deve ser desprezada. 2.2 Ação de controle de retenção hi,k As ações de controle de retenção , realmente implementadas estão relacionadas com o primeiro ponto de cada ônibus dentro do horizonte de predição, 1 1 ou . As demais ações de controle de retenção , relativas a pontos , apesar de consideradas na função custo, não são implementadas, visto que são uma projeção futura da ação de controle. Uma vez implementada as ações de con- trole de retenção para 1 , os valores iniciais de , e , relativos aos últimos 110 Transporte em Transformação XV pontos visitados pelos ônibus são atualizados e novas ações de controle calculadas para o novo horizonte de predição considerado. E assim sucessivamente. Isto é, considera-se um horizonte de predição rolante com atualização dos valores iniciais de , e , e novo cálculo das ações de controle de retenção , . 2.3 Seqüenciamento dos ônibus O seqüenciamento dos ônibus através do segmento de faixa exclusiva única bidirecional, ou seja, a garantia de não ocupação simultânea do segmento bidirecional com ônibus em sentidos contrários, é garantida pelas restrições das Equações (11) e (12). Como pode ser observado, não há restrições quanto a passagem de mais de um ônibus seguido em determinado sentido através do segmento bidirecional. O cruzamento dos ônibus em sentidos contrários, se for o caso, se dá nos pontos nas nomear os pontos associados ao segmento bidirecional, , , e . 3. Estudo de Caso estuda-se o exemplo apresentado a seguir. O cenário é constituído de um sistema BRT em circuito fechado de faixa exclusiva e presença de segmento bidirecional, semelhante ao circuito da Figura 1, mas com 30 pontos e 8 ônibus. O objetivo é o cálculo simultâneo e integrado da ação de controle de retenção , e do seqüenciamento dos ônibus através do segmento bidirecional, considerando-se um horizonte de 14 pontos de predição a jusante de cada ônibus. A solução ótima implica no menor custo (mínimo global) da operação do sistema BRT, conforme Equação (1). Os dados do sistema BRT utilizados para a simulação são: =8, =30, =14, =12, 1=0,48, 2=0,42, =0 [s], ( )=0,1 para todos os pontos , 0 r( )=60 para todos os pontos com exceção de r(13)= (30)=120 (cenário1) e 240 (cenário2), ( )=0,3 para todos os pontos . Para o circuito considerado, o ponto de partida do lado esquerdo do segmento bidirecional é o ponto =12, o ponto de chegada do lado direito é =13, o ponto de partida do lado direito é =29 e o de chegada do lado esquerdo é =30. Os pontos 1 até 11 pertencem ao circuito Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 111 unidirecional esquerdo e os pontos 14 até 28 ao circuito unidirecional direito. As matrizes * , [s] e L*, [s] contém os valores iniciais de , e , (valores não ese as colunas os pontos dentro do circuito fechado do sistema BRT. Conforme observado a partir da matriz *, e de r( ) o espaçamento típico entre os ônibus é de aproximadamente 6 minutos. A utilização do CIRSO na solução do problema de controle em tempo real da operação do sistema BRT com segmento bidirecional aqui apresentado, leva aos resultados para a variável controle de retenção conforme indicado na Tabela 1. São apresentados os resultados para dois cenários distintos relativos ao tempo de percurso do segmento bidirecional (entre os pontos 12–13 e 29–30) ou unidirecionais equivalentes (caso usual). A Tabela 2 apresenta um comparativo entre as estratégias CIRSO (caso segmento bidirecional) e caso usual (segmentos unidirecionais) para o custo ou atraso total dos usuários do sistema BRT, conforme Equação (1), para um horizonte de predição de 14 pontos para cada ônibus. São apresentados os resultados para os cenários 120 e 240 s. Como pode ser observado na Tabela 2, a utilização de segmento bidirecional conjuntamente com a estratégia CIRSO permitiu, para o horizonte considerado, uma operação do sistema BRT com custo igual ou 25,4% superior, cenários 120 e 112 Transporte em Transformação XV 240 s respectivamente. Vale ressaltar que no CIRSO o controle de retenção implica também no controle do seqüenciamento dos ônibus através do segmento bidirecional de faixa única e duplo sentido. Tabela 1: Ações de controle de retenção para o caso bidirecional (CIRSO) e dois segmentos unidirecionais equivalentes (caso usual) considerando dois cenários. Tempo de percurso do segmento bidirecional ou unidirecional [s] (cenário) 120 240 Ação de controle de retenção hi,k,(volta) [s] Caso bidirecional CIRSO hi,k,(volta)=0 Caso unidirecional hi,k,(volta)=0 h1,1,(volta2)=102,1 h1,2,(volta2)=1,5 h1,5,(volta2)=5,3 h2,28,(volta1)=58,6 h3,24,(volta1)=96,5 h3,29,(volta1)=67,9 h5,16,(volta1)=21,0 h7,9,(volta1)=46,9 h7,12,(volta1)=68,9 h8,5,(volta1)=63,4 h8,9,(volta1)=24,6 h8,12,(volta1)=277,4 h1,1,(volta2)=25,8 h5,16,(volta1)=30,4 Tabela 2: Atraso total dos usuários do sistema BRT (para =14). Atraso total BRT [s] Cenário [s] Caso bidirecional CIRSO Caso unidirecional 120 683.195 683.195 240 1.045.320 (+25,4%) 833.749 Proposta de um Sistema BRT com Segmento de Faixa Exclusiva Única Bidirecional 113 4. Conclusões A utilização de segmento(s) bidirecional(ais) em sistemas BRT pode representar, em muitos casos, considerando-se a importância da utilização de faixas exclusivas, a viabilidade ou não da implantação do sistema. Neste contexto a estratégia CIRSO aqui apresentada, baseada no controle simultâneo integrado do espaçamento e seqüenciamento dos ônibus através de segmento(s) bidirecional(ais), permite a implantação de sistemas BRT com menor custo em termos de ocupação urbana e de infra-estrutura. De acordo com as simulações realizadas e apresentado na Tabela 2, para o cenário proposto, a viabilidade de utilização da estratégia CIRSO está diretamente associada à relação entre o espaçamento nominal dos ônibus e o tempo de percurso do segmento bidirecional. Ou seja, quanto maior a relação entre o espaçamento nominal e o tempo de percurso do segmento bidirecional, menor o impacto da utilização de segmentos bi-direcionais em relação a dois segmentos unidirecionais. Nos cenários apresentados, para um espaçamento típico de 360 s entre ônibus, o tempo de percurso do segmento bidirecional de 120 s resultou em aumento de custo zero, enquanto o tempo de percurso de 240 s aumentou o custo em 25,4%. Tempos de percurso ainda maiores levam a uma solução infactível. Importante ressaltar que os resultados apresentados valem para o exemplo e cenários utilizados e variam para cenários distintos. Entretanto, para outros cenários testados a solução via CIRSO também apresentou resultados tão positivos quanto os aqui apresentados. O tempo de processamento da estratégia de controle CIRSO, com programa escrito em AMPL e executado via NEOS, foi de 2,87 s para o cenário 120 s, compatível com aplicações tempo real. Já para o cenário 240 s o tempo de processamento foi de 64,9 s, incompatível com aplicações tempo real. Em casos críticos uma solução poderia ser a diminuição do tempo de processamento através da redução do número de variáveis binárias via limitação do horizonte de predição dos ônibus. A utilização de segmentos bi-direcionais e estratégia CIRSO parece perfeitamente viável para aplicação em cenários reais, tendo como principal parâmetro a ser analisado em termos de viabilidade de implantação, a relação entre o espaçamento nominal dos ônibus e tempo de percurso do(s) segmentos(s) bidirecional(ais). 114 Transporte em Transformação XV Agradecimentos Eduardo Camponogara e Werner Kraus Junior agradecem ao CNPq pelo apoio na forma de bolsa de produtividade concedida pela agência. Referências Bibliográficas Eberlein, X. J.; Wilson, N. H. M. e Bernstein, D. (2001). The Holding Problem with Real-Time Information Available. Transportation Science, Vol. 35, n. 1, pp. 1–18. Hickman, M. (2001). An Analytic Stochastic Model for the Transit Vehicle Holding Problem. Transportation Science, Vol. 35, n. 3, pp. 215–237. Li, Jing-Quan; Song, Myoung Kyun; Li, Meng; Zhang, Wei-Bin (2009a). Planning for Bus Rapid Transit in Single Dedicated Bus Lane. Transportation Research Record, Vol. 2111 / 2009, pp. 76–82. Li, Jing-Quan; Song, Myoung Kyun; Li, Meng; Zhang, Wei-Bin and Miller, Mark (2009b). Evaluation of Cost-Effective Planning and Design Options for Bus Rapid Transit in Dedicated Bus Lanes. California PATH Research Report UCB-ITSPRR-2009-14, February 2009. Koehler, L. A. (2009). Controle Integrado de Prioridade e Retenção para Operação de Sistemas de Transporte Público. Tese de Doutorado, UFSC, Florianópolis, Brasil. Sun, A. e Hickman, M. (2004). The Holding Problem at Multiple Holding Stations. In: Proceedings of the 9th International Conference on Computer-Aided Scheduling of Public Transport, San Diego, California, USA. Tsao, H-S. J.; Wei, W. e Pratama, A. (2009). Operational feasibility of one-dedicatedlane bus rapid transit/light rail systems. Transportation Planning and Technology, Volume 32, Issue 3 June 2009, pp. 239–260. Wilson, N. H. M. e Lin, T. (1992). Dwell Time Relationships for Light Rail Systems. Transportation Research Record, n. 1361, pp. 287–295. Zolfaghari, S., Azizi, N. e Jaber, M. Y. (2004). A Model for Holding Strategy in Public Transit Systems with Real-Time Information. International Journal of Transport Management, Vol.2, pp. 99–110. Luiz Alberto Koehler ([email protected]) Departamento de Eng. Elétrica e de Telecomunicações, Fundação Universidade Regional de Blumenau R. São Paulo, 3250 – Blumenau SC 89030-000, Brasil Eduardo Camponogara ([email protected]), Werner Kraus Junior ([email protected]) DAS CTC UFSC – Florianópolis SC 88040-900, Brasil O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 6 Resumo Este artigo apresenta uma discussão sistematizada sobre os diversos aspectos que caracterizam o potencial do uso da microssimulação em estudos de segurança de tráfego. Inicialmente, faz-se uma revisão dos principais indicadores de desempenho da segurança viária, analisando sua evolução conceitual e a pertinência na utilização de modelos de microssimulação na sua estimativa. Em seguida, são descritas as principais características dos simuladores a serem observadas quando utilizados em estudos de segurança. São discutidos também aspectos referentes ao processo de calibração e validação dos algoritmos de modelagem microscópica para esse tipo de aplicação, além da necessidade de validar a relação entre indicador simula- 116 Transporte em Transformação XV rentes aos algoritmos de modelagem microscópica, os procedimentos de calibração e validação desses algoritmos, assim como a validade relativa dos indicadores de Abstract This paper presents a systemized discussion on the different aspects that charanalyzing their conceptual evolution and the appropriateness of using microscopic simulation models in their estimation. Following, there is a description of the main There is also a discussion on the aspects related to calibrating and validating microscopic modeling algorithms for this type of application, as well as the need to validate the relationship between simulated measures and imminent accident situations ob- for calibrating and validating these algorithms, as well as the relative validity of the 1. Introdução Na Engenharia de Transportes, por um lado, técnicos e pesquisadores almejam o desenvolvimento de projetos que promovam um nível adequado de segurança para todos os componentes dos seus subsistemas. Por outro lado, tomadores de decisão responsáveis pela gestão da circulação de pessoas e bens normalmente premenor risco possível de acidentes. Nesse contexto, torna-se essencial a criação de procedimentos sistemáticos para a avaliação do desempenho da segurança viária, seja no nível de planejamento ou de operação do tráfego. O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 117 Os acidentes de trânsito acontecem na sua maioria em virtude de uma cionais, o projeto de experimentos com o intuito de avaliar o impacto de diferentes estratégias de engenharia na segurança do tráfego. Desta forma, o domínio mais comum dos engenheiros de segurança viária relaciona-se aos estudos observacionais, nos quais o conhecimento é obtido por meio da análise meticulosa de eventos que não foram formalmente projetados para o problema em estudo (Cunto, 2008). A abordagem mais frequente nos estudos de segurança viária faz uso de bancos de dados de acidentes de trânsito e técnicas estatísticas que procuram estabelecer um padrão entre atributos geométricos/operacionais e o número (ou taxa) de acidentes de trânsito observados em um determinado período. Dentre os problemas mais comumente associados a essa abordagem, encontram-se a baixa qualidade e sua modelagem estatística (Hauer, 2002; Davis, 2004). O uso de técnicas de simulação tem possibilitado o desenvolvimento de novas tecnologias voltadas para a otimização do desempenho operacional dos sistemas de transportes. Mais recentemente, o potencial para uso da microssimulação de tráfego em estudos do desempenho da segurança viária passou a ser investigado com maior interesse (Gettman e Head, 2003; Archer, 2005; Xin , 2008). Um dos maiores atrativos deste tipo de abordagem é o fato de ser possível planejar experimentos em um ambiente virtual, evitando a exposição dos usuários “reais” a situações de risco. versos aspectos que caracterizam o potencial do uso da microssimulação em estudos de segurança de tráfego. Para tanto, apresenta-se inicialmente uma revisão dos principais indicadores de desempenho da segurança viária, analisando sua evolução conceitual e a pertinência na utilização de modelos de microssimulação na sua estimativa. A seguir, são descritos os atributos das plataformas de simulação discutidos aspectos referentes ao processo de calibração e validação dos algoritmos de modelagem microscópica para esse tipo de aplicação, além da necessidade de validar a relação entre o indicador simulado e as situações de risco de acidentes observadas em campo. 118 Transporte em Transformação XV 2. Indicadores de Desempenho da Segurança de Tráfego Historicamente, a segurança de tráfego tem sido expressa em termos do número de acidentes observados em porções da rede de circulação, ao longo de um intervalo de tempo (normalmente um ano), em grande parte pela relação lógica e intuitiva entre os dois. O uso dos acidentes de trânsito como único indicador de delagem dos dados. Uma revisão em 18 pesquisas sobre a qualidade das informações sobre os acidentes de trânsito coletados pela polícia, hospitais e seguradoras na América do Norte e Canadá foi apresentada por Hauer e Hakkert (1989). Os resultados sugerem que a quantidade de acidentes não reportados aumenta com a graves, 50% com feridos leves e 60% com danos materiais não estão presentes nos bancos de dados. Os acidentes de trânsito normalmente apresentam uma sequência de eventos hierárquicos complexos que se interrelacionam e variam consideravelmente no tempo e no espaço, além de principalmente com as condições de tráfego. Essa cade modelos estatísticos relacionando acidentes de trânsito aos atributos físicos e operacionais das vias. Dentre os principais problemas encontrados na literatura podem ser citados (Hauer, 2002; Davis, 2004): Elevada frequência de locais com “zero” acidentes; Dispersão excessiva dos dados (variância superior à média); Fenômeno de regressão à média; Problemas de colinearidade com as variáveis dos modelos; Relações observadas em um nível agregado podem não ser válidas no mesmo local, porém em um nível mais desagregado (falácia ecológica). década de 60, Perkins e Harris (1968) começaram a delinear as bases para o desenvolvimento de uma técnica que utiliza situações de risco entre veículos que não é bem mais frequente quando comparado aos acidentes, análises estatísticas poderiam ser mais precisas. Ao longo dos anos essa abordagem incorporou conceitos e procedimentos diferentes em vários países, entretanto a técnica sueca de Análise de O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 119 sucedidas, tendo sido aplicada em trabalhos inclusive no Brasil (Pietrantônio, 1999; Robles e Raia Jr, 2008). Portanto, observa-se a criação de um novo paradigma no qual o conceito de segurança no tráfego passa a ser visto como uma sequência de eventos cronologicamente dependentes que variam desde passagens sem distúrbio a acidentes. Esse conceito é conhecido como continuum de segurança, representado pela pirâmide de Hydén (1987), conforme mostrado na Figura 1. Figura 1: Pirâmide de Hydén (Fonte: Hydén, 1987). Em linhas gerais, o volume da pirâmide correspondente a cada classe de evento pode ser relacionado a sua taxa de ocorrência. Entretanto, enquanto que os extremos da pirâmide são facilmente detectados, suas classes intermediárias careforma, pesquisadores vêm tentando propor indicadores baseados na proximidade bém conhecidos como indicadores proxy de segurança viária (Gettman and Head, 2003; Archer, 2005). O tempo para colisão (TTC ) foi um dos primeiros indicadores proxy propostos sendo baseado na proximidade temporal entre dois veículos. O 120 Transporte em Transformação XV das as mesmas velocidades e trajetórias” (Hayward, 1972). Para veículos na mesma direção, este índice pode ser calculado por meio da seguinte expressão: (X X,) L 1, 1, , , (1) 1, Onde: = intervalo de tempo considerado; X = posição dos veículos ( = veículo líder; = veículo seguidor); comprimento do veículo; velocidade. tos de tráfego (Hayward, 1972). Outros exemplos de indicadores proxy temporais propostos são: tempo para o acidente (TA ), tempo de invasão (ET ), tempo pós-invasão (PET )eo tempo de brecha (GT ) (Cooper e Ferguson, 1976; Hydén, 1987; Gettman e Head, 2003). Um dos problemas que limitam a aplicação dos indicadores proxy temporais rentes combinações de espaçamento e velocidade podem resultar no mesmo valor seja de 4,2m e a diferença de velocidade igual a 10km/h, pela Equação 1, ambos ocorra a colisão, tenha severidade maior por conta do momento linear e energia cinética dissipada durante o processo. Buscando superar essa limitação, uma segunda geração de indicadores foi proposta de modo a utilizar a taxa de desaceleração necessária para evitar a colisão. Por estar diretamente relacionada à energia do processo, teoricamente, esses O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 121 desaceleração para evitar a colisão (DRAC). Para veículos trafegando no mesmo sentido, o indicador DRAC pode ser calculado pela Equação 2. (2) Avanços recentes nas técnicas de aquisição de dados em tempo real e nos sistemas inteligentes de transporte (ITS) contribuíram para o surgimento de medidas proxy de segurança de tráfego que incorporam o tempo de exposição dos veículos a acumulados ao longo do tempo representariam melhor os riscos de um veículo em sua jornada quando comparados a medidas isoladas como o menor TTC ou a maior DRAC. Dentre os principais exemplos deste tipo de indicador encontram-se o (TET), (TIT), ambos densidade de risco (UD – ) de Barceló (2003). (2008) propôs um índice de pontencial para acidentes (CPI – ) que procura estimar o nível de turbulência do tráfego. Essa turbulência é representada pelo somatório das interações entre pares de veículos trafegando na rede ao longo do tempo. As interações podem ser de dois tipos: longitudinais (veículos na mesma direção) ou transversais, ocorrendo todas as vezes que pares de veículos apresentam rota de colisão em um dado intervalo de tempo. O CPI é calculado com base na DRAC e incorpora um componente estocástico que considera o tipo de veículo (veículos leves/pesados) e as condições do pavimento (seco/molhado) na probabilidade da obtenção da DRAC. Este componente é representado pela taxa máxima de desaceleração disponível (MADR ). O CPI é obtido para cada veículo de acordo com a expressão: (3) 122 Transporte em Transformação XV Onde: intervalo de tempo inicial para o veículo (s); (s); = Intervalo de tempo de observação (s); T Tempo total de viagem do veículo (s); variável de estado (0 = sem interação; 1 = veículos interagindo). Conforme mostrado na Figura 2, o componente estocástico da Equação 3 corresponde à área a esquerda da DRAC na função densidade de probabilidade da MADR (assumida normal), em um dado intervalo de tempo. Os parâmetros (distribuição) de MADR podem ser estimados a partir de experimentos de distância pavimento (seco/molhado). Na situação hipotética da Figura 2, para um dado nível veículos leves (CPIveic.pesados,t > CPIveíc.leve,t ). Figura 2: Função densidade de probabilidade da MADR (Fonte: Cunto, 2008). Como principal conclusão dessa revisão sobre a evolução dos indicadores de desempenho da segurança viária, pode-se destacar que as características mais desejavéis dos indicadores proxy de última geração são: O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 123 Permitir a avaliação da severidade de possíveis acidentes; Considerar diferentes tipos de veículos e diferenças entre veículos do mesmo tipo; Considerar diferenças nas condições ambientais (pavimento seco, molhado, etc); Permitir o seu cálculo de forma simples a partir de levantamentos de campo. Muito embora os indicadores proxy contínuos, como TIT, TET, UD e CPI, tenham potencial para representar, de certo modo, os eventos que precedem a ocorrência dos acidentes de trânsito, sua determinação exige um nível detalhado de informações, incluindo posição, velocidade e comprimento dos veículos de maneira contínua. Além disso, os estudos baseados nesses índices e em situações extremas rem capazes de captar um número mínimo dessas ocorrências, de modo a produzir O ambiente da microssimulação, de maneira geral, propicia não só a obtenção de informações detalhadas dos veículos em tempo real de simulação, como também uma alternativa para a obtenção de indicadores proxy de segurança viária de maneidas características mais importantes do microssimuladores para a sua aplicação em estudos de segurança viária. 3. Características Inerentes aos Microssimuladores Vem-se observando nos últimos 10 anos um interesse crescente pelo uso da microssimulação em estudos de segurança viária. Em 2003, a FHWA ( ) apresentou um estudo em que um dos objetivos era avaliar a capacidade de produção de indicadores proxy de segurança para interseções, utilizando nove microssimuladores: CORSIM, SIMTRAFFIC, VISSIM, HUTSIM, PARAMICS, TEXAS, AIMSUN, WATSIM e INTEGRATION. Os microssimuladores foram avaliados em termos de seus algoritmos para modelar as interações condutor/ - 124 Transporte em Transformação XV para o cálculo do indicador proxy. O estudo não aponta superioridade evidente de parecem dispor de grande parte dos requisitos para a geração de indicadores proxy A seguir são discutidos os principais elementos inerentes às plataformas de microssimulação com ênfase na sua aplicação em estudos de segurança viária, agrupados de acordo com três aspectos, a saber: entrada e saída dos dados, além dos seus algoritmos de modelagem das interações condutor/veículo. 3.1. Entrada de dados Na etapa de entrada de dados é importante que a plataforma possibilite um elevado de detalhes para a área simulada, incluindo: Posicionamento correto de faixas de retenção de tráfego; Possibilidade de inclusão de faixas de aceleração/desaceleração; Desenho de circulares (rotatórias); Possibilidade de utilização de fotos do local em segundo plano para auxiliar Os componentes de controle de tráfego devem representar adequadamente desde interseções controladas através de placas “Dê a preferência” e “PARE” até o controle semafórico, seja isolado, atuado pelo tráfego e/ou funcionando em coordo tráfego ao longo do tempo e por (Archer, 2005) 3.2. Saída de dados A grande maioria dos indicadores proxy de segurança recomendados para o uso com microssimulação precisam de informações detalhadas dos veículos para O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 125 sua estimação. Consequentemente, quanto maior a quantidade de informações, e mais desagregada (individual e a cada intervalo de tempo), maior a capacidade de adequação do microssimulador. Dentre os atributos essenciais dos dispositivos de saída de dados encontramse: informar todas as variáveis de estado dos veículos individualmente ao longo da simulação; possibilitar a exportação e customização de arquivos de saída; represende dados da simulação em tempo real através das interfaces de programação da aplicação (APIs). 3.3. Algoritmos de modelagem Os algoritmos de modelagem são responsáveis pela representação dinâmica dos veículos na rede, tendo portanto papel fundamental no processo de simulação rados na determinação dos indicadores proxy. Tradicionalmente, três algoritmos formam o núcleo dos sistemas de microssimulação, são eles: algoritmos de aceitação de brecha e mudança de faixa. Os modelos de (CFM) procuram representar o processo pelo qual condutores determinam sua velocidade e espaçamento em relação aos veículos à sua frente. Estes algoritmos são responsáveis diretos pela modelagem de interaos modelos de aceitação de brecha são usados para representar o processo decisório dos condutores em vias secundárias com o desejo de cruzar ou se inserir na corrente de tráfego principal, ou ainda de efetuar mudança de faixa de tráfego na via principal. Os eventos modelados por esse tipo de algoritmo podem resultar em inos veículos envolvidos. As mudanças de faixas de tráfego na microssimulação são representadas por meio de um processo de decisão hierárquico que considera que o desejo de mudar de faixa pode ocorrer em virtude de obstruções na faixa atual ou pela necessidade de ajustes na trajetória para acessar um determinado arco da rede. Uma vez que existe a motivação para a mudança, o processo passa a ser modelado de maneira similar aos algoritmos de aceitação de brecha. 126 Transporte em Transformação XV A grande maioria dos algoritmos de microssimulação não foi desenvolvida consequência, deve-se, na ausência de modelos mais adequados, privilegiar os algoritmos que possibilitem uma variação comportamental entre condutores, permitindo inclusive a ocorrência de situações de risco a partir de falhas no processo interativo entre os usuários. Outras características gerais desejáveis nos algoritmos de microssimulação são: modelar reação ao estágio de amarelo/vermelho total; modelar tempo de reação variável entre condutores; considerar mais de um veículo à frente nas lógicas de CFM e mudança de faixa; possibilitar a interação entre veículos e pedestres; considerar a falta de atenção dos motoristas e pedestres; modelar velocidades em movimentos de conversão; e considerar o efeito da distância de visibilidade (Gettman e Head, 2003). Outro aspecto importante a ser considerado diz respeito à formulação mateestrutura do aplicativo deve permitir alterações dos valores dos parâmetros de modo simples e, se possível, interativamente. Outra característica fundamental é o acesso dos usuários aos códigos de programação, formulações matemáticas, hipóteses e as limitações de sua aplicação. Por se tratar de um elemento fundamental no processo de simulação do desempenho da segurança viária, a próxima seção apresenta, em maiores detalhes, as principais características dos algoritmos de modelagem disponíveis no aplicativo comercial VISSIM, considerado pelo estudo da FHWA como uma das plataformas de microssimulação mais adequadas ao desenvolvimento de indicadores proxy. 4. Algoritmos de Modelagem do Aplicativo VISSIM O VISSIM é um de microssimulação desenvolvido na Alemanha que tem como componente fundamental o modelo de proposto por Wiedemann (1974) utilizando estudos na área de psicologia. A suposição principal no CFM de Wiedemann é a de que o condutor é capaz de perceber a aproximação do veículo da frente por meio da taxa de mudança do tamanho aparente deste veí- O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 127 culo. Além disso, a velocidade relativa entre os dois é estimada pelo condutor em virtude da mudança do ângulo de visão do veículo líder. Esse tipo de CFM é também conhecido como modelo psico-físico ou de ponto de ação. O modelo de Wiedemann considera quatro estágios de condução percebidos pelos motoristas: 1) condução livre; 2) aproximação; 3) perseguição; e 4) frenagem de emergência. Os estágios são diferenciados por seis curvas limítrofes de perçepção humana, obtidas por meio de expressões matemáticas que consideram explicitamente erros de julgamento de espaçamento, velocidade e taxas de aceleração/ desaceleração para o mesmo condutor ao longo do tempo, assim como entre diferentes condutores (Wiedemann e Reiter, 1992). Pesquisas sugerem que a estrutura básica deste modelo é capaz de representar de forma coerente o comportamento natural dos condutores (Brackstone e McDonald, 1999; Xin , 2008). Já o processo de aceitação de brecha no VISSIM pode ser modelado por meio do estabelecimento de regras de prioridade de passagem ou utilizando o conceito mentos com preferência de passagem, colocando faixas de retenção virtuais na via prio aplicativo detecta essas áreas com base nos atributos geométricos da via. Na simulação, o condutor na via secundária avalia a brecha disponível e a situação além pouca informação está disponível sobre como o aplicativo lida com o processo. Vale ressaltar ainda que o VISSIM permite a utilização de modelos customizados por meio da sua ferramenta de programação VAP ( ). Quanto aos algoritmos de mudança de faixa, o VISSIM representa esse processo de forma hierárquica a partir das seguintes questões básicas: 1) Existe o desejo para mudar de faixa? 2) As condições do tráfego na faixa de destino são melhores do que na faixa atual? 3) A mudança de faixa é possível? A Figura 3 apresenta os parâmetros considerados pelo aplicativo VISSIM em seu algoritmo de mudança de faixa. 128 Transporte em Transformação XV Figura 3: Parâmetros para mudança de faixa - VISSIM (Adap.Wiedemman e Reiter, 1992). 5. Calibração e Validação dos Microssimuladores à sua capacidade de reproduzir, dentro de uma margem aceitável de erro, os indicadores operacionais que representam as condições do “mundo real”. De modo denominadas de calibração e validação. Na calibração, os parâmetros do modelo são sistematicamente alterados com o objetivo de minimizar a diferença entre uma medida de desempenho obtida em campo e o seu valor simulado. Na validação, por utilizando os parâmetros calibrados com aquelas obtidas a partir de outra amostra dos dados observados em campo. Normalmente os esforços de calibração e validação de modelos de microssimulação encontrados na literatura utilizam medidas agregadas de desempenho operacional tais como tempo médio de viagem, velocidade média, atraso médio, volume médio, etc (Archer, 2005; Cunha e Setti, 2006; Maia e Loureiro, 2008). Entretanto, nas aplicações de segurança viária, a variável de interesse é um indicador proxy que é estimado a partir de expressões matemáticas que combinam parâmetros como diferença de velocidade e espaçamento veicular captados de forma desagregada. Conda segurança do tráfego, utilizando medidas agregadas de desempenho operacional, cadores proxy correspondentes aos que seriam observados em campo. O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 129 Cunto (2008) propôs uma metodologia de calibração/validação do microssimulador VISSIM utilizando um indicador proxy de segurança (o índice médio de potencial para acidentes - CPI) como medida de desempenho. A metodologia foi aplicada em uma via arterial com quatro semáforos atuados e coordenados, assim como em um trecho de 640m de extensão da rodovia HWY101, ambos na Califórnia. Apesar dos resultados promissores obtidos com a aplicação desse tipo de metodologia, surgiram algumas questões relevantes, a saber: Indicadores proxy captados continuamente fornecem uma medida agregada da turbulência. Dessa forma, embora o sistema possa estar bem calibrado com base nesse indicador, não existe garantia de que o simulador reproduziu as mesmas interações no espaço e no tempo individualmente. Qual seria o nível ideal de agregação do indicador proxy nesse caso? Os valores dos parâmetros do microssimulador calibrados a partir do indicador proxy corresponderiam ao mesmo conjunto de valores caso fossem utilizadas medidas de desempenho tradicionais, como intervalo médio, velocidade média, tempo médio de viagem, etc? A rede simulada no referido estudo foi consideravelmente pequena, contemplando uma matriz OD controlada. Seria possível aplicar esse mesmo procedimento em uma rede maior e utilizando a medida proxy como única medida de desempenho? 6. Validação do Desempenho da Segurança Viária Nos estudos de desempenho da segurança viária, além da preocupação em garantir que a plataforma de microssimulação está bem calibrada e validada, devede trânsito. Portanto, o desempenho da segurança viária representado pelos indicabaseada em comparações com outros estudos de segurança utilizando dados obtidos em campo. De acordo com Gettman e Head (2003), todavia, o indicador simulado não precisa estar diretamente relacionado ao número de acidentes registrados em um determinado local. Contudo, a diferença relativa entre o desempenho de diferentes alternativas de intervenção viária deve ser consistente com estudos de segu- 130 Transporte em Transformação XV Archer (2005) investigou a relação entre os indicadores TTC, TET e DRAC simulados usando o VISSIM e o indicador TTA obtido por meio da aplicação da vel razoável de consistência da frequência e da severidade estimadas pelas quatro algoritmos em replicar situações de risco observadas em campo. Outra tentativa de validação do desempenho da segurança viária modelado microscopicamente foi apresentada por Cunto (2008). Utilizando dados de laços observadas cinco minutos antes de 27 colisões reportadas no banco de dados foram replicadas no microssimulador VISSIM. Para o mesmo horário de cada uma das 27 colisões, outros cinco minutos foram replicados, desta vez utilizando dados de acidentes. O CPI médio foi calculado nas condições “normais” e de ocorrência de ções “normais” foi estatisticamente menor do que aquele obtido em condições de acidente. Desta forma, os resultados mostraram uma relação até certo ponto objetiva entre o aumento do CPI (turbulência) e a ocorrência de acidentes de trânsito. Acredita-se que o avanço nas técnicas de aquisição de dados veiculares em tempo real, aliado à implementação de algoritmos de microssimulação mais adequados, levará ao desenvolvimento de estudos de desempenho da segurança mais proxy obtidos por meio da simulação e situações de risco observadas no mundo real. 7. Conclusões potencial existente de utilização de plataformas de microssimulação em análises do desempenho da segurança viária, tanto no contexto urbano como no rodoviário. Embora a grande maioria dos microssimuladores atualmente disponíveis no mercado não tenha sido formalmente concebida para modelar a ocorrência de acidentes de trânsito, a simulação computacional das condições operacionais que geram con- O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 131 reduzindo a necessidade da observação em campo, por longos períodos de tempo, Essa importante conclusão está embasada na análise conceitual aqui realizada dos indicadores de desempenho utilizados internacionalmente nas últimas cinco décadas, na qual se constata que problemas relacionados à qualidade dos dados de acidentes disponíveis, além de questões metodológicas associadas à natureza rara e randômica desse tipo de evento, vêm incentivando o desenvolvimento de pesquisas ocorrência dos acidentes. Esse tipo de indicador procura representar de forma contínua a interação espaço-temporal entre veículos, o que torna o ambiente da micros- de desempenho da segurança viária, determinados a partir de modelos microscópicos do tráfego veicular, depende essencialmente não só de quão bem calibrados e validados estejam esses modelos, como também da capacidade do indicador de pesquisa nessa área, considerando, dentre outros, as formas de representação dos lagem microscópica, os procedimentos de calibração e validação desses algoritmos, contexto real da segurança viária. Referências Bibliográficas Archer, J. (2005) Tese de Doutorado, Department of Infrastructure. Royal Institute of Technology, Sweden. Barceló, J.; Dumont, A.; Montero, L.; Perarnau, J. e Torday, A. (2003) Safety indicators for microsimulation–based assessments. , Washington, D.C., USA. 132 Transporte em Transformação XV Brackstone, M. e McDonald, M. (1999) Car-following: a historical review. . National Research Council, Washington, D.C., v. 2, p. 181-196. . London. UK, p. 306-309. Cunha, A. B. L. N. ; Setti, J. R. (2006) Calibração do modelo de desempenho de caminhões do CORSIM através de um algoritmo genético. In: XX Congresso de Pesquisa e Ensino em Transportes, 2006, Brasília. Panorama Nacional da Pesquisa em Transportes 2006. Rio de Janeiro : ANPET, 2006. v. I. p. 88-99. Cunto, F.J.C. (2008) Tese de Doutorado, Department of Civil and Environmental Engineering, University of Waterloo, Ontário, Canadá. Davis, G.A. (2004) Possible Aggregation Biases in Road Safety Research and a Mechanism Approach to Accident Modeling. , v. 36, p. 1119-1127. Gettman, D. e Head, L. (2003) . Federal Highway Administration report RD-03-050. McLean, VA, USA. Hauer, E. (2002) . (1a ed.). Pergamon. Hauer, E. e Hakkert, A.S. (1989) The extent and implications of incomplete accident reporting. , No. 1185, TRB, National Research Council, Washington, D.C., p. 1-10. Hayward, J. (1972) Near miss determination through the use of a scale of danger. , Pennsylvania State University, Pennsylvania. , Lund University, Lund, Sweden. Maia, F.V.B e Loureiro, C.F.G. (2008) Procedimento Sistemático para Simulação do Tráfego Veicular em Modelos Mesoscópicos e Microscópicos , Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes-ANPET, Fortaleza, CE, p. 589-600. Minderhoud, M.; Bovy, P. (2001) Extended time to collision measures for road traf, v. 33, p. 89-97. fego - Aplicação ao Estudo de Problemas de Segurança de Pedestres em Interseções Semaforizadas da Cidade de São Paulo. Escola O uso da Microssimulação na Avaliação do Desempenho da Segurança Viária 133 Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP. , Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes-ANPET, Fortaleza, CE, p. 952-963. , General Motors Coorporation. . v. 8, University of Karlsruhe, Alemanha. system MISSION, background and actual state, , v. 2, Appendix A. Brussels: CEC, Bruxelas, Bélgica. Xin, W.; Houdos, J.; Michalopoulos, P. e Davis, G. (2008) The less-than-perfect driver: a model of collision-inclusive car-following behavior. , Washington D.C., USA. Flávio José Craveiro Cunto ([email protected]) Carlos Felipe Grangeiro Loureiro ([email protected]) Departamento de Engenharia de Transportes, Universidade Federal do Ceará. Campus do PICI, s/n – Bloco 703 – CEP. 60455-760 – Fortaleza, CE, Brasil Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 7 Resumo Este trabalho apresenta um modelo para a otimização integrada da frota de diversas empresas de transporte público que atuam numa região metropolitana. Foram implementadas duas heurísticas para o Problema de Programação de Veículos com Múltiplas Garagens (PPVMG): primeiro-agrupa-depois-programa e primeiroprograma-depois-agrupa. Assim foi possível comparar um cenário de gestão integrada com a gestão tradicional das frotas. Para a gestão tradicional, é utilizada a primeira heurística, na qual as linhas são distribuídas às empresas e posteriormente é resolvido um Problema de Programação de Veículos (PPV) para cada empresa. Na heurística primeiro-programa-depois-agrupa é resolvido um PPV para toda a região e posteriormente é feita a alocação dos veículos às respectivas empresas. A gestão integrada permite reduzir a frota e seus custos operacionais. Ela determina ainda a 136 Transporte em Transformação XV de gerenciamento do sistema de transportes de Belo Horizonte para iniciar uma licitação em bloco das linhas da região do Barreiro/BH. Abstract This work presents a model for the integrated vehicle scheduling problem for a set of transportation companies operating in a metropolitan area. Two heuristics were implemented for the Multi-Depot Vehicle Scheduling (MDVSP): cluster to compare two different operational scenarios: the integrated with the traditional Single Depot Vehicle Scheduling Problem (VSP) is solved for each company. In the area. Afterwards, vehicles from the companies are assigned to the operation. The sults were used by the public transportation company of Belo Horizonte in order to perform a biding by blocks of lines. 1. Introdução Os primeiros estudos sobre o Problema de Programação de Veículos com 70, utilizando métodos exatos (Kirkman, 1968) e métodos heurísticos (Saha, 1970; Wren, 1972). Estes sistemas estavam voltados mais para a automatização do trabalho manual do que para a otimização das soluções encontradas. O PPV consiste em determinar o número mínimo de veículos necessários para realizar um dado ículo da frota mínima, tal que o custo da operação seja minimizado (Bodin , 1983). A cada veículo da frota mínima está associado um , que são aquelas a serem executadas por um dado veículo. Neste problema os veículos são considerados idênticos, ou seja, é considerada a alocação de uma frota homogênea. O PPV tem grande importância não só pela resolução de problemas com garagem única, como também pela sua relação direta com problemas mais complexos que surgem na operação do sistema de transporte público, como por exemplo com Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 137 a existência de mais de uma garagem, a existência de diferentes tipos de veículo em operação e com a limitação do tempo de operação. Diversos modelos propostos na literatura tratam destes problemas decompondo-os em problemas com uma única garagem e um único tipo de veículo. Um dos primeiros modelos de otimização para o PPV foi proposto por Gavish . (1978), com o objetivo de minimizar o número de veículos utilizados durante os horários de pico e minimizar os deslocamentos do tipo pseudo-designação ou pseudo-assinalamento. Kwan e Rahin (1995) desenvolveram uma heurística do tipo para resolver o PPV. O algoritmo gera uma solução inicial a partir de um determinado número de veículos, por meio de um método construtivo guloso. Porém esta solução inicial possibilita viagens impossíveis de serem realizadas, devido à sobreposição de horários. Em seguida, é aplicada uma estratégia de troca de viagens, na tentativa de eliminar as infactibilidades da solução. Mais recentemente, tem sido utilizadas metaheurísticas para resolver o PPV. Baita et al. (2000) resolvem um caso real comparando o Modelo de Designação com métodos heurísticos baseados em Programação Lógica e Algoritmos Genéticos. O estudo de caso apresentado no trabalho mostra que o modelo de designação e a programação lógica produziram resultados úteis na prática, embora não tenham atendido todas as restrições do problema proposto. Silva (2001) explora uma técnica de geração de arcos combinada com o alpara resolver o PPV. É feita uma adaptação para que seja utilizado um modelo de circulação em redes com custo mínimo para resolver o problema. Nesse trabalho, o autor defende a utilização de modelos implementação de seus algoritmos, os quais, na sua maioria, apresentam complexidade polinomial. Simões et al. (2006) apresentam uma implementação da metaheurística (Glover e Kochenberger 2003) para resolver o PPV. O algoritmo gera uma solução inicial por meio de um procedimento construtivo guloso. O algoritmo foi testado com dados de diversas empresas mostrando possibilidades de redução dos custos em todos os casos, quando comparado com as soluções adotadas pelas empresas. 138 Transporte em Transformação XV Tratar o problema como uma única ou várias garagens não é conseqüência direta do número de garagens da empresa de transporte público. Se as áreas de atuação de uma empresa com várias garagens não se interceptam, isto é, cada linha está previamente associada a uma dada garagem, tem-se um conjunto de subproblemas com uma única garagem. Caso contrário, tratase de um Problema de Programação de Veículos com Múltiplas Garagens, cada uma com uma dada capacidade (PPVMG). Este é um problema NPdifícil (Bertossi et al. 1987) que tem sido modelado e resolvido de diferentes maneiras, tanto por meio de métodos exatos, quanto por abordagens heurísticas. Os métodos exatos mais bem sucedidos são baseados literatura, existem dois modelos básicos para o problema. No primeiro, um modelo segundo um modelo de caminho orientado leva ao Problema de Particionamento. Existe uma analogia entre estes problemas, sendo que o segundo pode ser obtido aplicandose a decomposição de DantzigWolfe ao primeiro. Tais problemas são tradicionalmente resolvidos utilizandose técnicas como a relaxação linear, relaxação lagrangeana, geração de colunas, branchandbound, branchandprice (Bertossi et al. 1987, Carpaneto et al. 1989, Amico et al. 1993, Ribeiro e Soumis 1994, Forbes et al. 1994, Löbel 1998). Por outro lado, o problema pode ser resolvido heuristicamente decompondoo em subproblemas mais simples, que podem ser resolvidos com algoritmos polinomiais. Uma alternativa bastante utilizada na prática é a decomposição do PPVMG em duas fases descrita em Bodin et al. (1983), que conta com as seguintes variações: partição do conjunto de viagens é arbitrária e pré-estabelecida podendo resultar em programações pobres. O progresso dos algoritmos de otimização tem sido empregados para resolver Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 139 uma importante classe de problemas denominados problemas integrados. Existem dois tipos de abordagens para o sistema de transporte público: e . As empresas normalmente dividem os processos de programação dos veículos e de suas tripulações em duas etapas distintas tendo como elo de ligação a solução do primeiro problema, que serve como dado de entrada para o segundo. Uma integração vertical leva em consideração a interferência da solução de um problema na resolução do outro problema. Modelos que integram a programação dos veículos com a programação das tripulações são propostos na literatura, assim como algoritmos para a sua resolução (Hasse et al. 2001, Freling et al. 2003). Assim abre-se toda uma linha de pesquisa para resolver tais problemas, pois zontal. Normalmente a operação de uma região é subdividida em grupos de linhas de todas as linhas da região e combinar as tarefas de diferentes empresas, levando duas ou mais empresas a operarem uma mesma linha, é denominada integração horizontal. O objetivo deste tipo de integração é tratar todas as linhas como se fossem de uma única empresa com diversas garagens. Cada uma com uma capacidade de fornecimento de veículos, ou seja, consiste em resolver o PPVMG para a região (Borndröfer et al. 2006). Este artigo apresenta os modelos de uma aplicação prática bem sucedida da técnica de para resolver o PPVMG de uma região metropolitana. Para resolver o PPV foi utiliza a metaheurística (ILS) e para realizar a alocação dos blocos de viagens aos veículos das garagens, foi aplicado o Modelo de Transporte. O sistema computacional foi testado com dados da região do Barreiro e os resultados foram analisados e utilizados pelo órgão gestor do sistema de transportes e do trânsito de Belo Horizonte, a BHTRANS. Com base nestes resultados a BHTRANS está preparando uma licitação por blocos de linhas das regiões. 140 Transporte em Transformação XV 2. Descrição do Problema O conjunto de linhas de transporte urbano que atende a região do Barreiro é denominado de Bacia do Barreiro e contava com 8 empresas responsáveis pela realização de todas as viagens desta região na época da coleta dos dados, em maio de 2005. Juntamente, as empresas atendiam 40 linhas de ônibus nos dias úteis, sendo 14 e 26 . Linhas troncais são linhas de transporte público que operam com maior velocidade e capacidade, tendo como objetivo realizar o deslocamento de passageiros entre duas regiões da cidade. Essas linhas operam em corredores de ônibus com veículos da grande capacidade e onde há uma demanda elevada. Linhas alimentadoras coletam e distribuem passageiros por uma determinada região da cidade, tendo como ponto base um terminal com a presença de uma ou mais linhas troncais. Os usuários podem ser coletados em uma determinada região e desembarcados em um terminal da linha troncal ou podem ser recolhidos no terminal da linha troncal e distribuídos na região atendida por esta linha. Portanto, as linhas alimentadoras têm a função primordial de captação e distribuição da demanda e juntamente com as troncais, complementam o transporte dos passageiros pelas diferentes regiões metropolitanas. Tabela 1 – Dados da situação da bacia do Barreiro Empresa Domingo Sábado Dia útil Terminais Total de linhas Total de viagens Total de horas de viagem Total de linhas Total de viagens Total de horas de viagem Total de linhas Total de viagens Total de horas de viagem E1 E2 E3 BeD PC1 B, D e PC3 E4 BeD 2 1 4 260 98 348:10 E5 E6 E7 E8 BeD BeD Be PC2 B 7 13 7 5 1 505 468 1.038 639 293 206 141:20 516:56 387:05 773:58 622:30 253:34 296:41 2 1 4 7 13 6 4 1 172 69 372 359 769 441 191 130 217:16 91:13 379:55 282:50 541:49 410:20 147:36 182:50 2 1 4 7 13 6 3 1 90 52 286 298 538 332 115 108 124:27 64:33 281:17 221:04 336:21 316:15 60:13 147:14 Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 141 A região conta com 2 terminais, o Barreiro com 12 plataformas de embarque e desembarque e o Diamante com outras 10 plataformas. No terminal Barreiro (B) operam 22 linhas e o terminal Diamante (D) conta com outras 13 linhas. Além disterminais que são: PC1145 (PC1), PC3051 (PC2) e PC3054 (PC3). Para cada empresa foram utilizados 3 conjuntos diferentes de dados de entrada referentes aos dias úteis, sábados e domingos realizados em maio de 2005. A Tabela 1 apresenta os dados referentes às empresas que atuaram na bacia na ocasião estudada. As empresas são referenciadas como E1, E2, ... , E8 e os terminais pelas suas iniciais, B e D, além dos pontos PC1, PC2 e PC3. Segundo a operação vigente à época, cada empresa era responsável por um conjunto de linhas cujo controle diário ocorre nos terminais das respectivas linhas. De acordo com a Tabela 1, a empresa E1 opera linhas com pontos de controle no Barreiro e no Diamante. A empresa E2, por sua vez, é responsável por uma linha cujo ponto de controle é no PC1. A Tabela 1 apresenta, para cada empresa, o número de linhas atendidas pela mesma, o total de viagens a serem realizadas nos respectivos tipos de dias e o tempo total em viagem calculado a partir dos horários iniciais que o tempo total da frota em operação, pois o primeiro não inclui os tempos de deslocamento ocioso nem os tempos de terminal, os quais devem ser minimizados. 3. Metodo Adotada O PPVMG é uma extensão do PPV e pode ser resolvido dividindo-se o problema principal em pequenos subproblemas com uma única garagem, diminuindo assim a sua complexidade. Neste estudo, o problema foi resolvido de duas maneiras distintas, baseadas na heurística clássica das duas fases. Para resolver a abordagem primeiro agrupa – depois programa, as linhas foram agrupadas de acordo com a operação vigente na época, ou seja, as linhas foram atribuídas às garagens das respectivas empresas detentoras do direito de explorá-las segunda licitação prévia da BHTRANS. Para cada empresa foi resolvido um PPV utilizando um modelo heurístico de otimização. 142 Transporte em Transformação XV Na abordagem primeiro programa – depois agrupa, todas as linhas da região que as empresas não detêm a concessão das linhas de antemão. Depois de realizada a programação dos veículos, os seus respectivos blocos de viagens são atribuídos aos veículos das diferentes garagens, tendo em vista minimizar os custos de deslocamento ocioso. Desta forma são priorizadas as empresas cujas garagens se localizam mais próximas aos pontos iniciais das linhas da região. Nesta aplicação foram consideradas as seguintes restrições para a geração da programação dos veículos: Um veículo deve permanecer na garagem, no mínimo, trinta minutos consecutivos, por dia. Um veículo não pode realizar mais de uma viagem ao mesmo tempo, o que caracteriza uma sobreposição de viagens. Todo veículo deve cumprir um tempo mínimo de embarque/desembarque de passageiros entre duas viagens. Se o tempo de espera de um veículo no terminal for maior que duas horas, o veículo deverá se deslocar para a garagem onde aguarda, retornando posteriormente para realizar a próxima viagem programada. Os veículos que apresentam esta característica são denominados do tipo pegada dupla. Cada viagem deve ser executada por um único veículo. A seguir são detalhados os métodos empregados na resolução dos problemas descritos acima. 3.1. Método de Resolução do PPV Para a resolução do PPV foi implementada uma versão do método proposto por Glover e Kochenberger (2003). O ILS é um métomelhorar as soluções obtidas por este através da realização de perturbações. Uma aplicação de um ou mais tipos de movimentos. Para iniciar a sua exploração o ILS precisa primeiramente de uma boa solução para o problema, para tanto, é gerada uma solução inicial que é melhorada por meio de um procedimento de busca local. A geração da solução inicial é feita Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 143 através de um procedimento construtivo guloso. Esse procedimento consiste na alocação, a cada passo, de uma nova viagem de responsabilidade da empresa ao bloco de algum veículo pertencente à sua frota. Durante a alocação, a combinação das viagens de cada veículo deve ser a que forneça o menor custo de operação possível. Esse custo é determinado pela aplicação de uma função de avaliação f(.). Em seguida, são utilizadas duas variantes do Método de Descida: Descida com Realocação e Descida com Troca, que se diferenciam quanto ao tipo de movimento utilizado para realizar a busca. Obtida uma solução inicial, é processada a fase de pesquisa sobre a sua vizinhança. Obtem-se uma solução vizinha s’ da solução corrente s através de uma perturbada, o procedimento de busca local utilizado é o Método Randômico de Descida (MRD), implementado em duas versões distintas: uma que realiza apenas movimentos de troca (DescidaRandomicaComTroca), e outra que executa somente nada é um ótimo local da solução perturbada. Este ótimo é então avaliado e caso seja satisfeito o critério de aceitação, ele será considerado a nova solução corrente e recomeça-se o processo de pesquisa pela vizinhança dessa nova solução. Caso o critério de aceitação não seja satisfeito, é aumentado o nível de perturbação tornando-a mais intensa, e o processo de pesquisa é retomado. Este procedimento é repetido até que um dado critério de parada seja satisfeito. Há doze níveis de perturbação, que se diferenciam tanto pelos tipos de movimentos realizados, quanto pelo número de vezes que estes são aplicados. Para cada nível k ímpar, aplica-se k/2 aplicam-se k/2 movimentos de troca. Maiores detalhes desta implementação podem ser obtidos em Simões et al. (2006). 3.2. Heurística Primeiro Agrupa – Depois Programa Para aplicar esta heurística, as linhas foram agrupadas de acordo com a operação vigente e foi realizada a otimização da frota e dos custos operacionais de cada empresa, de tal forma a atender as viagens das linhas a ela atribuída pela BHTRANS. Para cada empresa, foi resolvido um PPV gerando os seus respectivos blocos de viagens. Cada bloco de viagem corresponde a um veículo da empresa empenhado na operação. 144 Transporte em Transformação XV 3.2.1. Primeiro Agrupa O processo de agrupar primeiro consistiu em organizar os dados disponibidia da semana. Participou do estudo o conjunto das oito empresas que atuaram no Barreiro na ocasião a que se referem os dados coletados. Os dados obtidos são de quatro dias da semana: Segunda, Sexta, Sábado e Domingo e foram escolhidos com da operação. 3.2.2. Depois Programa Para resolver o PPV de cada uma das empresas foi utilizada a implementação os blocos dos veículos conforme exemplo apresentado na Figura 1. As primeiras informações contidas no bloco são a garagem à qual o veículo está vinculado e o seu horário de partida desta garagem. Em seguida são apresentados os dados das viagens que o veículo deve realizar com os respectivos locais e horários de partida, locais e horários de chegada, tempo de viagem vazia, tempo de espera do veículo mo da operação do veículo com a soma dos tempos de operação, espera e viagem morta (viagem vazia). Vale ressaltar que os termos viagem vazia e viagem morta se referem aos deslocamentos realizados pelo veículo estando este fora de operação devido a viagens de reposicionamento entre a garagem e o terminal ou mesmo entre terminais, quando esta prática for permitida. Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 145 Figura 1. Exemplo de um bloco de viagens de um veículo com Dupla Pegada. 3.3. Heurística Primeiro Programa – Depois Agrupa Para implementar este método todas as viagens foram atribuídas a uma garagem e foi resolvido um PPV de grande porte pois esta garagem compreende todas as linhas da região do Barreiro. Posteriormente foi utilizado um modelo de Fluxo em Redes para fazer a alocação dos veículos às garagens, de tal forma a minimizar 3.3.1. Primeiro Programa Neste segundo método, todas as viagens foram consideradas como se pertenmuito mais complexa devido ao grande número de viagens agrupadas numa única garagem e cujo respectivo PPV deve ser resolvido. As viagens alocadas à garagem 146 Transporte em Transformação XV , considerando os mesmos parâmetros adotados na primeira heurística (Primeiro agrupa – depois programa). Como resultado é obtida a frota mínima e a seqüência das suas atividades que levam ao menor custo operacional. O resultado deste primeiro passo são blocos de viagens, como aquele apresentado na Figura 1, para cada um dos veículos que realizarão as viagens das linhas 3.3.2. Depois Agrupa O resultado do processo anterior é a programação dos veículos, envolvendo todos os blocos de viagens com horário de partida e chegada, linhas atendidas e pontos pelos quais cada veículo deve trafegar. Entretanto, tais blocos ainda não estão distribuídos entre as empresas. Nesta etapa é feita a atribuição dos veículos às respectivas garagens candidatas a participar da operação naquela região. A seguir temos uma descrição do método de otimização empregado nesta etapa. Para otimizar a atribuição dos blocos às garagens foi utilizado um Modelo de Transporte no qual cada garagem é representada por um nó de oferta com capacidade igual ao número de veículos disponíveis para a operação. Por outro lado, cada bloco é representado por um nó com demanda unitária relativa à utilização de um veículo para a realização de suas viagens. O arco que ligam uma dada garagem a um certo bloco tem seu custo representando os custos operacionais devido à atribuição de um veículo da garagem para realizar as viagens do bloco . As restrições do modelo de transporte garantem que serão utilizados veículos de cada uma das garagens respeitando suas respectivas disponibilidades, e que a cada bloco de viagens será atribuído um único veículo. A função objetivo a ser minimizada contém a soma de todos os custos de atribuição garagem bloco, garantindo a atribuição de menor custo para o conjunto. Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 147 Figura 2. Rede de transporte para a alocação dos veículos aos blocos de viagens. Cij {Cap1} {Cap2} B1 {-1} B2 {-1} B3 {-1} G1 G2 Neste modelo, os custos de atribuição de um veículo da garagem a um bloco de viagens é dado pela soma dos tempos de deslocamento desse veículo da gara) mais gem até o ponto inicial da primeira viagem do bloco ( ( ) até a garagem . Assim temos a seguinte expressão para os custos nos arcos. = distância da garagem até o ponto_início_bloco até a garagem No modelo de transporte cada nó representa uma garagem e cada nó representa um bloco de viagem. O conjunto dos arcos que ligam os nós de B aos nós de B é dado por = {( , ) | , } e representam as possiG G B , ). As variáveis de etapa anterior. Assim tem-se uma rede bipartida =( B decisão assume valor 1 se um veículo da garagem for designado para executar as viagens do bloco e zero caso contrário. O modelo que minimiza a alocação da frota é dado por: Min cij x ij (i, j) (2) A x ij cap i , x ij 1 , i VG (3) j VB i VG j VB (4) (5) 148 Transporte em Transformação XV A função objetivo descrita em (2) minimiza os custos de deslocamento ocioso da frota enquanto as restrições (3) garantem que a capacidade das garagens não sejam violadas. As restrições (4) garantem que a cada bloco seja alocado um único veículo. Como resultado, o modelo fornece o número de veículos sob responsabilidade de cada garagem e o detalhamento das viagens destes veículos de tal forma que o custo total da operação é mínimo. 4. Apresentação e Análise dos Resultados A seguir são apresentados os resultados da aplicação dos métodos aos dados da regional do Barreiro. A Tabela 2 contém os resultados gerais, com os valores totais para o conjunto das empresas em relação aos dias estudados. A nomenclatura adota foi a seguinte: NV = número total de veículos utilizados na solução. VM = tempo total de viagem morta. TE = tempo total de espera dos veículos nos terminais. NR = número total de duplas pegadas realizado na solução. Tabela 2. Comparação entre os métodos utilizados. Heurística Agrupa-Programa Heurística Programa-Agrupa NV VM TE NR NV VM TE NR Domingo 124 78:14 344:51 7 112 60:52 190:22 23 Sábado 189 119:20 354:35 23 176 86:20 241:01 16 Segunda 326 252:13 394:53 117 316 155:35 250:25 125 Sex ta 327 251:10 394:17 109 317 156:06 242:46 126 Pode-se observar na Tabela 2 que a heurística primeiro programa – depois agrupa produziu soluções com o frota mínima menor do que a heurística primeiro agrupa – depois programa. Para os tempos de viagem morta e de espera nos terminais o segundo método também produziu resultados inferiores ao primeiro. Em parte, tais reduções levam ao aumento no número de retornos à garagem. Este comportamento só não ocorre com os dados do dia de sábado. Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 149 Na Tabela 3 é feita uma comparação entre o número de veículos atribuído a cada garagem pelos dois métodos, por dia da semana. O valor zero atribuído a uma foi eliminada da operação na região. Tabela 3. Alocação da frota mínima às respectivas garagens. Heurística Agrupa-Programa Heurística Programa-Agrupa Dom Sab Seg Sex Dom Sab Seg Sex E1 10 23 41 40 0 0 18 19 E2 5 8 14 13 0 0 0 0 E3 22 29 52 50 43 89 96 96 E4 19 24 33 33 35 35 35 35 E5 24 46 73 74 8 26 76 76 E6 26 32 62 64 0 0 65 65 E7 5 13 25 25 26 26 26 26 E8 13 14 26 28 0 0 0 0 Total 124 189 326 327 112 176 316 317 Na Tabela 3, a primeira heurística nada mais é do que a otimização da frota das empresas que operam no sistema de acordo com a distribuição das linhas segundo a BHTRANS. Portanto todas as empresas operam no sistema e as respectivas frotas mínimas para este caso são apresentadas na primeira parte da tabela. Na segunda parte da tabela, ou seja, quando é aplicada a heurística primeiro programa foram eliminadas as empresas E1, E2, E6 e E8 uma vez que nenhum veículo foi semana, as garagens E4 e E7 tiveram toda a sua frota disponível utilizada. Segundo os resultados referentes aos dias úteis, ainda na Tabela 3, a heurística primeiro programa – depois agrupa foi capaz de eliminar somente as empresas E2 encontram mais distantes dos terminais e pontos iniciais do Barreiro. Naturalmente que a eliminação de algumas garagens levou ao aumento na utilização dos veícu- 150 Transporte em Transformação XV los de outras garagens que certamente estão mais bem localizadas em relação aos terminais das linhas que atendem a região do Barreiro. Para os dias úteis, somente a garagem G-02 não teve sua capacidade totalmente utilizada. As demais garagens tiveram suas frotas disponíveis completamente utilizadas. De qualquer maneira, todas as garagens tiveram suas capacidades respeitadas. Comparando os resultados obtidos pelas duas heurísticas, aquela denominada “Primeiro Programa – Depois Agrupa” obteve vantagens em praticamente todos os parâmetros analisados. A grande vantagem das soluções fornecidas por esta heurística é a possibilidade de eliminar as garagens mais onerosas, o que causa uma redução considerável nos custos do sistema de transporte público. 5. Conclusões Neste trabalho, foram exploradas duas heurísticas distintas de resolver o PPVMG. Na primeira heurística as linhas de uma região metropolitana foram agruresolvido um PPV para cada garagem. Na segunda heurística todas as linhas foram Posteriormente foi aplicado o modelo de transporte para fazer a alocação dos veículos às garagens de tal forma que os custos de deslocamento fossem mínimos. reduzir o número de veículos, os tempos de viagem morta e os tempos de espera em todos os casos. Ambos os métodos foram aplicados a casos reais e produziram soluções de melhor qualidade do que as utilizadas pelas empresas analisadas. os resultados de um cenário que permite a integração das frotas das empresas que operam na região do Barreiro em Belo Horizonte. Foi constatado que desta forma é possível reduzir o número de ônibus e empresas necessárias para realizar todas viagens previstas para servir a região. Os resultados obtidos neste trabalho têm importância prática fundamental pois ele serviu como motivação para que a BHTRANS iniciasse um processo de licitação não por linhas individualmente mas por bloco de linhas ou região. Tal procedimento tem como objetivo incentivar as empresas a operarem em grupo, compartilhando e linhas e em última análise reduzindo os custos do sistema. Programação de Veículos com Múltiplas Garagens: Soluções de Apoio ao Processo de Licitação de Linhas Urbanas 151 Agradecimentos Os autores agradecem à FAPEMIG, ao CNPq e à BHTRANS pelo apoio recebido no desenvolvimento deste projeto. Referências Bibliográficas Amico, M. D.; Fischetti, M. e Toth, P. (1993) Heuristic Algorithms for the Multiple Depot Vehicle Scheduling Problem. Bologna, v.39. Baita, F.; R. Pesenti; W. Ukovich e D. Favaretto (2000) A comparison of different solution approaches to the vehicle scheduling problem in a practical case. , v.27, p.1249-1269. Bertossi, A. A.; Carraresi, P. e Gallo, G. (1987) On some matching problems arising in vehicle scheduling models. , v.17, p.271-281. Bodin, L.; Golden, B.; Assad, A. e Ball, M. (1983) Routing and scheduling of vehicles and crews: The state of the art. , v 10, p. 63-211. Bokinge, U. e Hasselström, D. (1980) Improved vehicle scheduling in public transport through systematic changes in the time-table , v.5, p.388-395. Borndörfer, R.; Grötschel, M. e Pfetsch,M. E. (2006) Public transport to the fORe , v. 33:2, p. 30-40. Carpaneto, G.; Dell’Amico, M.; Fischetti, M. e Toth, P. (1989) A branch and bound algorithm for the multiple vehicle scheduling problem. , v.19, p.531-548. Forbes, M. A.; Holt, J. N. e Watts, A. M. (1994) An exact algorithm for multiple depot bus scheduling. , v.72, p.115-124. Freling, R.; Huisman, D. e Wagelmans, A. P. M (2003) Models and algorithms for integration of vehicle and crew scheduling. Journal of Scheduling, p. 63-85. Gavish, B.; Schweitzer, P. e Shlifer, E. (1978) Assigning buses to schedules in a metropolitan area. , v.5, p.129-138. Glover, F. e Kochenberger, G. (2003) . Kluwer Academic Publishers. Haase, K.; Desaulniers, G. e Desrosiers, J. (2001) Simultaneous vehicle and crew scheduling in urban mass transit systems. , v. 35 (3), p. 152 Transporte em Transformação XV 286–303. Hoffstadt, J. (1981) Computerized vehicle and driver scheduling for the Hamburger Hochbahn Aktiengesellschaft. In: , Wren A. (ed.), North-Holland, Amsterdam, p.35-52. Kirkiman, F. (1968) Problems of innovation in the transport industry: a bus scheduling program. In: , London, v.1, p.115. Kuhn, H. W. (1956) Variants of the Hungarian method for the assignment problem. . v. 3, p.253-358. Kwan, R. K. e Rahin, M. A. (1995) Bus scheduling with trip co-ordenation and complex constraints. In: Daduna, J. R.; Branco, I. M.; Paixão, J. M. P. (ed.), Springer-Verlag, Berlin, p.91-101. Löbel, A. (1998) Vehicle scheduling in public transit and lagrangean pricing. , v. 44, n. 12, p.1637-1649. Ribeiro, C. e Soumis, F. (1994) A column generation approach to the multiple depot vehicle scheduling problem. , v.42, p.41-52. Saha, J. L. (1970) An algorithm for bus scheduling problems. , v.21, p.463-474. Silva, G. P. (2001) Uma metodologia baseada na técnica de geração de arcos para o problema de programação de veículos. Tese de Doutorado, Departamento de Engenharia de Transportes EPUSP, São Paulo. Silva, G. P. ; dos Reis, J. A. e Souza, M. J. F. (2006) Resolução Integrada do Problema de Programação de Veículos e Tripulações no Sistema de Transporte Público. In , Braga, v. 1. p. 121-132. Simões, E. L.; Souza, M. J. F. e Silva, G. P. (2006) Aplicação da Metaheurística à Programação de Veículos no Sistema de Transporte Público. In: , Goiânia. Wren, A. (1972) Bus scheduling: an interactive computer method. , v.1, p.115-122. Gustavo Peixoto Silva ([email protected]) Departamento de Computação, Instituto de Ciências Exatas e Biológicas, Universidade Federal de Ouro Preto Campus Universitário do Morro do Cruzeiro, s/nº – 35.400-000 Ouro Preto, MG, Brasil Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 8 Resumo Este trabalho trata do projeto de redes de distribuição de carga parcelada, e mínimo custo, tendo como principal dado adicional de entrada uma rede de transporte com uma estrutura similar a uma rede o problema trata do planejamento dos carregamentos a serem realizados em cada um dos terminais levando-se em conta cada uma das cargas que devem ser transporsolução de problemas de tamanho igual ao encontrado na prática, foi proposta uma heurística baseada em busca tabu para sua solução. 154 Transporte em Transformação XV Abstract This work deals with the design of distribution networks for less-than-truckorigins to the destination terminals, seeking for a minimum cost, having a hubproblem deals with the planning of loads to be done at each terminal, taking into acneeds to follow to reach its destination. This problem was modeled mathematically tion method based on tabu search. 1. Introdução Em redes tem-se uma rede em que não são permitidas rotas diretas entre terminais não- , sem paradas intermediárias para consolidação. E ainda, nos casos em que a alocação única, ou seja, um terminal nãoé alocado a um único , o roteamento da carga se torna trivial, pois todo o tráfego recebido e envidado é sempre direcionado ao alocado. Entretanto não é o que ocorre na prática, pois na operação diária de empresas de transporte rodoviário de carga parcelada, carregamentos diretos são não só realizados, como também incentivados devido ao menor custo para operação. Em intermediários, além de melhorar o nível de serviço. tipo seja inadequada para representar corretamente o problema encontrado em transportadoras de carga parcelada, mas sim que no dia-a-dia podem ocorrer situações que levam a decisões que não podem ser representadas no nível estratégico. Uma das mais relevantes é a variação na demanda de carga entre terminais; a outra é a consideração da capacidade dos veículos que realizam o transporte entre terminais. Às vezes, se toda a carga originada em um terminal for enviada ao ao qual está alocado e daí para os demais , isso pode acarretar ociosidade dos ve- Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 155 ículos, ou ainda pode comprometer, dependendo do caso, o prazo de entrega, pois, cada parada intermediária em um terminal de consolidação, adiciona em média um dia no prazo total para a carga chegar ao seu terminal de destino que será responcargas diretamente para os destinos ao invés de passar por dois , caso exista de destino, ou então com somente uma parada intermediária em um único . programação de carregamento entre terminais no transporte de carga parcelada, que pode ser sintetizado como: dada uma rede serem operadas, e o dimensionamento da quantidade e tipo de veículos necessários em cada rota, para que todas as cargas sejam transportadas até o seu terminal de destino a um menor custo possível, valendo se da possibilidade de consolidação de cargas nos . Comumente tratado no nível de decisão tático, o problema está centrado espercorrer até chegar ao seu destino, tendo como dado de entrada uma rede de transporte do tipo das. Dado um conjunto de cargas a serem transportadas, deseja-se, portanto decidir como essas cargas serão movimentadas nessa rede, estabelecendo as rotas a serem quantidade e tipo de veículo utilizado em cada rota. O objetivo geral consiste em acompanhar a variação na demanda por transporte de carga parcelada, sendo comum no Brasil, em certas semanas do mês, e em certos meses do ano. O restante desse artigo está organizado da seguinte forma: na Seção 2 é apreevidenciada nos experimentos computacionais, para se obter a solução ótima do modelo matemático formulado para o problema através do pacote de otimização CPLEX, é proposta uma estratégia de solução baseada em busca tabu, que é descrita na Seção 4. Na Seção 5 são apresentados os resultados obtidos com os experimentos computacionais realizados utilizando dados reais de uma empresa transportadora de carga parcelada pelo modal rodoviário no Brasil. Finalmente na Seção 6 são apresentadas as conclusões. 156 Transporte em Transformação XV 2. O Problema do Carregamento de Cargas Parceladas na Literatura O problema do carregamento de cargas em uma rede de transporte tem sido largamente estudado na literatura, e conhecido com o nome de (NLP). O NLP é considerado uma variante do problema do projeto de redes capacitado com múltiplas ( ), e foi estudado pela primeira vez por Magnanti (1993), no contexto o número de instalações de transmissão digital a serem abertas em cada arco da rede de tal forma a atender toda a demanda a um mínimo custo.O NLP modela Já em Magnanti (1995) foram considerados dois tipos distintos de recursos a serem alocados nos arcos, nesse caso dois tipos diferentes de cabos em uma rede de telecomunicações; considerando duas abordagens para solução do problema de programação inteira mista: uma estratégia baseada em relaxação lagrangiana, válidas, obtendo desempenhos similares. Barahona (1996) tratou do NLP em redes de telecomunicações e estuda o problema com e sem caminho até o seu destino. O problema foi resolvido utilizando-se uma relaxação , e a partir da solução do problema bifurcado, O foco do trabalho de Mirchandani (2000) foi na solução do NLP capacitado, com dois tipos de recursos a serem alocados nos arcos, da mesma forma que em Magnanti (1995). Foram desenvolvidas formulações matemáticas equivalenas propriedades do poliedro para os cones de projeção correspondentes. No trabalho de Berger et al. (2000) foi estudado o NLP não bifurcado, tendo os autores desenvolvido uma heurística baseada em busca tabu para solução do problema, cujo desempenho foi comparado com duas outras heurísticas desenvolvidas: e Os experimentos computacionais realizados mostraram que a busca tabu obteve um desempenho superior no que diz respeito à qualidade da solução Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 157 - mento para a obtenção das soluções. Gendron (2002) propuseram uma heurística em duas etapas para solução do NLP não bifurcado. A primeira etapa da heurística consistiu na construção de uma solução inicial que em seguida foi melhorada utilizando um mecanismo testadas em problemas com 200 e 500 nós. Nenhuma comparação foi realizada problemas testados. Avella (2007) introduziram uma nova classe de inequações métricas justas para o NLP, que caracterizaram completamente o envoltório convexo de soluções inteiras viáveis para o problema, apresentando algoritmos de separação para as inequações métricas justas e algoritmos de plano de corte. No trabalho de Babonneau e Vial (2010) os autores utilizam uma abordagem inovadora para solução do NLP. O método de solução desenvolvido pelos mesmos Benders. Os experimentos computacionais realizados mostraram que a abordagem para problemas de maior porte, com mais de 700 , superando todos os resultados obtidos por outros autores para esta classe de problemas. Altin (2010) estudaram o NLP em que as demandas entre os pares de nós da rede são assumidas como não sendo conhecidas de antemão. Os autores propuseram uma nova formulação matemática mais compacta para o problema, e após resolveram o NLP utilizando (B&C). Os experimentos computa- até dois tipos de diferentes de recursos disponíveis para serem alocados nos arcos. Todos os estudos relacionados ao NLP enfatizam a possibilidade de se modelar o problema de carregamento de carga parcelada em uma rede de transporte como sendo um caso especial do NLP, entretanto não foi encontrado na literatura nenhum trabalho nesta direção. 158 Transporte em Transformação XV 3. Modelo Matemático O modelo matemático proposto considera que cada carga deva percorrer um único caminho até chegar ao seu destino, não permitindo o seu particionamento (ou fracionamento) entre dois caminhos que ligam dois nós. Essa consideração é muito relevante em termos práticos da forma como operam as transportadoras de carga parcelada, pois é fundamental que o líder local de cada terminal de origem à forma com que as cargas devam ser carregadas, especialmente com relação às possíveis paradas em terminais intermediários, até chegarem aos seus destinos. Em outras palavras, é indesejável que uma carga, de um dado terminal de origem para um terminal de destino, seja fracionada em veículos que seguem rotas distintas, clientes que compõem cada uma das cargas que são fracionadas. como o conjunto de terminais o conjunto de cargas a serem transportadas, o con(nós) da rede em estudo, junto de tipos de veículos disponíveis (em geral dois tipos), e ainda o conjunto de arcos candidatos para a seleção das rotas da rede aos quais serão alocados veículos. : peso da carga , , a ser transportada; : origem da carga , ; : destino da carga , ; : custo de cada veículo do tipo , alocado no arco da quantidade de carga carregada no mesmo. : capacidade do veículo do tipo , . As variáveis de decisão para o problema são: cos, do tipo inteira não negativa, indicando o número de veículos do tipo , ,alocados ao arco ; : variável binária que recebe o valor 1 se a carga , , é transportada por um veículo do tipo , , no arco e zero caso contrário.O modelo matemático proposto para representar o problema de carregamento de carga parcelada em uma rede de transporte pode ser formulado como segue: (1) Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 159 sujeitoàsrestrições: (2) (3) (4) (5) A função objetivo (1) visa minimizar o custo resultante das decisões de criarepresentadas pelas restrições (2). Já as restrições (3) asseguram que a quantidade total de cargas alocadas a um dado tipo de veículo, em um determinado percurso, não deve exceder a capacidade disponível. forem adicionadas à formulação matemática as restrições (6) e (7), elas tornam a formulação mais robusta, melhorando a qualidade da relaxação linear, e acarretando um menor número de iterações do para se atingir a solução ótima, conforme evidenciado em experimentos computacionais com o CPLEX em problemas de pequeno porte que podem ser resolvidos até a sua otimalidade. (6) (7) As restrições (6) são similares às utilizadas por Barahona (1996) para o problema “não bifurcado”, com somente um tipo de veículo. Já as restrições (7) visam garantir que nenhuma carga individual exceda a capacidade de um veículo disponível (de qualquer tipo). 160 Transporte em Transformação XV 4. Estratégia de Solução Baseada em Busca Tabu Dada a complexidade para resolução do problema de carregamento de carga parcelada em uma rede de transporte, é proposto neste trabalho um método de solução baseado na metaheurística busca tabu. A busca tabu é um procedimento de busca local que utiliza estruturas de memória para guiar os movimentos de uma solução viável para outra, com o objetivo de se explorar regiões do espaço de busca que poderiam não ser explorados, tentando escapar do ótimo local. Os princípios fundamentais da busca tabu são apresentados em detalhes em Glover (1986, 1989). Para a geração da solução inicial do problema, foi necessário propor um método para selecionar os arcos a serem utilizados e, concomitantemente, determinar o número de veículos de cada tipo que será alocado ao arco. Para tanto, seja ção das rotas a serem operadas para o carregamento de carga parcelada na rede de transporte. Isso permite utilizaram vetor binário de tamanho igual à cardinalidade do conjunto (ou simplesmente ), para representar uma solução para o problema. Primeiramente são ordenadas todas as cargas a serem transportadas, por par origem-destino, em ordem decrescente de peso total. O algoritmo de ordenação descrita em Singleton (1969). Em seguida, iniciando com a carga de maior peso, determina-se o caminho mínimo partindo do terminal de origem da carga, até o seu terminal de destino, tendo como tendo como atributo dos arcos a distância entre terminais. Uma vez encontrado o caminho mínimo para a carga de maior peso, atribuise zero para a distância em cada um dos arcos que compõem o caminho mínimo. Em seguida, encontra-se o novo caminho mínimo para a carga de maior peso ainda procedimento é repetido até que todas as cargas tenham sido examinadas, em ordem decrescente de peso total. Nesta etapa o peso de cada uma das cargas não é levado em consideração, pois em seguida, conforme descrito na etapa seguinte é realizado o cálculo da quantidade e tipo de veículo utilizado em cada uma dessas ligações. O objetivo da atribuição de custo igual a zero é incentivar novas cargas a utilizarem os mesmos arcos já abertos por cargas previamente avaliadas, resultando assim em um menor custo total da solução. Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 161 nidas para chegarem ao seu destino, sendo em seguida calculado o custo da solução inicial. O algoritmo do caminho mínimo utilizado foi o mesmo apresentado em Gallo implementada computacionalmente como um binário.Assim, como resultado parcial da geração de uma solução inicial para o problema, obtêm-se um vetor solução que indica quais arcos foram selecionados, e uma estrutura de dados contendo os arcos utilizados por cada carga para chegar até o seu terminal de destino. No vetor solução são representados somente quais arcos serão utilizados na solução, não apresentando nenhuma indicação da quantidade e tipo de veículo utilizado em cada arco.Tendo como dados: (i) a lista de cargas que utilizam cada um dos arcos abertos, resultante da geração da solução inicial;.(ii) o peso de cada uma dessas cargas; e (iii) a capacidade dos veículos disponíveis para operação; e com base na somatória total de peso que cada arco necessita transportar, é realizado então o cálculo da quantidade de veículos a serem utilizados. Dado que cada arco transporta a uma ou mais cargas, que podem ser alocadas a um ou mais veículos, a ordem com que as cargas são selecionadas para serem alocadas nos veículos é de extrema importância, e esse subproblema é por si só muito difícil de ser resolvido. Em suma, esse problema consiste em determinar o número de veículos que represente a solução de mínimo custo, e quais cargas alocar a cada veículo. Esse problema pode ser modelado como um problema conhecido na literatura de (BPP). O problema de (BPP) pode ser descrito da seguinte forma: dados (ou = 1,..., objetos ou cargas com seus respectivos pesos , e = 1,..., , determinar a alocação (ou designação) das cargas aos veículos (sendo , ), de tal modo que o número de veículos utilizados seja mínimo, e respeitando-se as restrições de capacidade em cada um dos veículos. O BPP é (Garey e Johnson, 1979). No caso especial da determinação de uma solução inicial para o problema do carregamento de cargas parceladas em uma rede de transporte, com T tipos diferentes de veículos (em geral, T=2), a quantidade de veículos utilizados de cada tipo é de à quantidade de veículos utilizados em cada arco da solução. Dado que o BPP é , o mesmo é utilizado para determinar o menor número de veículos para cada arco aberto na solução utilizando também uma heu- 162 Transporte em Transformação XV rística baseada em busca tabu. Para representar a solução do BPP é criado um vetor de tamanho igual à quantidade de cargas que utilizam um determinado arco e, em cada posição desse vetor, são colocados os índices das cargas. Deve-se notar que essa heurística baseada em busca tabu para o BPP é executada somente se a somatória do peso das cargas que utilizam o arco for maior que a capacidade do menor veículo do problema. Na geração da solução inicial do BPP, a primeira etapa consiste na ordenação das cargas por ordem decrescente de peso. Em seguida é alocado primeiramente o veículo de maior capacidade (no caso a carreta), e as cargas são designadas sequencialmente aos veículos de acordo com o vetor solução, até atingir a sua capacidade limite. As decisões de escolha da ordenação das cargas em ordem decrescente de peso, e também a decisão de se iniciar a alocação com o veículo de maior capacidade, foram tomadas com base nos experimentos computacionais realizados que apresentaram melhores soluções para problemas de grande porte. Dado que esse procedimento para dimensionamento da quantidade de veículos foi realizado em cada arco da rede, e a cada iteração da busca tabu, o objetivo foi criar uma heurística simples, e que pudesse obter resultados satisfatórios em um curto tempo de processamento. na rede, o cálculo do custo total da solução se torna trivial conforme a função objetivo representada pela equação (1) apresentada no modelo matemático para o problema. Após a geração da solução inicial, a descrição formal da heurística de melhoria baseada em busca tabu é apresentada na Figura 1. É explorado somente o espaço de soluções viáveis do problema, entendendo como uma solução viável aquela que com esse conjunto de arcos, todas as cargas possam ser transportadas desde o seu terminal de origem até o seu terminal de destino (existe um caminho possível a ser percorrido). Sendo assim, um movimento não é escolhido para ser realizado se resultar em uma solução inviável para o problema. Dois mecanismos simples são utilizados para tentar evitar que a heurística referência o trabalho de Battiti e Tecchiolli (1994), que desenvolveram uma busca tabu reativa ( ). A busca tabu reativa possui um mecanismo de memória que tem como objetivo armazenar soluções previamente visitadas, e dinamicamente alterar os parâmetros da busca tabu para tentar explorar diferentes regiões do espaço de soluções do problema. Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 163 Neste trabalho é utilizado um mecanismo simples que armazena o valor da função objetivo, e em qual iteração da busca tabu ela foi encontrada, permitindo to permanece tabu (conhecido como duração tabu ou ), seja alterado intervalo mínimo de iterações. Figura 1: Esqueleto básico da busca tabu para solução do problema 164 Transporte em Transformação XV O segundo mecanismo utilizado para se explorar diferentes regiões do espaço cação forte ( ) (Dell’amico , 1999; Stecco , 2009), e consiste na geração de uma nova solução inicial, escolhendo-se aleatoriamente arcos a serem inseridos na solução, até que esta se torne viável. Esse procedimento 5. Experimentos Computacionais Não existe na literatura instâncias de teste para avaliação comparativa do desempenho da heurística proposta, e ainda, apesar das similaridades já descritas, o problema aqui tratado é de natureza diferente do NLP ( ), pois o NLP trata da solução de problemas de rede de telecomunicações, tendo proporções de custo, volume de tráfego, e quantidade de arcos bem diferentes dos dados de uma empresa transportadora de carga parcelada, podendo levar a interpretações incorretas, caso esses dados sejam utilizados para avaliação. Sendo assim, optou-se por utilizar diretamente dados reais de uma empresa transportadora de carga parcelada. dos foram manipulados apropriadamente e resultou em 12 instâncias de teste, uma para cada mês do ano. Um resumo das instâncias geradas pode ser visto na Tabela 1. : indica o número de terminais envolvidos em cada problema, correspondendo a um ponto de origem e/ ou destino de carga; : a quantidade total de cargas a serem transportadas; : peso total de todas as cargas a serem transportadas; : número de variáveis inteiras , ou rotas disponíveis, do problema, para um único tipo de veículo; : número de variáveis binárias do problema de programação inteira, para um único tipo de veículo; : número de restrições de cada problema, para um único tipo de veículo; : número de elementos diferentes de zero da matriz de restrições, no caso de um único tipo de veículo. transporte de carga parcelada no Brasil. Analisando os dados fornecidos, observa- Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 165 se no início do ano uma forte queda na demanda, tendo um peso médio por carga transportada aproximadamente 30% menor, ao se comparar com o último trimestre do ano. O experimento computacional consistiu em resolver cada um dos 12 problemas gerados utilizando tanto o pacote de otimização CPLEX versão 9.1, como também com a heurística proposta baseada em busca tabu, a qual foi implementada tipos de veículos para os experimentos: truck e carreta. As rotas alternativas foram obtidas conforme descrito na seção anterior, tendo cada carga cinco alternativas básicas para envio/utilização de rotas: (i) carregamento direto entre os terminais; (ii) carregamento via origem; (iii) carregamento via destino; (iv) carregamento típico ; (v) via um qualquer da rede. O computador utilizado para os experimentos computacionais foi um laptop com sistema operacional Windows Vista, com processador Intel Core 2 Duo 2,20 GHz e 4 GB de memória RAM, sendo que somente um processador foi utilizado nos experimentos computacionais. Os experimentos iniciais realizados ao se tentar resolver quaisquer dos 12 ótima para esses problemas. Por exemplo, ao se tentar resolver a instância correspondente ao mês de janeiro (a menor dentre as 12 instâncias), na sua versão solução ótima após 18 horas de processamento, e o no momento da interrupção do processamento ainda era de 17,61%. Já para o mesmo mês (janeiro), porém considerando os dois tipos de veículos (truck e carreta), não foi possível ao CPLEX encontrar nenhuma solução viável após 18 horas de processamento. das 12 instâncias, e também devido à restrição imposta do tempo aceitável para se obter uma solução para o problema prático, optou-se por realizar os experimentos considerando-se um o tempo limite máximo para processamento, tanto para o CPLEX como também para a heurística baseada em busca tabu, de 30 minutos. Esse tempo limite de 30 minutos condiz com a expectativa da empresa transportadora, que pretende não só utilizar o modelo como uma ferramenta de planeja- 166 Transporte em Transformação XV tura de rotas, adicionando e/ou excluindo novas rotas, ou ainda alterando o tipo de veículo alocado em cada rota, de acordo com o volume de cargas no dia. Adicionalmente, foram adotados os seguintes parâmetros para a heurística de melhoria baseada em busca tabu: o número de iterações que cada movimento permanece tabu ( a heurística para resolução do problema de , também baseada em busca tabu, e que permite determinar o número de veículos de cada tipo utilizados em ções realizadas, sendo esse o critério de parada. Tabela1: Resultados obtidos com o CPLEX com a Busca Tabu Mês Term. Cargas Peso (Kg) Var.Int. Var. bin. Restr. Não-zeros CPLEX¹ GAP (%)¹ Tabu¹ Tabu (%)¹ Tabu² JAN 51 195 854.929 725 141.375 152.045 562.325 51.241,4 22,2% 47.678,4 -7,0% 44.908,2 FEV 51 198 845.244 737 145.926 156.761 580.481 48.214,6 22,3% 46.999,4 -2,5% 42.790,0 MAR 51 191 948.822 736 140.576 151.053 559.220 50.591,8 17,8% 49.193,2 -2,8% 47.768,8 ABR 51 203 982.572 741 150.423 161.517 598.373 56.277,2 24,8% 49.648,2 -11,8% 49.329,0 MAI 51 192 1.009.790 731 140.352 150.875 558.299 54.451,6 18,5% 53.422,6 -1,9% 51.408,6 JUN 51 200 1.047.962 730 146.000 156.930 580.730 54.093,2 18,9% 52.348,8 -3,2% 50.483,2 JUL 52 200 1.011.689 756 151.200 162.356 601.556 54.385,8 22,0% 51.371,6 -5,5% 50.573,0 AGO 52 208 1.065.274 763 158.704 170.283 631.419 55.281,8 19,3% 54.733,0 -1,0% 53.030,2 SET 51 207 1.091.068 767 158.769 170.093 631.703 59.563,0 23,0% 57.120,4 -4,1% 54.262,2 OUT 52 207 1.144.837 784 162.288 173.836 645.796 61.901,0 19,5% 59.788,4 -3,4% 58.642,4 NOV 52 221 1.207.605 795 175.695 187.982 699.155 65.699,2 23,6% 61.663,0 -6,1% 63.092,4 DEZ 53 217 1.128.746 805 174.685 186.991 695.205 60.303,6 22,9% 56.998,2 -5,5% 56.020,6 Na Tabela 1 são apresentados ainda os resultados obtidos com os experimentos computacionais realizados. A coluna com o nome ‘CPLEX¹’ corresponde à melhor solução inteira obtida pelo software após 30 minutos de processamento, para o problema considerando somente um tipo de veículo, o veículo maior (carreta). Na coluna ‘GAP (%)¹’ é apresentado o gap do CPLEX no momento da interrupção do processamento. Os resultados da busca tabu são apresentados na coluna ‘Tabu¹’. A coluna ‘Tabu (%)¹’, refere-se à diferença percentual obtida ao se comparar as soluções obtidas com o CPLEX e com a busca tabu, calculada como: Essa comparação só pôde ser realizada com os problemas resolvidos com Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 167 somente um único tipo de veículo (carreta), dado que o CPLEX não conseguiu obter nenhuma solução inteira para os problemas com dois tipos de veículos (truck e ou seja, 18 horas de processamento. As soluções obtidas com a busca tabu para o problema com dois tipos de veículo (truck e carreta) são apresentadas na última coluna da tabela, com o título ‘Tabu²’. Analisando os resultados obtidos apresentados na Tabela 1, é possível verimas, obtendo um desvio percentual médio, em relação às melhores soluções obtidas através do CPLEX, de -4,6%, tendo como desvio mínimo de -1,0% com o problema do mês de agosto, e máximo de -11,8% no problema de mês de abril. As soluções obtidas com o CPLEX, mesmo para somente um único tipo de veículo, apresentaram um de processamento, o estava ainda acima de 15%. Como relatado anteriormente, para a instância correspondente ao mês de janeiro, após 18 horas de processamento, o estava em 17,61%. 6. Conclusões Esse artigo tratou do problema de carregamento de carga parcelada em uma rede de transporte do tipo Foi proposto um modelo matemático para representar o problema, que foi inspirado em uma formulação apresentada para um problema similar conhecido na literatura como , telecomunicações. O modelo matemático proposto para representar o problema possui somente nais, como pacotes comerciais de otimização, para sua solução. Com isso foi desenvolvida uma heurística baseada em busca tabu visando à obtenção de soluções de Foram realizados experimentos computacionais utilizando dados de um ano de operação de uma empresa transportadora de carga parcelada no Brasil. Os dados 168 Transporte em Transformação XV fornecidos resultaram em 12 problemas, que foram resolvidos tanto utilizando o pacote comercial CPLEX (versão 9.1), como também com a heurística busca tabu proposta. Os resultados obtidos com os experimentos computacionais evidenciaram a aceitável, para esta classe de problemas. Com isso, o tempo de processamento foi limitado em 30 minutos, tanto para o CPLEX como para a busca tabu, sendo condizente com a expectativa da empresa transportadora, que pretende não só utilizar o modelo como uma ferramenta de planejamento tático, mas também diariamente cionando e/ou excluindo novas rotas, ou ajustando o tipo de veículo adequado para cada rota, de acordo com o volume de cargas no dia. A busca tabu foi capaz de obter as melhores soluções em todos os problemas os resultados obtidos utilizando o CPLEX, mostrando ser uma alternativa interessante para solução desta classe de problemas, sendo simples de ser implementada para a obtenção de soluções de boa qualidade. É importante destacar ainda que para o caso especial em que são tratados mais de um tipo de veículo para a operação, no estudo de caso veículos do tipo truck e carreta, o CPLEX, mesmo após 18 horas de processamento, não pôde obter nenhuma solução inteira para nenhuma das 12 instâncias aqui estudadas. Outro ponto importante a ressaltar é que o problema do dimensionamento da quantidade e tipo de veículos utilizados em cada rota, modelado como o problema conhecido na literatura como BPP, por si só já é um problema complexo e o esforço para sua solução poderia ser um objeto de pesquisa. Uma Aplicação da Busca Tabu para o Projeto de Redes de Transporte de Carga Parcelada 169 Referências Bibliográficas Altin, A.; H. Yaman e M.C. Pinar (2010) , April 2009, forthcoming in Gulpinar, Harrison and Rustem (Eds.), Springer-Verlag. Avella, P.; S. Mattia e A. Sassano (2007) Metric inequalities and the network loading problem. , v. 4, p. 103-114. Babonneau, F.; J.P. Vial.(2010) A partitioning algorithm for the network loading problem. , v. 204, p. 173-179. Barahona, F. (1996) Network design using cut inequalities, , v. 6(3), p. 823-837. Battiti, R. eG. Tecchiolli (1994)The reactive tabu search. v. 6(2), p. 126-140. Berger, D.; B. Gendron; J-Y Potvin;S. Raghavan e P. Soriano (2000)Tabu search for a network loading problem with multiple facilities , v. 6, p. 253-267. problem with a well-structured tabu search method 5, p. 123-143. Gallo, G. e S.Pallottino (1988)Shortest path algorithms , v. 13, p.3-79. Garey, M.R. e D.S. JOHNSON (1979) New York, NY: W. H. Freeman e Co. , v. search for a nonbifurcated network loading problem. , v. 142, p. 231-241. gence. , v. 13, p. 533–49. Glover, F. (1989)Tabu search.Part i. , v. 1, p. 1-190. Magnanti, T.L.; P. Mirchandani e R. Vachani (1993)The convex hull of two core capacitated network design problems. , v. 26(2), p. 233-250. Magnanti, T.L.; P. Mirchandani e R. Vachani (1995) Modeling and solving the twofacility capacitated network loading problem. , v. 43(1), p. 142-157. Mirchandani, P. (2000) Projections of the capacitated network loading problem. , v. 122(3), p. 534-560. 170 Transporte em Transformação XV problem description and a proposed solution approach, , v. 17(6), p. 471-480. Algorithm 347. 12, p. 185–187. Stecco, G.; J-F.Cordeau e E. Moretti (2009)Atabu search heuristic for a sequencedependent and time-dependent scheduling problem on a single machine. , v. 12 (1), p. 3-16. Claudio Barbieri da Cunha ([email protected]) Marcos Roberto Silva ([email protected]) Programa de Pós Graduação em Engenharia de Transportes – Escola Politécnica da USP Caixa Postal 61548 – CEP 05424-970 – São Paulo - SP Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 9 Resumo No processo de planejamento de transportes, o entendimento do seu sistema e o conhecimento de cada elemento é fundamental para sucesso do trabalho. importância na economia brasileira, nos estudos encontrados sobre o Transporte minados elementos, mas há uma carência de estudos sobre como os elementos estão relacionados. Sendo assim, este trabalho apresenta uma proposta para a organização dos elementos de um sistema, considerando as relações entre eles. O objetivo é cada elemento, estabelecer uma hierarquia e organizar as características destes que 172 Transporte em Transformação XV devem ser consideradas no planejamento. Como aplicação da proposta, foi estruturada uma rede contendo os elementos principais do Sistema TRC. Abstract In the process of transportation planning, the understanding of the system and knowledge of each element is essential. To direct the actions of transportation lated. Despite its obvious importance in Brazilian economy, the studies found on Freight Road Transportation (TRC, in Portuguese) usually have an approach with ments are related. Thus, this work presents a proposal for organizing the elements of a system, considering the relationships between them. The goal is to propose that establish a hierarchy and organize their characteristics to be considered in planning. As an application of the proposal a network containing the main elements of the TRC System is presented 1. Introdução O aparecimento de novas tecnologias de informação propiciou uma maior disseminação das informações, facilitando o acesso dos pesquisadores ao conhecimento. No entanto, as informações muitas vezes encontram-se desorganizadas, trazendo abordagens distintas a respeito de um mesmo objeto. Em se tratando do Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas (STRC), além da carência de publicadistintos para um mesmo elemento do sistema. O STRC é um sistema complexo, composto de muitos elementos que se relacionam. Os autores que escrevem a respeito desse sistema não apresentam consenso em relação à sua composição e em relação às características de seus componentes. Alguns elementos estão presentes nas descrições da maioria dos trabalhos, como, por exemplo, as vias e os veículos. No entanto, outros elementos nem sempre são mencionados, como, por exemplo, as cargas transportadas pelo sistema. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 173 Essa percepção reforça a necessidade de organizar os elementos do STRC e discute algumas maneiras de organizar elementos, estruturando o conhecimento a respeito de sistemas de transporte. Na sequência, será apresentada uma proposta ção considerando os elementos do STRC. Cabe ressaltar que a estrutura do STRC apresentada foi desenvolvida com o objetivo de validar as relações propostas (que de representação do conhecimento acerca do STRC. 2. Representação do Conhecimento Considerando as formas de representação do conhecimento, McGarry ( distinção de quatro tipos de meio que podem ser utilizados para representar uma informação: i) Sinais: que estabelecem relações com as ações a serem desenvolvidas pelo receptor; ii) Signos: que indicam a presença física de algo ou algum evento relacionado a ele; iii) Símbolos: que se constituem de representações culturalmente construídas iv) Linguagem: elemento fundamental da comunicação humana. Entretanto, mesmo fazendo uso destes meios, é difícil representar a informação de maneira adequada, pois é sabido que a própria representação é por si só um processo redutor da informação realizada por um intermediário (Furgeri, 2006). tação do conhecimento atinja seus objetivos, devem ser aplicadas teorias e técnicas de três áreas distintas: a lógica para se ter uma estrutura formal e regras de inferência; a ontologia computação, para se conseguir apoio às aplicações que farão uso de tal representação. 174 Transporte em Transformação XV 2.1 Ontologia lida com a natureza e a organização do ser. Quando aplicado por comunidades de que podem ser usados para descrever alguma área do conhecimento ou construir uma representação deste (Maedech Guimarães, 2002). Rios (2003) ressalta que não se deve estabelecer uma relação de sinonímia entre ontologia e base de Rios, 2003) consideram a ontologia como um componente de uma coleção de informações, sendo ela o alicerce para a construção do conhecimento. Para se realizar o processo de representação do conhecimento, Corradi . formas diferem entre si pela natureza dos resultados e pelos meios empregados em sua produção. 2.2 Redes semânticas Corradi formas de representar o conhecimento acerca de determinado objeto. Conforme esses autores, o conceito para rede semântica foi desenvolvido por Quillian e representou a primeira tentativa de fornecer uma representação do conhecimento baseaEm seu livro Estrutura Semântica, Baldinger (1970), partindo da constatação tem partes pertencentes a uma mesma classe e que podem ser dispostos de maneira horizontal. Outros, por sua vez, relacionam-se hierarquicamente, podendo ser dispostos de maneira vertical. se liga ao sujeito, e organiza a realidade, facilitando sua compreensão. Desta forma, a estrutura semântica é aquela que organizada na forma de categorias, permite a visualização de diferentes classes do ser ou as diferentes classes de características Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 175 Seguindo esse conceito, a ideia de construção semântica resulta na organização de elementos representativos, compondo estruturas, nas quais diferentes eleelementos, representam a relação existente entre eles e que facilitam sua compreensão (Ceftru, 2008). A principal vantagem das redes semânticas é justamente a possibilidade delas explicitarem as relações entre os elementos. Dessa forma, a estrutura diferentes classes, ou em diferentes características que podem ser atribuídas ao elemento estudado (Tedesco, 2008). Para Furgeri (2006), as relações entre os elementos podem ser realizadas a partir de uma categorização (esses elementos são agrupados pela sua natureza), por uma hierarquização (é estabelecida uma ordem de dependência entre os elementos), por uma relação partitiva (um elemento é composto de partes) e por relações de equivalência. Guarino (1998) divide as relações em estruturantes - aquelas que contribuem para a estruturação do domínio, e não estruturantes - aquelas que fornecem infor.( Gonçalves e Souza, tam que algumas relações são primitivas e independentes de domínio. São três as relações binárias listadas por esses autores: relação classe-classe, relação instânciaclasse e relação instância-instância. Entende-se que as redes semânticas podem representar diferentes conceitos, semânticas em seis tipos mais comuns: a relação “é um” como principal, suportando regras de herança por meio da passagem das propriedades de um tipo superior para todos os tipos inferiores a ele; assumida como contingentemente verdadeira, a menos que seja explicitamente marcada por um operador modal; iii) Redes de implicação – a implicação é a principal relação utilizada, sendo 176 Transporte em Transformação XV a lógica e a probabilística as principais abordagens aplicadas a esse tipo de rede; iv) Redes executáveis – permitem alteração dinâmica da rede por possuírem mecanismos para execução de inferências, passagem de mensagens ou busca por padrões e associações; v) Redes de aprendizado – constroem ou estendem sua representação por meio da aquisição de conhecimento provindo de exemplos. O novo conhecimento pode alterar a rede antiga adicionando ou apagando nós e arcos arcos; vi) Redes híbridas – combina duas ou mais das redes anteriores em uma única ou em redes separadas, mas com interação. Para o desenvolvimento da estrutura contendo elementos e características do STRC, o presente trabalho propõe a adoção de uma rede híbrida, contendo três tipos de relações entre os elementos. Esta proposta está detalhada no item 4. 3. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas (STRC) Apesar de sua evidente importância na matriz de transporte brasileira, as renem sempre tratam de forma organizada a estrutura e os elementos do seu sistema ou do Sistema de Transporte de Cargas realizado por outros modos de transporte. Além da maioria das publicações encontradas abordar o transporte de passageiros, as publicações sobre o transporte de carga tratam o tema com foco na logís(e.g. Moura e Banzato, 1997 e Rodrigues, 2007), sobre os veículos utilizados (e.g. ABNT, 2006) ou sobre a infraestrutura (vias, terminais etc.). No entanto, a maneira como esses elementos se relacionam para formar uma estrutura única e integrada do STRC ainda não é explorada pela literatura técnica. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 177 3.1 Elementos dos Sistemas de Transportes A palavra “sistema” tem origem grega ( corresponde a “um certo número de elementos em interação”. Bertalanffy foi um dos primeiros autores a estudar os sistemas, tendo desenvolvido a Teoria Geral dos Sistemas, que foi a base utilizada pela maior parte dos estudos desenvolvidos posteriormente. Seus estudos são fundamentados na biologia, a partir dos quais estudou a organização e no funcionamento de sistemas de organismos vivos. Além disso, parte de suas formulações se remete à teoria dos sistemas abertos. análise exaustiva sobre o assunto, mas um resumo do que foi encontrado nas principais fontes literárias com abordagem de transporte, discutida também por Tedesco (2008) e por Ceftru (2008). A relação dos componentes que formam um sistema de transporte é variada de acordo com cada autor. Alguns autores se limitam aos aspectos físicos, dando ênfase à infraestrutura, e outros autores complementam com aspectos operacionais. Em relação aos componentes do sistema de transporte, Manhein (1979) cita os seguintes: Pessoas e bens transportados; Veículos que os transportam; e, Redes através das quais os veículos se deslocam. e Sacone Bianco e Toth (1996) citam que um sistema de transporte consiste de dois principais componentes: Sistema de demanda, que representa as necessidades e comportamento dos usuários; Sistema de oferta ( ), que inclui tudo que está relacionado à produção do serviço, desde a infra-estrutura até o planejamento de regras do sistema. 178 Transporte em Transformação XV Como os fatores demanda e oferta estão relacionados entre si, para Febbraro e Sacone Bianco e Toth (1996), um modelo de sistema de transportes pode ser considerado como a integração dos modelos de demanda e de oferta e suas interações. Ainda, Setti e Widmer (1997) citam que os elementos funcionais que permitem a movimentação de pessoas e bens são: veículos; vias; terminais e plano de operação. Distinguindo apenas um desses elementos, Khisty e Lall (1998) seguem uma linha próxima. Ao invés de listarem o “plano de operação” como elemento do sistema de transportes, Khisty e Lall (1998) citam os “técnicos que constroem, operam, gerenciam e mantém as vias, os veículos e os terminais”. Para os autores, esses quatro elementos interagem com o humano, sendo usuário ou não usuário do sistema, e também com o meio ambiente. Além destes componentes, certos autores ainda apontam três outros: os dispositivos de unitização de cargas, as interseções e a força de trabalho (Khisty, 1990). Com um maior nível de detalhamento, Morlok (1978) lista os componentes do sistema de transportes como sendo: objeto a ser movido: por exemplo, passageiros e cargas; caminho a ser percorrido; veículo: dá ao objeto mobilidade em determinado tipo de caminho; container: compartimento por onde os objetos podem ser transportados para facilitar a movimentação. A diferença do container para o veículo é que o container sozinho não consegue dar mobilidade ao objeto; custos: do uso da terra, da mão de obra e dos materiais utilizados na manutenção e construção inicial; terminais: qualquer estrutura em um caminho onde os veículos podem parar para serem carregados e descarregados; plano de Operação: conjunto de procedimentos que regem a operação do sistema. Em uma linha bastante semelhante, Meyer e Miller (1984) citam seis principais componentes dos sistemas de transportes que geralmente são relacionados a políticas de transporte de diferentes tipos: Infraestrutura do sistema de transportes, que inclui as vias que os veículos circulam, os sistemas de sinalização, terminais, e qualquer outra instalação Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 179 Veículos que operam na infraestrutura do sistema; Rotas que regem a operação dos veículos sobre a infraestrutura; Motoristas dos veículos; Procedimentos para operação do sistema, que incluem todas as regulamentações do governo (e.g. velocidade máxima permitida, documentação etc); Custos dos operadores e/ou usuários do sistema, que não são somente os relacionados à infra-estrutura, veículos e procedimentos de operação, mas tam- transportes encontradas na literatura e descritas no presente item: Tabela 1: Abordagens sobre Sistemas de Transportes Autor Definição / Finalidade Set ti e Widmer (1997) Conjunto de elementos que têm como função permitir que pessoas e bens se movimentem. Wingo e Perlof f apud Bruton (1979) Conjunto de facilidades e instituições organizado para distribuir seletivamente uma qualidade de acesso em uma área urbana Meyer e Miller (1984) Veículos Vias Terminais Plano de operação Vias; Veículos; Terminais; Técnicos que constroem, operam, gerenciam e mantém as vias, os veículos e os terminais. Khisty e Lall (1998) Febbraro e Sacone at Bianco e Toth (1996) Componentes Integração dos modelos de demanda e de ofer ta e suas interações. Sistema de demanda; Sistema de ofer ta (supply), Infraestrutura; Veículos; Rotas; Motoristas; Procedimentos para operação do sistema, Custos 180 Transporte em Transformação XV Autor Definição / Finalidade Morlok (1978), O sistema de transpor te possibilita que um objeto seja movimentado de um local para outro ao longo de uma trajetória, por meio de uma tecnologia. Manhein (1979) Um sistema de transpor tes é uma forma par ticular de mercado, no qual a ofer ta e a demanda atingem o equilíbrio considerados os canais restritivos da malha de transpor tes. Componentes Objeto; Caminho; Veículo; Container; Custos; Terminais; Plano de Operação Pessoas e bens transpor tados; Veículos que os transpor tam; Redes através das quais os veículos se deslocam. 3.2 Transporte Rodoviário de Cargas O transporte rodoviário de cargas (TRC) é aquele realizado em rodovias. O veículo utilizado neste transporte pode ser tanto um veículo unitário (e.g. caminhão simples) quanto uma combinação de veículos de carga (CVC, que é composta por para cada tipo de carga a ser transportada. O TRC é uma atividade que pode ser realizada pelo próprio dono da carga (Transporte de Carga Própria – TCP), ou pode ser feita por um transportador, contratado para realizar este serviço (Transporte Rodoviário Remunerado de Cargas – TRRC). No Brasil, os transportadores que exercem atividade remunerada de transporte de carga podem ser autônomos, empresas ou cooperativas. Estes transportadores são obrigados por Lei a se cadastrar e obter o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC). No banco de dados do RNTRC estão cadastradas as principais características dos transportadores e de sua frota. Os transportadores distribuem-se nessas três categorias na seguinte proporção (Tabela 2): Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 181 Tabela 2: Quantidade de registros, segundo a categoria do transportador Categoria Quantidade de transportadores % Autônomos 671.781 84,0% Empresas 127.595 15,9% 623 0,1% 799.999 100,0% Cooperativas TOTAL Fonte: Banco de dados RNTRC – ANTT, ano base 2008 A economia brasileira ainda é bastante dependente do modo rodoviário, fato que pode ser observado pela atual Matriz de Transporte brasileira, em que esse modo representa mais de 60% do total de cargas transportadas (movimentando cerca de 485,6 bilhões de toneladas-quilômetro útil - TKU). Dados da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC) indicam que o TRC responde por 3,4% do PIB nacional, e gera 3,5 milhões de empregos (Cruz, 2008). Sendo assim, evidencia-se a importância dos estudos a respeito do STRC e a 4. Proposta de Estrutura dos Elementos do STRC A criação de um padrão para a estruturação de objetos e conceitos mostra-se cada vez mais necessária, visto que objetiva melhorar a representação do conhecimento e, conseqüentemente, melhorar a recuperação de informações e agilizar o processo de transmissão destas (Furgeri, 2006). Este trabalho propõe o uso de redes híbridas, com adoção de três distintas sua hierarquia e estabelecer as características destes que devem ser consideradas no planejamento. Para validação do trabalho, uma aplicação da proposta permitiu a estruturação de uma rede contendo os elementos principais do STRC. 182 Transporte em Transformação XV 4.1 Procedimento geral para construção da estrutura de organização Tedesco (2009) apresentam uma metodologia para a construção e a dis- um debate entre os participantes e são fundamentais para a construção e disseminação do conhecimento, visto que cada especialista possui conhecimento aprofundado sobre determinado elemento isoladamente, mas que nem sempre domina com clareza os demais elementos e suas relações. Naquele trabalho foram apresentados também os resultados da primeira aplicação da metodologia, que consistiu em uma O presente estudo é uma complementação da proposta de Tedesco (2009), uma vez que apresenta uma base para realização da primeira etapa da metodologia proposta por aqueles autores. A primeira etapa da metodologia proposta por Tedesco segundo os autores, devem ser realizados: dos elementos componentes do sistema. mais aprofundada referente a cada elemento, deve-se detalhar sua estrutura, considerando sua composição e suas características. Análise da estrutura do sistema com a equipe – realização de validações e apresentação de uma estrutura inicial desenvolvida Validação da estrutura do sistema – validação da estrutura inicial pelo responsável pela pesquisa. A forma de organização dos elementos, baseada em redes híbridas, para construção da estrutura inicial do STRC (proposta deste presente trabalho) é uma maneias demais etapas da metodologia proposta por Tedesco nas atividades de discussão sobre o objeto de estudo. . (2009), principalmente - comenda-se seguir as demais etapas da metodologia proposta por Tedesco (2009). Porém, a aplicação de todas as etapas propostas por aqueles autores não é objeto do presente trabalho. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 183 4.2 Estrutura de organização: relações entre elementos Devido à complexidade dos elementos de um sistema de transporte, mostrase mais indicada a estruturação de redes híbridas, em que são utilizadas mais de uma forma de relação entre elementos pertencentes a diferentes hierarquias. A seguir são propostas três diferentes relações entre os elementos da rede: composição, caracterização e tipos. A) Relação de composição: “é composto por” Basicamente observa-se que a cadeira é formada por 4 partes: assento, pernas, braços e encosto (Figura 1). Figura 1: Partes componentes de uma cadeira A relação entre o primeiro elemento (1) e os demais é uma relação de composição, ou seja: a cadeira é composta por pernas, braços, encosto e assento. Essa relação é de composição. Fazendo-se a leitura da relação no sentido inverso: pernas, braços, encosto e assento são componentes de uma cadeira. B) Relação de caracterização: “é caracterizada por” Cada elemento também pode apresentar características. Seguindo com o exemplo da cadeira, pode-se dizer que o elemento “assento” apresenta algumas características (Figura 2): 184 Transporte em Transformação XV Figura 2: Características do assento A relação entre o elemento “assento” (1.4) e os demais é uma relação de caracterização. Dessa maneira, pode-se dizer que o assento caracteriza-se por sua altura, largura e por seu tipo de acabamento. Fazendo a leitura das relações de uma estrutura no sentido inverso, diz-se que altura, largura e acabamento são características de um assento. C) Relação por tipos: “é do tipo” Um determinado componente ou uma determinada característica pode apresentar diferentes tipos. Por exemplo: o acabamento do assento (1.4.3) pode ser de distintos tipos (Figura 3) Figura 3: Tipos de acabamento do assento A relação entre o elemento “acabamento” (1.4.3) e os demais é de tipo. Assim, pode-se dizer que o acabamento pode ser dos tipos madeira, plástico ou tecido. Ao proceder a leitura inversa, diz-se que madeira, plástico e tecido são distintos tipos de acabamento do assento de uma cadeira. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 185 É importante salientar que elementos de uma mesma hierarquia devem seguir o mesmo padrão de relação. Ou seja, não se pode misturar uma característica com um componente, ou um tipo com uma característica (Figura 4). Pernas, braços e encosto são componentes, enquanto o acabamento é uma característica. Portanto, as relações entre este último elemento e o elemento acima dele (característica) seria diferente da relação entre os demais e o mesmo superior (composição). Figura 4: Ilustração de relações distintas em um mesmo nível (não recomendável) 4.3 Estrutura Organizada do Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas Como aplicação da proposta feita no capítulo anterior, desenvolveu-se uma pesquisa sobre os elementos componentes do STRC. A organização da estrutura inicial do STRC deu-se a partir de pesquisas sobre o setor de transporte rodoviário de com especialistas do setor – seguindo a metodologia proposta por Tedesco Infrestrutura –aspectos da rede viária utilizada para o TRC, características físicas e operacionais das vias e terminais existentes; Veículos –principais características dos veículos utilizados para o transporte de cargas, bem como dos equipamentos utilizados para a movimentação das cargas (embarque, desembarque, embalagem etc.); Carga –principais características das cargas movimentadas no transporte rodoviário; Atores –principais os atores ( ) e entidades envolvidas com o TRC. 186 Transporte em Transformação XV Seguindo a lógica da rede híbrida construída com base em três relações disas relações que eles estabelecem entre si. É importante ressaltar que quanto mais vezes determinado elemento é “decomposto”, mais completa (e também complexa) diferentes tipos de relações existentes na estrutura, não serão apresentados todos os níveis de detalhamento dos elementos do STRC. fraestrutura”, “veículo”, “carga” e “atores” com o STRC, ou seja, conforme esta proposta inicial de estrutura do STRC, o sistema é composto por esses quatro elementos. rede viária, pelos terminais e pelos pontos de apoio. Há uma relação de composição entre os elementos, ou seja, a rede viária, os terminais e os pontos de apoio compõem a infraestrutura do STRC. Para dar continuidade neste processo, o mesmo tipo de decomposição pode ser feito para cada um destes elementos citados e assim por diante. Já o elemento “veículos” tem como características sua composição física, de propriedade e ano de fabricação. Todos os elementos listados são categorias de características dos veículos, ou seja, há uma relação de caracterização entre os elementos listados e os “veículos”. Os veículos são “categorizados” por estes elementos. As “cargas” podem ser decompostas pelo seu tipo (geral, granel etc), pelas características do produto (volume, peso etc), pelas características das embalagens cada neste caso também foi de caracterização, uma vez que estes elementos caracterizam as cargas a serem transportadas. criminados diversos “grupos” envolvidos com o TRC. Alguns deles são: transporciações, entre outros. Esta lista pode ser extremamente extensa, mas é importante Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 187 - útil para a construção do conhecimento a respeito do tema e para o planejamento do setor. Na Figura 5 a seguir, estão representados os principais elementos do STRC citados e as relações entre eles. Figura 5: Principais elementos do STRC e suas relações 5. Tópicos Conclusivos Os estudos de transportes apresentam como um fator imprescindível o conhecimento a respeito do sistema de transportes no qual se pretende intervir. Dessa forma, esses estudos apresentam a informação como uma de suas maiores necessidades e principais ferramentas para o ato de planejar. Ainda que pretenda atuar em apenas uma parte restrita do sistema, o planejador deve possuir informações a respeito do seu todo, de sua composição e de como os elementos do sistema estão relacionados. Portanto, esse conhecimento deve estar disponível, de forma organizada, ao planejador e aos demais atores do sistema. 188 Transporte em Transformação XV Como as informações muitas vezes encontram-se desorganizadas, com abordagens distintas a respeito de um mesmo objeto, este trabalho propõe uma forma de organizar as informações sobre transportes. Foi proposta a representação do conhecimento por meio de redes híbridas, com a adoção de três tipos de relação: compoque permite uma visão geral e estruturada do objeto de estudo. Esta perspectiva é fundamental para organização da grande quantidade de informação existente, permitindo um conhecimento mais conciso sobre o objeto em análise. A aplicação no propostas é viável e útil para o conhecimento geral e estruturado do sistema. Considerando a grande participação do TRC na economia brasileira, pesquisas sobre seu sistema podem trazer grandes benefícios. Elas são essenciais, por exemplo, para subsidiar ações do poder público, permitindo melhor planejamento em investimentos, incentivos aos transportadores e melhorias no planejamento do setor. Agradecimentos À equipe técnica do projeto “Desenvolvimento de Sistema de Informação para Cadastro e Habilitação do Transportador Rodoviário Remunerado de Carga”, desenvolvido no Ceftru/UnB. Referências Bibliográficas BALDINGER, K. (1970). Teoría Semántica: Hacia una semántica moderna. Madrid: Ediciones Alcalá. BERTALANFFY, L. V. (1973). Teoria Geral dos Sistemas. Petrópolis: Vozes. __________. (1989). Teoria General de Los Sistemas – fundamentos, desarrollo, aplicaciones. Fundo de Cultura Económica – México, traducción Juan Almela, 7ª. Edición. ABNT (2006). NBR 9762: Terminologia. Associação Brasileira de Normas Técnicas, Rio de Janeiro, RJ. BIANCO, L.; TOTH, P. (ed.) (1996) Advanced Methods in Transportation Analysis. Springer: Berlin, Heidelberg, New York, Barcelona, Budapest, Hong Kong, London, Milan, Paris, Santa Clara, Singapura, Tokyo. Sistema de Transporte Rodoviário de Cargas: uma Proposta para sua Estrutura e Elementos 189 BRUTON, M. (1979) Introdução ao planejamento dos transportes. Tradução: João Bosco Furtado Arruda, Carlos Braune, César Cals de Oliveira Neto. Editora Interciência, Rio de Janeiro; e Editora da Universidade de São Paulo, São Paulo. CEFTRU. (2008). Diagnóstico do Transporte Escolar Rural – Apêndice 02: Rede Semântica do Sistema de Transporte Escolar Rural – 2008. Centro de Formação em Recursos Humanos de Transportes, UnB, Brasília, DF. CORRADI, F. de M.; SOUZA, J. R. C. de; TRAVASSOS, L. C. P.; DIAS, R. de F. (2001). Nós, links, e redes... Revista de Biologia e Ciências da Terra – Volume 1 – Número 1. CRUZ, E. (2008). Risco de Colapso. Revista CNT – Transporte Atual. Número 158. FURGERI, S. (2006). Representação de Informação e Conhecimento: Estudo das Diferentes Abordagens entre a Ciência da Informação e a Ciência da Computação, Dissertação de Mestrado em Ciência da Informação, Pontifícia Universidade Católica de Campinas, SP, 159p. GONÇALVES, J. A.; SOUZA, R. R. (2008). Relações e Conceitos em Ontologia: teorias de Farradane e Dahlberg. Seminário de Pesquisa e Ontologia no Brasil, 11 e 12 de agosto de 2008. Departamento de Ciência da Informação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ. GUARINO, N. (1998). Formal Ontology and Information Systems. Amended version of a paper appeared in N. Guarino (ed.), Formal Ontology in Information Systems. Proceedings of FOIS’98, Trento, Italy, 6-8 June 1998. Amsterdam, IOS Press. GUIMARÃES, F. J. Z. (2002). Utilização de ontologias no domínio B2C, Dissertação de Mestrado, Publicação 002/2008, Departamento de Informática, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ, 195p. KHISTY, C. J.; LALL, B. K. (1998). Transportation Engineering: an Introduction. Prentice Hall, New Jersey. MANHEIN, M. L. (1979) Principles of Transport System Analysis. Highway Research Record, n. 180. MEYER, M. D.; MILLER, E. J. (1984) Urban Transportation Planning: A decisionoriented approach. McGraw-Hill, USA. MORLOK, E. K. (1978) Introduction to transportation engineering and planning. McGraw-Hill, Tokyo. MOURA, R. A. e BANZATO, J. M. (1997). Manual de Logística Volume 3 Embalagem, Unitização & Conteinerização. IMAM. RIOS, J. A. (2003). Ontologias: alternativa para a representação do conhecimento explícito organizacional. VI CINFORM - Encontro Nacional de Ciência da Informação. 190 Transporte em Transformação XV RODRIGUES, P. R. A. (2007). Gestão Estratégica da Armazenagem – 2ª Edição. SETTI, J. R.; WIDMER, J. A. (1997). Tecnologia de transportes. USP, São Carlos. SOWA, J. F. (1992). Semantic Networks. Versão revisada e extendida de um artigo Shapiro, Wiley, 1987. Disponível em: http://www.jfsowa.com/pubs/semnet. htm (acesso em 06/10/2008). __________. (1999). Knowledge Representation: Logical, Philosophical, and Computational Foundations. Disponível em: http://www.jfsowa.com/krbook/ krpref.htm (acesso em 09/10/2008). TEDESCO, G. M. I. (2008). Metodologia para Elaboração do Diagnóstico de um Sistema de Transporte, Dissertação de Mestrado, Publicação 001/2008, Faculdade de Tecnologia, Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, Universidade de Brasília, DF, 215p. TEDESCO,G. M. I., VILLELA, T. M. A., CIBULSKA, P. C. V., GRANEMANN, S. R. (2009) Procedimentos para a construção da estrutura do sistema de transporte rodoviário de cargas. In: Congresso de Pesquisa e Ensino em Transportes – XXIII ANPET. Vitória, 2009. Thaís Maria de Andrade Villela ([email protected]) Giovanna Megumi Ishida Tedesco ([email protected]) Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 10 Resumo A meta deste trabalho foi descrever, de maneira prática, como aplicar uma adaptação do método do HCM2000 para análise da capacidade e do nível de serviço em rodovias de pista simples. A adaptação proposta é fruto de duas pesquisas que, basicamente, se propuseram a replicar os procedimentos usados no desenvolvimento do método original do HCM, substituindo-se os dados coletados em rodovias dos EUA e Canadá por observações feitas em dez trechos de xo, a velocidade média de viagem e a porcentagem de tempo seguindo em pelotões, além de tabelas com fatores de ajuste para condições não ideais. Podem ser avaliados segmentos longos e homogêneos, numa análise bidirecional ou 192 Transporte em Transformação XV estimativas dos níveis de serviço usando-se a adaptação do método do HCM2000 Abstract The goal of this study was to describe, in a practical way, how to apply an adaptation of HCM2000 method for capacity and level of service analysis on two-lane rural highways. The proposed adaptation is the result of two research projects that basically replicated the procedures used for developing the original HCM method, while replacing the data collected on highways in the U.S. and Canada for data from travel speed and percent time-spent-following are presented, as well as tables containing adjustment factors for situations differing from base conditions. It is possible to estimate the level of service of long homogeneous segments, considering the level of service estimates obtained with the use of the HCM2000 adaptation 1. Introdução O Highway Capacity Manual (HCM), cuja última versão é conhecida como HCM2000, é a principal referência usada no Brasil e no mundo para analisar a capacidade e o nível de serviço em rodovias. No entanto, o HCM2000 é, geralmente, aplicado sem nenhuma adaptação às condições locais, apesar do próprio manual advertir que isso deva ser feito (TRB, 2000). Adaptações do HCM foram desenvolcomo na Alemanha (Brilon e Weiser, 2006) e África do Sul (Van As, 2003). Diversos estudos já foram elaborados visando produzir conhecimentos que auxiliem na adaptação do HCM para o Brasil. Para rodovias de pista simples, as primeiras tentativas de adaptação foram baseadas na premissa de que a estrutura do Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 193 Mon-Ma, 2008). Esses trabalhos, desenvolvidos concomitantemente usando dados coletados em estradas paulistas, se complementam, formando uma adaptação quase completa do método proposto no Capítulo 20 do HCM2000. Estudos subsequenaplicação direta do HCM2000 (Utimura , 2007). Este artigo visa mostrar, de maneira prática, como aplicar a adaptação proposta na análise da capacidade e do nível de serviço em rodovias de pista simples no Brasil. 2. Visão Geral do Método de Adaptação O método usado para adaptar o Capítulo 20 do HCM2000 consistiu, basicamente, em replicar os procedimentos documentados em Harwood . (1999), substituindo-se os dados coletados em rodovias dos EUA e Canadá por observações feitas em rodovias no estado de São Paulo. Como os procedimentos envolvem a utilização de simulação, um aspecto importante da adaptação foi a calibração de simuladores microscópicos de tráfego em rodovias de pista simples para o Brasil. Para tanto, foram coletados dados de tráfego em 10 trechos de rodovias no estado de São Paulo, com uma ampla gama de características geométricas e de tráfego (Egami , 2006). Cada trecho foi observado duas vezes, para compor dois conjuntos de observações, um para ser utilizado na calibração e outro na validação do simulador. Para obter uma versão do simulador capaz de representar uma rodovia típica, foi usado um algoritmo genético para encontrar os valores dos parâmetros de calibração que melhor simulassem os 10 trechos observados. As medidas de desempenho usadas na calibração foram as adotadas pelo HCM para medir a qualidade de serviço neste tipo de rodovia: a velocidade média de percurso e a porcentagem de veículos em pelotões. Detalhes do processo de calibração podem ser encontrados em Egami (2006), Egami (2006) e Mon-Ma (2008). Com os simuladores calibrados, foram realizadas simulações com combinaporcentagem de tempo seguindo em pelotões) e tabelas com fatores de ajuste. Esses fatores foram encontrados por meio das diferenças entre as medidas de desempenho para condições ideais e não ideais. 194 Transporte em Transformação XV 3. Adaptação do HCM2000 para Rodovias de Pista Simples As medidas de desempenho usadas para determinar o nível de serviço em rodovias de classe I, ou seja, aquelas em que os motoristas esperam viajar com altas velocidades, são a velocidade média de viagem ( ) e a porcentagem de tempo seguindo em pelotões ( ). A medida utilizada em rodovias de classe II, que são aquelas em que os motoristas não necessariamente esperam viajar a altas velocidades, é somente a de pista simples estão apresentados na Tabela 1. No caso da classe I, a ea devem ser atendidas simultaneamente, como mostra a Figura 1. Tabela 1: Critérios para determinação do nível de serviço em rodovia de pista simples de classe I e II [TRB, 2000] (a) Rodovias de classe I NS A B PTSF (%) (b) Rodovias de classe II ATS (km/h) NS A B C C D D E E PTSF (%) Esses critérios devem ser usados nas análises unidirecional e bidirecional, cede a capacidade, ou seja, 1700 veic/h para uma direção do tráfego ou 3200 veic/h quando a análise é bidirecional. Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 195 Figura 1: Critério para determinação do nível de serviço em rodovias de pista simples de classe I [TRB, 2000] A Figura 2 resume o procedimento para estimar o nível de serviço adotado pelo HCM2000. As seções a seguir mostram como a análise deve ser feita e apresentam as tabelas e fórmulas que devem substituir as fornecidas pelo HCM2000. Figura 2: Método para estimativa do nível de serviço para rodovias de pista simples do HCM2000 (Egami, 2006) 196 Transporte em Transformação XV 3.1. Segmentos bidirecionais e direcionais A metodologia para avaliação de segmentos homogêneos, bidirecionais ou direcionais, pode ser usada para trechos onde o relevo é plano ou ondulado. As etapas para determinar o nível de serviço nesses casos são descritas nas subseções a seguir. 3.1.1. Velocidade de fluxo-livre correntes de tráfego em campo, ou realizando uma estimativa. A coleta de dados em campo deve ser realizada em um local que seja representativo do trecho avaliado. Nesse caso, deve-se usar: (1) em que: : : velocidade média do tráfego medido em campo (km/h); : coletados (veic/h); e : fator de ajuste para os veículos pesados. No caso de impossibilidade para coletar dados em campo, uma estimativa para deve ser realizada por meio da expressão , em que com base na geometria da rodovia; e e são, respectivamente, fatores de ajuste para a largura da faixa e do acostamento e para a densidade de pontos de acesso. Entretanto, no estado de São Paulo, a maior parte das rodovias de pista simples possui faixas de rolamento com largura de 3,6 m e acostamentos de 1,8 m, o que, de acordo com o HCM2000, não produzem efeito no desempenho do tráfego. Além disso, larguras diferentes para faixas de tráfego e acostamentos não podem ser si- Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 197 muladas, assim como a existência de pontos de acesso. Por essas razões, os fatores e não foram tratados. 3.1.2. Taxa de fluxo passeio equivalente por hora”, cpe/h. Com isso, é determinado o impacto de outros tipos de veículos, como caminhões e ônibus, na corrente de tráfego. A Equação 2 mostra como desenvolver essa transformação: (2) em que: - : tos de pico dentro da hora de pico (cpe/h); : : fator de pico horário (Equação 3); G : fator de ajuste para rampas; e : fator de ajuste para os veículos pesados (Equação 4). podem ser bidirecionais, em uma direção analisada, ou na direção oposta à analisada. O fator de pico horário é dado por: (3) em que: : volume na hora de pico (veic/h); e 15 : volume durante 15 minutos de pico (veic/15 min) dentro da hora de pico. O fator de ajuste para o efeito de veículos pesados na qualidade de serviço é: 198 Transporte em Transformação XV (4) em que: T : fração de caminhões e ônibus na corrente de tráfego, expresso em valores decimais; : fração de veículos recreacionais na corrente de tráfego, em decimais; T : fator de equivalência veicular para caminhões e ônibus; e : fator de equivalência veicular para veículos recreacionais. No Brasil, é praticamente nula a presença de veículos recreacionais nas estradas. Esse fato levou à desconsideração dos impactos associados à presença desses tipos de veículos. Consequentemente, não há, na metodologia descrita neste trabalho, uma apresentação dos valores de . Por outro lado, ônibus e caminhões são frequentemente observados nas rodovias brasileiras. O impacto desses veículos é representado pelo fator de equivalência veicular T, e deve ser determinado em funde relevo e da medida de desempenho que se deseja estimar ( ou ). O fator de ajuste G determina o impacto das rampas na estimação das medidas de desempenho e . Os valores de T e G para análise de segmentos bidirecionais ou unidirecionais são apresentados na Tabela 2. Tabela 2: Equivalentes veiculares para caminhões e ônibus para determinar a velocidade ou a porcentagem de tempo seguindo em pelotões em segmentos bidirecionais ou direcionais Taxa de fluxo bidirecional (cpe/h) Taxa de fluxo direcional (cpe/h) 0-600 >600-1200 >1200 0-300 >300-600 >600 Estimação de ATS Relevo Relevo plano ondulado ET fG ET fG 5,9 1,0 4,3 0,72 3,9 1,0 3,5 0,89 2,4 1,0 2,4 0,93 Estimação de PTSF Relevo Relevo plano ondulado ET fG ET fG 1,1 1,0 1,0 0,77 1,1 1,0 1,1 0,87 1,0 1,0 1,0 0,92 Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 199 Até o momento, o método apresentado não permite determinar o valor do os fatores de ajuste T e G possam ser determinados. Para solucionar esse problema, um método iterativo é proposto: primeiramente, calcula-se a relação entre o volume , em veic/h, e o fator . Com essa relação, determina-se os fatores T e G para, em seguida, estimar por meio da Equação 2. Se o valor de for menor do que o e G, deve-se usar o T valor de calculado. Se for maior, o processo é reiniciado utilizando-se o intervalo seja aceito. Essas iterações também devem ser feitas na 3.1.3. Relações fundamentais de tráfego didas de desempenho e , usadas na determinação do nível de serviço em rodovias de pista simples. Essas relações foram obtidas para análises bidirecionais e unidirecionais, como mostram as Equações 5 a 8, sendo necessário saber o fator de ajuste para a porcentagem de zonas com ultrapassagens proibidas ( ) e o fator combinado para a divisão direcional e zonas com ultrapassagens proibidas ( ). Os e , necessários para obtenção de , são fornecidos na Tabela 3. As Tabelas 4 a 6 apresentam os valores de e . (5) (6) (7) (8) em que: : : : - , : sada. 200 Transporte em Transformação XV Tabela 3: a e b para obtenção da PTSFd a b 0,7050 0,7105 Tabela 4: Fator de ajuste do efeito de zonas ultrapassagem proibida (fnp) para a ATS em segmentos bidirecionais Tabela 5: Fator de ajuste do efeito combinado da distribuição direcional do tráfego e da porcentagem de zonas de ultrapassagem proibida na PTSF em segmentos bidirecionais Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 201 Tabela 6: Fator de ajuste de zonas de ultrapassagem proibida para determinar ATS e PTSF em segmentos direcionais ATSd PTSFd 202 Transporte em Transformação XV ATSd PTSFd 3.2. Rampas específicas são acima de 0,4 km e que possuam aclives maiores ou iguais a 3%, com ou sem faixas adicionais (de subida e de ultrapassagem). A determinação de , da taxa seções 3.1.1 a 3.1.3, exceto os fatores de ajuste usados, como mostrado nas Tabelas Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 203 7 a 9 para locais sem faixas adicionais. No caso da Tabela 7, para estimação de F , os fatores de ajuste G são os mesmos fornecidos pelo HCM2000. Isso se deve ao fato de que os valores de fornecidos pelo TWOPAS durante a adaptação mostraram-se inconsistentes. Ao contrário do que era esperado, os valores de decresceram à medida que a declividade e o comprimento da rampa aumentaram. Tabela 7: Fator de ajuste para as rampas (fG) para o cálculo de ATSd e PTSFd L ATSd PTSFd 204 Transporte em Transformação XV Sabe-se que o efeito da presença de caminhões na corrente de tráfego varia minhões. Entretanto, durante a elaboração do Capítulo 20 do HCM2000, não foi T . Para este trabalho, foi proposto uma total de tráfego, 20%, 30% e 40%, porcentagens compatíveis com os observados em rodovias brasileiras. Os valores encontrados para T podem ser visualizados na Tabela 8. Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 205 Tabela 8: Equivalente veicular para caminhões e ônibus (ET) no cálculo de ATSd e PTSFd ATSd PTSFd 206 Transporte em Transformação XV Tabela 9: Fator de ajuste de zonas de ultrapassagem proibida para determinar ATS e PTSF ATSd PTSFd Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 207 3.3. Segmentos direcionais com faixas adicionais Inicialmente, deve-se calcular as medidas de desempenho e , conforme a seção 3.1. Devem ser determinados na análise de segmentos com faixas adicionais, em quilômetros: o comprimento total do trecho analisado (L ), o tamanho do trecho antes do início da faixa de ultrapassagem (Lu), o comprimento do trecho após os efeitos da faixa de ultrapassagem terem cessado (L ), a faixa adicional propriamente dita (L ) e o trecho após o término da faixa de ultrapassagem, dentro do comprimento efetivo da faixa de ultrapassagem (L ). Para segmentos com faixas adicionais em subidas, os parâmetros Lu, L e L são iguais a zero e L e L possuem o mesmo nais ( e ) de acordo com as Equações 9 e 10. O fator de ajuste para o efeito das faixas adicionais ( ) pode ser obtido por meio das Tabelas 10 e 11. (9) (10) Tabela 10: fpl ATSpl PTSFpl ATSpl PTSFpl 208 Transporte em Transformação XV Tabela 11: fpl ATSpl PTSFpl ATSpl L PTSFpl Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 209 4. Estimação do Nível de Serviço com a Adaptação Proposta Para avaliar a acurácia da metodologia proposta, foram comparados os níveis de serviço observados em campo com a adaptação desenvolvida e com o HCM2000 ., 2007) para trechos sem faixas adicionais. Nesse caso, foi realizada uma análise bidirecional com cada hora observada sendo considerada uma corrente de tráfego distinta. A medida de desempenho foi obtida diretamente da corrente de tráfego, o que é impossível para , estimada usando o simulador TWOPAS recali) foi calculada usando a Equação 1 e a Equação 20-1 do HCM2000. Os resultados dos níveis de serviço, mostrados na Tabela 12, indicam que a adaptação proposta tende Tabela 12: Nível de serviço Amostra Nível de serviço Amostra 1 B B B B B B C C B B C C B B B B B B 1 B B B C C C C C C C C C B B B B B B 1 B B B B B B B B C C C C C C C C B B B B B B B B 1 B B B B B C C B C C C C C C C C B B B B B B B B 1 B B B B B B B C B B B B C C C C B B B B B B B B 1 B B B B B B B C A A A A A A A B B B B B B B C C 1 B B B B B B B B B C C C C C C C B B B B B B B B 210 Transporte em Transformação XV 5. Recomendações A adaptação apresentada neste trabalho, provenientes de duas teses de doutorado (Egami, 2006; Mon-Ma, 2008) faz parte de uma linha de pesquisa que tem sido desenvolvida com o intuito de obter um manual de capacidade viária para o Brasil. Os resultados provenientes de um outro trabalho (Utimura ., 2007) indicam que, ao se optar por uma adaptação do método do HCM2000, as estimativas dos índice de acertos acima de 80%. Essa avaliação foi feita para rodovias sem faixas adicionais. Recomenda-se desenvolver um estudo semelhante para segmentos de rodovias com faixas adicionais. Para projetos futuros, recomenda-se obter uma adaptação que, , não tenha que seguir a mesma estrutura do HCM2000. Além disso, há necessidade de se obter conjuntos de dados mais representativos de toda a gama de condições operacionais, e não apenas para tráfego baixo. Com isso, poderão ser realizados estudos mais detalhados sobre: ( ) as relações fundamentais do tráfego; ( ) os diversos fatores de ajuste; e, ( qualidade de serviço em rodovias no Brasil. Agradecimentos sob a forma de bolsas de doutorado e de produtividade em pesquisa. Referências Bibliográficas Brilon, W.; Weiser, F. (2006) Two-lane rural highways: the German experience. , TRB, National Research Council, Washington, D.C., p. 38-47. Egami, C. Y. (2006) . 240p. Tese (Doutorado) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos. Adaptação do HCM2000 para Análise da Capacidade e do Nível de Serviço em Rodovias de Pista Simples no Brasil 211 Egami, C. Y.; Mon-Ma, M. L.; Setti, J. R.; Rilett, L. R. (2006) Automatic calibra. p. 510-515. Chicago, Illinois. Harwood, D. W.; May, A. D.; Anderson, I. B.; Leiman, L.; Archilla, A. R. (1999) . Final Report, NCHRP Project 3-55 (3). MRI, Kansas City, Mo. Mon-Ma, M. L. (2008) . 162p. Tese (Doutorado) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Carlos. TRB (2000) . Transportation Research Board. Washington D.C. acurácia de estimativas do nível de serviço em rodovias de pista simples no estado de São Paulo. XXI ANPET Congresso de Pesquisa e Ensino em Transportes (CD-ROM), , Rio de Janeiro, RJ, p. 1-8. Van As, C. (2003) . Project Summary. South African National Roads Agency Limited. Prof. Dr. José Reynaldo Setti ([email protected]) MSc. José Elievam Bessa Júnior ([email protected] ou [email protected]) Dra. Cíntia Yumiko Egami ([email protected]) Dra. Márcia Lika Mon-Ma ([email protected]) Universidade de São Paulo, Escola de Engenharia de São Carlos, Depto. de Engenharia de Transportes Av. Trabalhador São-carlense, 400 – São Carlos, SP, 13566-590