VARIÁVEIS ANTECEDENTES AO COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL AFETIVO E SUA RELAÇÃO COM O DESEMPENHO: uma abordagem estratégica baseada no modelo Resource-Based View – RBV Autoria: João Chang Junior, Suzana Bierrenbach de Souza Santos, Alcides Ferreira da Silva, Mateus Silva Chang, Antonio Adias Nogueira Resumo Centrado na gestão estratégica de pessoas e no modelo RBV, o trabalho visa contribuir para o desenvolvimento de empresas brasileiras, em termos de competitividade, por meio da comprovação de que o aprimoramento das suas condições internas está intrinsecamente ligado à questão do comprometimento organizacional afetivo, assumindo a hipótese que pessoas com alto comprometimento afetivo geram vantagens competitivas dificilmente imitáveis, em empresas de setores de atividades mais dinâmicos. Para tanto, utilizaram-se, na análise, informações relativas às divisões de atividades da Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE e um indicador financeiro – o Retorno sobre o Capital. Realizou-se uma pesquisa direta com 502 pessoas de 43 organizações dos setores de fabricação de produtos químicos, de intermediações financeiras, e de atividades de informática e serviços relacionados, localizadas na Região Metropolitana de São Paulo. Utilizou-se os programas SPSS 11.0 e SPAD 3.6 para o processamento de dados. Nos resultados obtidos, verificou-se que o comprometimento afetivo está associado às políticas estratégicas de RH, percebidas pelos colaboradores como favoráveis ao seu desenvolvimento, notadamente, nos empregados do setor de Atividades de Informática, com o melhor indicador financeiro. Por outro lado, o baixo comprometimento afetivo está associado ao setor das Intermediações Financeiras, onde as raras políticas de RH não são percebidas como favoráveis ao desenvolvimento das pessoas. Introdução Ao discutir os novos paradigmas para uma estratégia competitiva, considerada transformadora e baseada no forte comprometimento afetivo dos colaboradores, Albuquerque (1999) apoiando-se em Pfeffer (1995), sustenta que as empresas dependem muito mais da forma como administram sua força de trabalho, que da tecnologia, patentes ou posição estratégica. A partir disso, apresenta um modelo integrativo entre as relações de trabalho e as políticas de recursos humanos em um ambiente de competitividade, considerando, tanto as inovações, como a produtividade, focadas em resultados. Neste sentido, Burlamaqui e Proença (2003) defendem que as inovações, tanto as radicais, quanto as incrementais, apontadas por Schumpeter, são elos de ligação com o desenvolvimento em estratégia empresarial, principalmente, sob a ótica das capacitações organizacionais da Resource-Based View RBV. Outrossim, os autores propõem o desafio da adoção de um modelo de gestão que desenvolva capacitações evolucionárias na firma de forma refinada, a partir de um aprendizado estratégico mais ágil e que seja capaz de levantar problemas e resolver questões de ordem política, social, cultural, econômica e afetiva dos trabalhadores. Desta maneira, percebe-se uma preocupação com o clima organizacional, que envolve situações psico-sociais e culturais, e atua reflexivamente no processo de “destruição criativa” e “reconstrução de situações”, como barreira ou facilitador do processo (AMABILE et al, 1996; AMABILE, 1998). Também pela ótica das inovações, o documento divulgado recentemente pela web, “Inovação no Brasil: idéias e propostas”, preparado pelo PGT/USP (2005) para o Fórum de Líderes Sociais do Brasil aborda, entre outros temas, a gestão estratégica do conhecimento como fator crítico para a geração das inovações tecnológicas e para a conquista de competitividade, destacando suas principais alavancas: a geração do conhecimento e os estímulos à aprendizagem e à criatividade. Ressalta ainda, o “trabalho criativo” como um dos sete grupos 1 classificados como atividade inovativa, segundo Manual de Oslo (OCDE, 2002) citado no referido documento. Vale dizer que o “trabalho criativo”, além de ser associado ao conhecimento e ao moderno sentido do trabalho, como decorrência da introdução da tecnologia, está associado aos fatores motivacionais do homem no ambiente de trabalho para a geração de inovações (AMAR, 2004). Sobre o “trabalho criativo”, Harman e Hormann (1997) constataram entre os empregados no comércio e na indústria “o desejo de terem um ambiente de trabalho que promova a iniciativa criativa e uma participação significativa”, e que “um dos fatores mais importantes para atrair e conservar os melhores profissionais será a qualidade do ambiente de trabalho”. Isto reforça o exposto por Albuquerque (2002) sobre a valorização da força de trabalho pelas empresas, enquanto estratégia de competitividade sustentável baseada no comprometimento afetivo dos seus colaboradores. Conforme Plsek (1997) e Swan et al (1999), a ênfase na inovação como impulsionadora da eficiência, da qualidade, e de um desempenho financeiro superior da empresa no longo prazo, apresenta alinhamento estratégico à gestão de pessoas pelo comprometimento. Este trabalho, conseqüentemente, tem por objetivo demonstrar que existem correspondências (associações) entre os valores das variáveis referentes ao comprometimento afetivo do colaborador, aos estímulos à criatividade e conhecimento, ao clima organizacional, aos fatores motivacionais, à participação das pessoas nas decisões do trabalho, ao ambiente de trabalho, ao desempenho do setor da empresa na qual o colaborador faz parte (variável representada pela Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE) e ao Retorno sobre o Capital (variável definida pela publicação Balanço Anual, da Gazeta Mercantil, em setembro de 2006, como sendo: Lucro/Prejuízo Líquido - dividido por - Patrimônio Líquido – em %). Além disso, mostrar que as organizações com colaboradores mais comprometidos e que fazem parte de setores da economia com melhores desempenhos financeiros possuem culturas corporativas bem distintas das que apresentam colaboradores menos comprometidos e que fazem parte de setores da economia com desempenhos financeiros piores. Desta forma, pretende-se comprovar a hipótese que pessoas com alto comprometimento afetivo geram vantagens competitivas dificilmente imitáveis e integram as empresas com desempenhos financeiros superiores, dentro dos setores de atividades considerados mais dinâmicos, promovendo a convergência entre as teorias de estratégia Resource-Based View - RBV e a Strategic Human Resource Management – SHRM. Referencial teórico O embasamento teórico compreende a estratégia em gestão de pessoas - SHRM e a ResourceBased View Theory – RBV, expostos aqui em quatro partes. A primeira envolvendo o alinhamento estratégico da gestão de pessoas e a Resource-Based View Theory – RBV. A seguinte versando sobre as dimensões do comprometimento organizacional. A terceira que aborda os componentes do “Espaço para a Criatividade e Inovação”. E, por fim, a última que apresenta o modelo para a aferição do comprometimento afetivo utilizado na pesquisa. Alinhamento estratégico da gestão de pessoas e a Resource-Based View Theory – RBV A função RH sofreu ao longo dos anos certa discriminação em relação aos outros departamentos da empresa. Com o surgimento da idéia de se alinhar os recursos humanos à estratégia, a administração de recursos humanos ganhou novo impulso para demonstrar seu valor na organização e passou a exercer o papel de gerenciar os recursos humanos apoiandose na estratégia empresarial (Strategic Human Resource Management – SHRM). O surgimento da SHRM aconteceu em meados dos anos 1980 com Devanna, Fombrun e Tichy (1984). 2 Com base, principalmente, no trabalho de Penrose (1959) sobre “heterogeneidade de recursos” (as firmas passam a ser vistas como conjuntos de recursos produtivos próprios e diferentes em relação às demais empresas), Wernerfelt (1984) elaborou a Teoria da Visão Baseada em Recursos da Firma (Resource-Based View Theory – RBV). Apoiando-se em Selznick (1957) e em Ricardo (1817), Barney (1991) adiciona a premissa da “imobilidade de recursos” ao modelo, assumindo que alguns recursos podem apresentar oferta inelástica ou serem muito caros para se copiar. Wright et al. (2001) citam Wright e McMahan (1992), Wright, McMahan e McWilliams (1994) e Cappelli e Singh (1992) como precursores do alinhamento entre SHRM e RBV, com vistas a demonstrar que os recursos humanos podem se constituir em um dos fatores de vantagem competitiva sustentável de uma organização. O trabalho de Boxall (1998) menciona o alinhamento de interesses, ou seja, o alinhamento entre os interesses das pessoas e os da empresa, como fator gerador de uma força de trabalho talentosa e comprometida, obtendo vantagem competitiva por meio do capital humano. Dijk e Ende (2002) realizaram estudo em empresas que apresentavam uma baixa preocupação com inovação em sua estratégia, mas, que de forma inconsistente, utilizaram-se fartamente da criatividade de seus colaboradores. Segundo os autores, com esta “incompetente concepção”, estas empresas acionam as inovações, pois é pela criatividade de seus colaboradores que se formam as novas idéias que geram inovações, quer sejam em produtos, serviços, processos ou inovações organizacionais. Os autores apresentam o Creativity Transformation Model como catalisador de todo e qualquer tipo de inovação (criatividade em idéias praticáveis), baseandose na literatura que trata dos estímulos à criatividade, citam, entre outros autores, GUILFORD, 1950; AMABILE, 1983, 1996; EKVALL, 1971; SIMONTON, 1976; DELBECQ e MILLS, 1995; ROBINSON e STERN, 1997). Assim, o modelo proposto Dijk e Ende (2002) parte das características pessoais e psico-sociais dos indivíduos, destacando, de forma especial, o papel da motivação intrínseca neste processo. O modelo tem como bases a cultura e a estrutura organizacional na transferência das idéias dos colaboradores e, após aplicação e testes em várias empresas, os autores concluíram que este modelo lidera no contexto organizacional no qual as pessoas sentem-se motivadas a emitir idéias, sem restrições ao caráter da inovação objetivada. Contrariamente à idéia da “incompetente concepção”, Alter (2001: p. 57) propõe que a “força subjetiva das pessoas” seja a fonte continuada da inovação, pois esta “gera inovações que se assentam e se institucionalizam em formas específicas”, como conhecimentos explicitados na organização. Por fim, em 2002, Barney, percebendo que conceitos como o de heterogeneidade e imobilidade dos recursos são abstratos e de difícil aplicação prática, elabora o modelo VRIO, destacando que recursos raros, valiosos, inimitáveis e insubstituíveis podem se configurar em vantagens competitivas sustentáveis, conectando assim, de forma prática, as teorias de SHRM e RBV. Recentemente, Leede e Looise (2005) realizaram estudo sobre alinhamento estratégico entre inovação e gestão de recursos humanos (Human Resources Management - HRM); para tanto, partiram das definições de inovação de diversos autores, priorizando o foco no relacionamento entre HRM e inovação (produtos/serviços e processos de inovação). Apoiaram-se, basicamente, em Pfeffer (1994, 1998) no que se refere à sua lista de dezesseis práticas (mais tarde condensadas em sete) de “como ganhar vantagem competitiva através das pessoas” e na abordagem AMO de Boxall e Purcell (2003), sobre habilidades, motivação e oportunidades. Assim, Leede e Looise (2005), revisando autores que tratam de aspectos da HRM e inovação (DAMANPOUR, 1991; CLARK, 1993; BROWN e EISENHARDT, 1995; TIDD, BESSANT 3 e PAVITT, 1997; DOUGHERTY, 1996), consideram os seguintes itens como correlacionados: a estrutura organizacional apropriada; o staffing da organização inovativa; as regras-chave para os indivíduos (mais genéricas); o desenvolvimento individual e de carreiras; o efetivo trabalho em equipes e a liderança; a extensa comunicação e a participação; a performance e a mensuração de retornos; e o clima para a criatividade. Segundo esses autores, de posse da estratégia, a organização deve realizar as escolhas específicas sobre quais as práticas de HRM devam ser implementadas nos vários estágios do processo de inovação, de forma a obter resultados que contribuam para a construção de uma organização inovativa, identificando três componentes de resultados de HRM nesse modelo: a criatividade, o comprometimento e as competências dos indivíduos. Os estudos aqui destacados para compor esta seção ressaltam importantes fatores que necessitam ser mais explorados – em uma práxis construtivista - na relação entre gestão de pessoas em ambientes inovativos, tais como: alinhamento estratégico; ambientes de aprendizagem e transferência de conhecimentos; competências dos gestores; comprometimento; clima organizacional; sistemas estruturados de estímulo a idéias, o que, inegavelmente, sustentam a motivação nos colaboradores. As dimensões do comprometimento organizacional Medeiros et al. (2003) realizaram um levantamento sobre as dimensões do comprometimento organizacional, mencionando: as dimensões afetiva, normativa e instrumental de Meyer, Allen e Smith (1993); as dimensões de O’Reilly e Chatman (1986) relacionadas à internalização (internalization) dos valores organizacionais, à identificação (identification) baseada no desejo de afiliação com a organização e na submissão (compliance) baseada em recompensas intrínsecas. Os autores pesquisaram, ainda, sobre as dimensões elaboradas por Kanter (1968) relacionadas ao comprometimento de coesão (cohesion commitment), comprometimento de continuação (continuance commitment) e comprometimento de controle (control commitment). Albuquerque e Chang Jr. (2002) apresentaram um modelo sistêmico sobre as variáveis explicativas do comprometimento afetivo de colaboradores, considerando as características pessoais, as características organizacionais, além das características de como a tarefa foi planejada. O estudo apresentou a variável “espaço à criatividade” como preditora do comprometimento organizacional afetivo em uma das empresas, líder mundial no segmento de fibras óticas, portanto, focada em inovações. Nesta empresa, a variável “espaço à criatividade” surge diretamente associada ao desejo de se manter como membro da organização (uma das dimensões da perspectiva afetiva/atitudinal do comprometimento organizacional, conforme MOWDAY et al, 1982). Segundo os autores, esta prática apresentase como fator importantíssimo à retenção de talentos humanos nas organizações. Cabe observar que o termo “espaço para a criatividade” é definido como o “espaço aberto aos colaboradores de modo que haja receptividade de idéias inovativas, a assunção de risco de erro, do tempo de implementação de idéias e apoio à persistência”. Ressalta-se que o conceito delineado pelos autores permite envolver os demais aspectos relevantes ao estímulo à criatividade e inovação nas organizações numa estratégia competitiva. Componentes do “Espaço para a Criatividade e Inovação” Os temas criatividade e inovação envolvem fatores diversos, complexos e interdependentes, formando um constructo multidimensional. Vários artigos como os de Amabile e Grykiewicz (1989), Ekval (1996), Amabile (1998), Kwasniewska e Necka (2004), enfatizam os seguintes fatores: clima organizacional; comportamento do gestor; práticas gerenciais; cultura organizacional; estrutura organizacional; recursos tecnológicos; missão e estratégia da organização; capacidades; habilidades; e necessidades individuais. 4 Amabile (1998) e Amabile et al. (1999) discutem sobre ambientes organizacionais e seus efeitos na criatividade pessoal, apontando as condições favoráveis no ambiente de trabalho. Para tanto, analisaram os aspectos sócio-ambientais relacionados à influência dos fatores do ambiente de trabalho sobre a motivação intrínseca do indivíduo para um modelo de inovação. Com o objetivo de identificar a presença ou ausência de estímulos e obstáculos à criatividade no ambiente organizacional, desenvolveram o instrumento Work Environment Inventory – WEI, aplicando-o em uma mostra de 1.846 pessoas de todos os níveis organizacionais, em 18 organizações diferentes, no período entre 1987 e 1989. Em sua quarta versão, o WEI apresenta seis escalas de influências estimuladoras à criatividade (trabalho desafiante, liberdade, encorajamento organizacional, recursos suficientes, encorajamento do supervisor e suporte do grupo de trabalho) e duas escalas de influências inibidoras (impedimentos organizacionais e pressão no trabalho). Ainda na perspectiva das estruturas organizacionais, Fiss (2001, apud VASCONCELOS e HEMSLEY, 2003: p. 33) destaca que as barreiras à criatividade podem ser divididas em três grupos: 1) características do indivíduo: hábito; conformismo; insegurança; grau de curiosidade individual e de comunicação; 2) características do grupo, envolvendo o comportamento de pares e chefias: punição às novas idéias, pouca tolerância ao fracasso e chefes autocratas; 3) características da organização: estrutura inadequada, layout inadequado e clima negativo. Quanto ao clima organizacional e ao desenvolvimento da criatividade, Van Gundy (1987, apud RODRIGUES e SILVA, 1998) identificou seis características favoráveis: 1) autonomia grau de liberdade que se dá a uma pessoa para expor suas idéias e tomar iniciativas; 2) sistema de recompensa - percepção de um sistema justo e adequado, baseado na competência e no desempenho das pessoas; 3) suporte à criatividade - percepção das pessoas de que a organização apóia as novas idéias; 4) aceitação das diferenças e interesse pela diversidade entre as pessoas - espaço dado para a divergência de opiniões e propostas; 5) envolvimento pessoal - reconhecimento das habilidades e esforços das pessoas; e 6) apoio da gerência apoio da alta administração da organização na configuração de um clima criativo. Segundo Kwasniewska e Necka (2004), o indivíduo criativo não transforma uma organização em criativa, caso não existam condições ambientais para tal. Essas condições envolvem a manutenção do clima criativo, o modelo de comunicação, a ausência de controle desnecessário e o livre acesso aos recursos. A partir dos resultados de três pesquisas sobre criatividade nas organizações realizadas no Brasil (BRUNO-FARIA, 1996; PAROLIN, 2001; FONSECA, 2001), Albuquerque e Parolin (2004), realizaram estudo comparativo visando a identificação de variáveis comuns, obtendo importantes evidências sobre os componentes da gestão das pessoas que interferem no ambiente de estímulo à criatividade e inovação nas organizações. Para a análise, estes componentes foram classificados em três grupos: a relevância das competências dos gestores, o clima organizacional para obtenção de ambiente criativo e inovador e o comprometimento com resultados. Os autores ainda comprovaram a interdependência existente entre a natureza e intensidade das relações entre chefias e subordinados (clima relacional de confiança recíproca) e o desempenho da empresa. Afirmaram, ainda, que as relações de trabalho com maior transparência geram um ambiente mais cooperativo e produtivo e, por extensão, uma capacidade empresarial de maior competitividade externa. Modelo para a aferição do comprometimento afetivo utilizado na pesquisa A escolha do modelo do comprometimento afetivo adotado no presente estudo baseia-se na proposição de Meyer e Allen (1991) sobre o modelo de três componentes do comprometimento. Resumidamente, o modelo apresentado pelos autores abrange as seguintes 5 dimensões: 1) Comprometimento Afetivo - refere-se à vinculação emocional, ao comprometimento como um apego, um forte envolvimento e afeto pela organização, forte identificação com a organização; os empregados permanecem na empresa porque querem; 2) Comprometimento Instrumental - refere-se à percepção dos custos associados a deixar a organização; empregados trabalham mais por necessidade e escassez de alternativas imediatas de emprego; os empregados permanecem na empresa porque precisam; 3) Comprometimento Normativo - refere-se ao sentimento de obrigação moral em permanecer na organização; os empregados permanecem na empresa porque se sentem obrigados a isso. Foi o trabalho de Mowday et al. (1982) que consolidou a perspectiva afetiva – “atitudinal” – do processo de identificação do indivíduo com os objetivos e valores da empresa e, a partir disso, definiram o construto por intermédio de três aspectos ou dimensões: "Forte crença e aceitação dos valores e objetivos da organização, o forte desejo de manter o vínculo com a organização e a intenção de se esforçar em prol da organização". A própria definição de comprometimento organizacional, segundo esses autores, está associada a valores e crenças tornando relevante o estudo da cultura que permeia o tecido social da organização como um “pano de fundo” para o melhor entendimento do fenômeno. Destaca-se também que as variáveis contempladas no modelo foram extraídas das diversas abordagens ao comprometimento afetivo, estudadas pelos principais autores nesse assunto e validadas no contexto brasileiro por Borges-Andrade (1994), exceto no que se refere às variáveis relacionadas ao “espaço à criatividade”, validadas no contexto nacional por Albuquerque e Chang Jr. (2002). Metodologia A pesquisa é do tipo exploratório-descritiva, baseada em estudo quantitativo, por intermédio da aplicação de um instrumento estruturado e não disfarçado constituído de 66 questões fechadas; a maioria dessas questões possui escalas do tipo Likert de sete pontos (exceto as sete questões de caracterização dos respondentes). Inicialmente o estudo seria aplicado a um número significativo de empresas de cada setor da economia, mas devido às dificuldades impostas pela maioria das organizações consultadas para a realização do estudo, mudou-se a unidade da pesquisa de empresa para indivíduo. De modo que a pesquisa foi respondida por 502 respondentes válidos representando colaboradores de 43 organizações localizadas principalmente na Região Metropolitana de São Paulo. Para trabalhar com certa homogeneidade em termos de recursos humanos e gestão dessas pessoas foram escolhidos os respondentes que pertenciam a empresas de setores mais dinâmicos da economia, dentre eles, o setor de fabricação de produtos químicos, incluindo empresas farmacêuticas e de cosméticos (Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE – 24, correspondendo à variável Divisão – DIV = 1, no presente estudo), o setor das intermediações financeiras (Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE – 65, correspondendo à variável Divisão – DIV = 2, no presente estudo) e o setor de atividades de informática e serviços relacionados (Classificação Nacional de Atividade Econômica – CNAE – 72, correspondendo à variável Divisão – DIV = 3, no presente estudo). A amostra de 502 respondentes foi determinada de modo que houvesse um número equilibrado de respondentes válidos por empresa (aproximadamente 12 pessoas por firma) e que fossem respondentes pertencentes a empresas dos setores acima mencionados, que tivessem publicado o Retorno sobre o Capital referente ao exercício de 2005, ano em que a pesquisa foi realizada (variável definida pela publicação Balanço Anual, da Gazeta Mercantil, 6 em setembro de 2006, como sendo: Lucro ou Prejuízo Líquido dividido pelo Patrimônio Líquido – em %). Portanto, essa amostragem está caracterizada como não-probabilística e como uma amostra por conveniência. Por esses motivos os resultados não poderão ser generalizados. Como o instrumento de pesquisa foi disponibilizado num sítio da Internet, o levantamento e coleta dos dados dos respondentes foram realizados por meio de uma planilha de dados e processados com o auxílio de programas como o Excel e o SPSS 11.0 (para a obtenção dos parâmetros da estatística descritiva dos dados) e o SPAD 3.6 – Système Portable pour l´Analyse des Données (para a realização do procedimento não-paramétrico da análise de correspondência multivariada). Como forma de operacionalizar modelos teóricos mais complexos, Hair et al. (2005) apresentam diversas técnicas multivariadas. Entre elas estão a regressão multivariada, a análise fatorial, a análise multivariada de variância, a análise discriminante, a análise conjunta, a análise de correlação canônica, a análise de conglomerado e o escalonamento multidimensional. O principal objetivo dessas técnicas de análise de dados é proporcionar ao pesquisador um aprofundamento naquilo que ele está estudando. Porém, constatou-se que a forma das distribuições dos valores das diversas variáveis contidas no presente estudo não é a de uma distribuição normal, o que inviabilizaria o uso de técnicas paramétricas. Siegel (1975) comenta no prefácio de sua obra que “as técnicas nãoparamétricas de provas de hipóteses são particularmente adaptáveis aos dados das ciências do comportamento. [...]. Tais provas chamam-se a miúdo distribuição livre, e um de seus méritos é que, ao aplicá-las, não é necessário fazer suposições sobre a distribuição da população da qual tenham sido extraídos os dados para análise, por exemplo, se a distribuição da população é normal etc. Alternativamente, tais provas são também identificadas como provas de ordenação, e essa designação sugere outra vantagem das mesmas: as técnicas nãoparamétricas podem ser aplicadas a dados que não sejam exatos do ponto de vista numérico, mas que se disponham simplesmente em postos, ou números de ordem”. Então, empregou-se a análise de correspondência multivariada como técnica não-paramétrica. Segundo Hair et al. (2005), a análise de correspondência é uma técnica de interdependência recentemente desenvolvida que facilita tanto a redução dimensional da classificação de objetos (produtos, pessoas etc.) em um conjunto de atributos como o mapeamento perceptual de objetos relativo a esses atributos. Os pesquisadores são constantemente defrontados com a necessidade de “quantificar os dados qualitativos” encontrados em variáveis nominais. A análise de correspondência difere das outras técnicas de interdependências em sua habilidade para acomodar tanto dados não-paramétricos como relações não-lineares. Apresentação e discussão dos resultados As informações relevantes sobre as características demográficas dos respondentes considerados como válidos para a composição da amostra de 502 pessoas são mostradas nas tabelas 1 e 2. Pode-se observar que apesar de a amostra ser por conveniência, houve um equilíbrio entre os respondentes femininos e masculinos (47 % e 53 %, respectivamente). A maioria do público que compõe a amostra (62 %) está na faixa dos 26 a 45 anos e chama a atenção o nível de escolaridade, onde 69 % possuem o grau universitário completo (dentre esses 23 % com pós-graduação). A classe de pessoas que trabalham na mesma organização por um período compreendido entre 2 e 5 anos representa 45 % do total de respondentes. 57,5% do total da amostra recebem salários que estão na faixa de R$ 1.800,00 a R$ 7.200,00. Houve também um número significativo de colaboradores de nível hierárquico mais alto 7 (diretor ou gerente – 22 %) frente aos de nível mais baixo (administrativo – 24 % e operacional – 13 %). É importante ressaltar que nas primeiras colunas dos quadros de 1 a 3 aparecem as iniciais das variáveis utilizadas no instrumento de pesquisa seguido do respectivo valor da escala; e, nas segundas colunas dos mesmos quadros aparecem as descrições das variáveis. A maioria das escalas, exceto aquelas das variáveis demográficas, são escalas do tipo Likert de 7 pontos (sendo: 1 – discordo plenamente; 2 – discordo muito; 3 – discordo levemente; 4 – nem concordo, nem discordo; 5 – concordo levemente; 6 – concordo muito; 7 – concordo plenamente) e foram transformadas, para maior poder de discriminação na análise de correspondência multivariada, em escalas de 3 pontos (sendo: 1 – discordo; 2 – nem concordo, nem discordo; 3 – concordo). E que o Retorno sobre o Capital (variável contínua) foi transformada em variável discreta para ser considerada como variável nominal ativa no programa estatístico SPAD 3.6. Essa variável possui 3 valores (sendo: 1 – abaixo do valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas, informado pela revista Balanço Anual da Gazeta Mercantil de setembro de 2006; 2- valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas, idem; 3 – acima do valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas, idem). Tabela 1 – Caracterização da amostra de respondentes Sexo M – 57 % F – 43 % Melhores Empresas Sim – 46% Não – 54% Idade Estado Civil Grau de Escolaridade Menos de 20 anos – 2 % Entre 20 e 25 anos – 25 % Entre 26 e 35 anos – 39 % Entre 36 e 45 anos – 23 % Acima de 45 anos – 11 % Solteiro – 47 % Casado – 47 % Outros – 6 % Segundo grau ou menos – 2 % Universitário incompleto – 29 % Universitário completo – 46 % Pós-graduação – 23 % Fonte: pesquisa realizada pelos autores. Tabela 2 – Caracterização da amostra de respondentes – continuação Tempo de Trabalho na Empresa Menos de 2 anos – 28 % Entre 2 e 5 anos – 42 % Entre 6 e 10 anos – 14 % Entre 11 e 20 anos – 11 % Acima de 20 anos – 5 % Salário Bruto Até R$ 540,00 – 1 % De R$ 540,00 a R$ 900,00 – 7 % De R$ 900,00 a R$ 1.800,00 – 20,5 % De R$ 1.800,00 a R$ 3.600,00 – 26 % De R$ 3.600,00 a R$ 7.200,00 – 31,5 % Acima de R$ 7.200,00 – 14 % Cargo Diretor ou Gerente – 22 % Supervisor – 8 % Técnico – 33 % Administrativo – 24 % Operacional – 13 % Fonte: pesquisa realizada pelos autores. Era esperado que, com a mudança da unidade pesquisada de empresa para colaborador, houvesse maior dispersão nos resultados, motivada pela mistura de respondentes que têm suas realidades empregatícias diferenciadas em função do setor da economia a que pertencem, do porte de suas empresas, da tecnologia por elas empregada etc. Também por esse motivo, a técnica de exploração de dados empregada foi a análise de correspondência multivariada. Por meio do programa SPAD 3.6 obteve-se a saída mostrada na figura 1 onde é sugerida a divisão da amostra em 3 classes diferentes. Essa classificação é realizada com base em determinados valores das escalas intervalares que algumas das variáveis da pesquisa assumem e que conferem certa semelhança entre indivíduos próximos, discriminando-os e juntando-os num cluster ou classe. Obteve-se, assim, o resultado apresentado nos quadros de 1, 2 e 3. 8 Figura 1 - Saída Gráfica do Módulo de Análise de Correspondência Multivariada do SPAD 3.6 Fonte: pesquisa realizada pelos autores. Quadro 1 – Variáveis e modalidades definidoras da Classe 1/3 - 105 respondentes (21 %) SCP-1 - Satisfação com o crescimento pessoal e profissional. SMA-1 - Estou satisfeito(a) com o sentimento de mérito que obtenho ao concluir as minhas tarefas. DCP-1 - A empresa me oferece treinamento e oportunidade de desenvolvimento para o meu crescimento profissional. LCC-1 - Existe um sentimento de lealdade entre colegas e chefia. LFS-1 - Esse lugar é fisicamente saudável para se trabalhar. PPM-1 - As promoções são dadas para quem merece. SJR-1 - Estou satisfeito com a justa remuneração que recebo. SRJ-1 - Estou satisfeito com o grau de respeito e justiça que recebo da minha chefia. SPR-1 - Estou satisfeito com as pessoas com quem me relaciono no trabalho. PTE-1 - As pessoas no meu grupo trabalham bem em equipe. SQC-1 - Estou satisfeito(a) com a qualidade do suporte técnico e administrativo que recebo da minha chefia imediata, durante a realização da minha tarefa, quando necessário. RIC-1 - A organização é receptiva às idéias criadoras. VSO-1 - Julgo que meus valores são similares aos da organização. DIV-2 - Setor das Intermediações Financeiras. RC-2 - Valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas pesquisadas. Fonte: Elaboração dos autores a partir de relatório do SPAD. 9 Quadro 2 - Variáveis e modalidades definidoras da Classe 2/3 - 160 respondentes (32 %) DIV-3 - Setor das Atividades de Informática e Serviços Relacionados. OAN-1 - Tenho oportunidade de aprender coisas novas. RC-3 - Acima do valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas pesquisadas. MEL-2 - A empresa não foi citada entre as 150 melhores para se trabalhar entre os períodos de 2005 e 2006. LPA-1 - Eu tenho liberdade para exercitar pensamentos e ações diferentes durante a realização das minhas tarefas. AUT-1 - Em geral, os chefes aqui dão muita autonomia às pessoas. CAR-3 - Cargo técnico. PVT-1 - As pessoas aqui têm vontade de vir para o trabalho. MUO-1 - Desejo sair da organização. IDM-2 - Os chefes me mantêm informado(a) sobre assuntos importantes em relação ao desempenho do meu trabalho e sobre mudanças na corporação. IDO-3 - Interesso-me pelo destino dessa organização. LOT-3 - Sinto muita lealdade para com a organização onde trabalho. SNM-1 - Mesmo em questões pequenas, nós temos de buscar alguém de mais alto nível para a decisão final. SPR-3 - Estou satisfeito com as pessoas com quem me relaciono no trabalho. ESC-3 - Escolaridade: curso universitário completo. TTR-2 - Trabalho nessa empresa há um período que varia entre 2 e 5 anos. LFS-2 - Esse lugar é fisicamente saudável para se trabalhar. SEX-1 - Sexo masculino. SCP-3 - Satisfação com o crescimento pessoal e profissional. TRI-3 - O meu emprego exige que eu trabalhe muito intensamente. DCP-3 - A empresa me oferece treinamento ou oportunidade de desenvolvimento para o meu crescimento profissional. SET-3 - Estou satisfeito com a estabilidade que possuo na empresa. Fonte: Elaboração dos autores a partir de relatório do SPAD. Quadro 6 - Variáveis e modalidades definidoras da Classe 3/3 - 237 respondentes (47 %) LPA-3 - Eu tenho liberdade para exercitar pensamentos e ações diferentes durante a realização das minhas tarefas. OAN-3 - Tenho oportunidade de aprender coisas novas. MEL-1 - A empresa foi citada entre as 150 melhores para se trabalhar entre os períodos de 2005 e 2006. PVT-3 - As pessoas aqui têm vontade de vir para o trabalho. AUT-3 - Em geral, os chefes aqui dão muita autonomia às pessoas. IDM-3 - Os chefes me mantêm informado(a) sobre assuntos importantes em relação ao desempenho do meu trabalho e sobre mudanças na corporação. TVD-3 - A minha tarefa é variada e desafiante. ECA-3 - A organização aceita um erro decorrente de uma idéia criativa como forma de aprendizado. RC-1 - Abaixo do valor médio do Retorno sobre o Capital das 43 empresas pesquisadas. DIV-1 - Setor de Fabricação de Produtos Químicos. 10 SMA-3 - Estou satisfeito(a) com o sentimento de mérito que obtenho ao concluir as minhas tarefas. ICE-3 - A empresa onde trabalho incentiva a continuidade de um estudo onde a aplicação de uma idéia criativa levou-me inicialmente ao erro. SEX-2 - Sexo feminino. Fonte: Elaboração dos autores a partir de relatório do SPAD. Considerações finais Apesar das limitações impostas pelo método adotado, os resultados alcançados revelam significativas comprovações de aspectos presentes na literatura acadêmica, mais que ainda careciam de validação empírica, notadamente, no contexto das organizações brasileiras. Como apresentado na seção Referencial Teórico, diversos autores tratam a gestão de pessoas, a estratégia organizacional e a inovação, considerando-as como correlacionadas, a partir das seguintes variáveis: estrutura organizacional apropriada, o staffing da organização inovativa, desenvolvimento individual e de carreiras, efetivo trabalho em equipes e liderança, extensa comunicação e participação, performance e retornos mensurados, e clima para a criatividade. Pode-se perceber que os resultados obtidos a partir do processamento de dados realizado pelo programa de análise de correspondência multivariada em três classes, confirmam a separação proposta por esses autores em função do contexto de cada realidade empresarial. Por exemplo, a primeira classe agrega os 21 % dos respondentes que se situam no valor 1 das escalas das variáveis, ou seja: 1. Que não estão satisfeitos com o crescimento pessoal e profissional, com o sentimento de mérito recebido quando concluem suas tarefas, com a justa remuneração recebida, com o grau de respeito e justiça que recebem da chefia, com as pessoas com quem convivem no trabalho, com a qualidade do suporte técnico e administrativo recebido pela chefia (variáveis relativas ao clima organizacional); 2. Que afirmam não receber treinamentos e oportunidades para crescimento profissional, não existir lealdade entre colegas e chefia, o ambiente físico não ser saudável para se trabalhar, as pessoas não trabalharem bem em equipe, as promoções não serem dadas para quem as merece; 3. Que apontam a organização como avessa às idéias criadoras; 4. Que julgam que seus valores não são similares aos da organização (portanto, não estão comprometidos afetivamente com suas empresas). Essa primeira classe é representada pelo setor das Intermediações Financeiras, cujo indicador financeiro Retorno sobre o Capital está numa faixa intermediária entre as outras 2 classes. As empresas que participam dessa classe são: American Express, Banco Abn Amro Real S. A., Banco Bradesco, Banco Cacique, Banco do Brasil S. A., Banco HSBC S. A., Banco Itaú S. A., Banco J. Safra S. A., Banco Nossa Caixa S. A., Banco Rabobank Internacional Brasil S. A., Banco Sudameris do Brasil S. A., Unibanco S. A., Bank Boston, Bic Banco S. A,. BV Financeira, Caixa Econômica Federal, Credicard Banco S. A., Grupo Santander Banespa, ING Bank N. V., Porto Seguro Serviços e Tecnologia, Redecard S. A. A segunda classe é composta por 32% dos respondentes, que apresentam as seguintes características: 1. São técnicos, do sexo masculino, possuem nível escolar superior completo, trabalham nas suas empresas num período compreendido entre 2 e 5 anos; 2. As empresas que aparecem nesta classe não fazem parte das citadas pelas revistas Exame e Você S. A. como as 150 melhores empresas para você trabalhar e pela revista Época como as 100 melhores empresas para trabalhar, nos anos de 2005 e 2006; 3. Os respondentes dizem se interessar pelo destino da organização e sentirem lealdade para com ela, mas declaram desejar sair dela (portanto, não estão muito comprometidos com suas empresas); 4. As pessoas estão satisfeitas com: o crescimento pessoal e profissional, com as pessoas com quem se relacionam e com a estabilidade no emprego; 5. As pessoas alegam que suas empresas lhes oferecem treinamentos 11 e oportunidades para crescimento; 6. Dizem estar sobrecarregadas de trabalhos; 7. Por outro lado, afirmam que: as pessoas da sua empresa não têm vontade de ir trabalhar, os chefes não dão muita autonomia, não tem liberdade para ousar quando da realização de tarefas e não têm oportunidade de aprender coisas novas. A segunda classe é representada pelo setor das Atividades de Informática e Serviços Relacionados, cujo indicador financeiro Retorno sobre o Capital está numa faixa superior ao das outras 2 classes. As empresas que participam dessa classe são: Atos Automação S. A., Globo.com, LG Informática, Micronal S.A., Microsiga S. A., MAS Infor, Nortel Networks do Brasil S. A., Orbital Processadora de Informações, Prodesp. E, por fim, a terceira classe, constituída por 47 % dos respondentes: 1. São em sua maioria do sexo feminino; 2. Trabalham em empresas citadas pelas revistas Exame e Você S. A. como as 150 melhores empresas para você trabalhar e pela revista Época como as 100 melhores empresas para trabalhar, nos anos de 2005 e 2006; 3. Estão satisfeitos com o sentimento de mérito recebido pela conclusão de um trabalho; 4. Têm oportunidades de aprender coisas novas, gostam de ir trabalhar, têm autonomia delegada pelo chefe, suas tarefas são variadas e desafiantes, e são bem informados sobre assuntos importantes referentes ao trabalho e à organização; 5. Têm liberdade para exercitar pensamentos e ações durante a realização de suas tarefas, a organização aceita um erro decorrente de uma idéia criativa e incentiva a continuidade do estudo sobre essa idéia. A terceira classe é representada pelo setor das Indústrias Químicas, cujo indicador financeiro Retorno sobre o Capital está numa faixa inferior ao das outras 2 classes. As empresas que participam dessa classe são: Avon Cosméticos, Bayer do Brasil S. A., Braskem Petroquímica Brasileira, Bristol Myers Sqüibb do Brasil S. A., Contém 1 g S. A., Natura, Oxiteno, Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S. A., S & H Tecnologia e Soluções Ambientais Ltda, Schering-Plough Farmacêutica e União Química Farmacêutica Nacional S. A. Quanto aos resultados obtidos pelo uso da análise de correspondência múltipla, destaca-se ainda, que os respondentes foram separados em 3 classes onde: 1. A primeira representa o pessoal totalmente desmotivado e descompromissado e suas empresas não têm o melhor desempenho financeiro em relação às demais (setor das instituições financeiras); 2. A segunda representas as pessoas mais comprometidas, porém com algumas restrições quanto à autonomia e espaço à criação, mas cujas empresas possuem o melhor resultado financeiro; 3. A terceira representa as pessoas que possuem um clima organizacional bom, porém que não estão nem comprometidas, nem descomprometidas e suas empresas apresentam o pior desempenho financeiro. Portanto, fica comprovada a hipótese de que pessoas com alto comprometimento afetivo geram vantagens competitivas dificilmente imitáveis, em empresas de setores de atividades mais dinâmicos. Fica, desse modo e dentro das limitações impostas pela metodologia empregada, comprovada a hipótese de que o mapa de valores das variáveis que configuram o comprometimento organizacional afetivo está associado aos diversos contextos – internos ou externos à firma – aos quais estão submetidos os colaboradores, garantindo-lhe vantagem competitiva; no caso comprovada por meio de um indicador financeiro. Futuros estudos deverão aprofundar mais essa discussão para elucidar melhor a questão da estratégia baseada no comprometimento afetivo das pessoas, bem como verificar se o modo de avaliação desse comprometimento não deva sofrer uma transformação, no sentido da melhor adequação das escalas importadas do modelo americano à cultura nacional, uma vez que há a ocorrência predominante de resultados nos valores extremos e centrais das escalas. Já que foi comprovada a existência de associações entre variáveis antecedentes e conseqüentes do comprometimento organizacional afetivo, bem como, com variáveis de contexto, também seria interessante se medir o peso desses impactos de modo simultâneo. 12 Referências Bibliográficas ALBUQUERQUE, L. G. Estratégias de recursos humanos e competitividade. In VIEIRA, Marcelo M. F.; OLIVEIRA, Lúcia M. B. (Org.). Administração contemporânea: perspectivas estratégicas. São Paulo: Atlas, 1999. ____________________. A gestão estratégica de pessoas. In FLEURY, M. T. L (Org.). As pessoas na organização. São Paulo: Editora Gente, 2002. ALBUQUERQUE, L. G.; CHANG JR., J. Comprometimento Organizacional: uma abordagem holística e simultânea dos determinantes envolvidos no processo. RAM - Revista de Administração Mackenzie. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, ano 3, nº 2, 2002, p. 13-38. ALBUQUERQUE, L. G.; PAROLIN, S. R. H. 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