PENSANDO JUIZ DE FORA E CAMPOS DOS GOYTACAZES À LUZ DO DEBATE SOBRE CIDADE MEDIA Clarice Cassab Doutora em Geografia, professora adjunta da Universidade Federal de Juiz de Fora, [email protected] Juliana Thimóteo Nazareno Mendes Doutoranda em Geografia pela UFF, Mestre em Serviço Social, professora assistente da Universidade Federal Fluminense/ Pólo Campos dos Goytacazes, [email protected] Resumo: Este artigo tem como objetivo refletir sobre alguns elementos e características que conformariam as cidades de Campos do Goytacazes e Juiz de Fora à dimensão de cidades médias. Parte-se do entendimento de que o principal atributo para a definição de cidade média é sua função de intermediação numa rede complexa e imbricada de circuitos que se dão em múltiplas escalas. Os dados apresentados permitem perceber que as cidades estudadas possuem uma centralidade nas redes que conectam os espaços locais e os regionais, bem como os regionais e nacionais. Além de apontarem para uma intermediação nos circuitos nacional e global. Palavras-chave: Cidades médias; intermediação; rede urbana INTRODUÇÃO: Nos últimos anos as cidades médias têm alcançado certa centralidade nas redes urbanas, em especial nas redes regionais. O Censo Demográfico de 2010 revelou que 84,4% da população brasileira encontra-se em área urbana. Em 2000 esse percentual era de 81,25%. O dado confirma a permanência do processo de urbanização do país que, no entanto, não se realiza de forma homogênea e equilibrada no espaço. Ao contrário, o que se vivencia são situações de grande diversidade tais como a interiorização do fenômeno urbano; a acelerada urbanização das áreas de fronteira econômica; a periferização dos centros urbanos; a formação e consolidação de aglomerações urbanas de caráter metropolitano e não-metropolitano e o crescimento das cidades médias. Sendo assim, este artigo tem como objetivo realizar uma reflexão sobre as cidades de Juiz de Fora/MG e Campos dos Goytacazes/RJ a partir da apresentação de um quadro referencial, construído com base nas discussões conceituais e nos dados objetivos sobre as cidades, que permitem compreende-las como cidades médias. É importante ressaltar que este debate está sendo construído pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa Geografia, Espaço e Ação – NuGea, através da pesquisa Juventudes e cidades: espacialidades dos jovens em cidades médias1. O que hora apresentamos é um esforço inicial no sentido de pensar essas cidades à luz da noção de cidade média. O Debate sobre cidade média no Brasil: breve apresentação No Brasil o interesse nos estudos sobre cidades médias remonta a década de 1970, em grande medida, associado às políticas de ordenamento territorial, empreendidas pelo Estado e que tinham como finalidade, reduzir a intensidade do fluxo migratório em direção às metrópoles. Assim o debate sobre cidades médias estava umbilicalmente associado ao planejamento, o que culminava numa análise centrada nas características que abarcavam o tamanho populacional, a hierarquia urbana, a extensão física e o tamanho econômico. A abertura política e o abandono das políticas de planejamento, formuladas e aplicadas durante o regime militar, fizeram com que, ao longo da década de 1980, o tema das cidades médias fosse perdendo relevância. Durante quase uma década pouco se produziu acerca da organização e dinâmica destas cidades. Os estudos somente foram retomados na década de 1990 impulsionados pelos impactos espaciais das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Pesquisadores e planejadores perguntavam qual seria o papel e a importância da cidade média numa rede que passava a se organizar sob uma nova dinâmica, centrada naquilo que Milton Santos chamou de período técnico-científico-informacional, cujos efeitos foram sentidos na estrutura do emprego urbano e na dinâmica migratória. As recentes mudanças no padrão de produção e consumo teriam impulsionado a desconcentração de atividades em direção às cidades médias, alterando seu papel e importância para a rede urbana nacional, o que teria contribuído para que assumissem o caráter de elo estratégico entre o espaço urbano nacional e o espaço regional mais amplo (SPOSITO, 2006). É sob a luz dessa nova realidade que autores, como Spósito (2006), Santos e Silveira (2001), 1 Esta pesquisa conta com financiamento do CNPq Soares (1999), dentre outros, empreenderam um grande esforço no sentido de repensarem e redefinirem a noção de cidade média. Em muitos casos, a partir da realidade de cidades médias do interior paulista e do Triângulo Mineiro, o que esses autores buscaram foi a determinação de alguns aspectos que permitissem definir uma cidade como sendo média. Assim, para Spósito, por exemplo; [...] pode-se caracterizar as cidades médias, afirmando que a classificação delas, pelo enfoque funcional, sempre esteve associada à definição de seus papéis regionais e ao potencial de comunicação e articulação proporcionado por suas situações geográficas, tendo o consumo um papel mais importante que a produção na estruturação dos fluxos que definem o papel intermediário dessas cidades. (SPÓSITO, 2001, p. 635). Também para Santos e Silveira (2001, p.283), a cidade média pode ser pensada como aquela que comanda “o essencial dos aspectos técnicos da produção regional, deixando o essencial dos aspectos políticos para aglomerações maiores, no país ou no estrangeiro (...)”. Para ambos os autores uma cidade média se caracteriza por possuir relações e trocas permanentes com o seu entorno que, por sua vez, podem ser centros de maior importância econômica e/ou cidades menores. Daí o seu caráter de intermediação. É ele que obriga às pesquisas, que tem a cidade média como objeto, a operarem em diferentes escalas de análise buscando iluminar as formas de inserção e participação da cidade média nas dinâmicas que se dão em escalas regional, nacional e global. Isso porque, conforme Arroyo (2006) salienta, sendo a cidade uma totalidade encaixada nas totalidades, mundo e formação socioespacial, ela só pode ser compreendida nesse movimento imbricado que, por sua vez, determina o dinamismo e a espessura da cidade. É pela capacidade de criar fluidez que a cidade média torna-se local de confluência dos variados circuitos produtivos, dando a ela uma vida de relações intensas. É pela intensidade desses fluxos e interações que seria possível medir o grau de inserção da cidade na vida urbana regional, nacional e mesmo global (ARROYO, 2006). À este debate, Stenfeliu e Torné (2004) propõem a substituição do termo média, pelo adjetivo intermedio/intermediário, ou seja, cidades intermediárias. A utilização deste termo representa uma ampliação do conceito de cidade média, pois introduziria três novas dimensões: a) que o papel e importância da cidade não dependem tanto da sua densidade demográfica, mas da capacidade de criar relações e tecer uma rede com as demais cidades e sistemas; b) a valorização e introdução de aspectos mais dinâmicos e estratégicos que reforçam a cidaderegião e c) um conceito de sistema urbano mais aberto, dinâmico e interativo. Sendo assim, conforme Sposito (2001, p.627-628), ”não é possível reconhecer o papel intermediário que uma cidade média desempenha sem avaliar as relações que ela estabelece com cidades de porte maior e menor, entre si e com os espaços rurais com os quais mantém uma vida de relações”. Considerando estes aspectos, abordaremos neste trabalho alguns dos elementos e características que conformariam as cidades de Campos do Goytacazes e Juiz de Fora à dimensão de cidades médias. Para tanto, está organizado de forma a apresentar separadamente, alguns elementos que salientam seu caráter de intermediação e centralidade. Espera-se que ao término o trabalho auxilie nas discussões que tem a cidade média como foco investigativo. A cidade de Juiz de Fora O município de Juiz de Fora integra a microrregião de Juiz de Fora e a mesorregião da Zona da Mata. Historicamente tem se consolidado como centro regional da Zona da Mata mineira, caracterizando-se pela oferta de serviços, presença razoável de indústrias além da polarização de uma região agrícola formada por alguns municípios de sua região. O desenvolvimento da cidade, contudo, foi marcado por períodos de ganho e perda de dinamismo na estrutura urbano e regional. Sinteticamente, pode-se dizer que no período que se estende do final do século XIX até aproximadamente a década de 1930, Juiz de Fora foi o centro dinâmico da economia da Zona da Mata Mineira. Essa dinâmica se sustentou pela herança do setor agroexportador cafeeiro pois o papel de centro armazenador da produção da região impulsionou à expansão das vias de transporte e, posteriormente, se constituiu a base do desenvolvimento da indústria na cidade. A partir dos anos de 1930 a cidade passou por um longo período de crise que alterou sua forma de inserção e influência nas redes nacional e regional afetando todo o desenvolvimento intrarregional. Se até cerca da década de 1930 do último século, JF era conhecida por sua pujança industrial, principalmente no desenvolvimento de sua indústria têxtil, a partir de então a cidade tem vivido um significativo processo de decadência econômica. Neste momento, a cidade passa a mudar seu perfil econômico direcionando-se para a oferta de serviços especializados. Especialmente a partir de 2005, em função da promulgação da Lei 4.856/06, conhecida como Lei Rosinha que determinou a redução para 2% do ICMS, por até 25 anos, para as indústrias que se instalassem em determinados municípios do estado do Rio de Janeiro. A partir dessa data iniciou-se um importante esvaziamento da indústria na cidade marcado não apenas pela transferência de indústrias já instaladas para outras cidades do estado fluminense – especialmente Três Rios2– como também pela perda de novos investimentos. Segundo estudo realizado pela UFJF, em 2009, 12 empreendimentos deixaram de ser instalados na região da Zona da Mata, o que representou uma perda de cerca de R$ 67 milhões em investimentos para a região. Juiz de Fora viu cerca de dez indústrias e aproximadamente R$ 51 milhões em investimentos serem alocados em Três Rios. Em 2009 a guerra fiscal se intensifica quando o governo de Minas, pressionado pelos municípios da Zona da Mata, publica o decreto 45.218/09 que previa incentivos à novas indústrias que se alojassem na região. Acompanhando a política estadual, o governo municipal iniciou uma série de medidas que visavam estimular a atração de empresas como parte integrante de um plano de desenvolvimento econômico para a cidade. Baseado no pressuposto de que Juiz de Fora oferece uma rica rede de infraestrutura logística e científico tecnológica, além de ampla disponibilidade de capital humano, o plano se assenta em três frentes estratégicas: logística, inovação, capacitação. Quanto à infraestrutura logística da cidade, o plano reforça a existência de uma rede de rodovias e de ferrovias, bem como a recente inauguração do aeroporto regional da Zona da Mata que contribuiriam para dar à cidade uma posição geográfica estratégica na região, já que ela se localiza próxima aos grandes centros do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte3. Além disso, a disponibilidade de gás natural, energia elétrica e água para consumo industrial, bem como facilidades no sistema de telecomunicações com a instalação da fibra ótica são outras vantagens destacadas. Quanto à inovação e capacitação o destaque é dado pela existência de diversas instituições de ensino e pesquisa 2 Três Rios ser localiza no centro-sul fluminense, também as margens da BR-040 e a apenas 60 quilômetros de distância de Juiz de Fora. 3 Situada à margem da BR 040, fica a 180 km do Rio de Janeiro, a 260 km de Belo Horizonte e a 486 km de São Paulo. localizadas na cidade – tais como UFJF, Embrapa, Instituto Cândido Tostes, Sebrae, IFET. Ainda como importante fator atrativo de investimentos, a cidade conta com a criação do Parque Científico e Tecnológico de Juiz de Fora e Região (PCTJFR), investimento feito pela UFJF tendo como setores econômicos prioritários para atração o eletroeletrônico, o de tecnologia da informação, o de fármacos, o de biotecnologia e o de tecnologia do leite, que receberão incentivos federais (Lei de incentivo à Inovação), estaduais e municipais (incentivos fiscais como redução do ISS). Além do Parque Científico, a cidade sedia desde 2007 o Pólo de Excelência de Leite e Derivados, que contou com um investimento de R$ 414,7 mil do Governo do Estado. O pólo tem como meta articular a integração entre as instituições de ensino e pesquisa, empresas privadas e o Governo do Estado, por meio das entidades ligadas ao setor leiteiro. Ressaltando sua posição estratégica a oferta de moderna infraestrutura e mão de obra qualificada e oferecendo redução do ICMS, a cidade busca retomar sua função industrial estimulando a vinda de empreendimentos modernos e competitivos e a ampliação das atividades já existentes. Não há dados recentes do PIB. Os resultados da política de atração de investimentos deverão ser mais bem avaliados no futuro. Contudo, o que se percebe é que apesar da perda de seu dinamismo econômico, Juiz de Fora manteve seu caráter de centralidade em sua rede regional. Esse forte poder de atração exercido pela cidade pode ser melhor evidenciado quando coloca-se em relevo alguns aspectos de sua dinâmica populacional e econômica. Conforme o último censo de 2010, Juiz de Fora tem uma população de 516.247 habitantes concentrados em sua maioria – 98% - na zona urbana do município. Em relação aos demais municípios da sua microrregião, Juiz de Fora responde por 70,8% da população total e por 23,7% da população da mesorregião Zona da Mata. A população de Juiz de Fora cresceu 13,3% nos últimos 10 anos, correspondendo ao 4º município do estado de Minas Gerais em número de habitantes, tendo um crescimento maior do que o registrado em todo o estado (9,52%). Dados do censo de 2000 afirmavam que dos 456.795 habitantes, 36% não eram naturais de Juiz de Fora. Ainda conforme o IBGE, o saldo migratório na microrregião de Juiz de Fora entre 1995 e 2000 foi de 14.085 pessoas, volume 66% maior que o registrado no período anterior, que foi de 8.455, entre 1986 e 19914. A renda mensal media per capita, em agosto de 2010, conforme informações do Censo, era de R$1.063,03, enquanto a da Zona da Mata foi de R$710,11. Segundo dados da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico (SPDE), da Prefeitura de Juiz de Fora, das 12 mesorregiões de Minas, o PIB da Zona da Mata foi o que menos cresceu (14,4%) entre 1999 e 2006, ficando atrás do Vale do Jequitinhonha, a mais pobre de Minas, que teve um crescimento de 18,8%. Durante este mesmo período, a participação do PIB real de Juiz de Fora na economia do Brasil teve uma retração de 21,9%. Em 1999, representava 0,30% do PIB Nacional. Em 2006, caiu para 0,24%. Por conseqüência, a participação do PIB do município na economia de Minas Gerais também teve uma retração de 17% e, na Zona da Mata, 10,6%. No período seguinte (2007-2008) o município continuou seu movimento de queda, obtendo um crescimento do PIB (9,82%) abaixo do índice da Zona da Mata (15,63%) e do Estado (17,09%). Apenas em 2009 é que Juiz de Fora passa a apresentar um relativo crescimento de seu PIB,conforme dados do IBGE, ocupando o quinto lugar entre os municípios de Minas no que toca ao PIB do estado.É notório, portanto, o movimento de declínio da economia da cidade. Contudo, quando comparado com a realidade dos demais municípios que compõem a mesorregião da Zona da Mata e a microrregião de Juiz de Fora, é possível notar o peso econômico que o município permanece tendo na região. A tabela 1 mostra a evolução da participação de Juiz de Fora no PIB da Zona da Mata. Tabela 1 - Evolução da participação de Juiz de Fora no PIB da Zona da Mata ANO Zona da Mata Juiz de Fora 7.913.782 1999 2.923.701 8.612.279 3.191.371 2000 9.285.331 2001 3.470.023 10.708.883 2002 3.913.204 12.042.118 2003 4.220.100 14.087.542 2004 4.892.175 15.396.719 2005 5.223.341 17.002.017 2006 5.685.892 18.531.710 2007 6.501.698 21.412.449 2008 7.129.727 22.296.699 2009 7.423.128 Fonte: Fundação João Pinheiro 4 % Participação 36,9 37 37,3 36,5 35 34,7 33 33,4 35 33,2 33,2 Ainda não foi divulgada essa informação para o último censo. Atualmente, Juiz de Fora contribui com 2,6% da economia de Minas Gerais e 33% da economia da mesorregião. Em termo comparativo os municípios de Ubá e Muriaé, importantes cidades regionais, contribuíram respectivamente com 5% e 4,3% da economia na Zona da Mata. Esse padrão se mantém quando comparado com os outros municípios da microrregião. Assim, embora seja possível notar uma diminuição da participação de JF no PIB de sua microrregião – passando de 81,7% em 2000 para 77,3% em 2009, há uma significativa diferença do PIB do município quando confrontado com os demais. Santos Dumont é o segundo de maior PIB, cujo valor, em 2009, era de R$ 563.264,00, muito abaixo de JF, então com um PIB de 7.423.138,00. No que toca a mesorregião, segundo dados da Fundação João Pinheiro, em 2008 a indústria do município foi responsável por 40,2% da dinâmica desse setor. Dados da FIEMG de 2011 corroboram a importância de Juiz de Fora como pólo regional. Assim, em 2011, a Zona da Mata arrecadou R$ 650,013 milhões, o equivalente a 5,53% do ICMS industrial de Minas. Deste total Juiz de Fora contribuiu com uma arrecadação de 59,34% do ICMS. Ainda segundo a FIEMG, o município participou como 35,52% do valor agregado industrial da Zona da Mata, seguido por Ubá com 6,77%. Em relação às exportações, a presença de JF no total da Zona da Mata foi de 24,9%, sendo o principal produto exportado automóveis. Apesar do importante aporte da indústria também é o setor de serviços o de maior peso na economia da mesorregião, sendo responsável por 61% do seu PIB. Dados da Fundação João Pinheiro apontam para o aumento do setor terciário no PIB municipal. Assim, se em 2000 era de 1.814.578 R$ mil em 2009 esse valor passou para 4.636.715 R$ mil. O que correspondeu a 61,3% do PIB do município enquanto as indústrias representavam 24%. Segundo a RAIS, em dezembro de 2010, o setor de serviços era responsável por 45,5% dos empregos da cidade, seguido pelo comércio (23,4%) e a indústria de transformação (15,56%). Vale ainda destacar o peso da administração pública. Esse segmento movimenta 13,02% da economia de Juiz de Fora e 25,64% no âmbito regional. Em 2010, conforme dados da RAIS eram 9.849 o número total de empregos formais na administração pública. O que é compreensível quando se toma em consideração que a cidade concentra atividades públicas importantes, tais como: universidade federal, tribunais de justiça, polícia federal, receita federal etc, que contribuem para a atração de um número considerável de população flutuante para a cidade. Os dados mostram a consolidação da função terciária da cidade e o relativo declínio de sua importância industrial. Juiz de Fora se configura como o principal pólo regional da Zona da Mata sendo o 5º município do estado no setor de serviços e o 10º no setor industrial. O que tem se observado nos últimos anos é o crescimento de oferta de serviços de ponta e comércio convertendo a função urbana da cidade rumo a um setor terciário especializado, destacando-se serviços privados como modernos procedimentos médicos e variadas atividades educacionais. São estes os que mais têm crescido na cidade ampliando a oferta que visa atender a demanda não apenas da microrregião como também de muitos municípios da Zona da Mata e mesmo da região Serrana do estado do Rio de Janeiro. Estimativas da subsecretaria de mobilidade urbana da Settra afirmavam que a população flutuante na cidade seria em torno de 50 mil a 55 mil pessoas por dia. Seriam cerca de 1,5 milhão de pessoas por mês que se direcionam a cidade, parte dela em busca dos serviços especializados ofertados. Do conjunto da microrregião, Juiz de Fora responde por 54,1% do total de estabelecimentos de ensino e por 52,2% dos de saúde. Há, portanto, uma forte concentração de oferta desses tipos de serviço, o que indica a importância que a cidade tem no atendimento das demandas da região. Tal perfil tem desenhado certa orientação do papel polarizador da cidade. Tomando apenas a evolução do número de estabelecimentos de saúde é possível perceber o crescimento de sua oferta nos últimos anos que, passou de um total de 800 em 2007 para 1020 em 2011. Número significativo, especialmente quando comparada a segunda maior concentração de estabelecimentos de saúde da microrregião, no município de Santos Dumont, que era de 29 em 2007, passando para 47 em 2011, segundo informações do DATASUS. Dos estabelecimentos de saúde existentes na microrregião 345 são públicos. Só no município de Juiz de Fora estão localizados 165 deles, ou seja, 47,8% do total, tendo uma média de 5,7 leitos hospitalares por habitantes. De acordo com informações da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora, apenas na Programação Pactuada Integrada da Saúde, 162 municípios da micro e mesorregião dependem de Juiz de Fora para procedimentos que vão desde os mais simples até os mais complexos. Apenas o município de Rio Novo, destina até 60 pacientes por dia para a cidade. Além do setor de saúde também os serviços educacionais contribuem para esta significativa capacidade de atração da cidade. Pesquisa da UFJF (2011) recentemente divulgada aponta para o fato de que mais de 60% dos alunos não serem da cidade. Já entre as faculdades privadas os alunos não residentes superam 20% do total de matriculados. De acordo com o último censo existem 28.774 empresas na microrregião, destas 21.834 encontram-se em Juiz de Fora, o que corresponde a 75% do total de empresas. Assim, enquanto na microrregião o total de trabalhadores ocupados é de 190.558 pessoas na cidade de Juiz de Fora esse número é de 151.120. Ou seja, 80% do total do pessoal ocupado na microrregião encontra-se em Juiz de Fora. Também é significativa a importância de Juiz de Fora quanto à participação na dinâmica do emprego na micro e mesorregião, como é possível notar pela tabela que se segue. Tabela 2 - Admissão por setor e divisão geográfica – 2011 ADMISSÃO Serviço Comércio Indústria Total Juiz de Fora 2240 1888 538 4.666 Microrregião 2735 2128 775 5.638 Mesorregião 4009 4169 2117 10.295 Fonte: RAIS – MTE A cidade responde por 81,9% e 55,8% das admissões ocorridas no setor de serviços da microrregião e mesorregião respectivamente. Já no comércio a participação de Juiz de Fora no total de admissões na micro e mesorregião é de 88,7% e 45,2%, enquanto na indústria esses percentuais são de 69,4% e 25,4%. Do total de admissões dos três setores especificados, a participação do município é de 82,7% em relação a microrregião e de 45,3% para a Zona da Mata. Por fim, destaca-se que os impostos em Juiz de Fora somam 14,09% da PIB e 43,46% dos impostos na Zona da Mata, ou seja, quase metade da arrecadação que toda mesorregião advém de Juiz de Fora. A cidade de Campos dos Goytacazes É notório que o Brasil, a partir dos anos de 1990 vem experimentado o movimento de desmetropolização (Santos e Silveira, 2001) em paralelo ao fenômeno da metropolização, que pôde ser percebido no estado do Rio de Janeiro. Este, de acordo com Désirée e Silva (2006) passou, nos últimos vinte anos, por processos de privatizações e implantações de novas estruturas industriais que repercutiram na descentralização geográfica da produção em direção a algumas regiões do interior. Esse movimento dinamizou e complexificou as cidades médias, na medida em que as inseriu numa dinâmica territorial a partir da relação que passaram a estabelecer, em menor ou maior intensidade, com o movimento regional e nacional. Fato que pode ser verificado ao analisarmos as privatizações, os investimentos do governo federal e a entrada de capitais transnacionais na economia fluminense. Como exemplos, têm-se os investimentos da Petrobrás na exploração de petróleo no norte fluminense; o Laboratório Nacional de Computação Científica em Petrópolis, contribuindo para que a região serrana se tornasse uma área produtora de software; as multinacionais atuando no setor automotivo na região do Médio Paraíba e, mais recentemente, a entrada de capitais transnacionais no desenvolvimento do Complexo Industrial e Portuário do Açu e do Complexo Industrial e Logístico de Barra do Furado, na região norte fluminense. Campos dos Goytacazes, localizado na mesorregião do Norte Fluminense, foi um dos municípios beneficiados pelo movimento de desmetropolização. Campos é o maior município do estado do Rio de Janeiro, com uma área total de 4.040,6 quilômetros quadrados, correspondentes a 41,4% da área da região Norte Fluminense. É importante destacar que a mesorregião Norte Fluminense abriga não só o maior município do estado, bem como o terceiro, que é Macaé, com 1.215,6 quilômetros quadrados. Campos possui uma rede favorável à circulação de bens e produtos gerados pelo novo modelo de organização do capital. O principal acesso ao município e pelas BR 101 e BR 356, que cortam a cidade, ligando o município aos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Outro é pela RJ 216, na direção do litoral. Todas estas rodovias têm papel importante como base de apoio para a exploração petrolífera e para os futuros investimentos advindos do Complexo Portuário e Industrial do Porto do Açu. Neste sentido, a malha viária de Campos é um grande facilitador para as relações entre os municípios. Este fato é importante porque, de acordo com Arroyo (2006), quando se controla certas estradas, não se pode deixar de exercer influência nos lugares em que estas estradas ligam. Elas facilitam o intercâmbio de mercadorias, que é fundamental para a circulação do excedente do capital. Contudo, a circulação não se refere apenas aos produtos, mas também às ideias e palavras, que acabam por atribuir uma importância política às cidades médias, como fonte difusora de informações. Atualmente Campos possui 5 (cinco) jornais impressos, sendo dois de maior circulação local e regional; 11 emissoras de rádio e 14 empresas de TV, RTV, TVD, de acordo com o relatório do Ministério das Comunicações (2010). Das emissoras de TV, 3 têm caráter regional. Situado na mesorregião do Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes se destaca, pelos seus índices populacionais. Apesar do número populacional não ser determinante na constituição da cidade média, ele se torna uma referência importante, pois tende a expressar as mudanças regionais orientadas pelo processo de reestruturação produtiva gerado pelo capital. A microrregião de Campos dos Goytacazes possui 587.975 habitantes. Nesse universo, Campos abarca 78,86% da população, o que representa mais do que o dobro da soma de todos os habitantes dos demais municípios da região. Já com relação à mesorregião, que possui 849.515 habitantes, a população de Campos representa 54,58%, sendo a maior população da mesorregião Norte Fluminense. Macaé, que é outra cidade importante, possui 24.33% da população da mesorregião. Os demais municípios concentram 21, 09%. De acordo com as informações do IBGE, nos últimos vinte anos, Campos passou por um processo de crescimento populacional significativo. Este aumento coincide com o processo de desmetropolização vivenciado pelo estado do Rio de Janeiro, já comentado anteriormente. Na relação com a mesorregião, Macaé apresentou maior crescimento populacional, com 54,08%, seguido de Carapebus, que obteve 54,02% e Quissamã, com 48,04%. Há que se observar, que este crescimento pode ser associado aos grandes investimentos realizados pela Petrobrás, no que se refere à extração do petróleo na Bacia de Campos. Já na microrregião de Campos dos Goytacazes, o município de São João da Barra foi a que mais cresceu 18,37% e Campos, 13,89%. Destaca-se que nos últimos 5 anos, Campos cresceu 8,8%. Fato que pode estar relacionado ao início da construção do complexo Portuário do Açu, em São João da Barra, que data de 2007. Ainda de acordo com o Censo 2010, 90,3% da população de Campos residem na área urbana. No que se refere ao tamanho econômico e ao grau de urbanização, é possível perceber que Campos possui um conjunto de atividades produtivas e de prestação de serviços que exercem o poder de atração locacional que caracterizam as cidades médias. De acordo com os estudos realizados pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro - TCE (2010), em 2008 Campos dos Goytacazes constou no ranking dos 20 municípios mais ricos do país, bem como entre os 100 municípios com maior participação no setor industrial. Neste sentido, era responsável por 65,2% do PIB regional, contribuindo para que a mesorregião do norte fluminense participasse com 9% do PIB Estadual. No ranking da participação estadual, Campos contribuía com 5,5%, ocupando o 3º lugar no estado. Neste mesmo período, Campos se destacava também no setor agropecuário, em que alcançou o posto de primeiro lugar no estado, na participação do PIB específico, com 10,3%, em função da lavoura temporária de cana-de-açucar e a criação de bovinos e outros animais. No setor industrial, o município ocupou o segundo lugar no estado, com 17,9% na participação do PIB, através das atividades extrativas mineral e do petróleo (TCE, 2010) É importante destacar, que entre os anos de 2008 e 2009, houve uma queda do PIB dos municípios de Campos, Quissamã e Macaé em função de suas economias estarem centradas no setor extrativista, reflexo da crise econômica internacional que conduziu à queda do preço do barril de petróleo. Esta situação demonstra a importância dos royalties na composição da receita corrente dos municípios. Campos, Quissamã e Macaé concentram a maior parte destes recursos. Em 2009, 62,9% da receita de Campos era proveniente dos royalties o que reforça a relevância destes recursos na economia local e regional. Com isso, é possível afirmar que a renda do município está condicionada, em grande parte, ao movimento do mercado internacional do petróleo, bem como às decisões político-econômicas realizadas nos grandes centros nacional e internacionais. No que se refere à evolução do mercado de trabalho em Campos, a tabela elaborada pelo TCE demonstra que em 2009 houve um número maior de desligamentos em detrimento das admissões. Também é possível perceber a influência do município na microrregião, pois sua participação tanto nas admissões como nos desligamentos, representa um percentual de mais de 80%, impactando significativamente a dinâmica econômica regional. Tabela 3 – Evolução do mercado de trabalho, conforme o CAGED – Jan a dez 2009 Movimentação Município Qt Admissões Desligamentos Variação Absoluta Variação Relativa Número de empregos formais (1º Jan. 2010) Total de Estabelecimentos (1º jan. 2010) Microrregião % Qt 25.978 26.161 - 183 - 0,2% 66,383 87,88 86,51 85,74 29.562 30.239 - 677 - 0,66 77.420 11.988 81,92 14.634 Fonte: Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro – 2011 Ainda em termos de atividade econômica as microempresas representam 90,9% do total dos estabelecimentos formais existentes em Campos dos Goytacazes, sendo sua maior concentração verificada no setor de Comércio – 49,13%, seguido pelo de serviços – 33,14% e da indústria – 12,52%. As pequenas empresas representam 7.9% e se concentram também no setor de comércio – 44,20% e de serviços – 36,66%. Por fim, as médias e grandes empresas representam, 0,7% dos estabelecimentos formais. Comparado com as cidades da mesorregião, Campos apresenta o maior número de micro e pequenas empresas, se constituindo como o centro de atividades produtivas e de prestação de serviços. Macaé fica em segunda lugar, com aproximadamente 8 mil estabelecimentos. Ainda em termos de atividade econômica, é importante destacar o crescimento, na mesorregião, do setor de serviços ligados ao ensino superior e às instituições privadas de saúde, em que Campos dos Goytacazes se configura como referência regional. Tabela 4 - Estabelecimentos de educação e saúde por municípios da microrregiões do Norte Fluminense MUNICÍPIOS Infantil Microrregião de Campos Campos Cardoso Moreira 76 18 EDUCAÇÃO Fund. Méd . 316 18 59 1 Superior 9 - Estadual 1 - SAÚDE Municipal 87 11 Privado 88 2 dos São Fidelis 28 42 7 - - 18 6 Goytacazes 66 65 9 - - 26 2 31 40 6 - - 9 3 Microrregião S. F. do Itabapoana S. J. da Barra Macaé 81 98 25 3 - 58 114 de Macaé Carapebus 11 16 1 - - 9 1 Conceição de Macabu Quissamã 19 24 5 - - 12 4 10 15 2 - - 19 3 Fonte: Censo, 2010 - IBGE Na área da educação, Campos se tornou referência, em especial na superior e técnica, por oferecer maior número de vagas e formações diferenciadas. Cabe destacar, que dos 9 estabelecimentos de ensino superior do município, 3 são públicos: Universidade Federal Fluminense - UFF, Instituto Federal Fluminense – IFF e Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. No âmbito dos serviços de saúde, Campos possui 37,2% dos estabelecimentos de saúde existentes na mesorregião e 69,56% da sua região. De acordo com Cintia Ferrini, Superintendente do Controle e Avaliação da Secretaria Municipal de Saúde, em 2010, das 36.458 internações, 34.514 foram de média complexidade, sendo que destes, 3,4% dos atendimentos foram destinados às pessoas de São Francisco do Itabapoana e 3,4% de São João da Barra. Das 1.951 internações para procedimentos de alta complexidade, 6,9% representaram assistência a pessoas de Macaé e 4,3% a pacientes de São Francisco do Itabapoana (Portal de noticias da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, 2010). No total de internações, 14% representam internações de pessoas de outros municípios. Em relação aos encaminhamentos de pacientes residentes em Campos, para outros municípios, principalmente para cirurgias, houve uma redução. Em 2008, foram enviados 4,9% e em 2010 apenas 1,7%, devido à ampliação da oferta dos procedimentos no próprio município. Também não se pode deixar de considerar que a região Norte Fluminense está passando por um amplo processo de reestruturação, em função dos grandes investimentos, dos quais se destacam o Complexo Portuário do Açu e o Complexo Logístico e Portuário de Barra do Furado, que irão alterar a dinâmica regional e as relações entre os municípios. Campos está diretamente envolvido neste processo, seja por fazer divisa com São João da Barra, onde estão concentradas as obras do Porto do Açu, seja por sediar parte das construções do Complexo Logístico e Portuário de Farol-Barra do Furado. De acordo com o Relatório da Comissão Especial do Porto do Açu (2012), o porto foi concebido com o objetivo de funcionar como centro de exportação e importação para as diferentes regiões do país e do mundo. Trata-se de complexo porto-industrial, uma espécie de condomínio industrial logístico sem precedentes no país, para o qual está previsto um investimento de longo prazo de 40 bilhões de dólares, possivelmente o maior em infraestrutura portuária da América Latina. (...). O empreendimento deverá gerar 50 mil empregos diretos e indiretos e, por efeito de indução, outros 150 mil serão criados. Tanto o governo federal, quanto o estadual e o municipal apóiam o empreendimento através de incentivos fiscais. (RELATÓRIO, 2012, p. 3) É previsto que a população adicional dos municípios de Campos dos Goytacazes e de São João da Barra chegue, em 2025, a 680 mil habitantes. 400 mil a mais só em Campos dos Goytacazes. O PIB também poderá passar de 250,188 milhões em 2010, para 446,981 milhões em 2025. Em São João da Barra, a previsão é de que o PIB passe de 39,665 milhões em 2010, para 354 milhões em 2025, inserindo o município de maneira diferenciada nas relações regionais, estadual e nacional. Já o Complexo Logístico e Portuário de Farol-Barra do Furado, localizado no distrito de Barra do Furado no município de Quissamã, consiste na construção de um estaleiro para a fabricação de navios de até 150 metros, e no município de Campos, na implantação de uma Base Logístico-Portuária de apoio às atividades offshore, numa área total de 350 mil m². De acordo com Cruz (2011), no geral, o Complexo deve atrair diversos fornecedores de serviços na área da indústria naval e no setor metal-mecânico, gerando um forte incremento nas economias de Quissamã e Campos dos Goytacazes tendo como conseqüência uma demanda por comércio, serviços e moradia na região. Assim é possível perceber que estes investimentos tendem a alterar o quadro regional, redimensionando o papel das cidades no contexto regional e global. Juiz de Fora e Campos dos Goytacazes: centralidade e intermediação No debate atual há o consenso de que apenas o aspecto demográfico (número total de população) não é suficiente para a definição e entendimento das dinâmicas particulares das cidades médias. Para fins dessa pesquisa, ainda inicial, parte-se do entendimento de que a cidade média – ou segundo Stenfeliu e Torné (2004), intermediária – define-se por suas funções de intermediações entre o local e o regional e mesmo entre o nacional e o global. Neste sentido, a noção de cidade média exige a analise em múltiplas escalas correlacionadas. Isso porque os novos arranjos espaciais impostos pelo capital em seu movimento global tem reconfigurado e redefinido muitas das funções destas cidades no período atual. Silveira (2002, p.14) considera que “as cidades médias parecem consagradas a desenvolver uma alta e competitiva especialização funcional” caracterizando-se pela existência de processos de especialização funcional e produtiva que conferem a estas cidades importante papel intermediador. Ainda, segundo Silveira, tais processos podem estar relacionados às novas demandas do campo – como parece apontar os investimentos recentes na constituição Pólo de Excelência de Leite e Derivados em Juiz de Fora -, à implantação de atividades industriais, reflexo do processo de reestruturação e desconcentração industrial – como é o caso da instalação da Mercedes em Juiz de Fora e do Complexo Logístico e Industrial Farol-Barra do Furado em Campos e Quissamã. Soma-se a essas funções a concentração e diversificação das atividades comerciais e de serviços especializados. É o que tem ocorrido com Juiz de Fora e Campos dos Goytacazes com a forte presença de serviços especializados de saúde e educação, e uma ampla e variada rede de comércio que atraem um grande fluxo de consumidores oriundos de diversas cidades do entorno. Para Milton Santos (1988) a existência dessas atividades contribui para que as cidades médias definam suas funções vinculadas à instalação de modernas formas de consumo de serviços ligados a educação, saúde, cultura e lazer. Ainda conforme o autor, essa dinâmica sugeriria a forte presença de uma classe média urbana residente tanto na própria cidade como em outras da sua rede urbana, o que, por sua vez, sinalizaria para a ampliação e complexificação da centralidade dessas cidades. Para o autor, este seria um elemento determinante no alargamento dos papeis das cidades médias. Os dados apresentados apontam em direção à importância e o papel de intermediação de Juiz de Fora e Campos dos Goytacazes em relação aos demais municípios que integram suas micro e mesorregiões, explicitando o valor que essas cidades assumem na relação das escalas nacional-regional. Isso é evidente quando analisadas a participação de ambas nos PIBs, na concentração de empregos ofertados, na relevante presença de população flutuante em busca de serviços especializados etc. Contudo, o caráter de intermediação dessas cidades também está presente nas funções que exercem na mediação entre os espaços nacional e global. É assim que, sob a lógica da competição as chamadas empresas globais possuem a competência de controlar sua atividade de forma simultânea e em vários pontos do mundo. Assim, a capacidade de se deslocarem em escala global permite que durante o processo de produção, possam aproveitar dos benefícios de cada local, tornando possível à locação de suas diferentes etapas de produção nos lugares mais adequados para desenvolvê-las. No âmbito desse processo se destacam aquelas cidades capazes de oferecer uma série de atrativos para as empresas e capitais internacionais. Para tanto, elas investem, basicamente, em quatro fatores de atração: 1) infra-estrutura de comunicação (aeroportos e telecomunicações); 2) infra-estrutura de internacionalização da economia (feiras, exposições internacionais, hotéis, competições esportivas de caráter internacional etc); 3) um terciário de excelência (centros de pesquisas, mão-de-obra qualificada etc) e 4) construção de uma boa imagem. (BORJA, 1996). Mas, como afirma Harvey (1996, p.55), “acima de tudo, a cidade tem que parecer como lugar inovador, excitante, criativo e seguro para viver, visitar, para jogar ou consumir” e ainda acrescentaríamos, para se investir. É assim que, nos últimos anos Juiz de Fora tem buscando ocupar um lugar na rede de fluxos globais. São alguns exemplos disso a reestruturação e ampliação da fábrica da Mercedes para produzir caminhões, a intensificação da produção de metais na AcelorMittal, a inauguração e funcionamento do aeroporto regional, os investimentos no desenvolvimento de um pólo tecnológico e a disputa recente por ser subsede dos jogos olímpicos e da Copa do Mundo. Ações que fazem parte, como visto, do plano de desenvolvimento de Juiz de Fora. A mesma realidade é possível de ser nota em Campos, na medida em que a cidade vem investindo no aprimoramento dos serviços (como os de saúde e educação) e em micro-empresas que darão suporte ao desenvolvimento local e regional, via FUNDECAM – Fundo de Desenvolvimento de Campos, que vem buscando fomentar o desenvolvimento através de programas com linhas de financiamento para investimentos nas áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação e programas de crédito na área de micro-finanças; Sob essa lógica, também se destaca o Complexo Industrial do Superporto do Açu. Previsto para iniciar suas atividades em 2013, o superporto possui área de 90 km² na qual serão instaladas siderúrgicas, um pólo metalmecânico, uma unidade de armazenamento e tratamento de petróleo, estaleiro, indústrias offshore, plantas de pelotização, cimenteiras, termoelétrica e indústrias de tecnologia da informação. Em ambas, as ações se realizam no sentido de promoverem o crescimento das cidades a partir da atração de fluxos do circuito global tornando-as importantes nós na rede nacional-global. Assumir esse novo papel e dimensão significa um esforço de repensar a própria noção de cidade média a partir não apenas de sua posição em relação ao sistema urbano regional-nacional, como também, como nos lembra Costa (2002, p. 117), “pela forma como estabelece relações com as diversas componentes deste sistema”. Considerações Finais Diante do exposto que é possível entender Juiz de Fora e Campos dos Goytacazes a partir da noção de cidade média. Assume-se, portanto, em consonância com Spósito (2006), Santos e Silveira (2001), Soares (1999), dentre outros, que o principal atributo para a definição de cidade média é sua função de intermediação numa rede complexa e imbricada de circuitos que se dão em múltiplas escalas. São claras as centralidades que ambas as cidades estudadas assumem nas redes que conectam os espaços local e os regional, bem como os regional e nacional. Assim como também, pela pesquisa, foi possível evidenciar que Campos e Juiz de Fora, vão procurando definir estratégias e ações que lhes permitam assumir um lugar no circuito nacional-global. É sob essa lógica que acreditamos ser possível entender média/intermediária, uma essas vez cidades que a suas partir da dinâmicas noção se de cidade incorporam às transformações ocorridas com as novas formas de acumulação do capital e que impulsionaram mudanças no papel e relevância das cidades médias na rede urbana. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARROYO, Maria Mônica. 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