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OS PRIMEIROS GRUPOS ESCOLARES EM JUIZ DE FORA
Ana Maria Beraldo Crespo
Dalva Carolina de Menezes Yazbeck
Universidade Federal de Juiz de Fora
RESUMO
A institucionalização dos primeiros grupos escolares em Juiz de Fora se deu no início do século XX, no contexto
da organização da República, quando ocorreram as tomadas de providência no sentido de promover a
racionalização administrativa do Estado brasileiro. Nesse momento, havia duas preocupações básicas: a
consolidação do regime republicano e a necessidade de se transformar a triste realidade da educação no estado,
envolvendo desde a precariedade do espaço físico das escolas até o elevado índice de analfabetismo. A primeira
Reforma Educacional de Minas Gerais, em 1906, formulada no Governo de João Pinheiro, manifestou a
preocupação de dar organicidade ao ensino primário agrupando as escolas isoladas, a partir de então, Nos
chamados “Grupos Escolares”. A escola era considerada um recurso civilizatório, capaz de regenerar a
sociedade e, nesse sentido, o principal alvo deveria ser as crianças pobres. Essa Reforma incorporou as sugestões
de Estevam de Oliveira(Inspetor Técnico da Sétima Circunscrição Literária, abrangendo os municípios de
Cataguases, Leopoldina, Além Paraíba e Palma),que defendia a criação de Grupos Escolares como possibilidade
de reeguer o ensino primário do estado de Minas Gerais da situação de miséria em que se encontrava. Para ele,
não seria apenas a construção de escolas, mas a organização de um trabalho com base em uma compreensão
pedagógica e administrativa. O ponto nevrálgico seria, então, a criação de grupos escolares e a formação de
professores. Estevam de Oliveira, a par dessas concepções, inspirou-se também em Reformas que já haviam
sido realizadas em São Paulo e Rio de Janeiro. A idéia de reunir as escolas em um só prédio tinha por
embasamento a necessidade de se promover a melhoria da qualidade do ensino, uma vez que as Escolas Isoladas
possuíam baixa freqüência dos alunos e deficiência docente em termos de formação. Era marcante a influência e
o exemplo de outras nações “mais cultas” da Europa e os Estados Unidos, além de estados da federação, como
São Paulo. Estevam de Oliveira insistia que o novo modelo proposto seria a solução, pois permitiria a
erradicação do analfabetismo e, assim, contribuiria para a modernização da sociedade e a consolidação da
ordem republicana, através do amor à família, à ordem e à disciplina, o respeito ao professor e aos colegas, o
cumprimento de todos os deveres, dentro e fora da escola. A justificativa para que o município de Juiz de Fora
sediasse os primeiros grupos escolares de Minas Gerais, no ano de 1907, deveu-se ao reconhecimento de sua
dinâmica vida cultural e sua influente representação política no estado. Assim, em uma conjugação das relações
de poder econômico e político entre a esfera municipal e a estadual e, entendendo-se o primeiro como
microcosmo do universo da nação, Juiz de Fora conseguiu a institucionalização de dois grupos escolares os quais
são cosniderados primeiros grupos de Minas Gerais. Esse foi o ponto de partida e a diretriz de uma pesquisa
que, em sua primeira etapa, pretendeu, através de uma perspectiva sócio-histórica, analisar a fonte documental
relativa aos primeiros grupos escolares no início da República, seguindo uma metodologia de abordagem
qualitativa. O objetivo de recuperar os primeiros tempos da educação, na História do Município e a sua inserção
no contexto estadual e nacional, tem por fundamento buscar a compreensão de sua especificidade, perceber a sua
importância no âmbito das particularidades e, sobretudo, resgatar documentos, fatos e imagens que permitem
restaurar a memória que o tempo guardou. Através da análise das fontes da História, significa problematizar a
relação entre a História da Educação Regional e a História da Educação Nacional.
TRABALHO COMPLETO
1. Introdução
O nascimento dos Grupos Escolares, em Juiz de Fora, ocorreu no início do século XX,
momento em que se organizava o Estado brasileiro, com a adoção da forma republicana de
governo e a organização federativa. Nessa nova organização política, Minas Gerais e São
Paulo ocupavam destacada hegemonia decorrente, respectivamente, do grande contingente
eleitoral e da força econômica possibilitada pela produção cafeeira.
Resultante de ações políticas estaduais e nacionais, o município foi pioneiro na
instalação de um lócus de ensino sistematizado, com a normatização de conteúdos
disciplinares e de método pedagógico, com o intuito de se eliminar as escolas isoladas e de se
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obter um maior controle sobre a educação das crianças, futuros cidadãos, construtores da
nação.
A literatura sobre as primeiras instituições de instrução primária e secundária em Juiz
de Fora é bastante escassa. Paulino de Oliveira aponta que no final do século XIX o colégio
do Cônego Roussin, fundado em torno de 1860, pode ser considerado a primeira instituição de
ensino da cidade. Porém, há registro de uma escola, criada antes do estabelecimento do
Município,1a escola do Prof. Sampaio, dirigida pelo Prof. José Anacleto Sampaio, “cidadão
respeitável, tendo sido vereador municipal e ocupada posição de relevo na sociedade”
(Oliveira, 1966:21).
A educação popular também estava presente, através do ensino profissionalizante a
cargo da Escola Agrícola, instituída em 1869, para receber os filhos dos imigrantes alemães.
Trata-se de uma experiência de pequena duração, esgotada pela pouca procura por essa
instrução. Se, por um lado, se percebe, nessa iniciativa, a influência de uma concepção
educacional voltada para o preparo do ofício, comum nas culturas anglo-saxônicas, pode-se
também detectar, no curto período de existência da escola, a prevalência da ideologia ibérica,
de valorização do ensino propedêutico, preparatório para as profissões nas quais a retórica
tem um papel importante.Essa éuma das razões pelas quais as camadas dirigentes ou em
ascensão revelam preferência especial pelas faculdades de Direito (ver Romanelli, 1982;
Cunha, 1980; Yazbeck,2000).
Nos anos subseqüentes, foram criadas na cidade várias instituições de ensino básico e
médio, na sua maioria de iniciativa particular, ressalvando alguns poucas escolas isoladas
pertencentes ao poder público. Não há dúvida quanto ao cuidado com a instrução e o alto
prestígio dessas instituições, ao menos na perspectiva de seus contemporâneos:
A instrucção quer pública quer particular, está sendo fartamente distribuída por
uma série de esplêndidos estabelecimentos. Desde remotos tempos que Juiz de Fora
possue bons institutos de ensino e se esmera na formação da mocidade. (Esteves,
1915:259).
Até 1890, Juiz de Fora reproduz na educação o perfil corrente no Império, durante o
qual predomina, em todo o país, o ensino particular, entre 1860 e 1890, registra-se a sua maior
expansão por intermédio da ação do clero nos seminários ou em escolas confessionais,
consagrando o caráter religioso, literário e retórico do ensino secundário (Azevedo, 1963).
Roque Spencer Maciel de Barros situa nesse período o confronto entre uma tradição católica
conservadora, opondo-se com tenacidade à perspectiva de um Estado laico que afastasse a
educação e a cultura da órbita religiosa, e os intelectuais da ilustração brasileira, identificados
com o ideário liberal ou com o cientificismo (Barros, 1986).
Yazbeck (2000) dá ênfase ao movimento das transformações decorrentes da
industrialização que tornam-se mais evidentes em Juiz de Fora após 18902 quando se
instalam na cidade fábricas de maior porte e aumenta significativamente a população operária.
Industriais, cafeicultores e comerciantes investem em eletrificação, comunicação, transporte e
no sistema bancário, procurando dotar a cidade de uma infra-estrutura adequada ao
desenvolvimento industrial, no qual a educação é vista como um investimento necessário à
expansão da economia.
No cenário nacional, com o advento da República, inaugurou-se uma nova etapa na
história da educação brasileira. A desarticulação do sistema educacional, provocada pela
1
O município de Juiz de Fora foi criado em 1850
Esse momento é caracterizado por Giroletti como o segundo período da industrialização em Juiz de Fora (ver
Giroletti, 1988).
2
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política republicana, em particular a separação entre o Estado e a Igreja, tecia um quadro
favorável para que novas instituições viessem a sugerir outros tipos de escola.
Dentre outras instituições de ensino fundadas nesse período em Juiz de Fora,
destacavam-se duas escolas, representativas da ação das elites locais em favor da nova ordem
competitiva, mediante a atribuição de um novo perfil à educação primária, secundária e
superior: o Granbery, criado em 1890, e a Academia de Comércio, cuja fundação data de
1894.( Yazbeck, 2000)
No início do período republicano, a cidade apresentava um quadro conjuntural que
justificava a atenção do governo do estado de Minas e a preocupação em promover a
organização do ensino elementar através de uma Reforma de Ensino nos moldes que os
estados do Rio de Janeiro e São Paulo vinham promovendo.
Ainda no período monárquico, a cidade, localizada na Zona da Mata Mineira e ligada
ao vale do Rio Paraíba através de um de seus afluentes, o rio Paraibuna, teve um
desenvolvimento ligado à cafeicultura e às iniciativas industriais, que se desenvolveram na
região, devido aos seguintes fatores: a existência da primeira Usina Hidrelétricada América
do Sul e o fornecimento de energia elétrica, a proximidade com a capital, Rio de Janeiro, e a
possibilidade de mão-de-obra “feita”3.
Nesse sentido, os imigrantes eram o atrativo para os industriais e para os fazendeiros,
no momento em que o processo abolicionista se completava. Não se tratava de mão-de-obra
especializada, mas sim, disciplinada. Havia na cidade uma hospedaria onde se processava a
primeira triagem dos imigrantes, que daí seguiriam para as fazendas ou procurariam se
empregar nas indústrias, uma vez que a população de baixa renda residente na cidade resistia
ao processo de proletarização. Com a intenção de promover o controle dos trabalhadores, não
se admitia artistas, desocupados e aventureiros. Em geral, a seleção dos imigrantes dava
preferência aos casados ou com ocupação comprovada.
Diante deste quadro sócio-econômico, se justificava a necessidade de se organizar a
educação no município a fim de se estabelecer o disciplinamento dos trabalhadores e de se
assegurar a hegemonia da camada dominante.
O trabalhador “já feito”, importado, carecia de mansidão, estabilidade e
disciplina. Seria necessário reeducá-lo. O imigrante havia sido importado a um
preço muito alto, como solução para o problema da escassez de mão-de-obra, pela
resistência ao trabalho por parte dos ex-escravos e terminou aumentando aquela
massa indiferente. O projeto de se educar o “povo” para o trabalho tinha se
tornado, então, uma exigência política. (CHRISTO, 1994, p.106)
O ensino das primeiras letras no estado de Minas Gerais era conduzido, no início da
República, por mestres-escolas, assim como em outras cidades do país. Os mestres se ligavam
à comunidade e realizavam um trabalho em que sobressaía a dedicação além da preocupação
com a formação disciplinada do aluno e, para tal, não faltava a ameaça da palmatória. Eram
escolas isoladas, que muitas vezes funcionavam na casa do próprio mestre com programas,
horários por eles definidos e tendo como método a utilização das antigas e famosas cartilhas.
O Estado era omisso na criação e manutenção de escolas e esta ausência era compensada com
o enaltecimento da figura do professor-sacerdote. O que realmente importava era o zelo, a
dedicação com que o mestre executava o seu trabalho. Não eram enfatizadas questões como
competência, metodologias e domínio de conteúdos.
3
A denominação “feita” foi utilizada por Miguel Gonzalez Arroyo em sua tese de doutoramento e citado por
CHRISTO (p.104) em sua análise sobre a educação nos primeiros anos da República, em Juiz de Fora.
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Essas condições não se adequavam à realidade de Juiz de Fora e nem aos princípios
ideológicos que nortearam o processo da Proclamação da República e a estruturação do novo
governo, no início do século XX. Além da formação da mão-de-obra havia a preocupação de
formar e controlar a massa de eleitores, que se ampliaria a partir da definição do voto
universal, estabelecido na primeira Constituição republicana.
Era preciso organizar a educação, dar-lhe uma estruturação com o controle do Estado.
A Constituição de 1891 estabeleceu que a instrução elementar fosse de responsabilidade do
Estado e, no processo de racionalização, transformou o professor-sacerdote em funcionário
público, normatizando o seu trabalho e, conseqüentemente, tirando-lhe a autonomia. Foi
criado o cargo de Inspetor Geral de Instrução Pública além de outros cargos técnicos como
inspetores ambulantes para promover a fiscalização das escolas do interior além do Conselho
Superior de Instrução.
Os critérios para o provimento das cadeiras “criadas” não são mais com base no
reconhecimento do saber por parte da comunidade; este antigo vínculo está
quebrado, sendo substituído por critérios políticos. A criação e a ocupação das
cadeiras dependerá dos políticos locais. O professor está, agora, na dependência
do Estado, do coronel e do inspetor. Desta forma, o Estado compra a sua força de
trabalho, aluga-lhe a casa, interfere na organização de seu ofício, tornando-o um
trabalhador despossuído. (Ibid,,1994,p.107)
Nos primeiros anos da República, ocorreu a Reforma Educacional do Estado de
Minas, promovida no governo de Afonso Pena com o objetivo de melhorar a qualidade do
ensino elementar e a formação dos professores. Através do Decreto nº 607, de 27 de fevereiro
de 1893 foi criada uma nova estrutura para a escola normal com a finalidade de formar
professores competentes criando cursos intensivos, com duração de 4 anos e 21 matérias.
Nessa perspectiva, em 1894 foi criada a Escola Normal de Juiz de Fora, funcionando no
prédio que serviu ao antigo mercado da cidade. Posteriormente, foi transferida para o palacete
Santa Mafalda, onde lecionaram importantes figuras do meio educacional e político de Juiz de
Fora como José Paixão e José Rangel.
Apesar das perspectivas que se abriam, a situação da educação no estado e em Juiz de
Fora era um caos. Aliado aos problemas do despreparo profissional o desestímulo gerado
pelos baixos salários e as condições físicas precárias constituíam-se em verdadeiros
obstáculos que as reformas pretendidas não seriam suficientes para dar soluções efetivas.
Na análise de Estevam de Oliveira sobre a Reforma do Ensino Primário e Normal em
Minas, apresentado por Christo (1994,p.113), não adiantava exigir do professor um bom
preparo profissional na medida em que era mal remunerado (ordenado de 150$000 por mês) e
as escolas apresentavam precárias condições. Assim, não havia estímulo para que o
profissional se aperfeiçoasse e muito menos para que quisesse permanecer no serviço público.
2. A caminho da institucionalização do Grupo Escolar em Juiz de Fora
Diante da atuação de Estevam de Oliveira no âmbito da educação, o secretário do
Interior do Estado de Minas, Manuel Thomaz Carvalho Britto, resolveu comissioná-lo para
relatar como se processavam as reformas que vinham sendo implementadas em São Paulo e
no Rio de Janeiro. Naquela época, Estevam de Oliveira era Inspetor Técnico da Sétima
Circunscrição Literária que abrangia os municípios de Cataguases, Leopoldina, Além Paraíba
e Palma. Foi também jornalista, republicano e abolicionista radical e acreditava numa maior
participação política e na possibilidade de avanços para uma cidade como Juiz de Fora em
que “residia o pensamento dominante da nova cruzada. Tinham aqui morada, chefes
proeminentes do partido: publicava-se ainda aqui o mais autorizado órgão da propaganda na
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província; era, finalmente, deste centro intelectual que se irradiava, ardoroso, o calor do
combate sem tréguas à instituição vetusta”4.
Os políticos de Juiz de Fora ascendiam no cenário estadual, marcados por um
radicalismo e por uma rejeição ao predomínio político da área mineradora. Defendiam a
necessidade de uma nova capital para o estado mineiro e de autonomia municipal com o
objetivo de esvaziar a ascendência política da tradicional área, cuja importância decorreu do
período colonial.
Assim, Juiz de Fora, principal centro industrial do estado, que mereceu a denominação
de “Manchester Mineira” foi escolhida para ter a implementação do primeiro Grupo Escolar
do Estado de Minas Gerais. Esta iniciativa esteve ligada à Reforma de Ensino, promovida no
governo João Pinheiro, em 1906. Na verdade, tal Reforma partiu da análise e das sugestões de
Estevam de Oliveira, a partir das reformas promovidas por São Paulo e Rio de Janeiro.
Ainda como justificativa para a escolha de Juiz de Fora ter sido a primeira cidade
mineira a possuir a instalação de um Grupo Escolar, pode- se destacar sua dinâmica vida
cultural e a sua influência na região, como justificou José Rangel:
influência Juiz de Fora sempre gozou do merecido conceito de cidade culta, e essa
cultura não se tem limitado apenas á sociedade que a constitue, por intermédio dos
seus institutos de educação, as suas bôas letras e costumes civilizados, irradia a sua
a regiões longínquas, muito além da circunscrição mineira. Desde tempos bem
remotos têm sido os seus educandários freqüentados por numerosas gerações de
estudantes, de afastadas procedências, pela circunstância de se encontrarem
estabelecimentos de ensino secundário tão somente em privilegiados centros,
dispersos por zonas distantes e de difícil acesso. (RANGEL s/d.p.160)
3. A estrutra e o funcionamento dos Grupos Escolares: primeiros tempos.
Em seu relatório ao Secretário do Interior, Estevam de Oliveira propõe uma
racionalização da estrutura do ensino, ligada a uma centralização que ficaria a cargo da
Diretoria Geral de Ensino, acompanhada por inspetores permanentes, de responsabilidade das
autoridades locais, e por inspetores “imprevistos”, ligados à administração central. A antiga
inspeção gratuita ficaria suprimida tornando o cargo de caráter mais técnico e a atuação mais
competente uma vez que o relator aconselha que se criem concursos e que se faça uma
formação profissional mais rígida. O ponto nevrálgico da Reforma seria a criação de grupos
escolares e a formação de professores. Era preciso aperfeiçoar o ensino normal quanto ao
programa e recursos materiais. O ensino deveria ter uma orientação mais prática e positiva.
Também foi de opinião que o cargo de “professor provisório” deveria se extinto uma vez que
pecavam pela má formação e eram, em geral, presos à teia do coronelismo. Neste sentido,
defendeu o princípio da amovibilidade, ou seja, a possibilidade de remoção do professor ao
critério exclusivo do Estado. Seria a forma de romper com o esquema de favoritismo político
que prendia muitos professores ao poder local e de dar um caráter de competência e de
profissionalização ao professor.
É da inamovibilidade absoluta que decorre, como em Minas, ficar o Estado de
braços cruzados diante de professores relapsos no cumprimento dos seus deveres,
por não lhes poder aplicar o governo a pena cominatória da remoção em casos
restritos, claramente estatuídos na lei para tais e tais faltas e reicindências.
(CHRISTO,1994,p.114)
4
OLIVEIRA, Estevam. A política republicana. In: Juiz de Fora no século XIX, p. 66-68. citado por CHRISTO
(1994,p.110)
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Sobre a criação de grupos escolares, Estevam de Oliveira afirmou que “é esta
instituição que há de reerguer o nosso ensino primário do estado de miséria a que chegou”.
Não seria apenas a construção de escolas, mas a organização de um trabalho com base em
uma compreensão pedagógico-administrativa quando seria eliminada a situação de um mesmo
professor orientar alunos de todas as séries, ao mesmo tempo, em uma mesma sala, com o
agravante de designar alunos mais adiantados para orientar alunos novatos. A escola deixa de
ser o espaço da racionalização de um conhecimento próprio da população, para ser
reconhecida como instrumento de mudanças, criadora de hábitos, voltada para a instrução,
formação e profissionalização, mediadora entre sujeitos sociais e a sociedade.
Com a reforma administrativa e pedagógica, o Estado estipularia os programas por
mês ou trimestre, os métodos a serem utilizados, os horários das disciplinas, os livros, os
prazos e números de matrículas. Assim, o professor estaria submetido a uma nova dinâmica
exigida pelo cumprimento de um programa pré-estabelecido e em um prazo prédeterminado.Estava definida uma divisão e hierarquização do trabalho e o professor era
colocado sob o controle do Estado podendo assumir um papel eficiente na educação do
trabalhador.
A Reforma de Ensino em Minas Gerais, no governo de João Pinheiro, em 1906,
recuperou propostas de Estevam de Oliveira e foi considerada como a grande novidade por
ela definida: “a construção de espaços próprios para a educação escolar, a fim de reunir e de
abrigar em um só prédio as escolas que estavam isoladas, provocando, então, o aparecimento
das Escolas Agrupadas e dos ‘Grupos Escolares”.(FARIA FILHO,2000,p.37)
O Grupo Escolar tinha uma função social bem definida: fazer bons cidadãos e, acima
de tudo, bons trabalhadores. O ensino elementar era concebido a partir de uma missão
moralizadora e civilizatória onde o discurso liberal era sobreposto pelos mecanismos
disciplinadores – era preciso formar o cidadão submisso aos moldes impostos pela camada
dominante. A visão que se possuía da escola se aproximava da visão do funcionamento de
uma fábrica: a hierarquia, a obediência, a disciplina, os bons hábitos.
Com esse intuito, Juiz de Fora foi o município designado a ter a instalação dos
primeiros Grupos Escolares no estado. Em 05 de fevereiro de 1907, pelo Decreto nº 1886, foi
criado o Grupo Escolar Delfim Moreira (atualmente conhecido como Grupo Central)
juntamente com o Grupo Escolar José Rangel, ambos ocupando o prédio que havia pertencido
à Escola Normal. O Grupo Escolar foi instalado no dia 04 de fevereiro e atingiu neste dia o
número de 470 alunos, de acordo com o jornal Correio de Minas. No dia 23 de março do
mesmo ano, inaugurou-se o “segundo” Grupo Escolar, funcionando no mesmo prédio, com o
mesmo diretor, servente e porteiro, mas funcionando no período noturno e tendo no dia de sua
instalação 396 alunos matriculados.
“O ensino nelles é ministrado por processos modernos e pelo methodo intuitivo, hoje
adoptado nos paízes mais civilizados” (ESTEVES,1915, p.261)
Esta organização da escola primária vinha sendo adotada em países europeus e nos
Estados Unidos, definida pela visão da educação dos finais do século XIX e início do século
XX, que situava a escola elementar como centro dos processos de transformação social e
cultural.
Sob a direção do sr. Dr. José Rangel, o corpo docente era composto por 22
professores. Os grupos dispunham de um prédio central, de propriedade do estado. Por
iniciativa do cirurgião Albino Esteves, o sr. Dr. Francisco Valladares tomou o compromisso
de instalar um gabinete dentário que prestasse assistência dentária aos alunos necessitados.
Funcionava, ainda uma caixa escolar, com a finalidade de fornecer material didático, calçado,
roupa e medicamentos a cerca de 60 alunos pobres. No ano de 1914, segundo Esteves (1915,
p. 261), a freqüência no Grupo Delfim Moreira era de 454 alunos e no grupo José Rangel, de
669
367 alunos. Funcionavam ainda escolas noturnas anexas ao Grupo Escolar José Rangel, com
96 alunos freqüentes.
O Jornal do Comércio, que circulava naquela época, assim noticiou a inauguração do
Grupo Escolar, que pela descrição, teve reconhecido o significado e a importância por parte
da população.
No dia 04 de fevereiro, às 11 horas da manhã, no salão nobre da Escola Normal,
ocorreu a instalação do Grupo Escolar.
A sessão foi aberta por José Rangel e em seguida o Dr, Duarte de Abreu lembrou à
Câmara a conveniência de ser prestado um auxílio pecuniário às crianças pobres,
destinado à compra de roupas para que possam comparecer às aulas com a
necessária decência.
A sessão foi encerrada com os alunos cantando o “hino do Grupo Escolar de Juiz
de Fora”, com letra de José Rangel e música do maestro Carlos Alves. Em seguida,
à sessão fotográfica na frente do prédio com as professoras e autoridades, os
alunos saíram em passeata percorrendo várias ruas da cidade.
O primeiro Diretor dos Grupos Escolares, José Rangel, em relatório de 1907,
expressou a esperança de que a ampliação de escolas e, conseqüentemente, das perspectivas
de acesso para as crianças, descortinaria um horizonte revolucionário para a sociedade.
uma verdadeira revolução se operará nos costumes, sob o ponto de vista moral,
atingindo os benefícios dela a própria vida econômica, pois “teremos em vez de um
exército de analfabetos a povoarem as oficinas, um pessoal operário
suficientemente preparado para exercitar os seus misteres com inteligência e
aptidão. ( FARIA FILHO, 2000,p.41)
Para Carvalho Brito, Secretário do Interior, era fundamental que a reforma iniciasse
por Juiz de Fora e em carta datada de 1º de setembro de 1908 ao diretor José Rangel, afirma:
A reforma do ensino fracassaria em Juiz de Fora se a não realizasses. Triunfante
na capital intelectual de Minas, seu triunfo está garantido em todo o Estado e talvez
em todo o país(...) Agora a incumbência. Sem que ninguém pudesse supor que
obedecia a uma orientação, procurei destacar todos os bons elementos intelectuais
daí para que comigo colaborassem, e, agora peço-te que sejas perante eles o
intérprete do meu reconhecimento. (in CHRISTO,1994,p.119)
A visão otimista do Secretário do Interior se contrapõe à realidade da época, analisada
por Heitor Guimarães e reproduzida por Christo em seu estudo sobre Juiz de Fora no início do
século XX. (publicado no Correio de Minas, Juiz de Fora, 05 de fevereiro de 1907)
Os grupos escolares como as escolas primárias isoladas, destinam-se, penso eu, a
ministrar instrução a crianças pobres.
Quem traça estas linhas exerce o cargo de inspetor escolar por parte da Câmara e
nas inspeções, bem como por ocasião dos exames, tem visto muitas crianças
descalças, embora asseadas, numa promiscuidade de cores e de classes que muito
honra o nosso espírito democrático.
Parece, entretanto, que a nova organização escolar pretende banir esse nobre
sentimento inato ao coração brasileiro, e que os grupos escolares foram criados só
para filhos de pessoas ricas ou remediadas. Ali nenhuma criança poderá ir
descalça e exige-se até fardamento. Se ainda este não o foi, será exigido dentro em
pouco.
670
As professoras, com o minguado ordenado de 150$, foram convidadas a
apresentar-se sempre de roupa branca, de chapéu e luvas...
Pobres moças, que lutam com enormes dificuldades, obrigadas agora a despesas
extraordinárias; vão ainda, com o seu luxo forçado, amesquinhar ainda mais a
pobreza de muitos desses pequeninos seres...
Por esse processo, o Estado acabará ministrando instrução gratuita aos
favorecidos da sorte apenas, porque os pobres, que já lutam com dificuldades de
toda a sorte, não poderão fornecer uniforme a seus filhos...
Que se exija asseio dos alunos, é natural, porque a limpeza faz parte da educação.
Não se perca mais, porém, a não ser que se vise transformar a instrução pública em
privilégio de ricos...
Entre o otimismo de José Rangel e a análise realista de Heitor Guimarães há um
universo que precisa ser resgatado para que, nele inserido, se possa compreender a dimensão
da atuação dos Grupos Escolares na formação do valores da sociedade nos primeiros tempos
republicanos.
4. Considerações finais
O entusiasmo dos intelectuais do município e da elite política à frente da iniciativa de
dar nova feição ao estado, na recém criada República, se associa à necessidade de se
promover a formação da sociedade, dentro do espírito cívico e da preservação dos valores
morais, embasados nos fundamentos ocidental-judaico-cristãos.
A criação de escolas, organizadas pelo poder público, de caráter laico e voltadas para
atender à população em geral, representava um grande avanço para o estado e para o
município, capaz de promover o crescimento econômico, assegurar a importância das
instâncias local e regional frente ao âmbito nacional e de promover um maior controle dos
movimentos sociais, através da hierarquização do poder que poderia ser estabelecido a partir
de critérios econômicos e culturais. Os primeiros Grupos Escolares resultaram, de uma
política do estado, mas foram, sem dúvida, o reconhecimento de que a cidade de Juiz de Fora
possuía um desenvolvimento cultural que a destacava no cenário mineiro.
Os primeiros passos do estudo, reproduzido nesse texto, tem o sentido de resgatar um
momento importante História da Educação em Juiz de Fora e ampliá-lo pelo recorte da
História Regional, recuperando relatos, documentos, objetos e imagens, que constituem a
memória da cidade. Significa reconstruir sua trajetória e, assim, contar a sua História.
Referências bibliográficas
CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. A Europa dos Pobres: a belle-époque mineira.Juiz de
Fora, EDUJUF,1994
ESTEVES, Albino – Álbum do Município de Juiz de Fora (org. Oscar Vidal Barbosa Lage
e Albino Esteves) Belo Horizonte. Imprensa Oficial do Estado de Minas, 1915.
FARIA FILHO, Luciano Mendes e VAGO, Tarcísio Mauro. A Reforma João Pinheiro e a
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GOUVEA, Maria Cristina Soares e ROSA, Walquíria Miranda. A Escola Normal em Minas
Gerais. In: Lições de Minas:70 anos da Secretaria de Educação. Belo Horizonte, Governo
de Minas Gerais, setembro de 2000.
JUIZ DE FORA - Juiz de Fora – passado e presente. Dicionário escolar. Secretaria
Municipal de Educação; Secretaria Municipal de Governo e Instituto de Pesquisa e
Planejamento 2000.
JUIZ DE FORA -
Jornal do Comércio de 05 de fevereiro de 1907
OLIVEIRA, Paulino de. Efemérides Juizdeforanas. Juiz de Fora, Ed. Da UFJF,1975
RANGEL, José. Como o tempo passa... aspectos, fatos, figuras e costumes antigos e
contemporâneos. Rio de Janeiro, A “encadernadora”, S. A.
YASBECK, Lola. As origens da Universidade de Juiz de Fora. Juiz de Fora, EDUJF, 1999.
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Os primeiros grupos escolares em Juiz de Fora