UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
Enquetes do “Controle de Qualidade” do CQC:
uma análise multimodal
Nadiana Lima da Silva
Recife
2011
1
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
Enquetes do “Controle de Qualidade” do CQC:
uma análise multimodal
Nadiana Lima da Silva
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
em Letras da Universidade Federal de Pernambuco,
como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em
Linguística.
Orientadora: Prof.ª Dra. Angela Paiva Dionisio
Coorientadora: Prof.ª Dra. Maria Medianeira de Souza
Recife
2011
Aos meus pais, Darci e Nilson, por me ensinarem o que é um Lar
A minha irmã, Camila, pela companhia de vida
A meu namorado Leonardo, por ser sempre meu porto seguro
Aos meus amigos, por fazerem parte de minha caminhada
AGRADECIMENTOS
ƒ
A Deus, por ter promovido as situações e os desafios para que fosse possível minha
chegada até aqui.
ƒ
Aos meus pais e a minha irmã, por me ensinarem, todos os dias, que o amor se manifesta
nas mais corriqueiras atitudes, que é produto de vários outros sentimentos e que também
é um processo.
ƒ
A minha orientadora Angela, por ter me proporcionado um dos períodos de maior
crescimento intelectual de minha vida, pela orientação precisa, por ser exemplo de
profissional e de pessoa, e por ensinar que rigor e disciplina andam ao lado de
generosidade e compreensão.
ƒ
A minha coorientadora Medianeira, pelas imensas contribuições, pelos conselhos, pela
leveza com que desempenha seus papéis.
ƒ
A Karina Falcone, pelas valiosas observações em minha pré-banca, responsáveis pela
melhora indiscutível deste trabalho.
ƒ
A Danielle Almeida, por ter aceitado fazer parte da minha banca examinadora e por se
dispor a enriquecer meu trabalho com suas contribuições.
ƒ
A Benedito Bezerra, por ter aceitado, em um curto prazo de tempo, ler minha dissertação
e predispor-se a contribuir para sua melhoria.
ƒ
A turma “multi” – formada pela professora Angela e por Helga, Paloma, Clara, Monique,
Danuta, Leonardo, Eldelita, Marcelo e Rebeca –, pela companhia, pela parceria, pelos
“lanches de descontração”, pelas preciosas discussões acadêmicas, permeadas por muitos
desafios e risadas, que permitiram a reflexão acerca de boa parte das ideias apresentadas
aqui.
ƒ
Ao professor Antônio Carlos Xavier, pelos ensinamentos ao longo da graduação e
também no mestrado, pelo incentivo desde os primeiros períodos da graduação, pela
confiança e pelo apoio.
ƒ
A professora Márcia Mendonça, por continuar sendo meu referencial como profissional,
por ter sido responsável por meus primeiros passos na academia, pelo apoio durante a
seleção do mestrado, por ter criado meios para que eu chegasse aqui.
ƒ
A todos os professores da graduação e do mestrado, por terem sido, cada um a seu modo,
fundamentais para minha formação acadêmica e para que fosse possível desenvolver este
trabalho.
ƒ
A meus companheiros da turma de mestrado, representados aqui por Liliane, Tayana,
Monique, Rafaela, Adriana e Heber, por não só compartilharem risadas e angústias mas
também por contribuírem, através das discussões quase diárias, para meu crescimento
acadêmico.
ƒ
A Monique, companheira de todas as horas, pelas sugestões, pelas palavras de incentivo,
por dividir lágrimas e sorrisos, por ter sido peça fundamental nesse processo.
ƒ
A Liliane (Lili, minha querida Violet), pela (re)leitura atenta do meu texto, pelas
sugestões, por estar sempre disposta a me ouvir, por ter, sobretudo, dado novas cores a
minha vida.
ƒ
A Helga, minha amiga-irmã(mais velha!), por acreditar em mim quando eu mesma não o
fazia, por toda ajuda antes, durante e depois da seleção do mestrado, pelos acertados
conselhos, pelo apoio ao longo do mestrado, por ser presença ativa em minha vida.
ƒ
Aos meus queridos amigos Aline, Marcelinha, Elio, Brenno, Maurício, “Fuxo” e Morg,
pelo apoio, por entenderem minhas ausências, por torcerem por mim.
ƒ
A Leonardo, meu ponto de equilíbrio, pelos sábios conselhos, pelo silêncio e pelo abraço
quando as palavras não eram suficientes, por ter dado um novo e maravilhoso sentido à
palavra companheirismo.
ƒ
Aos queridos Diva e Jozaías, pelo apoio constante e pela torcida.
ƒ
A todos que contribuíram para que este trabalho se realizasse e que, por distração e
injustiça, não foram mencionados aqui.
EPÍGRAFES
“A realidade real não existe, na verdade. É sempre um olhar, o olhar condicionado (...) cada
experiência de olhar é um limite; a gente não conhece as coisas como elas são, só mediadas
pela nossa experiência”
Paulo César Lopes, professor de Literatura
“O ato de ver e de olhar não se limita a olhar para fora, não se limita a olhar o visível, mas
também o invisível”
Oliver Sacks, neurologista e escritor
Esta é minha sobrinha Verônica, a quem fotografei em um campo que vira há muito tempo,
pedi a ela que corresse e dançasse; ela usava um sininho, que eu escutava. Na verdade,
fotografei o sininho, mas este não pode ser visto. Trata-se, então, de uma fotografia do
invisível.
Evgen Bavcar, fotógrafo cego e filósofo
“O olho vê, a lembrança revê as coisas e a imaginação é a imaginação que transvê, que
transfigura o mundo, que faz outro mundo.”
Manoel de Barros, poeta
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo principal analisar o gênero enquete do quadro
“Controle de Qualidade” (CQ), do programa televisivo Custe o Que Custar, investigando de
que maneira os recursos semióticos que compõem os diversos modos dessas enquetes são
convencionados, promovendo, assim, a construção da identidade dos políticos. Para atender a
esse objetivo, inicialmente, construímos a noção de gênero, respaldados pela perspectiva dos
Estudos Retóricos do Gênero, principalmente, pelos trabalhos de Bazerman (2008; 2009) e
Miller (2009). Além disso, tratamos do gênero enquete e de sua configuração no “Controle de
Qualidade”. Em um segundo momento, Focamos nossa atenção na multimodalidade – traço
constitutivo de todos os textos –, fundamentando-nos na Gramática de Design Visual (GDV),
de Kress e Van Leeuwen (2006). Também discutimos o papel das convenções retóricas na
leitura dos textos, tomando como base os estudos de Kostelnick e Hasset (2003), além de
demonstrarmos como os recursos semióticos tornam-se convenções em nosso corpus
(formado por 49 enquetes exibidas em 2009). Por fim, analisamos como se dá a construção da
identidade dos políticos, observando como as três estruturas da função Composicional da
GDV se articulam nos recursos semióticos convencionados em grande escala. Os resultados
encontrados revelam que – uma vez construído o estereótipo de que os políticos não são beminformados –, os recursos que representam ações de reprovação ou de constrangimento são
utilizados nas enquetes do CQ com muito mais frequência, além de congregarem tanto
recursos pictóricos quanto sonoros, em contraposição aos recursos que representam ações de
aprovação, que são mais sutis e, na maioria das vezes, são apenas do modo sonoro. Dessa
forma, observa-se que as convenções criadas nas enquetes do CQ funcionam como um meio
de construir a identidade de um político desinformado, o que é possível em função das
escolhas de estratégias discursivas, que se manifestam não só no que diz respeito às escolhas
linguísticas, mas, sobretudo, quanto aos recursos semióticos de outros modos.
Palavras-chave: enquetes; multimodalidade; convenções retóricas; identidade
ABSTRACT
The main objective of this study is to examine the genre poll of framework "Quality Control”,
by investigating how the semiotic resources that make up the various modes of these polls
become conventions, thereby promoting the identity construction of the politicians. In order to
do this, this research is based on the notion of genre as social action, backed by the prospect
of the Rhetoric of Genre Studies, especially the work of Bazerman (2008, 2009) and Miller
(2009). Furthermore, the genre poll and its configuration in the "Quality Control". Then we
focus our attention on multimodality - constitutive feature of all texts - and in the Grammar of
Visual Design (GDV) of Kress and Van Leeuwen (2006). We also discussed the role of
rhetorical conventions in reading the texts, based on studies Kostelnick and Hassett (2003),
and demonstrate how semiotic resources become conventions in our corpus. Finally, we
observe how the construction of political identity is constructed,
by
observing
how
the
Function of Compositional’s three structures work in the semiotic resources. Once
constructed the stereotype that politicians are not well-informed, the results show that the
resources that represent shares of disapproval or embarrassment are used in poll of CQ much
more frequently as opposed to features that represent actions of approval, which are more
subtle and, in most cases, it ocurr in the mode of sound. Thus, it is noted that the conventions
are a means of constructing a political identity of the uninformed, what is possible according
to the choices of discursive strategies, which manifest themselves not only with respect to
choices language, but mainly with respect the semiotic resources of other modes.
Keywords: poll; multimodality; rhetorical conventions, identity
LISTAS
Siglas:
CQ
Controle de Qualidade
LSF
Linguística Sistêmica-Funcional
GDV Gramática do Design Visual
C
DG
Cena
Danilo Gentilli, repórter do Controle de Qualidade
Quadros:
CAPÍTULO 1
Quadros
Pág.
Quadro 1
Exemplo de disposição (dia 09/03/09)
6
Quadro 2
Resumo das Convenções do Trabalho
7
Quadro 3
Vinheta do CQ
16
Quadro 4
“Você acha que os políticos são bem informados?” (dia
09/03/09)
17
Quadro 5
“O que significa ENEM?” (dia 06/04/09)
18
Quadro 6
Diversidade de Gêneros nas Enquetes
19
Quadro 7
“Qual o nome dos ministros da Agricultura e da Aquicultura?”
(dia 06/04/09)
22
Quadro 8
“Do que trata a Lei Maria da Penha?” (dia 29/06/09)
27
Quadro 9
Intertexto Boxeador Rocky
30
Enquete sobre o “caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09)
30
Quadro 11
Intertexto relacionado ao Bigode
31
Quadro 12
Reconfiguração das metafunções da Linguística SistêmicaFuncional para a Gramática de Design Visual
40
Quadro 13
“Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09)
42
Quadro 10
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
Quadro 14
“Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) - continuação
43
Quadro 15
Qual o nome do ministro da Agricultura? (dia06/04/09)
46
Quadro 16
Venezuela preparada para possível guerra com a Colômbia
(dia 30/12/09)
46
Quadro 17
Estruturação (enquete do dia 12/10/09)
49
Quadro 18
Alteração das Estruturas Composicionais Dinâmicas (dia
06/04/09)
50
Quadro 19
Gama de Códigos Convencionais, segundo Kostelnick e
Hasset (2003:16)
53
Quadro 20
Mutabilidade das Convenções
54
Quadro 21
Mutabilidade das Convenções - continuação
56
Quadro 22
Convenção de Pequena Escala
58
Quadro 23
Convenção de Pequena Escala - continuação
59
Quadro 24
“Onde fica Guantánamo?” (dia 09/03/09)
61
Quadro 25
O que é “jihad’?
71
Quadro 26
O que é “jihad’? - continuação
73
Quadro 27
“Qual o valor do salário mínimo?”
74
Quadro 28
“O significa PMDB?” (dia 23/03/09)
76
Quadro 29
Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09)
78
Quadro 30
“O que significa PMDB?” (dia 23/03/09) – 2º caso
80
Quadro 31
“Crise da pecuária” (dia 06/04/09)
82
Quadro 32
“Crise da pecuária” (dia 06/04/09) - continuação
84
Quadro 33
“Quantos ministros o governo tem?”(dia 06/04/09)
88
Quadro 34
“O que é protecionismo?” (dia 09/03/09)
92
Quadro 35
“Desmatamento, em 21 anos, atingiu seu menor índice” (dia
30/11/09)
95
Quadro 36
“Que países formam o BRICs?” (dia 29/06/09)
96
Quadro 37
O que é “jihad’? (dia 05/03/09) – 2º caso
101
Quadro 38
“Caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09)
103
Quadro 39
“Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do
Mercosul?”(dia 09/11/09)
107
Quadro 40
“O significa Anac?” (exibido dia 23/03/09)
109
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1
CAPÍTULO I – DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS EM GÊNEROS?
9
1.1. Gênero Enquete: o caso do “Controle de Qualidade”
12
1.2. Intertextualidade e Intericonicidade nas Enquetes
22
CAPÍTULO II – MULTIMODALIDADE: CENÁRIO TEÓRICO
33
2.1. Multimodalidade: ajustando o olhar analítico
34
2.2. A Gramática do Design Visual
38
“ A Função Composicional
40
a) Valor informativo
41
b) Saliência
45
c) Estruturação
48
2.3. Documentos Multimodais: um mosaico de convenções
51
CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO DAS ENQUETES
61
CONSIDERAÇÕES FINAIS
122
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
57
127
REFERÊNCIAS DOS VÍDEOS
133
INTRODUÇÃO
E
star bem-informado tem tornado-se condição sine qua non no momento sóciohistórico em que estamos vivendo, marcado pela globalização e pela ampla
variedade de meios de acesso à informação. De certa forma, essa exigência sempre existiu,
mas “a relação com o conhecimento que experimentamos desde a Segunda Guerra Mundial, e
sobretudo depois dos anos 70, é radicalmente nova” (LEVY 1996: 54). Segundo o filósofo
Levy (1996), até a segunda metade do século XX, as pessoas usufruiam das competências
adquiridas na juventude, o que tornou-se praticamente obsoleto nos dias de hoje, em que as
pessoas mudam várias vezes de profissão, além de o conhecimento, no próprio âmbito das
profissões, ter um ciclo de renovação de cerca de três anos. Em decorrência disso,
as informações e os conhecimentos passaram a constar entre os bens
econômicos primordiais, o que nem sempre foi verdade. Ademais, sua
posição de infraestrutura – fala-se de infoestrutura –, de fonte ou de
condição determinante para todas as formas de riquezas tornou-se evidente,
enquanto antes se mantinha na penumbra.(LEVY 1996: 55)
Como se pode apreender da afirmação acima, para o autor, as informações figuram
como bens econômicos, uma vez que é preciso desenvolver competências, a partir das
informações adquiridas e do conhecimento que é construído, para que seja possível
desempenhar um bom papel. O tema da acessibilidade da informação, inclusive, é pauta de
diversas discussões acerca do papel do cidadão, uma vez que, pelo conhecimento construído a
partir da informação, é possível agir criticamente diante da realidade. Em decorrência dessa
exigência patente de se estar bem-informado e da consequente mudança do perfil do cidadão,
a representação política tem sido extremamente questionada, sobretudo, em função da rapidez
com que a informação tem chegado a nós1.
Não são raras, por exemplo, as discussões acerca dos casos de corrupção em que
alguns políticos estão (supostamente ou não) envolvidos. A corrupção, segundo Pontes
1
Cada vez mais, a expressão “informação que chega ao leitor” tem perdido o tom metafórico para se aproximar
da ação concreta, basta atentarmos para as redes virtuais de compartilhamento de dados, como o Facebook e o
Twitter, que permitem – pelas potencialidades dos recursos tecnológicos – que o usuário receba informações de
terceiros automaticamente por meio de vários dispositivos, como o próprio celular, que há muito tempo não se
destina apenas a fazer/receber ligações. A ideia de ‘busca por informação’, então, passou a ter outra
configuração. No entanto, nossa relação com a tecnologia não se dá de forma tão simples. Há a exigência de que
saibamos utilizar tais recursos, para usufruir dos benefícios, o que, de certa forma, nos ‘escraviza’. Para saber
mais sobre como a tecnologia nos manipula, uma vez que, ao oferecer ‘facilidades’ de acesso de informação,
exige de nós determinadas atitudes e estratégias, uma boa opção é o texto “Rethoric, Tecnology, and PushmiPullyu” de Carolyn Miller (2010).
1
INTRODUÇÃO
(2007:01), “é uma palavra-chave presente na história da formação social, cultural e política
brasileira”. Na mesma medida, também são frequentes as cobranças pela idoneidade dos
políticos, seja pela população em protestos de diversa natureza seja por parte dos meios de
comunicação, em representação dessa voz popular. Nessa âmbito, surgem as enquetes do
“Controle de Qualidade” (do programa televisivo Custe o que Custar, CQC, exibido pela
emissora Bandeirantes, semanalmente), caracterizadas por forte caráter humorístico, aspecto
que permite que “um discurso proibido, subterrâneo, não oficial, que não se manifestaria,
talvez, através de outras formas de coletas de dados” (POSSENTI, 1998: 26) possa ser
construído com mais fluidez. Além disso, essas enquetes objetivam verificar se os políticos
estão ou não bem-informados a respeito de assuntos diversos. É a exigência patente da qual
discorríamos. Como representantes do povo e como pressuposto para que seja possível
cumprir esse papel, segundo as enquetes do CQ, os políticos precisam ser bem-informados.
Mas informados a respeito de quais assuntos? Quem determina quais são os assuntos dos
quais os políticos devem ter conhecimento? Se não são bem informados, que “punição”
merecem receber? Serem expostos publicamente ao ridículo? Ao escolher quais serão os
temas que serão base para as enquetes, dentre outras escolhas, as enquetes passam a guiar os
passos pelos quais o telespectador/leitor deve seguir.
Para Fairclough (2001), o discurso, na condição de prática não só social, mas também
política, estabelece, mantém e reconfigura as relações de poder, bem como as entidades
coletivas em que existem tais relações. Da mesma forma, enquanto prática ideológica, o
discurso também constitui, mantém e transforma os significados do mundo, nas diversas
posições dessas relações de poder. O autor também alerta para a importância de “discernir as
conexões entre a linguagem e outros elementos da vida social que são opacas”, tais como “o
papel da linguagem nas relações de poder e dominação, o trabalho ideológico do texto, a
negociação de identidades pessoais e sociais em seus aspectos semióticos e linguísticos”.
(FAIRCLOUGH 2001: 230). No que se refere aos textos midiáticos, como a enquete, nosso
objeto de estudo, Fairclough (1995: 52 apud Heberle, 2004) afirma que eles “constituem um
barômetro sensível de transformação social”, assinalando a importância de estudar tais textos.
Essa transformação social também modifica a maneira como nos vemos como
sujeitos; nossas identidades sociais, ora unificadas e estáveis, passam a ser observadas de
forma epistêmica como fragmentadas, instáveis. A respeito dessa mudança, Hall (2005)
discrimina três concepções de identidade: a do sujeito do Iluminismo, a da Sociologia e a da
Pós-Modernidade. Segundo o autor, a concepção do sujeito no Iluminismo o considerava um
indivíduo unificado, centrado totalmente em si mesmo. Mesmo com o desenvolvimento do
2
INTRODUÇÃO
indivíduo, ele permanecia o mesmo ao longo de sua existência. Pela concepção do sujeito
sociológico, por sua vez, o sujeito “refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a
consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era
formado na relação com ‘outras pessoas importantes para ele’” (HALL 2005: 11). Dessa
forma, nessa concepção, a identidade se dava na interação entre o ‘eu’ e a sociedade. O autor
ainda afirma que, por essa visão sociológica, nós nos projetamos nas “identidades culturais,
ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores” (p.12). No entanto, ainda
havia, conforme afirma Hall, uma estabilização, já que a identidade unia, ‘costurava’ o sujeito
à cultura. Ambos tornavam-se “reciprocamente mais unificados e predizíveis”. Pela
concepção da Pós-Modernidade, o sujeito assume diversas identidades, em momentos
diferentes, não-unificadas em um ‘eu’ coerente. A identidade, então, passa a ser uma
“celebração móvel”. Dessa forma, a identidade completa e coerente tornou-se uma ideia
fantasiosa, levando em conta o momento em que vivemos. Ao contrário disso, assegura Hall
(2005: 13):
à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se
multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e
cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos
nos identificar – ao menos temporariamente.
Moita Lopes (2003:20) apresenta posicionamento semelhante sobre a concepção de
identidade da Pós-Modernidade, ao afirmar que as pessoas apresentam identidades
“fragmentadas, múltiplas e contraditórias”. O autor reporta as afirmações de Gee (2001),
segundo o qual reconhecemos um ‘tipo de pessoa’ de maneiras diferentes, dependendo do
momento, da interação etc., e as afirmações de Parker (1989), para quem o si-mesmo é
construído, re-experimentado na vida cotidiana e, posteriormente, transformado. Para Moita
Lopes (2003), portanto, os sujeitos se engajam nas práticas discursivas em um processo de
“co-construção de si mesmo e do outro”. Assim, a construção da identidade social do sujeito
ocorre, por exemplo, em uma simples conversa, na discussão de um tópico qualquer.
Adotaremos, neste estudo, esse último conceito de identidade, por compartilharmos da visão
que esta não é um construto fixo e determinado, associado biologicamente à pessoa, mas
como um processo de construção de natureza social, situado historicamente.
As mudanças decorrentes das novas configurações sociais não se restringem à maneira
como se concebe a construção identitária, mas também se manifesta na produção dos textos.
Em decorrência do desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, também do design, os
3
INTRODUÇÃO
textos têm apresentado, cada vez mais, um forte teor informativo visual, o que exige das
abordagens teóricas a consideração desse aspecto. Kress e van Leeuwen (2006), atentando
para esse fato, apontam para a necessidade de se observar os textos de forma integrada,
quebrando (ou, no mínimo, atenuando) a dicotomia entre os estudos da linguagem e de outros
modos, uma vez que a multimodalidade é um traço constitutivo de qualquer texto, como se
pode apreender da afirmação de Dionisio (2008), segundo a qual, sempre, quando escrevemos
ou falamos, estamos utilizando, pelo menos, dois modos de representação. Ainda segundo a
autora, “representação e imagens não são meramente formas de expressão para divulgação de
informações, ou representações naturais, mas são, acima de tudo, textos especialmente
construídos que revelam as nossas relações com a sociedade e com o que a sociedade
representa” (DIONISIO 2008: 119). Assim, com a variedade de modos combinados em um
texto, há uma orquestração de propósitos comunicativos entrelaçados, o que reforça a
exigência de mudar a maneira como lemos esses textos, já que “os gêneros se materializam
em formas de representação multimodal (linguagem alfabética, disposição gráfica na página
ou na tela, cores, figuras geométricas, etc.) que se integram na construção do sentido”
(DIONISIO, 2006:14). Por isso, a autora afirma que, consequentemente, também precisamos
rever o conceito de letramento: “Precisamos falar em multiletramento!”, o que é fundamental
para observarmos como se manifestam os discursos que permeiam nossas práticas sociais. A
respeito do letramento – ou letramentos, como se pode apreender do item b mais adiante –,
Barton e Hamilton (2008:3) afirmam que “como toda atividade humana, o letramento é
essencialmente social, e é localizado na interação entre as pessoas”, sendo as práticas
observadas a partir de um determinado contexto. Para os autores, a noção de práticas de
letramento oferece um poderoso meio para se compreender a relação entre atividades de
leitura e escrita e as estruturas sociais em que elas são incorporadas. A respeito da natureza do
letramento, os autores afirmam que:
a) o letramento é melhor entendido como um lista de práticas sociais;
b) há diferentes letramentos relacionados a diferentes domínios da vida;
c) as práticas de letramento são padronizadas pelas instituições sociais e relações de
poder;
d) as práticas de letramento apresentam propósitos comunicativos específicos e são
incorporadas aos objetivos sociais e às práticas culturais;
e) o letramento é historicamente situado.
4
INTRODUÇÃO
Conforme ressaltam os autores, as práticas de letramento são dinâmicas e mudam de
acordo com a sociedade da qual elas fazem parte, uma vez que esta regula o uso e a
distribuição dos textos e determina quem os produz e quem tem acesso a eles. Dessa forma, a
noção de letramento é pertinente para o estudo dos gêneros, já que estes tipificam as ações
sociais e sinalizam as demandas da sociedade. Da mesma forma, estar bem-informado
depende da esfera de atividade que se considere, depende do que se entende por ser
informado, depende da relevância da informação para desempenhar determinados papéis. Para
um astrólogo é de suma importância ter conhecimento sobre a recente descoberta de
astrônomos do Planetário de Minnesota, nos EUA, sobre a mudança de alinhamento das
estrelas, o que supostamente provocaria mudanças nos signos solares e nos mapas
astrológicos. No entanto, essa informação é irrelevante para quem não credita às posições dos
astros um determinado traço em sua personalidade. De maneira semelhante, um jornalista
esportivo precisar estar bem-informado sobre acontecimento em seu campo de atuação, que
não será o mesmo de um jornalista de uma revista de fofocas.
Diante disso, dedicamo-nos à análise das enquetes do “Controle de Qualidade”, mais
precisamente, investigando de que maneira os recursos semióticos que compõem os diversos
modos dessas enquetes são convencionados, promovendo, assim, a construção da identidade
dos políticos. Para tanto, especificamente, o presente trabalho propõe atender aos seguintes
objetivos:
a) observar quais recursos semióticos são convencionalmente associados a qualquer
político e quais são associados a políticos específicos;
b) verificar quais são os efeitos de sentido construídos pelo uso convencionado dos
recursos semióticos.
O corpus desta pesquisa é formado por 41 exemplares do gênero enquetes, exibidas no
ano de 2009, recorte que foi realizado pelos seguintes critérios: a) as enquetes desse quadro
têm como tônica uma informação extraída de um acontecimento recente; e b) tem sempre
como foco das enquetes os políticos, principalmente deputados federais e senadores. A coleta
do corpus foi feita tanto por acesso ao site do CQC (<http://videos.band.com.br/c_79_.htm>)
que disponibiliza todos os vídeos exibidos durante o programa, na televisão, quanto por
gravação dos episódios. Além desses dois meios de coleta descritos, capturamos alguns
vídeos que estão hospedados no site Youtube, constituindo uma prática complementar aos
dois primeiros modos de coleta.
5
INTRODUÇÃO
Diante da inviabilidade de reproduzir as enquetes tais quais foram originalmente
apresentadas, tendo em vista o meio material, os diálogos foram transcritos e dispostos abaixo
da imagem “correspondente” (à semelhança das fotonovelas), como demonstra o quadro 1, a
seguir:
Quadro 1 – Exemplo de disposição (dia 09/03/09)
C1
C2
DG: o que significa “jihad”?
AC: (suspiro) não... [som: grilos,
cricrilando]
C3
C4
AC: veja... Jihad... ela::
[som: grilos, cricrilando]
AC: do ponto de vista:: conceitual, ela
tem muito vínculo religioso
Conforme pôde ser observado, a partir da breve sequência acima reproduzida, também
foram descritos os sons2 inseridos na enquete, em dado momento da fala do entrevistado, e
indicados entre colchetes. Em determinados momentos, há sequências de sons e/ou
sobreposição deles, o que foi indicado numericamente (som1, som2 etc.) na ordem em que
são apresentados e, em caso de sobreposição, através da menção desse fato na análise. As
observações que, porventura, sejam necessárias na descrição do quadro, foram inseridas em
itálico, para distinguirem-se das falas dos envolvidos na cena. Caso haja referência a alguma
2
Nossa preocupação, quanto à descrição dos sons nas cenas das sequências, diz respeito àqueles inseridos em
dados momentos da entrevista, acompanhados ou não de uma imagem. A referência à música de fundo é feita na
análise.
6
INTRODUÇÃO
música, o enunciado referente vai estar entre os símbolos “‘”. É importante frisar que essa
representação é uma tentativa de aproximação ao que pode ser observado mais
adequadamente pela reprodução dos vídeos. Resumidamente, estas são as convenções
adotadas neste trabalho:
Quadro 2 – Resumo das Convenções do Trabalho
a)
[Entre colchetes, há descrição dos sons]
b)
1: a numeração indica a ordem dos sons;
2: a ordenação indica sons consecutivos
c)
(As observações serão apresentadas em itálico, entre
parênteses).
d)
‘ Enunciados ‘cantados’, em alusão a alguma canção,
serão dispostos entre símbolos musicais ‘
e)
NL: as siglas formadas a partir dos nomes dos
participantes indicam de quem é o enunciado.
Diante do que foi apresentado e com o propósito de anunciar brevemente os tópicos
sobre os quais discorreremos, este estudo está distribuído da seguinte maneira:
ƒ
CAPÍTULO 1 – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?, em que
construiremos, no primeiro momento, a noção sociodiscursiva dos gêneros,
respaldados pela perspectiva dos Estudos Retóricos do Gênero, guiando-nos,
sobretudo, pelos trabalhos de Bazerman (2008; 2009) e Miller (2009) uma vez que,
como assevera Kress (2004: 39), “a categoria de gênero é essencial em todas
tentativas para entender texto, não importando sua constituição multimodal”. No
segundo momento, trataremos do gênero enquete e de sua configuração no quadro
“Controle de Qualidade”. No final do capítulo, revisitaremos o conceito de
intertextualidade, demonstrando como esse aspecto se dá em relação aos recursos
semióticos.
ƒ
CAPÍTULO 2 – Multimodalidade: o cenário teórico, em que construiremos o
conceito de multimodalidade, guiados pela Gramática de Design Visual, de Kress
e Van Leeuwen (2006), cujos preceitos também serão apresentados nesta seção.
Também descreveremos mais detalhadamente a Função Composicional, recorte
7
INTRODUÇÃO
analítico deste trabalho. Finalizando o capítulo, discutiremos não só o papel das
convenções retóricas na leitura do mundo, com base nos estudos de Kostelnick e
Hasset (2003), como também como os recursos semióticos são convencionados
nas enquetes de nosso corpus; ƒ
CAPÍTULO 3 – Análise da Composição das Enquetes, em que procederemos à
análise do corpus, levando em conta as discussões tecidas nos capítulos anteriores.
Como é possível apreender das afirmações acima, à medida que as nossas ações
sociais vão modificando-se, também vão sofrendo mudanças os gêneros textuais e a maneira
como nos relacionamos com eles, como os lemos. Portanto, é de extrema importância a
consideração – e consequente análise – dos aspectos multimodais envolvidos na leitura de
gêneros, o que assinala para um melhor desenvolvimento de trabalhos a esse respeito. Dessa
forma, o presente estudo visa a contribuir para os estudos pautados por essa preocupação.
8
CAPÍTULO 1
DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS EM GÊNEROS?
S
eria de “uma gritante ingenuidade histórica” – para manter a força da expressão
de Marcuschi (2008a: 147) – considerar que os estudos sobre os gêneros datam
das últimas décadas do século XX, levando em conta que o termo “gênero” já aparece nas
análises de Platão e Aristóteles, no que diz respeito aos estudos dos gêneros literários, na
tradição poética e na tradição retórica, respectivamente. No entanto, o que se observa,
atualmente, é que esse termo vem sendo usado sob olhares diferentes. Em revisão sobre o
tema, observando como se dá a análise de gêneros hoje, Bhatia (2009) afirma que não há mais
restrições a determinados grupos de pesquisadores quanto ao interesse pela teoria dos gêneros
e suas aplicações, mas antes um crescimento relevante de áreas de investigação interessadas
pela análise de gêneros.
Frente a esse quadro, Candlin (1993 apud Bhatia, 2009) questiona a razão pela qual
um mesmo “abrigo terminológico” permite agrupar tantas áreas diversas e seja capaz de atrair
atenção para si. Segundo o autor, “trata-se de um conceito que encontrou seu momento
oportuno” (CANDLIN, 1993 apud Bhatia, 2009: 160). Conforme salienta Bhatia (2009), a
análise de gêneros passou a ser um empreendimento interdisciplinar e, normalmente, leva em
conta a tentativa de responder à pergunta “Por que os membros das comunidades discursivas
específicas usam a língua da maneira como o fazem?”. A resposta a essa pergunta leva em
conta não só fatores sócio-culturais, mas também cognitivos, fato esse que se constitui como
um dos principais fatores, segundo Bhatia, para que haja tanta popularidade nas áreas que
estudam o discurso e a comunicação. Por outro lado, como ocorre com todos os conceitos que
se tornam populares, há uma proliferação, na mesma medida, de abordagens teóricas com
suas especificidades e interpretações diferentes, o que, para Marcuschi (2008a:151), “seria
muito bom se não fosse desnorteante”, já que é muito difícil dominar todas as sugestões de
como se tratar os gêneros textuais.
No que se refere aos estudos linguísticos, de maneira geral, o conceito de gênero
proposto por Bakhtin influenciou várias abordagens, de forma proveitosa, uma vez que o
autor não procedeu a uma análise dos gêneros, mas forneceu, segundo Marcuschi (2008a:
152), “subsídios teóricos de ordem macroanalítica e categorias mais amplas”, representando
uma espécie “de bom-senso teórico em relação à concepção de linguagem”. Para Bakhtin
(1997), os gêneros, de riqueza e variedade infinitas, são “tipos relativamente estáveis de
9
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
enunciados”, uma vez que a variedade da atividade humana é inesgotável e cada esfera de
atividade humana é formada por um repertório de gêneros que vão “diferenciando-se e
ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa” (p.280). A
riqueza do pensamento bakhtiniano, conforme pondera Mendonça (2010:111), consiste,
dentre outros aspectos, nesse “delicado equilíbrio entre o recorrente e o dinâmico, na noção de
estabilidade relativa”, uma vez que os gêneros são tanto resposta às situações sociais
recorrentes – o que aponta para a ‘estabilidade’ conferida à caracterização dos gêneros –
quanto organizam, ‘regulam’, nossas atividades humanas, permitindo que sejam a elas
atribuídos sentido.
Quanto à maleabilidade constitutiva dos gêneros, decorrente do enfoque na
qualificação ‘relativa’ da estabilidade, Marcuschi (2008a:156) assevera que é preciso
concebê-los não como modelos estanques ou estruturas rígidas, mas “como formas culturais e
cognitivas de ação social corporificadas de modo particular na linguagem”; é preciso encarar
os gêneros, portanto, a partir da ótica da dinamicidade. No entanto, lembra o autor, não
podemos desprezar o fato de os gêneros apresentarem uma identidade, que condiciona, em
certa medida, nossas ações sociais. Dessa forma, ao nos ‘apropriarmos’ de um gênero, não
estamos dominando sua forma linguística, mas tomando conhecimento da maneira pela qual
podemos realizar linguisticamente determinadas ações, em situações particulares.
Essa abordagem do gênero, entendido como ação social, influenciou os estudos
retóricos do gênero, pelos quais se alinham Miller (2009) e Bazerman (2009). Segundo Miller
(2009: 30), “antes de podermos agir, precisamos interpretar o ambiente material
indeterminado; definimos, ou ‘determinamos’, uma situação”, tendo em vista que a ação
humana é guiada pelo significado e, para chegar a possíveis interpretações, utilizamos nossos
conhecimentos pré-construídos acerca de uma dada situação e os relacionamos às novas
experiências, por analogia, por comparação, criando tipos de situações recorrentes.
Assim, agimos de acordo com a interpretação dessas situações recorrentes tipificadas,
atendendo às suas demandas. Ao mesmo tempo, atuamos de acordo com propósitos
particulares diversos, o que configura tais ações como ações sociais retóricas. Para Miller,
então, os gêneros são essas “ações retóricas recorrentes”, em vez de um padrão de formas
prontas para realizarmos nossos próprios fins. Para a autora, aprender um gênero permite que
aprendamos “a entender melhor as situações em que nos encontramos e as situações
potenciais para o fracasso e o sucesso ao agir juntamente; (...) para os alunos, gêneros servem
como chaves para a compreensão de como participar das ações de uma comunidade” (p.44).
10
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Bazerman (2009), em sintonia com as posições assumidas por Miller, afirma que todos
os textos bem sucedidos criam, em seus leitores, um “fato social”, que “consistem em ações
sociais significativas realizadas pela linguagem, ou atos de fala3” (p. 22). Esses atos, por sua
vez, segundo o autor, realizam-se por meio de formas textuais típicas, reconhecíveis – os
gêneros – que se relacionam com outros gêneros, em circunstâncias relacionadas. Partindo
desse pressuposto, Bazerman (2009) explica que, ao criarmos essas formas textuais típicas (os
gêneros), também tipificamos as situações nos quais nos encontramos e agimos em
consonância com o reconhecimento dessas situações; processo chamado, pelo autor, de
tipificação. No entanto, o autor nos alerta que essa identificação de gêneros através de traços
característicos é útil para a atribuição de sentido, mas é uma visão nebulosa, ‘enganadora’ do
gênero. A partir dessa definição, levando em conta as formas textuais, são ignorados:
o papel dos indivíduos no uso e na construção de sentidos, (...) as diferenças
de percepção e compreensão, o uso criativo da comunicação para satisfazer
novas necessidades percebidas em novas circunstâncias e a mudança no
modo de compreender o gênero com o decorrer do tempo (...). Os gêneros
tipificam muitas coisas além da forma textual (p.31).
Para Bazerman (2009), ver os gêneros apenas como uma ‘coleção’ de elementos
característicos traz, pelo menos, quatro limitações e problemas para a identificação e a análise
de gêneros: a) limitação à compreensão dos aspectos dos gêneros dos quais já temos
conhecimento; b) desconsideração do fato de as pessoas receberem os textos e agirem a partir
deles de maneiras diferentes; c) finalidade ensimesmada dos elementos que compõem o
gênero; e d) desvalorização do caráter flexível do gêneros, que podem reconfigurar-se ao
longo do tempo. Quanto a esse último aspecto, Marcuschi (2008a) diz que, por serem os
gêneros dinâmicos, variáveis e de complexidade diversa, não é possível determinar uma
tipologia dos gêneros ou propor uma lista fechada de classificação e que a tendência dos
estudiosos é “explicar como eles se constituem e circulam socialmente” (p. 159). Em boa
medida, esse fato se justifica pela mistura dos gêneros, que passam a fundir características de
gêneros pré-existentes, o que reforça a posição de Marcuschi (2008b: 21, grifo do autor)
segundo a qual seria “inadequado considerar a mistura de gêneros como ‘evidência da
3
Para John Austin, os enunciados produzem ações, são atos de fala, por meio do qual operam três níveis/tipos de
atos: o ato locucionário, que se refere ao que é dito literalmente; o ato ilocucionário, que diz respeito aos
propósitos comunicativos ao se dizer determinado enunciado; e o ato perlocucionário, que consiste nas ações ou
nas reações dos interlocutores a partir do que entenderam do enunciado. No entanto, essas ações realizam-se
conforme as “condições de felicidade”, ou seja, para que as palavras realizem atos é preciso que seja dito por
uma determinada pessoa, em um determinado momento, em conformidade com compreensões compartilhadas.
11
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
ausência de gênero’”. É mais importante, no entanto, atentar para o funcionamento dos
gêneros frente a essas mudanças, muitas delas em decorrência das novas tecnologias, dos
novos meios de comunicação de que dispomos hoje em dia. A teoria de gêneros, portanto,
conforme lembra Marcuschi (2008b), não pode menosprezar esse fato. A esse respeito, Kress
(2003: 86) nos ensina que, na ‘nova era dos meios’, é preciso levar em conta os modos coocorrentes ao modo linguístico, os quais a este se integram.
Como discutimos, os gêneros textuais são formas de ação social, são modelos aos quais
recorremos para nos comunicarmos socialmente, mas que tendem a sofrer modificações
mediante as necessidades da sociedade. É esse caráter maleável dos gêneros, que faz com que
eles tenham uma certa estabilidade, mas não sejam imutáveis, que nos interessa discutir
adiante no que tange à discussão acerca do gênero enquete, mais especificamente, as do
“Controle de Qualidade”, procurando identificar quais são suas características estruturais e
funcionais.
1.1.
GÊNERO ENQUETE: O CASO DO “CONTROLE DE QUALIDADE” (CQ)
Considerando o gênero como uma tipificação de ações sociais e estas como fenômenos
multimodais (DIONISIO, 2008:121), podemos analisar a enquete não só por suas
características estruturais, marcada pelo par pergunta-resposta, mas por seus propósitos
diversos. Conforme lembra Marcuschi (2002 apud HOFFNAGEL, 2005: 181), há eventos que
se assemelham a uma entrevista, justamente pela sua estrutura formada por perguntas e
respostas, mas apresentam uma função muito distinta, como é o caso, segundo o autor, de um
“exame oral” elaborado pelo professor que pergunta a um aluno que responde. Marcuschi
lembra que os pontos que esses eventos semelhantes quanto as suas formas, distinguem-se,
principalmente, no que diz respeito aos objetivos e à natureza das ações realizadas.
Nesse cenário, situam-se as enquetes que, geralmente, têm como propósito elucidar
alguma questão de interesse geral. Por meio de perguntas normalmente breves – associadas ou
não a uma lista de alternativas de respostas previamente estabelecidas –, exigindo respostas
também breves, objetiva-se revelar aspectos de um determinado tema. É muito comum
encontrarmos enquetes em sites diversos, como se pode observar a seguir:
12
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Exemplo 1:
Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br/enquetes/simples.jhtm?id=9488. [Acesso em 17
dez.2010]
Exemplo 2:
Fonte: http://www.ligadonafacul.com.br/enquete/26voce_sabe_o_que_deve_ou_nao_levar_para_a_prova_do_enem.html. [Acesso em
17 dez. 2010]
Os exemplos acima ilustram um grande número de enquetes encontradas em sites e em
blogs, que apresentam as seguintes características:
a) abordam temas relevantes do momento (no primeiro caso, o vazamento de
informações sigilosas do governo americano que foram publicadas no site
Wikileaks; no segundo, os materiais que podem ser levados ao ENEM – Exame
Nacional do Ensino Médio –, uma vez que foi proibido o uso de lápis e borracha
para a realização da prova, por exemplo);
13
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
b) apresentam opções de resposta (limitando-as, de acordo com os propósitos do
autores da enquete); e
c) demonstram, geralmente por meio de porcentagem (como mostra o primeiro
exemplo), o resultado da enquete, que se assemelha, nesses casos, a uma votação
(no segundo exemplo, isso é apresentado mais concretamente, quando o termo
“votar” constitui-se como o comando, para que seja possível responder à enquete).
No entanto, sob o véu da simples reunião da opinião pública, ambas compartilham o
mesmo propósito: desvendar questões relacionadas a temas de grande repercussão e de
interesse comum. Objetiva-se descobrir, no primeiro exemplo, o grau de relevância das
informações apresentadas no site do Wikileaks a partir da quantidade de pessoas que as
consideram como tal e, no segundo, o grau com que as novas regras estabelecidas pelo ENEM
foram compartilhadas entre os estudantes que seriam submetidos ao exame.
Sobre a opinião pública, Pierre Bourdieu afirma, em artigo intitulado “A Opinião
Pública Não Existe” (1981), que a sondagem de opinião é “um instrumento de ação política”,
uma vez que “sua função mais importante consiste talvez em impor a ilusão de que existe
uma opinião pública como pura adição de opiniões individuais (...), a média das opiniões ou a
opinião média”. Para o autor, resultados em forma de porcentagem são um simples artefato e
não revelam, necessariamente, a opinião das pessoas, tendo em vista suas particularidades. O
autor ainda afirma que o peso numérico não traduz, necessariamente, um fundamento crítico
ou reflexivo sobre o tema. Tais afirmações de Bourdieu são relevantes, sobretudo, quando
levamos em conta os propósitos discursivos, às vezes, ‘velados’ dos órgãos, dos sites, das
empresas etc. ao realizarem as enquetes. A análise dos enunciados da pergunta e/ou das
respostas previamente estabelecidas, por exemplo, poderia demonstrar como esse processo se
configura. Apesar de não ser esse nosso objetivo, procuramos atentar para a maneira como os
enunciados das perguntas é feita, uma vez que isso contribui para a concretização dos
propósitos comunicativos ‘velados’ das enquetes do CQ.
Esse objetivo latente das enquetes pode ser observado neste outro exemplo:
14
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Exemplo 3:
Fonte: http://www.orbis.org.br/enquete/1/na-sua-opiniao-o-pib-e-um-bom-indicador-dedesenvolvimento-e-prosperidade. [Acesso em 03/01/2011]
Conforme pode se observar, faz parte da enquete uma discussão acerca dos resultados,
que dialogam com preocupações anteriores a ela; por certo, até motivadoras. A pergunta da
enquete funciona como uma espécie de argumento, baseado na opinião da maioria das
pessoas, que solidifique a discussão acerca de uma temática. Mais uma vez, tem-se como
objetivo revelar algum ponto importante a respeito de determinado assunto de interesse geral.
Apesar de apresentarem uma configuração diferente – como veremos – e estarem
associados ao humor, as enquetes do CQ também propõem-se a averiguar a “qualidade” das
considerações dos políticos acerca dos acontecimentos relevantes de nosso país, colocando
em xeque o grau de compartilhamento de informações necessárias para qualquer ponderação a
respeito. Essa inferência é corroborada pela informação apresentada, logo no início das
enquetes, pelo integrante do programa Danilo Gentilli, sobre a importância de se estar bem
informado para desempenhar um bom papel na condição de representante do povo, no
Congresso:
Para governar um país é preciso estar, no mínimo, bem informado. Afinal,
são eles, os políticos, que tomam decisões que afetam as nossas vidas todos
os dias. Mas isso é notícia velha; acho que todo mundo já sabia disso, né?
(...) Será que nossos políticos leem jornais? Será que eles têm informações
suficientes para interpretar os fatos relevantes que acontecem ao seu redor?
Eu espero que sim. E você?
Danilo Gentilli, na abertura do CQ de 09/03/2009.
15
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Conforme se verifica acima, essas perguntas retóricas já pressupõem uma resposta
negativa, confirmando o estereótipo de que os políticos não são bem informados. Além disso,
tais políticos, quando considerados desinformados, passam a ser ridicularizados e expostos ao
escárnio, tendo em vista que não possuem o conhecimento adequado para a posição que
ocupam.
Seguindo o comentário reproduzido acima, essa função das enquetes do CQ é
confirmada pela vinheta do quadro. Nela, é representada a trajetória de uma mosca – imagemsímbolo não só do quadro, mas de todo o programa, inclusive sendo estampada no microfone
dos jornalistas integrantes – que é vista por trás (‘guiando’ os telespectadores, portanto) e que
atravessa várias telas com diversas imagens ao som de burburinhos, o que alude aos vários
fatos noticiados, até, finalmente, deparar-se com o título do quadro, que aparece abaixo do
nome do programa e é formado à medida que uma relação numérica vai sendo desfeita, como
pode ser visto abaixo:
Quadro 3 – Vinheta do CQ
C1
C2
C3
C4
C5
C6
No que diz respeito às vinhetas, Schiavoni (2008), respaldada no estudo de Sidney
Aznar, “Vinheta: do pergaminho ao vídeo”, afirma que esse gênero, diferentemente do que
ocorria na Idade Média, em que era usado como um elemento decorativo das iluminuras, hoje
em dia, criado por computação gráfica, deixou de ser apenas adorno ou suporte de divulgação,
16
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
passando a desempenhar “um importante papel no estabelecimento das marcas que divulga,
como uma espécie de embalagem que, por seus atributos e estratégias, é capaz de seduzir e
conquistar o consumidor – o telespectador no nosso caso” (p.19). Dessa forma, conclui a
autora, a vinheta televisiva não só comporta a marca do programa – no nosso exemplo,
“CQC” –, mas também a logomarca do produto – o “Controle de Qualidade” – e/ou da
emissora – a Bandeirantes, cujo símbolo aparece em marca d´água no canto superior-esquerdo
das Cs da vinheta. A vinheta do CQ revela, então, que há um ‘produto’ por meio do qual
podemos ‘testar’ os nossos representantes. Para isso, no entanto, é preciso que se assuma a
posição de que os políticos precisam ser testados, que o grau informativo deles deve ser
comprovado, o que justificaria a existência, a relevância, a utilidade do CQ, reforçadas pelo
gênero vinheta televisiva. Dessa forma, como dissemos, há a pressuposição, baseada no
estereótipo que permeia todo o quadro, de que os políticos brasileiros não são bem
informados e, portanto, não estão, de fato, preparados satisfatoriamente para o exercício de
seus cargos. Esse estereótipo social, segundo o qual os políticos são desinformados, é a mola
propulsora para que determinados efeitos discursivos sejam produzidos, e isso nos é
apresentado também por meio de enquetes:
Quadro 4 – “Você acha que os políticos são bem informados?” (dia 09/03/09)
C1
C2
DG: Você acha que o político brasileiro
é bem-informado?
Mulher: Não.
C3
C4
DG: Você acha que deveriam ser?
Mulher: Claro.
DG: Por quê?
Mulher: A gente não tem que ser?
17
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Levando em conta que, como aponta Pereira (2002:45), os estereótipos são “crenças
sobre atributos típicos de um grupo, que contêm informações não apenas sobre estes atributos,
como também sobre o grau com que tais atributos são compartilhados”, pode-se afirmar que
há uma visão emoldurada da realidade, em função de interesses particulares. Assim, é
semeado um campo propício para a investigação das enquetes do CQ, uma vez que se
considera – pelo estereótipo criado pelo quadro – que os políticos não são informados.
Após a vinheta, no início das enquetes do CQ, somos lembrados (ou informados
ineditamente) de um fato ocorrido durante a semana em que as enquetes são realizadas, como
se pode verificar a partir da sequência a seguir:
Quadro 5 – “O que significa ENEM?” (dia 06/04/09)
C1
C2
C3
DG: Olha só essa notícia, olha
só...
...o MEC tá propondo substituir
o vestibular da universidade
federal por um novo ENEM.
C4
C5
ENEM todo mundo sabe o que
é que é, né? Exame Nacional
de Ensino Médio.
Também que não souber...
Visando a um contrato velado de parceria, DG informa aos telespectadores o conteúdo
da notícia que será base do questionamento acerca do significado da sigla ENEM. Tal notícia
tanto é narrada no modo off (em que não há exibição do narrador), quanto é apresentada pela
18
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
reprodução do gênero notícia, nesse caso. Entretanto, são variados os gêneros que são
utilizados para esse fim, como pode ser observado adiante:
Quadro 6 – Diversidade de Gêneros nas Enquetes
GÊNEROS
PERGUNTAS
1.
Mapa a partir de uma
visão de um radar
“Onde fica
Guantánamo?”
(Exibido dia 09/03/09)
2.
Manchete de notícia
(Exibido dia 09/03/09)
3.
Placar informativo
(Exibido dia 06/04/09)
a)
Quantos
ministérios
o
governo tem
ligados
à
Agricultura?
b)
Qual o nome
dos ministros
ligados
à
Agricultura?
c)
Quantos
ministros
o
governo tem?
19
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
4.
“Do que trata a Lei
Maria da Penha?”
Painel e panfleto.
(Exibido dia 29/06/09)
5.
Manchete de notícia
“Que países formam
os BRICs?”
(Exibido dia 29/06/09)
6.
Acróstico
(Exibido dia 29/06/09)
7.
Anúncio
“Você tem a ficha
limpa?”
(tipo “Procura-se”)
(Exibido dia 12/10/2009)
20
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Vinheta, mapa, manchete de notícia, placar informativo, painel, panfleto e anúncio
são alguns dos gêneros utilizados como fio para tecer a enquete. Isso indica que há vários
gêneros que se entrelaçam para construir novos gêneros, que funcionam conjunta e
estrategicamente. Para Koch e Elias (2006), as pessoas desenvolvem uma competência
metagenérica, que orienta nossas práticas comunicativas e nossa compreensão a respeito dos
gêneros produzidos. Essa noção permeia a visão de Bakhtin (1997), segundo o qual
moldamos nossa fala à estrutura do gênero, que às vezes é mais suscetível à plasticidade e à
criatividade, como um anúncio publicitário, às vezes é mais rígido e estereotipado, como as
notas fiscais. Para o teórico russo, desde o início de uma conversa mais corriqueira, por
exemplo, já somos sensíveis ao discurso como um todo; no decorrer da conversa, no entanto,
ficarão mais ‘evidentes’ as diferenciações. Bazerman (2006:87) demonstra compartilhar de
visão semelhante ao afirmar que:
nossa originalidade e nossa habilidade como escritores advêm das novas
maneiras como juntamos essas palavras [que já havíamos usado ou ouvido]
para se adequarem às situações específicas, às nossas necessidades e aos
nossos propósitos específicos, mas sempre dependemos do repertório
linguístico comum que compartilhamos uns com os outros
Assim, esses gêneros utilizados na tessitura do gênero enquete revelam que os
produtores das enquetes do CQ pressupõem que os leitores/telespectadores, pela competência
metagenérica, reconheceriam a estrutura, a composição, o conteúdo desses gêneros, mas
também perceberiam que a presença deles não é aleatória: todos foram utilizados para a
produção do gênero enquete. Como qualquer gênero, as enquetes não são definidas por sua
forma, mas por sua função, tendo em vista que são compostas, por exemplo, pela estrutura
pergunta-resposta, como as de uma entrevista, mas diferenciam-se dessas pela função, ou seja,
os questionamentos feitos aos políticos, com base em alguma informação recente e
importante, têm o intuito de verificar se os políticos são informados e se são, portanto, bons
representantes do povo, pela proposta do CQ. Veremos, entretanto, que no caso específico das
enquetes desse quadro, há “punições” específicas para aqueles que não atenderem às
expectativas, sendo expostos ao ridículo e ao escárnio publicamente.
Como vimos, a noção de gênero é imprescindível para a análise de qualquer texto,
independentemente de sua configuração multimodal. Além disso, atentamos para o fato de
todo texto dialogar com outros que já foram produzidos ou que serão construídos, como foi
possível apreender da afirmação de Bazerman que vê a originalidade como dependente da
21
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
relevância das conexões que fazemos a partir dos textos. Tais conexões, nas enquetes de
nosso estudo, operam não só no que diz respeito ao linguístico, mas também no âmbito
sonoro e pictórico. Sobre esse aspecto e sobre a importância de ser reconhecer tais conexões,
discorreremos no próximo tópico.
1.2.
INTERTEXTUALIDADE E INTERICONICIDADE NAS ENQUETES
Partindo do pressuposto que a compreensão é um processo inferencial, o que exige
leitores colaborativos na construção dos sentidos de um texto, necessariamente, encara-se o
texto como um produto da interação entre os interlocutores, não como um conjunto de
sentidos pré-estabelecidos pelo autor. No entanto, todo texto apresenta sinalizações, em graus
de explicitude4 variados, que nos remetem a outros textos. Todo dizer é um já-dito e prepara
um sem-número de dizeres por vir, sempre sócio-historicamente situados. Para Bakhtin e
Voloshinov (2004), enunciar é sempre responder (não necessariamente de forma verbal
imediata) a outros enunciados já produzidos. Por essa razão, mesmo que os enunciados sejam
provenientes de um único interlocutor, eles são, necessariamente, dialógicos. Levando em
conta esse fato, atentemos para a sequência que segue:
Quadro 7 – “Qual o nome dos ministros da Agricultura e da Aquicultura?” (dia 06/04/09)
C1
C2
C3
DG: o senhor sabe qual o
nome
do
ministro
da
Aquicultura?
NR: não sei. [som: uma corda de
um instrumento musical que se
rompe]
NR: Ministro Reinhold
Stephanes
[som: tilintar metálico]
DG: E o da Agricultura?
4
“Explicitar é oferecer uma formulação discursiva de tal modo que contenha em si as condições de
interpretabilidade adequada ou pretendida” (Marcuschi 2007:40).
22
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
C4
DG: e do Desenvolvimento
agrário?
NR: é... eu não sei
(provavelmente, a enquete foi
gravada às16h)
C5 .
C6
NR: Mas eu sou deputado de
oposição; tenho procurado, aqui,
fazer a fiscalização do governo.
[som: de um caractere ou cursos
típico de digitação piscando no
computador]
C7
C8
C10
DG: o senhor vai fiscalizar quem
o senhor não conhece? [som: de
alerta de emergência] (a luz
vermelha acende e apaga
C11
C9
(a cabeça do personagem fica
deformada)
[som: algo sendo engolido
dificilmente]
23
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
O deputado federal Nárcio Rodrigues (PSDB – MG), afirmou não saber o nome de
dois ministros, o da Aquicultura (e Pesca) e o do Desenvolvimento Agrário, no entanto
preocupa-se com a fiscalização do governo, o que soa incoerente, uma vez que o deputado
nem mesmo sabe o nome dos ministros do governo do qual faz parte. Essa incoerência é
reprovada não só pelo questionamento de Danilo Gentili (“o senhor vai fiscalizar quem o
senhor não conhece?”), mas também pelos recursos semióticos do modo imagético e sonoro.
No entanto, para ler essa reprovação é preciso recuperar os textos anteriores a essa enquete. A
partir de C5, surge a imagem de um computador antigo, que apresenta um cursor próprio para
digitação piscando na tela, em sintonia com o som característico. Alguns momentos depois,
uma luz vermelha, típica de situações de emergência, começa a piscar nas cenas (mais uma
vez, juntamente com um som também típico de momentos de urgência). É possível apreender
que há uma situação de perigo, de emergência aludida, mas a leitura mais abrangente exige a
recuperação de um importante intertexto (termo que será melhor explicado mais adiante).
Há a imagem de um homem que, por conhecimento arquivado em nossas memórias,
refere-se ao personagem John Locke, do seriado americano Lost5. Tal personagem tinha a
missão de, estando em uma ilha misteriosa, após um acidente aéreo, digitar uma sequência
numérica, em um computador, todas as vezes que um sinal sonoro fosse ativado. O alarme
sonoro era ativado quando um contador, em contagem regressiva a partir de 108 minutos,
chegava à marca de 4 minutos. Digitar os números significava reiniciar o contador, que
voltava aos 108 minutos iniciais, evitando que houvesse uma “falha no sistema”, quando
alguns hieróglifos surgiriam no lugar dos números.
Essa leitura é coerente com a contagem regressiva (C5 a C7), em consonância com o
piscar do caractere do computador. Quando o contador é zerado, há símbolos nãoidentificáveis, que se associam aos hieróglifos da série, o que denuncia que a “missão” não foi
cumprida. Associada à deformação da cabeça e ao som de algo sendo engolido dificilmente –
o que, ao longo do programa, foi convencionado com o valor de embaraço –, a imagem do
personagem do seriado, na enquete, dialoga com a imagem do deputado que, igualmente, não
desempenhou bem seu papel.
O termo intertextualidade, contudo, não aparece em Bakhtin e em seu Círculo. O
termo é cunhado por Kristeva, em estudo sobre a originalidade nos textos literários, em que
defendia que “todos os textos são um mosaico de citações” (apud Koch, 2006:86) de outros
dizeres. Segundo Marcuschi (2008), a noção de intertextualidade sai da literatura e estende-se
5
Informação disponibilizada no site LOSTpédia:<http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/Apertar_o_Bot%C3%A3o>
24
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
para o tratamento do texto em geral. O autor afirma que Genette (1982) amplia a noção de
intertextualidade, usando a expressão “transtextualidade”, que se divide em vários tipos:
a) intertextualidade, que supõe que um texto está presente em outro (por citação, alusão,
menção etc.);
b) paratextualidade, que se refere ao entorno do texto (título, prefácio etc.);
c) arquitextualidade, em que o texto estabelece relação com as classes às quais pertence
(um letra de Chico Buarque está em relação de arquitextualidade com as letras de
música, com as canções de MPB etc.);
d) hipertextualidade, que diz respeito a fenômenos como a paródia, o pastiche etc.
Koch (1991), citada por Marcuschi (2008:131), refletindo sobre a relação entre o
conceito bakhtiniano de polifonia e o conceito de intertextualidade (que não se equivalem),
afirma
que,
de
maneira
ampla,
intertextualidade
pode
equivaler
à
noção
de
6
interdiscursividade , uma vez que é “condição de existência do próprio discurso”. No entanto,
segundo Koch (2006:86), de forma estrita, a intertextualidade ocorre quando um texto,
anteriormente produzido (intertexto) e pertencente à memória social de uma coletividade, está
inserido em outro e pode se manifestar explicita ou implicitamente. A primeira forma ocorre
quando há “citação da fonte do intertexto”, como acontece em relatos, citações, referências,
dentre outros. O segundo caso, ao contrário, não apresenta citação, cabendo ao leitor
recuperar em sua memória o intertexto necessário para a leitura. Essa distinção é semelhante à
distinção proposta por Authier-Revuz (1982), construída a partir do dialogismo bakhtiniano e
da teoria psicanalítica de Lacan: heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva.
Enquanto a primeira diz respeito ao processo de retomada do discurso do outro por meio da
utilização de marcas tipográficas, como aspas ou itálico – como a intertextualidade explícita
de Koch –, a segunda compreende o processo de retomada pelo qual não é possível, a partir de
marcas linguísticas visíveis na materialidade do texto, perceber o discurso alheio que é, então,
incorporado ao próprio discurso – a intertextualidade implícita.
6
Neste estudo, não nos dedicamos a discutir esse distinção, mas assumimos – tomando o conceito de
intertextualidade de maneira mais ampla, como ensina Koch – que intertextualidade equivale à
interdiscursividade, o que difere da posição assumida por Fiorin (2006) que distingue os dois termos. Para o
autor, “o termo intertextualidade fica reservado apenas para os casos em que a relação discursiva é materializada
em textos, (...) quando a relação dialógica não se manifesta no texto, temos interdiscursividade, mas não
intertextualidade.” (FIORIN 2006:181). O autor reconhece que a concepção de intertextualidade que adota é
“bastante restrita – nada tem a ver com o uso frouxo que se vem fazendo dela” (ibid: 184) e que ela pode ser
ampliada. Levamos em conta que esse termo é amplo e não se restringe à ‘materialidade linguística’. Pensamos
que ‘texto’ congrega diversos modos semióticos, engendrados na produção de sentido.
25
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Em um estudo recente sobre a intertextualidade em videoclipes, Mozdzenski (2009)
critica o que ele considera uma típica classificação dicotômica – em intertextualidade
explícita x implícita, intertextualidade manifesta x constitutiva7, heterogeneidade mostrada x
constitutiva –, dentre outras, afirmando que há, pelo menos, três problemas decorrentes disso:
a) a intertextualidade é vista em blocos bem-definidos, agrupados em categorias
como ‘alusão’, ‘citação’ etc.;
b) as classificações dicotômicas recorrem, em boa parte, a categorias também
dicotômicas;
c) os critérios para o agrupamento de cada tipo de intertextualidade em uma categoria
não são explicitados.
Em função dessa constatação, Mozdzenski (2009) propõe um outro olhar sobre a
intertextualidade, atentando para a necessidade de observar esse fenômeno em um continnum,
tanto no que diz respeito à forma que a intertextualidade pode assumir quanto no que diz
respeito à função que ela desempenha no novo contexto, ao posicionamento da voz reportada.
Quanto à forma, baseia-se no grau de explicitude do texto-fonte, ou seja, na quantidade de
informações fornecidas para que o texto possa ser interpretável. Assim, haveria uma gradação
entre um “texto-fonte não mencionado” e um “texto-fonte expressamente citado”. Quanto à
função, por sua vez, o continnum transitaria da “desvalorização da voz do autor do textofonte”, por afastamento, para “autorização da voz do autor do texto-fonte”, por aproximação.
Como lembra o autor, essa noção de vozes que habitam o discurso é proveniente do
conceito de polifonia de Bakhtin e seu Círculo. O que caracteriza a polifonia é a posição do
autor como regente de uma orquestração de vozes contraditórias, irônicas, concordantes etc.
que participam do processo dialógico. No que se refere aos textos da esfera jornalística, por
exemplo, Moirand (2003) afirma que as informações que são difundidas nos textos midiáticos
não são produzidas apenas pelo próprio jornalista, mas são “transportados, filtrados e
reformulados pelos dizeres das diversas comunidades de linguagem convocadas” (2003: 86).
Segundo a autora, a textura enunciativa particular das mídias reflete a presença do que ela
chama de intertexto plurilogal, em que são inscritas na superfície dos textos várias vozes e
segmentos verbais impregnados de diferentes universos, de vários mundos convocados.
Longe de querer trazer essa discussão, ampla demais para este espaço, consideramos essa
proposta de continnum uma válida alternativa para tratar esse fenômeno tão complexo.
7
Ao usar essa terminologia, Mozdzenski (2009) refere-se à distinção proposta por Faiclough, em Discurso e
Mudança Social.
26
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
No entanto, um aspecto muito interessante sobre esse fenômeno é fato de não ser uma
particularidade do texto verbal. Entre suas diferentes manifestações, a intertextualidade pode
ocorrer entre imagens. Arbex (2000) propõe o termo intericonicidade, que, provisioriamente,
pode ser definida “nos mesmos termos que o conceito de intertextualidade, ou seja, como o
processo de produtividade de uma imagem que se constrói como absorção ou transformação
de outras imagens”. A autora, em análise da produção artística-poética de Max Ernst, afirma
que a colagem é uma ‘alquimia visual’, ‘o milagre da transfiguração total dos seres’, uma vez
que cada recorte ‘perde’ sua individualidade, uma vez que passam a trabalhar conjuntamente,
para uma produção de sentido. Dessa forma, assim como queria Bakhtin para o texto literário,
“a intericonicidade está ligada ao contexto social no qual ela se insere, sendo marca não
somente da história e da ideologia, mas também da estética.” (ARBEX, 2000).
Vejamos como se configura esse fenômeno em nosso corpus, tendo em vista a
sequência abaixo:
Quadro 8 – “Do que trata a Lei Maria da Penha?” (dia 29/06/09)
C1
C2
DG:
uma
peça-chave
na
campanha para melhorar a
imagem do congresso
C3
...é a Lei Maria da Penha.
C4
C5
C6
Essa lei inclusive tá exposta
aqui dentro da câmara dos
deputados de diversas formas.
Tem o cartaz, tão entregando
folhetinho pra tudo que é lado...
Quem
aprovou
essa
lei,
inclusive, foram os deputados.
Essa lei é muito importante,
todo mundo conhece ela, fala
sobre a agressão,
27
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
C7
C8
C9
protege a mulher de agressão
doméstica
DG: já fazem uns três anos que
vocês aprovaram a lei da Maria
da Penha, certo? Mas essa lei...
Ainda não tá funcionando
direito em alguns lugares do
país. Você tem ideia por quê?
[som de algo sendo engolido a
seco, com dificuldade]
[som de freio]
Todo mundo conhece essa
lei.Será que conhece?
C10
C11
C12
JB: olha, isso vai da cabeça da
mulher, né? ...acho que se a
mulher sofre maus-tratos em
casa, tem que partir pra outra.
Eu nunca bati em mulher
nenhuma...
...ou melhor, quase uma vez,
bati numa mulher, aqui, sim.
Uma tal de Maria do Rosário.
Que ela me acusou aqui de ser
estuprador.
C13
C14
[som: socos]
Quase dei um cacete nela,
aqui.
...merecia.
A enquete acima gira em torno da Lei Maria da Penha, em função de uma notícia
intitulada “Onde a Lei Maria da Penha Ainda Não Chegou”, veiculada no jornal O Globo,
segundo a qual ainda há lugares no Brasil em que não há mecanismos eficazes para que a lei
28
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
seja cumprida. Tal informação não só é mencionada, como sua fonte é apresentada,
explicitamente, na enquete, como pode ser observado em C9. Sua inserção não é aleatória:
tem como objetivo apresentar um argumento de autoridade, reportando a voz de um texto
publicado em um suporte de grande circulação nacional. Assim, quanto à função, verifica-se
que há uma proximidade maior com a voz do texto-fonte.
Voltando às cenas 6 e 7, atentemos para a imagem do cantor, apresentador de TV,
vereador (PCdoB - SP) Netinho de Paula, reconfigurada em miniatura, com paletó e gravata –
como tipicamente se veste, sobretudo, sendo figura política –, mas com luvas-de-boxe, o que
destoa de seu figurino, mas associa-se à temática abordada: violência doméstica. Em 2005, a
mulher de Netinho de Paula (não era vereador nesse período) fez um boletim de ocorrência
acusando o cantor de ter-lhe agredido com socos durante a madrugada8. Além disso, o
apresentador agrediu com socos um dos integrantes de um programa televisivo, durante
entrevista, no evento "Troféu Raça Negra”.
A imagem de Netinho de Paula tem sua cabeça deformada e, associada a essa
deformação, há um som de algo sendo engolido dificilmente. Esse é um recurso semiótico
convencionado nas enquetes, das quais discorremos no próximo capítulo, que possui um valor
semântico de embaraço. Isso se justifica, neste caso, pelo fato de o cantor ficar constrangido,
perturbado com a existência da lei que prevê pena, justamente, para aquelas pessoas que
cometerem agressão doméstica contra mulheres. Essa informação não foi mencionada na
enquete, mas foi feita uma alusão a ela, por meio dos indícios que apresentamos. Quanto à
função, a imagem do Netinho de Paula foi apresentada, juntamente com o efeito do recurso
semiótico descrito (som de algo sendo engolido dificilmente e a cabeça em deformação), com
intuito de reprovar a atitude agressiva que protagonizou.
Atentando para C12 e C13, vemos a imagem da atriz Luana Piovani, em uma
montagem, em que sua cabeça está acoplada a um corpo tipicamente masculino, musculoso e
de um lutador de boxe, o que pode ser verificado pela vestimenta padrão desse tipo de luta
(bermuda longa e luva). Há ainda outra referência ao âmbito do boxe: a atriz está usando a
mesma bermuda utilizada pelo personagem Rocky Balboa, do filme Rocky, interpretado pelo
ator americano Sylvester Stallone, referência possível pelo nome escrito no cós da bermuda e
pela ativação de conhecimentos prévios:
8
Fonte
das
notícias:
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u105085.shtml>
<http://noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2010/11/19/vesgo-ganha-indenizacao-de-r-44-mil-doapresentador-netinho-por-soco.jhtm>
e
29
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
Quadro 9 – Intertexto Boxeador Rocky
Ao contrário do que ocorreu com Netinho de Paula, Luana Piovani foi vítima de uma
agressão doméstica, em 2008, por parte do seu antigo noivo, também ator, Dado Dolabella9.
Da mesma forma, essa informação foi aludida na enquete. Recuperar esse intertexto é
necessário para compreender, por exemplo, o porquê de a montagem em miniatura de Luana
Piovani dar vários socos no deputado federal Jair Bosonaro: esse recurso confere um valor
semântico de reprovação ao fato de o político ter afirmado que uma mulher (Maria do
Rosário) do Congresso tinha ‘merecido’ levar uns ‘cacetes’. Além disso, associar Luana
Piovani ao personagem Rocky confere a ela o status de vencedora, uma vez que Rocky
Balboa, nas lutas dos filmes, sempre vencia. Essa leitura reforça a ideia de reprovação à
atitude do político, do próprio Dado Dolabella e do Netinho de Paula.
Vejamos mais um exemplo de como opera a intericonicidade:
Quadro 10 – Enquete sobre o “caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09)
9
C1
C2
C3
RC: Se um dos seus filhos vai
pra faculdade usando uma
minissaia vermelha,
...que nem a Geyse Arruda,
como é que ele é recebido em
casa pelo Jair Bolsonaro?
JB: desde o começo, né, eu
tenho ameaçado, mas se usar
brinco, eu corto a orelha. [som
de uma música desafinando
com um badalo no final]
Fonte da notícia: <http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/dado-dolabella-e-condenado-por-agredir>
30
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
C4
C5
C6
... (?) Eu corto logo a orelha
...democracia lá fora...
...aqui na minha casa, não.
C8
C9
pra não ter dúvida.
C7
JB: chega de democracia, tanta
democracia.
Democracia e vaselina demais
atrapalha, você sabe disso,
né?
Você sabe disso? Tá ligado?
RC: já que tá me ensinado aí, eu
tô aprendendo. [som de vozes
dizendo ‘uhh’]
[som: vozes em tom de
questionamento ‘quê’, com ‘e’
prolongado]
O Brasil tá na situação que tá
hoje dada as políticas de
direitos humanos. É!
Em C7, há a sobreposição de um bigode na imagem do deputado federal Jair
Bolsonaro. Tal recurso pictórico, isoladamente, poderia tanto fazer referência a Charles
Chaplin ou a Hitler, por exemplo:
Quadro 11 – Intertexto relacionado ao Bigode
Charles Chaplin
Adolf Hitler
31
CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?
No entanto, tendo em vista o contexto em que tal recurso surge, a enquete dialoga com
a imagem do ditador alemão, levando em consideração que o deputado faz várias observações
negativas sobre a democracia, inclusive, atribuindo os problemas do Brasil à existência das
políticas de direitos humanos, o que permite a associação desse político com as ideias de
extermínio nazistas, por exemplo – o que não é forçoso admitir, uma vez que, diante das
diferenças (como o fato de um filho seu usar brinco), o deputado defende a violência, em prol
do predomínio de sua vontade.
Como demonstramos, a noção de intertextualidade – e, por extensão, a de
intericonicidade – é de extrema importância para a compreensão dos textos, principalmente,
levando em conta seu caráter multisemiótico. Isso revela que é preciso atentarmos para as
potencialidades dos diversos modos que compõem esses textos. Sobre isso, discutiremos no
capítulo a seguir.
32
CAPÍTULO II
MULTIMODALIDADE: CENÁRIO TEÓRICO
N
ão é raro nos depararmos com afirmações segundo as quais a comunicação
vem tornando-se cada vez mais visual – lembrando, como ressaltam Kress e
van Leeuwen (2006:17), que a escrita é também uma forma de comunicação visual. Os
autores lembram que, por muito tempo, na cultura ocidental, houve uma preferência por uma
aparente ‘monomodalidade’, em que uma grande quantidade de gêneros escritos era formada
inteiramente por densas páginas de impressão, sem ilustrações, uniformizadas graficamente,
não importando seu conteúdo ou seu estilo (Kress e van Leeuwen, 2001). Igualmente
‘monomodais’, então, tornaram-se as disciplinas teóricas, como a Linguística dedicada a tratar
da língua, a História da Arte discorrendo sobre a arte, a musicologia, sobre a música, entre
outras, cada qual com seus métodos e vocabulários próprios.
Entretanto, como afirmam Kress e van Leuween (2001:1), “mais recentemente, essa
dominação da monomodalidade tem tornado-se reversa”10, uma vez que há um percurso sendo
trilhado pelos textos, que vêm passando a ser, cada vez mais, visualmente informativos, o que
põe em cheque as abordagens teóricas, sobre o estudo das relações interativas mediadas pela
linguagem, as quais não levem em conta esse aspecto. A esse respeito, Bernhardt (2004), no
artigo Seeing the Text, afirma que os textos escritos são organizados em um continuum
compreendido entre textos com pouca informação visual e textos com informações
visualmente substanciais. Para o autor, os parágrafos, as margens, a capitalização etc.
certamente fornecem alguma informação ao leitor, mas cada informação é extremamente
limitada, com a maior parte das pistas, como a organização e as relações lógicas, “enterradas
no texto”. O autor argumenta que a maneira como os textos visualmente informativos
realizam controles retóricos é bem diferente dos não-visualmente informativos, em vários
níveis de organização (das sentenças dispostas em parágrafos até todo o discurso) e ainda
afirma que os textos produzidos para audiências públicas adotam, geralmente, estratégias
visualmente informativas, justamente por sinalizarem para o leitor uma “representação gráfica
da organização cognitiva” (Bernhardt (2004:95).
Contudo, a mudança preponderante no que diz respeito à comunicação e à
representação refere-se à reconfiguração do papel segregado dos diferentes modos semióticos,
10
Esta tradução, assim como as demais, é de nossa responsabilidade.
33
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
que passaram a ser vistos em uma composição. Dessa mudança no panorama comunicativo e
do fenômeno multimodal, trataremos no tópico a seguir.
2.1.
MULTIMODALIDADE: AJUSTANDO O OLHAR ANALÍTICO
A multimodalidade, segundo Hartmut Stöckl (2004:09), está “ganhando terreno
acadêmico” atualmente, no que ele chama de uma ‘descoberta tardia do óbvio’, tendo em
vista que ela indica um fenômeno tão antigo quanto a própria representação e que é
fundamental para a compreensão de todas as formas de comunicação.
Para o autor, o fenômeno multimodal refere-se “aos artefatos e processos
comunicativos que combinam vários sistemas de signos (modos) e cujas produção e recepção
recorrem a comunicadores para inter-relacionar, semântica e formalmente, todos os
repertórios de signo apresentados”. (Stöckl, 2004:09). A multimodalidade, como pontua
Jewitt (2009), descreve justamente as abordagens que compreendem a comunicação e a
representação como sendo não só relacionadas à língua, mas como relacionadas a toda série
de formas comunicacionais que as pessoas usam (como gesto, postura, imagem etc.) e à
relação entre elas. Nessa perspectiva, também se situam Kress e van Leeuwen (2006), para
quem não nos comunicamos apenas por um modo11, pela língua, por exemplo, mas
multimodalmente por meio das combinações das imagens, do som, da escrita, da fala etc.
Segundo Kress (2009: 54), essa é a rota trilhada pela semiótica social para a representação
multimodal, na medida em que a língua não é considerada dominante ou central, capaz de
expressar todos os significados, mas apenas um modo entre outros para produção de sentido.
Dessa forma, uma abordagem multimodal e semiótica social “começa a partir da posição que
comunicação visual, gesto e ação têm evoluído através de seus usos sociais em sistemas
semióticos articulados ou parcialmente articulados da mesma maneira que a linguagem.”
(KRESS et al., 2001: 44)
Kress e van Leeuwen (2006: 19) tomam como base a ideia de que língua e
comunicação visual podem, ambas, ser realizadas pelos ‘mesmos’ sistemas de sentido
fundamentais que constituem nossa cultura, mas cada uma constrói sentidos diferentemente,
por meio de suas próprias formas. Por exemplo, segundo os autores, apenas através da língua
é possível usar orações que indicam processos mentais (como “eu acredito...”, para usar o
11
Mais adiante trataremos desse conceito, dentro da perspectiva multimodal que adotamos, mas de antemão
adiantamos que para algo ser considerado um modo é preciso que haja “um senso cultural compartilhado do
conjunto de recursos e de como estes podem ser organizados para realizar sentidos.” (JEWITT 2009, 22)
34
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
exemplo utilizado por eles), ao passo que, só por meio de imagens, é possível conferir
superioridade a uma pessoa, através da perspectiva12 (com uma angulação vertical). Da
mesma forma, na escrita, é possível enfatizar algum termo com o uso do negrito, enquanto, na
fala, pode-se recorrer à entonação. Para dar “ênfase”, neste caso, cada modo dispõe de
característicos específicos.
Os autores também defendem que as formas da língua e da comunicação visual vão
desenvolvendo-se em resposta às mudanças sociais e expressam sentidos pertencentes às
culturas de uma dada sociedade. Quanto a isso, os autores chamam atenção para as
possibilidades e limitações de sentido em cada caso, o que significa que nem tudo que pode
ser realizado pela língua, também pode ser realizado pelas imagens, e vice-versa. Essa
preocupação também aparece no artigo intitulado Multimodality, Multimedia, and Genre
(2003:39), em que Kress interroga se “há sentidos sociais que podem ser realizados no modo
da imagem, mas não podem ser realizados no modo da fala ou da escrita” e, mais
especificamente, reformula a questão: “como as imagens representam relações e interações
sociais?”. Para o autor, toda representação e toda comunicação deve ser carregada por
sentidos sociais, além de ser ‘genericamente moldada’ (realizada em gêneros), uma vez que
‘sentido’ é “inevitável e necessariamente realizado diferentemente em diferentes modos”.
Além disso, conforme explicam Kress et al (2001), todos os modos de comunicação
desenvolvem-se e alteram-se segundo as demandas sociais; assim, novos são criados e modos
existentes são modificados.
Atentando para esses aspectos da representação e da comunicação, Jewitt (2009)
afirma que há quatro suposições teóricas interconectadas que sustentam a multimodalidade:
a) a língua é parte de um conjunto multimodal;
b) cada modo em um conjunto multimodal é realizado por meio de trabalhos
comunicativos diferentes;
c) os sentidos são orquestrados pelas pessoas através da seleção e da configuração dos
modos; e
d) os sentidos dos signos formados a partir de recursos semióticos multimodais são,
assim como a fala, sociais.
12
“No desenho artístico a perspectiva pode ser definida como um recurso gráfico que utiliza o efeito visual de
linhas convergentes para criar a ilusão de tridimensionalidade do espaço e das formas quando estas são
representadas sobre uma superfície plana como a do papel de desenho.” (Disponível em:
http://www.sobrearte.com.br/desenho/perspectiva/index.php)
35
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Quanto à primeira premissa, a autora afirma que a multiplicidade de modos apresenta
um potencial para contribuir igualmente para o sentido, ao contrário de outras perspectivas
teóricas que encaram a língua como o modo mais significativo da comunicação, em especial
nos contextos de ensino e aprendizagem. Em perspectivas como essas, gestos e imagens, por
exemplo, são considerados como instrumentos, respectivamente, para a fala e para a escrita,
modificando ou reforçando o que é dito. São vistos como “não-verbais”, “paralinguísticos”.
No entanto, conforme ressalta Jewitt (2009), em uma perspectiva pautada pela
multimodalidade, a língua é um modo, dentre outros em um conjunto multimodal.
No que tange o segundo pressuposto, a multimodalidade leva em conta que os modos
têm sido emoldurados pelos usos históricos, sociais e culturais para a realização de funções
sociais. Dessa forma, todas as ações comunicativas são constituídas pelo social e cada modo,
tanto o imagético quanto outros não-linguísticos, assumem papéis específicos em contextos
específicos. Esses papéis, reforça Jewitt (2009), “não são fixados, mas articulados e situados”.
Pela terceira afirmação, quanto à seleção e à configuração dos recursos semióticos
como decisivas para a produção de sentidos, a autora parte da ideia de que a interação entre os
modos também é significante, já que os diversos modos envolvidos no evento comunicativo
combinam-se para representar o sentido da mensagem, mas não o fazem necessariamente de
maneira uniforme. Assim, dois modos podem ser complementares ou contraditórios. A
investigação multimodal, assevera Jewitt (2009), preocupa-se com a interação dos modos
tanto para observar o trabalho específico deles quanto para analisar como interagem e
contribuem com outros conjuntos multimodais.
Quanto à quarta premissa, a autora afirma que os sentidos tomam forma segundo as
normas e regras operadas no momento da produção de sentidos, baseadas nos propósitos e
interesses do produtor, em um dado contexto social. Portanto, os sentidos são selecionados,
adaptados e reconfigurados através dos processos de leitura e interpretação do recurso
semiótico. Conforme pontua a estudiosa, “a teorização dos recursos intersemióticos é um
aspecto-chave da multimodalidade”, afirmação que dialoga com o conceito de coesão
multimodal (van Leeuwen, 2005), que diz respeito aos diferentes tipos de recursos semióticos
que são integrados para formar um texto multimodal e eventos comunicativos, por meio do
ritmo, da composição, da vinculação de informação e do diálogo.
Jewitt (2009) ainda destaca cinco conceitos-centrais para análises multimodais que
estão em mudança: modo, recurso semiótico, affordance modal/potencial de sentido,
materialidade e metafunções. Para a autora, o modo é entendido, na perspectiva de uma
semiótica social, como o “resultado de uma modelagem cultural de um material” (2009:21), o
36
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
que está em sintonia com o que afirma Kress (2009), segundo o qual, o modo é um recurso
para a produção de sentido dado culturalmente e moldado socialmente. Dessa forma, esse
autor explica que, partindo-se de uma abordagem socialmente orientada, se uma determinada
comunidade utiliza cor ou fonte com regularidade, consistência e com suposições
compartilhadas acerca da produção dos significados, então, tem-se um modo.
A respeito dos recursos semióticos, Jewitt afirma ser uma noção central para
multimodalidade, assim como van Leeuwen (2005) que conclui ser essa a expressão-chave de
uma semiótica social. Conforme pontua este autor (2005:08), os recursos semióticos carregam
(por serem realizados socialmente) as “regularidades discerníveis das ocasiões e dos eventos
sociais” e, portanto, também uma certa estabilidade13 (variável de acordo com as mudanças
sociais). Essa noção é proveniente do trabalho de Halliday, segundo o qual a gramática de
uma língua é formada, não por regras a serem seguidas para que seja possível construir
sentenças corretas, mas por recursos que permitam a produção de significados (Halliday 1978
apud van Leeuwen, 2005).
Van Leeuwen (2005:285) descreve recursos semióticos da
seguinte maneira:
“as ações e artefatos que usamos para comunicar, sejam eles produzidos
fisiologicamente – com nosso aparato vocal; com os músculos que nós
usamos para criar expressões faciais e gestos, etc. – seja por meio da
tecnologia – com caneta, tinta e papel; com hardware e software do
computador; com tecidos, tesouras e máquinas de costura, etc.”
O autor ainda lembra que os recursos semióticos apresentam um potencial de sentido,
baseados em seus usos passados, e um conjunto de affordances14, baseados em seus usos
possíveis, que são ‘atualizados’ em contextos sociais concretos de uso. Com uma sutil
diferença quanto ao foco, Kress (1993 apud Jewitt 2009:24) usa “affordance modal” para se
referir ao que “é possível expressar e representar facilmente com um modo”. Em síntese,
affordance nos termos de Kress e potencial de sentido de um modo de van Leeuwen dizem
respeito a como um modo tem sido usado para significar, em dado contexto.
Kress (2009) ainda destaca a importância da materialidade de um modo, que diz
respeito ao efeito do modo em relação à fisiologia da recepção física, corpórea, e à produção
13
Os modos e recursos semióticos apresentam uma relativa estabilidade, em função das convenções retóricas,
estabelecidas sócio-historicamente, que conferem variados status – como de confiabilidade – ao serem utilizadas.
Mais adiante traremos dessas convenções retóricas e de sua natureza inerentemente social, a partir das
considerações de Kostelnick e Hasset (2003).
14
Termo originado do trabalho de Gibson (1977), sobre a percepção cognitiva. Indiscriminadamente, também é
referido, no presente estudo, como “possibilidades”.
37
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
de sentidos. Segundo o autor, cada modo apresenta seu canal fisiológico de recepção sensorial
e é capaz, em tese, de ser desenvolvido culturalmente, como é o caso do Braille. Essa
consideração, pondera o autor, apresenta implicações, uma vez que possibilidades de sentido
do som, por exemplo, diferem das da visão ou do toque.
No que se refere ao quinto termo-chave listado por Jewitt (2009) – metafunção –,
fortemente associado à Gramática de Design Visual, proposta de Kress e van Leeuwen
(2006), levemos em conta o próximo tópico.
2.2.
A GRAMÁTICA DE DESIGN VISUAL (GDV)
Atentemos, primeiramente, para a posição assumida por Kress e van Leeuwen (2006),
segundo a qual os recursos de representação sinalizam, assim como na língua, algumas
regularidades que podem ser descritas de maneira relativamente formal. Kress e van Leeuwen
chamam isso de ‘gramática’ da comunicação visual, através da qual seria fornecida uma
descrição das escolhas semióticas possíveis, bem como os padrões que governam essas
escolhas, em um todo significativo. Essa abordagem difere da maioria das descrições das
semióticas visuais, uma vez que, como frisa Machin (2007), estas se orientam pelo léxico, em
que são levados em conta os signos individuais, com sentidos previamente fixados. Para a sua
abordagem pautada pela ‘gramática’, Kress e van Leeuwen adotam o modelo funcionalista
dos estudos linguísticos, que foi desenvolvido pelo inglês Michael A. K. Halliday e chamado
de Linguística Sistêmico-Funcional (doravante LSF). Conforme explicam Furtado da Cunha e
Souza (2007:19), essa abordagem concebe “a teoria da língua enquanto escolha” e a língua é
olhada conforme é usada. O que é central, afirmam as autoras, é o fato de a LSF encarar o
funcionamento da linguagem como um processo associado ao contexto de uso e não
isoladamente, regido por um conjunto de regras. Kress e van Leeuwen (2006: 20) justificam a
escolha pela abordagem semiótica social de Halliday, não apenas por ser um trabalho bemsucedido no que diz respeito à língua, mas por constatarem que esse modelo promove uma
reflexão acerca dos diversos processos semióticos e sociais, e de todos os modos de
representação (Kress e van Leeuwen, 2006: 20, grifo nosso).
O ponto de partida da abordagem de Kress e van Leeuwen baseia-se no pressuposto de
Halliday de que os artefatos comunicativos podem ser caracterizados ao longo das dimensões
definidas pelas três metafunções da LSF: ideacional, interpessoal e textual. A metafunção
ideacional “representa/constrói os significados de nossa experiência” (Furtado da Cunha e
38
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Souza (2007:21); os enunciados remetem a eventos e ações de nossa atividade, indicam o
conteúdo ideacional presente nos usos da linguagem. A metafunção interpessoal refere-se aos
papéis dos participantes na interação social; trata dos usos da língua para representar relações
interpessoais. A metafunção textual está ligada à organização dos aspectos semânticos,
gramaticais e formais, funcionando em conjunto no texto.
Kress e van Leeuwen criam um paralelo com cada umas das metafunções e propõem
três correspondentes funções para a Gramática de Design Visual (doravante GDV). Essas
três funções, associadas às de Halliday são as:
ƒ
Representacional (ideacional da LSF), em que estruturas verbais e visuais
controem as naturezas dos eventos, dos objetos e participantes envolvidos e das
circunstâncias em que eles estão. Assim, enquanto na língua os objetos podem ser
conectados como “O professor cumprimentou o aluno”, na comunicação visual,
uma pessoa pode olhar fixamente para um objeto.
ƒ
Interativa (interpessoal da LSF), em que recursos verbais e visuais produzem a
natureza das relações entre falantes/ouvintes, escritores/leitores e videntes/e o que
é visto. Dessa forma, na língua, podemos indicar se estamos fazendo um pedido ou
dando uma ordem e, na comunicação visual, o ângulo vertical de uma câmera, na
direção de cima para baixo, de um pai para um filho, pode indicar uma relação de
autoridade e opressão.
ƒ
Composicional (textual da LSF), em que é considerada a relação entre os
significados representacional e interativo, assim como essa relação se configura
através do valor da informação, da estruturação e da ênfase relativa dada a
elementos textuais ou imagéticos. Dessa maneira, na língua, é possível contar com
a referência e outros elementos coesivos para criar um todo significativo; já na
comunicação visual, uma placa com os dizeres “Proibido proibir”, sobreposta à
imagem de um ditador, confere ênfase ao elemento em primeiro plano.
Essa recontextualização das metafunções propostas por Halliday para as funções da GDV
de Kress e van Leeuwen pode ser esquematizada da seguinte forma:
39
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Quadro 12 – Reconfiguração das metafunções da Linguística Sistêmica-Funcional para a
Gramática de Design Visual
Pessoa olhando
fixamente para
um objeto
Ângulo vertical
indicando
opressão
Placa com
“Proibido proibir”,
sobreposta a um
ditador
Uma vez que objetivamos analisar de que forma os recursos semióticos são
convencionados na enquete, construindo a identidade dos políticos, decidimos focalizar nossa
análise no sistema de significados composicionais, uma vez que a maneira pela qual os
elementos das enquetes são integrados confere coerência ao todo. Assim, no tópico seguinte,
discorreremos mais detalhadamente sobre essa última função, a composicional, recorte deste
estudo.
ƒ
FUNÇÃO COMPOSICIONAL
Conforme afirmam Kress e van Leeuwen (1996: 177), a metafunção composicional se
realiza por meio de três sistemas associados:
a) valor informativo, em que, dependendo da “zona” da imagem onde as elementos se
localizam – esquerda/direita, parte superior/parte inferior e centro/margem –, são
conferidos valores distintos quanto à informação;
b) saliência, em que os elementos são dispostos de modo específico com a finalidade
de atrair a atenção do interlocutor, por meio de vários fatores, como o
40
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
posicionamento em primeiro ou em segundo plano, o tamanho, os contrastes quanto
ao tom, à cor, a luminosidade, à nitidez etc.; e
c) estruturação, em que é levada em conta a presença de elementos, ou grupos de
elementos, conectados ou desconetados da imagem, através de linhas divisórias
apreeendidas da imagem ou linhas do próprio frame dela.
Para os autores, esses três sistemas, por meio dos quais as composições integram os
significados representacionais e interativos, são aplicáveis a qualquer texto visual complexo
ou multimodal. Além disso, é imprescindível considerar todos os elementos de forma
integrada; não o texto verbal como “primordial” e o visual como “ilustração”, como se fossem
elementos constituídos por unidades distintas. Veremos, então, como se configura cada um
desses três sistemas que promovem o sentido da composição.
a) Valor informativo
No que diz respeito ao primeiro sistema composicional, o valor informativo, Kress e
van Leeuwen (2006), partindo de uma generalização, advinda da observação de vários textos
multimodais, afirmam que – quando as imagens ou layouts fazem uso significativo do eixo
horizontal, dispondo alguns elementos à esquerda do centro e outros, à direita – o lado
esquerdo é o lugar em que as informações já conhecidas pelos interlocutores, de forma
consensual ou familiar, são posicionadas; é o chamado dado. Por outro lado, as informações
novas, parcial ou totalmente desconhecidas pelo leitor (o que demanda uma maior atenção),
são apresentadas do lado direito do texto; é o denominado novo. Dessa forma, o novo é o
problemático, o contestável, enquanto o dado é apresentado como o que já é considerado
como consenso. Segundo Kress e van Leeuwen (2006: 181), essa estrutura dado-novo é
ideológica, na medida em que pode não ser considerada como tal pelo leitor real, mas é
apresentada “como se tivesse esse status ou esse valor para o leitor”, e, por isso, os leitores
“devem lê-la dentro dessa estrutura, mesmo se essa avaliação for depois rejeitada por algum
leitor em particular”. Os autores ressaltam que as estruturas dado-novo podem ser verificadas
em diagramas, em filmes e na televisão. No caso das entrevistas e enquetes da mídia, por
exemplo, o entrevistador é normalmente apresentado do lado esquerdo (levando em conta
quem visualiza a cena) da tela, enquanto o entrevistado aparece do lado oposto, o que reforça
a ideia de que estaríamos mais familiarizados com quem faz as perguntas, aquele com o qual
compartilhamos nossas opiniões e considerações, com quem nos identificamos. Já do lado
41
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
direito, espera-se que o entrevistado forneça a informação nova. É o que pode ser verificado
abaixo:
Quadro 13 – “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09)
C1
DG: Vai votar contra ou vai
votar a favor do aumento do
salário mínimo?
C2
Entrevistado:
favoráveis
a
aprovação.
C3
sua,
Somos
sua
DG: o senhor disse que é a
favor do aumento. Qual o
aumento que o senhor vai
votar? Pra quanto vai o salário
mínimo?
De forma semelhante como acontece nos textos em que há uso significativo do eixo
horizontal, caracterizando a estrutura dado-novo, quando há uma utilização do eixo vertical de
uma composição visual e alguns dos elementos constituintes estiverem dispostos na parte
superior, estes serão apresentados como o ideal, opondo-se, portanto, aos elementos que são
apresentados na parte inferior, o real. Para que algo seja considerado ideal, é necessário que
seja apresentado “como a essência idealizada ou generalizada da informação e, portanto,
como sendo a sua parte ostensivamente mais saliente” (Kress e van Leeuwen, 2006: 186-187).
De maneira oposta, para ser real, os elementos apresentados na parte inferior da composição
têm natureza concreta, prática. Kress e van Leuween (2006) lembram que, do mesmo modo
que o dado e o novo, a estrutura real-ideal pode ser utilizada não só em imagens, mas também
em textos mistos, em layouts. Os autores procuram também deixar claro que as investigações
alinhadas pela semiótica visual levam em conta as culturas ocidentais e que, por isso, outras
culturas que apresentam uma direção de leitura diferente da direção ocidental (que é da direita
para esquerda e de baixo para cima), provavelmente, atribuirão outros valores às áreas das
composições visuais.
Além das estruturas dado-novo e real-ideal, a informação visual pode ser estruturada
por meio das dimensões do centro e da margem. De forma geral, se a composição visual fizer
uso significativo do centro, certamente este constituirá o foco da informação em detrimento
das informações marginalmente dispostas. Normalmente, as margens são elementos auxiliares
e dependentes, além de apresentarem natureza idêntica ou semelhante entre si. Ainda no que
42
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
diz respeito às margens, Kress e van Leeuwen (2006) acrescentam que o quanto são marginais
depende do tamanho do centro e da saliência. Além disso, mesmo que não haja explicitamente
um centro, ele continua a existir in absentia, o lugar do “governante divino”, “como um
(negado) ponto central invisível, ao redor do qual tudo gira” (Kress e van Leeuwen,
2006:197).
Quanto a essas duas estruturas, ideal-real e centro-margem, levemos em conta a
sequência abaixo (que dá continuidade ao quadro anterior).
Quadro 14 – “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) - continuação
C4
C5
C6
[som1: algo sendo engolido
brusca e dificilmente]
[som: música minguando até
parar]
[som: semelhante a uma canção
de ninar, típico de alguns
brinquedos ]
C7
C8
C9
Entrevistado: Quanto é o
salário mínimo hoje?
[som: grilo, cricrilando]
DG: Tempo!
Entrevistado: tic-tac, tic-tac...
[som: relógio de cuco]
C10
C11
C12
[som: relógio de cuco]
Entrevistado: De cabeça, não
sei...
[som: batida violenta]
DG: De cabeça, não tem?
Entrevistado: não tenho.
DG: o seu salário, o senhor
sabe quanto é?
Entrevistado: de cabeça, não
tenho. [som: urros fortes]
43
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Ao ser questionado a respeito do valor reajustado do salário mínimo – aumento
proposto por uma medida à qual afirmou ser favorável –, o entrevistado demonstra não só ter
sido surpreendido com tal pergunta (o que também é comunicado pela deformação de seu
rosto e pelo som que alude a algo engolido “a seco”, dificilmente) como também não saber a
resposta. Esse fato permitiu que a situação protagonizada pelo político passasse a ser
associada a um “cochilo”, uma “soneca”, leitura possível através da representação de uma
espécie de gorro usado para dormir em congruência com uma música apropriada para embalar
o sono. O recurso pictórico do gorro ocupa a posição ideal, no que diz respeito ao valor
informativo, levando em conta que indica um sentido idealizado, opondo-se ao real, que
corresponde à imagem do político, tentando lembrar a resposta.
Da mesma forma, a partir da C8, verificamos a presença da informação precisa quanto
ao valor do salário mínimo reajustado – resposta esperada à pergunta feita –, posicionado no
canto inferior do quadro, correspondendo ao real, já que apresenta uma informação real,
concretamente. Tendo em vista que o entrevistado demora a fornecer uma resposta, é
estabelecido um “tempo” (C8) para que, enfim, ela seja dada. Em função disso, ocupando o
centro da imagem, como uma espécie de mediação entre os dois, há a representação de um
relógio de bolso, em movimento pendular, “tiquetaqueando” em consonância com o som
correspondente. Percebe-se, então, que esse relógio-pêndulo ocupa a posição central,
constituindo o foco da atenção, em detrimento das demais. Essa disposição enfatiza o passar
do tempo necessário para que o entrevistado responda corretamente, ao passo que marca, a
cada batida, menos tempo para que isso se realize.
Graficamente, as três estruturas que promovem o valor informativo da composição
visual podem ser observadas na página seguinte:
44
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
IDEAL
I
II
CENTRO
DADO
III
Quadrantes I Dado e Ideal II Ideal e Novo III Dado e Real IV Real e Novo NOVO IV
REAL
Gráfico 5 – As dimensões do espaço visual, segundo Kress e van Leeuwen (2005)
b) Saliência
Segundo Kress e van Leeuwen (2006), além da variação de valores informativos
atribuídos a determinada área em que os elementos estejam posicionados, a composição
envolve graus de saliência em relação a esses elementos. Há hierarquias de saliência,
conferindo mais importância a um ponto específico da composição, dizem os autores,
independentemente de onde estejam posicionados. Pode haver mais saliência, por exemplo,
no dado, no novo ou em ambos, o que também é válido para qualquer outra posição, como o
ideal/real ou centro/margem. Conforme esclarecem os autores, não é possível mensurar essa
saliência, uma vez que ela é apreendida pelos leitores, que conseguem intuitivamente julgar o
“peso” dos elementos, no todo composicional, por meio de uma complexa relação entre
alguns fatores: tamanho, cor, tonalidade (áreas com forte contraste indicam maior saliência),
foco (quanto mais focados, mais os elementos são salientes), perspectiva (elementos
posicionados em primeiro plano são mais salientes do que os apresentados em segundo
plano), sobreposição (os elementos sobrepostos são mais salientes do que os elementos
45
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
encobertos) e símbolos culturais potentes (pode ser o conjunto de elementos, como uma
mulher, em um anúncio publicitário, com trajes de executiva, utilizando laptop e celular
conferindo uma ideia de mulher independente e inserida no mercado de trabalho, ou pode ser
a presença de uma figura humana importante). Os quadros a seguir ilustram os graus de
saliência:
Quadro 15 – Qual o nome do ministro da Agricultura? (dia06/04/09)
C1
C2
C3
DG: Nos últimos controles de
qualidade, eu recebi algumas
reclamações
de
alguns
deputados
Que disseram que eu fica
perguntando coisas de jihad,
Afeganistão, assuntos...
...
que
não
têm
tanta
importância para nossa política
nacional (...)
[som: gargalhada
maléfico]
com
tom
Quadro 16 – Venezuela preparada para possível guerra com a Colômbia (dia 30/12/09)
C1
C2
RC: A Venezuela, através do
seu presidente Hugo Chavéz,
disse que tem de estar
preparada uma guerra. Chavéz
disse isso. A guerra é contra
quem?
LR: contra Hugo Chavéz, eu
acho. Hugo Chavéz é meio
maluco.
C3
LR: [a guerra]
ninguém.
é
contra
[som: instrumento de corda
desafinando]
É contra...
46
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
C4
C5
LR: ele tem sido contra a
imprensa. Eu acho que vocês
lá...
Já teriam sido...
[som1: clique em um controle
remoto; som 2: canais sendo
trocados na TV)
C6
[som1: clique em um controle
remoto; som 2: canais sendo
trocados na TV)
(os sons descritos ocorrem
sempre que o deputado faz
um movimento com o polegar,
semelhante ao movimento de
apertar um controle remoto.
Ocorre até o C7)
C7
C8
[som1: clique em um controle
remoto; som 2: canais sendo
trocados na TV)
...fuzilados.
Quanto ao quadro 15, é anunciada a razão da mudança do tópico das perguntas do CQ
do mês de abril, em relação ao mês anterior: as queixas dos deputados em razão de perguntas
sobre ‘jihad’, Afeganistão ou terrorismo (tópico da pergunta do quadro 1) que, segundo eles,
não teriam tanta importância, o que é retificado pela representação do terrorista Osama Bin
Laden (constituindo o novo da composição), que confere saliência a esse elemento por ser
uma figura humana de grande importância, uma vez que é considerado autor dos ataques
terroristas de 11 de setembro de 2001 e das ameaças posteriores a essa data. Assim,
argumenta-se visualmente, em contraponto ao que é dito verbalmente, que ‘jihad’, terrorismo
ou assuntos afins deveriam ser de importância nacional e deveriam fazer parte do
conhecimento dos políticos.
47
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Já no quadro 16, o deputado é questionado a respeito de uma notícia, segundo a qual o
presidente da Venezuela Hugo Chavéz teria dito que seu país deveria estar preparado para
uma possível guerra com a Colômbia. Ao afirmar que a guerra seria contra o próprio
presidente e que este seria contra a imprensa, o deputado apresenta uma hipótese quanto ao
destino do programa (aludido por “eu acho que vocês lá”, em C4): se fizessem parte da
programação da televisão venezuelana, provavelmente, os integrantes do CQC seriam
fuzilados. No entanto, entre as cenas 4 e 8, antes de concluir seu enunciado, há a sobreposição
de um aparelho televisivo, de aspecto antigo, no rosto do Rafael Cortez, um dos
representantes do programa, formando um frame (sobre a estruturação, trataremos a seguir),
separando-o do político e incluindo-o entre as pessoas e os personagens da televisão.
Essa leitura é possível porque, alguns segundos depois, em conjunto com o movimento
da mão do deputado, as imagens vão modificando-se, em alusão à troca de canais, em que são
exibidas as imagens do personagem Professor Tibúrcio (do programa Rá-Tim-Bum,
interpretado por Marcelo Tas, também um dos integrantes do CQC), do Chacrinha
(apresentador falecido) e de Hebe Camargo (apresentadora de programa de auditório), até que
a TV falhe e saia do ar, no mesmo momento em que o político diz que eles “seriam
fuzilados”. Esse recurso semiótico, sobreposto ao rosto do integrante, produz um alto grau de
saliência, chamando a atenção do telespectador para esse momento da enquete. Além disso,
durante essas cenas, há como música de fundo o tema do filme “A Ponte do Rio Kwai”, que
se passa durante a Segunda Guerra Mundial, o que cria uma saliência mais fraca em relação
aos recursos pictóricos, mas que está em relação com a temática da enquete.
Segundo Kress e van Leeuwen (2006:202), quando somos capazes de julgar esse
“peso” dos elementos da composição, também somos capazes de fazer julgamentos acerca do
equilíbrio entre eles, levando em consideração que “o peso que eles colocam na balança
deriva de um ou mais fatores acima mencionados”. De acordo com os autores, quando os
elementos da composição estão reunidos, há a formação de um ponto de equilíbrio, como em
um móbile, em que um ponto central sustenta os demais. Tal afirmação corrobora a presença
do centro, mesmo in absentia, conforme foi explicado na estrutura centro-margem, quanto ao
valor informativo.
c) Estruturação
Terceiro elemento-chave da composição, a estruturação diz respeito às graduações
entre os elementos mais ou menos fortemente enquadrados. Dessa forma, os elementos são
48
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
apresentados como participantes de uma unidade separada das demais ou relacionadas entre
si. As cenas podem representar fronteiras ou a ausência deles pode indicar uma natural
conexão. Além disso, há potenciais de sentidos no tamanho e no formato das Cs. Linhas
irregulares podem representar perigo ou desnível e linhas suaves e arredondadas, conforto e
maciez. É o que podemos observar no exemplo abaixo:
Quadro 17 – Estruturação (enquete do dia 12/10/09)
C1
C2
C3
DG: Olha, vocês formam um
lindo casal, viu?
AB: (risos) Evidente.
AB: ...um trio, nós somos
agora.
DG: Opa, entrei, entrei na
roda.
AB: é.
O entrevistador Danilo Gentili comenta, devido ao fato de estarem de braços dados,
que os deputados formam um lindo casal, o que também é comunicado, em forma de coração
e na cor vermelha, delimitando-os, o que corrobora a ideia de romantismo conferida à
situação (que também é verificada no modo sonoro, já que a música de fundo também é
romântica, com uma melodia suave). No entanto, essa separação dos dois deputados, em
relação ao entrevistador, é desfeita no terceiro quadro, levando em conta que o deputado, em
tom de brincadeira, afirma que agora eles formam um trio, desfazendo a necessidade do
agrupamento anterior e criando outro.
Van Leeuwen (2005) sugere que é possível relacionar categorias que descrevem os
tipos de estruturação e cada uma delas teria um potencial semiótico. O autor lista seis
categorias, lembrando que elas são gerais e podem ser usadas diferentemente em diferentes
contextos:
a) segregação, em que elementos ocupam diferentes áreas enquadradas, representando
que são pertencentes a ordens distintas;
49
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
b) separação, em que os elementos não são separados por quadros ou molduras, mas por
espaços vazios, indicando que eles podem ser similares em alguns aspectos e distintos
em outros (como o título e o texto que ele anuncia);
c) integração, em que texto e imagem ocupam o “mesmo espaço”, ou seja, operam
multimodalmente como um elemento;
d) sobreposição, em que as Cs sobrepõem elementos a outros, como uma imagem que
rompe a moldura ou atravessa o título de uma capa de revista, por exemplo;
e) ritmo, em que a padronização de cor, formato, tamanho etc. da moldura pode conectar
elementos que estejam separados fisicamente por elas; e
f) contraste, em que, diferentemente do ritmo, a cor, o formato e o tamanho indicam
diferenças.
Kress e van Leeuwen (2006) esclarecem que as três metafunções da GDV também são
aplicadas à imagem em movimento, entretanto há diferenças quanto à construção de sentidos.
No que concerne à função composicional, focalizada neste estudo, os autores afirmam que os
três elementos (valor informativo, saliência e estruturação) também atuam nas fotografias
(“shots”) em um filme ou programa televisivo, no entanto a composição torna-se dinâmica.
Algo que começa como o dado pode mover-se para a posição do novo “na frente de nossos
olhos” (Kress e van Leeuwen, 2006:264). É o que ocorre, por exemplo, no exemplo a seguir:
Quadro 18 – Alteração das Estruturas Composicionais dinâmicas (dia 06/04/09)
C1
C2
C3
Notem que o deputado federal Wilson Santiago não responde a enquete (a respeito do
significado da sigla ENEM) e afasta-se do jornalista sem respondê-la. O caminho percorrido
pelo político, diante da câmera, faz com este passe da posição de novo para dado,
rapidamente.
50
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Além da função composicional da GDV, fundamentamos nossa análise nos estudos de
Kostelnick e Hasset (2003), sobre as convenções retóricas, que exercem um papel relevante
nos mais variados gêneros. Portanto, no tópico a seguir, abordaremos a natureza social das
convenções, o seu papel na construção dos sentidos das composições visuais e como isso se
configura no âmbito das enquetes do CQ.
2.3.
DOCUMENTOS MULTIMODAIS15: UM MOSAICO DE CONVENÇÕES
O design integra uma ampla variação de códigos convencionais que estão
constantemente se modificando. No entanto, a linguagem visual do design é muito mais
acessível – se comparada à linguagem verbal – tanto perceptual quanto hermeneuticamente, já
que é assimilada, grosso modo, intuitivamente. Por isso, não podemos escapar da presença
desses códigos ou de seu poder de nos moldar culturalmente. Sobre essa questão, Kostelnick e
Hasset (2003a: 11) afirmam que o design é “inerentemente retórico”, uma vez que os
designers usam seus artefatos para comunicar objetivando alcançar alguns fins. Ao mesmo
tempo, advogam os autores, o design integra esses artefatos entre audiências complexas, o que
ocorre, normalmente, dentro das expectativas do público, sendo, por isso, “inerentemente
convencional”. Para os autores, essa linguagem convencional não é escrita de forma
impulsiva, mas é reproduzida ao longo dos anos, promovendo interpretações de estabilidade,
verdade e poder.
As formas de design “operam entre um universo de códigos convencionais que
mediam profundamente nossa interpretação da linguagem visual” (2003a:12). Assim, as
convenções fornecem o “fio que trança” nossas experiências sensoriais, permitindo a criação
de uma linguagem coerente por meio de uma estrutura profunda do design. Os autores
utilizam como exemplo um convite para um colóquio patrocinado pelo Instituto Plant
Sciences da Universidade Estadual de Iowa, em que há traços convencionais incorporados,
como o uso generoso de letras maiúsculas, a inclusão de um molde do nome da instituição e a
15
Tal expressão é usada aqui nos termos de Bateman (2008a), que enxerga os textos escritos como “páginas de
conteúdo estático espacialmente orquestrado em uma combinação de modos” (p.07), em que são combinadas,
pelo menos, informações textuais, gráficas e pictóricas em um todo, em um layout. Essa visão nos é cara e
dialoga com os pressupostos assumidos aqui a respeito da necessidade de ler os gêneros em sua composição, de
forma integrada. Além disso, a visão de Bateman é coerente com as afirmações de Kostelnick e Hasset que serão
apresentadas neste tópico, quanto às convenções retóricas, já que estas permeiam as partes dos documentos,
como veremos. No entanto, é importante destacarmos que Bateman restringe sua análise aos “artefatos
estáticos”, não explora, por exemplo, elementos que se movem no arranjo visual. Portanto, ao longo desta seção,
faremos a ponte necessária com nosso corpus que é formado, como foi apresentado na introdução deste estudo,
por enquetes dinâmicas, ou seja, apresentam movimento. Por fim, também associaremos a noção de convenções
aos recursos semióticos observados nas enquetes.
51
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
padronização da fonte usada em documentos oficiais, o que certifica a autenticidade do
convite e acentua, como ressaltam os autores, o seu ethos para com os leitores.
Por vezes, também deparamo-nos com códigos que vão de encontro a nossas crenças,
mas o uso legitimado pela convenção permite certas ressalvas. É o que ocorre, por exemplo,
com o a representação das partes de uma bicicleta – dispostas espacialmente, ao longo de um
eixo – em um texto instrucional de como montá-la. Sobre esse exemplo16, Kostelnick e Hasset
(2003a: 14) comentam que os:
leitores sabem que essa técnica de visualização das partes é uma ficção –
partes não flutuam no espaço e certamente não ao longo de uma linha reta –
mas leitores suspendem suas descrenças por isso podem aprender como
montá-las. (...) O desenho também usa a convenção de truncamento de finais
da estrutura de suporte (embora aqui, sem as linhas de quebra típicas dos
desenhos mais altamente técnicos) e de uso de uma chamada para as partes
rotuladas, cada uma delas serve para focar o leitor nas informações-chave.
Os autores chamam atenção, ainda, para o fato de muitos leitores ocidentais
contemporâneos não reconhecerem esses códigos convencionais ou não o considerarem como
tal, uma vez que estão embutidos nos mais variados documentos. Para se ter uma noção da
série de convenções que integram os documentos, os autores apresentam uma listagem de
códigos convencionais, distribuídos em três modos – textual, espacial e gráfico –, que
transitam do micronível, pequena-escala de convenções no topo do gráfico, para o
macronível, grande-escala de convenções na parte inferior, como se pode ver a seguir:
16
A ilustração a que se referem os autores é a seguinte:
52
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Quadro 19 – Gama de Códigos Convencionais, segundo Kostelnick e Hasset (2003:16),
adaptado
Textual Convenções de Itálico para títulos de
livros, gêneros
biológicos, ênfases
ƒ
Sobrescritos para notas
de rodapé; subscrito
para equações (H2O)
ƒ
Sublinhado para links
da web, ênfases,
totais de contabilidade
ƒ
Letra maiúscula para
mensagens formais,
avisos.
ƒ
Letra pequena para
detalhes
ƒ
Marcadores para
itens em listas
ƒ
ƒ
Letras iniciais
sinalizando uma
nova seção do texto
Texto justificado para
documentos formais
ƒ
Recuo de margem para
sinalizar hierarquia
Linhas entre células
em tabelas; textos
em quadros para
notas, avisos
ƒ
Múltiplos níveis de
títulos entre o texto
ƒ
Poder no topo dos
gráficos organizacionais
ƒ
Símbolos de Gráfico
de fluxo
ƒ
Sistema de
numeração arábico
para relatórios
científicos.
ƒ
Uma coluna para
memorandos e cartas;
múltiplas colunas para
boletim de notícias
ƒ
Símbolos e linhas de
grade em gráficos
ƒ
Padrões preenchidos
por materiais
(madeira, aço)
ƒ
Linhas tracejadas
para mostrar figura
debaixo da superfície
ƒ
Marca d’água em
certificados e
prêmios; textura na
página da web
ƒ
Molduras ao redor de
figuras e gráficos;
limites de página
ƒ
Ícones sinalizando
fim da unidade do
texto
ƒ
ƒ
ƒ
ƒ
Gráfica ƒ
pequena‐escala Espacial Convenções de ƒ
grande‐escala
ƒ
Legendas e
chamadas para
ilustrações
Legendas na
exibição de dados;
rótulos nos eixos x e
y
Seção de páginas de
títulos entre um
documento
Cabeçalhos de
páginas e notas de
rodapé
Páginas de título e
etiquetas para
longos relatórios
ƒ
ƒ
Eixos x-y para gráficos;
círculos para gráficopizza
Figuras com partes
‘explodidas’,
‘seccionadas’, seções
cruzadas, visões
partidas
ƒ
Padrão de tamanho de
páginas, legal, A4
ƒ
Cartões divisores para
documentos
Os autores assinalam que boa parte dessas convenções não ocorre isoladamente, mas
são combinadas com outras, em um dado documento. Quanto mais complexo o documento,
dizem, mais rica é a lista de convenções, levando em conta que elas “inundam virtualmente
53
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
cada elemento visual de um documento – texto, exibições de dados, figuras, e o tamanho e
formato da página e ou da tela.” (2003a: 17).
Quanto à mutabilidade das convenções, os autores sinalizam para um fator importante:
os artefatos de design “não são inertes, predestinados ou acidentais”, mas manifestam
visualmente ações dos usuários; são, portanto, o discurso visível da língua viva em constante
transformação. Isso se justifica pelo fato de designers conscientemente empregarem as
convenções e os leitores a interpretarem, o que se dá pelo compartilhamento de experiências
de natureza diversa. Por essa razão, as convenções são intrínseca e profundamente sociais, já
que são proliferadas e sustentadas por grupos sociais. Dessa maneira, conforme afirmam os
autores, as convenções são vulneráveis porque “são construtos sociais que dependem dos
grupos que os usam, os aprendem e os põem em prática”. (IBID, 2003: 24). Quanto a esse
aspecto das convenções, a título de ilustração, vejamos a seguinte sequência (uma das
enquetes exibidas no dia 23/03/09):
Quadro 20 – Mutabilidade das Convenções
C1
C2
DG: ‘tamos comentando
atualidades
com
os
políticos,
porque
é
importante um político...
Laser de
cor rosa
C4
[som: semelhante
fogos de artifício]
ao
de
...tá bem informado, o senhor
não acha?
C3
BA: repórteres também.
[som: tilintar metálico]
[som: de uma escova usada
para engraxar sapatos, polindo
algo áspero]
C5
C6
DG: Certamente.
[som: dois jatos explosivos
encontrando o alvo.
DG: Por isso que eu queria
compartilhar
a
minha
informação com o senhor.
54
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
C7
C8
C9
DG: Tá tendo uma polêmica
do...
...Jarbas atacando o PMDB.
O que o senhor acha disso?
[som: freio brusco de algum
transporte não-motorizado]
BA: Isso...
...é um problema da vida
interna do, do PMDB, eu sou
de outro partido.
C10
C11
C12
DG: Mas mesmo não sendo
do PMDB, todo mundo sabe
o que é PMDB. O que é que
é PMDB?
BA: (?) PMDB é um
partido que não é o meu.
[som: breve grasnar de um
pato ou marreco]
DG: O que significa P-M-DB?
(letras
ditas
bem
pausadamente, como uma
soletração) Valendo!
Inicialmente, atentemos para C2 e C3, em que é possível verificar o surgimento de
dois braços, com terno preto e camisa branca (vestimenta típica17 tanto do apresentador
quanto do político), em posse de um tecido amarelo. Esses dois braços passam a transitar da
esquerda para direita e vice-versa, ‘polindo’, ‘lustrando’ imageticamente a cabeça do
deputado Bonifácio Andrada que, por ser calvo, possibilita esse recurso específico. Em
consonância com esse recurso visual, também há a presença de um som (semelhante a de uma
escova polindo algo áspero, como descrito no quadro) que reforça essa ideia. A confluência
desses recursos sonoro-visuais é possível porque o produtor deles entende que
compartilhamos esse conhecimento acerca de um processo de polimento, por exemplo, uma
vez que esses recursos congregam memórias de usos passados, convencionais na sociedade.
17
Trajes iguais, normalmente, são utilizados por pessoas que fazem parte de um mesmo grupo, que
compartilham uma mesma característica ou ideal: uniformes de estudantes, fardas de militares, camisa de times
de futebol etc. Também servem para informar em que categoria tais pessoas se enquadram. Assim, o uso de uma
vestimenta que tanto pode ser associado ao integrante do programa quanto ao político confere certa ambiguidade
à atuação desse terceiro integrante da enquete: ele pode estar a serviço do CQ ou apoiando o político. Neste
último caso, o cenário dialoga com uma luta de boxe, em que membros da equipe de um dos lutadores, com
toalhas, acodem seu parceiro para que este volte revigorado para o próximo round.
55
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Entretanto, tais recursos permitem uma gama de reconfigurações, em dado contexto e em
função de interesses diversos.
A enquete desenvolve-se a partir da notícia acerca da polêmica envolvendo o então
senador Jarbas Vasconcelos, que estaria acusando seus ex-colegas do partido do PMDB de
corrupção. Questionado sobre essa informação, o deputado Bonifácio Andrada esquiva-se
(C9), considerando-a uma questão a ele alheia, uma vez que não faz parte do referido partido.
Ele ainda fortalece essa posição (C11) – depois de questionado sobre o significado da sigla do
PMDB –, por uma paráfrase, afirmando ser o PMDB apenas um partido ao qual não se alia. E
tal resposta jocosa é realçada pelo som de um grasnar de um pato, que confere uma espécie de
reprovação ao comportamento do político, típico de quem desconhece a resposta e evita
responder às questões com respostas evasivas. Dessa forma, os recursos semióticos usados no
início, aludindo a um polimento, não se justificavam apenas pela ‘careca’ do deputado, mas
por este precisar de um tratamento, de uma melhora na sua cabeça (metonimicamente
referente ao cérebro e, por conseguinte, aos conhecimentos que possui). É uma reconfiguração
dos usos correntes dos recursos que permitiram, neste contexto específico, a construção de
novos sentidos. É o que pode ser corroborado pelo desfecho da entrevista, reproduzida a
seguir:
Quadro 21 – Mutabilidade das Convenções – continuação
C14
C15
BA: Partido do Movimento
Democrático Brasileiro. [som1:
tilintar metálico]
[som2: tilintar semelhante a uma badalada breve em um sino;
som 3: vozes comemorando]
DG: Perfeito, seu deputado...
Após o comportamento inicial e diante de uma indagação ainda mais contundente
(C12 – “O que significa P-M-D-B? Valendo!”) – remetendo a típicos quizzes televisivos18 em
que participantes têm um determinado tempo para responder a questões de natureza diversa –,
o deputado responde corretamente à questão sobre o significado da sigla do partido – do qual
18
Neste caso, em particular, o integrante do programa imita a voz do apresentador Silvio Santos.
56
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
apenas dizia não fazer parte. Nesse momento, há uma série de recursos utilizados,
promovendo a ideia de aprovação, como o tilintar metálico (som1 em C14), como de uma
medalha, conferida por honra ao mérito, e as vozes
comemorando (som3 em C15). Especificamente, o som2
(“tilintar semelhante a uma badalada breve em um sino”
em C15) mantém um diálogo com os recursos semióticos
utilizados na sequência inicialmente discutida (C2 e C3:
“lustração”, “polimento”), já que, juntamente com ele, há
a integração de uma forte luz brilhante, surgida da cabeça
do político, enfatizando o sentido de que, com um
‘retoque’, um ‘polimento’, é possível chegar a uma
resposta correta e a um comportamento esperado, tido
como ideal de um político.
Outro
aspecto
importante
a
respeito
das
convenções refere-se ao fato de as comunidades
discursivas
que
compartilham
certos
códigos
convencionais não serem homogêneas e, por isso, nem sempre há conformidades dos
membros em suas práticas. Em decorrência disso, alguns usuários podem usar formas
alternativas, desprezar as práticas aceitas ou até mesmo inventar suas próprias. No entanto, a
onipresença das convenções, muitas vezes, as disfarça, pelo fato de as convenções estarem
juntas no mesmo documento e por serem naturalizadas pelo discurso das comunidades que as
sustentam. Além disso, apesar de as convenções serem altamente socializadas no seio dessas
comunidades, “os seus resultados de comunicação desafiam uma previsão, pois os indivíduos
pertencem a muitas comunidades e interpretam as convenções em uma grande variedade de
contextos situacionais” (2003a: 41).
A maneira como nós passamos a fazer parte de uma comunidade de discurso e como
apreendemos culturalmente seus códigos convencionais também varia consideravelmente.
Esse processo ocorre quando nós nos deparamos com elementos visuais, os compreendemos
e, em seguida, agimos de acordo com nossa interpretação. Em função do sucesso ou da falha
de nossas ações, nós reajustamos nossos modelos mentais acerca desses elementos visuais, os
reinterpretamos e aplicamos essa interpretação sempre quando em presença de tais elementos.
Essa habilidade é adquirida à medida que nos tornamos fluentes na linguagem visual, o que é,
em parte, desenvolvido em nossa educação silenciosa, de forma autônoma. No que diz
respeito às enquetes do CQ, verifica-se a construção de uma memória quanto à associação de
57
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
determinados recursos semióticos a alguma pessoa em particular, o que orienta a leitura que
deve ser seguida pelo telespectador. Tal fato pode ser observado por meio do quadro19, a
seguir, que se refere ao deputado José Genoíno:
Quadro 22 – Convenção de Pequena Escala
C2
C1
C3
[som: rangido de cão feroz]
Na C1, há a variação da cor vermelha (que toma o rosto do José Genoíno), começando
pelo pescoço e subindo em direção ao topo da cabeça, até que uma pequena fumaça saia
desta, recurso semiótico que permite a leitura de alguém colérico, tomado pela raiva. Na
segunda cena, há uma distorção da mandíbula do deputado, assemelhando-se a de um cão
feroz, juntamente com a representação de uma coleira grossa, em tons metálicos e com pinos
pontiagudos (típica de cães treinados para atos violentos, como os da raça Pitbull).
Finalmente, em C3, verifica-se a imagem de uma focinheira, geralmente, utilizada em cães de
grande porte e ferozes, quando em presença de outras pessoas, para evitar possíveis mordidas.
Ao longo de suas aparições, no programa (mesmo em outros quadros que não compõem nosso
corpus), o deputado negou-se a responder a qualquer questionamento feito pelos integrantes
do programa, além de apresentar uma postura agressiva. Essa caracterização, por meio desse
tipo de recurso semiótico, tem tornado-se particular e tem sido usada, normalmente, em
referência a esse deputado. É, portanto, de pequena escala no universo do CQ. No entanto, por
ter-se tornado um caso emblemático e por ser um fato arquivado na memória das pessoas que
assistem às enquetes, há casos como este:
19
Tais imagens não fazem parte do nosso corpus, por terem sido exibidas em 2008 (caso das imagens 1 e 2) e
não constituírem uma enquete do CQ. No entanto, elas são importantes para a compreensão de determinados
recursos semióticos utilizados em 2009, ano em que o CQ estreou no programa.
58
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
Quadro 23 – Convenção de Pequena Escala - continuação
C1
C2
C3
DG: o nome do país o deputado
sabe?
C4
[som: grilos cricrilando]
[som: grilos cricrilando]
C5
C5
DG: o Brasil indicou um país aí
e tal.
DG: Mercosul, tá ligado?
Dr. PC: Vai trabalhar, rapaz.
[Som: vozes dizendo “aiaa”,
com tom de espanto pela
resposta]
Vai trabalhar que é bom. Você é
um jovem, tem que trabalhar
pelo país.
C6
C7
C8
DG: É verdade, né? O deputado
se informar aí, pra trabalhar
também, uhh,
...melhor ainda, hein,
deputado?
[som1: batida forte de uma barra
de ferro em uma superfície
rígida; som 2: vozes dizendo
“uhh1”
Diante da pergunta “Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do
Mercosul?”, o deputado federal Dr. Paulo César permaneceu em silêncio, como tipicamente o
deputado Genoíno procede. Por isso, a representação da face deste último é sobreposta a
daquele, o que não só reforça a identidade já construída de Genoíno (além de possibilitar a sua
59
CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico
construção para quem não a conhecia), mas também promove a transferência de seus atributos
ou posturas típicas ao deputado Paulo César. Quando resolve dizer algo, esse deputado é
agressivo, o que também está em sintonia com as posturas de José Genoíno.
Como foi visto, os dois quadros acima demonstram que há recursos semióticos
convencionados em pequena escala, ou seja, referentes a casos específicos ou a políticos
específicos. Da mesma forma, existem aqueles convencionados em grande escala, ou seja, são
recursos associados a qualquer político, em determinadas situações. Essas convenções
construídas nas enquetes são poderosos instrumentos para a construção da identidade dos
políticos. Para verificar como isso se opera, preocupamo-nos em observar quais desses
recursos semióticos convencionados nas enquetes são usados em grande escala e quais são os
efeitos de sentido produzidos a partir das ações representadas por esses recursos, como
veremos no capítulo a seguir.
60
CAPÍTULO III
ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO DAS ENQUETES
Neste capítulo, analisamos como as três estruturas da Função Composicional, valor
informativo, saliência e estruturação, atuam nos recursos semióticos convencionados como
ações que produzem determinados efeitos. Dependendo do tipo de ação representada, há
variações quanto aos sentidos que são promovidos nas enquetes. Por isso, primeiramente,
analisamos uma sequência de enquetes para, a partir dela, identificarmos algumas das
principais ações representadas pelos recursos mais recorrentes. Em seguida, definimos os
critérios de análise e analisaremos como, nessas categorias, as três estruturas funcionam.
No início do quadro CQ, somos lembrados (ou informados ineditamente) de um fato
ocorrido durante a semana (07/02/09, dois dias antes da exibição do programa), segundo o
qual o atual presidente dos EUA, Barack Obama, estaria sendo criticado por defender a
decisão de fechar a base Guantánamo, que fica em Cuba. Em seguida, os políticos são
questionados a respeito desse fato. Atentemos para a sequência abaixo:
Quadro 24 – Onde fica Guantánamo? (dia 09/03/09)
C1
C2
DG: Obama tá sendo criticado
internamente por tentar fechar
a base que George Bush usava
para prender e interrogar
suspeitos terroristas.
C3.
DG: essa base fica
Guantánamo, Cuba.
em
61
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C4
DG: mas será que os políticos
brasileiros sabem disso?
C5
DG: o senhor acha que um
político, pra executar seu
trabalho, de forma mais
eficaz,
precisa
tá
bem
informado?
C6
PP: Claro. Quem tá aqui...
[som: “clique” do acender de
uma luminária]
C7
C8
C9
...na área federal, tá cuidando
das coisas do Brasil; e as
coisas do Brasil com o exterior,
evidentemente.
DG: o que o senhor acha dessa
notícia aqui, ó.
DG: Sob críticas, Obama
defende decisão de fechar
Guantánamo.
C10
C11
C12
SC: eu acho importante que ele
faça isso;
SC: é um avanço da
democracia. [som: tilintar de
uma medalha; som metálico]
AD: ele pode transferir a base
Guantánamo
pro
Brasil,
porque...
62
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C13
C14
C15
...há aqui gente pedindo refúgio,
né?
PP: ele está correto, porque
não adianta apenas a força.
HF: geograficamente falando,
Guantánamo tá na contramão
da história do povo americano.
C16
C17
C18
DG: e Guantánamo, o senhor
sabe onde fica?
SC: lógico que eu sei onde
fica. [som1: corda de violão
quebrando]
C19
C20
SC: não entendi a pergunta.
DG: pra quem tá em casa e
não
sabe
onde
fica
Guantánamo, onde fica?
C22
C23
SL: é... essa eu
(truncamento/difícil
compreensão)
[continuação do som1: corda
de violão quebrando; som 2:
grilo cricrilando]*
C21
[som: algo sendo
brusca e dificilmente]
engolido
C24
SL: é um estado que nós
sabíamos que é de difícil
explicação.
63
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C25
C26
C27
SC: você é muito talentoso para
não
saber
onde
fica
Guantánamo. [som: como o
pinote de um animal; fuga
ligeira]
DG: e o senhor, sabe?
SC: má claro que eu sei.
C28
C29
C30
DG: e onde fica? [som: “urrr!”,
proferido por várias vozes]
SC: eu acho que é você que
não sabe.
PP: É uma questão de pegar,
né, os livros e pesquisar e
evidentemente saber onde é
que fica, né?
C31
C32
C33
DG: geograficamente falando,
sabe onde fica Guantánamo?
[som: disco ou LP riscando e
parando de girar]
SC: má claro que eu sei onde
fica Guantánamo.
SC: agora se você quiser aula
de geografia, eu lhe dou uma
aula de geografia.
64
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C34
C35
C36
DG: professor, onde fica
Guantánamo?
SC: meu aluno, [som: burro,
zurrando]
SC: eu já te expliquei 500
vezes onde fica Guantánamo
(a partir desse momento, até o
fim da sequência, há um música
de fundo animada, que lembra
as de programas de circo.
C37
SC: você não sabe?
C40
PP: Nos Estados Unidos,
evidentemente.
C38
SC: eu estou decepcionado
com você. [som: um grasnar
de um pato ou marreco]
C41
[som 1:
corda de violão
quebrando]
C39
DG: e onde é que fica?
C42
[som 1:
corda de violão
quebrando + som 2: vozes
falando: “nã::o”]
65
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C43
C44
C45
Álvaro Dias: [risos]
Heráclito Fortes [rindo]: Na
ilha de Cuba.
AD: é lá em Cuba mesmo.
C46
DG: obrigado.
Em C5, em que há a primeira pergunta feita ao
deputado federal Paulo Piau (“o senhor acha que um
político, pra executar seu trabalho, de forma mais eficaz,
precisa tá bem informado?”), observa-se a retomada do
questionamento que permeia toda a enquete, o que não só
relembra o propósito da enquete em si, mas reposiciona a
discussão acerca da importância de os políticos serem
bem-informados ao próprio político, que assume a imagem
ideal no que tange à postura desejável do grupo do qual faz
parte: prontamente responde afirmativamente à questão,
com serenidade e sobriedade, características tipicamente
atribuídas aos que demonstram domínio de um dado
assunto. Sua resposta, contudo, é condicionada pela
formulação da própria pergunta que prevê, basicamente,
um dentre duas respostas: sim ou não. Ao assumir a premissa de que executar de forma eficaz
seu trabalho – o que é desejável a qualquer profissional – significa estar informado, não
66
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
importando o que isso quer dizer exatamente, a resposta do deputado muito dificilmente seria
negativa.
Respondendo afirmativamente à pergunta, o deputado Paulo Piau fornece a chave para
que os efeitos discursivos se construam. A resposta precisa e imediata do deputado Paulo Piau
(“Claro!”) é, então, satirizada pelos modos imagéticos e sonoros que compõem a imagem da
enquete. Ocupando a posição Nova da cena, é inserida uma mão dando um “clique” em uma
luminária, que passa a “clarear” o ambiente – que não estava “tão claro” assim, antes de o
deputado responder à pergunta. Essa ação nos leva a ponderar que essa não é uma questão tão
clara, tão bem definida assim, informação que não era dada, foi fornecida a partir da
informação Nova, representada pelo braço-que-clareia-o-ambiente. Uma vez que o ambiente
ganha luz, de uma cena para outra, verifica-se que há um grau maior de saliência para esse
momento da cena, chamando a atenção do telespectador para isso. Uma leitura possível é a
que esse ‘terceiro’ participante da enquete promove o esclarecimento da questão,
metaforicamente, a serviço dos propósitos do CQ, como veremos a seguir.
Em C29 (“É uma questão de pegar, né, os livros e
pesquisar e evidentemente saber onde é que fica, né?”), o
deputado afirma que estar bem informado é, evidentemente,
uma prática simples, que requer apenas “pegar os livros e
pesquisar”, o que vai de encontro com a sua resposta à
pergunta “E onde é que fica?” (C39), segundo a qual a base
Guantánamo se localiza, “evidentemente”, nos EUA e não
em Cuba, real endereço da base.
Essa leitura é conduzida pelo desenvolvimento da
enquete, já que o terceiro participante da enquete, mais uma vez constituindo a informação
Nova, “golpeia” com um martelo colorido a figura do deputado que, por sua vez, tem seu
rosto deformado, representando que, seguramente, ele foi atingido pelo questionamento e,
ainda mais gravemente, exposto ao rol dos políticos desinformados, o que, até então, ele
próprio defendia ser impensável para um político que exerce bem seu papel. O rosto do
deputado fica, além de deformado, com uma coloração rosada, conferindo maior saliência a
esse momento, o que reforça a ideia de que o político foi ‘ferido’, foi ‘reprovado’ pelo CQ.
Quanto à estruturação, verifica-se uma faixa preta, na parte inferior da cena, separando a
informação real da ideal, disponibilizando a informação concreta acerca da localização de
Guantánamo. Essa espécie de embaraço, protagonizado pelo deputado, é ainda mais
enfatizado pela edição da enquete, uma vez que é apresentado, logo em seguida (em C43), o
67
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
senador Álvaro Dias (PSDB-PR) rindo em conjunto com a imagem seguinte (em C44, em que
o senador Heráclito Fortes, do DEM- PI, afirma, em meio a risos, que Guantánamo fica “na
ilha de Cuba”).
Dediquemo-nos agora, ao deputado federal, do
PMN-PE, Sílvio Costa. Em primeira resposta (C10 e C11),
quanto ao acontecimento que era noticiado pelo jornal Folha
de São Paulo, o deputado se posiciona diante do fato e
ganha, por isso, uma “medalha ao mérito”, uma
“pontuação”, o que é inferido a partir da consideração do
som que é apresentado no momento descrito no quadro: um
som metalizado, um tilintar próprio das medalhas. Apesar
de breve, esse recurso confere uma saliência maior a esse
momento, em relação aos que o antecediam. No entanto, questionado sobre a localização da
base, Sílvio Costa afirma categoricamente que sabe onde fica a base (“lógico que eu sei onde
fica Guantánamo!”, C17) e, imediatamente depois, afirma não ter entendido a pergunta
(C19), em clara demonstração de insegurança e comprovação de ter sido “pego
desprevenido”. Essa leitura é enfatizada pelos recursos multimodais reunidos, em C18, que
congregam o som de um cricrilar (indicando um silêncio
desconfortável, em analogia ao total silêncio dos ambientes em
que se pode ouvir o som dos grilos) e de uma corda de um
violão que se parte (aludindo ao “rompimento da canção”, da
“ladainha” desenvolvida até aquele momento pelo político).
Nesse momento, o rosto do deputado aparece em close,
destacando-se na cena, para que não haja dúvidas de que esses
recursos se referem a ele.
Essa situação constrangedora, que fatalmente acaba por
provocar humor, é prolongada em função da insistência do
deputado em afirmar que conhece a localização de
Guantánamo, em paralelo com a determinação do integrante
do programa que não se cansa em, a cada escusa do deputado,
interrogá-lo. Essa situação se prolonga em grande parte do
trecho reproduzido (que pode ser comprovado de C25 a C38),
mas atinge seu ápice de absurdo e comicidade – para, neste
68
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
momento, não dizer “trágico” – nos últimos quadros, em que o deputado se propõe a
“ensinar”, como um professor de geografia, a localização da base, caso fosse da escolha de
DG. Em decorrência disso, constituindo a informação ideal, que pode ser considerada como a
mais saliente ideologicamente, há a inserção de uma imagem que simula o típico “chapéu-deburro”, amplamente utilizado como recurso de punição e de constrangimento – para aqueles
“maus alunos” – em métodos de ensino-aprendizagem antigos e tradicionais. Além desse
recurso pictórico, é reproduzido o som de um burro zurrando, o que sentencia a imagem do
deputado que, além de ser desinformado, tem atitudes reprováveis, “burras”, já que insiste em
não assumir que não sabe, afinal, onde fica Guantánamo.
Essas leituras das enquetes acima são construídas a partir das escolhas dos produtores
das enquetes do CQ. Como vimos, há recursos semióticos convencionados que representam
ações diversas que, por sua vez, produzem o efeito de reprovação (como a marreta que atinge
a cabeça do deputado e esta fica, consequentemente, deformada), o efeito de aprovação,
(como o som de tilintar metálico), o efeito de deboche (como o nariz-de-palhaço sobreposto
ao nariz do político) etc. Tais convenções, portanto, produzem diferentes efeitos de sentido e,
diante disso, analisaremos a seguir como as três estruturas da Metafunção Composicional –
valor informativo, saliência e estruturação - se articulam nas cenas, levando em conta as
diferentes ações representadas pelos recursos semióticos convencionados como critério de
análise. Levamos em conta para a topicalização, os recursos pictóricos; os recursos sonoros,
mesmo que apresentem valores distintos dos pictóricos, serão analisados conjuntamente com
estes.
Tendo em vista que o escárnio20 permeia a utilização dos recursos semióticos de nosso
corpus, apresentamos um gráfico abaixo que apresenta a categorização dos efeitos de sentido
produzidos a partir das ações representadas pelos recursos, nas quais operam as três estruturas
composicionais:
20
Esse termo, uma espécie de hiperônimo dos demais, foi escolhido tendo em vista que há um tom de zombaria
manifesta mesmo em ações que produzem efeito de aprovação.
69
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Escárnio
Sistematizado por meio de ações que produzem efeito de
Deboche Temporização Constrangimento
Reprovação Aprovação
Nas quais operam
Valor
informativo
Saliência
Estruturação
Gráfico 6: Categorias de Análise
3.1
EFEITO DE DEBOCHE
Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam,
especificamente, nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de
deboche. Como veremos, esse tipo de ação, normalmente, ocorre quando o político responde
de maneira galhofeira, em tom de brincadeira, ao questionamento que lhe é feito, o que se
justifica pelo fato de as enquetes do CQ também apresentarem esse caráter. Assim, o político
assume uma postura no intuito de participar desse contexto mais despojado de interação – o
que não seria possível se fosse outro o jornalista ou se fossem outros quadros que exigissem
um tom mais sério. No entanto, essa leitura não é enfatizada pelas enquetes do CQ, uma vez
que o propósito comunicativo é outro.
Levemos em conta a sequência abaixo que, à semelhança da primeira, também trata de
um assunto ocorrido durante a semana das enquetes. Novamente, como é recorrente no início
70
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
das enquetes, é anunciada a notícia sobre a qual ela girará: há uma proposta de lei que
objetiva aumentar o salário dos trabalhadores e isso ocorre ao mesmo tempo em que acontece
uma manifestação formada por trabalhadores. Vejamos:
Quadro 25 – Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09)
C1
C2
C3
DG: os trabalhadores se
manifestam na rua, enquanto
isso, no congresso, deputados
votam a medida provisória que
diz respeito ao aumento
salarial.
Mas quanto é o salário mínimo?
Ah, todo mundo sabe disso,
todo mundo recebe salário,
né?
C5
C6
C7
DG: o senhor é um trabalhador
comum?
Trabalhador Comum: sim, sou.
DG: Quanto é o salário mínimo,
hoje em dia?
Trabalhador Comum: quatro,
meia, cinco.
DG: E se eu te disser que tem
deputado, representante dos
trabalhadores que não sabe
quanto é o salário mínimo?
[som: música cessando rápida
e bruscamente]
Trabalhador Comum: existe...
Existe isso, será?
C8
C9
C10
Trabalhador Comum 2: esse
DG: Uma medida provisória que
JD: sim, a que vai, o salário
[som: corda de instrumento de
corda partindo-se]
71
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
não
devia
ser
nem
representante do trabalhador.
[som: “urrr!”,
várias vozes]
proferido
por
C11
ER: (rindo) Quanto é o salário
mínimo? Quatrocentos reais,
quatrocentos e sessenta reais?
tá em andamento, vai ser
votada logo mais é a medida do
aumento do salário mínimo, não
é isso?
mínimo vai para quatro, meia,
cinco.
DG: e quanto ele era? [som:
espécie de batida, soco]
JD: quatrocentos e quinze.
[som: tilintar metálico]
C12
C13
ER: cem dólar?
[som: espécie de apito infantil
ou som de um brinquedo em
movimento]
DG: não sei. O senhor tem
uma chance. Qual, a, b, c ou
d?
ER:
é
sessenta.
quatrocentos
e
Mais uma vez, é estimulada a expectativa do telespectador quando é mencionado que,
diante desse contexto (projeto de lei sobre aumento de salário e manifestação de
trabalhadores) e do fato de todos ‘receberem salário’, seria fácil conhecer o valor do salário,
os políticos não ‘teriam problemas’ em responder a uma pergunta dessa natureza. Essa
expectativa é reforçada pelos depoimentos de dois integrantes da manifestação21, tendo em
vista que, a partir do primeiro (C6 e C7), percebemos que a informação sobre o valor do
salário mínimo é compartilhada pelos ‘trabalhadores comuns’ (adjetivação que pode ser
intercambiável por ‘simples’ e/ou ‘não-políticos’, sendo o político, então, uma categoria
distinta) e, a partir do segundo (C8), verificamos que um político sem esse (tipo de)
conhecimento não deveria ser um bom representante dos trabalhadores. O primeiro político a
ser abordado, no entanto, não só tem conhecimento a respeito do projeto de lei que está sendo
discutido por deputados, como também sabe o valor do salário mínimo, o que é realçado pelo
tilintar metálico derradeiro, que provoca o efeito de aprovação por responder corretamente,
por estar bem-informado, por ser bom-representante do povo. Aprovação esta realizada pela
enquete, conferida por ela, o que corrobora a ideia de que os recursos são convencionados
21
Leitura decorrente da camisa padronizada usada por ambos, além de ser possível observar, em segundo plano,
outras pessoas usando o mesmo traje indicando que fazem parte do mesmo ‘movimento’
72
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
com intuito de legitimar o discurso do CQ, segundo o qual os políticos não são informados,
precisam ser testados e, consequentemente, reprovados ou aprovados. E o responsável por
essa investigação, bem como pelo atestado de “qualidade’ é o CQ.
Nas cenas seguintes, o exemplo do político logo se contrapõe ao político seguinte22, o
deputado federal Eugênio Rabelo que demonstra não saber o valor do salário mínimo e
‘brinca’ com esse fato, elencando possíveis valores, inclusive em dólar, moeda norteamericana, que, certamente, não é a resposta à pergunta. Em função disso, um nariz-depalhaço é sobreposto ao nariz do político, o que confere forte grau de saliência a esse
elemento, neste momento da cena, chamando a atenção para a caracterização atribuída ao
político: a de um palhaço. Essa leitura é reforçada pela associação ao som de uma espécie de
apito ou corneta infantil (descrito em C12), que também promove a saliência desse momento,
em relação aos anteriores a este. Relativamente fraca entre os participantes, a estruturação
mostra-se fortemente marcada quando há a exibição do valor real do salário mínimo – que
constitui a informação Real –, uma vez que há uma tarja em cor preta separando essa parte do
restante da cena.
Atentemos para o que ocorre no quadro 26, em que é reportada a informação de que a
Arábia Saudita quer reabilitar terroristas com um programa apelidado de “Bolsa-Jihad” (C1),
notícia publicada em 05/03/09, no jornal O Estado de São Paulo. Em seguida, DG faz um
comentário em C2 sobre isso:
Quadro 26 – O que é “jihad’?
C1
C2
DG: Olha lá, hein? A Arábia Saudita quer
Depois do 11-de-setembro, quem não
reabilitar terroristas... com um programa
souber o que é “jihad”...
que foi apelidado de “bolsa-jihad”.
22
Na edição original, exibida no programa, ainda há a presença de outro político, cuja enquete já foi analisada
nos quadros 13 e 14, na seção “valor informativo”, no capítulo 2.
73
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Tal informação (C1) dialoga com um determinado momento histórico (o atentado ao
World Trade Center, nos EUA, em 11 de setembro de 2001, por ataques terroristas), em que
termos como “jihad” foram amplamente utilizados e se associam semântico-discursivamente
aos ataques promovidos por terroristas. Além disso, o comentário de DG anuncia uma
expectativa (no que diz respeito às respostas dos políticos) que passa também a ser
compartilhada por quem o assiste, em razão da “facilidade” em retomar esse período marcante
e doloroso da história mundial e, consequentemente, do termo que se relaciona a ele.
Entretanto, é importante atentarmos para o fato de que o ‘apelido’ dado ao programa da
Arábia Saudita constitui um diálogo com a expressão Bolsa Família, programa do Governo
do então presidente Lula, e não foi uma expressão amplamente utilizada por outros suportes.
Trata-se de uma construção específica dessa manchete (inclusive, na leitura integral da
notícia, não há qualquer menção a essa expressão). Além disso, no que diz respeito à
“facilidade” em recuperar o significado do termo jihad, é preciso ter em mente que seu
significado foi ‘ocidentalizado’, associando-se à “guerra santa”, aos sacrifícios que os
terroristas fazem em nome dos ensinamentos islâmicos. No entanto, esse termo significa
“empenho”, “esforço”, aplicando-se a qualquer forma de dedicação à execução de uma ação,
conforme explica M. Amir Ali em texto publicado pelo Instituto de Informação e Educação
Islâmica (III&E)23. Dessa forma, verifica-se que os telespectadores são orientados a conferir
credibilidade às perguntas feitas nas enquetes, já que é apresentado um suposto argumento de
autoridade, ao se reportar uma manchete de uma notícia publicada.
Acompanhemos a sequência:
Quadro 27 – O que é “jihad’? – continuação
23
C1
C2
C3
DG: eles estão fazendo a
“bolsa-jihad”, que é uma, é um
programa...
...para habilitar terroristas. O
que o senhor acha disso?
LCB: reabilitar terrorista?
Disponível em: <http://www.sbmrj.org.br/Atualidades-jihad.htm>. Acesso em 24 jan. 2011.
74
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C4
C5
C6
LCB: acho um terror isso aí.
[som: instrumento de corda
desafinando]
DG: o senhor sabe o que é
“Jihad”?
LCB: não, não sei.
Em C3, em resposta à pergunta a respeito do fato noticiado, o deputado federal Luis
Carlos Busato, primeiramente, faz uma pergunta retórica e, em seguida, usa um trocadilho
(“acho isso um terror”), cujo tom galhofeiro se justifica pelo fato de ser justamente uma
enquete do CQ, que apresenta um forte caráter humorístico. É uma forma de compartilhar do
tom usado nas enquetes desse quadro. No entanto, essa não é a leitura enfatizada pelo recurso
semiótico, uma vez que, da mesma forma como vimos na sequência anterior, há a
sobreposição de um nariz-de-palhaço no nariz do deputado, produzindo maior saliência para
esse elemento, enfatizando a ideia de que, em analogia às ações de palhaços, o teor cômico de
sua resposta aponta para a maneira “despojada” e “despreocupada” de nossos representantes
ao encarar problemas sérios e de níveis internacionais, como o que está sendo tratado. É uma
construção orientada pelos propósitos do CQ, que visa a consolidar o estereótipo de que
político é desinformado, legitimando seu discurso.
3.2.
EFEITO DE TEMPORIZAÇÃO
Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam,
em especial, nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de
temporização, ou seja, demorar, retardar alguma ação. Como veremos, esse tipo de ação,
normalmente ocorre quando o político demorar para responder ao questionamento que lhe é
feito ou procura “ganhar tempo”, ao pensar na possível resposta. Essa ação, frequentemente, é
reprovada pelo CQ.
75
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Levemos em conta o quadro 28 a seguir:
Quadro 28 – O que é “jihad’? (dia 05/03/09) – 2º caso
C1
C2
C3
DG: o que significa “jihad”?
AC: (suspiro) não... [som: grilos,
cricrilando]
AC: veja... Jihad... ela::
[som: grilos, cricrilando]
C4
C5
C6
AC: do ponto de vista::
conceitual, ela tem muito vínculo
religioso
AC: do ponto de vi:sta::: é::: da
política, do ponto de vista do
enfrentamento, do ponto de
vista::
C7
C8
C9
AC: do ponto de vista de tudo
aquilo...
DG: (risos)
DG: será que foi o cara do
Jihad que passou ali?
C10
76
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
AC: não... pode ter sido, né?
Pode ter sido.
O deputado federal Arlindo Chinaglia também é questionado e faz o que é comumente
considerado como “ganhar tempo”, uma vez que, de fato, ele não responde à pergunta e se
utiliza de meios para “tentar” respondê-la, como indicar uma série de pontos de vista (“do
ponto de vista conceitual”, “do ponto de vista da política”, “do ponto de vista do
enfrentamento”, “do ponto de vista de tudo aquilo”), sem concatenação e permeados por
hesitações e prolongamentos. São indícios de que, realmente, o deputado estava ganhando
tempo para pensar sobre a pergunta e na possível resposta. É o que podemos constatar (como
apontam as cenas 2, 3, 4 e 5), a partir da consideração de que há uma inserção de um ícone
(como uma ampulheta de areia) do programa Windows, um recurso semiótico culturalmente
compartilhado, que surge na tela quando algum programa ou comando está sendo carregado e
indica o tempo que isso está levando. Esse recurso semiótico torna essa parte da cena mais
saliente, uma vez que os telespectadores são ‘convidados’ a atentarem para o girar da
ampulheta, para o passar do tempo hábil para a resposta. Normalmente, ocorre quando a
memória do computador é pequena, quando o processador é lento ou quando vários
programas estão em execução. Em analogia com a enquete, poderíamos dizer que o deputado
está tentando lembrar da resposta, que esse processo é lento e/ou que o político está pensando
em outras coisas.
A partir de C3, mais uma vez, observa-se a exibição da resposta esperada pelo CQ,
que corresponde à posição inferior, à informação Real, que se opõe à ampulheta, que constitui
a informação Ideal nessa composição. De certa forma, o deputado Chinaglia passa a mediar as
duas informações, formando o que Kress e Van Leeuwen chamam de tríptico (no caso,
vertical). Como a informação Ideal é a mais saliente, segundo os autores, a ampulheta ‘capta’
a atenção dos observadores e a conduz à informação Real, ou seja, ao significado do termo
‘jihad’.
Em C2 e C3, há o som de um cricrilar, recurso semiótico convencionado em grande
escala, usado quando se despende muito tempo para responder a alguma pergunta. Nesse
caso, isso é recorrente. Em C6, há uma pequena janela, advinda do meio computadorizado,
com a inscrição “ERRO”, aludindo a um erro do sistema Windows, após um período
fracassado de carregamento – assim como ocorre com o deputado, que não é feliz em tentar
“ganhar tempo para responder”.
Atentemos para outro exemplo em que há generoso uso desse recurso:
77
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Quadro 29 – “Caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09)
C1
C2
C3
Rafael Cortez: Ficou sabendo
de uma garota que foi
hostilizada numa faculdade?
UP: não, negativo.
RC: mas é que isso foi capa
de tudo que é imprensa, de
tudo que é...
UP: mas o fato de ser publicado
na imprensa não significa que a
pessoa não possa
[som: disco de vinil quando é
retrocedido pelos DJs nas pick
ups]
é... que a pessoa não possa
(com ‘a’ prolongado)
C4
C5
C6
(um som, de difícil descrição, é
acionado sempre que a caixa
de erro aparece)
UP: que a pessoa não possa,
é...
(um som, de difícil descrição, é
acionado sempre que a caixa de
erro aparece)
C7
C8
C9
UP: que a pessoa não possa
(com ‘a’ prolongado)
(um som, de difícil descrição, é
acionado sempre que a caixa
de erro aparece)
RC: ...saber.
(completando
deputado)
a
frase
do
UP: saber
78
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
(confirmando que
completa sua frase)
o
termo
C10
Essa enquete tem como base o caso da estudante Geyse Arruda que, por estar usando
um vestido curto e de cor chamativa – considerado por muitos como inadequado para um
ambiente educacional –, foi veementemente hostilizada por alunos da faculdade onde
estuda(va). Esse fato foi amplamente divulgado e serviu como pontapé inicial para discussões
acerca de tolerância, respeito etc. Em C2, é comentado que o caso dessa garota tomou grandes
proporções, sendo destaque na imprensa, o que se configura como um argumento de que, em
função disso, é de conhecimento da maioria. Tentando justificar seu desconhecimento sobre a
situação protagonizada pela aluna Geyse Arruda, o deputado federal Uldurico Pinto tenta
dizer, ao longo de várias cenas, que é possível não saber de determinado assunto, mesmo que
este tenha sido pauta para várias publicações. Tenta dizer, porque é preciso que RC o ajude,
completando o enunciado “que a pessoa não possa”, repetido quatro vezes até que fosse
integralizado. Em razão disso, primeiramente, surge um som típico de disco de vinil quando é
retrocedido pelos DJs nas pick ups e, em seguida, há a repetição de um mesmo recurso
semiótico: a caixa de erro de carregamento do Windows é sobreposta à testa do político,
indicando, que, da mesma forma, não houve o tempo necessário para encontrar o termo
adequado para completar seu enunciado.
Da mesma forma como ocorreu no exemplo anterior, a caixa-de-erro do Windows
indica que o político não foi bem-sucedido, dentro do tempo que lhe cabia. Como sua suposta
falha – simplesmente a de não lembrar, naquele momento, um termo que não lhe ocorria – se
repetiu várias vezes, foram inseridas as caixas-de-erro que atribuem uma forte saliência a esse
momento da cena, juntamente com o som simultâneo à inserção das caixas. Quanto ao valor
da informação, verificamos que esse recurso pictórico ocupa a posição Ideal, que ressalta o
‘erro’ do político. Em decorrência disso, por fim, o político ‘recebe um soco’, ação que
produz o efeito de reprovação, uma vez que ele não está bem-informado e não consegue
79
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
justificar essa ‘falha’. Um soco que, ao atingir a face do político, a deixa deformada é mais
um recurso semiótico convencionado em grande escala, do qual trataremos mais adiante.
3.3.
EFEITO DE CONTRANGIMENTO
Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam
nos
recursos
semióticos
convencionados
como
ações
que
produzem
efeito
de
constrangimento. Esse tipo de ação, conforme poderemos comprovar, geralmente acontece
quando o político demonstra que a pergunta foi inesperada e que, por alguma razão, o deixa
constrangido. Como observaremos, frequentemente, esse constrangimento está associado ao
possível desconhecimento da resposta à pergunta.
Consideremos o quadro seguinte:
Quadro 30 – “O significa PMDB?” (dia 23/03/09)
C2
C3
DG: Olha só, o PMDB tá na boca
do povo. Todo mundo tá falando
desse partido, principalmente
depois que o senador Jarbas
Vasconcelos tá acusando seus
colegas...
...peemedebistas
de
envolvimento com corrupção,
[som: semelhante a uma tecla
referente às notas agudas de
piano], mas afinal o que
significa PMDB?
C4
C5
C6
Um político que não souber...
DG: O que o senhor acha do
senador Jarbas atacar o PMDB?
TF: Olha, ele foi presidente do
PMDB; acho interessante que
ele teve o momento dele e a
oportunidade de poder fazer
tudo isso.
C1
80
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C8
C7
DG: Pra quem tá em casa e
não sabe o que é PMDB,
explica.
[Som: Algo
dificilmente.]
sendo
C9.
engolido
DG: Não sabe o que é PMDB?
TF: (?)
Levemos em conta, inicialmente, a sequência de C2 a C4. Nas cenas 2 e 3, é
apresentada a notícia que será base para as perguntas, informando que o senador Jarbas
Vasconcelos acusou seus ex-colegas de partido de corrupção. Ao ser mencionada a palavra
“corrupção”, em C3, há um recurso sonoro (“semelhante a uma tecla referente às notas
agudas de piano”) que promove um breve momento de tensão, semelhante aos minutos que
antecedem uma situação tensa em um filme de suspense ou de um dado trecho de programa
que exiba “vídeos incríveis”, por exemplo. Tal recurso ocorre em pequena escala24, mas
exerce importante papel nessa enquete em particular, uma vez que ativa, como uma espécie de
badalo em nossa memória, uma série de casos envolvendo políticos por causa de acusações de
corrupção. É, portanto, um recurso que cria uma saliência maior a esse momento. Falar sobre
políticos corruptos é uma forma de atingir o calcanhar-de-Aquiles, antecede, portanto, um
momento de tensão, aludido pelo som descrito.
Em seguida, como estratégia para criar expectativa e adesão dos telespectadores na
tarefa do CQ (como vimos nos quadros anteriores) DG, em C4, lança uma provocação ao
sugerir que “o político que não souber” o que significa PMDB, sobretudo em função das
proporções que as denúncias do senador Jarbas alcançaram, não é digno de crédito, não pode
ser levado a sério, não procura se informar, dentre uma série de possíveis complementos para
essa ‘lacuna’. Como se vê, é mais uma estratégia para guiar os caminhos da leitura do
telespectador em direção à legitimação do discurso de que político não é informado.
Em C6, DG pergunta a opinião do deputado Tadeu Filippelli acerca das denúncias que
Jarbas Vasconcelos estava fazendo sobre o PMDB, partido do qual fazia parte. No entanto, ao
ser questionado sobre a significação da sigla desse partido, o político é ‘pego de surpresa’, o
24
Elencaremos, mais adiante, uma relação de alguns recursos semióticos convencionados em pequena escala que
são associados a políticos específicos, como vimos no capítulo anterior, ou são utilizados em função de um
termo ou de algo específico de uma enquete em particular.
81
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
que é representado por uma deformação em sua cabeça, que se dá de cima para baixo,
juntamente com o som de algo sendo engolido dificilmente. Essa deformação promove um
forte grau de saliência nesse momento da cena, o que conduz atenção do telespectador para
esse fato, que é reforçado em C9 quando o repórter pergunta se o deputado não sabe a
resposta. Como se pode verificar, também se torna corrente a indicação da resposta, na base
da cena, ocupando a posição Real, segundo a estrutura ideal-real, conferindo um valor
informativo concreto, real ao que é apresentado.
De maneira semelhante, ocorre com o político (não há legenda com seu nome) na
enquete abaixo:
Quadro 31 – Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09)
C2
C3
Espero que dobre o salário
mínimo. [som: vozes rindo]
DG: mas quanto é hoje o
salário mínimo?
C3
C4
C5
Som: algo sendo engolido a
seco, com dificuldade]
Salário mínimo?
DG: é.
[som alfinete atingindo alguma
superfície]
Quatrocentos e
C1
(trecho falado pausadamente,
sílaba por sílaba)
Cinquenta?
[som de uma música cessando]
82
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C6
C7
DG: não sabe, né?
[Som: espécie de apito]
[som: voz dizendo ‘aiaa’]
DG: Nhem-nhem-nhem
Questionado sobre o aumento do salário mínimo, o político afirma que espera que o
valor duplique (C2), o que é associado a risos, pelo descrédito nessa possibilidade. Em
seguida, diante da mesma pergunta do quadro 2725 que diz respeito ao valor do salário
mínimo brasileiro, a cabeça do político é deformada da mesma maneira que ocorre com o
político do quadro anterior, indicando que não tem esse conhecimento e, consequentemente,
passa por um embaraço. Isso se confirma nas cenas seguintes, em que o político tenta chegar a
um valor, por aproximação, mas acaba errando (C5). Em função disso, outro recurso é
utilizado: um braço com uma marreta colorida atinge sua cabeça, deformando-a, indicando
que, com essa pergunta, ele foi atingido. Essa ação atribui um alto grau de saliência na cena,
além de figurar como uma informação Nova, já que aparece do lado direito da cena em
direção à posição Dada. Isso ocorre porque já é compartilhado pelas convenções do CQ que
os políticos são desinformados, portanto o deputado simboliza, constitui a informação Dada.
O que é Novo é o efeito de reprovar, acionado pelo recurso semiótico. Figura como
informação mais relevante o fato de haver um instrumento de ‘controle’, de ‘apuração’ da
qualidade dos políticos, o que sobreleva o papel do CQ. Atingir a cabeça do político com
algum objeto é um dos recursos convencionados com o valor semântico de reprovação, que
veremos no próximo tópico.
25
Elas fazem parte da mesma enquete. Foram separadas, como ocorre com outras, pelo critério estabelecido
quanto ao efeitos produzidos pelas ações representadas pelos recursos convencionados.
83
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
3.4.
EFEITO DE REPROVAÇÃO
Neste tópico, iremos nos deter à análise dos recursos semióticos convencionados como
ações que produzem efeito de reprovação, tendo em vista as estruturas valor informativo,
saliência e estruturação. Amplamente utilizadas nas enquetes, essas ações representadas
pelos recursos funcionam como instrumento para julgar negativamente as atitudes dos
políticos. Observaremos que, em todas as ações deste tipo, o político acaba por ser atingido
por algum objeto, de diversos materiais. São variáveis, no entanto, os objetos com os quais
isso ocorre. Essa diversidade de materiais revela que há gradações quanto à reprovação, o que
é associado também ao som que é relacionado à ao recurso pictórico.
Tomemos como primeiro exemplo o quadro 32:
Quadro 32 – “O que significa PMDB?” (dia 23/03/09) – 2º caso
C1
C2
C3
DG: Boa tarde, seu deputado,
tudo bom?
MO: Outra vez o QCC, outra
vez?
DG: QCC tá aí...
[som: espécie de badalo]
[som: música cessando]
C4
C5
DG: O senhor sabe... o senhor
sabe o que é CQC?
MO: Bom, não tenho muito,
muita vontade de saber o que é
CQC, não...
[som: “urrr!”,
várias vozes]
proferido
por
C6
84
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C7
C8
C9
[som: desafinando e cessando]
DG: E o que é PMDB?
MO: Não sou do partido.
C10
C11
C12
DG: O senhor não sabe o que
quer dizer PMDB?
MO: Humm, é outro partido, não
é o meu partido.
DG: Cada um com seu partido?
[som: uma espécie ferrolho
metálico sendo puxado de
forma rápida]
C13
C14
MO: (risos) [som: martelada em
superfície metálica (ou com
martelo metálico) de forma
forte]
DG: ‘Cada um com seu
partido,
cada um com seu partido ‘
(em referência ao trecho “cada
um no seu quadrado” de uma
música popular)
Primeiramente, levemos em conta as cenas iniciais, de C1 a C7. Quando abordado por
DG, o deputado federal Mário de Oliveira diz “Outra vez o QCC, outra vez?” (C2). Ao dizer
isso, há a imagem da sigla saindo de sua boca, com letras garrafais e cor branca, o que torna
saliente este momento em relação ao restante da cena, cujo ambiente está escuro, por
contraste. A sigla faz um percurso da posição Ideal até a Real, já que sai da boca do deputado
(confirmando que foi dito por ele) e direciona-se para baixo, fixando-se por breves momentos
85
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
na posição Central, no que diz respeito à estrutura centromargem, focalizando a atenção para essa informação. Assim,
enfatiza-se o equívoco do deputado quanto à sigla do programa,
que é resultante de “Custe o Que Custar”, portanto, CQC. Por
isso, o repórter questiona se o deputado sabe o que significa
CQC, já que, se tivesse esse conhecimento, saberia que o papel
do programa, pelo menos pelo discurso de quem dele faz parte,
é atingir seu objetivo – no caso específico do CQ, saber se os políticos são bem-informados –
‘a qualquer preço’, ‘custe o que custar’. Outra vez, há um som aludindo a vozes dizendo
“urrr!”, que é uma espécie de ‘espanto’ dos que estão “assistindo à enquete”, em analogia aos
que assistem a uma luta ou algum jogo e têm essa reação em função de um golpe ou de uma
boa jogada, que desestabilize o adversário. No entanto, o deputado responde a essa pergunta
que, ‘deveria desestabilizá-lo’, dizendo que não tem interesse em saber qual é o significado da
sigla, revelando que essa não é, então, uma informação relevante. Há um quê de menosprezo
no enunciado do político.
Para usar uma expressão do jogo de tênis, houve um “break point”, em que uma
sacada (analogicamente, a pergunta de DG) favorece o outro jogador, que pode dar uma
sacada melhor. Por isso, em C6 e C7, quem recebe uma
‘marretada’ é DG, não o político. O recurso semiótico que
representa essa ação transita da informação Nova para a
informação Dada, já que não é corrente a reprovação de um
integrante do CQ, mas é uma informação partilhada a ideia de
reprovação (quando a marreta atinge a cabeça). Mas essa
situação é momentânea, tendo em vista as cenas seguintes.
Em C10, DG pergunta se o político sabe o que significa
PMDB, obtendo como resposta que “é outro partido, não é o
meu partido” (C11), ou seja, “se não é meu partido, não tenho
obrigação de saber”, não é uma informação relevante. Essa
leitura consolida-se quando o integrante do programa pergunta
“Cada um com seu partido?” (C12), como uma maneira de
confirmar a suposição de que o político não sabe a resposta e
não se preocupa com isso, já que não é um partido ao qual se
86
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
filia. É o match point
26
da partida travada pelos dois. Diante dos risos do político (C13), há
um braço segurando a marreta colorida que atinge sua cabeça, mas o som é mais forte e
representa uma batida em alguma superfície metálica, configurando um grau de reprovação
mais elevado. Diferentemente do que ocorreu até aqui, a ação de reprovação surge como uma
informação Dada, levando em conta que o braço surge do lado esquerdo da cena (C13), mas
passa a ocupar a posição Dada, o que permite a leitura de que já é uma informação
compartilhada, antiga, de que o político não é bem-informado, de que merece ser reprovado.
Isso é enfatizado pelo alto grau de saliência que se verifica quando o objeto acerta a cabeça do
político, que passa a ficar deformada e apresenta uma coloração atípica.
Por fim, DG faz uma paródia a partir da letra da música da “Dança do Quadrado”, cujo
vídeo exibe três pessoas fazendo diversas variações de coreografia, desde que seja respeitado
o limite do quadrado do qual cada um deles faz parte, como ilustra a figura a seguir:
Figura 1: “Dança do Quadrado”
Um dos trechos da letra original é “Cada um no seu quadrado, cada um no seu
quadrado” que está em relação intertextual com “Cada um com seu partido, cada um com seu
partido” (C14), permitindo a leitura segundo a qual o político ‘limita-se’ a atuar, ‘limita-se’ a
saber sobre seu partido e que, portanto, não ‘se interessa’ em conhecer o significado da sigla
PMDB.
Esta enquete, em especial, aborda a questão da relevância da informação que é exigida
do político, o que é pertinente para a discussão acerca da construção de uma identidade
política. Muitas siglas passam a figurar como uma unidade lexical, cuja significação extrapola
o significado de cada letra que a compõe, perdendo-se, assim, o status de sigla. É o que
26
No jogo de tênis, é o ponto que permite encerrar a partida.
87
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
ocorre,
por
exemplo,
com
RADAR
(Radio Detecting
and Ranging)
e
LASER
(Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation). Não há impedimento para que
uma pessoa escreva um PS, sabendo que há essa alternativa para dizer o que não foi dito no
corpo de um e-mail, por exemplo, mesmo que ela não saiba que PS significa Postscriptum. Um indício disso é a formação, por acréscimo de sufixos formadores de adjetivos,
de termos como peemedebistas e petistas, levando em conta que essas siglas passaram a
desempenhar o papel de palavras, em muitas ocasiões. Portanto, não saber o significado dessa
sigla ou outra dessa natureza não é pré-requisito para que o político desempenhe um bom
papel. No entanto, as enquetes do CQ utilizam-se de estratégias para validar essa associação.
Vejamos mais um quadro de enquetes:
Quadro 33 – “Crise da pecuária” (dia 06/04/09)
C1
C2
C3
DG: Como vai? Tudo bom, seu
deputado? O que tá rolando
aqui?
C4
C5
C6
LCH: a questão da crise da
pecuária
de
corte
dos
frigoríficos.
Dg: Agora, pra quem tá em
casa, e não sabe, quantos
ministérios o governo tem
ligados à agricultura?
[som: parecido com o ruído de
uma porta pesada e antiga, em
movimentação]
LCH: tem dois ministérios.
88
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C7
C8
C9
DG: Pra quem tá em casa e não
sabe o nome dos ministros
ligados à agricultura?
Reinhold Stephanes e o
Guilherme de Cassel.
DG: o senhor acha que um
deputado, pra executar bem
seu trabalho, ele precisa ter um
bom conhecimento do que
acontece no executivo?
[tilintar metálico]
[som: semelhante a uma porta
rangendo rapidamente]
C10
C11
JL: Com certeza absoluta, né?
Tem que tá a par da situação
que tá acontecendo no governo
porque nós deputados e viemos
pr’aqui pra fiscalizar o executivo
e legislar, fazer lei, né?
DG: o nome do ministro da
agricultura conhecemos?
C13
C14
C15
JL: Eu agora, me, me falta a
memória, aqui, no momento.
DG: o senhor conhece?
DG: que é o?
[som: Algo sendo
brusca e dificilmente]
engolido
C12
JL: conhecemos.
[som: galho sendo contorcido ou
crescendo]
JL: conheço, de perto.
89
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C16
C17
DG: e o do Desenvolvimento
Agrário?
DG: Amigo deles?
JL: conheço todos eles, porque
participo sempre das reuniões
do governo
DG: mas não lembra o nome?
[som: semelhante a uma mola
que se rompe]
JL: isso, são amigos.
JL: não lembro o nome...
DG: Mas é amigo chegado?
[som: grasnar de pato ou
marreco]
Nas primeiras cenas, DG pergunta ao deputado federal Luiz Carlos Heinze se há algo
ocorrendo no Congresso e, este responde àquele que há uma discussão sobre a crise da
pecuária de corte dos frigoríficos. Em seguida, o deputado diz, em função de duas novas
perguntas de DG, que há dois ministérios ligados à agricultura e que os ministros ligados a
esses ministérios são Reinhold Stephanes e Guilherme de Cassel. Por conceder respostas
objetivas e corretas, há um tilintar metálico que confere um valor semântico de aprovação,
amplamente convencionado nas enquetes. De certa forma, apresentá-lo, logo de início, indica
um exemplo de um político bem-informado, que tem conhecimento sobre o que ocorre no
Congresso, pelo menos. No entanto, esse ‘tipo de político’ não é o que se observa nas cenas
seguintes.
Antes de analisarmos as próximas enquetes, vamos retomar as primeiras enquetes do
quadro 24. Nele, DG pergunta se é preciso que um político seja bem-informado para que
execute bem seu papel e, o deputado Paulo Piau, por sua vez, responde que é “claro”:
90
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Como vimos, essa pergunta não só relembra o
propósito das enquetes, como também permite que o
próprio político se posicione acerca da importância de
estar bem-informado. Retornando ao quadro “Crise da
pecuária”, especificamente em C9 e C10, verificamos
que, da mesma forma como ocorreu com o Paulo Piau
nas primeiras enquetes, o deputado federal Jurandyr
Loureiro, diante de pergunta semelhante (“o senhor acha
que um deputado, pra executar bem seu trabalho, ele
precisa ter um bom conhecimento do que acontece no
executivo?”, em C9), prontamente responde afirmativamente à questão, com serenidade e
sobriedade: “Com certeza absoluta, né? (...)” (C10). Diante da resposta, DG questiona se o
político conhece – ou seja, se sabe – o nome do ministro da agricultura; o deputado, por seu
turno, responde que conhece. Entretanto, o recurso semiótico, do modo imagético, contradiz
essa resposta, uma vez que há um aumento do comprimento
do nariz do deputado.
Essa ação ganha saliência nesse momento, sobretudo
porque ela ocupa a posição Central, quanto ao valor
informativo, uma vez que se encontra no centro do rosto do
político e ‘aponta’ para o centro da cena, o que indica que
sua resposta é uma mentira e devemos atentar para essa
Figura 2: Personagem Pinóquio
informação. O recurso pictórico utilizado em C12 dialoga
com o personagem de histórias infantis Pinóquio, cujo nariz
crescia em função das mentiras que contava, como mostra a
figura 2.
Essa associação é reforçada pelo recurso semiótico, do
modo sonoro, que alude a um galho de árvore crescendo,
como descrito em C12. Esse som se justifica pelo fato de o
personagem Pinóquio ser um boneco de madeira, feito a partir
de um tronco de pinheiro. O próprio nome do personagem,
Pinocchio (em italiano, língua original da história) significa
pinhão, que é uma semente de um tipo de pinheiro. É
importante lembrar que esse recurso de um nariz-que-cresce
91
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
também faz parte das convenções retóricas construídas ao longo das enquetes e produz o
efeito, como foi possível verificar, de reprovação. Após ser ‘reprovado’, o deputado passa por
um constrangimento (C13), efeito produzido a partir do recurso que consiste na deformação
do rosto do político associado ao som de algo sendo engolido dificilmente, que confere um
alto grau de saliência a esse momento, assim como analisamos no tópico anterior. Isso se deve
ao fato de, frente à pergunta de DG (“que é o?”), o deputado afirmar não lembrar o nome do
ministro (da Agricultura), naquele momento. Mas também não lembra o nome do ministro do
Desenvolvimento Agrário, mesmo afirmando que ambos são seus ‘amigos’. Por ser
incoerente o fato de não lembrar/saber os nomes daqueles que são considerados como amigos,
DG questiona: “mas não lembra o nome?” (C17). Pergunta que é seguida por um recurso
sonoro semelhante a uma mola que se rompe, como uma espécie de ladainha que cessa, de
‘conversa fiada’ que se encerra.
Se, anteriormente, o deputado Jurandyr Loureiro tinha passado por momentos de
embaraço – ao dizer que conhecia os nomes dos ministros da Agricultura e do
Desenvolvimento Agrário, mas que não lembrava nenhum dos dois, mesmo sendo de seus
“amigos” –, a partir da cena 17, o deputado nem mesmo se dá conta da situação que
protagoniza. Atentamos, então, para o quadro 32 a seguir, que dá continuação ao anterior:
Quadro 34 – “Crise da pecuária” (dia 06/04/09) – continuação
C18
C20
C19
.
DG: o que o senhor acha do
Ministério da Apicultura?
[som: corda de instrumento
musical rompendo-se
JL: o trabalho que eles estão
fazendo
...o trabalho que eles estão
fazendo
são
trabalhos
importante.
92
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C21
DG: mas o senhor acha que o
ministro da apicultura é um bom
ministro?
JL: Lógico, lógico,
[som1:
música
cessando
bruscamente; som 2: vozes
gritando ‘Não!”, com o ‘a’
prolongado.]
pela competência que ele tem,
porque geralmente, é, é, se ele
foi escolhido pra ocupar essa
(?) é porque tem competência.
C24
C23
C22
DG: Obrigado. Oh, eu fico mais
tranquilo que o senhor tá
fiscalizando aí.
(o deputado sai do enquadre da
cena, julgando já ter terminado
a enquete, mas volta quando
DG diz “oh”)
C26
C25
[som: de uma espécie de apito]
JL: Tá bom, querido. Muito
obrigado.
JL
C27
DG: a gente tá em boas mãos.
Em C18, o deputado é questionado acerca do Ministério da Apicultura (pela
familiaridade sonora com “Agricultura” e “Aquicultura”) que, segundo informa a legenda –
esta sempre ocupa a posição Real nas cenas e apresenta uma estruturação bem marcada de
separação – ainda não foi criado. Como “apicultura” é a criação de abelhas, o recurso
semiótico utilizado para indicar que o deputado foi atingido é uma abelha que pica a testa do
deputado, deixando-a ferida, como pode ser visto em C19 e C20. O recurso da picada-daabelha constitui a informação Ideal, ideologicamente mais saliente, já que metaforiza o fato
93
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
de o deputado ter sido ‘ferido’ por uma abelha (justificado pelo suposto ministério da
“apicultura” do qual falava o deputado). Ao discorrer sobre esse ministério e os trabalhos
desenvolvidos pelo ministro responsável, o deputado Jurandyr demonstra não ter
credibilidade para discutir questões relacionadas aos ministérios – as partes acabam por criar a
ideia do todo – e, por conseguinte, sobre questões relevantes para a população.
Conforme seu próprio discurso inicial, não está preparado para desempenhar um bom
papel, já que não é bem-informado, de certa forma internalizado, assumido como verdade,
tendo em vista a formulação da pergunta que, como comentamos anteriormente, apenas
oferece duas possíveis respostas (sim ou não), o que induz o político a responder
afirmativamente, já que se considera um pressuposto para o exercício de seu cargo. São várias
as ações representadas pelos recursos semióticos que produzem o efeito de reprovação que,
juntos, criam um alto grau de saliência nos momentos em que atuam e reforçam, por isso, a
construção da identidade do político desinformado/não-preparado para ser político: além do
nariz-de-palhaço em conjunto com o som de um galho crescendo, há a picada de uma abelha
(convenção em pequena escala, já que se associa a esta situação em particular), som de vozes
gritando “Não!”, com o ‘a’ prolongado (C22) e a ‘marretada’ na cabeça do político que fica
deformada. Por fim, depois de tantas reprovações, o deputado agradece ao integrante do
programa por este ter dito que fica mais “tranquilo” por saber que há pessoas como esse
político “fiscalizando”, sem nem mesmo perceber que essa afirmação se trata de uma ironia,
já que – pela leitura orientada pelas estratégias desenvolvidas pelas enquetes –, com políticos
como o deputado Jurandyr Loureiro que desconhecem questões relacionadas ao próprio
ambiente de trabalho, ficamos ainda mais preocupados com a situação do país.
No que diz respeito ao recurso semiótico de uma marreta que atinge a cabeça dos
participantes da enquete, observa-se que há variações quanto aos objetos com os quais os
rostos dos políticos (ou do repórter, mas poucos são os casos) são atingidos, dependendo da
temática das enquetes. Também há variação no que diz respeito aos graus de reprovação,
dependendo do absurdo da resposta. Levemos em conta os dois quadros a seguir que ilustram
a variação quanto ao objeto que atinge o político:
94
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Quadro 35 – “Quantos ministros o governo tem?” (dia 06/04/09)
C1
C2
C3
DG: Quantos ministros o
governo tem?
FN: dezenove.
DG: Você não faz a mínima
idéia, né?
[som: corda de instrumento
musical partindo-se]
C4
C5
C6
FN: Chute
DG: quando não quiser ser mais
deputado, pode ser jogador de
futebol.
FN: ?
DG: O futebol que o senhor
quiser.
C8
FN: risos
DG: trinta e sete [som: freio]
C7
FN: na trave.
C9
[som: de um chute na bola]
DG: na trave não. Passou, urr,
longe, hein?
Questionado sobre a quantidade de ministros no congresso nacional, o deputado
federal Fernando Nascimento afirmou, com uma suposta segurança, que havia dezenove (C2).
No entanto, a resposta a essa pergunta é trinta e sete, o que aponta para o fato de o deputado
nem mesmo fazer ideia da quantidade real de ministros que o congresso possui. Mesmo
assim, o deputado disse que sua resposta tratava-se de um “chute”, que tinha passado “na
trave”, ou seja, por pouco ele não tinha feito gol, não tinha acertado a resposta à pergunta. Em
95
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
decorrência disso, DG afirmou que o político, “muito pelo contrário”, passou bem longe da
resposta. Assim, o objeto que atinge o deputado é uma bola de futebol, já que, em razão do
seu “chute”, foi possível verificar que não sabia a resposta e que não foi sincero diante desse
fato – já que disse que não sabia a resposta – e, portanto, foi reprovado no controle de
qualidade. Tal recurso transita do Novo para o Dado, o que reforça a leitura de que é uma
informação Nova uma bola ser utilizada como recurso para efeitos de reprovação, mas é uma
informação Dada algum objeto atingir os políticos que não respondem corretamente – ou,
pelos “critérios avaliativos” do CQ, merecem ser reprovados. Além disso, ao atingir a cabeça
do deputado, tem-se uma saliência maior do que no momento anterior, enfatizando a ação de
reprovar, enfatizando o político reprovado.
A bola que acerta esse político, com efeito de reprovação, não faz parte, entretanto,
dos recursos semióticos que se tornaram convenções recorrentes, assim como a picada-deabelha da enquete anterior, mas é uma convenção de grande escala, que indica reprovação, a
ação representada pelo recurso semiótico que consiste em algo que atinge a cabeça do
político, deformando-a ou provocando alguma ferida. Ressaltamos ainda que há alguns
objetos utilizados que são bastante frequentes – como a marreta colorida – o que faz esse
recurso ser duplamente convencionado.
Consideremos o quadro seguinte, ainda em atenção aos tipos de objetos que atingem
os políticos:
Quadro 36 – “O que é protecionismo?” (dia 09/03/09)
C1
C2
C3
DG: O Brasil tá fazendo tudo
que pode pra driblar as
barreiras...
...que o governo argentino está
colocando em seu mercado pra
proteger a economia deles...
96
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C4.
C5.
C6.
...dos nossos produtos.
...Isso se chama protecionismo,
mas...
C7.
C8.
C9.
... quem aqui sabe o que é que
é isso?
DG: O que o senhor acha dos
empresários argentinos que
estão pressionando a presidente
da Argentina...
a
continuar
protecionismo?
com
o
[som: algo sendo engolido
brusca e dificilmente.]
C10
C11
C12
EMB: eu acho que o Brasil é
maravilhoso
EMB: CQC, um abraço!
EMB: vocês são maravilhosos.
[som: som de uma corda de
um instrumento sendo partida]
97
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C13
C14
C15
DG: agora, agora, não, não!
Responder à pergunta!
DG: o que o senhor acha...
...do protecionismo argentino?
C16
C17
C18
EMB: eu acho que vocês são
maravilhosos.
DG: que que é protecionismo?
EMB: é (fonema prolongado),
uma
coisa
assim,
tipo,
mortalidade infantil
[som: vozes de
dizendo: ‘hein?’]
crianças,
C19
C20
C21
...que, no Brasil, a gente tá
vencendo. Lá na vitória da
conquista, a gente venceu.
DG: é isso aí?
EMB: e no resto do Brasil.
C22
C23
C24
DG: qual o dicionário que o
senhor anda lendo?
EMB: olha, eu fui (pausa longa),
acidentado por um Aurélio.
[som 1: uma voz exclamando
“uiaa”;
som
2:
grilos,
cricrilando]
98
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C26
C25
[som 1: vozes masculinas
gritando “uuh”; som 2: um
soco]
Levando em consideração a sequência de C2 a C7, é possível ter conhecimento sobre
uma notícia da semana em que a enquete foi exibida (o fato de o Brasil estar impondo
barreiras ao protecionismo argentino, oferecendo crédito) e o significado da palavra
protecionismo, permitindo que as pessoas que não soubessem anteriormente dessa
informação, possam adquiri-la, integrar o grupo dos que são informados, ao lado do CQ e
possam “julgar” os políticos.
Em C8, então, DG pergunta ao deputado federal
Edigar Mão Branca o que ele acha dessa notícia,
questionamento
que
o
deixa
em
situação
de
constrangimento, como reflete o uso do recurso semiótico
convencionado para tal (C9). Lembramos que tal recurso
provoca uma saliência maior a esse trecho da cena,
focalizando nossa atenção para esse fato. No entanto, a
resposta é, aparentemente, incoerente: “eu acho que o
Brasil é maravilhoso” (C10), talvez se justificasse pelo fato
de o Brasil, para o deputado, ser maravilhoso por evitar o protecionismo. Nas cenas seguintes,
revela-se que, na verdade, o deputado está “fugindo” dessa pergunta, o que é, de fato,
teatralizado por ele sair correndo, dizendo que o CQC é maravilhoso – assim como o Brasil,
pois. É o que pode ser visto de C11 a C14. Em função disso, pela movimentação da câmera e
dos participantes, as estruturas dado-novo alteram-se rapidamente, o que confirma o caráter
dinâmico dessa estrutura, tendo em vista as imagens em movimento. Quando DG alcança o
deputado, já que havia corrido atrás deste último, insiste na pergunta sobre o protecionismo
argentino e, mais uma vez, o deputado diz que os integrantes do CQC são maravilhosos
(C16). Como o lema do CQ, assim como os outros quadros do programa, é perseverar em seu
objetivo, a qualquer custo, DG pergunta o que é protecionismo.
99
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Se não bastasse ter “corrido” da pergunta
inicialmente, o político resolve respondê-la, mas de
maneira estapafúrdia, afirmando que é “uma coisa assim,
tipo, mortalidade infantil” (C18). Em consequência, vozes
de crianças – já que o assunto mortalidade infantil foi
mencionado – questionam com tom de descrédito essa
resposta. Nas cenas que sucedem essa resposta, o político
continua falando sobre o tema da mortalidade infantil que,
supostamente, teria diminuído no Brasil e em Vitória da
Conquista, cidade localizada na Bahia, estado do qual é
representante na câmara. Para confirmar se essa era, de
fato, a resposta à pergunta feita, DG insiste: “é isso aí?” (C20). Depois, sarcasticamente,
pergunta: “qual o dicionário que o senhor anda lendo?”, isto é, assumindo que o político
estivesse mesmo lendo algum dicionário, com um conceito absurdo desses, certamente, seria
um dicionário sem a menor credibilidade. Finalmente, a essa pergunta, o deputado apresenta
como resposta o fato de ter sido “acidentado por um Aurélio”, o que não permite nenhum
vislumbre de coerência quanto à pergunta. Assim, o deputado é reprovado pelo controle de
qualidade, sendo atingido por um livro de capas vermelhas, com a letra A inscrita em caixaalta na capa, aludindo a um dicionário “Aurélio”. Enfim, o político foi “acidentado” por não
responder (corretamente) aos questionamentos. Mais uma vez, quanto ao valor informativo,
verificamos a transição do objeto que representa o Aurélio da posição Nova para a posição
Dada, à semelhança da bola de futebol na sequência anterior, permitindo a leitura de que é
uma informação Nova utilizar um dicionário para atingir o deputado, o que só é justificado
pelo contexto, mas é uma informação antiga, Dada que os políticos merecem ser reprovados,
o que é simbolizado pela deformação do rosto do deputado que cria uma saliência maior a
esse momento. Vale lembrar que o “Aurélio” também faz um percurso oblíquo de uma
posição marginalizada na cena (já que está no canto superior-esquerdo, também ocupando a
posição Ideal) para a posição Central, que focaliza a atenção do telespectador ao efeito de
reprovação. Como uma convenção das enquetes do CQ, a resposta à pergunta é exibida na
parte inferior da cena – constituindo a informação Real, concreta, que sempre aparece em uma
faixa preta que revela uma forte separação, no que tange à estruturação.
Nos quadros seguintes, veremos como o uso do recurso semiótico de algo que atinge a
cabeça/a face do político pode variar quanto à intensidade.
100
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Quadro 37 – “Desmatamento, em 21 anos, atingiu seu menor índice” (dia 30/11/09
C2
C3
Rafael Cortez: governo
comemorou a beça uma notícia
que saiu em tudo que é jornal.
C4
C5
C6
O desmatamento na Amazônia
atingiu um recorde: foi o menor
dos últimos 21 anos.
Essa todo mundo tem que saber,
né? Afinal, do verdinho a gente
entende.
Vamos ver se eles sabem.
C7
C8
C9
SA: Houve um desmatamento
no Brasil como nunca tinha
havido, tinha havido antes.
RC: ou seja, um recorde de
super-desmatamento?
SA: de mais desmatamento.
C10
C11
C1
[som: vozes gritando ‘Não!”,
com o ‘a’ prolongado]
(há ênfase no termo “mais”)
C12
[som: Frigideira atingindo uma
superfície rígida]
101
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
É informado, nas cenas iniciais, que o desmatamento na Amazônia obteve o menor
índice em 21 anos, o que é um motivo de comemoração. Notemos que, em C3, surge a
imagem do famoso cantor de reggae, já falecido, Bob Marley, cuja imagem está associada ao
uso da maconha, aqui aludida pelas folhagens onde Rafael Cortez (RC) se encontra. Assim a
notícia de baixo índice de desmatamento deixaria esse cantor ‘feliz’, como demonstra seu
semblante. Com efeito lúdico – que não é nosso foco aqui – tal recurso constitui a informação
Dada, uma vez que é de conhecimento partilhado essas informações sobre o cantor.
Em C7, no entanto, a deputada Solange Amaral afirma, com ares de confiança e
certeza, que há um recorde de mais desmatamento, justamente o contrário do que a
informação real dizia. Por essa razão, a face da deputada foi atingida, violentamente, por uma
frigideira de ferro que passa a ter o molde de seu rosto, o que indica que a ‘cara-de-pau’ da
deputada é tão forte que deforma uma estrutura rígida de ferro. Esse recurso pictórico,
representando uma ação com efeito de reprovação, transita da informação Nova para a
informação Dada, uma vez que surge do lado direito, excepcionalmente com uma frigideira
de aço – que não se justifica pelo contexto, apenas por ser de um material resistente –, mas
atinge a deputada por esta ter se equivocado quanto à resposta, o que já é uma informação
Dada, ao longo das enquetes. O alto grau de deformação é reforçado com o som de várias
vozes gritando “Não!”, como indicado em C10, com o teor semântico semelhante a
expressões do tipo “Ah, por favor!”, “Que cara-de-pau!”. Esse recurso sonoro também é
convencionado em grande escala e produz um efeito de reprovação, como vimos no quadro
sobre a Crise da Pecuária. Vale salientar que, mesmo em uma enquete tão breve, houve duas
convenções, tanto no que se refere ao recurso sonoro quanto ao pictórico, que enfatizam o
grau de reprovação, o que já era comunicado pelo recurso pictórico.
Ainda em análise dos recursos que constituem ações com efeito de reprovação, tendo
em vista a intensidade com que atingem os políticos, vejamos a sequência abaixo:
102
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Quadro 38 – “Que países formam o BRICs?” (dia 29/06/09)
C1
C2
DG:
recentemente,
o
presidente Lula se reuniu na
Rússia com os líderes dos
principais países emergentes,
os BRICs
C3
DG: Os BRICs querem ser
C4
C5
C6
alternativa ao G-7, os países
mais ricos do mundo. Mas...
...que países formam os BRICs?
Vamos lá.
B, Brasil
(ao dizer a letra inicial, há um
tilintar metálico.)
C7
C8
C9
R, Rússia
I, Índia
C, China
É uma coisa boa de se saber,
né?
(A medida que as demais letras
vão aparecendo, há o som de
uma máquina digitadora)
103
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C10
C11
C12
DG: Lula teve recentemente
reunido com os países dos
BRICs, na Rússia
O jornal tá dizendo que, que
essa reunião foi de pouca
expressividade, não resolveram
muita coisa. O que o senhor
acha?
MM: e esse países do BRICs,
você conhece eles? Onde é
que fica isso?
C13
C14
C15
DG: onde é que fica?
MM: sim, os países do BRICs
onde é que fica?
DG: seria a próxima pergunta.
C16
C17
C18
MM: É, eu queria saber.
DG: qual são os países do
BRICs?
DG: CQC, onde é?
MM: Ah, eu sei onde é. Na
Bandeirantes, grande audiência
MM: eu não quero saber.
[som: vozes dizendo “aiaa”]
[som: voz comemorando
“uhuu!”]
DG: cê não quer saber?
MM: eu sei onde fica o CQC.
[som da abertura do programa]
104
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C19
DG:
ah,
obrigado
pela
propaganda aí, mas não é por
isso que vou livrar do senhor.
[som:
música
bruscamente]
C20
C21
DG: quais são os países do
BRICs?
Não sei.
[som: corda de instrumento
musical]
C23
C24
cessando
C22
DG: vou te falar qual que é.
Brasil, Rússia, Índia e...
... e, falta o ‘C’. Chuta um país
com a letra ‘C’.
Colômbia, então. É isso?
C25
[som de algum objeto metálico
encontrando uma superfície]
DG: não, errou!
Essa enquete gira em torno da notícia de que os países que formam os BRICs querem
ser uma alternativa ao G7, o que é informado ao mesmo tempo em que uma manchete do
jornal “Estado de São Paulo” é exibida na cena. Depois, por meio de um acróstico, os nomes
dos países que compõem a sigla/fazem parte dos BRICs são exibidos. Como se observa em
C7, as letras que formam a sigla são apresentadas conjuntamente com um breve tilintar
105
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
metálico, enquanto as demais letras que completam o nome do
país são acompanhadas de um som das teclas de uma máquina
de escrever, como se estivessem sendo datilografadas.
Esses recursos pictórico e sonoro são apresentados do
lado esquerda da cena, constituindo, assim, a informação
Dada, uma vez que a significação da sigla BRICs já é
conhecida, além de reforçar a ideia que, sendo assim, os
políticos já deveriam ter conhecimento sobre ela. No entanto,
se tomarmos como referência a relação entre as letras iniciais
que compõem a sigla e as demais que completam o nome do
país, percebemos que a informação Dada diz respeito à sigla,
não à sua significação. Esta, por sua vez, é a informação Nova,
outra leitura possível se considerarmos que o significado é
fornecido como uma forma de travar uma parceria velada com
o telespectador que, se porventura não soubesse dessa
informação antes, teria condições, agora, de julgar os políticos.
Essa é uma estratégia recorrente das enquetes do CQ, por
convidarem o leitor a fazer parte dessa investigação acerca do grau de informação do político.
Caso os políticos fossem questionados a respeito de uma informação, que as pessoas também
não soubessem (sem levar em conta, a relevância da informação, nessa suposição),
provavelmente, o discurso do CQ seria enfraquecido.
Ao comentar a notícia e perguntar a opinião sobre ela ao deputado federal Marcos
Medrado, este pergunta a DG quais são os países que constituem os BRICs, dizendo que
gostaria de saber a resposta (C16). No entanto, logo depois, o
deputado afirma não querer saber quais são esses países, mas
afirma saber “onde fica o CQC”. Quando DG pergunta onde
fica, este responde corretamente, que CQC encontra-se na
emissora Bandeirantes e que tem grande audiência. Essa
postura também se justifica pelo tom humorístico do quadro,
que permite que os deputados assumam uma postura mais
despojada
–
quando
não
dicotomicamente
irritadiça,
justamente pela falta de seriedade com que as enquetes são
realizadas. Ao dizer que sabe “onde fica o CQC”, o deputado
106
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
levemente se afasta de DG, o que poderia indicar que os elogios ao programa são uma
maneira de contornar uma pergunta cuja resposta não sabia fornecer.
Essa possibilidade é, então, descartada quando DG alerta que não vai, em outras
palavras, liberá-lo do questionamento, o que justifica o recurso sonoro utilizado que permite a
leitura de que uma ladinha, uma cantilena teve fim. Assim, é repetido o questionamento a
respeito dos nomes dos países referidos na sigla BRICs e o deputado informa que não sabe a
resposta. Diante disso, são revelados os nomes de três dos quatro países (Brasil, Rússia e
Índia) e é proposto ao deputado, como última alternativa, que este ‘chute’ um país cujo nome
inicie com a letra ‘C’. Como a escolha aleatória de um país que atendesse a esse requisito não
foi bem-sucedida (a resposta foi “Colômbia”, em vez de “China”), nem como último recurso
frente ao desconhecimento sobre o assunto, o político é fortemente atingido com uma barra de
ferro, como indício de reprovação, no controle de qualidade. Mais uma vez, esse recurso
pictórico surge da posição Nova e segue para a posição Dada, considerando que é uma
informação recente, nova, o político ser atingido por uma barra de ferro, mas já se têm como
informação antiga o fato de os políticos – grupo do qual é representante – serem
constantemente reprovados pelas enquetes.
3.5.
EFEITO DE APROVAÇÃO
Neste tópico, analisamos os recursos semióticos convencionados como ações que
produzem efeito de aprovação. Em oposição às de reprovação, as enquetes analisadas neste
tópico são uma ferramenta para julgar de maneira positivamente as atitudes dos políticos. No
entanto, a aprovação se dá sutilmente, na maior parte das vezes apenas pelo modo sonoro.
Atentemos os exemplos abaixo:
Quadro 39 – “Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do Mercosul?”(dia 09/11/09)
C1
C2
DG: A câmara dos deputados e
a
comissão
de
relações
DG: adivinha só, hein. Petróleo!
C3
DG: Venezuela.
107
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
exteriores
do
Senado
aprovaram a indicação sabe de
qual país para entrar no
Mercosul?
C4
DG: Acredita que tem um
monte de deputado colega do
senhor, que não sabia o nome
do país que o Brasil tá
indicando para entrar no
Mercosul? Cê acredita nisso?
C5
EX: verdade. Tá
porque eles são
Venezuela.
C6
Certo.
contra
É
a
DG: ooh! Ligadão...
[som: tilintar metálico]
A enquete acima gira em torno da informação que a Venezuela foi indicada para
participar do Mercosul. Depois de questionar outros políticos, DG provoca o deputado Eudes
Xavier, perguntando se o deputado acreditava nesse suposto absurdo de outros deputados não
saberem qual teria sido o país indicado. Se o deputado não soubesse essa informação,
provavelmente, teria sua cabeça deformada, verticalmente de cima para baixo, e haveria um
som de algo sendo engolido dificilmente, ou seja, um recurso com valor de constrangimento,
como vimos. Mas, ao contrário, o deputado sabe qual é o país. E, em vez de dizer o nome
desse país – o que estava implicado, mas não foi explicitamente feita uma pergunta –, o
deputado prefere comentar a observação de incredulidade de DG, dizendo que seus colegas
deputados não souberam responder, provavelmente, por serem contra a Venezuela, o que
demonstra que Eudes Xavier estava informado sobre esse assunto. Por isso, há um breve
tilintar metálico associado a um brilho intenso originário do sorriso do deputado, o que
produz uma saliência a esse momento pela variação da intensidade do brilho, conferindo uma
espécie de parabenização pela ‘resposta’, além de indicar que o deputado se orgulha de ter
“desempenhado seu papel”. Como se vê, mesmo em ações que produzem efeito de aprovação,
o tom é de escárnio.
Consideramos, por fim, este outro exemplo:
108
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
Quadro 40 – “O significa Anac?” (exibido dia 23/03/09)
C2
C3
DG: Olha só! O aeroporto
Santos
Dumont
tá
sobrecarregado...
...e o ministério público tá
questionando a decisão da
Anac de ampliar os voos do
Rio de Janeiro...
C5
C6
DG: O ministério público tá
questionando a decisão da
Anac no Rio. O que o senhor
acha disso?
FD: Que o ministério público
tem que cumprir sua função e
umas das funções é controlar
a administração pública.
C7
C8
C9
DG: Pra quem tá em casa e
não sabe o que é Anac,
explica pra eles.
FD: Agência Nacional de
Aviação
Civil,
uma
das
agências reguladoras, foi criada
para regular a prestação de
serviços públicos.
C1
C4
Mas o que significa Anac?
[som1: alarme do detector de
metais;
som
2:
tilintar
metálico]
DG: Nota 10, seu deputado.
[som:
vozes
de
vibração/entusiasmo, como de
torcidas de times]
109
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
C10
C11
C12
...foi aprovado pelo...
C13
...Controle de Qualidade.
[som: carimbo batendo na
superfície rígida]
Inicialmente, como é habitual, é-nos informado sobre qual assunto girará as enquetes.
Neste caso, trata-se do questionamento do ministério público acerca de uma decisão da Anac,
que prevê a ampliação dos voos no Rio de Janeiro. A partir disso, pretende-se verificar se os
políticos sabem o que significa Anac, sigla que também é bastante utilizada com valor lexical,
como uma palavra. Em um caso ímpar, entre todas as enquetes exibidas no ano de 2009, há
uma confluência de vários recursos semióticos, cujas ações representadas produzem efeito de
aprovação, uma vez que, de forma exemplar – para os padrões do CQ –, o deputado federal
Flávio Dino não só comenta com propriedade a notícia-base da enquete (C6), como também
responde corretamente à pergunta sobre o significado da sigla e faz um comentário sobre o
papel dessa agência (C8). Para melhor visualização, topicalizamos a seguir a ocorrência de
tais recursos que promovem a ideia de aprovação:
a) DG afirma – portanto, usando a língua – que o deputado merece nota dez (C9);
b) três pares de mãos (de supostos três integrantes do CQ) aparecem na posição Real – o
que reforça a leitura de congratulações concretas pelo bom desempenho do papel do
político – da cena, aplaudindo o político (C9);
110
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
c) vozes vibrando pela resposta que se espera de um político bem-informado, o que
confere um grau elevado de saliência a esse momento;
d) mão, portando um carimbo, que atinge a cabeça do político que, diferentemente do que
ocorre com os recursos com efeito de reprovação, não tem seu rosto deformado, mas
carimbado com o termo “aprovado” (C10 a C13). Diferentemente da maioria dos
recursos que produzem outros efeitos, esse recurso pictórico que representa o efeito de
carimbar a testa do político transita da posição Dada para a posição Nova, quanto ao
valor informativo, o que promove a ideia de que, neste caso em particular, a
informação conhecida pelos telespectadores é que há uma ação com efeito de
reprovação, mas é uma novidade o fato de um político “passar” pelo controle de
qualidade, de forma ilesa; e
e) adjetivação “aprovado”, dentro de uma moldura, em cores brancas em contraste com a
pele do deputado, que também confere saliência a esse momento da cena.
Como verificamos ao longo das análises, há outros recursos semióticos
convencionados, cujas ações promovem o efeito de aprovação, notadamente o som de um
breve tilintar metálico, usado em grande escala. No entanto, a maior parte dos recursos
semióticos que se tornaram convenção em grande escala faz parte do modo sonoro e,
normalmente, são breves e sutis. Esse fato revela que, ao passo que os recursos de outros
efeitos – sobretudo os que revelam uma reprovação – fazem uso do recurso pictórico e são
mais salientes, os recursos de aprovação são mais restritos aos recursos semióticos do modo
sonoro e são menos salientes. Assim, podemos afirmar que as enquetes do CQ lançam mão de
estratégias, principalmente a utilização de recursos semióticos convencionados, para construir
a ideia de que ser bem-informado para exercer adequadamente o papel de representante do
povo é uma obrigação, é um pré-requisito, não é preciso ‘alarde’ quanto a isso. Por outro lado,
faltar com esse compromisso é um indicativo de que é preciso estar em alerta, é preciso
chamar atenção para esse fato que, repetidamente, constrói a identidade de um político
desinformado, despreparado e até mesmo cara-de-pau por não assumir seu desconhecimento
acerca de algum assunto.
Para finalizarmos este capitulo, apresentamos a seguir o resumo dos recursos
semióticos convencionados em grande escala nas enquetes do nosso corpus, com seus
respectivos efeitos de sentido, conforme pôde ser verificado no decorrer desta análise:
111
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
RECURSOS SEMIÓTICOS CONVENCIONADOS EM GRANDE ESCALA NAS ENQUETES
PICTÓRICO
EFEITO DE SENTIDO
SONORO
Situações de Uso
Som de27
1.
1. Marreta que, encontrando a
Recurso
cabeça
predominantemente,
do
político,
emite,
Valoração
utilizado,
quando
o
geralmente, um som plástico
político responde incorretamente à
com uma espécie de apito;
pergunta. Quanto mais sólido é o
som
atribuído
ao
encontro
da
marreta com a cabeça, maior é o
Braço que atinge a cabeça
do político com uma
marreta colorida
grau de reprovação.
2.
Marreta
atingindo
uma
superfície de ferro, de madeira e
outros materiais.
27
Por “som de” leia-se “som característico de”/ “som tipicamente associado a”.
Reprovação.
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
A cabeça do político é
deformada, com variações de
tamanho e com a cor rosaavermelhada, assim que é
atingida pela marreta.
2.
Algo sendo engolido “a seco”,
Recurso
utilizado
com dificuldade.
pergunta
foi,
quando
possivelmente,
inesperada pelo político.
A cabeça é deformada quanto
ao tamanho, à semelhança de
uma bexiga de ar que se
expande
e
perde
o
ar
rapidamente, e quanto à cor,
passando a ficar avermelhada.
uma
Constrangimento
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
3.
Murro, um soco, quando atinge
Recurso
utilizado,
normalmente,
alguém.
após uma resposta incorreta, uma
Reprovação.
agressão verbal ou uma atitude
reprovável.
O rosto do político é golpeado
por um braço e é, em razão
disso, deformado na direção do
golpe
que
provoca
um
sangramento.
4.
Mola rompendo-se.
Recurso utilizado quando:
1. Dúvida.
1. o entrevistado demonstra não
ter
entendido/escutado
a
pergunta;
2. o enunciado do entrevistado é
de difícil compreensão ou sem
O sinal de interrogação
expande-se,
tomando
grande parte da cena.
nexo.
2.
Falta
compreensão
enunciado.
de
do
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
O sinal de interrogação
diminui
de
tamanho
rapidamente.
5.
Recurso
1. Ampulheta
Windows,
girando
Ampulheta
do
Windows gira na
político
do
programa
quando
(algumas
vezes
está
utilizado
quando
o
político:
1. demonstra
1. Temporização
estar
tomando
a
tempo para pensar sobre a
imagem não é acompanhada
questão ou lembrar da resposta
pelo som)
correta.
programa
testa do
2. Erro no carregamento de uma
2.
não responde ao final ‘do
informação pelo Windows. É
processamento’
ou
simultâneo à exibição da caixa
responde corretamente.
não
2. Temporização
mal-sucedida
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
de aviso.
Caixa de diálogo do programa
Windows é exibida sobreposta à
testa do político, com a típica
inscrição de erro.
6.
Recurso
Galho crescendo.
considera
utilizado
que
o
quando
político
se
está
contando uma mentira, que passou
a ser evidente no desenrolar da
enquete.
Nariz do político cresce à
semelhança
do
personagem
Pinóquio.
Reprovação.
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
7.
Algo que ‘escapole’ da boca do
Recurso utilizado quando o político
Inconsistência
político. No caso, abobrinhas que
diz alguma ‘besteira’.
resposta;
‘quicam’ na base do enquadre.
Abobrinhas saem da boca do
entrevistado.
As abobrinhas quicam na base
da cena até saírem dela.
imprecisão.
na
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
8.
1. Algo brilhando, refletindo luz.
2.Tilintar metálico.
Recurso
utilizado
quando
o
Aprovação.
político:
1.
demonstra ter ficado contente
por
ter
respondido
corretamente a pergunta;
2. merece ser parabenizado por ter
O sorriso do político reflete
uma forte luz que, brevemente,
se esvai.
respondido corretamente.
9.
Recurso utilizado quando o político
_
Deboche
fornece uma resposta em tom de
brincadeira
ou
com
usos
de
trocadilhos.
Nariz-de-palhaço é sobreposto ao
nariz do político
_
Recurso usado quando o enunciado
de um dos participantes atinge, de
Reprovação
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
alguma forma, o outro participante.
Várias vozes dizendo: “Urrr!”
É uma espécie de ‘espanto’ dos que
estão “assistindo à enquete”, em
analogia aos que assistem a uma
luta ou algum jogo e tem essa
reação em função de um golpe ou
de
uma
boa
jogada,
que
desestabilize o adversário.
Recurso
_
Grilo cricrilando.
usado
quando
há
um
Constrangimento
momento prolongado, geralmente
de constrangimento, em que o
político fica calado.
Recurso usado, geralmente, para
indicar
que
o
político
está
demorando a responder. Quanto
maior o tempo do tiquetaquear, ou
_
Tiquetaquear de um relógio.
seja, o tempo para responder à
pergunta,
maior
é
o
grau
de
reprovação, nos casos em que o
político não responde ou responde
incorretamente.
Reprovação
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
1. Freio brusco.
_
Recursos
2. Corda de instrumento partindo-
utilizados
quando,
indiscriminadamente, o político é
Surpresa, mudança
brusca de algo.
surpreendido pela pergunta que
se.
‘rompe’ o momento de inércia,
passividade, ‘enrolação’ do político.
Recurso
_
Vozes gritando ‘Não!”, com o ‘a’
prolongado.
utilizado
quando
a
Reprovação
resposta, dada por algum político a
tom
uma pergunta, é demasiadamente
descrédito.
com
de
absurda ou sem propósito. Tal
recurso sonoro assemelha-se ao teor
semântico de expressões como “Ah,
por favor! Essa não cola”, “ah, me
poupe”.
_
Breve grasnar de um marreco, de
Recurso utilizado quando o político
Reprovação
um pato.
fornece uma resposta em tom de
tom jocoso.
brincadeira
estratégia
ou
fruto
boba
de
de
uma
evitar
a
pergunta.
Alfinete
_
superfície.
atingindo
alguma
Recurso
utilizado
quando
o
entrevistador, após uma resposta do
Provocação.
com
CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes
político, faz uma pergunta em
réplica com tom provocativo ou faz
algum comentário com esse tom.
_
_
Disco
de
vinil
quando
é
Recurso utilizado quando o político
retrocedido pelos DJs nas pick ups
repete algum trecho de enunciado.
Breve tilintar metálico.
Recurso utilizado quando o político
Aprovação.
responde corretamente à questão.
_
_
Vozes
dizendo
“Ê!”,
com
Recurso utilizado quando o político
prolongamento do fonema.
responde corretamente à questão.
Aplausos.
Recurso utilizado quando o político
responde corretamente à questão.
Aprovação.
Aprovação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A
o passo que as nossas práticas sociais vão modificando-se, os gêneros textuais
também vão sofrendo mudanças, assim como a maneira como nos relacionamos
com eles, como os lemos. Por essa razão, faz-se necessário traçar um olhar analítico acerca
das mudanças decorrentes desse processo, sobretudo quanto à consideração da importância do
layout do gênero, uma vez que é imprescindível a leitura dos gêneros de forma integrada,
considerando os aspectos multimodais. Em decorrência do desenvolvimento da tecnologia e
dos mais variados meios de acesso/busca de informações, é possível, por exemplo, dispor de
mais mecanismos para criticar o status quo, mobilizar pessoas em prol de uma ação, debater
‘virtualmente’ os mais variados assuntos etc. Sobre essa patente mudança em nossas práticas,
foi publicada no final de 2010 uma reportagem de capa, no Caderno Aurora do jornal Diario
de Pernambuco, intitulada “Militância online mobiliza redes sociais e divide estudiosos:
ativismo preguiçoso ou antenado?”, como pode ser observado pelas imagens abaixo:
Figura 4: Capa e primeira página-dupla da edição 21/11/2010 no jornal Diario de Pernambuco.
Disponível em:
<http://www.diariodepernambuco.com.br/revistas/aurora/20101121/edicaoDigital.shtml>
Nessa reportagem, é discutida a nova maneira que as pessoas encontraram de se
mobilizar politicamente, mais especificamente pelo Twitter – em que informações são
disponibilizadas, em um limite de pouco mais de 100 caracteres, (quase) simultaneamente,
pelo computador, pelo celular, por outros programas etc. –, em contraposição às militâncias
122
CONSIDERAÇÕES FINAIS
de outros tempos, em que se saia às ruas para “lutar por direitos”. Um exemplo dessa prática é
a aprovação, em maio de 2010, do Projeto Ficha Limpa, como também lembra a reportagem:
“A conquista veio após orquestração da ONG Avaaz e de mobilização
tuiteira do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que
terminou com as caixas de e-mail dos deputados abarrotadas com 40 mil
mensagens, 10 mil seguidores no Twitter e nada menos que 100 mil
assinaturas num abaixo-assinado virtual.”
Essa reconfiguração do cenário de nossas práticas sociais, ilustrada acima, manifestase nos variados gêneros, sendo o gênero enquete, especificamente, bem representativo dessa
mudança. As enquetes são amplamente utilizadas em sites e blogs de natureza diversa, com
intuito de não só sondar a opinião pública a respeito de determinado tema, mas, sobretudo,
revelar questões importantes sobre temas de grande abrangência e relevância, além de orientar
a atenção das pessoas para o assunto abordado. Atentando para esse fato, focamos nossa
atenção nas enquetes do “Controle de Qualidade”, já que, dentre outras razões, estas giram
em torno de uma pergunta-mãe ou pergunta-geral: “Os políticos são bem informados?”, fruto
de um estereótipo, construído pelo próprio quadro por meio de estratégias diversas, como
vimos, segundo o qual os políticos não são bem-informados. Levando isso em consideração,
debruçamo-nos à análise desse gênero, procurando investigar como os recursos semióticos –
cujas variedade e produtividade são ímpares e nos chamaram a atenção – operam na
construção de uma identidade dos políticos, uma vez que esses recursos são convencionados
ao longo das enquetes, atuando no intuito de reprovar, constranger, aprovar etc.
Para cumprir esse objetivo, nosso trabalho desenvolveu-se em três momentos. No
primeiro – no capítulo Do que falamos quando falamos em gêneros? –, construímos a noção
de gêneros, tomando como base os Estudos Retóricos do Gênero e guiando-nos,
principalmente, pelos trabalhos de Bazerman (2008 e 2009) e Miller (2009). Em seguida,
dedicamos nossa atenção ao gênero enquete, objeto de nosso estudo, caracterizando-o formal
e funcionalmente e indicando suas particularidades, tendo em vista nosso corpus. Pela
importância desta noção para a leitura dos gêneros, também revisitamos o conceito de
intertextualidade, pela perspectiva de vários autores, como Koch (1991; 2006) e AuthierRevuz (1982); transpomos a noção de intertextualidade para as imagens, chamando-a de
intericonicidade, conforme propõe Arbex (2000); e, por fim, tendo em vista um estudo de
Mozdzenski (2009), apropriamo-nos da noção de continnum, no tratamento da
123
CONSIDERAÇÕES FINAIS
intertextualidade, no que diz respeito à forma que o intertexto assume no novo contexto e à
função que ele passa a desempenhar.
Em um segundo momento – no capítulo Multimodalidade: o cenário teórico –,
tratamos do traço constitutivo de qualquer texto: a multimodalidade. Direcionamos nossa
atenção aos pressupostos teóricos quanto a esse tema, procurando definir os principais
conceitos relacionados a ele, como recursos semióticos, modo, potencial de sentido e
metafunção. Também discorremos sobre a Gramática de Design Visual, de Kress e van
Leeuwen (2006), apresentando as três funções que a sustentam, bem como sua correlação com
as metafunções de Halliday. Além disso, abordamos a Função Composicional, terceira da
Gramática de Design Visual, uma vez que ela agrupa coerentemente as duas outras funções,
compondo um todo harmônico, por meio de três aspectos: valor informativo, saliência e
estruturação. Esse recorte é apropriado ao nosso objetivo, levando em conta que os outros
elementos das outras duas funções se articulam por meio da terceira. Vimos também que há
zonas que apresentam valores diferentes quanto à informação; que há graus de saliência, o que
permite que alguns elementos chamem mais a nossa atenção do que outros, por uma dada
razão; e que há estruturas que agrupam elementos em uma cena. Também lembramos, neste
tópico, que essas estruturas são dinâmicas em se tratando de imagens em movimento, como é
o caso das enquetes analisadas. Por fim, seguindo os estudos de Kostelnick e Hasset (2003),
tratamos das convenções retóricas, que são inerentemente retóricas e sociais, por permearem
os mais diversos textos e guiarem nossas leituras. Vimos que essas convenções são tão
arraigadas em nossa cultura e ‘inundam’ os textos que, muitas vezes, nem as reconhecemos
como tal. Assim, relacionamos essa noção de convenção aos recursos semióticos das
enquetes, já que muitos deles são convencionados em grande escala, determinando por que
trilhas de leituras o telespectador-leitor deve seguir.
No terceiro momento de nosso estudo – no capítulo Análise da Composição das
Enquetes –, analisamos uma série de enquetes, categorizadas conforme as ações representadas
pelos recursos semióticos mais recorrentes, ou seja, aqueles que passaram a ser
convencionados em grande escala. A partir da análise e também levando em conta as demais
enquetes analisadas nos demais capítulos, chegamos à conclusão que, em ações com efeito de
reprovação, de constrangimento e outras com tom negativo, há um intenso uso de recursos
semióticos visuais em congruência com os sonoros. Na maior parte dos casos, o político é
“atingido” por objetos variados, indicando que ele foi reprovado pelo Controle de Qualidade
e que, por consequência, não desempenha um bom papel. Esse recurso visual, juntamente com
o sonoro – considerando que há sempre associação a um som, que varia quanto ao grau de
124
CONSIDERAÇÕES FINAIS
reprovação, como vimos –, enfatiza fortemente a figura do político que é “ferido” pelo objeto,
já que sempre há deformação de sua face e representação de sangue que sai de seu rosto. Em
contrapartida, os recursos que produzem o efeito de aprovação são mais sutis e, normalmente,
são recursos sonoros, conferindo menor grau de saliência em relação aos recursos com efeito
negativo. Uma leitura autorizada que se pode apreender dessa construção, conduzida pelas
escolhas discursivas das enquetes – quais manchetes são exibidas, quais questionamentos são
feitos, quais depoimentos são exibidos, quais recursos semióticos são utilizados (essa, em
especial, foco de nosso estudo) etc. – é que o político deve ser bem-informado, deve saber
responder àquelas perguntas e, então, não precisa ser veementemente parabenizado, só
cumpre seu papel. Além disso, como é forte o caráter humorístico do quadro, pode-se afirmar
que não há graça em exibir políticos que respondem corretamente às perguntas; ao contrário,
provoca humor exibir políticos desinformados e que são, por isso, ridicularizados
publicamente.
Nas enquetes, portanto, há a construção de uma identidade política: os políticos são
desinformados, revelando que, mesmo em uma sociedade pautada pela facilidade de acesso à
informação, há representantes do povo – de que se exige estar sempre bem-informado –, que
não sabem, muitas vezes, nem o que se passa no Congresso, onde trabalham. Então, à
pergunta-geral que embasa as enquetes, há uma resposta: “Não, os políticos não são beminformados”. No entanto, essa identidade construída ao longo das enquetes não é fixa e
perpétua. Revela uma construção neste contexto, neste momento histórico, acerca de um
aspecto – ter ou não uma informação, saber ou não de um fato, de um dado etc., nos termos do
CQ, a partir das estratégias que utiliza para tal. Entretanto, essa identidade pode assumir
outros aspectos, como “político é cara-de-pau” (já que alguns não ‘assumem’ que não sabem a
resposta à pergunta, em muitos casos), o que está de acordo com o que aponta Hall (2005:21),
segundo o qual a identidade “muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou
representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida”.
Ao escolher determinados conteúdos, associados à confluência de diversos recursos
semióticos, dos diferentes modos, as enquetes promovem a construção de variados efeitos de
sentido “para influenciar o outro, isto é, no fim das contas” é realizada uma “escolha de
estratégias discursivas”. (Charaudeau, 2006:39). Como foi possível verificar, portanto, as
enquetes são utilizadas para legitimar o próprio discurso do CQ acerca da desinformação dos
políticos, a partir da exibição de políticos que não respondem corretamente às perguntas que
são propostas – com status de relevantes para o exercício do papel de representante do povo –
em conjunto com recursos semióticos convencionados que produzem, principalmente, efeitos
125
CONSIDERAÇÕES FINAIS
de reprovação e constrangimento. Assim, mostramos que há um posicionamento ideológico
nas enquetes, construído por estratégias que se manifestam não só no que diz respeito às
escolhas linguísticas, mas, sobretudo, quanto aos recursos semióticos de outros modos, sendo
de extrema importância um olhar atento dos aspectos multimodais envolvidos na leitura dos
gêneros, o que assinala para um melhor desenvolvimento de trabalhos a esse respeito.
Para concluir, primeiramente, ressaltamos que esta investigação demonstrou que é
possível enveredar pela análise de gêneros dinâmicos de forma produtiva, levando em conta
os aspectos multimodais que os constituem, mesmo diante dos desafios que a acompanham,
como capturar imagens originalmente em movimentos e descrever recursos sonoros. O
potencial de sentido das imagens, a retórica visual, as convenções que permeiam o design, por
exemplo, já são objeto de estudo na área do Design. Da mesma forma, o papel da música, do
ritmo, dos sons em um filme, por exemplo, é pauta das discussões das produções
audiovisuais. No entanto, com este estudo, procuramos sinalizar para a importância de se
considerar aspectos de outras áreas de conhecimento que contribuam para os estudos
linguísticos. É possível, como demonstramos, enriquecer os estudos na área da Linguística,
quando passamos a considerar os demais modos de representação como partícipes da
construção dos gêneros diversos – não como âncoras para o texto verbal –, uma vez que todos
os modos de representação comunicam e apresentam determinados potenciais de sentido para
tal.
Por fim, gostaríamos de ressaltar que este trabalho não tem a pretensão de esgotar o
tema. Ainda há muito a ser investigado sobre as relações entre a língua e os outros modos de
representação. Além disso, compartilhamos com os leitores o desejo de que este estudo
contribua satisfatoriamente para os estudos linguísticos e que, consequentemente, instigue
novos trabalhos nessa área.
126
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, D. B. L. (2008). (Org.). Perspectivas em Análise Visual: do fotojornalismo ao
blog. João Pessoa: Editora Universitária - UFPB.
ARBEX,
M.
(2000)
Intertextualidade
e
Intericonicidade.
Disponível
em:
<www.letras.ufmg.br/site/publicacoes/LIVROCOLOQSEM7.doc>. Acesso em 05 jan.2010.
AUTHIER-REVUZ, Jaqueline. (1982). Heterogeneidade mostrada e heterogeneidade
constitutiva: elementos para uma abordagem do outro no discurso In: Entre a transparência e
a opacidade: um estudo enunciativo do sentido. Porto Alegre: EDIPUCRS.
BAKHTIN, M. (1997). Estética da criação verbal. 2ª ed. São Paulo, Martins Fontes.
BAKHTIN, M.; VOLOSHINOV, V. (2004). Marxismo e Filosofia da Linguagem. 11º ed.
HUCITEC. São Paulo.
BAZERMAN, C. (2006). Intertextualidade: como os textos se apoiam em outros textos. In:
BAZERMAN, C.; Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez. p. 87-103.
_____. (2007). Intertextualidades: Volosinov, Bakhtin, Teoria Literária e Estudos de
Letramento. In: BAZERMAN, C.; Escrita, gênero e interação social. São Paulo: Cortez. p.
92-109.
_____. (2009). Atos de fala, gêneros textuais e sistemas de atividades: como os textos
organizam atividades e pessoas. 3ª ed. In: BAZERMAN, C.; Gêneros Textuais, Tipificação e
Interação. São Paulo, Cortez. p. 19-46.
BARTON, D; HAMILTON, M. (1998). Understanding Literacy as social practice. In: _____.
Local Literacies: Reading and Writing in One Comunities. New York: London: Routledge. p.
3-23.
127
BATEMAN, John A. (2008a). Introduction: Four Whys and a How. In: Multimodality and
Genre: a foundation for the systematic analysis of multimodal documents. Palgrave
Macmillan: New York. p. 1-19.
_____. (2008b). Multimodal Documents and their Components. In: Multimodality and Genre:
a foundation for the systematic analysis of multimodal documents. Palgrave Macmillan: New
York. p. 21-106.
BHATIA, V. K. (2009). A análise de Gêneros Hoje. In: BEZERRA, B. G.; BIASIRODRIGUES, B.; CAVALCANTE, M. M.. (Orgs.). Gêneros e Sequências Textuais. Recife:
EDUPE.
BERNHARDT. S. A. (2004). Seeing the Text. In: HANDA, C. (ed.). Visual rhetoric in a
digital world: a critical sourcebook. Bedford/St. Martin’s, Boston/New York. p.94-106.
BOURDIEU, P. (1981). A Opinião Pública Não Existe. In: THIOLLENT, Michel. Crítica
Metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis. p.137 151.
Disponível
em
<http://www.scribd.com/doc/21979592/Bourdieu-A-opiniao-publica-nao-
existe>. Acesso em 02 jan. 2010.
CHARAUDEAU, P. (2006). Discursos das Mídias. São Paulo: Contexto.
CHIEW, A. K. K. (2004). Multisemiotic Mediation in Hypertext. In: O’HALLORAN, K.L.
(org.). Multimodal Discourse Analysis. New York: Continuum.
DIONISIO, A. P. (2005). Multimodalidade discursiva na atividade oral e escrita. In:
MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. P. (orgs.). Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica, p.
177-196.
DIONISIO, A. P. (2006) Diversidades de ações sociais e de representações: diversidade de
gêneros
e em
gêneros.
Disponível em:
<http://www.universidadedombosco.com.br/colegio/pdf/IICONGRESSO.pdf#page=11>.
Acesso em 20 jun. 2009.
128
DIONISIO, A. (2008). Gêneros Multimodais e Multiletramento. In. KARWOSKI, A.M.;
Gaydeczka, B.; BRITO, K. S.. (orgs.). Gêneros Textuais: reflexões e ensino. 3ª ed.União da
Vitória: Kaygangue.. p. 119-132.
FAIRCLOUGH, N. (2001). Discurso e mudança social. Brasília: Universidade de Brasília.
FIORIN, J. L. (2006). Interdiscursividade e intertextualidade. In: BRAIT, B (org.). Bakhtin:
outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, p. 161-193.
FURTADO DA CUNHA, M. A.; SOUZA, M. M. (2007). Transitividade e seus contextos de
uso. Rio de Janeiro: Lucerna, p. 17-25.
HALL, S. (2005). A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A
HEBERLE, Viviane M. Revistas para mulheres no século 21: ainda uma prática discursiva de
consolidação ou de renovação de idéias? In: CALDAS-COULTHARD, C. R., FIGUEIREDO,
D. C. (Orgs). Linguagem em Discurso. Vol. 4, n. especial, p. 85-112, 2004.
JEWITT, C. (2009). An Introduction to Multimodality. In: The Routledge Handbook of
Multimodal Analysis. New York, Routledge Press. p. 14-27.
JEWITT, C.; OYAMA, R. (2001). Visual Meaning: a social semiotic approach. In: VAN
LEEUWEN, T.; JEWITT, C. Handbook of Visual Analysis. London, Thousand Oaks, New
Delhi: Sage Publications. p. 134-156.
KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. (2006). Ler e Compreender - os sentidos do texto. São Paulo:
Contexto.
KOSTELNICK, C.; HASSET, M. (2003a). Visual Language, Discourse Communities and
The Inherently Social Nature of Conventions. In: KOSTELNICK, C. Shaping Information:
the rethoric of visual conventions. Carbondale: Southen Illinois University Press. p.10-42
129
_____. (2003b). What’s conventional, what’s not. In: KOSTELNICK, C. Shaping
Information: the rethoric of visual conventions. Carbondale: Southen Illinois University
Press. p.43-80.
KRESS, G. (2003). Literacy in the New Media Age. London, Routledge.
_____. (2004). Multimodality, Multimedia and Genre. In: HANDA, Carolyn. Visual rethoric
in a digital world: a critical sourcebook. Bedford/St. Martin’s, Boston/New York. p.38-54.
_____. (2009). What is Mode?. In: JEWITT, C. (ed). The Routledge Handbook of Multimodal
Analysis. London and New York: Routledge Press. pp. 54-67.
KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. (2001). Multimodal Discourse: the modes and media of
contemporary communication. New York, Oxford University Press.
_____. (2006). Reading images: the grammar of visual design. 2ª ed. London: Routledge.
KRESS, G.; JEWITT, C.; OGBORN, J. e TSATSARELIS, C. (2001). Multimodal teaching
and learning: the rhetorics of the science classroom. London: Continuum.
LÉVY, P. (1996). A Virtualização da Economia. In: _____. O que é virtual? São Paulo,
Editora 34, p. 51-70.
MACHIN, D. (2007). Introduction to Multimodal Analysis. London: Hodder Arnold.
MARCUSCHI, L. A. (2005). Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO,
A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (orgs.). Gêneros textuais e ensino. 4ª ed. Rio de
Janeiro, Lucerna. p. 19-37.
_____. (2007). Cognição, explicitude e autonomia no uso da língua. In: _____. Cognição,
linguagem e práticas interacionais. Rio de Janeiro: Lucerna.
_____. (2008a). Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2ª Ed. São Paulo:
Parábola.
130
_____. (2008b). Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. 3ª ed. In:
KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (orgs.). Gêneros textuais: reflexões e
ensino. Palmas e União da Vitória (PR), Kaygangue. p. 15-29.
MAYER, R. E. (2008). Multimedia Literacy. In: JULIE COIRO… [et al]. Handbook of
Research on New Literacies. New York: Routledge. p. 359-376.
MENDONÇA, M. (2010). Ciência em Quadrinhos: imagem e texto em cartilhas educativas.
Recife: Bagaço.
MILLER, C. R. (2009). Gênero como Ação Social. In: MILLER, C.R. Estudos sobre gênero
textual, agência e tecnologia. Recife: Editora Universitária da Universidade Federal de
Pernambuco. p. 19-45.
_____. (2010). Rethoric, Tecnology, and Pushmi-Pullyu. In: SELBER, S. (ed). (2010).
Rhetorics and technologies: new directions in writing and communication. South Carolina,
the University of South Carolina Press.
MOITA LOPES, L. P. da. (2003). Socioconstrucionismo: discurso e identidades sociais. In:
MOITA LOPES, L. P. da (org). Discursos de Identidade. São Paulo: MercadodeLetras
MOIRAND, S. (2003). Les lieux d’inscription d’une mémoire interdiscursive, dans Härmä J. :
Le langage des médias:des discours éphémères?, Paris, l’Harmattan, p. 83-111.
MOZDZENSKI, L (2009). A intertextualidade no videoclipe: Uma abordagem discursiva e
imagético-cognitiva, Contemporânea - Revista de Comunicação e Cultura, Bahia, v.7, n.2,
p.1-33.
_____. (2008). Multimodalidade e gênero textual: analisando criticamente as cartilhas
jurídicas. Recife: Ed. Universitária.
MOZDZENSKI, L. VAZ, A.; SILVA, M. da C. H. (2008). Da obra-prima ao pastiche:
multimodalidade e intericonicidade nos ‘Quadrões’ de Maurício de Sousa. In: SIMPÓSIO
131
DE HIPERTEXTO E TECNOLOGIA DA EDUCAÇÃO. Recife, UFPE. Disponível em:
<http://www.ufpe.br/nehte/
simposio2008/anais/Leonardo-Mozdzenski-e-Ana-
Vaz.pdf>.
Acesso 29 dez. 2010
PEREIRA, M. E. (2002). Psicologia social dos Estereótipos. São Paulo: E.P.U.
PONTES, H. (2007). Discurso, corrupção política e construção de identidades sociais. In: II
Simpósio Internacional de Análise Crítica do Discurso & VIII Encontro Nacional de Interação
Verbal e Não-Verbal, 2008, São Paulo. Programação e Resumos, 2007. p. 1-11. Disponível
em: <http://www.fflch.usp.br/dlcv/enil/pdf/21_Herimateia_P.pdf>. Acesso em 03 jan. 2011.
POSSENTI, S. (1998). Os Humores da Língua. São Paulo: Mercado de Letras.
SCHIAVONI, J. E. (2008). Vinheta: Uma questão de identidade na televisão. 130f.
Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação,
Universidade
Estadual
Paulista,
Bauru.
Disponível
em
<http://www.faac.unesp.br/posgraduacao/Pos_Comunicacao/pdfs/jaqueline_schiavoni.pdf>.
Acesso em: 24 dez. 2010.
STÖCKL, H. (2004). In Between Modes: language and image in printed media. In:
CHARLES,
C.;
KALTENBACHER,
M.;
VENTOLA,
E
(Orgs.). Perspectives
on
Multimodality. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamin. p. 09-30.
UNSWORTH, L. (2001). Describing visual literacies. In: Teaching multiliteracies across the
curriculum: changing contexts of text and image in classroom practice. Buckingham: Open
University Press, p.71-112.
VAN LEEUWEN, T. (2005). Introducing Social Semiotics. London: Routledge.
132
REFERÊNCIA DOS VÍDEOS
DATA
Exibição
na TV
ENDEREÇO ELETRÔNICO
Registro no
site da Band
09/03
http://videos.band.com.br/v_13762_danilo_gentili_testa_os_c
onhecimentos_gerais_dos_politicos.htm
23/03
24/03
http://videos.band.com.br/v_15215_danilo_gentilli_testa_os_c
onhecimentos_dos_politicos.htm
06/04
07/04
http://videos.band.com.br/v_17429_danilo_gentili_testa_o_ni
vel_de_conhecimento_dos_politicos.htm
18/05
19/05
http://videos.band.com.br/v_22323_controle_de_qualidade_o
_retorno.htm
"15/06"
29/06
http://videos.band.com.br/v_25361_mundo_empresa_comec
a_a_fabricar_vacina_contra_h1n1.htm
30/06
20/07
http://videos.band.com.br/v_27032_controle_de_qualidadese
ra_que_os_politicos_sabem_o_que_e_o_bric.htm
http://www.youtube.com/watch?v=a6Mfqg853M&feature=related
(Obs.: link do Youtube. O vídeo não está mais disponível no
site do programa)
27/07
28/07
http://videos.band.com.br/v_29849_cqc_testa_os_conhecimen
tos_dos_politicos_no_controle_de_qualidade.htm
17/08
17/08
http://videos.band.com.br/v_32110_controle_de_qualidade_c
qc_testa_os_conhecimentos_parlamentares.htm
09/11
10/11
http://videos.band.com.br/v_40696_controle_de_qualidade_d
anilo_gentili_faz_sabatina_nos_politicos.htm
31/11
01/12
http://videos.band.com.br/v_42716_controle_de_qualidade_d
eputados_sabem_sobre_amazonia_geysi_ou_chavez.htm
07/12
11/12
http://videos.band.com.br/v_43758_controle_de_qualidade_p
ernas_de_pau_de_brasilia.htm
133
Download

Enquetes do “Controle de Qualidade” do CQC