UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS Enquetes do “Controle de Qualidade” do CQC: uma análise multimodal Nadiana Lima da Silva Recife 2011 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS Enquetes do “Controle de Qualidade” do CQC: uma análise multimodal Nadiana Lima da Silva Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Linguística. Orientadora: Prof.ª Dra. Angela Paiva Dionisio Coorientadora: Prof.ª Dra. Maria Medianeira de Souza Recife 2011 Aos meus pais, Darci e Nilson, por me ensinarem o que é um Lar A minha irmã, Camila, pela companhia de vida A meu namorado Leonardo, por ser sempre meu porto seguro Aos meus amigos, por fazerem parte de minha caminhada AGRADECIMENTOS A Deus, por ter promovido as situações e os desafios para que fosse possível minha chegada até aqui. Aos meus pais e a minha irmã, por me ensinarem, todos os dias, que o amor se manifesta nas mais corriqueiras atitudes, que é produto de vários outros sentimentos e que também é um processo. A minha orientadora Angela, por ter me proporcionado um dos períodos de maior crescimento intelectual de minha vida, pela orientação precisa, por ser exemplo de profissional e de pessoa, e por ensinar que rigor e disciplina andam ao lado de generosidade e compreensão. A minha coorientadora Medianeira, pelas imensas contribuições, pelos conselhos, pela leveza com que desempenha seus papéis. A Karina Falcone, pelas valiosas observações em minha pré-banca, responsáveis pela melhora indiscutível deste trabalho. A Danielle Almeida, por ter aceitado fazer parte da minha banca examinadora e por se dispor a enriquecer meu trabalho com suas contribuições. A Benedito Bezerra, por ter aceitado, em um curto prazo de tempo, ler minha dissertação e predispor-se a contribuir para sua melhoria. A turma “multi” – formada pela professora Angela e por Helga, Paloma, Clara, Monique, Danuta, Leonardo, Eldelita, Marcelo e Rebeca –, pela companhia, pela parceria, pelos “lanches de descontração”, pelas preciosas discussões acadêmicas, permeadas por muitos desafios e risadas, que permitiram a reflexão acerca de boa parte das ideias apresentadas aqui. Ao professor Antônio Carlos Xavier, pelos ensinamentos ao longo da graduação e também no mestrado, pelo incentivo desde os primeiros períodos da graduação, pela confiança e pelo apoio. A professora Márcia Mendonça, por continuar sendo meu referencial como profissional, por ter sido responsável por meus primeiros passos na academia, pelo apoio durante a seleção do mestrado, por ter criado meios para que eu chegasse aqui. A todos os professores da graduação e do mestrado, por terem sido, cada um a seu modo, fundamentais para minha formação acadêmica e para que fosse possível desenvolver este trabalho. A meus companheiros da turma de mestrado, representados aqui por Liliane, Tayana, Monique, Rafaela, Adriana e Heber, por não só compartilharem risadas e angústias mas também por contribuírem, através das discussões quase diárias, para meu crescimento acadêmico. A Monique, companheira de todas as horas, pelas sugestões, pelas palavras de incentivo, por dividir lágrimas e sorrisos, por ter sido peça fundamental nesse processo. A Liliane (Lili, minha querida Violet), pela (re)leitura atenta do meu texto, pelas sugestões, por estar sempre disposta a me ouvir, por ter, sobretudo, dado novas cores a minha vida. A Helga, minha amiga-irmã(mais velha!), por acreditar em mim quando eu mesma não o fazia, por toda ajuda antes, durante e depois da seleção do mestrado, pelos acertados conselhos, pelo apoio ao longo do mestrado, por ser presença ativa em minha vida. Aos meus queridos amigos Aline, Marcelinha, Elio, Brenno, Maurício, “Fuxo” e Morg, pelo apoio, por entenderem minhas ausências, por torcerem por mim. A Leonardo, meu ponto de equilíbrio, pelos sábios conselhos, pelo silêncio e pelo abraço quando as palavras não eram suficientes, por ter dado um novo e maravilhoso sentido à palavra companheirismo. Aos queridos Diva e Jozaías, pelo apoio constante e pela torcida. A todos que contribuíram para que este trabalho se realizasse e que, por distração e injustiça, não foram mencionados aqui. EPÍGRAFES “A realidade real não existe, na verdade. É sempre um olhar, o olhar condicionado (...) cada experiência de olhar é um limite; a gente não conhece as coisas como elas são, só mediadas pela nossa experiência” Paulo César Lopes, professor de Literatura “O ato de ver e de olhar não se limita a olhar para fora, não se limita a olhar o visível, mas também o invisível” Oliver Sacks, neurologista e escritor Esta é minha sobrinha Verônica, a quem fotografei em um campo que vira há muito tempo, pedi a ela que corresse e dançasse; ela usava um sininho, que eu escutava. Na verdade, fotografei o sininho, mas este não pode ser visto. Trata-se, então, de uma fotografia do invisível. Evgen Bavcar, fotógrafo cego e filósofo “O olho vê, a lembrança revê as coisas e a imaginação é a imaginação que transvê, que transfigura o mundo, que faz outro mundo.” Manoel de Barros, poeta RESUMO Este trabalho tem como objetivo principal analisar o gênero enquete do quadro “Controle de Qualidade” (CQ), do programa televisivo Custe o Que Custar, investigando de que maneira os recursos semióticos que compõem os diversos modos dessas enquetes são convencionados, promovendo, assim, a construção da identidade dos políticos. Para atender a esse objetivo, inicialmente, construímos a noção de gênero, respaldados pela perspectiva dos Estudos Retóricos do Gênero, principalmente, pelos trabalhos de Bazerman (2008; 2009) e Miller (2009). Além disso, tratamos do gênero enquete e de sua configuração no “Controle de Qualidade”. Em um segundo momento, Focamos nossa atenção na multimodalidade – traço constitutivo de todos os textos –, fundamentando-nos na Gramática de Design Visual (GDV), de Kress e Van Leeuwen (2006). Também discutimos o papel das convenções retóricas na leitura dos textos, tomando como base os estudos de Kostelnick e Hasset (2003), além de demonstrarmos como os recursos semióticos tornam-se convenções em nosso corpus (formado por 49 enquetes exibidas em 2009). Por fim, analisamos como se dá a construção da identidade dos políticos, observando como as três estruturas da função Composicional da GDV se articulam nos recursos semióticos convencionados em grande escala. Os resultados encontrados revelam que – uma vez construído o estereótipo de que os políticos não são beminformados –, os recursos que representam ações de reprovação ou de constrangimento são utilizados nas enquetes do CQ com muito mais frequência, além de congregarem tanto recursos pictóricos quanto sonoros, em contraposição aos recursos que representam ações de aprovação, que são mais sutis e, na maioria das vezes, são apenas do modo sonoro. Dessa forma, observa-se que as convenções criadas nas enquetes do CQ funcionam como um meio de construir a identidade de um político desinformado, o que é possível em função das escolhas de estratégias discursivas, que se manifestam não só no que diz respeito às escolhas linguísticas, mas, sobretudo, quanto aos recursos semióticos de outros modos. Palavras-chave: enquetes; multimodalidade; convenções retóricas; identidade ABSTRACT The main objective of this study is to examine the genre poll of framework "Quality Control”, by investigating how the semiotic resources that make up the various modes of these polls become conventions, thereby promoting the identity construction of the politicians. In order to do this, this research is based on the notion of genre as social action, backed by the prospect of the Rhetoric of Genre Studies, especially the work of Bazerman (2008, 2009) and Miller (2009). Furthermore, the genre poll and its configuration in the "Quality Control". Then we focus our attention on multimodality - constitutive feature of all texts - and in the Grammar of Visual Design (GDV) of Kress and Van Leeuwen (2006). We also discussed the role of rhetorical conventions in reading the texts, based on studies Kostelnick and Hassett (2003), and demonstrate how semiotic resources become conventions in our corpus. Finally, we observe how the construction of political identity is constructed, by observing how the Function of Compositional’s three structures work in the semiotic resources. Once constructed the stereotype that politicians are not well-informed, the results show that the resources that represent shares of disapproval or embarrassment are used in poll of CQ much more frequently as opposed to features that represent actions of approval, which are more subtle and, in most cases, it ocurr in the mode of sound. Thus, it is noted that the conventions are a means of constructing a political identity of the uninformed, what is possible according to the choices of discursive strategies, which manifest themselves not only with respect to choices language, but mainly with respect the semiotic resources of other modes. Keywords: poll; multimodality; rhetorical conventions, identity LISTAS Siglas: CQ Controle de Qualidade LSF Linguística Sistêmica-Funcional GDV Gramática do Design Visual C DG Cena Danilo Gentilli, repórter do Controle de Qualidade Quadros: CAPÍTULO 1 Quadros Pág. Quadro 1 Exemplo de disposição (dia 09/03/09) 6 Quadro 2 Resumo das Convenções do Trabalho 7 Quadro 3 Vinheta do CQ 16 Quadro 4 “Você acha que os políticos são bem informados?” (dia 09/03/09) 17 Quadro 5 “O que significa ENEM?” (dia 06/04/09) 18 Quadro 6 Diversidade de Gêneros nas Enquetes 19 Quadro 7 “Qual o nome dos ministros da Agricultura e da Aquicultura?” (dia 06/04/09) 22 Quadro 8 “Do que trata a Lei Maria da Penha?” (dia 29/06/09) 27 Quadro 9 Intertexto Boxeador Rocky 30 Enquete sobre o “caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09) 30 Quadro 11 Intertexto relacionado ao Bigode 31 Quadro 12 Reconfiguração das metafunções da Linguística SistêmicaFuncional para a Gramática de Design Visual 40 Quadro 13 “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) 42 Quadro 10 CAPÍTULO 2 CAPÍTULO 3 Quadro 14 “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) - continuação 43 Quadro 15 Qual o nome do ministro da Agricultura? (dia06/04/09) 46 Quadro 16 Venezuela preparada para possível guerra com a Colômbia (dia 30/12/09) 46 Quadro 17 Estruturação (enquete do dia 12/10/09) 49 Quadro 18 Alteração das Estruturas Composicionais Dinâmicas (dia 06/04/09) 50 Quadro 19 Gama de Códigos Convencionais, segundo Kostelnick e Hasset (2003:16) 53 Quadro 20 Mutabilidade das Convenções 54 Quadro 21 Mutabilidade das Convenções - continuação 56 Quadro 22 Convenção de Pequena Escala 58 Quadro 23 Convenção de Pequena Escala - continuação 59 Quadro 24 “Onde fica Guantánamo?” (dia 09/03/09) 61 Quadro 25 O que é “jihad’? 71 Quadro 26 O que é “jihad’? - continuação 73 Quadro 27 “Qual o valor do salário mínimo?” 74 Quadro 28 “O significa PMDB?” (dia 23/03/09) 76 Quadro 29 Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09) 78 Quadro 30 “O que significa PMDB?” (dia 23/03/09) – 2º caso 80 Quadro 31 “Crise da pecuária” (dia 06/04/09) 82 Quadro 32 “Crise da pecuária” (dia 06/04/09) - continuação 84 Quadro 33 “Quantos ministros o governo tem?”(dia 06/04/09) 88 Quadro 34 “O que é protecionismo?” (dia 09/03/09) 92 Quadro 35 “Desmatamento, em 21 anos, atingiu seu menor índice” (dia 30/11/09) 95 Quadro 36 “Que países formam o BRICs?” (dia 29/06/09) 96 Quadro 37 O que é “jihad’? (dia 05/03/09) – 2º caso 101 Quadro 38 “Caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09) 103 Quadro 39 “Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do Mercosul?”(dia 09/11/09) 107 Quadro 40 “O significa Anac?” (exibido dia 23/03/09) 109 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1 CAPÍTULO I – DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS EM GÊNEROS? 9 1.1. Gênero Enquete: o caso do “Controle de Qualidade” 12 1.2. Intertextualidade e Intericonicidade nas Enquetes 22 CAPÍTULO II – MULTIMODALIDADE: CENÁRIO TEÓRICO 33 2.1. Multimodalidade: ajustando o olhar analítico 34 2.2. A Gramática do Design Visual 38 A Função Composicional 40 a) Valor informativo 41 b) Saliência 45 c) Estruturação 48 2.3. Documentos Multimodais: um mosaico de convenções 51 CAPÍTULO 3 – ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO DAS ENQUETES 61 CONSIDERAÇÕES FINAIS 122 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 57 127 REFERÊNCIAS DOS VÍDEOS 133 INTRODUÇÃO E star bem-informado tem tornado-se condição sine qua non no momento sóciohistórico em que estamos vivendo, marcado pela globalização e pela ampla variedade de meios de acesso à informação. De certa forma, essa exigência sempre existiu, mas “a relação com o conhecimento que experimentamos desde a Segunda Guerra Mundial, e sobretudo depois dos anos 70, é radicalmente nova” (LEVY 1996: 54). Segundo o filósofo Levy (1996), até a segunda metade do século XX, as pessoas usufruiam das competências adquiridas na juventude, o que tornou-se praticamente obsoleto nos dias de hoje, em que as pessoas mudam várias vezes de profissão, além de o conhecimento, no próprio âmbito das profissões, ter um ciclo de renovação de cerca de três anos. Em decorrência disso, as informações e os conhecimentos passaram a constar entre os bens econômicos primordiais, o que nem sempre foi verdade. Ademais, sua posição de infraestrutura – fala-se de infoestrutura –, de fonte ou de condição determinante para todas as formas de riquezas tornou-se evidente, enquanto antes se mantinha na penumbra.(LEVY 1996: 55) Como se pode apreender da afirmação acima, para o autor, as informações figuram como bens econômicos, uma vez que é preciso desenvolver competências, a partir das informações adquiridas e do conhecimento que é construído, para que seja possível desempenhar um bom papel. O tema da acessibilidade da informação, inclusive, é pauta de diversas discussões acerca do papel do cidadão, uma vez que, pelo conhecimento construído a partir da informação, é possível agir criticamente diante da realidade. Em decorrência dessa exigência patente de se estar bem-informado e da consequente mudança do perfil do cidadão, a representação política tem sido extremamente questionada, sobretudo, em função da rapidez com que a informação tem chegado a nós1. Não são raras, por exemplo, as discussões acerca dos casos de corrupção em que alguns políticos estão (supostamente ou não) envolvidos. A corrupção, segundo Pontes 1 Cada vez mais, a expressão “informação que chega ao leitor” tem perdido o tom metafórico para se aproximar da ação concreta, basta atentarmos para as redes virtuais de compartilhamento de dados, como o Facebook e o Twitter, que permitem – pelas potencialidades dos recursos tecnológicos – que o usuário receba informações de terceiros automaticamente por meio de vários dispositivos, como o próprio celular, que há muito tempo não se destina apenas a fazer/receber ligações. A ideia de ‘busca por informação’, então, passou a ter outra configuração. No entanto, nossa relação com a tecnologia não se dá de forma tão simples. Há a exigência de que saibamos utilizar tais recursos, para usufruir dos benefícios, o que, de certa forma, nos ‘escraviza’. Para saber mais sobre como a tecnologia nos manipula, uma vez que, ao oferecer ‘facilidades’ de acesso de informação, exige de nós determinadas atitudes e estratégias, uma boa opção é o texto “Rethoric, Tecnology, and PushmiPullyu” de Carolyn Miller (2010). 1 INTRODUÇÃO (2007:01), “é uma palavra-chave presente na história da formação social, cultural e política brasileira”. Na mesma medida, também são frequentes as cobranças pela idoneidade dos políticos, seja pela população em protestos de diversa natureza seja por parte dos meios de comunicação, em representação dessa voz popular. Nessa âmbito, surgem as enquetes do “Controle de Qualidade” (do programa televisivo Custe o que Custar, CQC, exibido pela emissora Bandeirantes, semanalmente), caracterizadas por forte caráter humorístico, aspecto que permite que “um discurso proibido, subterrâneo, não oficial, que não se manifestaria, talvez, através de outras formas de coletas de dados” (POSSENTI, 1998: 26) possa ser construído com mais fluidez. Além disso, essas enquetes objetivam verificar se os políticos estão ou não bem-informados a respeito de assuntos diversos. É a exigência patente da qual discorríamos. Como representantes do povo e como pressuposto para que seja possível cumprir esse papel, segundo as enquetes do CQ, os políticos precisam ser bem-informados. Mas informados a respeito de quais assuntos? Quem determina quais são os assuntos dos quais os políticos devem ter conhecimento? Se não são bem informados, que “punição” merecem receber? Serem expostos publicamente ao ridículo? Ao escolher quais serão os temas que serão base para as enquetes, dentre outras escolhas, as enquetes passam a guiar os passos pelos quais o telespectador/leitor deve seguir. Para Fairclough (2001), o discurso, na condição de prática não só social, mas também política, estabelece, mantém e reconfigura as relações de poder, bem como as entidades coletivas em que existem tais relações. Da mesma forma, enquanto prática ideológica, o discurso também constitui, mantém e transforma os significados do mundo, nas diversas posições dessas relações de poder. O autor também alerta para a importância de “discernir as conexões entre a linguagem e outros elementos da vida social que são opacas”, tais como “o papel da linguagem nas relações de poder e dominação, o trabalho ideológico do texto, a negociação de identidades pessoais e sociais em seus aspectos semióticos e linguísticos”. (FAIRCLOUGH 2001: 230). No que se refere aos textos midiáticos, como a enquete, nosso objeto de estudo, Fairclough (1995: 52 apud Heberle, 2004) afirma que eles “constituem um barômetro sensível de transformação social”, assinalando a importância de estudar tais textos. Essa transformação social também modifica a maneira como nos vemos como sujeitos; nossas identidades sociais, ora unificadas e estáveis, passam a ser observadas de forma epistêmica como fragmentadas, instáveis. A respeito dessa mudança, Hall (2005) discrimina três concepções de identidade: a do sujeito do Iluminismo, a da Sociologia e a da Pós-Modernidade. Segundo o autor, a concepção do sujeito no Iluminismo o considerava um indivíduo unificado, centrado totalmente em si mesmo. Mesmo com o desenvolvimento do 2 INTRODUÇÃO indivíduo, ele permanecia o mesmo ao longo de sua existência. Pela concepção do sujeito sociológico, por sua vez, o sujeito “refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com ‘outras pessoas importantes para ele’” (HALL 2005: 11). Dessa forma, nessa concepção, a identidade se dava na interação entre o ‘eu’ e a sociedade. O autor ainda afirma que, por essa visão sociológica, nós nos projetamos nas “identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores” (p.12). No entanto, ainda havia, conforme afirma Hall, uma estabilização, já que a identidade unia, ‘costurava’ o sujeito à cultura. Ambos tornavam-se “reciprocamente mais unificados e predizíveis”. Pela concepção da Pós-Modernidade, o sujeito assume diversas identidades, em momentos diferentes, não-unificadas em um ‘eu’ coerente. A identidade, então, passa a ser uma “celebração móvel”. Dessa forma, a identidade completa e coerente tornou-se uma ideia fantasiosa, levando em conta o momento em que vivemos. Ao contrário disso, assegura Hall (2005: 13): à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente. Moita Lopes (2003:20) apresenta posicionamento semelhante sobre a concepção de identidade da Pós-Modernidade, ao afirmar que as pessoas apresentam identidades “fragmentadas, múltiplas e contraditórias”. O autor reporta as afirmações de Gee (2001), segundo o qual reconhecemos um ‘tipo de pessoa’ de maneiras diferentes, dependendo do momento, da interação etc., e as afirmações de Parker (1989), para quem o si-mesmo é construído, re-experimentado na vida cotidiana e, posteriormente, transformado. Para Moita Lopes (2003), portanto, os sujeitos se engajam nas práticas discursivas em um processo de “co-construção de si mesmo e do outro”. Assim, a construção da identidade social do sujeito ocorre, por exemplo, em uma simples conversa, na discussão de um tópico qualquer. Adotaremos, neste estudo, esse último conceito de identidade, por compartilharmos da visão que esta não é um construto fixo e determinado, associado biologicamente à pessoa, mas como um processo de construção de natureza social, situado historicamente. As mudanças decorrentes das novas configurações sociais não se restringem à maneira como se concebe a construção identitária, mas também se manifesta na produção dos textos. Em decorrência do desenvolvimento tecnológico e, consequentemente, também do design, os 3 INTRODUÇÃO textos têm apresentado, cada vez mais, um forte teor informativo visual, o que exige das abordagens teóricas a consideração desse aspecto. Kress e van Leeuwen (2006), atentando para esse fato, apontam para a necessidade de se observar os textos de forma integrada, quebrando (ou, no mínimo, atenuando) a dicotomia entre os estudos da linguagem e de outros modos, uma vez que a multimodalidade é um traço constitutivo de qualquer texto, como se pode apreender da afirmação de Dionisio (2008), segundo a qual, sempre, quando escrevemos ou falamos, estamos utilizando, pelo menos, dois modos de representação. Ainda segundo a autora, “representação e imagens não são meramente formas de expressão para divulgação de informações, ou representações naturais, mas são, acima de tudo, textos especialmente construídos que revelam as nossas relações com a sociedade e com o que a sociedade representa” (DIONISIO 2008: 119). Assim, com a variedade de modos combinados em um texto, há uma orquestração de propósitos comunicativos entrelaçados, o que reforça a exigência de mudar a maneira como lemos esses textos, já que “os gêneros se materializam em formas de representação multimodal (linguagem alfabética, disposição gráfica na página ou na tela, cores, figuras geométricas, etc.) que se integram na construção do sentido” (DIONISIO, 2006:14). Por isso, a autora afirma que, consequentemente, também precisamos rever o conceito de letramento: “Precisamos falar em multiletramento!”, o que é fundamental para observarmos como se manifestam os discursos que permeiam nossas práticas sociais. A respeito do letramento – ou letramentos, como se pode apreender do item b mais adiante –, Barton e Hamilton (2008:3) afirmam que “como toda atividade humana, o letramento é essencialmente social, e é localizado na interação entre as pessoas”, sendo as práticas observadas a partir de um determinado contexto. Para os autores, a noção de práticas de letramento oferece um poderoso meio para se compreender a relação entre atividades de leitura e escrita e as estruturas sociais em que elas são incorporadas. A respeito da natureza do letramento, os autores afirmam que: a) o letramento é melhor entendido como um lista de práticas sociais; b) há diferentes letramentos relacionados a diferentes domínios da vida; c) as práticas de letramento são padronizadas pelas instituições sociais e relações de poder; d) as práticas de letramento apresentam propósitos comunicativos específicos e são incorporadas aos objetivos sociais e às práticas culturais; e) o letramento é historicamente situado. 4 INTRODUÇÃO Conforme ressaltam os autores, as práticas de letramento são dinâmicas e mudam de acordo com a sociedade da qual elas fazem parte, uma vez que esta regula o uso e a distribuição dos textos e determina quem os produz e quem tem acesso a eles. Dessa forma, a noção de letramento é pertinente para o estudo dos gêneros, já que estes tipificam as ações sociais e sinalizam as demandas da sociedade. Da mesma forma, estar bem-informado depende da esfera de atividade que se considere, depende do que se entende por ser informado, depende da relevância da informação para desempenhar determinados papéis. Para um astrólogo é de suma importância ter conhecimento sobre a recente descoberta de astrônomos do Planetário de Minnesota, nos EUA, sobre a mudança de alinhamento das estrelas, o que supostamente provocaria mudanças nos signos solares e nos mapas astrológicos. No entanto, essa informação é irrelevante para quem não credita às posições dos astros um determinado traço em sua personalidade. De maneira semelhante, um jornalista esportivo precisar estar bem-informado sobre acontecimento em seu campo de atuação, que não será o mesmo de um jornalista de uma revista de fofocas. Diante disso, dedicamo-nos à análise das enquetes do “Controle de Qualidade”, mais precisamente, investigando de que maneira os recursos semióticos que compõem os diversos modos dessas enquetes são convencionados, promovendo, assim, a construção da identidade dos políticos. Para tanto, especificamente, o presente trabalho propõe atender aos seguintes objetivos: a) observar quais recursos semióticos são convencionalmente associados a qualquer político e quais são associados a políticos específicos; b) verificar quais são os efeitos de sentido construídos pelo uso convencionado dos recursos semióticos. O corpus desta pesquisa é formado por 41 exemplares do gênero enquetes, exibidas no ano de 2009, recorte que foi realizado pelos seguintes critérios: a) as enquetes desse quadro têm como tônica uma informação extraída de um acontecimento recente; e b) tem sempre como foco das enquetes os políticos, principalmente deputados federais e senadores. A coleta do corpus foi feita tanto por acesso ao site do CQC (<http://videos.band.com.br/c_79_.htm>) que disponibiliza todos os vídeos exibidos durante o programa, na televisão, quanto por gravação dos episódios. Além desses dois meios de coleta descritos, capturamos alguns vídeos que estão hospedados no site Youtube, constituindo uma prática complementar aos dois primeiros modos de coleta. 5 INTRODUÇÃO Diante da inviabilidade de reproduzir as enquetes tais quais foram originalmente apresentadas, tendo em vista o meio material, os diálogos foram transcritos e dispostos abaixo da imagem “correspondente” (à semelhança das fotonovelas), como demonstra o quadro 1, a seguir: Quadro 1 – Exemplo de disposição (dia 09/03/09) C1 C2 DG: o que significa “jihad”? AC: (suspiro) não... [som: grilos, cricrilando] C3 C4 AC: veja... Jihad... ela:: [som: grilos, cricrilando] AC: do ponto de vista:: conceitual, ela tem muito vínculo religioso Conforme pôde ser observado, a partir da breve sequência acima reproduzida, também foram descritos os sons2 inseridos na enquete, em dado momento da fala do entrevistado, e indicados entre colchetes. Em determinados momentos, há sequências de sons e/ou sobreposição deles, o que foi indicado numericamente (som1, som2 etc.) na ordem em que são apresentados e, em caso de sobreposição, através da menção desse fato na análise. As observações que, porventura, sejam necessárias na descrição do quadro, foram inseridas em itálico, para distinguirem-se das falas dos envolvidos na cena. Caso haja referência a alguma 2 Nossa preocupação, quanto à descrição dos sons nas cenas das sequências, diz respeito àqueles inseridos em dados momentos da entrevista, acompanhados ou não de uma imagem. A referência à música de fundo é feita na análise. 6 INTRODUÇÃO música, o enunciado referente vai estar entre os símbolos “”. É importante frisar que essa representação é uma tentativa de aproximação ao que pode ser observado mais adequadamente pela reprodução dos vídeos. Resumidamente, estas são as convenções adotadas neste trabalho: Quadro 2 – Resumo das Convenções do Trabalho a) [Entre colchetes, há descrição dos sons] b) 1: a numeração indica a ordem dos sons; 2: a ordenação indica sons consecutivos c) (As observações serão apresentadas em itálico, entre parênteses). d) Enunciados ‘cantados’, em alusão a alguma canção, serão dispostos entre símbolos musicais e) NL: as siglas formadas a partir dos nomes dos participantes indicam de quem é o enunciado. Diante do que foi apresentado e com o propósito de anunciar brevemente os tópicos sobre os quais discorreremos, este estudo está distribuído da seguinte maneira: CAPÍTULO 1 – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros?, em que construiremos, no primeiro momento, a noção sociodiscursiva dos gêneros, respaldados pela perspectiva dos Estudos Retóricos do Gênero, guiando-nos, sobretudo, pelos trabalhos de Bazerman (2008; 2009) e Miller (2009) uma vez que, como assevera Kress (2004: 39), “a categoria de gênero é essencial em todas tentativas para entender texto, não importando sua constituição multimodal”. No segundo momento, trataremos do gênero enquete e de sua configuração no quadro “Controle de Qualidade”. No final do capítulo, revisitaremos o conceito de intertextualidade, demonstrando como esse aspecto se dá em relação aos recursos semióticos. CAPÍTULO 2 – Multimodalidade: o cenário teórico, em que construiremos o conceito de multimodalidade, guiados pela Gramática de Design Visual, de Kress e Van Leeuwen (2006), cujos preceitos também serão apresentados nesta seção. Também descreveremos mais detalhadamente a Função Composicional, recorte 7 INTRODUÇÃO analítico deste trabalho. Finalizando o capítulo, discutiremos não só o papel das convenções retóricas na leitura do mundo, com base nos estudos de Kostelnick e Hasset (2003), como também como os recursos semióticos são convencionados nas enquetes de nosso corpus; CAPÍTULO 3 – Análise da Composição das Enquetes, em que procederemos à análise do corpus, levando em conta as discussões tecidas nos capítulos anteriores. Como é possível apreender das afirmações acima, à medida que as nossas ações sociais vão modificando-se, também vão sofrendo mudanças os gêneros textuais e a maneira como nos relacionamos com eles, como os lemos. Portanto, é de extrema importância a consideração – e consequente análise – dos aspectos multimodais envolvidos na leitura de gêneros, o que assinala para um melhor desenvolvimento de trabalhos a esse respeito. Dessa forma, o presente estudo visa a contribuir para os estudos pautados por essa preocupação. 8 CAPÍTULO 1 DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS EM GÊNEROS? S eria de “uma gritante ingenuidade histórica” – para manter a força da expressão de Marcuschi (2008a: 147) – considerar que os estudos sobre os gêneros datam das últimas décadas do século XX, levando em conta que o termo “gênero” já aparece nas análises de Platão e Aristóteles, no que diz respeito aos estudos dos gêneros literários, na tradição poética e na tradição retórica, respectivamente. No entanto, o que se observa, atualmente, é que esse termo vem sendo usado sob olhares diferentes. Em revisão sobre o tema, observando como se dá a análise de gêneros hoje, Bhatia (2009) afirma que não há mais restrições a determinados grupos de pesquisadores quanto ao interesse pela teoria dos gêneros e suas aplicações, mas antes um crescimento relevante de áreas de investigação interessadas pela análise de gêneros. Frente a esse quadro, Candlin (1993 apud Bhatia, 2009) questiona a razão pela qual um mesmo “abrigo terminológico” permite agrupar tantas áreas diversas e seja capaz de atrair atenção para si. Segundo o autor, “trata-se de um conceito que encontrou seu momento oportuno” (CANDLIN, 1993 apud Bhatia, 2009: 160). Conforme salienta Bhatia (2009), a análise de gêneros passou a ser um empreendimento interdisciplinar e, normalmente, leva em conta a tentativa de responder à pergunta “Por que os membros das comunidades discursivas específicas usam a língua da maneira como o fazem?”. A resposta a essa pergunta leva em conta não só fatores sócio-culturais, mas também cognitivos, fato esse que se constitui como um dos principais fatores, segundo Bhatia, para que haja tanta popularidade nas áreas que estudam o discurso e a comunicação. Por outro lado, como ocorre com todos os conceitos que se tornam populares, há uma proliferação, na mesma medida, de abordagens teóricas com suas especificidades e interpretações diferentes, o que, para Marcuschi (2008a:151), “seria muito bom se não fosse desnorteante”, já que é muito difícil dominar todas as sugestões de como se tratar os gêneros textuais. No que se refere aos estudos linguísticos, de maneira geral, o conceito de gênero proposto por Bakhtin influenciou várias abordagens, de forma proveitosa, uma vez que o autor não procedeu a uma análise dos gêneros, mas forneceu, segundo Marcuschi (2008a: 152), “subsídios teóricos de ordem macroanalítica e categorias mais amplas”, representando uma espécie “de bom-senso teórico em relação à concepção de linguagem”. Para Bakhtin (1997), os gêneros, de riqueza e variedade infinitas, são “tipos relativamente estáveis de 9 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? enunciados”, uma vez que a variedade da atividade humana é inesgotável e cada esfera de atividade humana é formada por um repertório de gêneros que vão “diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa” (p.280). A riqueza do pensamento bakhtiniano, conforme pondera Mendonça (2010:111), consiste, dentre outros aspectos, nesse “delicado equilíbrio entre o recorrente e o dinâmico, na noção de estabilidade relativa”, uma vez que os gêneros são tanto resposta às situações sociais recorrentes – o que aponta para a ‘estabilidade’ conferida à caracterização dos gêneros – quanto organizam, ‘regulam’, nossas atividades humanas, permitindo que sejam a elas atribuídos sentido. Quanto à maleabilidade constitutiva dos gêneros, decorrente do enfoque na qualificação ‘relativa’ da estabilidade, Marcuschi (2008a:156) assevera que é preciso concebê-los não como modelos estanques ou estruturas rígidas, mas “como formas culturais e cognitivas de ação social corporificadas de modo particular na linguagem”; é preciso encarar os gêneros, portanto, a partir da ótica da dinamicidade. No entanto, lembra o autor, não podemos desprezar o fato de os gêneros apresentarem uma identidade, que condiciona, em certa medida, nossas ações sociais. Dessa forma, ao nos ‘apropriarmos’ de um gênero, não estamos dominando sua forma linguística, mas tomando conhecimento da maneira pela qual podemos realizar linguisticamente determinadas ações, em situações particulares. Essa abordagem do gênero, entendido como ação social, influenciou os estudos retóricos do gênero, pelos quais se alinham Miller (2009) e Bazerman (2009). Segundo Miller (2009: 30), “antes de podermos agir, precisamos interpretar o ambiente material indeterminado; definimos, ou ‘determinamos’, uma situação”, tendo em vista que a ação humana é guiada pelo significado e, para chegar a possíveis interpretações, utilizamos nossos conhecimentos pré-construídos acerca de uma dada situação e os relacionamos às novas experiências, por analogia, por comparação, criando tipos de situações recorrentes. Assim, agimos de acordo com a interpretação dessas situações recorrentes tipificadas, atendendo às suas demandas. Ao mesmo tempo, atuamos de acordo com propósitos particulares diversos, o que configura tais ações como ações sociais retóricas. Para Miller, então, os gêneros são essas “ações retóricas recorrentes”, em vez de um padrão de formas prontas para realizarmos nossos próprios fins. Para a autora, aprender um gênero permite que aprendamos “a entender melhor as situações em que nos encontramos e as situações potenciais para o fracasso e o sucesso ao agir juntamente; (...) para os alunos, gêneros servem como chaves para a compreensão de como participar das ações de uma comunidade” (p.44). 10 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Bazerman (2009), em sintonia com as posições assumidas por Miller, afirma que todos os textos bem sucedidos criam, em seus leitores, um “fato social”, que “consistem em ações sociais significativas realizadas pela linguagem, ou atos de fala3” (p. 22). Esses atos, por sua vez, segundo o autor, realizam-se por meio de formas textuais típicas, reconhecíveis – os gêneros – que se relacionam com outros gêneros, em circunstâncias relacionadas. Partindo desse pressuposto, Bazerman (2009) explica que, ao criarmos essas formas textuais típicas (os gêneros), também tipificamos as situações nos quais nos encontramos e agimos em consonância com o reconhecimento dessas situações; processo chamado, pelo autor, de tipificação. No entanto, o autor nos alerta que essa identificação de gêneros através de traços característicos é útil para a atribuição de sentido, mas é uma visão nebulosa, ‘enganadora’ do gênero. A partir dessa definição, levando em conta as formas textuais, são ignorados: o papel dos indivíduos no uso e na construção de sentidos, (...) as diferenças de percepção e compreensão, o uso criativo da comunicação para satisfazer novas necessidades percebidas em novas circunstâncias e a mudança no modo de compreender o gênero com o decorrer do tempo (...). Os gêneros tipificam muitas coisas além da forma textual (p.31). Para Bazerman (2009), ver os gêneros apenas como uma ‘coleção’ de elementos característicos traz, pelo menos, quatro limitações e problemas para a identificação e a análise de gêneros: a) limitação à compreensão dos aspectos dos gêneros dos quais já temos conhecimento; b) desconsideração do fato de as pessoas receberem os textos e agirem a partir deles de maneiras diferentes; c) finalidade ensimesmada dos elementos que compõem o gênero; e d) desvalorização do caráter flexível do gêneros, que podem reconfigurar-se ao longo do tempo. Quanto a esse último aspecto, Marcuschi (2008a) diz que, por serem os gêneros dinâmicos, variáveis e de complexidade diversa, não é possível determinar uma tipologia dos gêneros ou propor uma lista fechada de classificação e que a tendência dos estudiosos é “explicar como eles se constituem e circulam socialmente” (p. 159). Em boa medida, esse fato se justifica pela mistura dos gêneros, que passam a fundir características de gêneros pré-existentes, o que reforça a posição de Marcuschi (2008b: 21, grifo do autor) segundo a qual seria “inadequado considerar a mistura de gêneros como ‘evidência da 3 Para John Austin, os enunciados produzem ações, são atos de fala, por meio do qual operam três níveis/tipos de atos: o ato locucionário, que se refere ao que é dito literalmente; o ato ilocucionário, que diz respeito aos propósitos comunicativos ao se dizer determinado enunciado; e o ato perlocucionário, que consiste nas ações ou nas reações dos interlocutores a partir do que entenderam do enunciado. No entanto, essas ações realizam-se conforme as “condições de felicidade”, ou seja, para que as palavras realizem atos é preciso que seja dito por uma determinada pessoa, em um determinado momento, em conformidade com compreensões compartilhadas. 11 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? ausência de gênero’”. É mais importante, no entanto, atentar para o funcionamento dos gêneros frente a essas mudanças, muitas delas em decorrência das novas tecnologias, dos novos meios de comunicação de que dispomos hoje em dia. A teoria de gêneros, portanto, conforme lembra Marcuschi (2008b), não pode menosprezar esse fato. A esse respeito, Kress (2003: 86) nos ensina que, na ‘nova era dos meios’, é preciso levar em conta os modos coocorrentes ao modo linguístico, os quais a este se integram. Como discutimos, os gêneros textuais são formas de ação social, são modelos aos quais recorremos para nos comunicarmos socialmente, mas que tendem a sofrer modificações mediante as necessidades da sociedade. É esse caráter maleável dos gêneros, que faz com que eles tenham uma certa estabilidade, mas não sejam imutáveis, que nos interessa discutir adiante no que tange à discussão acerca do gênero enquete, mais especificamente, as do “Controle de Qualidade”, procurando identificar quais são suas características estruturais e funcionais. 1.1. GÊNERO ENQUETE: O CASO DO “CONTROLE DE QUALIDADE” (CQ) Considerando o gênero como uma tipificação de ações sociais e estas como fenômenos multimodais (DIONISIO, 2008:121), podemos analisar a enquete não só por suas características estruturais, marcada pelo par pergunta-resposta, mas por seus propósitos diversos. Conforme lembra Marcuschi (2002 apud HOFFNAGEL, 2005: 181), há eventos que se assemelham a uma entrevista, justamente pela sua estrutura formada por perguntas e respostas, mas apresentam uma função muito distinta, como é o caso, segundo o autor, de um “exame oral” elaborado pelo professor que pergunta a um aluno que responde. Marcuschi lembra que os pontos que esses eventos semelhantes quanto as suas formas, distinguem-se, principalmente, no que diz respeito aos objetivos e à natureza das ações realizadas. Nesse cenário, situam-se as enquetes que, geralmente, têm como propósito elucidar alguma questão de interesse geral. Por meio de perguntas normalmente breves – associadas ou não a uma lista de alternativas de respostas previamente estabelecidas –, exigindo respostas também breves, objetiva-se revelar aspectos de um determinado tema. É muito comum encontrarmos enquetes em sites diversos, como se pode observar a seguir: 12 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Exemplo 1: Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br/enquetes/simples.jhtm?id=9488. [Acesso em 17 dez.2010] Exemplo 2: Fonte: http://www.ligadonafacul.com.br/enquete/26voce_sabe_o_que_deve_ou_nao_levar_para_a_prova_do_enem.html. [Acesso em 17 dez. 2010] Os exemplos acima ilustram um grande número de enquetes encontradas em sites e em blogs, que apresentam as seguintes características: a) abordam temas relevantes do momento (no primeiro caso, o vazamento de informações sigilosas do governo americano que foram publicadas no site Wikileaks; no segundo, os materiais que podem ser levados ao ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio –, uma vez que foi proibido o uso de lápis e borracha para a realização da prova, por exemplo); 13 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? b) apresentam opções de resposta (limitando-as, de acordo com os propósitos do autores da enquete); e c) demonstram, geralmente por meio de porcentagem (como mostra o primeiro exemplo), o resultado da enquete, que se assemelha, nesses casos, a uma votação (no segundo exemplo, isso é apresentado mais concretamente, quando o termo “votar” constitui-se como o comando, para que seja possível responder à enquete). No entanto, sob o véu da simples reunião da opinião pública, ambas compartilham o mesmo propósito: desvendar questões relacionadas a temas de grande repercussão e de interesse comum. Objetiva-se descobrir, no primeiro exemplo, o grau de relevância das informações apresentadas no site do Wikileaks a partir da quantidade de pessoas que as consideram como tal e, no segundo, o grau com que as novas regras estabelecidas pelo ENEM foram compartilhadas entre os estudantes que seriam submetidos ao exame. Sobre a opinião pública, Pierre Bourdieu afirma, em artigo intitulado “A Opinião Pública Não Existe” (1981), que a sondagem de opinião é “um instrumento de ação política”, uma vez que “sua função mais importante consiste talvez em impor a ilusão de que existe uma opinião pública como pura adição de opiniões individuais (...), a média das opiniões ou a opinião média”. Para o autor, resultados em forma de porcentagem são um simples artefato e não revelam, necessariamente, a opinião das pessoas, tendo em vista suas particularidades. O autor ainda afirma que o peso numérico não traduz, necessariamente, um fundamento crítico ou reflexivo sobre o tema. Tais afirmações de Bourdieu são relevantes, sobretudo, quando levamos em conta os propósitos discursivos, às vezes, ‘velados’ dos órgãos, dos sites, das empresas etc. ao realizarem as enquetes. A análise dos enunciados da pergunta e/ou das respostas previamente estabelecidas, por exemplo, poderia demonstrar como esse processo se configura. Apesar de não ser esse nosso objetivo, procuramos atentar para a maneira como os enunciados das perguntas é feita, uma vez que isso contribui para a concretização dos propósitos comunicativos ‘velados’ das enquetes do CQ. Esse objetivo latente das enquetes pode ser observado neste outro exemplo: 14 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Exemplo 3: Fonte: http://www.orbis.org.br/enquete/1/na-sua-opiniao-o-pib-e-um-bom-indicador-dedesenvolvimento-e-prosperidade. [Acesso em 03/01/2011] Conforme pode se observar, faz parte da enquete uma discussão acerca dos resultados, que dialogam com preocupações anteriores a ela; por certo, até motivadoras. A pergunta da enquete funciona como uma espécie de argumento, baseado na opinião da maioria das pessoas, que solidifique a discussão acerca de uma temática. Mais uma vez, tem-se como objetivo revelar algum ponto importante a respeito de determinado assunto de interesse geral. Apesar de apresentarem uma configuração diferente – como veremos – e estarem associados ao humor, as enquetes do CQ também propõem-se a averiguar a “qualidade” das considerações dos políticos acerca dos acontecimentos relevantes de nosso país, colocando em xeque o grau de compartilhamento de informações necessárias para qualquer ponderação a respeito. Essa inferência é corroborada pela informação apresentada, logo no início das enquetes, pelo integrante do programa Danilo Gentilli, sobre a importância de se estar bem informado para desempenhar um bom papel na condição de representante do povo, no Congresso: Para governar um país é preciso estar, no mínimo, bem informado. Afinal, são eles, os políticos, que tomam decisões que afetam as nossas vidas todos os dias. Mas isso é notícia velha; acho que todo mundo já sabia disso, né? (...) Será que nossos políticos leem jornais? Será que eles têm informações suficientes para interpretar os fatos relevantes que acontecem ao seu redor? Eu espero que sim. E você? Danilo Gentilli, na abertura do CQ de 09/03/2009. 15 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Conforme se verifica acima, essas perguntas retóricas já pressupõem uma resposta negativa, confirmando o estereótipo de que os políticos não são bem informados. Além disso, tais políticos, quando considerados desinformados, passam a ser ridicularizados e expostos ao escárnio, tendo em vista que não possuem o conhecimento adequado para a posição que ocupam. Seguindo o comentário reproduzido acima, essa função das enquetes do CQ é confirmada pela vinheta do quadro. Nela, é representada a trajetória de uma mosca – imagemsímbolo não só do quadro, mas de todo o programa, inclusive sendo estampada no microfone dos jornalistas integrantes – que é vista por trás (‘guiando’ os telespectadores, portanto) e que atravessa várias telas com diversas imagens ao som de burburinhos, o que alude aos vários fatos noticiados, até, finalmente, deparar-se com o título do quadro, que aparece abaixo do nome do programa e é formado à medida que uma relação numérica vai sendo desfeita, como pode ser visto abaixo: Quadro 3 – Vinheta do CQ C1 C2 C3 C4 C5 C6 No que diz respeito às vinhetas, Schiavoni (2008), respaldada no estudo de Sidney Aznar, “Vinheta: do pergaminho ao vídeo”, afirma que esse gênero, diferentemente do que ocorria na Idade Média, em que era usado como um elemento decorativo das iluminuras, hoje em dia, criado por computação gráfica, deixou de ser apenas adorno ou suporte de divulgação, 16 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? passando a desempenhar “um importante papel no estabelecimento das marcas que divulga, como uma espécie de embalagem que, por seus atributos e estratégias, é capaz de seduzir e conquistar o consumidor – o telespectador no nosso caso” (p.19). Dessa forma, conclui a autora, a vinheta televisiva não só comporta a marca do programa – no nosso exemplo, “CQC” –, mas também a logomarca do produto – o “Controle de Qualidade” – e/ou da emissora – a Bandeirantes, cujo símbolo aparece em marca d´água no canto superior-esquerdo das Cs da vinheta. A vinheta do CQ revela, então, que há um ‘produto’ por meio do qual podemos ‘testar’ os nossos representantes. Para isso, no entanto, é preciso que se assuma a posição de que os políticos precisam ser testados, que o grau informativo deles deve ser comprovado, o que justificaria a existência, a relevância, a utilidade do CQ, reforçadas pelo gênero vinheta televisiva. Dessa forma, como dissemos, há a pressuposição, baseada no estereótipo que permeia todo o quadro, de que os políticos brasileiros não são bem informados e, portanto, não estão, de fato, preparados satisfatoriamente para o exercício de seus cargos. Esse estereótipo social, segundo o qual os políticos são desinformados, é a mola propulsora para que determinados efeitos discursivos sejam produzidos, e isso nos é apresentado também por meio de enquetes: Quadro 4 – “Você acha que os políticos são bem informados?” (dia 09/03/09) C1 C2 DG: Você acha que o político brasileiro é bem-informado? Mulher: Não. C3 C4 DG: Você acha que deveriam ser? Mulher: Claro. DG: Por quê? Mulher: A gente não tem que ser? 17 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Levando em conta que, como aponta Pereira (2002:45), os estereótipos são “crenças sobre atributos típicos de um grupo, que contêm informações não apenas sobre estes atributos, como também sobre o grau com que tais atributos são compartilhados”, pode-se afirmar que há uma visão emoldurada da realidade, em função de interesses particulares. Assim, é semeado um campo propício para a investigação das enquetes do CQ, uma vez que se considera – pelo estereótipo criado pelo quadro – que os políticos não são informados. Após a vinheta, no início das enquetes do CQ, somos lembrados (ou informados ineditamente) de um fato ocorrido durante a semana em que as enquetes são realizadas, como se pode verificar a partir da sequência a seguir: Quadro 5 – “O que significa ENEM?” (dia 06/04/09) C1 C2 C3 DG: Olha só essa notícia, olha só... ...o MEC tá propondo substituir o vestibular da universidade federal por um novo ENEM. C4 C5 ENEM todo mundo sabe o que é que é, né? Exame Nacional de Ensino Médio. Também que não souber... Visando a um contrato velado de parceria, DG informa aos telespectadores o conteúdo da notícia que será base do questionamento acerca do significado da sigla ENEM. Tal notícia tanto é narrada no modo off (em que não há exibição do narrador), quanto é apresentada pela 18 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? reprodução do gênero notícia, nesse caso. Entretanto, são variados os gêneros que são utilizados para esse fim, como pode ser observado adiante: Quadro 6 – Diversidade de Gêneros nas Enquetes GÊNEROS PERGUNTAS 1. Mapa a partir de uma visão de um radar “Onde fica Guantánamo?” (Exibido dia 09/03/09) 2. Manchete de notícia (Exibido dia 09/03/09) 3. Placar informativo (Exibido dia 06/04/09) a) Quantos ministérios o governo tem ligados à Agricultura? b) Qual o nome dos ministros ligados à Agricultura? c) Quantos ministros o governo tem? 19 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? 4. “Do que trata a Lei Maria da Penha?” Painel e panfleto. (Exibido dia 29/06/09) 5. Manchete de notícia “Que países formam os BRICs?” (Exibido dia 29/06/09) 6. Acróstico (Exibido dia 29/06/09) 7. Anúncio “Você tem a ficha limpa?” (tipo “Procura-se”) (Exibido dia 12/10/2009) 20 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Vinheta, mapa, manchete de notícia, placar informativo, painel, panfleto e anúncio são alguns dos gêneros utilizados como fio para tecer a enquete. Isso indica que há vários gêneros que se entrelaçam para construir novos gêneros, que funcionam conjunta e estrategicamente. Para Koch e Elias (2006), as pessoas desenvolvem uma competência metagenérica, que orienta nossas práticas comunicativas e nossa compreensão a respeito dos gêneros produzidos. Essa noção permeia a visão de Bakhtin (1997), segundo o qual moldamos nossa fala à estrutura do gênero, que às vezes é mais suscetível à plasticidade e à criatividade, como um anúncio publicitário, às vezes é mais rígido e estereotipado, como as notas fiscais. Para o teórico russo, desde o início de uma conversa mais corriqueira, por exemplo, já somos sensíveis ao discurso como um todo; no decorrer da conversa, no entanto, ficarão mais ‘evidentes’ as diferenciações. Bazerman (2006:87) demonstra compartilhar de visão semelhante ao afirmar que: nossa originalidade e nossa habilidade como escritores advêm das novas maneiras como juntamos essas palavras [que já havíamos usado ou ouvido] para se adequarem às situações específicas, às nossas necessidades e aos nossos propósitos específicos, mas sempre dependemos do repertório linguístico comum que compartilhamos uns com os outros Assim, esses gêneros utilizados na tessitura do gênero enquete revelam que os produtores das enquetes do CQ pressupõem que os leitores/telespectadores, pela competência metagenérica, reconheceriam a estrutura, a composição, o conteúdo desses gêneros, mas também perceberiam que a presença deles não é aleatória: todos foram utilizados para a produção do gênero enquete. Como qualquer gênero, as enquetes não são definidas por sua forma, mas por sua função, tendo em vista que são compostas, por exemplo, pela estrutura pergunta-resposta, como as de uma entrevista, mas diferenciam-se dessas pela função, ou seja, os questionamentos feitos aos políticos, com base em alguma informação recente e importante, têm o intuito de verificar se os políticos são informados e se são, portanto, bons representantes do povo, pela proposta do CQ. Veremos, entretanto, que no caso específico das enquetes desse quadro, há “punições” específicas para aqueles que não atenderem às expectativas, sendo expostos ao ridículo e ao escárnio publicamente. Como vimos, a noção de gênero é imprescindível para a análise de qualquer texto, independentemente de sua configuração multimodal. Além disso, atentamos para o fato de todo texto dialogar com outros que já foram produzidos ou que serão construídos, como foi possível apreender da afirmação de Bazerman que vê a originalidade como dependente da 21 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? relevância das conexões que fazemos a partir dos textos. Tais conexões, nas enquetes de nosso estudo, operam não só no que diz respeito ao linguístico, mas também no âmbito sonoro e pictórico. Sobre esse aspecto e sobre a importância de ser reconhecer tais conexões, discorreremos no próximo tópico. 1.2. INTERTEXTUALIDADE E INTERICONICIDADE NAS ENQUETES Partindo do pressuposto que a compreensão é um processo inferencial, o que exige leitores colaborativos na construção dos sentidos de um texto, necessariamente, encara-se o texto como um produto da interação entre os interlocutores, não como um conjunto de sentidos pré-estabelecidos pelo autor. No entanto, todo texto apresenta sinalizações, em graus de explicitude4 variados, que nos remetem a outros textos. Todo dizer é um já-dito e prepara um sem-número de dizeres por vir, sempre sócio-historicamente situados. Para Bakhtin e Voloshinov (2004), enunciar é sempre responder (não necessariamente de forma verbal imediata) a outros enunciados já produzidos. Por essa razão, mesmo que os enunciados sejam provenientes de um único interlocutor, eles são, necessariamente, dialógicos. Levando em conta esse fato, atentemos para a sequência que segue: Quadro 7 – “Qual o nome dos ministros da Agricultura e da Aquicultura?” (dia 06/04/09) C1 C2 C3 DG: o senhor sabe qual o nome do ministro da Aquicultura? NR: não sei. [som: uma corda de um instrumento musical que se rompe] NR: Ministro Reinhold Stephanes [som: tilintar metálico] DG: E o da Agricultura? 4 “Explicitar é oferecer uma formulação discursiva de tal modo que contenha em si as condições de interpretabilidade adequada ou pretendida” (Marcuschi 2007:40). 22 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? C4 DG: e do Desenvolvimento agrário? NR: é... eu não sei (provavelmente, a enquete foi gravada às16h) C5 . C6 NR: Mas eu sou deputado de oposição; tenho procurado, aqui, fazer a fiscalização do governo. [som: de um caractere ou cursos típico de digitação piscando no computador] C7 C8 C10 DG: o senhor vai fiscalizar quem o senhor não conhece? [som: de alerta de emergência] (a luz vermelha acende e apaga C11 C9 (a cabeça do personagem fica deformada) [som: algo sendo engolido dificilmente] 23 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? O deputado federal Nárcio Rodrigues (PSDB – MG), afirmou não saber o nome de dois ministros, o da Aquicultura (e Pesca) e o do Desenvolvimento Agrário, no entanto preocupa-se com a fiscalização do governo, o que soa incoerente, uma vez que o deputado nem mesmo sabe o nome dos ministros do governo do qual faz parte. Essa incoerência é reprovada não só pelo questionamento de Danilo Gentili (“o senhor vai fiscalizar quem o senhor não conhece?”), mas também pelos recursos semióticos do modo imagético e sonoro. No entanto, para ler essa reprovação é preciso recuperar os textos anteriores a essa enquete. A partir de C5, surge a imagem de um computador antigo, que apresenta um cursor próprio para digitação piscando na tela, em sintonia com o som característico. Alguns momentos depois, uma luz vermelha, típica de situações de emergência, começa a piscar nas cenas (mais uma vez, juntamente com um som também típico de momentos de urgência). É possível apreender que há uma situação de perigo, de emergência aludida, mas a leitura mais abrangente exige a recuperação de um importante intertexto (termo que será melhor explicado mais adiante). Há a imagem de um homem que, por conhecimento arquivado em nossas memórias, refere-se ao personagem John Locke, do seriado americano Lost5. Tal personagem tinha a missão de, estando em uma ilha misteriosa, após um acidente aéreo, digitar uma sequência numérica, em um computador, todas as vezes que um sinal sonoro fosse ativado. O alarme sonoro era ativado quando um contador, em contagem regressiva a partir de 108 minutos, chegava à marca de 4 minutos. Digitar os números significava reiniciar o contador, que voltava aos 108 minutos iniciais, evitando que houvesse uma “falha no sistema”, quando alguns hieróglifos surgiriam no lugar dos números. Essa leitura é coerente com a contagem regressiva (C5 a C7), em consonância com o piscar do caractere do computador. Quando o contador é zerado, há símbolos nãoidentificáveis, que se associam aos hieróglifos da série, o que denuncia que a “missão” não foi cumprida. Associada à deformação da cabeça e ao som de algo sendo engolido dificilmente – o que, ao longo do programa, foi convencionado com o valor de embaraço –, a imagem do personagem do seriado, na enquete, dialoga com a imagem do deputado que, igualmente, não desempenhou bem seu papel. O termo intertextualidade, contudo, não aparece em Bakhtin e em seu Círculo. O termo é cunhado por Kristeva, em estudo sobre a originalidade nos textos literários, em que defendia que “todos os textos são um mosaico de citações” (apud Koch, 2006:86) de outros dizeres. Segundo Marcuschi (2008), a noção de intertextualidade sai da literatura e estende-se 5 Informação disponibilizada no site LOSTpédia:<http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/Apertar_o_Bot%C3%A3o> 24 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? para o tratamento do texto em geral. O autor afirma que Genette (1982) amplia a noção de intertextualidade, usando a expressão “transtextualidade”, que se divide em vários tipos: a) intertextualidade, que supõe que um texto está presente em outro (por citação, alusão, menção etc.); b) paratextualidade, que se refere ao entorno do texto (título, prefácio etc.); c) arquitextualidade, em que o texto estabelece relação com as classes às quais pertence (um letra de Chico Buarque está em relação de arquitextualidade com as letras de música, com as canções de MPB etc.); d) hipertextualidade, que diz respeito a fenômenos como a paródia, o pastiche etc. Koch (1991), citada por Marcuschi (2008:131), refletindo sobre a relação entre o conceito bakhtiniano de polifonia e o conceito de intertextualidade (que não se equivalem), afirma que, de maneira ampla, intertextualidade pode equivaler à noção de 6 interdiscursividade , uma vez que é “condição de existência do próprio discurso”. No entanto, segundo Koch (2006:86), de forma estrita, a intertextualidade ocorre quando um texto, anteriormente produzido (intertexto) e pertencente à memória social de uma coletividade, está inserido em outro e pode se manifestar explicita ou implicitamente. A primeira forma ocorre quando há “citação da fonte do intertexto”, como acontece em relatos, citações, referências, dentre outros. O segundo caso, ao contrário, não apresenta citação, cabendo ao leitor recuperar em sua memória o intertexto necessário para a leitura. Essa distinção é semelhante à distinção proposta por Authier-Revuz (1982), construída a partir do dialogismo bakhtiniano e da teoria psicanalítica de Lacan: heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva. Enquanto a primeira diz respeito ao processo de retomada do discurso do outro por meio da utilização de marcas tipográficas, como aspas ou itálico – como a intertextualidade explícita de Koch –, a segunda compreende o processo de retomada pelo qual não é possível, a partir de marcas linguísticas visíveis na materialidade do texto, perceber o discurso alheio que é, então, incorporado ao próprio discurso – a intertextualidade implícita. 6 Neste estudo, não nos dedicamos a discutir esse distinção, mas assumimos – tomando o conceito de intertextualidade de maneira mais ampla, como ensina Koch – que intertextualidade equivale à interdiscursividade, o que difere da posição assumida por Fiorin (2006) que distingue os dois termos. Para o autor, “o termo intertextualidade fica reservado apenas para os casos em que a relação discursiva é materializada em textos, (...) quando a relação dialógica não se manifesta no texto, temos interdiscursividade, mas não intertextualidade.” (FIORIN 2006:181). O autor reconhece que a concepção de intertextualidade que adota é “bastante restrita – nada tem a ver com o uso frouxo que se vem fazendo dela” (ibid: 184) e que ela pode ser ampliada. Levamos em conta que esse termo é amplo e não se restringe à ‘materialidade linguística’. Pensamos que ‘texto’ congrega diversos modos semióticos, engendrados na produção de sentido. 25 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Em um estudo recente sobre a intertextualidade em videoclipes, Mozdzenski (2009) critica o que ele considera uma típica classificação dicotômica – em intertextualidade explícita x implícita, intertextualidade manifesta x constitutiva7, heterogeneidade mostrada x constitutiva –, dentre outras, afirmando que há, pelo menos, três problemas decorrentes disso: a) a intertextualidade é vista em blocos bem-definidos, agrupados em categorias como ‘alusão’, ‘citação’ etc.; b) as classificações dicotômicas recorrem, em boa parte, a categorias também dicotômicas; c) os critérios para o agrupamento de cada tipo de intertextualidade em uma categoria não são explicitados. Em função dessa constatação, Mozdzenski (2009) propõe um outro olhar sobre a intertextualidade, atentando para a necessidade de observar esse fenômeno em um continnum, tanto no que diz respeito à forma que a intertextualidade pode assumir quanto no que diz respeito à função que ela desempenha no novo contexto, ao posicionamento da voz reportada. Quanto à forma, baseia-se no grau de explicitude do texto-fonte, ou seja, na quantidade de informações fornecidas para que o texto possa ser interpretável. Assim, haveria uma gradação entre um “texto-fonte não mencionado” e um “texto-fonte expressamente citado”. Quanto à função, por sua vez, o continnum transitaria da “desvalorização da voz do autor do textofonte”, por afastamento, para “autorização da voz do autor do texto-fonte”, por aproximação. Como lembra o autor, essa noção de vozes que habitam o discurso é proveniente do conceito de polifonia de Bakhtin e seu Círculo. O que caracteriza a polifonia é a posição do autor como regente de uma orquestração de vozes contraditórias, irônicas, concordantes etc. que participam do processo dialógico. No que se refere aos textos da esfera jornalística, por exemplo, Moirand (2003) afirma que as informações que são difundidas nos textos midiáticos não são produzidas apenas pelo próprio jornalista, mas são “transportados, filtrados e reformulados pelos dizeres das diversas comunidades de linguagem convocadas” (2003: 86). Segundo a autora, a textura enunciativa particular das mídias reflete a presença do que ela chama de intertexto plurilogal, em que são inscritas na superfície dos textos várias vozes e segmentos verbais impregnados de diferentes universos, de vários mundos convocados. Longe de querer trazer essa discussão, ampla demais para este espaço, consideramos essa proposta de continnum uma válida alternativa para tratar esse fenômeno tão complexo. 7 Ao usar essa terminologia, Mozdzenski (2009) refere-se à distinção proposta por Faiclough, em Discurso e Mudança Social. 26 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? No entanto, um aspecto muito interessante sobre esse fenômeno é fato de não ser uma particularidade do texto verbal. Entre suas diferentes manifestações, a intertextualidade pode ocorrer entre imagens. Arbex (2000) propõe o termo intericonicidade, que, provisioriamente, pode ser definida “nos mesmos termos que o conceito de intertextualidade, ou seja, como o processo de produtividade de uma imagem que se constrói como absorção ou transformação de outras imagens”. A autora, em análise da produção artística-poética de Max Ernst, afirma que a colagem é uma ‘alquimia visual’, ‘o milagre da transfiguração total dos seres’, uma vez que cada recorte ‘perde’ sua individualidade, uma vez que passam a trabalhar conjuntamente, para uma produção de sentido. Dessa forma, assim como queria Bakhtin para o texto literário, “a intericonicidade está ligada ao contexto social no qual ela se insere, sendo marca não somente da história e da ideologia, mas também da estética.” (ARBEX, 2000). Vejamos como se configura esse fenômeno em nosso corpus, tendo em vista a sequência abaixo: Quadro 8 – “Do que trata a Lei Maria da Penha?” (dia 29/06/09) C1 C2 DG: uma peça-chave na campanha para melhorar a imagem do congresso C3 ...é a Lei Maria da Penha. C4 C5 C6 Essa lei inclusive tá exposta aqui dentro da câmara dos deputados de diversas formas. Tem o cartaz, tão entregando folhetinho pra tudo que é lado... Quem aprovou essa lei, inclusive, foram os deputados. Essa lei é muito importante, todo mundo conhece ela, fala sobre a agressão, 27 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? C7 C8 C9 protege a mulher de agressão doméstica DG: já fazem uns três anos que vocês aprovaram a lei da Maria da Penha, certo? Mas essa lei... Ainda não tá funcionando direito em alguns lugares do país. Você tem ideia por quê? [som de algo sendo engolido a seco, com dificuldade] [som de freio] Todo mundo conhece essa lei.Será que conhece? C10 C11 C12 JB: olha, isso vai da cabeça da mulher, né? ...acho que se a mulher sofre maus-tratos em casa, tem que partir pra outra. Eu nunca bati em mulher nenhuma... ...ou melhor, quase uma vez, bati numa mulher, aqui, sim. Uma tal de Maria do Rosário. Que ela me acusou aqui de ser estuprador. C13 C14 [som: socos] Quase dei um cacete nela, aqui. ...merecia. A enquete acima gira em torno da Lei Maria da Penha, em função de uma notícia intitulada “Onde a Lei Maria da Penha Ainda Não Chegou”, veiculada no jornal O Globo, segundo a qual ainda há lugares no Brasil em que não há mecanismos eficazes para que a lei 28 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? seja cumprida. Tal informação não só é mencionada, como sua fonte é apresentada, explicitamente, na enquete, como pode ser observado em C9. Sua inserção não é aleatória: tem como objetivo apresentar um argumento de autoridade, reportando a voz de um texto publicado em um suporte de grande circulação nacional. Assim, quanto à função, verifica-se que há uma proximidade maior com a voz do texto-fonte. Voltando às cenas 6 e 7, atentemos para a imagem do cantor, apresentador de TV, vereador (PCdoB - SP) Netinho de Paula, reconfigurada em miniatura, com paletó e gravata – como tipicamente se veste, sobretudo, sendo figura política –, mas com luvas-de-boxe, o que destoa de seu figurino, mas associa-se à temática abordada: violência doméstica. Em 2005, a mulher de Netinho de Paula (não era vereador nesse período) fez um boletim de ocorrência acusando o cantor de ter-lhe agredido com socos durante a madrugada8. Além disso, o apresentador agrediu com socos um dos integrantes de um programa televisivo, durante entrevista, no evento "Troféu Raça Negra”. A imagem de Netinho de Paula tem sua cabeça deformada e, associada a essa deformação, há um som de algo sendo engolido dificilmente. Esse é um recurso semiótico convencionado nas enquetes, das quais discorremos no próximo capítulo, que possui um valor semântico de embaraço. Isso se justifica, neste caso, pelo fato de o cantor ficar constrangido, perturbado com a existência da lei que prevê pena, justamente, para aquelas pessoas que cometerem agressão doméstica contra mulheres. Essa informação não foi mencionada na enquete, mas foi feita uma alusão a ela, por meio dos indícios que apresentamos. Quanto à função, a imagem do Netinho de Paula foi apresentada, juntamente com o efeito do recurso semiótico descrito (som de algo sendo engolido dificilmente e a cabeça em deformação), com intuito de reprovar a atitude agressiva que protagonizou. Atentando para C12 e C13, vemos a imagem da atriz Luana Piovani, em uma montagem, em que sua cabeça está acoplada a um corpo tipicamente masculino, musculoso e de um lutador de boxe, o que pode ser verificado pela vestimenta padrão desse tipo de luta (bermuda longa e luva). Há ainda outra referência ao âmbito do boxe: a atriz está usando a mesma bermuda utilizada pelo personagem Rocky Balboa, do filme Rocky, interpretado pelo ator americano Sylvester Stallone, referência possível pelo nome escrito no cós da bermuda e pela ativação de conhecimentos prévios: 8 Fonte das notícias: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u105085.shtml> <http://noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2010/11/19/vesgo-ganha-indenizacao-de-r-44-mil-doapresentador-netinho-por-soco.jhtm> e 29 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? Quadro 9 – Intertexto Boxeador Rocky Ao contrário do que ocorreu com Netinho de Paula, Luana Piovani foi vítima de uma agressão doméstica, em 2008, por parte do seu antigo noivo, também ator, Dado Dolabella9. Da mesma forma, essa informação foi aludida na enquete. Recuperar esse intertexto é necessário para compreender, por exemplo, o porquê de a montagem em miniatura de Luana Piovani dar vários socos no deputado federal Jair Bosonaro: esse recurso confere um valor semântico de reprovação ao fato de o político ter afirmado que uma mulher (Maria do Rosário) do Congresso tinha ‘merecido’ levar uns ‘cacetes’. Além disso, associar Luana Piovani ao personagem Rocky confere a ela o status de vencedora, uma vez que Rocky Balboa, nas lutas dos filmes, sempre vencia. Essa leitura reforça a ideia de reprovação à atitude do político, do próprio Dado Dolabella e do Netinho de Paula. Vejamos mais um exemplo de como opera a intericonicidade: Quadro 10 – Enquete sobre o “caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09) 9 C1 C2 C3 RC: Se um dos seus filhos vai pra faculdade usando uma minissaia vermelha, ...que nem a Geyse Arruda, como é que ele é recebido em casa pelo Jair Bolsonaro? JB: desde o começo, né, eu tenho ameaçado, mas se usar brinco, eu corto a orelha. [som de uma música desafinando com um badalo no final] Fonte da notícia: <http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/dado-dolabella-e-condenado-por-agredir> 30 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? C4 C5 C6 ... (?) Eu corto logo a orelha ...democracia lá fora... ...aqui na minha casa, não. C8 C9 pra não ter dúvida. C7 JB: chega de democracia, tanta democracia. Democracia e vaselina demais atrapalha, você sabe disso, né? Você sabe disso? Tá ligado? RC: já que tá me ensinado aí, eu tô aprendendo. [som de vozes dizendo ‘uhh’] [som: vozes em tom de questionamento ‘quê’, com ‘e’ prolongado] O Brasil tá na situação que tá hoje dada as políticas de direitos humanos. É! Em C7, há a sobreposição de um bigode na imagem do deputado federal Jair Bolsonaro. Tal recurso pictórico, isoladamente, poderia tanto fazer referência a Charles Chaplin ou a Hitler, por exemplo: Quadro 11 – Intertexto relacionado ao Bigode Charles Chaplin Adolf Hitler 31 CAPÍTULO I – Do que Falamos Quando Falamos em Gêneros? No entanto, tendo em vista o contexto em que tal recurso surge, a enquete dialoga com a imagem do ditador alemão, levando em consideração que o deputado faz várias observações negativas sobre a democracia, inclusive, atribuindo os problemas do Brasil à existência das políticas de direitos humanos, o que permite a associação desse político com as ideias de extermínio nazistas, por exemplo – o que não é forçoso admitir, uma vez que, diante das diferenças (como o fato de um filho seu usar brinco), o deputado defende a violência, em prol do predomínio de sua vontade. Como demonstramos, a noção de intertextualidade – e, por extensão, a de intericonicidade – é de extrema importância para a compreensão dos textos, principalmente, levando em conta seu caráter multisemiótico. Isso revela que é preciso atentarmos para as potencialidades dos diversos modos que compõem esses textos. Sobre isso, discutiremos no capítulo a seguir. 32 CAPÍTULO II MULTIMODALIDADE: CENÁRIO TEÓRICO N ão é raro nos depararmos com afirmações segundo as quais a comunicação vem tornando-se cada vez mais visual – lembrando, como ressaltam Kress e van Leeuwen (2006:17), que a escrita é também uma forma de comunicação visual. Os autores lembram que, por muito tempo, na cultura ocidental, houve uma preferência por uma aparente ‘monomodalidade’, em que uma grande quantidade de gêneros escritos era formada inteiramente por densas páginas de impressão, sem ilustrações, uniformizadas graficamente, não importando seu conteúdo ou seu estilo (Kress e van Leeuwen, 2001). Igualmente ‘monomodais’, então, tornaram-se as disciplinas teóricas, como a Linguística dedicada a tratar da língua, a História da Arte discorrendo sobre a arte, a musicologia, sobre a música, entre outras, cada qual com seus métodos e vocabulários próprios. Entretanto, como afirmam Kress e van Leuween (2001:1), “mais recentemente, essa dominação da monomodalidade tem tornado-se reversa”10, uma vez que há um percurso sendo trilhado pelos textos, que vêm passando a ser, cada vez mais, visualmente informativos, o que põe em cheque as abordagens teóricas, sobre o estudo das relações interativas mediadas pela linguagem, as quais não levem em conta esse aspecto. A esse respeito, Bernhardt (2004), no artigo Seeing the Text, afirma que os textos escritos são organizados em um continuum compreendido entre textos com pouca informação visual e textos com informações visualmente substanciais. Para o autor, os parágrafos, as margens, a capitalização etc. certamente fornecem alguma informação ao leitor, mas cada informação é extremamente limitada, com a maior parte das pistas, como a organização e as relações lógicas, “enterradas no texto”. O autor argumenta que a maneira como os textos visualmente informativos realizam controles retóricos é bem diferente dos não-visualmente informativos, em vários níveis de organização (das sentenças dispostas em parágrafos até todo o discurso) e ainda afirma que os textos produzidos para audiências públicas adotam, geralmente, estratégias visualmente informativas, justamente por sinalizarem para o leitor uma “representação gráfica da organização cognitiva” (Bernhardt (2004:95). Contudo, a mudança preponderante no que diz respeito à comunicação e à representação refere-se à reconfiguração do papel segregado dos diferentes modos semióticos, 10 Esta tradução, assim como as demais, é de nossa responsabilidade. 33 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico que passaram a ser vistos em uma composição. Dessa mudança no panorama comunicativo e do fenômeno multimodal, trataremos no tópico a seguir. 2.1. MULTIMODALIDADE: AJUSTANDO O OLHAR ANALÍTICO A multimodalidade, segundo Hartmut Stöckl (2004:09), está “ganhando terreno acadêmico” atualmente, no que ele chama de uma ‘descoberta tardia do óbvio’, tendo em vista que ela indica um fenômeno tão antigo quanto a própria representação e que é fundamental para a compreensão de todas as formas de comunicação. Para o autor, o fenômeno multimodal refere-se “aos artefatos e processos comunicativos que combinam vários sistemas de signos (modos) e cujas produção e recepção recorrem a comunicadores para inter-relacionar, semântica e formalmente, todos os repertórios de signo apresentados”. (Stöckl, 2004:09). A multimodalidade, como pontua Jewitt (2009), descreve justamente as abordagens que compreendem a comunicação e a representação como sendo não só relacionadas à língua, mas como relacionadas a toda série de formas comunicacionais que as pessoas usam (como gesto, postura, imagem etc.) e à relação entre elas. Nessa perspectiva, também se situam Kress e van Leeuwen (2006), para quem não nos comunicamos apenas por um modo11, pela língua, por exemplo, mas multimodalmente por meio das combinações das imagens, do som, da escrita, da fala etc. Segundo Kress (2009: 54), essa é a rota trilhada pela semiótica social para a representação multimodal, na medida em que a língua não é considerada dominante ou central, capaz de expressar todos os significados, mas apenas um modo entre outros para produção de sentido. Dessa forma, uma abordagem multimodal e semiótica social “começa a partir da posição que comunicação visual, gesto e ação têm evoluído através de seus usos sociais em sistemas semióticos articulados ou parcialmente articulados da mesma maneira que a linguagem.” (KRESS et al., 2001: 44) Kress e van Leeuwen (2006: 19) tomam como base a ideia de que língua e comunicação visual podem, ambas, ser realizadas pelos ‘mesmos’ sistemas de sentido fundamentais que constituem nossa cultura, mas cada uma constrói sentidos diferentemente, por meio de suas próprias formas. Por exemplo, segundo os autores, apenas através da língua é possível usar orações que indicam processos mentais (como “eu acredito...”, para usar o 11 Mais adiante trataremos desse conceito, dentro da perspectiva multimodal que adotamos, mas de antemão adiantamos que para algo ser considerado um modo é preciso que haja “um senso cultural compartilhado do conjunto de recursos e de como estes podem ser organizados para realizar sentidos.” (JEWITT 2009, 22) 34 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico exemplo utilizado por eles), ao passo que, só por meio de imagens, é possível conferir superioridade a uma pessoa, através da perspectiva12 (com uma angulação vertical). Da mesma forma, na escrita, é possível enfatizar algum termo com o uso do negrito, enquanto, na fala, pode-se recorrer à entonação. Para dar “ênfase”, neste caso, cada modo dispõe de característicos específicos. Os autores também defendem que as formas da língua e da comunicação visual vão desenvolvendo-se em resposta às mudanças sociais e expressam sentidos pertencentes às culturas de uma dada sociedade. Quanto a isso, os autores chamam atenção para as possibilidades e limitações de sentido em cada caso, o que significa que nem tudo que pode ser realizado pela língua, também pode ser realizado pelas imagens, e vice-versa. Essa preocupação também aparece no artigo intitulado Multimodality, Multimedia, and Genre (2003:39), em que Kress interroga se “há sentidos sociais que podem ser realizados no modo da imagem, mas não podem ser realizados no modo da fala ou da escrita” e, mais especificamente, reformula a questão: “como as imagens representam relações e interações sociais?”. Para o autor, toda representação e toda comunicação deve ser carregada por sentidos sociais, além de ser ‘genericamente moldada’ (realizada em gêneros), uma vez que ‘sentido’ é “inevitável e necessariamente realizado diferentemente em diferentes modos”. Além disso, conforme explicam Kress et al (2001), todos os modos de comunicação desenvolvem-se e alteram-se segundo as demandas sociais; assim, novos são criados e modos existentes são modificados. Atentando para esses aspectos da representação e da comunicação, Jewitt (2009) afirma que há quatro suposições teóricas interconectadas que sustentam a multimodalidade: a) a língua é parte de um conjunto multimodal; b) cada modo em um conjunto multimodal é realizado por meio de trabalhos comunicativos diferentes; c) os sentidos são orquestrados pelas pessoas através da seleção e da configuração dos modos; e d) os sentidos dos signos formados a partir de recursos semióticos multimodais são, assim como a fala, sociais. 12 “No desenho artístico a perspectiva pode ser definida como um recurso gráfico que utiliza o efeito visual de linhas convergentes para criar a ilusão de tridimensionalidade do espaço e das formas quando estas são representadas sobre uma superfície plana como a do papel de desenho.” (Disponível em: http://www.sobrearte.com.br/desenho/perspectiva/index.php) 35 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Quanto à primeira premissa, a autora afirma que a multiplicidade de modos apresenta um potencial para contribuir igualmente para o sentido, ao contrário de outras perspectivas teóricas que encaram a língua como o modo mais significativo da comunicação, em especial nos contextos de ensino e aprendizagem. Em perspectivas como essas, gestos e imagens, por exemplo, são considerados como instrumentos, respectivamente, para a fala e para a escrita, modificando ou reforçando o que é dito. São vistos como “não-verbais”, “paralinguísticos”. No entanto, conforme ressalta Jewitt (2009), em uma perspectiva pautada pela multimodalidade, a língua é um modo, dentre outros em um conjunto multimodal. No que tange o segundo pressuposto, a multimodalidade leva em conta que os modos têm sido emoldurados pelos usos históricos, sociais e culturais para a realização de funções sociais. Dessa forma, todas as ações comunicativas são constituídas pelo social e cada modo, tanto o imagético quanto outros não-linguísticos, assumem papéis específicos em contextos específicos. Esses papéis, reforça Jewitt (2009), “não são fixados, mas articulados e situados”. Pela terceira afirmação, quanto à seleção e à configuração dos recursos semióticos como decisivas para a produção de sentidos, a autora parte da ideia de que a interação entre os modos também é significante, já que os diversos modos envolvidos no evento comunicativo combinam-se para representar o sentido da mensagem, mas não o fazem necessariamente de maneira uniforme. Assim, dois modos podem ser complementares ou contraditórios. A investigação multimodal, assevera Jewitt (2009), preocupa-se com a interação dos modos tanto para observar o trabalho específico deles quanto para analisar como interagem e contribuem com outros conjuntos multimodais. Quanto à quarta premissa, a autora afirma que os sentidos tomam forma segundo as normas e regras operadas no momento da produção de sentidos, baseadas nos propósitos e interesses do produtor, em um dado contexto social. Portanto, os sentidos são selecionados, adaptados e reconfigurados através dos processos de leitura e interpretação do recurso semiótico. Conforme pontua a estudiosa, “a teorização dos recursos intersemióticos é um aspecto-chave da multimodalidade”, afirmação que dialoga com o conceito de coesão multimodal (van Leeuwen, 2005), que diz respeito aos diferentes tipos de recursos semióticos que são integrados para formar um texto multimodal e eventos comunicativos, por meio do ritmo, da composição, da vinculação de informação e do diálogo. Jewitt (2009) ainda destaca cinco conceitos-centrais para análises multimodais que estão em mudança: modo, recurso semiótico, affordance modal/potencial de sentido, materialidade e metafunções. Para a autora, o modo é entendido, na perspectiva de uma semiótica social, como o “resultado de uma modelagem cultural de um material” (2009:21), o 36 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico que está em sintonia com o que afirma Kress (2009), segundo o qual, o modo é um recurso para a produção de sentido dado culturalmente e moldado socialmente. Dessa forma, esse autor explica que, partindo-se de uma abordagem socialmente orientada, se uma determinada comunidade utiliza cor ou fonte com regularidade, consistência e com suposições compartilhadas acerca da produção dos significados, então, tem-se um modo. A respeito dos recursos semióticos, Jewitt afirma ser uma noção central para multimodalidade, assim como van Leeuwen (2005) que conclui ser essa a expressão-chave de uma semiótica social. Conforme pontua este autor (2005:08), os recursos semióticos carregam (por serem realizados socialmente) as “regularidades discerníveis das ocasiões e dos eventos sociais” e, portanto, também uma certa estabilidade13 (variável de acordo com as mudanças sociais). Essa noção é proveniente do trabalho de Halliday, segundo o qual a gramática de uma língua é formada, não por regras a serem seguidas para que seja possível construir sentenças corretas, mas por recursos que permitam a produção de significados (Halliday 1978 apud van Leeuwen, 2005). Van Leeuwen (2005:285) descreve recursos semióticos da seguinte maneira: “as ações e artefatos que usamos para comunicar, sejam eles produzidos fisiologicamente – com nosso aparato vocal; com os músculos que nós usamos para criar expressões faciais e gestos, etc. – seja por meio da tecnologia – com caneta, tinta e papel; com hardware e software do computador; com tecidos, tesouras e máquinas de costura, etc.” O autor ainda lembra que os recursos semióticos apresentam um potencial de sentido, baseados em seus usos passados, e um conjunto de affordances14, baseados em seus usos possíveis, que são ‘atualizados’ em contextos sociais concretos de uso. Com uma sutil diferença quanto ao foco, Kress (1993 apud Jewitt 2009:24) usa “affordance modal” para se referir ao que “é possível expressar e representar facilmente com um modo”. Em síntese, affordance nos termos de Kress e potencial de sentido de um modo de van Leeuwen dizem respeito a como um modo tem sido usado para significar, em dado contexto. Kress (2009) ainda destaca a importância da materialidade de um modo, que diz respeito ao efeito do modo em relação à fisiologia da recepção física, corpórea, e à produção 13 Os modos e recursos semióticos apresentam uma relativa estabilidade, em função das convenções retóricas, estabelecidas sócio-historicamente, que conferem variados status – como de confiabilidade – ao serem utilizadas. Mais adiante traremos dessas convenções retóricas e de sua natureza inerentemente social, a partir das considerações de Kostelnick e Hasset (2003). 14 Termo originado do trabalho de Gibson (1977), sobre a percepção cognitiva. Indiscriminadamente, também é referido, no presente estudo, como “possibilidades”. 37 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico de sentidos. Segundo o autor, cada modo apresenta seu canal fisiológico de recepção sensorial e é capaz, em tese, de ser desenvolvido culturalmente, como é o caso do Braille. Essa consideração, pondera o autor, apresenta implicações, uma vez que possibilidades de sentido do som, por exemplo, diferem das da visão ou do toque. No que se refere ao quinto termo-chave listado por Jewitt (2009) – metafunção –, fortemente associado à Gramática de Design Visual, proposta de Kress e van Leeuwen (2006), levemos em conta o próximo tópico. 2.2. A GRAMÁTICA DE DESIGN VISUAL (GDV) Atentemos, primeiramente, para a posição assumida por Kress e van Leeuwen (2006), segundo a qual os recursos de representação sinalizam, assim como na língua, algumas regularidades que podem ser descritas de maneira relativamente formal. Kress e van Leeuwen chamam isso de ‘gramática’ da comunicação visual, através da qual seria fornecida uma descrição das escolhas semióticas possíveis, bem como os padrões que governam essas escolhas, em um todo significativo. Essa abordagem difere da maioria das descrições das semióticas visuais, uma vez que, como frisa Machin (2007), estas se orientam pelo léxico, em que são levados em conta os signos individuais, com sentidos previamente fixados. Para a sua abordagem pautada pela ‘gramática’, Kress e van Leeuwen adotam o modelo funcionalista dos estudos linguísticos, que foi desenvolvido pelo inglês Michael A. K. Halliday e chamado de Linguística Sistêmico-Funcional (doravante LSF). Conforme explicam Furtado da Cunha e Souza (2007:19), essa abordagem concebe “a teoria da língua enquanto escolha” e a língua é olhada conforme é usada. O que é central, afirmam as autoras, é o fato de a LSF encarar o funcionamento da linguagem como um processo associado ao contexto de uso e não isoladamente, regido por um conjunto de regras. Kress e van Leeuwen (2006: 20) justificam a escolha pela abordagem semiótica social de Halliday, não apenas por ser um trabalho bemsucedido no que diz respeito à língua, mas por constatarem que esse modelo promove uma reflexão acerca dos diversos processos semióticos e sociais, e de todos os modos de representação (Kress e van Leeuwen, 2006: 20, grifo nosso). O ponto de partida da abordagem de Kress e van Leeuwen baseia-se no pressuposto de Halliday de que os artefatos comunicativos podem ser caracterizados ao longo das dimensões definidas pelas três metafunções da LSF: ideacional, interpessoal e textual. A metafunção ideacional “representa/constrói os significados de nossa experiência” (Furtado da Cunha e 38 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Souza (2007:21); os enunciados remetem a eventos e ações de nossa atividade, indicam o conteúdo ideacional presente nos usos da linguagem. A metafunção interpessoal refere-se aos papéis dos participantes na interação social; trata dos usos da língua para representar relações interpessoais. A metafunção textual está ligada à organização dos aspectos semânticos, gramaticais e formais, funcionando em conjunto no texto. Kress e van Leeuwen criam um paralelo com cada umas das metafunções e propõem três correspondentes funções para a Gramática de Design Visual (doravante GDV). Essas três funções, associadas às de Halliday são as: Representacional (ideacional da LSF), em que estruturas verbais e visuais controem as naturezas dos eventos, dos objetos e participantes envolvidos e das circunstâncias em que eles estão. Assim, enquanto na língua os objetos podem ser conectados como “O professor cumprimentou o aluno”, na comunicação visual, uma pessoa pode olhar fixamente para um objeto. Interativa (interpessoal da LSF), em que recursos verbais e visuais produzem a natureza das relações entre falantes/ouvintes, escritores/leitores e videntes/e o que é visto. Dessa forma, na língua, podemos indicar se estamos fazendo um pedido ou dando uma ordem e, na comunicação visual, o ângulo vertical de uma câmera, na direção de cima para baixo, de um pai para um filho, pode indicar uma relação de autoridade e opressão. Composicional (textual da LSF), em que é considerada a relação entre os significados representacional e interativo, assim como essa relação se configura através do valor da informação, da estruturação e da ênfase relativa dada a elementos textuais ou imagéticos. Dessa maneira, na língua, é possível contar com a referência e outros elementos coesivos para criar um todo significativo; já na comunicação visual, uma placa com os dizeres “Proibido proibir”, sobreposta à imagem de um ditador, confere ênfase ao elemento em primeiro plano. Essa recontextualização das metafunções propostas por Halliday para as funções da GDV de Kress e van Leeuwen pode ser esquematizada da seguinte forma: 39 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Quadro 12 – Reconfiguração das metafunções da Linguística Sistêmica-Funcional para a Gramática de Design Visual Pessoa olhando fixamente para um objeto Ângulo vertical indicando opressão Placa com “Proibido proibir”, sobreposta a um ditador Uma vez que objetivamos analisar de que forma os recursos semióticos são convencionados na enquete, construindo a identidade dos políticos, decidimos focalizar nossa análise no sistema de significados composicionais, uma vez que a maneira pela qual os elementos das enquetes são integrados confere coerência ao todo. Assim, no tópico seguinte, discorreremos mais detalhadamente sobre essa última função, a composicional, recorte deste estudo. FUNÇÃO COMPOSICIONAL Conforme afirmam Kress e van Leeuwen (1996: 177), a metafunção composicional se realiza por meio de três sistemas associados: a) valor informativo, em que, dependendo da “zona” da imagem onde as elementos se localizam – esquerda/direita, parte superior/parte inferior e centro/margem –, são conferidos valores distintos quanto à informação; b) saliência, em que os elementos são dispostos de modo específico com a finalidade de atrair a atenção do interlocutor, por meio de vários fatores, como o 40 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico posicionamento em primeiro ou em segundo plano, o tamanho, os contrastes quanto ao tom, à cor, a luminosidade, à nitidez etc.; e c) estruturação, em que é levada em conta a presença de elementos, ou grupos de elementos, conectados ou desconetados da imagem, através de linhas divisórias apreeendidas da imagem ou linhas do próprio frame dela. Para os autores, esses três sistemas, por meio dos quais as composições integram os significados representacionais e interativos, são aplicáveis a qualquer texto visual complexo ou multimodal. Além disso, é imprescindível considerar todos os elementos de forma integrada; não o texto verbal como “primordial” e o visual como “ilustração”, como se fossem elementos constituídos por unidades distintas. Veremos, então, como se configura cada um desses três sistemas que promovem o sentido da composição. a) Valor informativo No que diz respeito ao primeiro sistema composicional, o valor informativo, Kress e van Leeuwen (2006), partindo de uma generalização, advinda da observação de vários textos multimodais, afirmam que – quando as imagens ou layouts fazem uso significativo do eixo horizontal, dispondo alguns elementos à esquerda do centro e outros, à direita – o lado esquerdo é o lugar em que as informações já conhecidas pelos interlocutores, de forma consensual ou familiar, são posicionadas; é o chamado dado. Por outro lado, as informações novas, parcial ou totalmente desconhecidas pelo leitor (o que demanda uma maior atenção), são apresentadas do lado direito do texto; é o denominado novo. Dessa forma, o novo é o problemático, o contestável, enquanto o dado é apresentado como o que já é considerado como consenso. Segundo Kress e van Leeuwen (2006: 181), essa estrutura dado-novo é ideológica, na medida em que pode não ser considerada como tal pelo leitor real, mas é apresentada “como se tivesse esse status ou esse valor para o leitor”, e, por isso, os leitores “devem lê-la dentro dessa estrutura, mesmo se essa avaliação for depois rejeitada por algum leitor em particular”. Os autores ressaltam que as estruturas dado-novo podem ser verificadas em diagramas, em filmes e na televisão. No caso das entrevistas e enquetes da mídia, por exemplo, o entrevistador é normalmente apresentado do lado esquerdo (levando em conta quem visualiza a cena) da tela, enquanto o entrevistado aparece do lado oposto, o que reforça a ideia de que estaríamos mais familiarizados com quem faz as perguntas, aquele com o qual compartilhamos nossas opiniões e considerações, com quem nos identificamos. Já do lado 41 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico direito, espera-se que o entrevistado forneça a informação nova. É o que pode ser verificado abaixo: Quadro 13 – “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) C1 DG: Vai votar contra ou vai votar a favor do aumento do salário mínimo? C2 Entrevistado: favoráveis a aprovação. C3 sua, Somos sua DG: o senhor disse que é a favor do aumento. Qual o aumento que o senhor vai votar? Pra quanto vai o salário mínimo? De forma semelhante como acontece nos textos em que há uso significativo do eixo horizontal, caracterizando a estrutura dado-novo, quando há uma utilização do eixo vertical de uma composição visual e alguns dos elementos constituintes estiverem dispostos na parte superior, estes serão apresentados como o ideal, opondo-se, portanto, aos elementos que são apresentados na parte inferior, o real. Para que algo seja considerado ideal, é necessário que seja apresentado “como a essência idealizada ou generalizada da informação e, portanto, como sendo a sua parte ostensivamente mais saliente” (Kress e van Leeuwen, 2006: 186-187). De maneira oposta, para ser real, os elementos apresentados na parte inferior da composição têm natureza concreta, prática. Kress e van Leuween (2006) lembram que, do mesmo modo que o dado e o novo, a estrutura real-ideal pode ser utilizada não só em imagens, mas também em textos mistos, em layouts. Os autores procuram também deixar claro que as investigações alinhadas pela semiótica visual levam em conta as culturas ocidentais e que, por isso, outras culturas que apresentam uma direção de leitura diferente da direção ocidental (que é da direita para esquerda e de baixo para cima), provavelmente, atribuirão outros valores às áreas das composições visuais. Além das estruturas dado-novo e real-ideal, a informação visual pode ser estruturada por meio das dimensões do centro e da margem. De forma geral, se a composição visual fizer uso significativo do centro, certamente este constituirá o foco da informação em detrimento das informações marginalmente dispostas. Normalmente, as margens são elementos auxiliares e dependentes, além de apresentarem natureza idêntica ou semelhante entre si. Ainda no que 42 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico diz respeito às margens, Kress e van Leeuwen (2006) acrescentam que o quanto são marginais depende do tamanho do centro e da saliência. Além disso, mesmo que não haja explicitamente um centro, ele continua a existir in absentia, o lugar do “governante divino”, “como um (negado) ponto central invisível, ao redor do qual tudo gira” (Kress e van Leeuwen, 2006:197). Quanto a essas duas estruturas, ideal-real e centro-margem, levemos em conta a sequência abaixo (que dá continuidade ao quadro anterior). Quadro 14 – “Quanto é o salário mínimo?” (dia 18/05/09) - continuação C4 C5 C6 [som1: algo sendo engolido brusca e dificilmente] [som: música minguando até parar] [som: semelhante a uma canção de ninar, típico de alguns brinquedos ] C7 C8 C9 Entrevistado: Quanto é o salário mínimo hoje? [som: grilo, cricrilando] DG: Tempo! Entrevistado: tic-tac, tic-tac... [som: relógio de cuco] C10 C11 C12 [som: relógio de cuco] Entrevistado: De cabeça, não sei... [som: batida violenta] DG: De cabeça, não tem? Entrevistado: não tenho. DG: o seu salário, o senhor sabe quanto é? Entrevistado: de cabeça, não tenho. [som: urros fortes] 43 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Ao ser questionado a respeito do valor reajustado do salário mínimo – aumento proposto por uma medida à qual afirmou ser favorável –, o entrevistado demonstra não só ter sido surpreendido com tal pergunta (o que também é comunicado pela deformação de seu rosto e pelo som que alude a algo engolido “a seco”, dificilmente) como também não saber a resposta. Esse fato permitiu que a situação protagonizada pelo político passasse a ser associada a um “cochilo”, uma “soneca”, leitura possível através da representação de uma espécie de gorro usado para dormir em congruência com uma música apropriada para embalar o sono. O recurso pictórico do gorro ocupa a posição ideal, no que diz respeito ao valor informativo, levando em conta que indica um sentido idealizado, opondo-se ao real, que corresponde à imagem do político, tentando lembrar a resposta. Da mesma forma, a partir da C8, verificamos a presença da informação precisa quanto ao valor do salário mínimo reajustado – resposta esperada à pergunta feita –, posicionado no canto inferior do quadro, correspondendo ao real, já que apresenta uma informação real, concretamente. Tendo em vista que o entrevistado demora a fornecer uma resposta, é estabelecido um “tempo” (C8) para que, enfim, ela seja dada. Em função disso, ocupando o centro da imagem, como uma espécie de mediação entre os dois, há a representação de um relógio de bolso, em movimento pendular, “tiquetaqueando” em consonância com o som correspondente. Percebe-se, então, que esse relógio-pêndulo ocupa a posição central, constituindo o foco da atenção, em detrimento das demais. Essa disposição enfatiza o passar do tempo necessário para que o entrevistado responda corretamente, ao passo que marca, a cada batida, menos tempo para que isso se realize. Graficamente, as três estruturas que promovem o valor informativo da composição visual podem ser observadas na página seguinte: 44 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico IDEAL I II CENTRO DADO III Quadrantes I Dado e Ideal II Ideal e Novo III Dado e Real IV Real e Novo NOVO IV REAL Gráfico 5 – As dimensões do espaço visual, segundo Kress e van Leeuwen (2005) b) Saliência Segundo Kress e van Leeuwen (2006), além da variação de valores informativos atribuídos a determinada área em que os elementos estejam posicionados, a composição envolve graus de saliência em relação a esses elementos. Há hierarquias de saliência, conferindo mais importância a um ponto específico da composição, dizem os autores, independentemente de onde estejam posicionados. Pode haver mais saliência, por exemplo, no dado, no novo ou em ambos, o que também é válido para qualquer outra posição, como o ideal/real ou centro/margem. Conforme esclarecem os autores, não é possível mensurar essa saliência, uma vez que ela é apreendida pelos leitores, que conseguem intuitivamente julgar o “peso” dos elementos, no todo composicional, por meio de uma complexa relação entre alguns fatores: tamanho, cor, tonalidade (áreas com forte contraste indicam maior saliência), foco (quanto mais focados, mais os elementos são salientes), perspectiva (elementos posicionados em primeiro plano são mais salientes do que os apresentados em segundo plano), sobreposição (os elementos sobrepostos são mais salientes do que os elementos 45 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico encobertos) e símbolos culturais potentes (pode ser o conjunto de elementos, como uma mulher, em um anúncio publicitário, com trajes de executiva, utilizando laptop e celular conferindo uma ideia de mulher independente e inserida no mercado de trabalho, ou pode ser a presença de uma figura humana importante). Os quadros a seguir ilustram os graus de saliência: Quadro 15 – Qual o nome do ministro da Agricultura? (dia06/04/09) C1 C2 C3 DG: Nos últimos controles de qualidade, eu recebi algumas reclamações de alguns deputados Que disseram que eu fica perguntando coisas de jihad, Afeganistão, assuntos... ... que não têm tanta importância para nossa política nacional (...) [som: gargalhada maléfico] com tom Quadro 16 – Venezuela preparada para possível guerra com a Colômbia (dia 30/12/09) C1 C2 RC: A Venezuela, através do seu presidente Hugo Chavéz, disse que tem de estar preparada uma guerra. Chavéz disse isso. A guerra é contra quem? LR: contra Hugo Chavéz, eu acho. Hugo Chavéz é meio maluco. C3 LR: [a guerra] ninguém. é contra [som: instrumento de corda desafinando] É contra... 46 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico C4 C5 LR: ele tem sido contra a imprensa. Eu acho que vocês lá... Já teriam sido... [som1: clique em um controle remoto; som 2: canais sendo trocados na TV) C6 [som1: clique em um controle remoto; som 2: canais sendo trocados na TV) (os sons descritos ocorrem sempre que o deputado faz um movimento com o polegar, semelhante ao movimento de apertar um controle remoto. Ocorre até o C7) C7 C8 [som1: clique em um controle remoto; som 2: canais sendo trocados na TV) ...fuzilados. Quanto ao quadro 15, é anunciada a razão da mudança do tópico das perguntas do CQ do mês de abril, em relação ao mês anterior: as queixas dos deputados em razão de perguntas sobre ‘jihad’, Afeganistão ou terrorismo (tópico da pergunta do quadro 1) que, segundo eles, não teriam tanta importância, o que é retificado pela representação do terrorista Osama Bin Laden (constituindo o novo da composição), que confere saliência a esse elemento por ser uma figura humana de grande importância, uma vez que é considerado autor dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e das ameaças posteriores a essa data. Assim, argumenta-se visualmente, em contraponto ao que é dito verbalmente, que ‘jihad’, terrorismo ou assuntos afins deveriam ser de importância nacional e deveriam fazer parte do conhecimento dos políticos. 47 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Já no quadro 16, o deputado é questionado a respeito de uma notícia, segundo a qual o presidente da Venezuela Hugo Chavéz teria dito que seu país deveria estar preparado para uma possível guerra com a Colômbia. Ao afirmar que a guerra seria contra o próprio presidente e que este seria contra a imprensa, o deputado apresenta uma hipótese quanto ao destino do programa (aludido por “eu acho que vocês lá”, em C4): se fizessem parte da programação da televisão venezuelana, provavelmente, os integrantes do CQC seriam fuzilados. No entanto, entre as cenas 4 e 8, antes de concluir seu enunciado, há a sobreposição de um aparelho televisivo, de aspecto antigo, no rosto do Rafael Cortez, um dos representantes do programa, formando um frame (sobre a estruturação, trataremos a seguir), separando-o do político e incluindo-o entre as pessoas e os personagens da televisão. Essa leitura é possível porque, alguns segundos depois, em conjunto com o movimento da mão do deputado, as imagens vão modificando-se, em alusão à troca de canais, em que são exibidas as imagens do personagem Professor Tibúrcio (do programa Rá-Tim-Bum, interpretado por Marcelo Tas, também um dos integrantes do CQC), do Chacrinha (apresentador falecido) e de Hebe Camargo (apresentadora de programa de auditório), até que a TV falhe e saia do ar, no mesmo momento em que o político diz que eles “seriam fuzilados”. Esse recurso semiótico, sobreposto ao rosto do integrante, produz um alto grau de saliência, chamando a atenção do telespectador para esse momento da enquete. Além disso, durante essas cenas, há como música de fundo o tema do filme “A Ponte do Rio Kwai”, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, o que cria uma saliência mais fraca em relação aos recursos pictóricos, mas que está em relação com a temática da enquete. Segundo Kress e van Leeuwen (2006:202), quando somos capazes de julgar esse “peso” dos elementos da composição, também somos capazes de fazer julgamentos acerca do equilíbrio entre eles, levando em consideração que “o peso que eles colocam na balança deriva de um ou mais fatores acima mencionados”. De acordo com os autores, quando os elementos da composição estão reunidos, há a formação de um ponto de equilíbrio, como em um móbile, em que um ponto central sustenta os demais. Tal afirmação corrobora a presença do centro, mesmo in absentia, conforme foi explicado na estrutura centro-margem, quanto ao valor informativo. c) Estruturação Terceiro elemento-chave da composição, a estruturação diz respeito às graduações entre os elementos mais ou menos fortemente enquadrados. Dessa forma, os elementos são 48 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico apresentados como participantes de uma unidade separada das demais ou relacionadas entre si. As cenas podem representar fronteiras ou a ausência deles pode indicar uma natural conexão. Além disso, há potenciais de sentidos no tamanho e no formato das Cs. Linhas irregulares podem representar perigo ou desnível e linhas suaves e arredondadas, conforto e maciez. É o que podemos observar no exemplo abaixo: Quadro 17 – Estruturação (enquete do dia 12/10/09) C1 C2 C3 DG: Olha, vocês formam um lindo casal, viu? AB: (risos) Evidente. AB: ...um trio, nós somos agora. DG: Opa, entrei, entrei na roda. AB: é. O entrevistador Danilo Gentili comenta, devido ao fato de estarem de braços dados, que os deputados formam um lindo casal, o que também é comunicado, em forma de coração e na cor vermelha, delimitando-os, o que corrobora a ideia de romantismo conferida à situação (que também é verificada no modo sonoro, já que a música de fundo também é romântica, com uma melodia suave). No entanto, essa separação dos dois deputados, em relação ao entrevistador, é desfeita no terceiro quadro, levando em conta que o deputado, em tom de brincadeira, afirma que agora eles formam um trio, desfazendo a necessidade do agrupamento anterior e criando outro. Van Leeuwen (2005) sugere que é possível relacionar categorias que descrevem os tipos de estruturação e cada uma delas teria um potencial semiótico. O autor lista seis categorias, lembrando que elas são gerais e podem ser usadas diferentemente em diferentes contextos: a) segregação, em que elementos ocupam diferentes áreas enquadradas, representando que são pertencentes a ordens distintas; 49 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico b) separação, em que os elementos não são separados por quadros ou molduras, mas por espaços vazios, indicando que eles podem ser similares em alguns aspectos e distintos em outros (como o título e o texto que ele anuncia); c) integração, em que texto e imagem ocupam o “mesmo espaço”, ou seja, operam multimodalmente como um elemento; d) sobreposição, em que as Cs sobrepõem elementos a outros, como uma imagem que rompe a moldura ou atravessa o título de uma capa de revista, por exemplo; e) ritmo, em que a padronização de cor, formato, tamanho etc. da moldura pode conectar elementos que estejam separados fisicamente por elas; e f) contraste, em que, diferentemente do ritmo, a cor, o formato e o tamanho indicam diferenças. Kress e van Leeuwen (2006) esclarecem que as três metafunções da GDV também são aplicadas à imagem em movimento, entretanto há diferenças quanto à construção de sentidos. No que concerne à função composicional, focalizada neste estudo, os autores afirmam que os três elementos (valor informativo, saliência e estruturação) também atuam nas fotografias (“shots”) em um filme ou programa televisivo, no entanto a composição torna-se dinâmica. Algo que começa como o dado pode mover-se para a posição do novo “na frente de nossos olhos” (Kress e van Leeuwen, 2006:264). É o que ocorre, por exemplo, no exemplo a seguir: Quadro 18 – Alteração das Estruturas Composicionais dinâmicas (dia 06/04/09) C1 C2 C3 Notem que o deputado federal Wilson Santiago não responde a enquete (a respeito do significado da sigla ENEM) e afasta-se do jornalista sem respondê-la. O caminho percorrido pelo político, diante da câmera, faz com este passe da posição de novo para dado, rapidamente. 50 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Além da função composicional da GDV, fundamentamos nossa análise nos estudos de Kostelnick e Hasset (2003), sobre as convenções retóricas, que exercem um papel relevante nos mais variados gêneros. Portanto, no tópico a seguir, abordaremos a natureza social das convenções, o seu papel na construção dos sentidos das composições visuais e como isso se configura no âmbito das enquetes do CQ. 2.3. DOCUMENTOS MULTIMODAIS15: UM MOSAICO DE CONVENÇÕES O design integra uma ampla variação de códigos convencionais que estão constantemente se modificando. No entanto, a linguagem visual do design é muito mais acessível – se comparada à linguagem verbal – tanto perceptual quanto hermeneuticamente, já que é assimilada, grosso modo, intuitivamente. Por isso, não podemos escapar da presença desses códigos ou de seu poder de nos moldar culturalmente. Sobre essa questão, Kostelnick e Hasset (2003a: 11) afirmam que o design é “inerentemente retórico”, uma vez que os designers usam seus artefatos para comunicar objetivando alcançar alguns fins. Ao mesmo tempo, advogam os autores, o design integra esses artefatos entre audiências complexas, o que ocorre, normalmente, dentro das expectativas do público, sendo, por isso, “inerentemente convencional”. Para os autores, essa linguagem convencional não é escrita de forma impulsiva, mas é reproduzida ao longo dos anos, promovendo interpretações de estabilidade, verdade e poder. As formas de design “operam entre um universo de códigos convencionais que mediam profundamente nossa interpretação da linguagem visual” (2003a:12). Assim, as convenções fornecem o “fio que trança” nossas experiências sensoriais, permitindo a criação de uma linguagem coerente por meio de uma estrutura profunda do design. Os autores utilizam como exemplo um convite para um colóquio patrocinado pelo Instituto Plant Sciences da Universidade Estadual de Iowa, em que há traços convencionais incorporados, como o uso generoso de letras maiúsculas, a inclusão de um molde do nome da instituição e a 15 Tal expressão é usada aqui nos termos de Bateman (2008a), que enxerga os textos escritos como “páginas de conteúdo estático espacialmente orquestrado em uma combinação de modos” (p.07), em que são combinadas, pelo menos, informações textuais, gráficas e pictóricas em um todo, em um layout. Essa visão nos é cara e dialoga com os pressupostos assumidos aqui a respeito da necessidade de ler os gêneros em sua composição, de forma integrada. Além disso, a visão de Bateman é coerente com as afirmações de Kostelnick e Hasset que serão apresentadas neste tópico, quanto às convenções retóricas, já que estas permeiam as partes dos documentos, como veremos. No entanto, é importante destacarmos que Bateman restringe sua análise aos “artefatos estáticos”, não explora, por exemplo, elementos que se movem no arranjo visual. Portanto, ao longo desta seção, faremos a ponte necessária com nosso corpus que é formado, como foi apresentado na introdução deste estudo, por enquetes dinâmicas, ou seja, apresentam movimento. Por fim, também associaremos a noção de convenções aos recursos semióticos observados nas enquetes. 51 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico padronização da fonte usada em documentos oficiais, o que certifica a autenticidade do convite e acentua, como ressaltam os autores, o seu ethos para com os leitores. Por vezes, também deparamo-nos com códigos que vão de encontro a nossas crenças, mas o uso legitimado pela convenção permite certas ressalvas. É o que ocorre, por exemplo, com o a representação das partes de uma bicicleta – dispostas espacialmente, ao longo de um eixo – em um texto instrucional de como montá-la. Sobre esse exemplo16, Kostelnick e Hasset (2003a: 14) comentam que os: leitores sabem que essa técnica de visualização das partes é uma ficção – partes não flutuam no espaço e certamente não ao longo de uma linha reta – mas leitores suspendem suas descrenças por isso podem aprender como montá-las. (...) O desenho também usa a convenção de truncamento de finais da estrutura de suporte (embora aqui, sem as linhas de quebra típicas dos desenhos mais altamente técnicos) e de uso de uma chamada para as partes rotuladas, cada uma delas serve para focar o leitor nas informações-chave. Os autores chamam atenção, ainda, para o fato de muitos leitores ocidentais contemporâneos não reconhecerem esses códigos convencionais ou não o considerarem como tal, uma vez que estão embutidos nos mais variados documentos. Para se ter uma noção da série de convenções que integram os documentos, os autores apresentam uma listagem de códigos convencionais, distribuídos em três modos – textual, espacial e gráfico –, que transitam do micronível, pequena-escala de convenções no topo do gráfico, para o macronível, grande-escala de convenções na parte inferior, como se pode ver a seguir: 16 A ilustração a que se referem os autores é a seguinte: 52 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Quadro 19 – Gama de Códigos Convencionais, segundo Kostelnick e Hasset (2003:16), adaptado Textual Convenções de Itálico para títulos de livros, gêneros biológicos, ênfases Sobrescritos para notas de rodapé; subscrito para equações (H2O) Sublinhado para links da web, ênfases, totais de contabilidade Letra maiúscula para mensagens formais, avisos. Letra pequena para detalhes Marcadores para itens em listas Letras iniciais sinalizando uma nova seção do texto Texto justificado para documentos formais Recuo de margem para sinalizar hierarquia Linhas entre células em tabelas; textos em quadros para notas, avisos Múltiplos níveis de títulos entre o texto Poder no topo dos gráficos organizacionais Símbolos de Gráfico de fluxo Sistema de numeração arábico para relatórios científicos. Uma coluna para memorandos e cartas; múltiplas colunas para boletim de notícias Símbolos e linhas de grade em gráficos Padrões preenchidos por materiais (madeira, aço) Linhas tracejadas para mostrar figura debaixo da superfície Marca d’água em certificados e prêmios; textura na página da web Molduras ao redor de figuras e gráficos; limites de página Ícones sinalizando fim da unidade do texto Gráfica pequena‐escala Espacial Convenções de grande‐escala Legendas e chamadas para ilustrações Legendas na exibição de dados; rótulos nos eixos x e y Seção de páginas de títulos entre um documento Cabeçalhos de páginas e notas de rodapé Páginas de título e etiquetas para longos relatórios Eixos x-y para gráficos; círculos para gráficopizza Figuras com partes ‘explodidas’, ‘seccionadas’, seções cruzadas, visões partidas Padrão de tamanho de páginas, legal, A4 Cartões divisores para documentos Os autores assinalam que boa parte dessas convenções não ocorre isoladamente, mas são combinadas com outras, em um dado documento. Quanto mais complexo o documento, dizem, mais rica é a lista de convenções, levando em conta que elas “inundam virtualmente 53 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico cada elemento visual de um documento – texto, exibições de dados, figuras, e o tamanho e formato da página e ou da tela.” (2003a: 17). Quanto à mutabilidade das convenções, os autores sinalizam para um fator importante: os artefatos de design “não são inertes, predestinados ou acidentais”, mas manifestam visualmente ações dos usuários; são, portanto, o discurso visível da língua viva em constante transformação. Isso se justifica pelo fato de designers conscientemente empregarem as convenções e os leitores a interpretarem, o que se dá pelo compartilhamento de experiências de natureza diversa. Por essa razão, as convenções são intrínseca e profundamente sociais, já que são proliferadas e sustentadas por grupos sociais. Dessa maneira, conforme afirmam os autores, as convenções são vulneráveis porque “são construtos sociais que dependem dos grupos que os usam, os aprendem e os põem em prática”. (IBID, 2003: 24). Quanto a esse aspecto das convenções, a título de ilustração, vejamos a seguinte sequência (uma das enquetes exibidas no dia 23/03/09): Quadro 20 – Mutabilidade das Convenções C1 C2 DG: ‘tamos comentando atualidades com os políticos, porque é importante um político... Laser de cor rosa C4 [som: semelhante fogos de artifício] ao de ...tá bem informado, o senhor não acha? C3 BA: repórteres também. [som: tilintar metálico] [som: de uma escova usada para engraxar sapatos, polindo algo áspero] C5 C6 DG: Certamente. [som: dois jatos explosivos encontrando o alvo. DG: Por isso que eu queria compartilhar a minha informação com o senhor. 54 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico C7 C8 C9 DG: Tá tendo uma polêmica do... ...Jarbas atacando o PMDB. O que o senhor acha disso? [som: freio brusco de algum transporte não-motorizado] BA: Isso... ...é um problema da vida interna do, do PMDB, eu sou de outro partido. C10 C11 C12 DG: Mas mesmo não sendo do PMDB, todo mundo sabe o que é PMDB. O que é que é PMDB? BA: (?) PMDB é um partido que não é o meu. [som: breve grasnar de um pato ou marreco] DG: O que significa P-M-DB? (letras ditas bem pausadamente, como uma soletração) Valendo! Inicialmente, atentemos para C2 e C3, em que é possível verificar o surgimento de dois braços, com terno preto e camisa branca (vestimenta típica17 tanto do apresentador quanto do político), em posse de um tecido amarelo. Esses dois braços passam a transitar da esquerda para direita e vice-versa, ‘polindo’, ‘lustrando’ imageticamente a cabeça do deputado Bonifácio Andrada que, por ser calvo, possibilita esse recurso específico. Em consonância com esse recurso visual, também há a presença de um som (semelhante a de uma escova polindo algo áspero, como descrito no quadro) que reforça essa ideia. A confluência desses recursos sonoro-visuais é possível porque o produtor deles entende que compartilhamos esse conhecimento acerca de um processo de polimento, por exemplo, uma vez que esses recursos congregam memórias de usos passados, convencionais na sociedade. 17 Trajes iguais, normalmente, são utilizados por pessoas que fazem parte de um mesmo grupo, que compartilham uma mesma característica ou ideal: uniformes de estudantes, fardas de militares, camisa de times de futebol etc. Também servem para informar em que categoria tais pessoas se enquadram. Assim, o uso de uma vestimenta que tanto pode ser associado ao integrante do programa quanto ao político confere certa ambiguidade à atuação desse terceiro integrante da enquete: ele pode estar a serviço do CQ ou apoiando o político. Neste último caso, o cenário dialoga com uma luta de boxe, em que membros da equipe de um dos lutadores, com toalhas, acodem seu parceiro para que este volte revigorado para o próximo round. 55 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Entretanto, tais recursos permitem uma gama de reconfigurações, em dado contexto e em função de interesses diversos. A enquete desenvolve-se a partir da notícia acerca da polêmica envolvendo o então senador Jarbas Vasconcelos, que estaria acusando seus ex-colegas do partido do PMDB de corrupção. Questionado sobre essa informação, o deputado Bonifácio Andrada esquiva-se (C9), considerando-a uma questão a ele alheia, uma vez que não faz parte do referido partido. Ele ainda fortalece essa posição (C11) – depois de questionado sobre o significado da sigla do PMDB –, por uma paráfrase, afirmando ser o PMDB apenas um partido ao qual não se alia. E tal resposta jocosa é realçada pelo som de um grasnar de um pato, que confere uma espécie de reprovação ao comportamento do político, típico de quem desconhece a resposta e evita responder às questões com respostas evasivas. Dessa forma, os recursos semióticos usados no início, aludindo a um polimento, não se justificavam apenas pela ‘careca’ do deputado, mas por este precisar de um tratamento, de uma melhora na sua cabeça (metonimicamente referente ao cérebro e, por conseguinte, aos conhecimentos que possui). É uma reconfiguração dos usos correntes dos recursos que permitiram, neste contexto específico, a construção de novos sentidos. É o que pode ser corroborado pelo desfecho da entrevista, reproduzida a seguir: Quadro 21 – Mutabilidade das Convenções – continuação C14 C15 BA: Partido do Movimento Democrático Brasileiro. [som1: tilintar metálico] [som2: tilintar semelhante a uma badalada breve em um sino; som 3: vozes comemorando] DG: Perfeito, seu deputado... Após o comportamento inicial e diante de uma indagação ainda mais contundente (C12 – “O que significa P-M-D-B? Valendo!”) – remetendo a típicos quizzes televisivos18 em que participantes têm um determinado tempo para responder a questões de natureza diversa –, o deputado responde corretamente à questão sobre o significado da sigla do partido – do qual 18 Neste caso, em particular, o integrante do programa imita a voz do apresentador Silvio Santos. 56 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico apenas dizia não fazer parte. Nesse momento, há uma série de recursos utilizados, promovendo a ideia de aprovação, como o tilintar metálico (som1 em C14), como de uma medalha, conferida por honra ao mérito, e as vozes comemorando (som3 em C15). Especificamente, o som2 (“tilintar semelhante a uma badalada breve em um sino” em C15) mantém um diálogo com os recursos semióticos utilizados na sequência inicialmente discutida (C2 e C3: “lustração”, “polimento”), já que, juntamente com ele, há a integração de uma forte luz brilhante, surgida da cabeça do político, enfatizando o sentido de que, com um ‘retoque’, um ‘polimento’, é possível chegar a uma resposta correta e a um comportamento esperado, tido como ideal de um político. Outro aspecto importante a respeito das convenções refere-se ao fato de as comunidades discursivas que compartilham certos códigos convencionais não serem homogêneas e, por isso, nem sempre há conformidades dos membros em suas práticas. Em decorrência disso, alguns usuários podem usar formas alternativas, desprezar as práticas aceitas ou até mesmo inventar suas próprias. No entanto, a onipresença das convenções, muitas vezes, as disfarça, pelo fato de as convenções estarem juntas no mesmo documento e por serem naturalizadas pelo discurso das comunidades que as sustentam. Além disso, apesar de as convenções serem altamente socializadas no seio dessas comunidades, “os seus resultados de comunicação desafiam uma previsão, pois os indivíduos pertencem a muitas comunidades e interpretam as convenções em uma grande variedade de contextos situacionais” (2003a: 41). A maneira como nós passamos a fazer parte de uma comunidade de discurso e como apreendemos culturalmente seus códigos convencionais também varia consideravelmente. Esse processo ocorre quando nós nos deparamos com elementos visuais, os compreendemos e, em seguida, agimos de acordo com nossa interpretação. Em função do sucesso ou da falha de nossas ações, nós reajustamos nossos modelos mentais acerca desses elementos visuais, os reinterpretamos e aplicamos essa interpretação sempre quando em presença de tais elementos. Essa habilidade é adquirida à medida que nos tornamos fluentes na linguagem visual, o que é, em parte, desenvolvido em nossa educação silenciosa, de forma autônoma. No que diz respeito às enquetes do CQ, verifica-se a construção de uma memória quanto à associação de 57 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico determinados recursos semióticos a alguma pessoa em particular, o que orienta a leitura que deve ser seguida pelo telespectador. Tal fato pode ser observado por meio do quadro19, a seguir, que se refere ao deputado José Genoíno: Quadro 22 – Convenção de Pequena Escala C2 C1 C3 [som: rangido de cão feroz] Na C1, há a variação da cor vermelha (que toma o rosto do José Genoíno), começando pelo pescoço e subindo em direção ao topo da cabeça, até que uma pequena fumaça saia desta, recurso semiótico que permite a leitura de alguém colérico, tomado pela raiva. Na segunda cena, há uma distorção da mandíbula do deputado, assemelhando-se a de um cão feroz, juntamente com a representação de uma coleira grossa, em tons metálicos e com pinos pontiagudos (típica de cães treinados para atos violentos, como os da raça Pitbull). Finalmente, em C3, verifica-se a imagem de uma focinheira, geralmente, utilizada em cães de grande porte e ferozes, quando em presença de outras pessoas, para evitar possíveis mordidas. Ao longo de suas aparições, no programa (mesmo em outros quadros que não compõem nosso corpus), o deputado negou-se a responder a qualquer questionamento feito pelos integrantes do programa, além de apresentar uma postura agressiva. Essa caracterização, por meio desse tipo de recurso semiótico, tem tornado-se particular e tem sido usada, normalmente, em referência a esse deputado. É, portanto, de pequena escala no universo do CQ. No entanto, por ter-se tornado um caso emblemático e por ser um fato arquivado na memória das pessoas que assistem às enquetes, há casos como este: 19 Tais imagens não fazem parte do nosso corpus, por terem sido exibidas em 2008 (caso das imagens 1 e 2) e não constituírem uma enquete do CQ. No entanto, elas são importantes para a compreensão de determinados recursos semióticos utilizados em 2009, ano em que o CQ estreou no programa. 58 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico Quadro 23 – Convenção de Pequena Escala - continuação C1 C2 C3 DG: o nome do país o deputado sabe? C4 [som: grilos cricrilando] [som: grilos cricrilando] C5 C5 DG: o Brasil indicou um país aí e tal. DG: Mercosul, tá ligado? Dr. PC: Vai trabalhar, rapaz. [Som: vozes dizendo “aiaa”, com tom de espanto pela resposta] Vai trabalhar que é bom. Você é um jovem, tem que trabalhar pelo país. C6 C7 C8 DG: É verdade, né? O deputado se informar aí, pra trabalhar também, uhh, ...melhor ainda, hein, deputado? [som1: batida forte de uma barra de ferro em uma superfície rígida; som 2: vozes dizendo “uhh1” Diante da pergunta “Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do Mercosul?”, o deputado federal Dr. Paulo César permaneceu em silêncio, como tipicamente o deputado Genoíno procede. Por isso, a representação da face deste último é sobreposta a daquele, o que não só reforça a identidade já construída de Genoíno (além de possibilitar a sua 59 CAPÍTULO II – Multimodalidade: Cenário Teórico construção para quem não a conhecia), mas também promove a transferência de seus atributos ou posturas típicas ao deputado Paulo César. Quando resolve dizer algo, esse deputado é agressivo, o que também está em sintonia com as posturas de José Genoíno. Como foi visto, os dois quadros acima demonstram que há recursos semióticos convencionados em pequena escala, ou seja, referentes a casos específicos ou a políticos específicos. Da mesma forma, existem aqueles convencionados em grande escala, ou seja, são recursos associados a qualquer político, em determinadas situações. Essas convenções construídas nas enquetes são poderosos instrumentos para a construção da identidade dos políticos. Para verificar como isso se opera, preocupamo-nos em observar quais desses recursos semióticos convencionados nas enquetes são usados em grande escala e quais são os efeitos de sentido produzidos a partir das ações representadas por esses recursos, como veremos no capítulo a seguir. 60 CAPÍTULO III ANÁLISE DA COMPOSIÇÃO DAS ENQUETES Neste capítulo, analisamos como as três estruturas da Função Composicional, valor informativo, saliência e estruturação, atuam nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem determinados efeitos. Dependendo do tipo de ação representada, há variações quanto aos sentidos que são promovidos nas enquetes. Por isso, primeiramente, analisamos uma sequência de enquetes para, a partir dela, identificarmos algumas das principais ações representadas pelos recursos mais recorrentes. Em seguida, definimos os critérios de análise e analisaremos como, nessas categorias, as três estruturas funcionam. No início do quadro CQ, somos lembrados (ou informados ineditamente) de um fato ocorrido durante a semana (07/02/09, dois dias antes da exibição do programa), segundo o qual o atual presidente dos EUA, Barack Obama, estaria sendo criticado por defender a decisão de fechar a base Guantánamo, que fica em Cuba. Em seguida, os políticos são questionados a respeito desse fato. Atentemos para a sequência abaixo: Quadro 24 – Onde fica Guantánamo? (dia 09/03/09) C1 C2 DG: Obama tá sendo criticado internamente por tentar fechar a base que George Bush usava para prender e interrogar suspeitos terroristas. C3. DG: essa base fica Guantánamo, Cuba. em 61 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C4 DG: mas será que os políticos brasileiros sabem disso? C5 DG: o senhor acha que um político, pra executar seu trabalho, de forma mais eficaz, precisa tá bem informado? C6 PP: Claro. Quem tá aqui... [som: “clique” do acender de uma luminária] C7 C8 C9 ...na área federal, tá cuidando das coisas do Brasil; e as coisas do Brasil com o exterior, evidentemente. DG: o que o senhor acha dessa notícia aqui, ó. DG: Sob críticas, Obama defende decisão de fechar Guantánamo. C10 C11 C12 SC: eu acho importante que ele faça isso; SC: é um avanço da democracia. [som: tilintar de uma medalha; som metálico] AD: ele pode transferir a base Guantánamo pro Brasil, porque... 62 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C13 C14 C15 ...há aqui gente pedindo refúgio, né? PP: ele está correto, porque não adianta apenas a força. HF: geograficamente falando, Guantánamo tá na contramão da história do povo americano. C16 C17 C18 DG: e Guantánamo, o senhor sabe onde fica? SC: lógico que eu sei onde fica. [som1: corda de violão quebrando] C19 C20 SC: não entendi a pergunta. DG: pra quem tá em casa e não sabe onde fica Guantánamo, onde fica? C22 C23 SL: é... essa eu (truncamento/difícil compreensão) [continuação do som1: corda de violão quebrando; som 2: grilo cricrilando]* C21 [som: algo sendo brusca e dificilmente] engolido C24 SL: é um estado que nós sabíamos que é de difícil explicação. 63 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C25 C26 C27 SC: você é muito talentoso para não saber onde fica Guantánamo. [som: como o pinote de um animal; fuga ligeira] DG: e o senhor, sabe? SC: má claro que eu sei. C28 C29 C30 DG: e onde fica? [som: “urrr!”, proferido por várias vozes] SC: eu acho que é você que não sabe. PP: É uma questão de pegar, né, os livros e pesquisar e evidentemente saber onde é que fica, né? C31 C32 C33 DG: geograficamente falando, sabe onde fica Guantánamo? [som: disco ou LP riscando e parando de girar] SC: má claro que eu sei onde fica Guantánamo. SC: agora se você quiser aula de geografia, eu lhe dou uma aula de geografia. 64 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C34 C35 C36 DG: professor, onde fica Guantánamo? SC: meu aluno, [som: burro, zurrando] SC: eu já te expliquei 500 vezes onde fica Guantánamo (a partir desse momento, até o fim da sequência, há um música de fundo animada, que lembra as de programas de circo. C37 SC: você não sabe? C40 PP: Nos Estados Unidos, evidentemente. C38 SC: eu estou decepcionado com você. [som: um grasnar de um pato ou marreco] C41 [som 1: corda de violão quebrando] C39 DG: e onde é que fica? C42 [som 1: corda de violão quebrando + som 2: vozes falando: “nã::o”] 65 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C43 C44 C45 Álvaro Dias: [risos] Heráclito Fortes [rindo]: Na ilha de Cuba. AD: é lá em Cuba mesmo. C46 DG: obrigado. Em C5, em que há a primeira pergunta feita ao deputado federal Paulo Piau (“o senhor acha que um político, pra executar seu trabalho, de forma mais eficaz, precisa tá bem informado?”), observa-se a retomada do questionamento que permeia toda a enquete, o que não só relembra o propósito da enquete em si, mas reposiciona a discussão acerca da importância de os políticos serem bem-informados ao próprio político, que assume a imagem ideal no que tange à postura desejável do grupo do qual faz parte: prontamente responde afirmativamente à questão, com serenidade e sobriedade, características tipicamente atribuídas aos que demonstram domínio de um dado assunto. Sua resposta, contudo, é condicionada pela formulação da própria pergunta que prevê, basicamente, um dentre duas respostas: sim ou não. Ao assumir a premissa de que executar de forma eficaz seu trabalho – o que é desejável a qualquer profissional – significa estar informado, não 66 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes importando o que isso quer dizer exatamente, a resposta do deputado muito dificilmente seria negativa. Respondendo afirmativamente à pergunta, o deputado Paulo Piau fornece a chave para que os efeitos discursivos se construam. A resposta precisa e imediata do deputado Paulo Piau (“Claro!”) é, então, satirizada pelos modos imagéticos e sonoros que compõem a imagem da enquete. Ocupando a posição Nova da cena, é inserida uma mão dando um “clique” em uma luminária, que passa a “clarear” o ambiente – que não estava “tão claro” assim, antes de o deputado responder à pergunta. Essa ação nos leva a ponderar que essa não é uma questão tão clara, tão bem definida assim, informação que não era dada, foi fornecida a partir da informação Nova, representada pelo braço-que-clareia-o-ambiente. Uma vez que o ambiente ganha luz, de uma cena para outra, verifica-se que há um grau maior de saliência para esse momento da cena, chamando a atenção do telespectador para isso. Uma leitura possível é a que esse ‘terceiro’ participante da enquete promove o esclarecimento da questão, metaforicamente, a serviço dos propósitos do CQ, como veremos a seguir. Em C29 (“É uma questão de pegar, né, os livros e pesquisar e evidentemente saber onde é que fica, né?”), o deputado afirma que estar bem informado é, evidentemente, uma prática simples, que requer apenas “pegar os livros e pesquisar”, o que vai de encontro com a sua resposta à pergunta “E onde é que fica?” (C39), segundo a qual a base Guantánamo se localiza, “evidentemente”, nos EUA e não em Cuba, real endereço da base. Essa leitura é conduzida pelo desenvolvimento da enquete, já que o terceiro participante da enquete, mais uma vez constituindo a informação Nova, “golpeia” com um martelo colorido a figura do deputado que, por sua vez, tem seu rosto deformado, representando que, seguramente, ele foi atingido pelo questionamento e, ainda mais gravemente, exposto ao rol dos políticos desinformados, o que, até então, ele próprio defendia ser impensável para um político que exerce bem seu papel. O rosto do deputado fica, além de deformado, com uma coloração rosada, conferindo maior saliência a esse momento, o que reforça a ideia de que o político foi ‘ferido’, foi ‘reprovado’ pelo CQ. Quanto à estruturação, verifica-se uma faixa preta, na parte inferior da cena, separando a informação real da ideal, disponibilizando a informação concreta acerca da localização de Guantánamo. Essa espécie de embaraço, protagonizado pelo deputado, é ainda mais enfatizado pela edição da enquete, uma vez que é apresentado, logo em seguida (em C43), o 67 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes senador Álvaro Dias (PSDB-PR) rindo em conjunto com a imagem seguinte (em C44, em que o senador Heráclito Fortes, do DEM- PI, afirma, em meio a risos, que Guantánamo fica “na ilha de Cuba”). Dediquemo-nos agora, ao deputado federal, do PMN-PE, Sílvio Costa. Em primeira resposta (C10 e C11), quanto ao acontecimento que era noticiado pelo jornal Folha de São Paulo, o deputado se posiciona diante do fato e ganha, por isso, uma “medalha ao mérito”, uma “pontuação”, o que é inferido a partir da consideração do som que é apresentado no momento descrito no quadro: um som metalizado, um tilintar próprio das medalhas. Apesar de breve, esse recurso confere uma saliência maior a esse momento, em relação aos que o antecediam. No entanto, questionado sobre a localização da base, Sílvio Costa afirma categoricamente que sabe onde fica a base (“lógico que eu sei onde fica Guantánamo!”, C17) e, imediatamente depois, afirma não ter entendido a pergunta (C19), em clara demonstração de insegurança e comprovação de ter sido “pego desprevenido”. Essa leitura é enfatizada pelos recursos multimodais reunidos, em C18, que congregam o som de um cricrilar (indicando um silêncio desconfortável, em analogia ao total silêncio dos ambientes em que se pode ouvir o som dos grilos) e de uma corda de um violão que se parte (aludindo ao “rompimento da canção”, da “ladainha” desenvolvida até aquele momento pelo político). Nesse momento, o rosto do deputado aparece em close, destacando-se na cena, para que não haja dúvidas de que esses recursos se referem a ele. Essa situação constrangedora, que fatalmente acaba por provocar humor, é prolongada em função da insistência do deputado em afirmar que conhece a localização de Guantánamo, em paralelo com a determinação do integrante do programa que não se cansa em, a cada escusa do deputado, interrogá-lo. Essa situação se prolonga em grande parte do trecho reproduzido (que pode ser comprovado de C25 a C38), mas atinge seu ápice de absurdo e comicidade – para, neste 68 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes momento, não dizer “trágico” – nos últimos quadros, em que o deputado se propõe a “ensinar”, como um professor de geografia, a localização da base, caso fosse da escolha de DG. Em decorrência disso, constituindo a informação ideal, que pode ser considerada como a mais saliente ideologicamente, há a inserção de uma imagem que simula o típico “chapéu-deburro”, amplamente utilizado como recurso de punição e de constrangimento – para aqueles “maus alunos” – em métodos de ensino-aprendizagem antigos e tradicionais. Além desse recurso pictórico, é reproduzido o som de um burro zurrando, o que sentencia a imagem do deputado que, além de ser desinformado, tem atitudes reprováveis, “burras”, já que insiste em não assumir que não sabe, afinal, onde fica Guantánamo. Essas leituras das enquetes acima são construídas a partir das escolhas dos produtores das enquetes do CQ. Como vimos, há recursos semióticos convencionados que representam ações diversas que, por sua vez, produzem o efeito de reprovação (como a marreta que atinge a cabeça do deputado e esta fica, consequentemente, deformada), o efeito de aprovação, (como o som de tilintar metálico), o efeito de deboche (como o nariz-de-palhaço sobreposto ao nariz do político) etc. Tais convenções, portanto, produzem diferentes efeitos de sentido e, diante disso, analisaremos a seguir como as três estruturas da Metafunção Composicional – valor informativo, saliência e estruturação - se articulam nas cenas, levando em conta as diferentes ações representadas pelos recursos semióticos convencionados como critério de análise. Levamos em conta para a topicalização, os recursos pictóricos; os recursos sonoros, mesmo que apresentem valores distintos dos pictóricos, serão analisados conjuntamente com estes. Tendo em vista que o escárnio20 permeia a utilização dos recursos semióticos de nosso corpus, apresentamos um gráfico abaixo que apresenta a categorização dos efeitos de sentido produzidos a partir das ações representadas pelos recursos, nas quais operam as três estruturas composicionais: 20 Esse termo, uma espécie de hiperônimo dos demais, foi escolhido tendo em vista que há um tom de zombaria manifesta mesmo em ações que produzem efeito de aprovação. 69 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Escárnio Sistematizado por meio de ações que produzem efeito de Deboche Temporização Constrangimento Reprovação Aprovação Nas quais operam Valor informativo Saliência Estruturação Gráfico 6: Categorias de Análise 3.1 EFEITO DE DEBOCHE Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam, especificamente, nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de deboche. Como veremos, esse tipo de ação, normalmente, ocorre quando o político responde de maneira galhofeira, em tom de brincadeira, ao questionamento que lhe é feito, o que se justifica pelo fato de as enquetes do CQ também apresentarem esse caráter. Assim, o político assume uma postura no intuito de participar desse contexto mais despojado de interação – o que não seria possível se fosse outro o jornalista ou se fossem outros quadros que exigissem um tom mais sério. No entanto, essa leitura não é enfatizada pelas enquetes do CQ, uma vez que o propósito comunicativo é outro. Levemos em conta a sequência abaixo que, à semelhança da primeira, também trata de um assunto ocorrido durante a semana das enquetes. Novamente, como é recorrente no início 70 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes das enquetes, é anunciada a notícia sobre a qual ela girará: há uma proposta de lei que objetiva aumentar o salário dos trabalhadores e isso ocorre ao mesmo tempo em que acontece uma manifestação formada por trabalhadores. Vejamos: Quadro 25 – Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09) C1 C2 C3 DG: os trabalhadores se manifestam na rua, enquanto isso, no congresso, deputados votam a medida provisória que diz respeito ao aumento salarial. Mas quanto é o salário mínimo? Ah, todo mundo sabe disso, todo mundo recebe salário, né? C5 C6 C7 DG: o senhor é um trabalhador comum? Trabalhador Comum: sim, sou. DG: Quanto é o salário mínimo, hoje em dia? Trabalhador Comum: quatro, meia, cinco. DG: E se eu te disser que tem deputado, representante dos trabalhadores que não sabe quanto é o salário mínimo? [som: música cessando rápida e bruscamente] Trabalhador Comum: existe... Existe isso, será? C8 C9 C10 Trabalhador Comum 2: esse DG: Uma medida provisória que JD: sim, a que vai, o salário [som: corda de instrumento de corda partindo-se] 71 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes não devia ser nem representante do trabalhador. [som: “urrr!”, várias vozes] proferido por C11 ER: (rindo) Quanto é o salário mínimo? Quatrocentos reais, quatrocentos e sessenta reais? tá em andamento, vai ser votada logo mais é a medida do aumento do salário mínimo, não é isso? mínimo vai para quatro, meia, cinco. DG: e quanto ele era? [som: espécie de batida, soco] JD: quatrocentos e quinze. [som: tilintar metálico] C12 C13 ER: cem dólar? [som: espécie de apito infantil ou som de um brinquedo em movimento] DG: não sei. O senhor tem uma chance. Qual, a, b, c ou d? ER: é sessenta. quatrocentos e Mais uma vez, é estimulada a expectativa do telespectador quando é mencionado que, diante desse contexto (projeto de lei sobre aumento de salário e manifestação de trabalhadores) e do fato de todos ‘receberem salário’, seria fácil conhecer o valor do salário, os políticos não ‘teriam problemas’ em responder a uma pergunta dessa natureza. Essa expectativa é reforçada pelos depoimentos de dois integrantes da manifestação21, tendo em vista que, a partir do primeiro (C6 e C7), percebemos que a informação sobre o valor do salário mínimo é compartilhada pelos ‘trabalhadores comuns’ (adjetivação que pode ser intercambiável por ‘simples’ e/ou ‘não-políticos’, sendo o político, então, uma categoria distinta) e, a partir do segundo (C8), verificamos que um político sem esse (tipo de) conhecimento não deveria ser um bom representante dos trabalhadores. O primeiro político a ser abordado, no entanto, não só tem conhecimento a respeito do projeto de lei que está sendo discutido por deputados, como também sabe o valor do salário mínimo, o que é realçado pelo tilintar metálico derradeiro, que provoca o efeito de aprovação por responder corretamente, por estar bem-informado, por ser bom-representante do povo. Aprovação esta realizada pela enquete, conferida por ela, o que corrobora a ideia de que os recursos são convencionados 21 Leitura decorrente da camisa padronizada usada por ambos, além de ser possível observar, em segundo plano, outras pessoas usando o mesmo traje indicando que fazem parte do mesmo ‘movimento’ 72 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes com intuito de legitimar o discurso do CQ, segundo o qual os políticos não são informados, precisam ser testados e, consequentemente, reprovados ou aprovados. E o responsável por essa investigação, bem como pelo atestado de “qualidade’ é o CQ. Nas cenas seguintes, o exemplo do político logo se contrapõe ao político seguinte22, o deputado federal Eugênio Rabelo que demonstra não saber o valor do salário mínimo e ‘brinca’ com esse fato, elencando possíveis valores, inclusive em dólar, moeda norteamericana, que, certamente, não é a resposta à pergunta. Em função disso, um nariz-depalhaço é sobreposto ao nariz do político, o que confere forte grau de saliência a esse elemento, neste momento da cena, chamando a atenção para a caracterização atribuída ao político: a de um palhaço. Essa leitura é reforçada pela associação ao som de uma espécie de apito ou corneta infantil (descrito em C12), que também promove a saliência desse momento, em relação aos anteriores a este. Relativamente fraca entre os participantes, a estruturação mostra-se fortemente marcada quando há a exibição do valor real do salário mínimo – que constitui a informação Real –, uma vez que há uma tarja em cor preta separando essa parte do restante da cena. Atentemos para o que ocorre no quadro 26, em que é reportada a informação de que a Arábia Saudita quer reabilitar terroristas com um programa apelidado de “Bolsa-Jihad” (C1), notícia publicada em 05/03/09, no jornal O Estado de São Paulo. Em seguida, DG faz um comentário em C2 sobre isso: Quadro 26 – O que é “jihad’? C1 C2 DG: Olha lá, hein? A Arábia Saudita quer Depois do 11-de-setembro, quem não reabilitar terroristas... com um programa souber o que é “jihad”... que foi apelidado de “bolsa-jihad”. 22 Na edição original, exibida no programa, ainda há a presença de outro político, cuja enquete já foi analisada nos quadros 13 e 14, na seção “valor informativo”, no capítulo 2. 73 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Tal informação (C1) dialoga com um determinado momento histórico (o atentado ao World Trade Center, nos EUA, em 11 de setembro de 2001, por ataques terroristas), em que termos como “jihad” foram amplamente utilizados e se associam semântico-discursivamente aos ataques promovidos por terroristas. Além disso, o comentário de DG anuncia uma expectativa (no que diz respeito às respostas dos políticos) que passa também a ser compartilhada por quem o assiste, em razão da “facilidade” em retomar esse período marcante e doloroso da história mundial e, consequentemente, do termo que se relaciona a ele. Entretanto, é importante atentarmos para o fato de que o ‘apelido’ dado ao programa da Arábia Saudita constitui um diálogo com a expressão Bolsa Família, programa do Governo do então presidente Lula, e não foi uma expressão amplamente utilizada por outros suportes. Trata-se de uma construção específica dessa manchete (inclusive, na leitura integral da notícia, não há qualquer menção a essa expressão). Além disso, no que diz respeito à “facilidade” em recuperar o significado do termo jihad, é preciso ter em mente que seu significado foi ‘ocidentalizado’, associando-se à “guerra santa”, aos sacrifícios que os terroristas fazem em nome dos ensinamentos islâmicos. No entanto, esse termo significa “empenho”, “esforço”, aplicando-se a qualquer forma de dedicação à execução de uma ação, conforme explica M. Amir Ali em texto publicado pelo Instituto de Informação e Educação Islâmica (III&E)23. Dessa forma, verifica-se que os telespectadores são orientados a conferir credibilidade às perguntas feitas nas enquetes, já que é apresentado um suposto argumento de autoridade, ao se reportar uma manchete de uma notícia publicada. Acompanhemos a sequência: Quadro 27 – O que é “jihad’? – continuação 23 C1 C2 C3 DG: eles estão fazendo a “bolsa-jihad”, que é uma, é um programa... ...para habilitar terroristas. O que o senhor acha disso? LCB: reabilitar terrorista? Disponível em: <http://www.sbmrj.org.br/Atualidades-jihad.htm>. Acesso em 24 jan. 2011. 74 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C4 C5 C6 LCB: acho um terror isso aí. [som: instrumento de corda desafinando] DG: o senhor sabe o que é “Jihad”? LCB: não, não sei. Em C3, em resposta à pergunta a respeito do fato noticiado, o deputado federal Luis Carlos Busato, primeiramente, faz uma pergunta retórica e, em seguida, usa um trocadilho (“acho isso um terror”), cujo tom galhofeiro se justifica pelo fato de ser justamente uma enquete do CQ, que apresenta um forte caráter humorístico. É uma forma de compartilhar do tom usado nas enquetes desse quadro. No entanto, essa não é a leitura enfatizada pelo recurso semiótico, uma vez que, da mesma forma como vimos na sequência anterior, há a sobreposição de um nariz-de-palhaço no nariz do deputado, produzindo maior saliência para esse elemento, enfatizando a ideia de que, em analogia às ações de palhaços, o teor cômico de sua resposta aponta para a maneira “despojada” e “despreocupada” de nossos representantes ao encarar problemas sérios e de níveis internacionais, como o que está sendo tratado. É uma construção orientada pelos propósitos do CQ, que visa a consolidar o estereótipo de que político é desinformado, legitimando seu discurso. 3.2. EFEITO DE TEMPORIZAÇÃO Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam, em especial, nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de temporização, ou seja, demorar, retardar alguma ação. Como veremos, esse tipo de ação, normalmente ocorre quando o político demorar para responder ao questionamento que lhe é feito ou procura “ganhar tempo”, ao pensar na possível resposta. Essa ação, frequentemente, é reprovada pelo CQ. 75 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Levemos em conta o quadro 28 a seguir: Quadro 28 – O que é “jihad’? (dia 05/03/09) – 2º caso C1 C2 C3 DG: o que significa “jihad”? AC: (suspiro) não... [som: grilos, cricrilando] AC: veja... Jihad... ela:: [som: grilos, cricrilando] C4 C5 C6 AC: do ponto de vista:: conceitual, ela tem muito vínculo religioso AC: do ponto de vi:sta::: é::: da política, do ponto de vista do enfrentamento, do ponto de vista:: C7 C8 C9 AC: do ponto de vista de tudo aquilo... DG: (risos) DG: será que foi o cara do Jihad que passou ali? C10 76 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes AC: não... pode ter sido, né? Pode ter sido. O deputado federal Arlindo Chinaglia também é questionado e faz o que é comumente considerado como “ganhar tempo”, uma vez que, de fato, ele não responde à pergunta e se utiliza de meios para “tentar” respondê-la, como indicar uma série de pontos de vista (“do ponto de vista conceitual”, “do ponto de vista da política”, “do ponto de vista do enfrentamento”, “do ponto de vista de tudo aquilo”), sem concatenação e permeados por hesitações e prolongamentos. São indícios de que, realmente, o deputado estava ganhando tempo para pensar sobre a pergunta e na possível resposta. É o que podemos constatar (como apontam as cenas 2, 3, 4 e 5), a partir da consideração de que há uma inserção de um ícone (como uma ampulheta de areia) do programa Windows, um recurso semiótico culturalmente compartilhado, que surge na tela quando algum programa ou comando está sendo carregado e indica o tempo que isso está levando. Esse recurso semiótico torna essa parte da cena mais saliente, uma vez que os telespectadores são ‘convidados’ a atentarem para o girar da ampulheta, para o passar do tempo hábil para a resposta. Normalmente, ocorre quando a memória do computador é pequena, quando o processador é lento ou quando vários programas estão em execução. Em analogia com a enquete, poderíamos dizer que o deputado está tentando lembrar da resposta, que esse processo é lento e/ou que o político está pensando em outras coisas. A partir de C3, mais uma vez, observa-se a exibição da resposta esperada pelo CQ, que corresponde à posição inferior, à informação Real, que se opõe à ampulheta, que constitui a informação Ideal nessa composição. De certa forma, o deputado Chinaglia passa a mediar as duas informações, formando o que Kress e Van Leeuwen chamam de tríptico (no caso, vertical). Como a informação Ideal é a mais saliente, segundo os autores, a ampulheta ‘capta’ a atenção dos observadores e a conduz à informação Real, ou seja, ao significado do termo ‘jihad’. Em C2 e C3, há o som de um cricrilar, recurso semiótico convencionado em grande escala, usado quando se despende muito tempo para responder a alguma pergunta. Nesse caso, isso é recorrente. Em C6, há uma pequena janela, advinda do meio computadorizado, com a inscrição “ERRO”, aludindo a um erro do sistema Windows, após um período fracassado de carregamento – assim como ocorre com o deputado, que não é feliz em tentar “ganhar tempo para responder”. Atentemos para outro exemplo em que há generoso uso desse recurso: 77 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Quadro 29 – “Caso Geyse Arruda” (dia 30/11/09) C1 C2 C3 Rafael Cortez: Ficou sabendo de uma garota que foi hostilizada numa faculdade? UP: não, negativo. RC: mas é que isso foi capa de tudo que é imprensa, de tudo que é... UP: mas o fato de ser publicado na imprensa não significa que a pessoa não possa [som: disco de vinil quando é retrocedido pelos DJs nas pick ups] é... que a pessoa não possa (com ‘a’ prolongado) C4 C5 C6 (um som, de difícil descrição, é acionado sempre que a caixa de erro aparece) UP: que a pessoa não possa, é... (um som, de difícil descrição, é acionado sempre que a caixa de erro aparece) C7 C8 C9 UP: que a pessoa não possa (com ‘a’ prolongado) (um som, de difícil descrição, é acionado sempre que a caixa de erro aparece) RC: ...saber. (completando deputado) a frase do UP: saber 78 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes (confirmando que completa sua frase) o termo C10 Essa enquete tem como base o caso da estudante Geyse Arruda que, por estar usando um vestido curto e de cor chamativa – considerado por muitos como inadequado para um ambiente educacional –, foi veementemente hostilizada por alunos da faculdade onde estuda(va). Esse fato foi amplamente divulgado e serviu como pontapé inicial para discussões acerca de tolerância, respeito etc. Em C2, é comentado que o caso dessa garota tomou grandes proporções, sendo destaque na imprensa, o que se configura como um argumento de que, em função disso, é de conhecimento da maioria. Tentando justificar seu desconhecimento sobre a situação protagonizada pela aluna Geyse Arruda, o deputado federal Uldurico Pinto tenta dizer, ao longo de várias cenas, que é possível não saber de determinado assunto, mesmo que este tenha sido pauta para várias publicações. Tenta dizer, porque é preciso que RC o ajude, completando o enunciado “que a pessoa não possa”, repetido quatro vezes até que fosse integralizado. Em razão disso, primeiramente, surge um som típico de disco de vinil quando é retrocedido pelos DJs nas pick ups e, em seguida, há a repetição de um mesmo recurso semiótico: a caixa de erro de carregamento do Windows é sobreposta à testa do político, indicando, que, da mesma forma, não houve o tempo necessário para encontrar o termo adequado para completar seu enunciado. Da mesma forma como ocorreu no exemplo anterior, a caixa-de-erro do Windows indica que o político não foi bem-sucedido, dentro do tempo que lhe cabia. Como sua suposta falha – simplesmente a de não lembrar, naquele momento, um termo que não lhe ocorria – se repetiu várias vezes, foram inseridas as caixas-de-erro que atribuem uma forte saliência a esse momento da cena, juntamente com o som simultâneo à inserção das caixas. Quanto ao valor da informação, verificamos que esse recurso pictórico ocupa a posição Ideal, que ressalta o ‘erro’ do político. Em decorrência disso, por fim, o político ‘recebe um soco’, ação que produz o efeito de reprovação, uma vez que ele não está bem-informado e não consegue 79 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes justificar essa ‘falha’. Um soco que, ao atingir a face do político, a deixa deformada é mais um recurso semiótico convencionado em grande escala, do qual trataremos mais adiante. 3.3. EFEITO DE CONTRANGIMENTO Neste tópico, analisaremos como as três estruturas da Função Composicional atuam nos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de constrangimento. Esse tipo de ação, conforme poderemos comprovar, geralmente acontece quando o político demonstra que a pergunta foi inesperada e que, por alguma razão, o deixa constrangido. Como observaremos, frequentemente, esse constrangimento está associado ao possível desconhecimento da resposta à pergunta. Consideremos o quadro seguinte: Quadro 30 – “O significa PMDB?” (dia 23/03/09) C2 C3 DG: Olha só, o PMDB tá na boca do povo. Todo mundo tá falando desse partido, principalmente depois que o senador Jarbas Vasconcelos tá acusando seus colegas... ...peemedebistas de envolvimento com corrupção, [som: semelhante a uma tecla referente às notas agudas de piano], mas afinal o que significa PMDB? C4 C5 C6 Um político que não souber... DG: O que o senhor acha do senador Jarbas atacar o PMDB? TF: Olha, ele foi presidente do PMDB; acho interessante que ele teve o momento dele e a oportunidade de poder fazer tudo isso. C1 80 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C8 C7 DG: Pra quem tá em casa e não sabe o que é PMDB, explica. [Som: Algo dificilmente.] sendo C9. engolido DG: Não sabe o que é PMDB? TF: (?) Levemos em conta, inicialmente, a sequência de C2 a C4. Nas cenas 2 e 3, é apresentada a notícia que será base para as perguntas, informando que o senador Jarbas Vasconcelos acusou seus ex-colegas de partido de corrupção. Ao ser mencionada a palavra “corrupção”, em C3, há um recurso sonoro (“semelhante a uma tecla referente às notas agudas de piano”) que promove um breve momento de tensão, semelhante aos minutos que antecedem uma situação tensa em um filme de suspense ou de um dado trecho de programa que exiba “vídeos incríveis”, por exemplo. Tal recurso ocorre em pequena escala24, mas exerce importante papel nessa enquete em particular, uma vez que ativa, como uma espécie de badalo em nossa memória, uma série de casos envolvendo políticos por causa de acusações de corrupção. É, portanto, um recurso que cria uma saliência maior a esse momento. Falar sobre políticos corruptos é uma forma de atingir o calcanhar-de-Aquiles, antecede, portanto, um momento de tensão, aludido pelo som descrito. Em seguida, como estratégia para criar expectativa e adesão dos telespectadores na tarefa do CQ (como vimos nos quadros anteriores) DG, em C4, lança uma provocação ao sugerir que “o político que não souber” o que significa PMDB, sobretudo em função das proporções que as denúncias do senador Jarbas alcançaram, não é digno de crédito, não pode ser levado a sério, não procura se informar, dentre uma série de possíveis complementos para essa ‘lacuna’. Como se vê, é mais uma estratégia para guiar os caminhos da leitura do telespectador em direção à legitimação do discurso de que político não é informado. Em C6, DG pergunta a opinião do deputado Tadeu Filippelli acerca das denúncias que Jarbas Vasconcelos estava fazendo sobre o PMDB, partido do qual fazia parte. No entanto, ao ser questionado sobre a significação da sigla desse partido, o político é ‘pego de surpresa’, o 24 Elencaremos, mais adiante, uma relação de alguns recursos semióticos convencionados em pequena escala que são associados a políticos específicos, como vimos no capítulo anterior, ou são utilizados em função de um termo ou de algo específico de uma enquete em particular. 81 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes que é representado por uma deformação em sua cabeça, que se dá de cima para baixo, juntamente com o som de algo sendo engolido dificilmente. Essa deformação promove um forte grau de saliência nesse momento da cena, o que conduz atenção do telespectador para esse fato, que é reforçado em C9 quando o repórter pergunta se o deputado não sabe a resposta. Como se pode verificar, também se torna corrente a indicação da resposta, na base da cena, ocupando a posição Real, segundo a estrutura ideal-real, conferindo um valor informativo concreto, real ao que é apresentado. De maneira semelhante, ocorre com o político (não há legenda com seu nome) na enquete abaixo: Quadro 31 – Qual o valor do salário mínimo? (dia 18/05/09) C2 C3 Espero que dobre o salário mínimo. [som: vozes rindo] DG: mas quanto é hoje o salário mínimo? C3 C4 C5 Som: algo sendo engolido a seco, com dificuldade] Salário mínimo? DG: é. [som alfinete atingindo alguma superfície] Quatrocentos e C1 (trecho falado pausadamente, sílaba por sílaba) Cinquenta? [som de uma música cessando] 82 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C6 C7 DG: não sabe, né? [Som: espécie de apito] [som: voz dizendo ‘aiaa’] DG: Nhem-nhem-nhem Questionado sobre o aumento do salário mínimo, o político afirma que espera que o valor duplique (C2), o que é associado a risos, pelo descrédito nessa possibilidade. Em seguida, diante da mesma pergunta do quadro 2725 que diz respeito ao valor do salário mínimo brasileiro, a cabeça do político é deformada da mesma maneira que ocorre com o político do quadro anterior, indicando que não tem esse conhecimento e, consequentemente, passa por um embaraço. Isso se confirma nas cenas seguintes, em que o político tenta chegar a um valor, por aproximação, mas acaba errando (C5). Em função disso, outro recurso é utilizado: um braço com uma marreta colorida atinge sua cabeça, deformando-a, indicando que, com essa pergunta, ele foi atingido. Essa ação atribui um alto grau de saliência na cena, além de figurar como uma informação Nova, já que aparece do lado direito da cena em direção à posição Dada. Isso ocorre porque já é compartilhado pelas convenções do CQ que os políticos são desinformados, portanto o deputado simboliza, constitui a informação Dada. O que é Novo é o efeito de reprovar, acionado pelo recurso semiótico. Figura como informação mais relevante o fato de haver um instrumento de ‘controle’, de ‘apuração’ da qualidade dos políticos, o que sobreleva o papel do CQ. Atingir a cabeça do político com algum objeto é um dos recursos convencionados com o valor semântico de reprovação, que veremos no próximo tópico. 25 Elas fazem parte da mesma enquete. Foram separadas, como ocorre com outras, pelo critério estabelecido quanto ao efeitos produzidos pelas ações representadas pelos recursos convencionados. 83 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes 3.4. EFEITO DE REPROVAÇÃO Neste tópico, iremos nos deter à análise dos recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de reprovação, tendo em vista as estruturas valor informativo, saliência e estruturação. Amplamente utilizadas nas enquetes, essas ações representadas pelos recursos funcionam como instrumento para julgar negativamente as atitudes dos políticos. Observaremos que, em todas as ações deste tipo, o político acaba por ser atingido por algum objeto, de diversos materiais. São variáveis, no entanto, os objetos com os quais isso ocorre. Essa diversidade de materiais revela que há gradações quanto à reprovação, o que é associado também ao som que é relacionado à ao recurso pictórico. Tomemos como primeiro exemplo o quadro 32: Quadro 32 – “O que significa PMDB?” (dia 23/03/09) – 2º caso C1 C2 C3 DG: Boa tarde, seu deputado, tudo bom? MO: Outra vez o QCC, outra vez? DG: QCC tá aí... [som: espécie de badalo] [som: música cessando] C4 C5 DG: O senhor sabe... o senhor sabe o que é CQC? MO: Bom, não tenho muito, muita vontade de saber o que é CQC, não... [som: “urrr!”, várias vozes] proferido por C6 84 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C7 C8 C9 [som: desafinando e cessando] DG: E o que é PMDB? MO: Não sou do partido. C10 C11 C12 DG: O senhor não sabe o que quer dizer PMDB? MO: Humm, é outro partido, não é o meu partido. DG: Cada um com seu partido? [som: uma espécie ferrolho metálico sendo puxado de forma rápida] C13 C14 MO: (risos) [som: martelada em superfície metálica (ou com martelo metálico) de forma forte] DG: Cada um com seu partido, cada um com seu partido (em referência ao trecho “cada um no seu quadrado” de uma música popular) Primeiramente, levemos em conta as cenas iniciais, de C1 a C7. Quando abordado por DG, o deputado federal Mário de Oliveira diz “Outra vez o QCC, outra vez?” (C2). Ao dizer isso, há a imagem da sigla saindo de sua boca, com letras garrafais e cor branca, o que torna saliente este momento em relação ao restante da cena, cujo ambiente está escuro, por contraste. A sigla faz um percurso da posição Ideal até a Real, já que sai da boca do deputado (confirmando que foi dito por ele) e direciona-se para baixo, fixando-se por breves momentos 85 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes na posição Central, no que diz respeito à estrutura centromargem, focalizando a atenção para essa informação. Assim, enfatiza-se o equívoco do deputado quanto à sigla do programa, que é resultante de “Custe o Que Custar”, portanto, CQC. Por isso, o repórter questiona se o deputado sabe o que significa CQC, já que, se tivesse esse conhecimento, saberia que o papel do programa, pelo menos pelo discurso de quem dele faz parte, é atingir seu objetivo – no caso específico do CQ, saber se os políticos são bem-informados – ‘a qualquer preço’, ‘custe o que custar’. Outra vez, há um som aludindo a vozes dizendo “urrr!”, que é uma espécie de ‘espanto’ dos que estão “assistindo à enquete”, em analogia aos que assistem a uma luta ou algum jogo e têm essa reação em função de um golpe ou de uma boa jogada, que desestabilize o adversário. No entanto, o deputado responde a essa pergunta que, ‘deveria desestabilizá-lo’, dizendo que não tem interesse em saber qual é o significado da sigla, revelando que essa não é, então, uma informação relevante. Há um quê de menosprezo no enunciado do político. Para usar uma expressão do jogo de tênis, houve um “break point”, em que uma sacada (analogicamente, a pergunta de DG) favorece o outro jogador, que pode dar uma sacada melhor. Por isso, em C6 e C7, quem recebe uma ‘marretada’ é DG, não o político. O recurso semiótico que representa essa ação transita da informação Nova para a informação Dada, já que não é corrente a reprovação de um integrante do CQ, mas é uma informação partilhada a ideia de reprovação (quando a marreta atinge a cabeça). Mas essa situação é momentânea, tendo em vista as cenas seguintes. Em C10, DG pergunta se o político sabe o que significa PMDB, obtendo como resposta que “é outro partido, não é o meu partido” (C11), ou seja, “se não é meu partido, não tenho obrigação de saber”, não é uma informação relevante. Essa leitura consolida-se quando o integrante do programa pergunta “Cada um com seu partido?” (C12), como uma maneira de confirmar a suposição de que o político não sabe a resposta e não se preocupa com isso, já que não é um partido ao qual se 86 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes filia. É o match point 26 da partida travada pelos dois. Diante dos risos do político (C13), há um braço segurando a marreta colorida que atinge sua cabeça, mas o som é mais forte e representa uma batida em alguma superfície metálica, configurando um grau de reprovação mais elevado. Diferentemente do que ocorreu até aqui, a ação de reprovação surge como uma informação Dada, levando em conta que o braço surge do lado esquerdo da cena (C13), mas passa a ocupar a posição Dada, o que permite a leitura de que já é uma informação compartilhada, antiga, de que o político não é bem-informado, de que merece ser reprovado. Isso é enfatizado pelo alto grau de saliência que se verifica quando o objeto acerta a cabeça do político, que passa a ficar deformada e apresenta uma coloração atípica. Por fim, DG faz uma paródia a partir da letra da música da “Dança do Quadrado”, cujo vídeo exibe três pessoas fazendo diversas variações de coreografia, desde que seja respeitado o limite do quadrado do qual cada um deles faz parte, como ilustra a figura a seguir: Figura 1: “Dança do Quadrado” Um dos trechos da letra original é “Cada um no seu quadrado, cada um no seu quadrado” que está em relação intertextual com “Cada um com seu partido, cada um com seu partido” (C14), permitindo a leitura segundo a qual o político ‘limita-se’ a atuar, ‘limita-se’ a saber sobre seu partido e que, portanto, não ‘se interessa’ em conhecer o significado da sigla PMDB. Esta enquete, em especial, aborda a questão da relevância da informação que é exigida do político, o que é pertinente para a discussão acerca da construção de uma identidade política. Muitas siglas passam a figurar como uma unidade lexical, cuja significação extrapola o significado de cada letra que a compõe, perdendo-se, assim, o status de sigla. É o que 26 No jogo de tênis, é o ponto que permite encerrar a partida. 87 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes ocorre, por exemplo, com RADAR (Radio Detecting and Ranging) e LASER (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation). Não há impedimento para que uma pessoa escreva um PS, sabendo que há essa alternativa para dizer o que não foi dito no corpo de um e-mail, por exemplo, mesmo que ela não saiba que PS significa Postscriptum. Um indício disso é a formação, por acréscimo de sufixos formadores de adjetivos, de termos como peemedebistas e petistas, levando em conta que essas siglas passaram a desempenhar o papel de palavras, em muitas ocasiões. Portanto, não saber o significado dessa sigla ou outra dessa natureza não é pré-requisito para que o político desempenhe um bom papel. No entanto, as enquetes do CQ utilizam-se de estratégias para validar essa associação. Vejamos mais um quadro de enquetes: Quadro 33 – “Crise da pecuária” (dia 06/04/09) C1 C2 C3 DG: Como vai? Tudo bom, seu deputado? O que tá rolando aqui? C4 C5 C6 LCH: a questão da crise da pecuária de corte dos frigoríficos. Dg: Agora, pra quem tá em casa, e não sabe, quantos ministérios o governo tem ligados à agricultura? [som: parecido com o ruído de uma porta pesada e antiga, em movimentação] LCH: tem dois ministérios. 88 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C7 C8 C9 DG: Pra quem tá em casa e não sabe o nome dos ministros ligados à agricultura? Reinhold Stephanes e o Guilherme de Cassel. DG: o senhor acha que um deputado, pra executar bem seu trabalho, ele precisa ter um bom conhecimento do que acontece no executivo? [tilintar metálico] [som: semelhante a uma porta rangendo rapidamente] C10 C11 JL: Com certeza absoluta, né? Tem que tá a par da situação que tá acontecendo no governo porque nós deputados e viemos pr’aqui pra fiscalizar o executivo e legislar, fazer lei, né? DG: o nome do ministro da agricultura conhecemos? C13 C14 C15 JL: Eu agora, me, me falta a memória, aqui, no momento. DG: o senhor conhece? DG: que é o? [som: Algo sendo brusca e dificilmente] engolido C12 JL: conhecemos. [som: galho sendo contorcido ou crescendo] JL: conheço, de perto. 89 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C16 C17 DG: e o do Desenvolvimento Agrário? DG: Amigo deles? JL: conheço todos eles, porque participo sempre das reuniões do governo DG: mas não lembra o nome? [som: semelhante a uma mola que se rompe] JL: isso, são amigos. JL: não lembro o nome... DG: Mas é amigo chegado? [som: grasnar de pato ou marreco] Nas primeiras cenas, DG pergunta ao deputado federal Luiz Carlos Heinze se há algo ocorrendo no Congresso e, este responde àquele que há uma discussão sobre a crise da pecuária de corte dos frigoríficos. Em seguida, o deputado diz, em função de duas novas perguntas de DG, que há dois ministérios ligados à agricultura e que os ministros ligados a esses ministérios são Reinhold Stephanes e Guilherme de Cassel. Por conceder respostas objetivas e corretas, há um tilintar metálico que confere um valor semântico de aprovação, amplamente convencionado nas enquetes. De certa forma, apresentá-lo, logo de início, indica um exemplo de um político bem-informado, que tem conhecimento sobre o que ocorre no Congresso, pelo menos. No entanto, esse ‘tipo de político’ não é o que se observa nas cenas seguintes. Antes de analisarmos as próximas enquetes, vamos retomar as primeiras enquetes do quadro 24. Nele, DG pergunta se é preciso que um político seja bem-informado para que execute bem seu papel e, o deputado Paulo Piau, por sua vez, responde que é “claro”: 90 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Como vimos, essa pergunta não só relembra o propósito das enquetes, como também permite que o próprio político se posicione acerca da importância de estar bem-informado. Retornando ao quadro “Crise da pecuária”, especificamente em C9 e C10, verificamos que, da mesma forma como ocorreu com o Paulo Piau nas primeiras enquetes, o deputado federal Jurandyr Loureiro, diante de pergunta semelhante (“o senhor acha que um deputado, pra executar bem seu trabalho, ele precisa ter um bom conhecimento do que acontece no executivo?”, em C9), prontamente responde afirmativamente à questão, com serenidade e sobriedade: “Com certeza absoluta, né? (...)” (C10). Diante da resposta, DG questiona se o político conhece – ou seja, se sabe – o nome do ministro da agricultura; o deputado, por seu turno, responde que conhece. Entretanto, o recurso semiótico, do modo imagético, contradiz essa resposta, uma vez que há um aumento do comprimento do nariz do deputado. Essa ação ganha saliência nesse momento, sobretudo porque ela ocupa a posição Central, quanto ao valor informativo, uma vez que se encontra no centro do rosto do político e ‘aponta’ para o centro da cena, o que indica que sua resposta é uma mentira e devemos atentar para essa Figura 2: Personagem Pinóquio informação. O recurso pictórico utilizado em C12 dialoga com o personagem de histórias infantis Pinóquio, cujo nariz crescia em função das mentiras que contava, como mostra a figura 2. Essa associação é reforçada pelo recurso semiótico, do modo sonoro, que alude a um galho de árvore crescendo, como descrito em C12. Esse som se justifica pelo fato de o personagem Pinóquio ser um boneco de madeira, feito a partir de um tronco de pinheiro. O próprio nome do personagem, Pinocchio (em italiano, língua original da história) significa pinhão, que é uma semente de um tipo de pinheiro. É importante lembrar que esse recurso de um nariz-que-cresce 91 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes também faz parte das convenções retóricas construídas ao longo das enquetes e produz o efeito, como foi possível verificar, de reprovação. Após ser ‘reprovado’, o deputado passa por um constrangimento (C13), efeito produzido a partir do recurso que consiste na deformação do rosto do político associado ao som de algo sendo engolido dificilmente, que confere um alto grau de saliência a esse momento, assim como analisamos no tópico anterior. Isso se deve ao fato de, frente à pergunta de DG (“que é o?”), o deputado afirmar não lembrar o nome do ministro (da Agricultura), naquele momento. Mas também não lembra o nome do ministro do Desenvolvimento Agrário, mesmo afirmando que ambos são seus ‘amigos’. Por ser incoerente o fato de não lembrar/saber os nomes daqueles que são considerados como amigos, DG questiona: “mas não lembra o nome?” (C17). Pergunta que é seguida por um recurso sonoro semelhante a uma mola que se rompe, como uma espécie de ladainha que cessa, de ‘conversa fiada’ que se encerra. Se, anteriormente, o deputado Jurandyr Loureiro tinha passado por momentos de embaraço – ao dizer que conhecia os nomes dos ministros da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, mas que não lembrava nenhum dos dois, mesmo sendo de seus “amigos” –, a partir da cena 17, o deputado nem mesmo se dá conta da situação que protagoniza. Atentamos, então, para o quadro 32 a seguir, que dá continuação ao anterior: Quadro 34 – “Crise da pecuária” (dia 06/04/09) – continuação C18 C20 C19 . DG: o que o senhor acha do Ministério da Apicultura? [som: corda de instrumento musical rompendo-se JL: o trabalho que eles estão fazendo ...o trabalho que eles estão fazendo são trabalhos importante. 92 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C21 DG: mas o senhor acha que o ministro da apicultura é um bom ministro? JL: Lógico, lógico, [som1: música cessando bruscamente; som 2: vozes gritando ‘Não!”, com o ‘a’ prolongado.] pela competência que ele tem, porque geralmente, é, é, se ele foi escolhido pra ocupar essa (?) é porque tem competência. C24 C23 C22 DG: Obrigado. Oh, eu fico mais tranquilo que o senhor tá fiscalizando aí. (o deputado sai do enquadre da cena, julgando já ter terminado a enquete, mas volta quando DG diz “oh”) C26 C25 [som: de uma espécie de apito] JL: Tá bom, querido. Muito obrigado. JL C27 DG: a gente tá em boas mãos. Em C18, o deputado é questionado acerca do Ministério da Apicultura (pela familiaridade sonora com “Agricultura” e “Aquicultura”) que, segundo informa a legenda – esta sempre ocupa a posição Real nas cenas e apresenta uma estruturação bem marcada de separação – ainda não foi criado. Como “apicultura” é a criação de abelhas, o recurso semiótico utilizado para indicar que o deputado foi atingido é uma abelha que pica a testa do deputado, deixando-a ferida, como pode ser visto em C19 e C20. O recurso da picada-daabelha constitui a informação Ideal, ideologicamente mais saliente, já que metaforiza o fato 93 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes de o deputado ter sido ‘ferido’ por uma abelha (justificado pelo suposto ministério da “apicultura” do qual falava o deputado). Ao discorrer sobre esse ministério e os trabalhos desenvolvidos pelo ministro responsável, o deputado Jurandyr demonstra não ter credibilidade para discutir questões relacionadas aos ministérios – as partes acabam por criar a ideia do todo – e, por conseguinte, sobre questões relevantes para a população. Conforme seu próprio discurso inicial, não está preparado para desempenhar um bom papel, já que não é bem-informado, de certa forma internalizado, assumido como verdade, tendo em vista a formulação da pergunta que, como comentamos anteriormente, apenas oferece duas possíveis respostas (sim ou não), o que induz o político a responder afirmativamente, já que se considera um pressuposto para o exercício de seu cargo. São várias as ações representadas pelos recursos semióticos que produzem o efeito de reprovação que, juntos, criam um alto grau de saliência nos momentos em que atuam e reforçam, por isso, a construção da identidade do político desinformado/não-preparado para ser político: além do nariz-de-palhaço em conjunto com o som de um galho crescendo, há a picada de uma abelha (convenção em pequena escala, já que se associa a esta situação em particular), som de vozes gritando “Não!”, com o ‘a’ prolongado (C22) e a ‘marretada’ na cabeça do político que fica deformada. Por fim, depois de tantas reprovações, o deputado agradece ao integrante do programa por este ter dito que fica mais “tranquilo” por saber que há pessoas como esse político “fiscalizando”, sem nem mesmo perceber que essa afirmação se trata de uma ironia, já que – pela leitura orientada pelas estratégias desenvolvidas pelas enquetes –, com políticos como o deputado Jurandyr Loureiro que desconhecem questões relacionadas ao próprio ambiente de trabalho, ficamos ainda mais preocupados com a situação do país. No que diz respeito ao recurso semiótico de uma marreta que atinge a cabeça dos participantes da enquete, observa-se que há variações quanto aos objetos com os quais os rostos dos políticos (ou do repórter, mas poucos são os casos) são atingidos, dependendo da temática das enquetes. Também há variação no que diz respeito aos graus de reprovação, dependendo do absurdo da resposta. Levemos em conta os dois quadros a seguir que ilustram a variação quanto ao objeto que atinge o político: 94 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Quadro 35 – “Quantos ministros o governo tem?” (dia 06/04/09) C1 C2 C3 DG: Quantos ministros o governo tem? FN: dezenove. DG: Você não faz a mínima idéia, né? [som: corda de instrumento musical partindo-se] C4 C5 C6 FN: Chute DG: quando não quiser ser mais deputado, pode ser jogador de futebol. FN: ? DG: O futebol que o senhor quiser. C8 FN: risos DG: trinta e sete [som: freio] C7 FN: na trave. C9 [som: de um chute na bola] DG: na trave não. Passou, urr, longe, hein? Questionado sobre a quantidade de ministros no congresso nacional, o deputado federal Fernando Nascimento afirmou, com uma suposta segurança, que havia dezenove (C2). No entanto, a resposta a essa pergunta é trinta e sete, o que aponta para o fato de o deputado nem mesmo fazer ideia da quantidade real de ministros que o congresso possui. Mesmo assim, o deputado disse que sua resposta tratava-se de um “chute”, que tinha passado “na trave”, ou seja, por pouco ele não tinha feito gol, não tinha acertado a resposta à pergunta. Em 95 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes decorrência disso, DG afirmou que o político, “muito pelo contrário”, passou bem longe da resposta. Assim, o objeto que atinge o deputado é uma bola de futebol, já que, em razão do seu “chute”, foi possível verificar que não sabia a resposta e que não foi sincero diante desse fato – já que disse que não sabia a resposta – e, portanto, foi reprovado no controle de qualidade. Tal recurso transita do Novo para o Dado, o que reforça a leitura de que é uma informação Nova uma bola ser utilizada como recurso para efeitos de reprovação, mas é uma informação Dada algum objeto atingir os políticos que não respondem corretamente – ou, pelos “critérios avaliativos” do CQ, merecem ser reprovados. Além disso, ao atingir a cabeça do deputado, tem-se uma saliência maior do que no momento anterior, enfatizando a ação de reprovar, enfatizando o político reprovado. A bola que acerta esse político, com efeito de reprovação, não faz parte, entretanto, dos recursos semióticos que se tornaram convenções recorrentes, assim como a picada-deabelha da enquete anterior, mas é uma convenção de grande escala, que indica reprovação, a ação representada pelo recurso semiótico que consiste em algo que atinge a cabeça do político, deformando-a ou provocando alguma ferida. Ressaltamos ainda que há alguns objetos utilizados que são bastante frequentes – como a marreta colorida – o que faz esse recurso ser duplamente convencionado. Consideremos o quadro seguinte, ainda em atenção aos tipos de objetos que atingem os políticos: Quadro 36 – “O que é protecionismo?” (dia 09/03/09) C1 C2 C3 DG: O Brasil tá fazendo tudo que pode pra driblar as barreiras... ...que o governo argentino está colocando em seu mercado pra proteger a economia deles... 96 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C4. C5. C6. ...dos nossos produtos. ...Isso se chama protecionismo, mas... C7. C8. C9. ... quem aqui sabe o que é que é isso? DG: O que o senhor acha dos empresários argentinos que estão pressionando a presidente da Argentina... a continuar protecionismo? com o [som: algo sendo engolido brusca e dificilmente.] C10 C11 C12 EMB: eu acho que o Brasil é maravilhoso EMB: CQC, um abraço! EMB: vocês são maravilhosos. [som: som de uma corda de um instrumento sendo partida] 97 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C13 C14 C15 DG: agora, agora, não, não! Responder à pergunta! DG: o que o senhor acha... ...do protecionismo argentino? C16 C17 C18 EMB: eu acho que vocês são maravilhosos. DG: que que é protecionismo? EMB: é (fonema prolongado), uma coisa assim, tipo, mortalidade infantil [som: vozes de dizendo: ‘hein?’] crianças, C19 C20 C21 ...que, no Brasil, a gente tá vencendo. Lá na vitória da conquista, a gente venceu. DG: é isso aí? EMB: e no resto do Brasil. C22 C23 C24 DG: qual o dicionário que o senhor anda lendo? EMB: olha, eu fui (pausa longa), acidentado por um Aurélio. [som 1: uma voz exclamando “uiaa”; som 2: grilos, cricrilando] 98 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C26 C25 [som 1: vozes masculinas gritando “uuh”; som 2: um soco] Levando em consideração a sequência de C2 a C7, é possível ter conhecimento sobre uma notícia da semana em que a enquete foi exibida (o fato de o Brasil estar impondo barreiras ao protecionismo argentino, oferecendo crédito) e o significado da palavra protecionismo, permitindo que as pessoas que não soubessem anteriormente dessa informação, possam adquiri-la, integrar o grupo dos que são informados, ao lado do CQ e possam “julgar” os políticos. Em C8, então, DG pergunta ao deputado federal Edigar Mão Branca o que ele acha dessa notícia, questionamento que o deixa em situação de constrangimento, como reflete o uso do recurso semiótico convencionado para tal (C9). Lembramos que tal recurso provoca uma saliência maior a esse trecho da cena, focalizando nossa atenção para esse fato. No entanto, a resposta é, aparentemente, incoerente: “eu acho que o Brasil é maravilhoso” (C10), talvez se justificasse pelo fato de o Brasil, para o deputado, ser maravilhoso por evitar o protecionismo. Nas cenas seguintes, revela-se que, na verdade, o deputado está “fugindo” dessa pergunta, o que é, de fato, teatralizado por ele sair correndo, dizendo que o CQC é maravilhoso – assim como o Brasil, pois. É o que pode ser visto de C11 a C14. Em função disso, pela movimentação da câmera e dos participantes, as estruturas dado-novo alteram-se rapidamente, o que confirma o caráter dinâmico dessa estrutura, tendo em vista as imagens em movimento. Quando DG alcança o deputado, já que havia corrido atrás deste último, insiste na pergunta sobre o protecionismo argentino e, mais uma vez, o deputado diz que os integrantes do CQC são maravilhosos (C16). Como o lema do CQ, assim como os outros quadros do programa, é perseverar em seu objetivo, a qualquer custo, DG pergunta o que é protecionismo. 99 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Se não bastasse ter “corrido” da pergunta inicialmente, o político resolve respondê-la, mas de maneira estapafúrdia, afirmando que é “uma coisa assim, tipo, mortalidade infantil” (C18). Em consequência, vozes de crianças – já que o assunto mortalidade infantil foi mencionado – questionam com tom de descrédito essa resposta. Nas cenas que sucedem essa resposta, o político continua falando sobre o tema da mortalidade infantil que, supostamente, teria diminuído no Brasil e em Vitória da Conquista, cidade localizada na Bahia, estado do qual é representante na câmara. Para confirmar se essa era, de fato, a resposta à pergunta feita, DG insiste: “é isso aí?” (C20). Depois, sarcasticamente, pergunta: “qual o dicionário que o senhor anda lendo?”, isto é, assumindo que o político estivesse mesmo lendo algum dicionário, com um conceito absurdo desses, certamente, seria um dicionário sem a menor credibilidade. Finalmente, a essa pergunta, o deputado apresenta como resposta o fato de ter sido “acidentado por um Aurélio”, o que não permite nenhum vislumbre de coerência quanto à pergunta. Assim, o deputado é reprovado pelo controle de qualidade, sendo atingido por um livro de capas vermelhas, com a letra A inscrita em caixaalta na capa, aludindo a um dicionário “Aurélio”. Enfim, o político foi “acidentado” por não responder (corretamente) aos questionamentos. Mais uma vez, quanto ao valor informativo, verificamos a transição do objeto que representa o Aurélio da posição Nova para a posição Dada, à semelhança da bola de futebol na sequência anterior, permitindo a leitura de que é uma informação Nova utilizar um dicionário para atingir o deputado, o que só é justificado pelo contexto, mas é uma informação antiga, Dada que os políticos merecem ser reprovados, o que é simbolizado pela deformação do rosto do deputado que cria uma saliência maior a esse momento. Vale lembrar que o “Aurélio” também faz um percurso oblíquo de uma posição marginalizada na cena (já que está no canto superior-esquerdo, também ocupando a posição Ideal) para a posição Central, que focaliza a atenção do telespectador ao efeito de reprovação. Como uma convenção das enquetes do CQ, a resposta à pergunta é exibida na parte inferior da cena – constituindo a informação Real, concreta, que sempre aparece em uma faixa preta que revela uma forte separação, no que tange à estruturação. Nos quadros seguintes, veremos como o uso do recurso semiótico de algo que atinge a cabeça/a face do político pode variar quanto à intensidade. 100 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Quadro 37 – “Desmatamento, em 21 anos, atingiu seu menor índice” (dia 30/11/09 C2 C3 Rafael Cortez: governo comemorou a beça uma notícia que saiu em tudo que é jornal. C4 C5 C6 O desmatamento na Amazônia atingiu um recorde: foi o menor dos últimos 21 anos. Essa todo mundo tem que saber, né? Afinal, do verdinho a gente entende. Vamos ver se eles sabem. C7 C8 C9 SA: Houve um desmatamento no Brasil como nunca tinha havido, tinha havido antes. RC: ou seja, um recorde de super-desmatamento? SA: de mais desmatamento. C10 C11 C1 [som: vozes gritando ‘Não!”, com o ‘a’ prolongado] (há ênfase no termo “mais”) C12 [som: Frigideira atingindo uma superfície rígida] 101 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes É informado, nas cenas iniciais, que o desmatamento na Amazônia obteve o menor índice em 21 anos, o que é um motivo de comemoração. Notemos que, em C3, surge a imagem do famoso cantor de reggae, já falecido, Bob Marley, cuja imagem está associada ao uso da maconha, aqui aludida pelas folhagens onde Rafael Cortez (RC) se encontra. Assim a notícia de baixo índice de desmatamento deixaria esse cantor ‘feliz’, como demonstra seu semblante. Com efeito lúdico – que não é nosso foco aqui – tal recurso constitui a informação Dada, uma vez que é de conhecimento partilhado essas informações sobre o cantor. Em C7, no entanto, a deputada Solange Amaral afirma, com ares de confiança e certeza, que há um recorde de mais desmatamento, justamente o contrário do que a informação real dizia. Por essa razão, a face da deputada foi atingida, violentamente, por uma frigideira de ferro que passa a ter o molde de seu rosto, o que indica que a ‘cara-de-pau’ da deputada é tão forte que deforma uma estrutura rígida de ferro. Esse recurso pictórico, representando uma ação com efeito de reprovação, transita da informação Nova para a informação Dada, uma vez que surge do lado direito, excepcionalmente com uma frigideira de aço – que não se justifica pelo contexto, apenas por ser de um material resistente –, mas atinge a deputada por esta ter se equivocado quanto à resposta, o que já é uma informação Dada, ao longo das enquetes. O alto grau de deformação é reforçado com o som de várias vozes gritando “Não!”, como indicado em C10, com o teor semântico semelhante a expressões do tipo “Ah, por favor!”, “Que cara-de-pau!”. Esse recurso sonoro também é convencionado em grande escala e produz um efeito de reprovação, como vimos no quadro sobre a Crise da Pecuária. Vale salientar que, mesmo em uma enquete tão breve, houve duas convenções, tanto no que se refere ao recurso sonoro quanto ao pictórico, que enfatizam o grau de reprovação, o que já era comunicado pelo recurso pictórico. Ainda em análise dos recursos que constituem ações com efeito de reprovação, tendo em vista a intensidade com que atingem os políticos, vejamos a sequência abaixo: 102 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Quadro 38 – “Que países formam o BRICs?” (dia 29/06/09) C1 C2 DG: recentemente, o presidente Lula se reuniu na Rússia com os líderes dos principais países emergentes, os BRICs C3 DG: Os BRICs querem ser C4 C5 C6 alternativa ao G-7, os países mais ricos do mundo. Mas... ...que países formam os BRICs? Vamos lá. B, Brasil (ao dizer a letra inicial, há um tilintar metálico.) C7 C8 C9 R, Rússia I, Índia C, China É uma coisa boa de se saber, né? (A medida que as demais letras vão aparecendo, há o som de uma máquina digitadora) 103 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C10 C11 C12 DG: Lula teve recentemente reunido com os países dos BRICs, na Rússia O jornal tá dizendo que, que essa reunião foi de pouca expressividade, não resolveram muita coisa. O que o senhor acha? MM: e esse países do BRICs, você conhece eles? Onde é que fica isso? C13 C14 C15 DG: onde é que fica? MM: sim, os países do BRICs onde é que fica? DG: seria a próxima pergunta. C16 C17 C18 MM: É, eu queria saber. DG: qual são os países do BRICs? DG: CQC, onde é? MM: Ah, eu sei onde é. Na Bandeirantes, grande audiência MM: eu não quero saber. [som: vozes dizendo “aiaa”] [som: voz comemorando “uhuu!”] DG: cê não quer saber? MM: eu sei onde fica o CQC. [som da abertura do programa] 104 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C19 DG: ah, obrigado pela propaganda aí, mas não é por isso que vou livrar do senhor. [som: música bruscamente] C20 C21 DG: quais são os países do BRICs? Não sei. [som: corda de instrumento musical] C23 C24 cessando C22 DG: vou te falar qual que é. Brasil, Rússia, Índia e... ... e, falta o ‘C’. Chuta um país com a letra ‘C’. Colômbia, então. É isso? C25 [som de algum objeto metálico encontrando uma superfície] DG: não, errou! Essa enquete gira em torno da notícia de que os países que formam os BRICs querem ser uma alternativa ao G7, o que é informado ao mesmo tempo em que uma manchete do jornal “Estado de São Paulo” é exibida na cena. Depois, por meio de um acróstico, os nomes dos países que compõem a sigla/fazem parte dos BRICs são exibidos. Como se observa em C7, as letras que formam a sigla são apresentadas conjuntamente com um breve tilintar 105 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes metálico, enquanto as demais letras que completam o nome do país são acompanhadas de um som das teclas de uma máquina de escrever, como se estivessem sendo datilografadas. Esses recursos pictórico e sonoro são apresentados do lado esquerda da cena, constituindo, assim, a informação Dada, uma vez que a significação da sigla BRICs já é conhecida, além de reforçar a ideia que, sendo assim, os políticos já deveriam ter conhecimento sobre ela. No entanto, se tomarmos como referência a relação entre as letras iniciais que compõem a sigla e as demais que completam o nome do país, percebemos que a informação Dada diz respeito à sigla, não à sua significação. Esta, por sua vez, é a informação Nova, outra leitura possível se considerarmos que o significado é fornecido como uma forma de travar uma parceria velada com o telespectador que, se porventura não soubesse dessa informação antes, teria condições, agora, de julgar os políticos. Essa é uma estratégia recorrente das enquetes do CQ, por convidarem o leitor a fazer parte dessa investigação acerca do grau de informação do político. Caso os políticos fossem questionados a respeito de uma informação, que as pessoas também não soubessem (sem levar em conta, a relevância da informação, nessa suposição), provavelmente, o discurso do CQ seria enfraquecido. Ao comentar a notícia e perguntar a opinião sobre ela ao deputado federal Marcos Medrado, este pergunta a DG quais são os países que constituem os BRICs, dizendo que gostaria de saber a resposta (C16). No entanto, logo depois, o deputado afirma não querer saber quais são esses países, mas afirma saber “onde fica o CQC”. Quando DG pergunta onde fica, este responde corretamente, que CQC encontra-se na emissora Bandeirantes e que tem grande audiência. Essa postura também se justifica pelo tom humorístico do quadro, que permite que os deputados assumam uma postura mais despojada – quando não dicotomicamente irritadiça, justamente pela falta de seriedade com que as enquetes são realizadas. Ao dizer que sabe “onde fica o CQC”, o deputado 106 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes levemente se afasta de DG, o que poderia indicar que os elogios ao programa são uma maneira de contornar uma pergunta cuja resposta não sabia fornecer. Essa possibilidade é, então, descartada quando DG alerta que não vai, em outras palavras, liberá-lo do questionamento, o que justifica o recurso sonoro utilizado que permite a leitura de que uma ladinha, uma cantilena teve fim. Assim, é repetido o questionamento a respeito dos nomes dos países referidos na sigla BRICs e o deputado informa que não sabe a resposta. Diante disso, são revelados os nomes de três dos quatro países (Brasil, Rússia e Índia) e é proposto ao deputado, como última alternativa, que este ‘chute’ um país cujo nome inicie com a letra ‘C’. Como a escolha aleatória de um país que atendesse a esse requisito não foi bem-sucedida (a resposta foi “Colômbia”, em vez de “China”), nem como último recurso frente ao desconhecimento sobre o assunto, o político é fortemente atingido com uma barra de ferro, como indício de reprovação, no controle de qualidade. Mais uma vez, esse recurso pictórico surge da posição Nova e segue para a posição Dada, considerando que é uma informação recente, nova, o político ser atingido por uma barra de ferro, mas já se têm como informação antiga o fato de os políticos – grupo do qual é representante – serem constantemente reprovados pelas enquetes. 3.5. EFEITO DE APROVAÇÃO Neste tópico, analisamos os recursos semióticos convencionados como ações que produzem efeito de aprovação. Em oposição às de reprovação, as enquetes analisadas neste tópico são uma ferramenta para julgar de maneira positivamente as atitudes dos políticos. No entanto, a aprovação se dá sutilmente, na maior parte das vezes apenas pelo modo sonoro. Atentemos os exemplos abaixo: Quadro 39 – “Qual país foi indicado pelo Brasil para participar do Mercosul?”(dia 09/11/09) C1 C2 DG: A câmara dos deputados e a comissão de relações DG: adivinha só, hein. Petróleo! C3 DG: Venezuela. 107 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes exteriores do Senado aprovaram a indicação sabe de qual país para entrar no Mercosul? C4 DG: Acredita que tem um monte de deputado colega do senhor, que não sabia o nome do país que o Brasil tá indicando para entrar no Mercosul? Cê acredita nisso? C5 EX: verdade. Tá porque eles são Venezuela. C6 Certo. contra É a DG: ooh! Ligadão... [som: tilintar metálico] A enquete acima gira em torno da informação que a Venezuela foi indicada para participar do Mercosul. Depois de questionar outros políticos, DG provoca o deputado Eudes Xavier, perguntando se o deputado acreditava nesse suposto absurdo de outros deputados não saberem qual teria sido o país indicado. Se o deputado não soubesse essa informação, provavelmente, teria sua cabeça deformada, verticalmente de cima para baixo, e haveria um som de algo sendo engolido dificilmente, ou seja, um recurso com valor de constrangimento, como vimos. Mas, ao contrário, o deputado sabe qual é o país. E, em vez de dizer o nome desse país – o que estava implicado, mas não foi explicitamente feita uma pergunta –, o deputado prefere comentar a observação de incredulidade de DG, dizendo que seus colegas deputados não souberam responder, provavelmente, por serem contra a Venezuela, o que demonstra que Eudes Xavier estava informado sobre esse assunto. Por isso, há um breve tilintar metálico associado a um brilho intenso originário do sorriso do deputado, o que produz uma saliência a esse momento pela variação da intensidade do brilho, conferindo uma espécie de parabenização pela ‘resposta’, além de indicar que o deputado se orgulha de ter “desempenhado seu papel”. Como se vê, mesmo em ações que produzem efeito de aprovação, o tom é de escárnio. Consideramos, por fim, este outro exemplo: 108 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes Quadro 40 – “O significa Anac?” (exibido dia 23/03/09) C2 C3 DG: Olha só! O aeroporto Santos Dumont tá sobrecarregado... ...e o ministério público tá questionando a decisão da Anac de ampliar os voos do Rio de Janeiro... C5 C6 DG: O ministério público tá questionando a decisão da Anac no Rio. O que o senhor acha disso? FD: Que o ministério público tem que cumprir sua função e umas das funções é controlar a administração pública. C7 C8 C9 DG: Pra quem tá em casa e não sabe o que é Anac, explica pra eles. FD: Agência Nacional de Aviação Civil, uma das agências reguladoras, foi criada para regular a prestação de serviços públicos. C1 C4 Mas o que significa Anac? [som1: alarme do detector de metais; som 2: tilintar metálico] DG: Nota 10, seu deputado. [som: vozes de vibração/entusiasmo, como de torcidas de times] 109 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes C10 C11 C12 ...foi aprovado pelo... C13 ...Controle de Qualidade. [som: carimbo batendo na superfície rígida] Inicialmente, como é habitual, é-nos informado sobre qual assunto girará as enquetes. Neste caso, trata-se do questionamento do ministério público acerca de uma decisão da Anac, que prevê a ampliação dos voos no Rio de Janeiro. A partir disso, pretende-se verificar se os políticos sabem o que significa Anac, sigla que também é bastante utilizada com valor lexical, como uma palavra. Em um caso ímpar, entre todas as enquetes exibidas no ano de 2009, há uma confluência de vários recursos semióticos, cujas ações representadas produzem efeito de aprovação, uma vez que, de forma exemplar – para os padrões do CQ –, o deputado federal Flávio Dino não só comenta com propriedade a notícia-base da enquete (C6), como também responde corretamente à pergunta sobre o significado da sigla e faz um comentário sobre o papel dessa agência (C8). Para melhor visualização, topicalizamos a seguir a ocorrência de tais recursos que promovem a ideia de aprovação: a) DG afirma – portanto, usando a língua – que o deputado merece nota dez (C9); b) três pares de mãos (de supostos três integrantes do CQ) aparecem na posição Real – o que reforça a leitura de congratulações concretas pelo bom desempenho do papel do político – da cena, aplaudindo o político (C9); 110 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes c) vozes vibrando pela resposta que se espera de um político bem-informado, o que confere um grau elevado de saliência a esse momento; d) mão, portando um carimbo, que atinge a cabeça do político que, diferentemente do que ocorre com os recursos com efeito de reprovação, não tem seu rosto deformado, mas carimbado com o termo “aprovado” (C10 a C13). Diferentemente da maioria dos recursos que produzem outros efeitos, esse recurso pictórico que representa o efeito de carimbar a testa do político transita da posição Dada para a posição Nova, quanto ao valor informativo, o que promove a ideia de que, neste caso em particular, a informação conhecida pelos telespectadores é que há uma ação com efeito de reprovação, mas é uma novidade o fato de um político “passar” pelo controle de qualidade, de forma ilesa; e e) adjetivação “aprovado”, dentro de uma moldura, em cores brancas em contraste com a pele do deputado, que também confere saliência a esse momento da cena. Como verificamos ao longo das análises, há outros recursos semióticos convencionados, cujas ações promovem o efeito de aprovação, notadamente o som de um breve tilintar metálico, usado em grande escala. No entanto, a maior parte dos recursos semióticos que se tornaram convenção em grande escala faz parte do modo sonoro e, normalmente, são breves e sutis. Esse fato revela que, ao passo que os recursos de outros efeitos – sobretudo os que revelam uma reprovação – fazem uso do recurso pictórico e são mais salientes, os recursos de aprovação são mais restritos aos recursos semióticos do modo sonoro e são menos salientes. Assim, podemos afirmar que as enquetes do CQ lançam mão de estratégias, principalmente a utilização de recursos semióticos convencionados, para construir a ideia de que ser bem-informado para exercer adequadamente o papel de representante do povo é uma obrigação, é um pré-requisito, não é preciso ‘alarde’ quanto a isso. Por outro lado, faltar com esse compromisso é um indicativo de que é preciso estar em alerta, é preciso chamar atenção para esse fato que, repetidamente, constrói a identidade de um político desinformado, despreparado e até mesmo cara-de-pau por não assumir seu desconhecimento acerca de algum assunto. Para finalizarmos este capitulo, apresentamos a seguir o resumo dos recursos semióticos convencionados em grande escala nas enquetes do nosso corpus, com seus respectivos efeitos de sentido, conforme pôde ser verificado no decorrer desta análise: 111 CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes RECURSOS SEMIÓTICOS CONVENCIONADOS EM GRANDE ESCALA NAS ENQUETES PICTÓRICO EFEITO DE SENTIDO SONORO Situações de Uso Som de27 1. 1. Marreta que, encontrando a Recurso cabeça predominantemente, do político, emite, Valoração utilizado, quando o geralmente, um som plástico político responde incorretamente à com uma espécie de apito; pergunta. Quanto mais sólido é o som atribuído ao encontro da marreta com a cabeça, maior é o Braço que atinge a cabeça do político com uma marreta colorida grau de reprovação. 2. Marreta atingindo uma superfície de ferro, de madeira e outros materiais. 27 Por “som de” leia-se “som característico de”/ “som tipicamente associado a”. Reprovação. CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes A cabeça do político é deformada, com variações de tamanho e com a cor rosaavermelhada, assim que é atingida pela marreta. 2. Algo sendo engolido “a seco”, Recurso utilizado com dificuldade. pergunta foi, quando possivelmente, inesperada pelo político. A cabeça é deformada quanto ao tamanho, à semelhança de uma bexiga de ar que se expande e perde o ar rapidamente, e quanto à cor, passando a ficar avermelhada. uma Constrangimento CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes 3. Murro, um soco, quando atinge Recurso utilizado, normalmente, alguém. após uma resposta incorreta, uma Reprovação. agressão verbal ou uma atitude reprovável. O rosto do político é golpeado por um braço e é, em razão disso, deformado na direção do golpe que provoca um sangramento. 4. Mola rompendo-se. Recurso utilizado quando: 1. Dúvida. 1. o entrevistado demonstra não ter entendido/escutado a pergunta; 2. o enunciado do entrevistado é de difícil compreensão ou sem O sinal de interrogação expande-se, tomando grande parte da cena. nexo. 2. Falta compreensão enunciado. de do CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes O sinal de interrogação diminui de tamanho rapidamente. 5. Recurso 1. Ampulheta Windows, girando Ampulheta do Windows gira na político do programa quando (algumas vezes está utilizado quando o político: 1. demonstra 1. Temporização estar tomando a tempo para pensar sobre a imagem não é acompanhada questão ou lembrar da resposta pelo som) correta. programa testa do 2. Erro no carregamento de uma 2. não responde ao final ‘do informação pelo Windows. É processamento’ ou simultâneo à exibição da caixa responde corretamente. não 2. Temporização mal-sucedida CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes de aviso. Caixa de diálogo do programa Windows é exibida sobreposta à testa do político, com a típica inscrição de erro. 6. Recurso Galho crescendo. considera utilizado que o quando político se está contando uma mentira, que passou a ser evidente no desenrolar da enquete. Nariz do político cresce à semelhança do personagem Pinóquio. Reprovação. CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes 7. Algo que ‘escapole’ da boca do Recurso utilizado quando o político Inconsistência político. No caso, abobrinhas que diz alguma ‘besteira’. resposta; ‘quicam’ na base do enquadre. Abobrinhas saem da boca do entrevistado. As abobrinhas quicam na base da cena até saírem dela. imprecisão. na CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes 8. 1. Algo brilhando, refletindo luz. 2.Tilintar metálico. Recurso utilizado quando o Aprovação. político: 1. demonstra ter ficado contente por ter respondido corretamente a pergunta; 2. merece ser parabenizado por ter O sorriso do político reflete uma forte luz que, brevemente, se esvai. respondido corretamente. 9. Recurso utilizado quando o político _ Deboche fornece uma resposta em tom de brincadeira ou com usos de trocadilhos. Nariz-de-palhaço é sobreposto ao nariz do político _ Recurso usado quando o enunciado de um dos participantes atinge, de Reprovação CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes alguma forma, o outro participante. Várias vozes dizendo: “Urrr!” É uma espécie de ‘espanto’ dos que estão “assistindo à enquete”, em analogia aos que assistem a uma luta ou algum jogo e tem essa reação em função de um golpe ou de uma boa jogada, que desestabilize o adversário. Recurso _ Grilo cricrilando. usado quando há um Constrangimento momento prolongado, geralmente de constrangimento, em que o político fica calado. Recurso usado, geralmente, para indicar que o político está demorando a responder. Quanto maior o tempo do tiquetaquear, ou _ Tiquetaquear de um relógio. seja, o tempo para responder à pergunta, maior é o grau de reprovação, nos casos em que o político não responde ou responde incorretamente. Reprovação CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes 1. Freio brusco. _ Recursos 2. Corda de instrumento partindo- utilizados quando, indiscriminadamente, o político é Surpresa, mudança brusca de algo. surpreendido pela pergunta que se. ‘rompe’ o momento de inércia, passividade, ‘enrolação’ do político. Recurso _ Vozes gritando ‘Não!”, com o ‘a’ prolongado. utilizado quando a Reprovação resposta, dada por algum político a tom uma pergunta, é demasiadamente descrédito. com de absurda ou sem propósito. Tal recurso sonoro assemelha-se ao teor semântico de expressões como “Ah, por favor! Essa não cola”, “ah, me poupe”. _ Breve grasnar de um marreco, de Recurso utilizado quando o político Reprovação um pato. fornece uma resposta em tom de tom jocoso. brincadeira estratégia ou fruto boba de de uma evitar a pergunta. Alfinete _ superfície. atingindo alguma Recurso utilizado quando o entrevistador, após uma resposta do Provocação. com CAPÍTULO III – Análise da Composição das Enquetes político, faz uma pergunta em réplica com tom provocativo ou faz algum comentário com esse tom. _ _ Disco de vinil quando é Recurso utilizado quando o político retrocedido pelos DJs nas pick ups repete algum trecho de enunciado. Breve tilintar metálico. Recurso utilizado quando o político Aprovação. responde corretamente à questão. _ _ Vozes dizendo “Ê!”, com Recurso utilizado quando o político prolongamento do fonema. responde corretamente à questão. Aplausos. Recurso utilizado quando o político responde corretamente à questão. Aprovação. Aprovação. CONSIDERAÇÕES FINAIS A o passo que as nossas práticas sociais vão modificando-se, os gêneros textuais também vão sofrendo mudanças, assim como a maneira como nos relacionamos com eles, como os lemos. Por essa razão, faz-se necessário traçar um olhar analítico acerca das mudanças decorrentes desse processo, sobretudo quanto à consideração da importância do layout do gênero, uma vez que é imprescindível a leitura dos gêneros de forma integrada, considerando os aspectos multimodais. Em decorrência do desenvolvimento da tecnologia e dos mais variados meios de acesso/busca de informações, é possível, por exemplo, dispor de mais mecanismos para criticar o status quo, mobilizar pessoas em prol de uma ação, debater ‘virtualmente’ os mais variados assuntos etc. Sobre essa patente mudança em nossas práticas, foi publicada no final de 2010 uma reportagem de capa, no Caderno Aurora do jornal Diario de Pernambuco, intitulada “Militância online mobiliza redes sociais e divide estudiosos: ativismo preguiçoso ou antenado?”, como pode ser observado pelas imagens abaixo: Figura 4: Capa e primeira página-dupla da edição 21/11/2010 no jornal Diario de Pernambuco. Disponível em: <http://www.diariodepernambuco.com.br/revistas/aurora/20101121/edicaoDigital.shtml> Nessa reportagem, é discutida a nova maneira que as pessoas encontraram de se mobilizar politicamente, mais especificamente pelo Twitter – em que informações são disponibilizadas, em um limite de pouco mais de 100 caracteres, (quase) simultaneamente, pelo computador, pelo celular, por outros programas etc. –, em contraposição às militâncias 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS de outros tempos, em que se saia às ruas para “lutar por direitos”. Um exemplo dessa prática é a aprovação, em maio de 2010, do Projeto Ficha Limpa, como também lembra a reportagem: “A conquista veio após orquestração da ONG Avaaz e de mobilização tuiteira do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), que terminou com as caixas de e-mail dos deputados abarrotadas com 40 mil mensagens, 10 mil seguidores no Twitter e nada menos que 100 mil assinaturas num abaixo-assinado virtual.” Essa reconfiguração do cenário de nossas práticas sociais, ilustrada acima, manifestase nos variados gêneros, sendo o gênero enquete, especificamente, bem representativo dessa mudança. As enquetes são amplamente utilizadas em sites e blogs de natureza diversa, com intuito de não só sondar a opinião pública a respeito de determinado tema, mas, sobretudo, revelar questões importantes sobre temas de grande abrangência e relevância, além de orientar a atenção das pessoas para o assunto abordado. Atentando para esse fato, focamos nossa atenção nas enquetes do “Controle de Qualidade”, já que, dentre outras razões, estas giram em torno de uma pergunta-mãe ou pergunta-geral: “Os políticos são bem informados?”, fruto de um estereótipo, construído pelo próprio quadro por meio de estratégias diversas, como vimos, segundo o qual os políticos não são bem-informados. Levando isso em consideração, debruçamo-nos à análise desse gênero, procurando investigar como os recursos semióticos – cujas variedade e produtividade são ímpares e nos chamaram a atenção – operam na construção de uma identidade dos políticos, uma vez que esses recursos são convencionados ao longo das enquetes, atuando no intuito de reprovar, constranger, aprovar etc. Para cumprir esse objetivo, nosso trabalho desenvolveu-se em três momentos. No primeiro – no capítulo Do que falamos quando falamos em gêneros? –, construímos a noção de gêneros, tomando como base os Estudos Retóricos do Gênero e guiando-nos, principalmente, pelos trabalhos de Bazerman (2008 e 2009) e Miller (2009). Em seguida, dedicamos nossa atenção ao gênero enquete, objeto de nosso estudo, caracterizando-o formal e funcionalmente e indicando suas particularidades, tendo em vista nosso corpus. Pela importância desta noção para a leitura dos gêneros, também revisitamos o conceito de intertextualidade, pela perspectiva de vários autores, como Koch (1991; 2006) e AuthierRevuz (1982); transpomos a noção de intertextualidade para as imagens, chamando-a de intericonicidade, conforme propõe Arbex (2000); e, por fim, tendo em vista um estudo de Mozdzenski (2009), apropriamo-nos da noção de continnum, no tratamento da 123 CONSIDERAÇÕES FINAIS intertextualidade, no que diz respeito à forma que o intertexto assume no novo contexto e à função que ele passa a desempenhar. Em um segundo momento – no capítulo Multimodalidade: o cenário teórico –, tratamos do traço constitutivo de qualquer texto: a multimodalidade. Direcionamos nossa atenção aos pressupostos teóricos quanto a esse tema, procurando definir os principais conceitos relacionados a ele, como recursos semióticos, modo, potencial de sentido e metafunção. Também discorremos sobre a Gramática de Design Visual, de Kress e van Leeuwen (2006), apresentando as três funções que a sustentam, bem como sua correlação com as metafunções de Halliday. Além disso, abordamos a Função Composicional, terceira da Gramática de Design Visual, uma vez que ela agrupa coerentemente as duas outras funções, compondo um todo harmônico, por meio de três aspectos: valor informativo, saliência e estruturação. Esse recorte é apropriado ao nosso objetivo, levando em conta que os outros elementos das outras duas funções se articulam por meio da terceira. Vimos também que há zonas que apresentam valores diferentes quanto à informação; que há graus de saliência, o que permite que alguns elementos chamem mais a nossa atenção do que outros, por uma dada razão; e que há estruturas que agrupam elementos em uma cena. Também lembramos, neste tópico, que essas estruturas são dinâmicas em se tratando de imagens em movimento, como é o caso das enquetes analisadas. Por fim, seguindo os estudos de Kostelnick e Hasset (2003), tratamos das convenções retóricas, que são inerentemente retóricas e sociais, por permearem os mais diversos textos e guiarem nossas leituras. Vimos que essas convenções são tão arraigadas em nossa cultura e ‘inundam’ os textos que, muitas vezes, nem as reconhecemos como tal. Assim, relacionamos essa noção de convenção aos recursos semióticos das enquetes, já que muitos deles são convencionados em grande escala, determinando por que trilhas de leituras o telespectador-leitor deve seguir. No terceiro momento de nosso estudo – no capítulo Análise da Composição das Enquetes –, analisamos uma série de enquetes, categorizadas conforme as ações representadas pelos recursos semióticos mais recorrentes, ou seja, aqueles que passaram a ser convencionados em grande escala. A partir da análise e também levando em conta as demais enquetes analisadas nos demais capítulos, chegamos à conclusão que, em ações com efeito de reprovação, de constrangimento e outras com tom negativo, há um intenso uso de recursos semióticos visuais em congruência com os sonoros. Na maior parte dos casos, o político é “atingido” por objetos variados, indicando que ele foi reprovado pelo Controle de Qualidade e que, por consequência, não desempenha um bom papel. Esse recurso visual, juntamente com o sonoro – considerando que há sempre associação a um som, que varia quanto ao grau de 124 CONSIDERAÇÕES FINAIS reprovação, como vimos –, enfatiza fortemente a figura do político que é “ferido” pelo objeto, já que sempre há deformação de sua face e representação de sangue que sai de seu rosto. Em contrapartida, os recursos que produzem o efeito de aprovação são mais sutis e, normalmente, são recursos sonoros, conferindo menor grau de saliência em relação aos recursos com efeito negativo. Uma leitura autorizada que se pode apreender dessa construção, conduzida pelas escolhas discursivas das enquetes – quais manchetes são exibidas, quais questionamentos são feitos, quais depoimentos são exibidos, quais recursos semióticos são utilizados (essa, em especial, foco de nosso estudo) etc. – é que o político deve ser bem-informado, deve saber responder àquelas perguntas e, então, não precisa ser veementemente parabenizado, só cumpre seu papel. Além disso, como é forte o caráter humorístico do quadro, pode-se afirmar que não há graça em exibir políticos que respondem corretamente às perguntas; ao contrário, provoca humor exibir políticos desinformados e que são, por isso, ridicularizados publicamente. Nas enquetes, portanto, há a construção de uma identidade política: os políticos são desinformados, revelando que, mesmo em uma sociedade pautada pela facilidade de acesso à informação, há representantes do povo – de que se exige estar sempre bem-informado –, que não sabem, muitas vezes, nem o que se passa no Congresso, onde trabalham. Então, à pergunta-geral que embasa as enquetes, há uma resposta: “Não, os políticos não são beminformados”. No entanto, essa identidade construída ao longo das enquetes não é fixa e perpétua. Revela uma construção neste contexto, neste momento histórico, acerca de um aspecto – ter ou não uma informação, saber ou não de um fato, de um dado etc., nos termos do CQ, a partir das estratégias que utiliza para tal. Entretanto, essa identidade pode assumir outros aspectos, como “político é cara-de-pau” (já que alguns não ‘assumem’ que não sabem a resposta à pergunta, em muitos casos), o que está de acordo com o que aponta Hall (2005:21), segundo o qual a identidade “muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida”. Ao escolher determinados conteúdos, associados à confluência de diversos recursos semióticos, dos diferentes modos, as enquetes promovem a construção de variados efeitos de sentido “para influenciar o outro, isto é, no fim das contas” é realizada uma “escolha de estratégias discursivas”. (Charaudeau, 2006:39). Como foi possível verificar, portanto, as enquetes são utilizadas para legitimar o próprio discurso do CQ acerca da desinformação dos políticos, a partir da exibição de políticos que não respondem corretamente às perguntas que são propostas – com status de relevantes para o exercício do papel de representante do povo – em conjunto com recursos semióticos convencionados que produzem, principalmente, efeitos 125 CONSIDERAÇÕES FINAIS de reprovação e constrangimento. Assim, mostramos que há um posicionamento ideológico nas enquetes, construído por estratégias que se manifestam não só no que diz respeito às escolhas linguísticas, mas, sobretudo, quanto aos recursos semióticos de outros modos, sendo de extrema importância um olhar atento dos aspectos multimodais envolvidos na leitura dos gêneros, o que assinala para um melhor desenvolvimento de trabalhos a esse respeito. Para concluir, primeiramente, ressaltamos que esta investigação demonstrou que é possível enveredar pela análise de gêneros dinâmicos de forma produtiva, levando em conta os aspectos multimodais que os constituem, mesmo diante dos desafios que a acompanham, como capturar imagens originalmente em movimentos e descrever recursos sonoros. O potencial de sentido das imagens, a retórica visual, as convenções que permeiam o design, por exemplo, já são objeto de estudo na área do Design. Da mesma forma, o papel da música, do ritmo, dos sons em um filme, por exemplo, é pauta das discussões das produções audiovisuais. No entanto, com este estudo, procuramos sinalizar para a importância de se considerar aspectos de outras áreas de conhecimento que contribuam para os estudos linguísticos. É possível, como demonstramos, enriquecer os estudos na área da Linguística, quando passamos a considerar os demais modos de representação como partícipes da construção dos gêneros diversos – não como âncoras para o texto verbal –, uma vez que todos os modos de representação comunicam e apresentam determinados potenciais de sentido para tal. Por fim, gostaríamos de ressaltar que este trabalho não tem a pretensão de esgotar o tema. Ainda há muito a ser investigado sobre as relações entre a língua e os outros modos de representação. Além disso, compartilhamos com os leitores o desejo de que este estudo contribua satisfatoriamente para os estudos linguísticos e que, consequentemente, instigue novos trabalhos nessa área. 126 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, D. B. L. (2008). (Org.). Perspectivas em Análise Visual: do fotojornalismo ao blog. João Pessoa: Editora Universitária - UFPB. ARBEX, M. (2000) Intertextualidade e Intericonicidade. Disponível em: <www.letras.ufmg.br/site/publicacoes/LIVROCOLOQSEM7.doc>. Acesso em 05 jan.2010. AUTHIER-REVUZ, Jaqueline. (1982). Heterogeneidade mostrada e heterogeneidade constitutiva: elementos para uma abordagem do outro no discurso In: Entre a transparência e a opacidade: um estudo enunciativo do sentido. Porto Alegre: EDIPUCRS. BAKHTIN, M. (1997). Estética da criação verbal. 2ª ed. São Paulo, Martins Fontes. BAKHTIN, M.; VOLOSHINOV, V. (2004). Marxismo e Filosofia da Linguagem. 11º ed. HUCITEC. São Paulo. BAZERMAN, C. (2006). Intertextualidade: como os textos se apoiam em outros textos. In: BAZERMAN, C.; Gênero, agência e escrita. São Paulo: Cortez. p. 87-103. _____. (2007). Intertextualidades: Volosinov, Bakhtin, Teoria Literária e Estudos de Letramento. In: BAZERMAN, C.; Escrita, gênero e interação social. São Paulo: Cortez. p. 92-109. _____. (2009). Atos de fala, gêneros textuais e sistemas de atividades: como os textos organizam atividades e pessoas. 3ª ed. In: BAZERMAN, C.; Gêneros Textuais, Tipificação e Interação. São Paulo, Cortez. p. 19-46. BARTON, D; HAMILTON, M. (1998). Understanding Literacy as social practice. In: _____. Local Literacies: Reading and Writing in One Comunities. New York: London: Routledge. p. 3-23. 127 BATEMAN, John A. (2008a). Introduction: Four Whys and a How. In: Multimodality and Genre: a foundation for the systematic analysis of multimodal documents. Palgrave Macmillan: New York. p. 1-19. _____. (2008b). Multimodal Documents and their Components. In: Multimodality and Genre: a foundation for the systematic analysis of multimodal documents. Palgrave Macmillan: New York. p. 21-106. BHATIA, V. K. (2009). A análise de Gêneros Hoje. In: BEZERRA, B. G.; BIASIRODRIGUES, B.; CAVALCANTE, M. M.. (Orgs.). Gêneros e Sequências Textuais. Recife: EDUPE. BERNHARDT. S. A. (2004). Seeing the Text. In: HANDA, C. (ed.). Visual rhetoric in a digital world: a critical sourcebook. Bedford/St. Martin’s, Boston/New York. p.94-106. BOURDIEU, P. (1981). A Opinião Pública Não Existe. In: THIOLLENT, Michel. Crítica Metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis. p.137 151. Disponível em <http://www.scribd.com/doc/21979592/Bourdieu-A-opiniao-publica-nao- existe>. Acesso em 02 jan. 2010. CHARAUDEAU, P. (2006). Discursos das Mídias. São Paulo: Contexto. CHIEW, A. K. K. (2004). Multisemiotic Mediation in Hypertext. In: O’HALLORAN, K.L. (org.). Multimodal Discourse Analysis. New York: Continuum. DIONISIO, A. P. (2005). Multimodalidade discursiva na atividade oral e escrita. In: MARCUSCHI, L. A.; DIONISIO, A. P. (orgs.). Fala e escrita. Belo Horizonte: Autêntica, p. 177-196. DIONISIO, A. P. (2006) Diversidades de ações sociais e de representações: diversidade de gêneros e em gêneros. Disponível em: <http://www.universidadedombosco.com.br/colegio/pdf/IICONGRESSO.pdf#page=11>. Acesso em 20 jun. 2009. 128 DIONISIO, A. (2008). Gêneros Multimodais e Multiletramento. In. KARWOSKI, A.M.; Gaydeczka, B.; BRITO, K. S.. (orgs.). Gêneros Textuais: reflexões e ensino. 3ª ed.União da Vitória: Kaygangue.. p. 119-132. FAIRCLOUGH, N. (2001). Discurso e mudança social. Brasília: Universidade de Brasília. FIORIN, J. L. (2006). Interdiscursividade e intertextualidade. In: BRAIT, B (org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, p. 161-193. FURTADO DA CUNHA, M. A.; SOUZA, M. M. (2007). Transitividade e seus contextos de uso. Rio de Janeiro: Lucerna, p. 17-25. HALL, S. (2005). A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A HEBERLE, Viviane M. Revistas para mulheres no século 21: ainda uma prática discursiva de consolidação ou de renovação de idéias? In: CALDAS-COULTHARD, C. R., FIGUEIREDO, D. C. (Orgs). Linguagem em Discurso. Vol. 4, n. especial, p. 85-112, 2004. JEWITT, C. (2009). An Introduction to Multimodality. In: The Routledge Handbook of Multimodal Analysis. New York, Routledge Press. p. 14-27. JEWITT, C.; OYAMA, R. (2001). Visual Meaning: a social semiotic approach. In: VAN LEEUWEN, T.; JEWITT, C. Handbook of Visual Analysis. London, Thousand Oaks, New Delhi: Sage Publications. p. 134-156. KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. (2006). Ler e Compreender - os sentidos do texto. São Paulo: Contexto. KOSTELNICK, C.; HASSET, M. (2003a). Visual Language, Discourse Communities and The Inherently Social Nature of Conventions. In: KOSTELNICK, C. Shaping Information: the rethoric of visual conventions. Carbondale: Southen Illinois University Press. p.10-42 129 _____. (2003b). What’s conventional, what’s not. In: KOSTELNICK, C. Shaping Information: the rethoric of visual conventions. Carbondale: Southen Illinois University Press. p.43-80. KRESS, G. (2003). Literacy in the New Media Age. London, Routledge. _____. (2004). Multimodality, Multimedia and Genre. In: HANDA, Carolyn. Visual rethoric in a digital world: a critical sourcebook. Bedford/St. Martin’s, Boston/New York. p.38-54. _____. (2009). What is Mode?. In: JEWITT, C. (ed). The Routledge Handbook of Multimodal Analysis. London and New York: Routledge Press. pp. 54-67. KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. (2001). Multimodal Discourse: the modes and media of contemporary communication. New York, Oxford University Press. _____. (2006). Reading images: the grammar of visual design. 2ª ed. London: Routledge. KRESS, G.; JEWITT, C.; OGBORN, J. e TSATSARELIS, C. (2001). Multimodal teaching and learning: the rhetorics of the science classroom. London: Continuum. LÉVY, P. (1996). A Virtualização da Economia. In: _____. O que é virtual? São Paulo, Editora 34, p. 51-70. MACHIN, D. (2007). Introduction to Multimodal Analysis. London: Hodder Arnold. MARCUSCHI, L. A. (2005). Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (orgs.). Gêneros textuais e ensino. 4ª ed. Rio de Janeiro, Lucerna. p. 19-37. _____. (2007). Cognição, explicitude e autonomia no uso da língua. In: _____. Cognição, linguagem e práticas interacionais. Rio de Janeiro: Lucerna. _____. (2008a). Produção textual, análise de gêneros e compreensão. 2ª Ed. São Paulo: Parábola. 130 _____. (2008b). Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. 3ª ed. In: KARWOSKI, A. M.; GAYDECZKA, B.; BRITO, K. S. (orgs.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. Palmas e União da Vitória (PR), Kaygangue. p. 15-29. MAYER, R. E. (2008). Multimedia Literacy. In: JULIE COIRO… [et al]. Handbook of Research on New Literacies. New York: Routledge. p. 359-376. MENDONÇA, M. (2010). Ciência em Quadrinhos: imagem e texto em cartilhas educativas. Recife: Bagaço. MILLER, C. R. (2009). Gênero como Ação Social. In: MILLER, C.R. Estudos sobre gênero textual, agência e tecnologia. Recife: Editora Universitária da Universidade Federal de Pernambuco. p. 19-45. _____. (2010). Rethoric, Tecnology, and Pushmi-Pullyu. In: SELBER, S. (ed). (2010). Rhetorics and technologies: new directions in writing and communication. South Carolina, the University of South Carolina Press. MOITA LOPES, L. P. da. (2003). Socioconstrucionismo: discurso e identidades sociais. In: MOITA LOPES, L. P. da (org). Discursos de Identidade. São Paulo: MercadodeLetras MOIRAND, S. (2003). Les lieux d’inscription d’une mémoire interdiscursive, dans Härmä J. : Le langage des médias:des discours éphémères?, Paris, l’Harmattan, p. 83-111. MOZDZENSKI, L (2009). A intertextualidade no videoclipe: Uma abordagem discursiva e imagético-cognitiva, Contemporânea - Revista de Comunicação e Cultura, Bahia, v.7, n.2, p.1-33. _____. (2008). Multimodalidade e gênero textual: analisando criticamente as cartilhas jurídicas. Recife: Ed. Universitária. MOZDZENSKI, L. VAZ, A.; SILVA, M. da C. H. (2008). Da obra-prima ao pastiche: multimodalidade e intericonicidade nos ‘Quadrões’ de Maurício de Sousa. In: SIMPÓSIO 131 DE HIPERTEXTO E TECNOLOGIA DA EDUCAÇÃO. Recife, UFPE. Disponível em: <http://www.ufpe.br/nehte/ simposio2008/anais/Leonardo-Mozdzenski-e-Ana- Vaz.pdf>. Acesso 29 dez. 2010 PEREIRA, M. E. (2002). Psicologia social dos Estereótipos. São Paulo: E.P.U. PONTES, H. (2007). Discurso, corrupção política e construção de identidades sociais. In: II Simpósio Internacional de Análise Crítica do Discurso & VIII Encontro Nacional de Interação Verbal e Não-Verbal, 2008, São Paulo. Programação e Resumos, 2007. p. 1-11. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/dlcv/enil/pdf/21_Herimateia_P.pdf>. Acesso em 03 jan. 2011. POSSENTI, S. (1998). Os Humores da Língua. São Paulo: Mercado de Letras. SCHIAVONI, J. E. (2008). Vinheta: Uma questão de identidade na televisão. 130f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista, Bauru. Disponível em <http://www.faac.unesp.br/posgraduacao/Pos_Comunicacao/pdfs/jaqueline_schiavoni.pdf>. Acesso em: 24 dez. 2010. STÖCKL, H. (2004). In Between Modes: language and image in printed media. In: CHARLES, C.; KALTENBACHER, M.; VENTOLA, E (Orgs.). Perspectives on Multimodality. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamin. p. 09-30. UNSWORTH, L. (2001). Describing visual literacies. In: Teaching multiliteracies across the curriculum: changing contexts of text and image in classroom practice. Buckingham: Open University Press, p.71-112. VAN LEEUWEN, T. (2005). Introducing Social Semiotics. London: Routledge. 132 REFERÊNCIA DOS VÍDEOS DATA Exibição na TV ENDEREÇO ELETRÔNICO Registro no site da Band 09/03 http://videos.band.com.br/v_13762_danilo_gentili_testa_os_c onhecimentos_gerais_dos_politicos.htm 23/03 24/03 http://videos.band.com.br/v_15215_danilo_gentilli_testa_os_c onhecimentos_dos_politicos.htm 06/04 07/04 http://videos.band.com.br/v_17429_danilo_gentili_testa_o_ni vel_de_conhecimento_dos_politicos.htm 18/05 19/05 http://videos.band.com.br/v_22323_controle_de_qualidade_o _retorno.htm "15/06" 29/06 http://videos.band.com.br/v_25361_mundo_empresa_comec a_a_fabricar_vacina_contra_h1n1.htm 30/06 20/07 http://videos.band.com.br/v_27032_controle_de_qualidadese ra_que_os_politicos_sabem_o_que_e_o_bric.htm http://www.youtube.com/watch?v=a6Mfqg853M&feature=related (Obs.: link do Youtube. O vídeo não está mais disponível no site do programa) 27/07 28/07 http://videos.band.com.br/v_29849_cqc_testa_os_conhecimen tos_dos_politicos_no_controle_de_qualidade.htm 17/08 17/08 http://videos.band.com.br/v_32110_controle_de_qualidade_c qc_testa_os_conhecimentos_parlamentares.htm 09/11 10/11 http://videos.band.com.br/v_40696_controle_de_qualidade_d anilo_gentili_faz_sabatina_nos_politicos.htm 31/11 01/12 http://videos.band.com.br/v_42716_controle_de_qualidade_d eputados_sabem_sobre_amazonia_geysi_ou_chavez.htm 07/12 11/12 http://videos.band.com.br/v_43758_controle_de_qualidade_p ernas_de_pau_de_brasilia.htm 133